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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os “hackers” não devem divulgar as falhas de segurança que descubram


29/11/2012, *Andrew (‘weev’) Auernheimer, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


*Andrew (‘weev’) Auernheimer é rato de internet, condenado duas vezes por crimes consecutivos de hacking de computadores; tem nos costados mais de uma década de trabalho com C, asm, Perl e de furiosa militância no IRC  [2]. É militante ativo na luta pela liberdade e, em breve, será prisioneiro numa prisão federal dos EUA.


NOTA DO EDITOR: O autor dessa coluna, também conhecido como “weev”, foi condenado, semana passada por invasão de computadores, depois de capturar, da página internet da empresa AT&T, uma lista não protegida de endereços de e-mails de mais de 100 mil proprietários de iPad, e entregá-la a um jornalista. A sentença definitiva deverá ser pronunciada dia 23/2/2013.

Nesse exato momento há um hacker por aí, em algum lugar, produzindo uma exploração zero-day  [3]. Quando terminar, sua exploração permitirá que qualquer pessoa que conheça o caminho tenha acesso a milhares – eventualmente, a milhões – de sistemas de computadores.

Mas o momento crítico não é a produção; é a distribuição. O que o hacker fará com o que obtiver em sua exploração? Eis o que pode acontecer depois de a falha/brecha no programa ter sido descoberta:

O hacker decide vender a terceiros o que encontrou. O hacker pode vender sua exploração a agentes inescrupulosos que vivem de comprar e vender informações de segurança, oferecendo o produto como “a proteção”. Ou o hacker pode vender o que encontrou a governos repressores, que podem usar a descoberta para espionar ativistas que protestam contra o mesmo (ou outros) governos opressores. (Há casos conhecidos de governo, entre os quais o governo dos EUA, que usam saberes obtidos de hackers para invadir qualquer coisa, inclusive outros serviços de inteligência doméstica e de países estrangeiros).

O hacker avisa o proprietário do sistema falhado, o qual pode – ou não – “remendar” [to patch] a falha. O proprietário/vendedor do sistema falhado pode “remendar” o programa vendido a clientes preferenciais (tradução: os que pagam mais caro), antes de remendar o programa vendido a clientes “comuns”. Ou o proprietário/vendedor pode decidir não distribuir o remendo, porque a análise custo-benefício feita por um de seus MBAs-empregados “mostra” que é mais barato não fazer, simplesmente... coisa alguma.

O proprietário/vendedor distribui o “remendo”, mas os clientes demoram a baixá-lo e instalá-lo. Não é raro que grandes usuários procedam, eles mesmos, às suas próprias testagens – e muitas vezes encontram falhas em programas, antes do proprietário/vendedor do programa; nesses casos, acontece frequentemente de o usuário produzir e distribuir “em casa”, para ele mesmo, remendos melhores. Tudo isso significa que os “remendos” distribuídos pelo proprietário/vendedor podem permanecer durante meses (às vezes, anos), sem serem usados pela grande maioria dos clientes/compradores/usuários.

O proprietário/vendedor cria um executável blindado com métodos anti-investigação e peritagem policial, para impedir a engenharia reversa. É o modo certo para aplicar remendos. Também é procedimento caríssimo, intensivo em mão de obra – o que implica dizer que só muito raramente é usado. Assim sendo, descobrir vulnerabilidades é tão simples quanto desarrolhar o executável velho e meter ali o novo executável, num IDA Pro debugger com BinDiff, para comparar e ver o que mudou num código disassembled. Já disse: é fácil.

Basicamente, explorar as vastas massas não remendadas é jogo fácil para qualquer explorador. Todos têm, cada um, seus próprios interesses a proteger. E os interesses de cada proprietário nem sempre coincidem com os interesses dos usuários.

As coisas não são tão preto ou branco

Proprietários/vendedores são motivados a proteger os próprios lucros e os interesses dos acionistas, acima de qualquer outro interesse. Os governos são motivados a valorizar acima de tudo os interesses da própria segurança, muito mais que os interesses e direitos individuais dos próprios cidadãos, e muito mais, ainda, que os interesses e direitos de outras nações.

E, para muitos atores do campo da segurança da informação, é muito mais lucrativo vender novos tratamentos, que nunca param de surgir, para tratar sintomas de doenças, do que vender a cura definitiva.

Muito claramente, nem todos os atores agirão eticamente ou competentemente. Além e acima de tudo, o hacker original raramente é pago por seu trabalho altamente qualificado, que exige alta e raríssima disciplina científica, e que visa a melhorar o programa do vendedor/proprietário e, em última análise, a proteger os usuários.

A quem contar o que só você sabe? Resposta: a ninguém; a absolutamente ninguém.

White Hat Hackers
Os cartolas brancas [4] são os hackers que decidem revelar o que descobrem: ao proprietário/vendedor ou ao grande público. Esses chamados “cartolas brancas” do mundo têm seu papel, distribuindo, com suas descobertas, também novas armas digitais.

O pesquisador Dan Guido fez a engenharia reversa de todas as ferramentas (“vírus”) usadas atualmente para exploração em massa (como Zeus, SpyEye, Clampi e outras). Suas descobertas sobre a fonte das explorações/ataques, divulgadas pelo Exploit Intelligence Project [5], são bem claras:

Os chamados cartolas brancas do mundo vêm desempenhando um papel na distribuição de armas digitais.

- Nenhuma das explorações usadas para exploração em massa foi desenvolvida por autores de programas-vírus [mal-intencionados].

– Diferente disso, todas as explorações vieram de “Advanced Persistent Threats” [Ameaças Persistentes Avançadas] (termo que a indústria usa para designar estados-nação) ou de descobertas feitas por cartolas brancas.

– Descobertas feitas por cartolas brancas correspondem a 100% das falhas lógicas usadas para ataques.

Os criminosos, segundo Guido, realmente “preferem o código dos cartolas brancas”, porque funciona de modo muito mais confiável que códigos distribuídos por fontes do submundo. A maioria dos autores de vírus não têm, de fato, a sofisticação necessária para alterar explorações já operantes e aumentar-lhes a efetividade.

Navegar pelo cinza

Alguns hackers de visão ampla da rede de computadores EFnet [6], rede de membros anônimos, anteviram com clareza, há 14 anos, o atoleiro de conflitos morais em que se converteria a questão da segurança de dados. Sem qualquer interesse em acumular riqueza pessoal, eles deram o primeiro passo do movimento de defesa da ética no campo dos computadores conhecido como Anti Security [literalmente, “antissegurança”] [7], ou “antisec”.

Os hackers do movimento Antisec focaram-se no movimento de investigação/exploração como atividade de disciplina intelectual, quase espiritual. Os Antisec não eram – não são – “grupo”; são, mais, uma filosofia com uma única posição nuclear:

Uma exploração é arma poderosa, que só deve ser exposta a pessoa que você tenha certeza (por conhecimento resultante de experiência-contato pessoal) que sempre agirá no interesse da justiça social. [8]

Afinal de contas, entregar o resultado de uma exploração a entidades sem essa ética fará de você parte dos crimes que venham a ser cometidos. É exatamente como entregar um rifle a quem você saiba que matará alguém.

Entregar o resultado de uma exploração a entidades sem ética fará de você parte dos crimes que a entidade cometa

Lulz Sec
Apesar de o movimento já ter mais de uma década de existência, a expressão “antisec” voltou recentemente aos noticiários. Mas, agora, creio que atos criminosos sancionados pelo Estado, estão sendo apresentado como se fossem atos de antisec. Por exemplo: Sabu, do movimento Lulzsec, foi preso pela primeira vez dia 7/6/2011; seus atos foram rotulados como “antisec” no dia 20 do mesmo mês. Significa que tudo que Sabu tenha feito sob esse rótulo foi feito com pleno conhecimento e, provavelmente, com a cumplicidade, do FBI. (O que inclui a divulgação pública de tabela de dados de autenticação que comprometeram a identidade de, possivelmente, milhões de indivíduos, pessoais e privados).  

Essa versão de antisec nada tem a ver com os princípios sobre os quais se baseia o movimento antisec do qual estou falando.

Mas o pessoal envolvido em atividade criminosa – os hackers que tomaram a decisão moralmente falhada de vender suas explorações a governos – já começa a defender publicamente os seus pecados indefensáveis.

Nesse ponto, precisamente, é onde o movimento antisec oferece contexto e quadro cultural útil, além de uma filosofia-guia, para que se pense sobre as áreas cinzentas da atividade de hacking. Por exemplo, a função-chave, nuclear, do movimento antisec, define como absolutamente inadequado, para jovens hackers, cultivar qualquer tipo de relacionamento com o complexo militar-industrial.

Bem claramente, a exploração de programas de computação pode implicar abuso de direitos humanos e violações de privacidade. E bem claramente também, nós temos de fazer alguma coisa quanto a isso.

