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quinta-feira, 27 de março de 2014

A Turquia está fora de controle

6/3/2014, [*] Christopher de Bellaigue, New York Review of Books, vol. 61, n. 6 (ed. de 3/4/2014)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Resenha de:
1.      The Rise of Turkey: The Twenty-First Century’s First Muslim Power, Soner Cagaptay, Potomac, 168 pp., $25.95
2.     Gülen: The Ambiguous Politics of Market Islam in Turkey and the World, Joshua D. Hendrick, New York University Press, 276 pp., $49.00
3.      I˙mamin Ordusu [The Imam’s Army], Ahmet Şık, 298 pp..

Entreouvido na tendinha  do Rolha de Poço na Vila Vudu: Esse não é artigo sensacional. Mas, ajuda a começar a entender a CONFUSÃO na Turquia, que o “jornalismo” brasileiro só faz AUMENTAR, cada vez que finge que “noticia”, mas não noticia é porraniúma, nunca. O problema é que os “correspondentes” das televisões, jornais e revistas do grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) ignoram a Turquia – porque só fazem copiar o NYTimes, e o NYT ignora a Turquia – na sequência, os “correspondentes” e “especialistas” subentrevistados pelos uiliamsvacas nas TVs ensinam a mesma ignorância-TOTAL aos infelizes consumidores PAGANTES de canais fechados.
Então, o artigo abaixo é infinitamente mais interessante que o BESTEIROL dos manholes & Co, aqueles panacas udenistas uspeanos.
(E, aqui, tudo “de grátis”! Pense bem e DESLIGUE OS JORNAIS das TVs!)

Manifestantes protestam com cartazes do primeiro-ministro da Turquia Tayyip Erdoğan e
do clérigo turco que vive nos EUA, Fethullah Gülen, em comício contra a corrupção em
Istambul, dia 25/12/2013. O texto nos cartazes diz: “Vamos derrubar os dois!”

Dois pilotos que pilotam juntos um avião começam a esmurrar-se na cabine. Um deles ejeta membros da tripulação, que ele suspeita que apoiem seu rival; o outro berra que seu copiloto nem é piloto, é ladrão. Nesse momento o avião começa a girar descontrolado e perde altura rapidamente, enquanto os passageiros olham em pânico.

Essas linhas apareceram publicadas em recente coluna de jornal, assinada por Can Dündar, jornalista turco, e não consigo pensar em melhor fórmula para apresentar a confrontação pervertida, evitável, quase de história em quadrinhos, que tomou conta da Turquia desde dezembro passado, e que ameaça desfazer todos os ganhos políticos e econômicos de uma década.

As partes em confronto são o Primeiro-Ministro, Recep Tayyip Erdoğan, 60 anos, e um clérigo turco, Fethullah Gülen, 73 anos. Erdoğan lidera o partido que está no governo, “Partido Justiça e Desenvolvimento” (tur. AKP), e trabalha na agitação de Ankara, capital do país. Gülen é o pregador e didata moral mais conhecido da Turquia. Vive em reclusão na Pennsylvania, ao que se sabe em estado precário de saúde (sofre do coração). Gülen preside de modo pouco formal, mas sem dúvida preside, um império de escolas, negócios e uma rede de simpatizantes.

Esse império é que Erdoğan agora chama de “um estado paralelo” ao que ele foi eleito para governar; e está decidido a eliminá-lo. A disputa começou para valer em dezembro passado e tem tido efeito extraordinariamente destrutivo. Muito dos seguidores de Gülen trabalham dentro do governo e têm muito poder. Agora, vastas partes do funcionalismo público foram evisceradas, grande parte da mídia foi reduzida a porta-vozes de uma espécie de “revelação” politicamente motivada e do “denuncismo” o mais tresloucado, e a economia está parando, depois de uma década de forte crescimento. O milagre turco é passado.

O governo do AKP de Erdoğan e o movimento de Gülen partilham uma ideologia de islamismo modernizante, e embora as relações entre os dois já viessem se deteriorando há algum tempo, antes da atual crise ainda era possível ser associado aos dois grupos. A coexistência acabou repentinamente dia 17/12, quando mais de 50 figuras pró-AKP, entre as quais o presidente do banco estatal Halkbank; um magnata da construção; e os filhos de três ministros do Gabinete foram detidos para interrogatório por procuradores de justiça considerados homens de Gülen.

