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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os “hackers” não devem divulgar as falhas de segurança que descubram


29/11/2012, *Andrew (‘weev’) Auernheimer, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


*Andrew (‘weev’) Auernheimer é rato de internet, condenado duas vezes por crimes consecutivos de hacking de computadores; tem nos costados mais de uma década de trabalho com C, asm, Perl e de furiosa militância no IRC  [2]. É militante ativo na luta pela liberdade e, em breve, será prisioneiro numa prisão federal dos EUA.


NOTA DO EDITOR: O autor dessa coluna, também conhecido como “weev”, foi condenado, semana passada por invasão de computadores, depois de capturar, da página internet da empresa AT&T, uma lista não protegida de endereços de e-mails de mais de 100 mil proprietários de iPad, e entregá-la a um jornalista. A sentença definitiva deverá ser pronunciada dia 23/2/2013.

Nesse exato momento há um hacker por aí, em algum lugar, produzindo uma exploração zero-day  [3]. Quando terminar, sua exploração permitirá que qualquer pessoa que conheça o caminho tenha acesso a milhares – eventualmente, a milhões – de sistemas de computadores.

Mas o momento crítico não é a produção; é a distribuição. O que o hacker fará com o que obtiver em sua exploração? Eis o que pode acontecer depois de a falha/brecha no programa ter sido descoberta:

O hacker decide vender a terceiros o que encontrou. O hacker pode vender sua exploração a agentes inescrupulosos que vivem de comprar e vender informações de segurança, oferecendo o produto como “a proteção”. Ou o hacker pode vender o que encontrou a governos repressores, que podem usar a descoberta para espionar ativistas que protestam contra o mesmo (ou outros) governos opressores. (Há casos conhecidos de governo, entre os quais o governo dos EUA, que usam saberes obtidos de hackers para invadir qualquer coisa, inclusive outros serviços de inteligência doméstica e de países estrangeiros).

O hacker avisa o proprietário do sistema falhado, o qual pode – ou não – “remendar” [to patch] a falha. O proprietário/vendedor do sistema falhado pode “remendar” o programa vendido a clientes preferenciais (tradução: os que pagam mais caro), antes de remendar o programa vendido a clientes “comuns”. Ou o proprietário/vendedor pode decidir não distribuir o remendo, porque a análise custo-benefício feita por um de seus MBAs-empregados “mostra” que é mais barato não fazer, simplesmente... coisa alguma.

O proprietário/vendedor distribui o “remendo”, mas os clientes demoram a baixá-lo e instalá-lo. Não é raro que grandes usuários procedam, eles mesmos, às suas próprias testagens – e muitas vezes encontram falhas em programas, antes do proprietário/vendedor do programa; nesses casos, acontece frequentemente de o usuário produzir e distribuir “em casa”, para ele mesmo, remendos melhores. Tudo isso significa que os “remendos” distribuídos pelo proprietário/vendedor podem permanecer durante meses (às vezes, anos), sem serem usados pela grande maioria dos clientes/compradores/usuários.

O proprietário/vendedor cria um executável blindado com métodos anti-investigação e peritagem policial, para impedir a engenharia reversa. É o modo certo para aplicar remendos. Também é procedimento caríssimo, intensivo em mão de obra – o que implica dizer que só muito raramente é usado. Assim sendo, descobrir vulnerabilidades é tão simples quanto desarrolhar o executável velho e meter ali o novo executável, num IDA Pro debugger com BinDiff, para comparar e ver o que mudou num código disassembled. Já disse: é fácil.

Basicamente, explorar as vastas massas não remendadas é jogo fácil para qualquer explorador. Todos têm, cada um, seus próprios interesses a proteger. E os interesses de cada proprietário nem sempre coincidem com os interesses dos usuários.

As coisas não são tão preto ou branco

Proprietários/vendedores são motivados a proteger os próprios lucros e os interesses dos acionistas, acima de qualquer outro interesse. Os governos são motivados a valorizar acima de tudo os interesses da própria segurança, muito mais que os interesses e direitos individuais dos próprios cidadãos, e muito mais, ainda, que os interesses e direitos de outras nações.

E, para muitos atores do campo da segurança da informação, é muito mais lucrativo vender novos tratamentos, que nunca param de surgir, para tratar sintomas de doenças, do que vender a cura definitiva.