Mas não acredito em leis de controle sobre o desenvolvimento e a venda dessas explorações. Os que vendam explorações não devem ser impedidos de vendê-las – mas, se venderem, têm de ser declarados gente-do-mal.

Em tempos de ciberespionagem rampante e invasão dos computadores de dissidentes políticos, o único destino ético que você deve dar aos resultados de suas explorações de zero-day é revelá-los a alguém que os usará no interesse da justiça social. Nunca será o proprietário/vendedor, nunca será algum governo, nem nunca será alguma empresa comercial: sempre será uma pessoa, um indivíduo.

Em raros casos, esse indivíduo talvez seja um jornalista que poderá amplificar o desmascaramento e a vergonha pública de algum operador de aplicativo para a rede. Mas, em muitos casos, o dano de expor as multidões de usuários que usam programas não remendados (e de desperdiçar o potencial da exploração, que deixa de ser usada contra governos opressores) ultrapassa, em muito, qualquer benefício que se obtenha por denunciar o erro ou o crime de uma empresa proprietária/vendedora. Nesses casos, a filosofia de antisec brilha como moralmente superior; e você não deve revelar a ninguém os resultados de sua exploração.

Assim, portanto, é hora de o movimento antisec voltar ao diálogo público sobre a ética de expor explorações. É o único modo que há para armarmos o pessoal do bem – sejam lá quem forem – pelo menos dessa vez, para variar.



Notas dos tradutores

[1]  O verbo to hack significa, originalmente, o movimento que se faz com um facão ou foice, para abrir uma picada em mato fechado. Metaforicamente, passou a designar a ação de abrir acesso a programas e computadores, para ver, copiar ou introduzir dados. Opõe-se ao verbo to crack, em que o processo de entrar em programas (mal) protegidos é feito com intenção criminosa.
[2]  Internet Relay Chat (IRC) é um protocolo de comunicação utilizado na Internet. É usado basicamente para bate-papo (chat) e troca de arquivos, permitindo a conversa em grupo ou privada. Foi documentado formalmente pela primeira vez em 1993.
[3]  Zero Day Exploit – [lit. exploração de dia-zero] Exploração cibernética feita através de uma vulnerabilidade em programa, da qual o desenvolvedor do programa não se tenha apercebido e que é descoberta pelo hacker. A expressão é usada no sentido de que o desenvolvedor do programa terá zero dias para trabalhar num patch [remendo, conserto], antes de um possível ataque (Urban Dictionary).
[4] Orig. Whitehat. Sobre os “cartola-branca”; Urban Dictionary (em inglês)

[5]The Exploit Intelligence Project v2 (vídeo em inglês)

[6] Ver em Eris Free Network – EFnet. (em inglês)
[7] Ver na Wikipédia: Antisec Movement(em inglês)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Em livro épico-falhado sobre os Anonymous, o abismo ri de nós


13/6/2012, Quinn Norton, Wired, Threat Level blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre: OLSON, Parmy. We Are Anonymous. Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, New York: Little, Brown & Company, 2012, 498 pp. $26.99

Quinn Norton
Não é fácil escrever sobre os Anonymous.

É uma não-organização de “gozadores-que-viraram-ativistas-que-viraram-hackers-que-se-complicaram-feio-com-a-Polícia-no-drama-da-lei-tem-de-ser-respeitada[1] — história difícil de compreender-capturar e difícil de narrar.

Trabalhar sobre grupo clandestino caçado pela Polícia obriga a fazer escolhas não óbvias. Um dos hackers sem nome, mas citado longamente no livro We Are Anonymous  [2] de Parmy Olson, jornalista chefe da sucursal de Londres da revista Forbes, disse-me uma vez que os anons “são dissimulados por natureza” – e são. (Como sei que é a mesma pessoa? Reconheci o modo de se expressar. Depois, perguntei).

Os anons mentem, quando não há qualquer razão para mentir. Tecem longas narrações fictícias, que são uma espécie de performance artística. Depois, nas horas mais inesperadas e menos recomendáveis, dizem a mais pura verdade, destruindo-se, eles mesmos, no processo. São imprevisíveis. O furor niilista com que Olson descreve o modo de vida dos anons mais jovens atira para todos os lados, inclusive para dentro de casa, e os tiros muitas vezes espirram sobre jornalistas como Olson e eu, por motivos que nada têm de óbvios.

É impossível “seguir o dinheiro” no não-grupo dos Anonymous, ou analisar as estruturas do poder, ou buscar uma linha geral de pensamento constitutivo, num coletivo que jamais, praticamente, os tem. Mesmo assim, é preciso escolher alguns itens nos quais se creia, um por quê, um como se enquadram num quadro maior. Usam-se o contexto, as circunstâncias, os instintos mais viscerais e muito do que os hackers chamam de “engenharia social”, para extrair as evidências necessárias para escrever jornalisticamente sobre o coletivo, para cumprir nosso papel nessa história.

Que ninguém se engane: os jornalistas temos um papel nessa história. Você não pode simplesmente não se envolver. É impossível não ser parte da coisa, se a coisa usa a imprensa e todos os veículos para falar e pensar sobre ela mesma.


Por tudo isso, o que torna tão frustrante o livro We Are Anonymous  [3] de Parmy Olson é que ali a narrativa segue em frente, como se nenhuma dessas questões existisse.

Mas Olson e eu, como a professora Biella Coleman; como a ex-correspondente da rede CNN, Amber Lyon; como Brian Knappenberger, cineasta documentarista; e até como Adrian Chen, da revista Gawker, nunca conseguimos nos impedir de dar uma cara à coisa, enquanto a coisa vai-nos dando, também a nós mesmos, uma cara. Somos o veículo que o coletivo usa para se autodefinir, e sempre acabamos por guardar para nós alguma partícula (ou muito) daquilo que o coletivo se vai tornando. É sempre assim, sejam quais sejam as regras que definamos para impedir que aconteça. Somos órgão da Cabeça-de-Enxame. Somos a paisagem-de-Schrödinger da mídia, e nossas observações afetam fatalmente o resultado observado.

Por isso precisamente é vitalmente importante expor as regras pelas quais trabalhamos e nossos métodos. Que nomes dar aos que tenham nome e, mais importante, que nomes manter secretos? Para não ter de lidar com essa questão ética tão absolutamente complicada, tomei a decisão de não identificar ninguém; nomes, só dos que, como dizem os Anons, já sejam “nomefodidos” (ing. namefagged  [4] e vídeo). Olson escreve centenas de páginas sem sequer um aceno para essa questão.


Como Olson escolheu as fontes nas quais confia, e em que casos? E nem uma palavra, tampouco, sobre métodos. Suas observações não aparecem em nota ou referência, mas escondidas na narrativa. É como se ela não estivesse escrevendo o que escreve. Embora essa seja tradicional regra da escrita jornalística, no estranho caso de escrever sobre os Anonymous qualquer tentativa de fingir-se de anônimo e impessoal abala a credibilidade do/a jornalista e do jornalismo. Em ambiente no qual todas as fontes declaram que estão mentindo, o jornalista tem o dever de declarar ao mundo, abertamente, todas as suas próprias crenças e fés pessoais. O jornalista “nomefodido” é, nessa situação, a única fonte legítima de opinião que pode aspirar a ser legítima e merecer credibilidade. A isenção jornalística passa a ser aí, além de mito, erro: se o jornalista não se expõe pessoalmente, se não declara que crê no que creia... quem (e sobretudo: por quê?) precisaria acreditar em algum jornalista?

Os sistemas sociais da internet, dos quais os Anonymous são exemplo altamente evoluído, rompem as vias da causa&consequência estabelecidas. Em vez de buscar o especialista ou a mais alta autoridade presente para colher “declarações”, a alma da matéria pode estar, de fato, em qualquer palavra e nunca se sabe em qual palavra estará. Procurar a fonte “certa” ou a “melhor fonte” nos Anonymous é, frequentemente, muito mais como investigar um assassinato; e muito menos como escalar a cadeia de comando à caça de uma entrevista ou de alguma “declaração” ou do “furo”.

Mediafag
Os Anonymous expuseram os jornalistas [viados-da-mídia, mediafags, como eles dizem] como especialistas em “fala-escudo” [5]. As frases bombásticas e as declarações hiperbólicas têm de ser reproduzidas exatamente como saem das telas ou da boca de cada anon, não podem ser copiadas de jornais, depois de já convertidas em discurso indireto. E, mesmo com todos esses cuidados, ainda assim se cometem erros e publicam-se “conclusões” ou inferências que escapam a qualquer controle e entram no nosso texto jornalístico.

Um pouco disso existe em qualquer jornalismo, por melhor que seja, mas em mundo no qual nada “precisa” ser verdade, porque tudo é permitido, como o mundo dos Anons, é constante ameaça existencial a pesar sobre todo o jornalismo. Por isso, precisamente, tão poucos jornalistas dedicam qualquer legítima atenção jornalística aos Anonymous.