Fethullah Gülen
As prisões foram executadas, ao que se sabe, por policiais gülenistas, e receberam muita atenção dos jornais e redes de televisão, esses, também, com tendência semelhante pro-Gülen. Denúncias de que os bem relacionados prisioneiros seriam culpados de suborno, contrabando e outros malfeitos foram tuitadas e retuitadas num frenesi condenatório-executório; o ataque pelos gülenistas, de dentro do governo e também de fora dele, foi bem planejado. Descobriram-se provas, entre as quais cerca de US$ 4,5 milhões escondidos em caixas de sapatos na casa do principal executivo do banco Halkbank, além de indicações de pagamentos feitos a ministros. Rapidamente se divulgou que uma segunda fase da mesma investigação atingiria também o filho do Primeiro-Ministro.

A velocidade e o vigor da reação de Erdoğan a esses eventos indicam que ele os considerou como precursores de sua própria destruição. Imediatamente, começou a varrer de sua própria entourage traidores potenciais ou nomes que lhe parecessem comprometidos; em poucos dias substituiu metade do próprio Gabinete, inclusive os ministros cujos filhos haviam sido presos para interrogatório. O expurgo alcançou pontos longínquos do funcionalismo civil. Como parte da campanha de Erdoğan contra a influência de Gülen, milhares de policiais foram tirados dos respectivos postos, além de altos procuradores de justiça, envolvidos no caso de corrupção e burocratas associados aos ministros demitidos.

No início de fevereiro, o governo começou a investigar oficiais de polícia gülenistas, acusados de formarem “uma organização ilegal dentro do estado”. Erdoğan suspendeu as investigações judiciais e partiu para a ação direta. A dois meses de eleições municipais e a seis meses de uma eleição presidencial à qual espera concorrer, Erdogan ainda sobrevive. Mas a tradição política que ele representa, uma síntese de islamismo e livre-mercado, essa, foi gravemente ferida; o primeiro-ministro está também muito gravemente abalado; e há mais abalos por vir.

Antes de o confronto Erdoğan-Gülen começar a ser visto, no início de 2013, e com certeza antes dos protestos nacionais do verão passado, quando liberais turcos tomaram as ruas contra seu autoritário primeiro-ministro, a corrente turca do islamismo modernizante gozava de muitas simpatias. E estava personificada em Erdoğan – que chegou ao poder em 2003, depois de décadas de lutas, pelos islamistas, contra as táticas opressivas de instituições seculares há muito tempo entrincheiradas, sobretudo no Exército e no Judiciário.

Nos seus primeiros anos no cargo de Primeiro-Ministro, Erdoğan pareceu estar conseguindo encaminhar soluções para muitos dos problemas do país. Explorando a forte maioria que tinha o partido AKP no Parlamento, ele conseguiu estabilizar e liberalizar a economia errática, semiplanejada, tornando os turcos mais ricos do que jamais antes; e introduziu várias reformas liberais (o fim da tortura e maiores direitos para os curdos). Talvez mais importante que tudo, pôs as Forças Armadas sob controle das autoridades civis eleitas, as mesma Forças Armadas que, desde 1960, haviam conseguido derrubar nada menos que quatro governos eleitos.

Em todo esse processo, o partido AKP esteve numa coalizão não oficial com islamistas menos visíveis; e seu mais poderoso parceiro de coalizão era o movimento de Fethullah Gülen. Suas escolas formavam turcos bem comportados, patriotas e piedosos, e o governo os acolhia bem nas elites burocráticas e de negócios que, aos poucos iam deslocando a velha guarda secular. Erdoğan e Gülen pareciam encarnar a ânsia de muitos turcos por um Islã em harmonia com uma democracia eleitoral, com empreendedorismo e consumismo. E o elemento islamista na fórmula deveria assegurar altos padrões de ética e bom comportamento. Durante anos, a vida pública fora venal, movida a ganância, ambições e apetites; os islamistas prometiam fazer as coisas de outro modo.