Muito claramente, nem todos os atores agirão eticamente ou competentemente. Além e acima de tudo, o hacker original raramente é pago por seu trabalho altamente qualificado, que exige alta e raríssima disciplina científica, e que visa a melhorar o programa do vendedor/proprietário e, em última análise, a proteger os usuários.

A quem contar o que só você sabe? Resposta: a ninguém; a absolutamente ninguém.

White Hat Hackers
Os cartolas brancas [4] são os hackers que decidem revelar o que descobrem: ao proprietário/vendedor ou ao grande público. Esses chamados “cartolas brancas” do mundo têm seu papel, distribuindo, com suas descobertas, também novas armas digitais.

O pesquisador Dan Guido fez a engenharia reversa de todas as ferramentas (“vírus”) usadas atualmente para exploração em massa (como Zeus, SpyEye, Clampi e outras). Suas descobertas sobre a fonte das explorações/ataques, divulgadas pelo Exploit Intelligence Project [5], são bem claras:

Os chamados cartolas brancas do mundo vêm desempenhando um papel na distribuição de armas digitais.

- Nenhuma das explorações usadas para exploração em massa foi desenvolvida por autores de programas-vírus [mal-intencionados].

– Diferente disso, todas as explorações vieram de “Advanced Persistent Threats” [Ameaças Persistentes Avançadas] (termo que a indústria usa para designar estados-nação) ou de descobertas feitas por cartolas brancas.

– Descobertas feitas por cartolas brancas correspondem a 100% das falhas lógicas usadas para ataques.

Os criminosos, segundo Guido, realmente “preferem o código dos cartolas brancas”, porque funciona de modo muito mais confiável que códigos distribuídos por fontes do submundo. A maioria dos autores de vírus não têm, de fato, a sofisticação necessária para alterar explorações já operantes e aumentar-lhes a efetividade.

Navegar pelo cinza

Alguns hackers de visão ampla da rede de computadores EFnet [6], rede de membros anônimos, anteviram com clareza, há 14 anos, o atoleiro de conflitos morais em que se converteria a questão da segurança de dados. Sem qualquer interesse em acumular riqueza pessoal, eles deram o primeiro passo do movimento de defesa da ética no campo dos computadores conhecido como Anti Security [literalmente, “antissegurança”] [7], ou “antisec”.

Os hackers do movimento Antisec focaram-se no movimento de investigação/exploração como atividade de disciplina intelectual, quase espiritual. Os Antisec não eram – não são – “grupo”; são, mais, uma filosofia com uma única posição nuclear:

Uma exploração é arma poderosa, que só deve ser exposta a pessoa que você tenha certeza (por conhecimento resultante de experiência-contato pessoal) que sempre agirá no interesse da justiça social. [8]

Afinal de contas, entregar o resultado de uma exploração a entidades sem essa ética fará de você parte dos crimes que venham a ser cometidos. É exatamente como entregar um rifle a quem você saiba que matará alguém.

Entregar o resultado de uma exploração a entidades sem ética fará de você parte dos crimes que a entidade cometa

Lulz Sec
Apesar de o movimento já ter mais de uma década de existência, a expressão “antisec” voltou recentemente aos noticiários. Mas, agora, creio que atos criminosos sancionados pelo Estado, estão sendo apresentado como se fossem atos de antisec. Por exemplo: Sabu, do movimento Lulzsec, foi preso pela primeira vez dia 7/6/2011; seus atos foram rotulados como “antisec” no dia 20 do mesmo mês. Significa que tudo que Sabu tenha feito sob esse rótulo foi feito com pleno conhecimento e, provavelmente, com a cumplicidade, do FBI. (O que inclui a divulgação pública de tabela de dados de autenticação que comprometeram a identidade de, possivelmente, milhões de indivíduos, pessoais e privados).  

Essa versão de antisec nada tem a ver com os princípios sobre os quais se baseia o movimento antisec do qual estou falando.

Mas o pessoal envolvido em atividade criminosa – os hackers que tomaram a decisão moralmente falhada de vender suas explorações a governos – já começa a defender publicamente os seus pecados indefensáveis.

Nesse ponto, precisamente, é onde o movimento antisec oferece contexto e quadro cultural útil, além de uma filosofia-guia, para que se pense sobre as áreas cinzentas da atividade de hacking. Por exemplo, a função-chave, nuclear, do movimento antisec, define como absolutamente inadequado, para jovens hackers, cultivar qualquer tipo de relacionamento com o complexo militar-industrial.