O jornalismo é parte de um mundo de instituições, hierarquias e tradições sociais que são codificadas por estados-nação e por empresas. Criamos leis e regras para controlar os que sejam autorizados a chegar aos assuntos que contam, para que seja possível concentrar nosso poder de fogo midiático nos pontos em que queremos que ele se concentre. O mecanismo visa a criar um mundo previsível no qual todos possamos viver a salvo (ou viver da ilusão de que ali estamos a salvo) dos caprichos da natureza. As ferramentas que há, para o jornalismo que há, foram concebidas para esse mundo – o qual, por sua vez, modelou nossa retórica e nossas narrativas. É o que explica que jornalistas gostemos tanto de identificar as pessoas pelos títulos (presidente, deputado, bispo, comandante), pela idade, pela religião ou por etnias, localizando nossos personagens numa hierarquia – para que o leitor convença-se de que o veículo que lhe fala ouviu gente “importante”, o que, por contaminação, gera a ilusão de que o leitor seria igualmente importante.

As técnicas do jornalismo contemporâneo são a teoria da história de alguns, em letra de forma, em redação esperta, compacta e rápida, para leitura veloz e superficial.

Os Anonymous rompem todos esses pactos – e são terrível dor de cabeça.

Contudo, para jornalistas forçados a escrever sobre eles, o surgimento do grupo Lulzsec – clube fechado e exclusivíssimo de uma elite de hackers que vivem e trabalham como o resto do mundo normal, embora incluídos no grande coletivo – foi como dádiva caída do céu. Afinal, ali estava o atalho para construir matéria de vasta repercussão popular. E muitos jornalistas reagiram com o previsível entusiasmo.

Essa é a via pela qual Parmy Olson consegue fugir do problema de escrever sobre os Anonymous: escreveu sobre os Anonymous, sem escrever realmente sobre os Anonymous.

Seu assunto é outro: Olson escreve só sobre Lulzsec. Nas 414 páginas do livro de Olson, só se considera o coletivo mundial quando é inescapável, para explicar a formação, dentro do grande coletivo, de um pequeno grupo de seis personagens, que estiveram nas manchetes por poucas semanas no verão de 2011, atraindo atenções como nenhum outro grupo de hackers jamais atraíra.

LulzSecs
Mas nem os seis Lulzsecs são adequadamente investigados. Olson deve ter passado semanas mergulhada em postados antigos – embora nem sempre se possa saber onde encontrou os postados aos quais teve acesso nem como (nem se) fez qualquer movimento para comprovar a autenticidade do material que encontrou. Jornalistas de tecnologias, todos nós, mais dia menos dia temos de enfrentar o problema de confiar em postados ou arquivos cuja origem não se consegue rastrear com precisão, encontros em chats, e-mails repassados. Como fornicação e agiotagem [6], esse é mais um dos pecados sobre os quais todos concordamos que não nos podem paralisar, nem merecem laudas e laudas de reportagem. Mas Olson peca vezes demais. Usa, sem qualquer registro ou resguardo crítico, fontes como o Chanarchive – página que alguns /b/tards do próprio 4chan criaram para arquivar discussões que consideram particularmente interessantes.

Olson alcança velocidade de cruzeiro quando começa a contar detalhadamente a história dos Lulzsecs, narrando evento após evento sobre esse específico grupo secretivo. É quando renuncia a qualquer ambição de analisar e faz reportagem de eventos – seu forte.

Trata-se, exclusivamente, de uma conversa com Jake Davis — conhecido pelo apelido “Topiary”, o talentoso porta-voz e agente de retórica dos Lulzsecs. Nessa seção intermediária, o livro melhora dramaticamente, e é o que o livro inteiro deveria ter sido: relato jornalístico escrito por jornalista que conseguiu bom acesso até bem perto dos Lulzsecs.

Mas nem essa melhor parte do livro chega a ser bem-sucedida, porque não passa de biografia não comentada do jovem Jake Davis. A autora dá a impressão de passar adiante cada historieta que ouviu da fonte, sem qualquer análise sobre se a historieta contribui ou não para melhor compreensão do que seja o grupo e do significado do grupo. São estradas vicinais que levam a lugar nenhum e acabam de repente. E isso, num vasto exercício de acreditar em tudo que Davis diz.

Davis se autoacusa de um crime depois de outro, sem parar, em dúzias de páginas de arremedo de diálogo, mas Olson jamais se pergunta por que ele lhe estaria contando tudo aquilo. Davis admite incontáveis vezes que costuma mentir a jornalistas... E nem assim Olson lhe faz a pergunta óbvia (ou, se perguntou, não perguntou na presença de testemunhas, quer dizer, dos leitores): “E aqui, você está mentindo ou não?”

Essa é parte das razões pelas quais We Are Anonymous dá a impressão de relato mal construído, mal acabado, apesar das quase 500 páginas. Os eventos não são narrados em sequência cronológica, mas não se sabe que outra lógica rege a narrativa e, a menos que já se conheça detalhadamente os eventos ali narrados, fica-se sem saber quando aconteceu o quê. Mais um mês de edição bem feita e menos umas 150 páginas produziriam livro muito melhor.

Ataque DDoS
Por exemplo, há uma estranha repetição de historietas “técnicas”. Num desses casos, somos informados mais de uma vez que “ataque DoS é parecido com “ataque DDoS”, sem o D de “Distribuído”. Não é só a repetição: é repetir informação errada. O ataque “DoS” [Denial of Service/Negação de serviço] é, de fato, parecido com o ataque “DDoS” [Distributed Denial of Service/Negação de serviço distribuída] sem o D inicial, mas só quanto aos resultados. As técnicas são muito diferentes e exigem recursos muito diferentes.

Ataque DoS
As explicações técnicas são forçadas e repetitivas, no livro de Olson. Redigidas em tom descuidado de quem não conhece bem o idioma em que trabalha e que não se interessa por conhecê-lo melhor, para conseguir ser o mais precisa e clara que possa, as explicações técnicas são o ponto mais fraco do livro, e pintam muito mal a paisagem na qual vivem os Anonymous (inclusive os LulzSecs). Ataque DDoS significa inundar uma página-alvo com pedidos de acesso e com mensagens-lixo; é como 15 pessoas querendo passar ao mesmo tempo por uma porta giratória estreita, uma catarata de visitantes – tudo explicado num único pequeno parágrafo no capítulo 5.

Esse tipo de jornalismo desrespeita, para começar, a cultura técnica. É como popstar britânico cantar como criança africana; é sequestrar e descartar tudo que realmente faria alguma diferença. Desse tipo de atitude brotou e disseminou-se a ideia de que todos os hackers adolescentes seriam malucos de porão. É frustrante desserviço que o jornalismo presta a um grupo cada dia mais diversificado, que já tem de enfrentar não só o preconceito e a discriminação das forças da ignorância, mas também a violência policial dos estados mais repressivos, inclusive dos EUA, embora, noutros lugares, a repressão seja ainda mais violenta.

Por exemplo, tome-se a sequência de eventos, no capítulo 21, em que os LulzSecs hackearam o FBI associated Infraguard, quando Olson narra o modo como Sabu apagou o conteúdo de um servidor: “E, fácil, digitou rm -rf /*. Um código simples, mas mal afamado: quem digite esse código no back end do próprio computador apaga, de fato, tudo que haja no sistema. Nenhuma janelinha popping up para perguntar “Você tem certeza?” Aconteceu. Muitos trolls conseguiram que suas vítimas digitassem o código ou apagassem o crucial arquivo32 de sistema do Windows”.

Se você não tem nenhum saber técnico, a coisa parece bobagem. Se você tem algum saber técnico, você tem certeza de que é bobagem. “rm” é comando UNIX, não é “código”, faz command line interface (o que em nenhum caso abriria janelinhas...). E nada tem a ver com Windows. E o 32 é diretório, não é arquivo. Esse exemplo é excepcional, do pior que há no livro; mas não é caso isolado.

É exigir demais, esperar que jornalistas que escrevam sobre os Anonymous conheçam a diferença entre UNIX e Windows? Ou que saibam explicar o que é um endereço IP [Internet Protocol]? A mídia especializada, com certeza, responde que “sim”, há 15 anos; é esperar demais, nessa e em todas as demais áreas da cobertura jornalística em áreas tecnológicas. Ninguém tem qualquer direito de exigir que jornalistas entendam as complexas tecnologias sobre a quais vivam de escrever. É privilégio histórico dos jornalistas ganhar a vida escrevendo o melhor que possam sobre o que conheçam o melhor que possam. OK. Mas tem limite. Com os geeks ocupando o planeta, a ignorância vai-se tornando cada dia menos historicamente admissível.