Abdurrahman Dilipak
Mas há ganância e apetites também entre os islamistas. Pouco depois das primeiras prisões de aliados de Gülen na polícia, em dezembro, um vídeo distribuído por internet mostrava um alto dirigente do partido AKP em flagrante delito. (Abdurrahman Dilipak, colunista conhecido e pró-governo, alegou que haveria mais de 40 outros vídeos em circulação, todos “forjados”). Conversas gravadas envolvendo Gülen também foram vazadas e ouvidas por milhões de turcos. Numa delas, Gülen é ouvido numa conversa em que se decidia que empresa turca receberia um contrato oferecido por governo estrangeiro. Em outra fita, Gülen e um de seus assessores discutem a probabilidade de três “amigos” (i.e., seus seguidores) em posições chaves na entidade do estado turco que controla os bancos, garantirem proteção a um banco ligado ao grupo de Gülen, o Bank Asya, contra investigações a serem conduzidas pelo governo. (Pouco depois do vazamento, os três funcionários em questão foram demitidos.) Tudo isso mostrava imagem muito diferente de um santo, que vivia vida frugal, de estudos e caminhadas pelas colinas da Pennsylvania, que Gülen cultivara.

O conflito assume agora tons absolutamente desbragados, e já é visível nos postos mais altos. Erdoğan recusa-se a pronunciar o nome de Gülen em público, mas quando fala de “falsos profetas, videntes e pseudos sábios vazios”, seu alvo é claro. Num dos frequentes sermões que Gülen pronuncia de sua própria casa, e alcança vastas audiências na Turquia graças a redes de televisão que o apoiam e à Internet, o pregador exilado lançou uma maldição contra seus inimigos: “que Deus consuma em fogo as casas deles, destrua os ninhos deles, quebre os acordos entre eles”. Denúncias de vasta corrupção dentro do governo, muitas das quais envolvendo contratos viciados para projetos de construção e violação de áreas reservadas de zoneamento, são insistentemente repetidas pelos veículos de imprensa-empresa gülenistas, tão insistentemente repetidas que acabam por já serem vistas como verdade comprovada.

Dia 24/2, gravações de conversas telefônicas entre o primeiro-ministro e seu filho Bilal, nas quais pai e filho estariam combinando o modo de esconder dezenas de milhões de euros, foram distribuídas por YouTube. O primeiro-ministro declarou que as gravações eram forjadas, mas elas foram ouvidas dois milhões de vezes em 24 horas imediatamente depois de postadas. Ainda que os expurgos que Erdoğan promoveu no Judiciário e na Política impliquem que não haverá processos nem, portanto, condenações (e a imunidade parlamentar na Turquia proteja alguns dos aliados de Erdoğan), ainda assim é difícil supor que o governo volte a recuperar a reputação de probidade de que gozava antes.

O terreno da disputa é tanto comercial quanto político. O governo acusou o Bank Asya de afiliados de Gülen de ter comprado 2 bilhões (de liras turcas) em moeda estrangeira pouco antes das operações policiais de dezembro passado – o que implica dizer que os funcionários do banco teriam sido avisados com antecedência sobre o que viria e da consequente queda do valor da lira turca. O banco luta agora para deter uma corrida de saques, que fez o preço das ações cair cerca de 46% entre 16/12 e 5/2. Até especialistas não gülenistas entendem que o governo orquestrou a corrida ao banco, tentando arruinar o Bank Asya, sem se preocupar com danos colaterais, tanto contra os pequenos correntistas como contra todo o sistema bancário que a corrida fatalmente causaria. O capitalismo turco é só muito tenuemente controlado pelo sistema jurídico-judiciário.

Recep Tayyip Erdoğan
A imagem de Erdoğan também está abalada. No verão passado, as manifestações mostraram ao público turco um primeiro-ministro enfurecido, tomado de ira e de medo, como quando reagiu contra a insatisfação de uma minoria predominantemente secular, não com gestos magnânimos, que teriam satisfeito muitos dos manifestantes, mas com cassetetes, porretes bombas de gás e denúncias de um complô sinistro orquestrado ‘do exterior’, mantido por um sinistro “lobby das taxas de juros”, para negar aos turcos o seu bem merecido lugar ao sol.