Bem claramente, a exploração de programas de computação pode implicar abuso de direitos humanos e violações de privacidade. E bem claramente também, nós temos de fazer alguma coisa quanto a isso.

Mas não acredito em leis de controle sobre o desenvolvimento e a venda dessas explorações. Os que vendam explorações não devem ser impedidos de vendê-las – mas, se venderem, têm de ser declarados gente-do-mal.

Em tempos de ciberespionagem rampante e invasão dos computadores de dissidentes políticos, o único destino ético que você deve dar aos resultados de suas explorações de zero-day é revelá-los a alguém que os usará no interesse da justiça social. Nunca será o proprietário/vendedor, nunca será algum governo, nem nunca será alguma empresa comercial: sempre será uma pessoa, um indivíduo.

Em raros casos, esse indivíduo talvez seja um jornalista que poderá amplificar o desmascaramento e a vergonha pública de algum operador de aplicativo para a rede. Mas, em muitos casos, o dano de expor as multidões de usuários que usam programas não remendados (e de desperdiçar o potencial da exploração, que deixa de ser usada contra governos opressores) ultrapassa, em muito, qualquer benefício que se obtenha por denunciar o erro ou o crime de uma empresa proprietária/vendedora. Nesses casos, a filosofia de antisec brilha como moralmente superior; e você não deve revelar a ninguém os resultados de sua exploração.

Assim, portanto, é hora de o movimento antisec voltar ao diálogo público sobre a ética de expor explorações. É o único modo que há para armarmos o pessoal do bem – sejam lá quem forem – pelo menos dessa vez, para variar.



Notas dos tradutores

[1]  O verbo to hack significa, originalmente, o movimento que se faz com um facão ou foice, para abrir uma picada em mato fechado. Metaforicamente, passou a designar a ação de abrir acesso a programas e computadores, para ver, copiar ou introduzir dados. Opõe-se ao verbo to crack, em que o processo de entrar em programas (mal) protegidos é feito com intenção criminosa.
[2]  Internet Relay Chat (IRC) é um protocolo de comunicação utilizado na Internet. É usado basicamente para bate-papo (chat) e troca de arquivos, permitindo a conversa em grupo ou privada. Foi documentado formalmente pela primeira vez em 1993.
[3]  Zero Day Exploit – [lit. exploração de dia-zero] Exploração cibernética feita através de uma vulnerabilidade em programa, da qual o desenvolvedor do programa não se tenha apercebido e que é descoberta pelo hacker. A expressão é usada no sentido de que o desenvolvedor do programa terá zero dias para trabalhar num patch [remendo, conserto], antes de um possível ataque (Urban Dictionary).
[4] Orig. Whitehat. Sobre os “cartola-branca”; Urban Dictionary (em inglês)

[5]The Exploit Intelligence Project v2 (vídeo em inglês)

[6] Ver em Eris Free Network – EFnet. (em inglês)
[7] Ver na Wikipédia: Antisec Movement(em inglês)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Anonymous: “Há um carinha, na Índia, hoje, sozinho, que pode ter o mesmo destino que Assange”


25/6/2012, AnonSynable, Pastebin
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A notícia apareceu no (re)Twitter, 25/6/2012, 21h37
@YourAnonNews  RT Please PLEASE read this, its another Assange in the making Retweeted by Anonymous.
[Por favor, POR FAVOR leia isso .Há outro Assange aparecendo no mundo] 

A mensagem que se lê no endereço acima indicado aqui vai, traduzida:


Caros:

Os que me seguem no Twitter, falam comigo no IRC ou Spreaker (Radio Free Voice  sabem que não sou de dar bola para assuntos fora dos ‘'grandes'’, que todos vemos. Pois, nesse caso, faço uma exceção.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Um profissional de segurança [de computadores] na Índia, empregado de uma pequena empresa, descobriu recentemente uma outra forma de vetor de ataque MitB [orig. MitB attack vector] que pode afetar os usuários de bancos de varejo na Índia. MitB, é abreviatura de Man-in-the-Browser e sugiro que os que se interessem leiam sobre isso. Não é pouca batatinha.

Tendo descoberto o que descobriu, ele, bem intencionado, decidiu fazer contato com as instituições apropriadas, na esperança de que consertariam o furo.