Vivemos pressionados pelos prazos, com orçamentos cada dia mais apertados, com demandas sempre crescentes por informação atualizada. Mas, de um limite em diante, a coisa vira negligência; em seguida, cruza a fronteira e converte-se em exploração. O jornalista ser explorado não o autoriza a explorar o leitor. Estamos lendo mal o mundo. Estamos tratando mal o leitor.

Nada me faz pensar que Olson seja esse tipo de jornalista negligente e exploradora, mas é o que se vê, incorporado, no jornalismo que oferece nesse livro-reportagem. Os Lulzsecs/Antisecs atraem leitores; mesmo sem qualquer sutileza ou análise. Mas também atraem – assim como há quem diga que eles próprios procuraram por isso – jornalismo-espetáculo, de sensacionalismo, a mais antiga profissão no ramo de escrever para viver.

Todos os clichês dos postados fast-food que reagem à propaganda pelo Twitter estão presentes em We Are Anonymous. Por todos os lados, chovem apoios, disparam-se comandos de resposta-repetição, e muita gente dos e à volta dos Anonymous deve estar terrivelmente machucada, porque parecem sempre dispostos a se chutarem e se espancarem, eles mesmos, o mais que possam.

Em geral, para o bem e para o mal, esses pecados literários são deixados sem comentar, na era da moderna narrativa de não ficção. Mas, nesse caso, eles saltam à vista, pelo contraste muito visível com a linguagem vibrante dos anons que a reportagem cobre.

A linguagem dos Anonymous é imprópria, de baixo calão, mas é deliberadamente o que é. Suas metáforas estão vivas, são criativas e efetivas, porque os anons nunca param de tentar romper a linguagem e o pensamento convencionais. De tanto querer fazer e tentar, acabaram por aprender a fazer. Quando distorcem uma imagem, distorcem como querem e o quanto querem, e para um objetivo determinado.

Anonymous IRC
Quando @AnonymousIRC se autodescreve como “cavaleiro sem cabeça montado num cavalo ASCII [7] com um halo de Gato Nyan [8] e espada de Lulz em bainha de tolerância”, a imagem é construída para fundir a cuca de quem leia. E funde. Mas é imagem construída e você vê o que é para ver. A escrita dos Anonymous encheria de orgulho o George Orwell do clássico Politics and the English Language (A política e a língua inglesa [9]), não porque obedeça aquelas regras, mas porque sabe por que e quando desobedecê-las e escapar delas. É má sorte, que a prosa de Olson tenha de expor-se ao lado da prosa dos anons.


***
Os Antisecs e, antes deles, os Lulzsecs, receberam vastíssima atenção midiática de jornalistas como Olson e eu, atenção que chegou a deixar marginalizados outros anon ops mais efetivos, que trabalhavam no apoio a movimentos da Primavera Árabe e na resistência política contra leis anti-internet, como a ACTA – mesmo no caso em que essas operações foram conduzidas pelas mesmas pessoas. Olson e eu cobrimos tudo isso, mas do jeito errado. Deveríamos, desde o início, ter sabido ver os Antisecs como uma manifestação dentre muitas, não como grupo que, afinal, poderia ser tratado pelos jornalistas como estrelas do rock, grupo que facilita muito o trabalho jornalístico.

Muitos anons, de visão mais criativa, cujo trabalho encaminhou-se para objetivos mais claros (nem sempre louváveis, mas objetivos e, sim, claros) acabaram afogados na gritaria niilista dos Antisecs e na incansável cobertura que os jornalistas lhes dávamos. Àquela altura, os Antisecs pouco nos preocupavam.


Quando, dia 3 de junho, anunciou-se que remanescentes daquele antigo exclusivo grupo de hackers haviam capturado 3 terabytes de dados do governo, inclusive material do FBI e do Departamento de Estado, a mídia deu de ombros. É excesso, dados demais. Mais dados do que alguém pode ler e, menos ainda, avaliar; e são dados inúteis, quando o noticiário diário já oferece tantas notícias péssimas. Em ambiente no qual todos sabemos que o presidente tem sobre a mesa uma lista de pessoas a serem assassinadas, entre as quais há cidadãos norte-americanos, difícil supor que um .d0x traria algo que fizesse diferença. Depois de milhões de logins e e-mails vazados e de bancos de dados invadidos, estamos em crise de fadiga de dados.

Desse oceano de vozes de Anonymous, todos experimentando novos modos de estar no mundo, as únicas vozes que se ouvem no livro de Olson são as de um pequeno grupo de hackers que sequestraram o palco onde todos deveriam poder ver uma legião; que desafiaram os valores do coletivo; e que colidiram frontalmente contra o muro da lei. Foi história que a própria mídia gerou, sem dúvida, mas não é a verdadeira história dos Anonymous. Não é, sequer, história que faça qualquer real sentido.




Notas dos tradutores

[1]  8/11/2011, redecastorphoto em: Anonymous: Introdução ao lulz, Quinn Norton,

[2]  OLSON, Parmy. We Are Anonymous. Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, New York: Little, Brown & Company, 2012, 498 pp. $26.99.

[3]  Há crítica (preconceituosa, jornalístico-conservadora) ao mesmo livro no New York Times em: The Secret Lives of Dangerous Hackers, Janet Maslin, 31/5/2012.  
[4]  Namefag [Substantivo 2 g. Verbo necessariamente reflexivo derivado: Nomefoder-se]. Designa todos que se deem nomes próprios nos postados no 4chan. O procedimento de nomefoder-se é considerado péssimo, altamente não recomendável, embora o fórum /tg/ seja mais descontraído que outros, nos quais três postados nomefodidos levam a longos debates de mais de 300 postados, sobre os méritos e as desvantagens do anonimato na rede. A regra geral é nunca se autonomefoder, a menos que seja indispensável distinguir-se, pessoalmente, do enxame sem nomes [ing. anonymous] e separar-se do enxame (comentário dos tradutores).

[5]  Hedging language ou Verbal Hedge [fala-escudo]: Colunistas, repórteres e jornalistas em geral mostram-se cada dia mais conscientes de que há risco de serem processados por crimes que cometam ao noticiar. Resultado disso, são cada dia mais frequentes, em todos os veículos, expressões que visam exclusivamente a proteger o jornalista e a empresa para a qual trabalha, contra acusações criminais e processos por difamação e calúnia (dentre outros crimes). Às expressões que se usam para essa exclusiva finalidade defensiva, chama “fala-escudo”, porque visam a distanciar o jornalista e a empresa jornalística de qualquer compromisso com o que esteja sendo divulgado ou comentado. É onde a isenção jornalística vira arma e é usada contra o consumidor do discurso jornalístico.
Por isso, abundam hoje matérias jornalísticas em que tudo é dito “suposto”:

 

Suposta amante do executivo da Yoki deve depor segunda-feira (15/6/2012, O Estado de S.Paulo);
Foto de suposta nova camisa reserva do Corinthians vaza na internet (3/5/2012, O Estado de S.Paulo)  – e esse, aliás, é exemplo extremo de uso absolutamente absurdo, do absurdo “suposto”, porque se fica sem saber, até, o que seria “suposto”: (a) “suposta nova (camisa)” ou (b) “suposta camisa (nova)”; ou (c) “suposta (camisa nova) reserva”; ou (d) suposta (nova camisa reserva) do Corinthians)”?!

O que se vê aí é, de fato, só e sempre, o suposto jornalismo do Estadão suposto jornal [risos, risos, porque essa foi booooa!]. E “O presidente sofre de suposta doença terminal” (vários veículos, no Brasil, a propósito de doença dos presidentes Lula e Chávez). Há zilhões de exemplos, mas bastam esses, por hora.

Esse movimento discursivo de dissimulação exaure, de fato, a relevância jornalística e social de qualquer notícia.

Mas esse tipo de fala-escudo nem seria necessário, se o jornalismo, o jornalista ou o repórter realmente investigassem os assuntos sobre os quais vivem de inventar notícias. Essa fala-escudo, que mata qualquer notícia, seria desnecessária se realmente houvesse o que noticiar, em cada notícia (suposta existente, mas que não existe) que é noticiada.

Assim, se a investigação policial já estiver completada, a notícia é: “fulano será julgado por ter matado sicrano” (e não se falaria de “suposto assassino” – que é perfeito absurdo lógico e também gera objeto para processo por calúnia e difamação, dentre outros). Se já houver laudo médico, não há “suposta doença” e a notícia é outra, que não foi noticiada.

Afinal de contas, em todos os casos, o que seriam, no mundo, se existissem, uma “suposta amante”?! E/ou uma “suposta doença terminal”?! E/ou uma “suposta camisa”?! \o/ \o/ \o/ \o/.

[6]  Prôs que pensem que essas proibições-tabu religiosas só tenham a ver com “fundamentalistas muçulmanos”, acordem: deu na Bíblia (Deuteronômio 23-19: “Do teu irmão não exigirás juros [...] e Colossenses 3-5: “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão [...]).

[7 ASCII, American Standard Code for Information Interchange/ Código Padrão Norte-americano para Intercâmbio de Informação) é uma codificação de caracteres de oito bits baseada no alfabeto inglês. Os códigos ASCII permitem “desenhar” em computadores, equipamentos de comunicação, entre outros dispositivos que trabalham com texto. Desenvolvido a partir de 1960, grande parte dos modernos códigos de caracteres foram criados a partir do ASCII . Vê-se um dentre os quase infinitos possíveis “cavalos ASCII”.

[8  Pode ser visto em: Nyan Cat

[9]  Ensaio de 1946. Pode ser lido em português europeu em: A política e a língua inglesa

sábado, 21 de abril de 2012

Linhas na areia: De que lado você está, na Guerra “hacker” de Classes?


Anonymous, Phrack, n. 68, vol. 0x0e, Issue 0x44, Phile #0x10 of 0x13
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Slim Amamou @slim404Anonymous, Phrack, n.68, vol 0x0e, Issue 0x44, Phile #0x07 of 0x13


Anonymous publicaram dois artigos em #phrack68.
Que me lembre, são os primeiros da história!
16/4/2012, Twitter




“Ohé, saboteur, attention à ton fardeau: dynamite”
Chant des partisans, 1943

“É impossível falar do hack-ativismo contemporâneo, sem mencionar Anonymous, LulzSec e Antisec. Responsáveis pela dramática valorização do que está em disputa nessa “guerra”, todos esses grupos adotaram, ao longo do tempo, posição cada dia mais explicitamente antigoverno e anticapitalismo”.

Com o crescimento dramático da atividade de hacking/vazamentos, paralelo aos levantes em todo o mundo, ouvimos cada dia mais frequentemente a retórica da “ciberguerra”, manobrada por governos que tentam manter a legitimidade e o domínio sobre mais e mais poderes de estado-polícia. Falando sobre prioridades do FBI dez anos depois do 11/9, Robert Mueller, diretor do FBI, disse em discurso recente na Conferência da Associação Internacional dos Chefes de Polícia [International Association of Chiefs of Police (IACP)] que “a próxima ameaça serão indivíduos autorradicalizados, com suas ciberbases, usando recursos online e indivíduos que planejam ciberataques” [21].

Embora os hackers tenham zombado de Mueller e da IACP, desmontando suas páginas na Internet durante a conferência, é difícil crer que os hackers sejam ameaça maior que os “terroristas”. Apesar disso, essa lógica tem sido usada para mandar bilhões de dólares para os bolsos privados de empresas paramilitares e de inteligência contratadas para desenvolver melhores tecnologias de ataque e defesa.

Os EUA também estão propondo várias modificações na lei contra Fraudes e Abusos por Computador [orig. Computer Fraud and Abuse Act] de 1986, impondo sentenças mais longas (inclusive com previsão de penas mínimas obrigatórias) e as classificações da lei RICO [orig. RICO Act] para hacking por computador. Na maior parte, os surtos reforçados de hacking não passam de ação de desmonte de páginas e de ataques DDoS conduzidos por garotos que se dizem ligados aos Anonymous. – Difícil ver aí a “ameaça de terrorismo estrangeiro contra infraestrutura crítica” usada para justificar a imposição de maiores penas (para os hackers amadores domésticos) e a maior quantidade de dinheiro nos cofres e bolsos e malas da indústria de segurança. Mas há mais que só garotos e amadores em ação: os ataques contra instituições conhecidas, inclusive grandes instituições da polícia, militares e judiciárias, além de grandes empresas tornaram-se, além de mais frequentes em número de ocorrências, também mais destrutivas e mais politicamente articuladas. 

Estamos assistindo aos primeiros estágios, de abertura, da próxima Guerra Hacker de Classes. Com muitas facções em ação, cada lado operando as próprias agenda e estratégias, com mais e mais hackers ou entrando no rolo pelo lulz [0], ou atacando o complexo da inteligência militar, surgiu a questão: “De que lado você está?”

Os militares norte-americanos, sempre doidos para contar o quanto o Pentágono ampliou a defesa dos seus computadores, mantêm-se mudos, quando interrogados sobre suas capacidades ofensivas para a Internet. Fala-se de uma lista de ciber-capacidades – só acessível para o governo, deputados e senadores – que iria desde implantar vírus e infectar computadores, até derrubar grades elétricas [1]. Nada disso seria possível sem (I) a assistência de hackers de computador que trabalhem, direta ou indiretamente, para o Departamento de Defesa; e sem (II) a tendência, nas nossas comunidades, de ajudar ou, no mínimo, de tolerar, os que decidam prestar aqueles serviços àqueles grupos. 

Infelizmente, essa mentalidade é frequente entre as celebridades repetidamente citadas em artigos do jornalismo de notícias dominante, nos quais dizem falar em nome da comunidade hacker.

Anonymous Black Hat
Na direção oposta, sempre houve ressentimento dos Black Hats [chapéus pretos] [1a] contra os que se dizem hackers, mas, de fato, trabalham para proteger os sistemas contra os que realmente conseguem invadi-los. Muito já se escreveu sobre os corruptos Chapéus Brancos que trabalham para proteger infraestrutura governamental, contra a ação de outros hackers, que operam, mais, em nome do divertimento. Muito lulz já se curtiu, ao longo dos anos, sempre que aquelas celebridades “de jornal” são invadidas e veem seus e-mails e senhas divulgados para todos, em arquivos .txt lindamente decorados. Além da colaboração de “profissionais” de segurança e outros efesdapês, é hora de tratar de outro risco que está crescendo, ameaçando a integridade do nosso cenário: o ativo esforço de militares dos EUA, para recrutar e treinar hackers [1b] para que ajudem a operar os sistemas de ciberdefesa dos EUA.

Com a aprovação da lei de Autorização da Defesa de 2012 [orig. 2012 Defense Authorization Bill], o Departamento de Defesa passou a ter “autoridade expressa para conduzir operações militares clandestinas no ciberespaço, para apoiar operações militares”. A Agência Reuters noticiou que “o Pentágono organizou uma lista secreta de suas ciber-capacidades ofensivas, para que os políticos conheçam o que votam”. Até o presente, os EUA já se engajaram em ataques eletrônicos, a maior parte dos quais são especulativos. Ouve-se dizer por todos os cantos que militares dos EUA e Israel, trabalhando em cooperação, desenvolveram o STUXNET para destruir as instalações nucleares iranianas [2]

Anonymous "West Point"
Para atender à necessidade de pessoal de segurança de computadores, os militares mantêm várias escolas e centros de treinamento, com o objetivo de converter jovens entusiastas de computação em hackers competentes e treinados. Na Academia Militar dos EUA, em West Point, NY, há um capítulo ACM SIGSAC, que oferece cursos especiais sobre técnicas de invasão à distância e, periodicamente, organiza muitas competições online de hacking, para “treinar e engajar militares alistados, oficiais, soldados ou civis que trabalham para o governo”. Em abril passado, a equipe de West Point venceu os “hackers veteranos da Agência Nacional de Segurança”, no Exercício 2011 de Ciberdefesa [orig. 2011 Cyber Defense Exercise]. Outras equipes militares de hackers, como a ddtek (liderada pelo Tenente Comandante Chris Eagle, conferencista regular da DEFCON e Chapéu Preto) também competem em torneios civis de hacking como o CTF da DEFCON, nos quais em geral dominam a competição, trazendo dúzias de formados em ciber-segurança da Marinha [3][4] . Não há dúvidas de que muitos desses eventualmente trabalharão no USCYBERCOM [4a] ou em outras operações militares clandestinas, para lançar ataques, sempre em benefícios dos ricos e da classe dominante.

O governo dos EUA melhor faria se não confiasse muito em seus hackers alistados, porque eles trabalham também para grande quantidade de empresas privadas e indivíduos, seja para construir defesas, seja para explorar, conhecer, infiltrar-se e atacar inimigos de quem lhes pague mais. 

Depois que LulzSec apropriou-se de e-mails (e vazou-os) de Karim Hijazi, presidente da empresa de segurança Unveillance contratada pelos militares e participante do Infragard [2a], soube-se que Hijazi trabalhou para o Departamento de Defesa e a Casa Branca, não só para traçar perfis de “principais grupos de hackers operantes na Líbia e seus apoiadores”, mas também para tomar a frente e “mapear todos os sistemas SCADA e suas vulnerabilidades, das empresas de petróleo operantes na Líbia” [5] . Mesmo depois de Karim ter sido exposto, ainda insistia em pagar ao grupo LulzSec e ofereceu seu botnet para destruir os concorrentes, revelando toda sua alma corrupta e traidora, de Chapéu Branco; e revelando também o quanto são vulneráveis e vivem desesperados os militares mais poderosos do mundo.