Ainda não foi divulgado, mas o coitado, hoje, está sendo alvo de ameaças das instituições financeiras (ameaças ilegais, secretas), que só pensam em silenciá-lo, impedi-lo de divulgar o furo que encontrou. O coitado tem de divulgar a coisa, para não ficar na desgraçada posição de ser o único que os bancos sabem que sabe do furo. Então, divulgou documentos conceituais sobre o que descobriu e vídeos, em Youtube e, acho, também por Vimeo, talvez outros. – Todos seus postados foram derrubados, suas contas foram bloqueadas, tudo muito rapidamente.

O banco está usando meios absolutamente ilegais e não éticos (o que não surpreende ninguém) para calar o burburinho. Ao mesmo tempo, diz o coitado, há uns caras estranhos cercando a casa dele.

O cara já procurou a polícia, registrou queixas e fatos, mas parece que alguém sempre descobre tudo, e o único resultado são mais ameaças.

Vamos esclarecer uma coisa, primeiro: o que ele descobriu NÃO foi descoberto em auditoria autorizada no sistema dos bancos. Faz alguma diferença nesse caso? Não. Por quê? Por que a empresa em que o carinha trabalha não faz auditoria nos servidores dos bancos. Ele não descobriu o que descobriu por estar procurando. Descobriu como usuário. Trata-se portanto de uma vulnerabilidade de browser que afeta o elemento banking online de trabalhadores médios, na Índia e provavelmente em outros locais.

É triste, mas acho que nenhum civil algum dia processou algum banco por perda de dinheiro resultante de fraude por vulnerabilidade conhecida e não consertada num sistema; e ainda mais triste: a lei para instituições financeiras na Índia não protege clientes, por mais fracos que seja, contra a atividade fraudulenta de criminosos.

POR QUE É IMPORTANTE?

Hacker Cartola Branca
Comecemos assim: o carinha é Cartola Branca [1]. Mais ou menos como eu. A semelhança está em que nós dois trabalhamos para aumentar a segurança do João & Maria, no dia a dia de pessoas comuns, deles e das famílias deles.

Pessoalmente, decidi afastar-me dos grandes clientes e das grandes empresas pelas mesmas razões pelas quais muitos de vocês também se afastaram. E os “grandes” nos desprezam e perseguem, como todos sabemos, o que é bem triste.

Quando ouço os Anonymous ou os AntiSecs etc., etc., dispostos a arrancar a pele dos Cartolas Brancas, acho muito triste. Mas sei bem de quem eles falam. É o mesmo pessoal de Tecnologia da Informação [ing. TI] que, agora, está ajudando os bancos a esconder a descoberta do carinha indiano e “ensinando” a deixar-prá-lá e nada fazer para consertar.

Por tudo isso, embora não querendo fingir que não sou Cartola Branca, quero separar bem um grupo, entre os que lerão essa carta. Não discordo de vocês em tudo. Aprendi a reconhecer os que jogam a moral no lixo, em troca do salário certo. Eu não consegui viver como eles vivem. Sou pelos pequenos. Pelo azarão. Sou pelos que não têm chance alguma contra os grandões ricos que muito têm a perder e pouco a ganhar a mais, além do que já ganham.

Anonymous AntiSec
Digo isso, porque não estou pregando nenhum tipo de ação de retaliação. Afinal, o que está em jogo é o dinheiro suado de gente pobre, num país que já tem problemas demais.

Peço, só, que deem atenção a um problema que mais ninguém conhece e ao qual ninguém está dando atenção. Até agora, a única atenção que o caso recebeu foi a atenção de gente interessada em manter tudo oculto e em silêncio, como estava, com aquela vulnerabilidade no sistema e tudo, sem consertar nada.

Quando um hacker honesto, boa gente, tenta fazer o que é certo e se queima, ferrado pelos “de cima” – acho que aí é hora de tomar posição e fazer alguma coisa. A única coisa que o carinha indiano está pedindo é apoio. Se ele tivesse achado jeito de consertar a falha, já teria proposto o conserto. Mas precisa de mais gente trabalhando com ele. Agora, de fato, a única coisa que se pode fazer é distribuir a notícia, pra que ele saiba QUE NÃO ESTÁ SOZINHO. O carinha indiano me disse que não está preocupado com ser preso. Que está mais preocupado com o risco a que outras pessoas estão expostas. Que a situação não é justa, não é. É o que eu acho. Alguém aí pode ajudar?

[assina] Legacy



Nota dos tradutores
[1]  Designa hacker (White Hat Sec)que trabalha, profissionalmente, para aumentar a segurança na internet. Há uma empresa com esse nome, por exemplo, em: White Hat Security.