E há também Aaron Barr, ex-presidente da empresa HBGary Federal, que teve muito do que muito mereceu – quando se soube que trabalhava em operações de contrainteligência, tentando derrubar WikiLeaks (contra a qual sugeriu “ciberataques contra a infraestrutura, para obter dados sobre os fornecedores de documentos”) e também os Anonymous (contra os quais cooperou com o FBI, tentando descobrir “os perfis dos membros-chave”) [6]. Os e-mails vazados também revelam o plano para desenvolver “software de gerenciamento pessoal” para os militares dos EUA, e que é mais uma ferramenta do tipo das usadas no Programa de Contrainteligência [orig. Counter Intelligence Program COINTELPRO] para distribuir propaganda, criando um exército de contas falsas de Twitter, Facebook, milhares de blogs, fóruns e listas, para subverter a democracia e manipular a opinião pública. Embora Barr/HBGary e Karim/Unveillance/Infragard tenham sido expostos e desmascarados, as implicações do que foi descoberto e revelado sobre o trabalho que fazem apontam diretamente para a assustadora possibilidade de uma conspiração ilegal entre empresas privadas de segurança, governos e militares, com o objetivo de silenciar e neutralizar qualquer movimento de opositores políticos (ou concorrentes comerciais).

Dados os fracassos bem visíveis de seus afiliados, os militares continuam à caça de hackers independentes. A Agência da Defesa para Processos de Pesquisa Avançada [orig. Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA)] distribuiu convites por vários espaços frequentados por hackers nos EUA, para “trabalhar em pesquisa com o objetivo de ajudar a oferecer ao governo dos EUA as ferramentas necessárias para proteção contra ciberataques”. 

Anonymous "Culto da Vaca Morta"
O programa Cyber-Insider (CINDER) é comandando por Peiter “Mudge” Zatko [7] que – como muitos de nós – foi hackeradolescente associado ao “Culto da Vaca Morta” [orig. Cult of the Dead Cow] e o espaço space l0pht, de gente da velha guarda. Peiter depois “mudou de vida”/ “virou homem de bem”, quando fundou a empresa de consultoria @Stake, que, adiante, foi comprada pela Symantec. Hoje, completou o círculo vicioso, de hacker adolescente amador, para “profissional de segurança”, e trabalha em tempo integral para os militares – exemplo perfeito, para que hackers aspirantes aprendam logo o que NÃO SE DEVE fazer.

Mudge atualmente anda discursando em conferências de hackers como Schmoocon e em eventos do Dia da Indústria promovidos pela Agência DARPA – que só são organizados para atrair e recrutar novos hackers e prendê-los da teia da DARPA.

Tradicionalmente, os espaços hackers, que se estão convertendo em tendência cada vez mais forte, não só nos EUA como em todo o mundo, sempre foram locais onde circulam pessoas sem dinheiro para pagar o aluguel ou comprar equipamento; e, por causa das habilidades raras (quando não exclusivas) para resolver problemas e de uma ética hacker do “Invente e Faça Você Mesmo” que se concentram nesses locais, são locais também onde aparecem todos os tipos de empregadores (privados e governamentais) interessados em encontrar talentos e contratá-los. Infelizmente, muitos espaços hackers são espaços “sem política”, onde circula gente mais interessada em fazer carreira, do que em respeitar a ética hacker. Esses são particularmente muito vulneráveis à pressão dos militares, para que passem a trabalhar em pesquisa oficial ou para que ajudem a identificar e prender outros hackers.

Os espaços hackers, nesse sentido, são locais ideais para encontrar gente apática e cabeça oca: os hackers nos EUA têm longa história de se converterem em figurões federais.

Adrian Lamo, conhecido no início como “o hacker sem-teto”, no tempo em que era respeitado por ter invadido várias páginas importantes, é hoje universalmente odiado, como o grande salafrário sujo, imundo, que entregou Bradley Manning à polícia, como se Manning fosse o responsável pelos vazamentos que chegaram a WikiLeaks. Apesar do que fez, Adrian ainda tem seguidores na revista 2.600, mantém um grupo de Facebook, aparece ocasionalmente em salas de bate-papo pelo IRC e, recentemente, foi convidado para falar num seminário da Convenção HOPE 2010. 

Há também Kevin Mitnick – cujos talentos de engenharia social fazem dele o perfeito porta-voz para grupos de hackers – que se resignou (como tantos outros) a trabalhar para a “indústria” da segurança & consultoria e ganha rios de dinheiro em palestras e conferências (mesmo que apareça só para assinar o livro de presença), e que (também como tantos outros) tornou-se alvo dos Chapéus Pretos, que já várias vezes invadiram os servidores de suas empresas e clientes, capturaram e distribuíram endereços de e-mail e senhas. 

Jeff “A Tangente Escura” Moss, que, por mais de dez anos chefiou a DEFCON, a “maior convenção clandestina de hacking” e a publicação Black Hat Briefings (nome muito inadequado!), acabou trabalhando para o Departamento de Segurança Nacional.

E Oxblood Ruffin, nascido do grupo “underground” Culto da Vaca Morta (do qual também participavam muitos Chapéus Negros importantes) vive hoje de abrir a boca pelo Twitter para declarar “direitos de propriedade” sobre a palavra “hack-ativismo”; e também vive a dedurar outros hackers (especificamente Chapéus Pretos e Anonymous) que entram em seus sistemas. Chegou já ao ponto de assinar uma declaração conjunta de vários grupos (cDc, 2600, l0pht, CCC e outros) em que condenam os ataques da “Legião do Submundo” contra o governo do Iraque por abuso de direitos civis e humanos [8]. 

Outro exemplo mais recente de traição na comunidade hacker é o caso do “consultor de segurança” Thomas Ryan (também conhecido como frogman) que capturou e distribuiu a lista interna de e-mails dos manifestantes de Occupy Wall Street de New York.

Andrew Breitbart
Trabalhou durante meses até chegar lá, misturou-se com os manifestantes, dos quais obteve a confiança e os acessos, enquanto, ao mesmo tempo, passava para o FBI e outras organizações os planos dos manifestantes, e até entregou tudo à página do super-direitista Andrew Breitbart, como “prova” de “atividades ilegais de anarquistas”. Com os arquivos que entregou, ele misturou acidentalmente sua própria correspondência com o FBI e jornalistas (“profissional de segurança”, é? Só rindo!). O chapéu branco de Thomas Ryan e suas inclinações pró-direita sempre foram bem conhecidos nos círculos hacker, bem como suas explorações de engenharia social (sempre comentou, nos Black Hat Briefings, sobre suas experiências, em que enganava dúzias de funcionários do governo e profissionais que tinham livre acesso às altas esferas da segurança, servindo-se de um perfil falso de uma mulher atraente e altamente treinada nas artes de computador & segurança, batizada “Robin Sage”: infelizmente, não obteve nenhuma informação privada ou embaraçosa, quando operava sob o disfarce de sua afilhada chapéu branco). Sem dúvida o pessoal de OWS pecou por falta de cultura de segurança, confiando tão completamente num chapéu branco muito reacionário e muito conhecido, e entregando-lhe detalhes das comunicações internas e detalhes dos protestos (uma fraqueza, num movimento pró fonte aberta, que tanto se opunha a coletivos privados compostos só de membros “fichados”). 

Mas, quando o traidor cai de um dos ramos de nossa árvore hacker, temos de nos responsabilizar e cuidar para que as traições não se repitam (como alguns anons que ajudaram Aaron Barr).

E há também [a rede] 2600, composta de várias comunidades separadas, incluindo os meetups locais, a revista, Off The Hook, e a comunidade IRC. Para ser justo, Eric Corley partilha, de certo modo, os interesses dos hackers, apoia os direitos digitais, critica o estado policial e, no geral, tende à esquerda. Mas se se examina bem, encontra-se uma mentalidade militarista anti-Wikileaks, anti-EFF [Electronic Frontier Foundation] e furiosamente anti-hacker, em todo o pessoal envolvido: metade dos caras [orig. half the ops] da 2600net vivem a proclamar que trabalham para os militares ou colaboram com a polícia. Como há dez anos, na condenação de LoU, 2600 distribuiu uma declaração em dezembro condenando os ataques DDoS dos Anonymous contra bancos e empresas de cartões de crédito que estavam esquartejando WikiLeaks [9] (tática que nada mais é que versão digital dos sit-ins [de manifestação pública em que as pessoas sentam-se na rua para impedir o trânsito], uma respeitada tradição da desobediência civil na política dos EUA [9a]). Usar o nome da rede 2600 para condenar as ações dos Anonymous não só compromete o nosso trabalho como, também, cria a falsa impressão de que a comunidade hacker não apoia ações em apoio a Wikileaks contra PayPal.

Mais de seis meses depois, o FBI invadiu casas de várias dúzias de suspeitos de serem “membros” dos Anonymous, acusados de estarem envolvidos em ataques LOIC [“Canhões de Órbita de Baixa Intensidade”] [9b] contra PayPal. Se se considera que dúzias de pessoas (muitas das quais sem absolutamente qualquer envolvimento) correm o risco de serem condenadas a sentenças de décadas de prisão por causa de alguma besteira inventada de acusações de conspiração, que tipo de confiança mereceria a rede 2600, que de modo algum se preocupa com práticas solidárias aos hackers que sejam acusados e perseguidos injustamente?

A rede IRC 2600net, ela mesma, é comandada por um agente do Departamento de Defesa, um “r0d3nt” treinado por Infragard, de nome Andrew Strutt, que trabalha para uma empresa contratada dos militares e, no passado, admitia abertamente que trabalhava para a polícia, para ferrar gente que, dizia ele, comandava botnets e distribuía pornografia para pedófilos. Na entrevista de Andrew Strutt para GovExec.com [10], lê-se: “Tive de trabalhar duro para construir confiança”. Strutt diz que não abre sua identidade de hacker para as pessoas às quais se refere como seus “comandantes”. E tampouco diz aos hackers que “trabalha para as comunidades .mil ou .gov”. Mais recentemente, r0d3nt depôs voluntariamente num grande júri, sob juramento, quando entregou o servidor “pinky” aos federais e nada disse a ninguém sobre o que fizera, durante meses [11]. No servidor havia centenas de contas de outros membros da comunidade 2600, que tiveram o desprazer de saber que os especialistas do tribunal estavam vasculhando todos os seus arquivos e históricos .bash. 

Strutt manteve tudo em segredo, para todos, durante meses; e, mesmo depois de contar o que fizera, sempre foi muito vago em relação aos detalhes, recusando-se a responder perguntas sobre detalhes da investigação, exceto que a polícia está à procura de atividade “de um certo usuário”.

Evidentemente, é irresponsável e estúpido usar o servidor de uma comunidade para ataques, pondo em perigo outros usuários, mas aí está algo contra o que temos de estar preparados com muita antecedência, se você se mete nisso. Muitos ISPs [Internet service provider] que hospedam páginas e servidores para hackers e radicais, não apenas têm política de privacidade bem definida, reduzindo a quantidade de informação pessoalmente identificável na caixa, mas também assinam um compromisso de “não facilitar”, quer dizer, comprometem-se a não entregar a caixa voluntariamente. Isso foi demonstrado em novembro de 2009, quando IndyMedia.us recebeu ordem judicial semelhante exigindo que entregasse os arquivos log do servidor (os quais, para começo de conversa, jamais existiram). O pessoal imediatamente envolveu a EFF na questão e denunciou publicamente a requisição injusta do governo, dizendo que não tinham qualquer intenção de obedecer. No final, nada foi entregue e a ordem judicial foi declarada inconstitucional [12].

Albert Gonzalez
Por que tantos dos hackers-celebridades que são vistos como cidadãos-modelo acabam sendo sempre alcaguetes a serviço dos federais e de grandes empresas, e por que esse pessoal ainda é considerado bem-vindo e tolerado nos grupos? Eric Corley, da rede 2600, estimava que um quarto dos hackers nos EUA são informantes do FBI [13], número que é infelizmente muito alto, em comparação com outros campos. Criminosos experientes que cumpriram longas penas de prisão sabem e ensinam que o código das ruas é “não confie em ninguém e nunca entregue ninguém”. Se se pergunta aos hackers, logo se vê que muitos têm o hábito de fazer piada com os sistemas que invadiram quando jovens; mas os que cresceram e ficaram famosos estão hoje, todos, trabalhando para o governo. Nunca dá certo, para ninguém, negociar com o diabo: só conseguem acabar com a vida de outros hackers, e a polícia, depois de usar e abusar de seus informantes, sempre os põe para escanteio. 
Albert Gonzalez (também conhecido como “soupnazi”, “cumbajohnny” e “segvec”) tornou-se informante depois de ser preso em NYC por fraude com cartão de crédito; recebeu $75 mil para invadir páginas de cartões de crédito, como ShadowCrew. Apesar de sua cooperação com o Serviço Secreto, durante a qual dedurou dúzias de hackers e fraudadores, todos presos como parte da Operação Firewall, os Federais, MESMO ASSIM, indiciaram Gonzalez em novas fraudes com cartões de crédito montadas pelos próprios Federais, e mandaram aquela alma de rato para a cadeia, por muito tempo. Infelizmente, um dos envolvidos na rede de mentiras de Gonzalez foi o conhecido Chapéu Preto Stephen Watt, “o terrorista UNIX”, que ajudou a escrever zines da velha guarda, como el8, e deixou uma trilha de mail spools, ownage logs, e servidores rm’d dos mais respeitados “profissionais de segurança” na indústria. Watt jamais foi acusado de participar nos esquemas de dinheiro de Gonzalez; ele simplesmente escreveu alguns pacotes comuns de códigos farejadores, chamados “blabla”, que se supõe que tenham sido usados para interceptar transações com cartões de crédito em redes de TJX – o que mostra o nível de depravação e desespero dos Federais, para inventar conversas e encontros e engordar a ameaça que viria de hackers “gênios da fraude”, para a mídia [14].

Enquanto muitos apoiam nossos camaradas hackers que caíram, como o Terrorista UNIX, ainda se ouve uma surpreendente linha de pensamento dentro da comunidade de segurança da informação [orig. infosec comunity]. Perguntem por aí, nas reuniões de 2600 ou nos espaços hackers, e vocês ouvirão a condenação de hackers presos, como se fossem todos criminosos, e um monólogo, semelhante à fala de políticos, policiais e jornalistas: não invadam sistemas alheios, não façam ataques DDoS, não derrubem páginas e, se você tropeçar em algum ponto vulnerável, “por favor notifique o fabricante, para que o defeito seja remendado”. Pensar que essa mentalidade está sendo perpetuada por gente que conduz o pavilhão dos hackers é repugnante e mina o trabalho que tantos de nós tentamos fazer legitimamente, e que a tantos já custou anos de prisão.

Porque muitos que dizem representar os hackers terminam por trabalhar para instituições muito corruptas e opressoras, contra as quais outros hackers estão lutando, é mais que hora de demarcar linhas na areia. 

Se vocês são militares, policiais ou informantes, pagos por empresa contratada pelo Departamento de Defesa, ou para empresa de segurança privada contratada para prender outros hackers, ou para proteger a infraestrutura que nós lutamos para destruir, vocês não são dos nossos, não são nossos camaradas.

2011 foi o ano dos vazamentos e das revoluções, e todos os dias chegam notícias de novos levantes pelo mundo, e de grandes empresas e sistemas governamentais invadidos por hackers. Os jornais falam dos eventos recentes como de uma “ciberguerra” (ou, mais precisamente, de “uma Guerra Hacker de Classes”) e de como os ataques se tornaram mais frequentes e mais destruidores; e, nisso, não exageram. 

É impossível falar do hack-ativismo contemporâneo, sem mencionar Anonymous, LulzSec e Antisec. Responsáveis pela dramática valorização do que está em disputa nessa “guerra”, todos esses grupos adotaram, ao longo do tempo, posição cada dia mais explicitamente antigoverno e anticapitalismo. 


O modelo descentralizado pelo qual Anonymous opera é semelhante a qualquer das campanhas bem-sucedidas de guerra de guerrilhas que sempre houve ao longo da história das revoluções. Em apenas alguns meses, os Anonymous tomaram como alvo a CIA, o Senado dos EUA, Infragard, Sony, OTAN, AT&T, Viacom, Universal, IRCFederal, Booz Allen, Vanguard Defense Industries, além dos Departamentos de Polícia dos estados do Texas, Missouri, Alabama, Arizona, da cidade de Boston, dentre outros – capturando massivas listas de usuários/senhas, documentos confidenciais de processos em andamento, correspondência pessoal por e-mail, dentre outros documentos. A mais recente campanha – “Operation Antisecurity” [Operação Antissegurança] – está prevista para unir outros grupos hacker, tirando o chapéu para os Antisecs da velha guarda e chamando cada vez mais atenção para as políticas antigoverno dos Chapéu Preto, como jamais se viu [15].

Embora os métodos de ataque utilizados tenham sido relativamente primitivos – desde procurar vulnerabilidades em aplicativos da Web, como RFI/LFI e injeção SQL, até a força bruta dos ataques DDoS e das botnets – já se veem sinais de que a metodologia de ataque vai aos poucos se sofisticando, sobretudo quando a operação envolve talentos aliados de várias equipes de hackers. Além disso, a seleção dos alvos toma, cada vez mais, a direção de nossos principais inimigos: se, no passado, gerações de Antisecs humilharam vários grandes nomes da indústria de computação, hoje os Chapéus Pretos já não temem nem as mais altas autoridades policiais, militares e governamentais, cujos nomes, apelidos, senhas e endereços e telefones privados, além dos números de identidade e do seguro social de dezenas de milhares de policiais e oficiais militares são impiedosamente divulgados.

Enquanto os hackers continuam a expor e atacar corruptos, corruptores e a corrupção, a polícia continua, desesperadamente, a tentar prender “grandes nomes”, tenham ou não tenham qualquer culpa ou envolvimento.

Sobretudo, quando os políticos tentam enquadrar o hack-ativismo como ato de ciberterrorismo (contra o qual costumam reagir como sempre reagiram a atos de guerra tradicionais [16]), a ameaça de prisão é muito real, e todos temos de estar preparados, com a máxima antecedência possível, para todas as possíveis repercussões do envolvimento de cada um com o trabalho dos hackers.

Mas não devemos deixar que o medo da repressão policial nos assuste e nos imobilize; em vez disso, temos de fortalecer nosso movimento, praticando a melhor cultura de segurança possível e trabalhando para apoiar outros hackers, que tombem, na vanguarda, no cumprimento do dever. Apesar dos muitos guias de como se tornar “Anonymous”, ainda se cometem muitos erros: confiar no mentalmente instável Ryan Cleary, de 19 anos, para comandar o servidor LulzSec IRC, por exemplo. Mesmo antes de cooperar ativamente com os Federais, depois de ter sido preso numa operação conjunta EUA-Reino Unido, Ryan já era conhecido por jogar duplo contra outros hackers, e distribuiu informações de IP de centenas de anonops usuários do IRC [17][18]. Em nenhum caso deve-se dedar para o grande público os traidores do movimento, porque entregar outros hackers envolvidos na luta facilita o trabalho da polícia de identificar e perseguir nossos camaradas. Hoje, mais que nunca, temos de nos unir e praticar a solidariedade, superando diferenças, para lutarmos juntos contra os nossos inimigos comuns.

Os eventos dos últimos meses já foram comparados aos dias gloriosos dos anos 90s, com as guerras pelo IRC e grandes ataques a páginas internet.

Anonymous - Chapéu Branco
Embora as ações de invadir sistemas de computador vá-se popularizando, e muito sangue novo tenha entrado em cena, muitas das velhas questões ainda são as mesmas. O governo continuará a aprovar leis cada vez mais ferozes e a prender cada vez mais? Continuariam a fazer o que sempre fizeram – mesmo que os hackers não estivessem reagindo e respondendo? Os Anonymous causam de fato alguma dificuldade aos Chapéus Brancos militares e às indústrias de segurança e inteligência, com as invasões, captura de informações, desmonte de páginas, vazamentos? Ou, em vez disso, só dão pretexto para que o governo invista cada vez mais para ajudar nossos inimigos? Estaremos vivendo só mais uma episódio de adolescentes curiosos, envolvidos só em explorar à moda sqlmap e milw0rm, ou há talentos da velha escola, ainda, por trás das cortinas, na batalha para manter viva a velha chama Antisec, de luta contra a opressão? 

E, o mais importante: como podem os que combatemos na vanguarda da Guerra Hacker de Classes coordenar melhor o nosso trabalho com o que fazem hoje os movimentos de resistência que crescem nas ruas? 

Não há dúvidas de que, quanto mais se intensifiquem os ataques, mais os governos porão dinheiro para proteger as suas infraestruturas, com mais treinamento interno para os agentes de segurança interna, e mais leis para aumentar as penas a aplicar aos hackers de computadores, mais censura, mais invasão da privacidade das pessoas.

A máquina de propaganda dos governos sem dúvida sempre culpará os hackers – como se fôssemos uma espécie de ciber-Al-Qaeda, para assim confirmar que é preciso aumentar e aumentar a segurança.

Mas, atenção: eles sempre quiseram aprovar aquelas leis, e as aprovariam com ou sem a ameaça dos hackers, que eles usam hoje como bode expiatório, assim como quiseram invadir o Iraque e o Afeganistão e aprovaram o PATRIOT ACT antes de o 11/9 acontecer.

Steven Chabinsky
Não se assustem com declarações ridículas, como a do vice-assistente do FBI, Steven Chabinsky, que anunciou, sobre os anons presos no caso PayPal, que “queremos enviar uma mensagem: o caos na Internet é inaceitável, mesmo que se acredite que os hackers operem a favor de causas sociais. É absolutamente inaceitável que invadam websites e pratiquem atos ilegais”. 

Sim, os federais continuarão a nos apresentar como se fôssemos terroristas, mesmo que não façamos coisa alguma, e continuarão a prender gente arbitrariamente, gente culpada e gente inocente, tentando mostrar que não estão sendo derrotados na ciberguerra, mesmo que todos os sinais mostrem que, sim, que eles estão perdendo a guerra.

Correm boatos insistentes de que a inesperada renúncia de Randy Vickers, diretor de US-CERT [United States Computer Emergency Readiness Team (Equipe de Prontidão dos EUA para Emergências de Computadores)] está ligada ao aumento dramático no número de ataques de alto impacto, por internet, a instituições do governo dos EUA [20].

Outro sinal de sucesso é o quanto a ameaça de se tornar alvo de ataque pelos Anonymous e outros grupos de ativistas anticensura já consegue intimidar as empresas, muitas das quais modificam seus planos originais, ou desistem deles. Isso, exatamente, foi o que fez a australiana ISP Telstra [20]. Uma prática que parece estar renascendo dos tempos dos Chapéus Pretos da velha guarda é definir como alvos preferenciais os profissionais de segurança e hackers que se vendem e passam a trabalhar para empresas e governos, ajudando-os a proteger seus sistemas. Essa é estratégia muito efetiva, não só porque aqueles caras são alvos fáceis, porque são ridiculamente incompetentes e corruptos, mas também porque eles guardam informação sobre as atividades dos militares na ciberguerra. Além disso, bater forte naqueles caras e várias vezes servirá como aviso, para que outros não sigam aquele exemplo e não vendam os próprios talentos ao inimigo: pensem duas vezes, ou vocês também lá estarão, plantados no olho do alvo.

O que acontecerá quando o governo investir todo o dinheiro possível para recrutar  mais hackers para protegerem os sistemas de censura, e não aparecem interessados?

hackers que se vangloriam de que qualquer movimento deles vira assunto, imediatamente, para a mídia internacional, mas as operações de ciberataque dos militares dos EUA são cada vez menos divulgadas. A divulgação não interessa a eles, porque, se as operações não são divulgadas, ficamos sem saber das capacidades deles. Mas a divulgação não interessa a eles, também, porque, sem divulgação, ninguém fica sabendo que grande parte do que eles fazem é quase sempre ilegal.

Como se diz: os que escrevem as leis têm o direito de desrespeitá-las.

Quando adolescentes invadem sistemas de grandes instituições e de grandes empresas, são apresentados como criminosos e, até, como terroristas. Quando os militares do mundo fazem a mesma coisa, em ações muito mais amplas, sempre escondidos por trás de discursos sobre a segurança nacional, dizem que estão “democratizando” outros povos. Talvez ainda demore um pouco, antes que ouçamos falar das operações em que estão envolvidos os hackers traidores que trabalham para os militares. Mas logo, quem sabe, serão eles os invadidos, e verão seus dados privados, aí, abertos, estampados, escrachados, por toda a internet.
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Notas dos tradutores

[0] Sobre Lulz, ver a série de artigos assinados por Quinn Norton em Wired, a partir de “Anonymous 101: Introdução ao Lulz”, 3/1/2012, 

[1a] USCYBERCOM, United States Cyber Command .
Sobre isso, ver também 14/11/2011, “30 anos de hacking político”, 

[2a] InfraGard é um programa do FBI; é uma ‘parceria’ entre a Academia, a indústria privada de segurança e o FBI, criado em 2003.

  
[4a] Black hat [chapéu preto] é expressão que designa o hacker ou cracker que invade sistemas ou redes de computadores, por uma causa e sem interesses comerciais ou pessoais. Diferentes dos Chapéus Brancos ou Cinzas (que trabalham por dinheiro), os Chapéus Pretos trabalham por uma causa (ou pelo Lulz)




[9a] Essa ideia os Anonymous aprenderam de Gabriella [Biella] Coleman. Ver 27/1/2012, “Anonymous: A ética da ação digital direta”, 
[9b] Sobre LOIC, ver a série de artigos assinados por Quinn Norton em Wired, a partir de “Anonymous 101: Introdução ao Lulz”, 3/1/2012, 

[10]Hiring Hackers   








[18]LOL ANONOPS DEAD