Quando diz “lobby das taxas de juros”, Erdoğan fala de especuladores ocidentais inescrupulosos – judeus, por implicação –, e os discursos dele despertam antigas lembranças; dentre outras, de uma Turquia terrivelmente endividada nos bancos europeus, nos tempos otomanos, o que enfraqueceu mortalmente o império antes do colapso, na Iª Guerra Mundial. Mas Erdogan invoca também os sombrios anos 1990s, quando uma economia inflacionada, corroída de dívidas e improdutiva foi usada como playground por investidores sanguinários, realizavam seus lucros quando o mercado inchava e só reapareciam depois do crash inevitável, beneficiando-se de juros reais de, em média, 32%.

Soner Cagaptay
Esses traumas marcaram a abordagem que Erdoğan deu aos aspectos monetários da crise. Mesmo antes de 17/12, uma combinação de compras de bônus do Federal Reserve; a ameaça de subida nas taxas globais de juros; sinais de que a economia turca começava a esfriar, e tumultos políticos causados pelos protestos do verão passado derrubaram a lira, que caiu cerca de 9%. A queda acentuou-se depois das prisões em dezembro, mas o primeiro-ministro só autorizou ligeira alteração na taxa de juros depois que a moeda já caíra mais 13%, e as empresas turcas, fortemente expostas no curto prazo, com dívidas em dólares, lutavam para cumprir suas obrigações financeiras. Finalmente, dia 28/1, o Banco Central aumentou as taxas, e a queda da lira foi afinal contida.

A resistência ideológica de Erdoğan, contra o aumento dos juros, custou muito caro a empresas turcas. Nas palavras de Inan Demir, economista do Finansbank, em Istambul:

Não havia outra saída, além de aumentar os juros, ou haveria pânico em grande escala, mas deveriam ter sido aumentados muito antes. Agora, as empresas turcas estão no pior dos mundos, com dificuldades sempre crescentes para pagar, por causa da lira fraca; e com custos financeiros sempre mais altos, por causa dos juros altos.

Em apenas quatro meses, o Finansbank revisou a previsão de crescimento para 2014, de 3,7% para 1,7% – depois de uma década de crescimento médio de mais de 5%. (...)

The Rise of Turkey: The Twenty-First Century’s First Muslim Power, novo livro de Soner Cagaptay [discute a economia turca] e nada diz sobre o movimento Gülen, exceto que organizou coruscante conferência internacional, da qual o autor do livro participou, sobre “o papel de liderança da Turquia na Primavera Árabe”.

De importante, é que tal conferência seria hoje impensável, porque os Irmãos da Fraternidade Muçulmana aliados de Erdoğan foram já expulsos do poder no Egito, e toda a política deles para a Síria (que previa, erradamente, que seria fácil derrubar o governo de Bashar al-Assad) já fracassou completamente. Cagaptay não é, absolutamente, o único acadêmico que aceitou a hospitalidade do movimento Gülen, que ele classifica como movimento “de prestígio”. O problema é que Fethullah Gülen além de ser feito de “prestígio”, também é feito de muito dinheiro.

Gülen: The Ambiguous Politics of Market Islam in Turkey and the World foi escrito por um sociólogo norte-americano, Joshua Hendrick, que trabalhou durante sete meses como editor voluntário numa editora afiliada ao movimento gülenista em Istambul. Eu, que passei recentemente alguns dias com gülenistas, que me pareceram entusiasmados, radiantes, extremamente solícitos e surpreendentes, de início, e, logo depois, cansativos e tediosos, só posso admirar o tempo que Hendrick sobreviveu entre eles. Afinal, valeu a pena, porque nos oferece um estudo detalhado de um movimento definido, se é que se pode dizer assim, pela distorção, pela ocultação e pelo obscurecimento.

Fethullah Gülen nega que comande qualquer tipo de movimento ou que mantenha qualquer vínculo institucional com organizações que o reverenciam. Seus seguidores – já estimados em cerca de 5 milhões – dizem que não formam rede; que são unidos exclusivamente pelo respeito pelo Hocaefendi, o “estimado professor”, movidos por sua visão de um Islã moderno e tolerante, que valoriza o conhecimento e o progresso material, tanto quando a piedade e a caridade. Empresas que pertençam ou sejam apoiadas por gülenistas não se identificam como tais, embora haja uma associação, a Confederação Turca de Empresários e Industriais, cujos membros não ocultam a admiração pelo líder. Por tudo isso, é difícil saber quantos bilhões de dólares circulam nessa “comunidade”. O retrato de Gülen nunca desaparece das paredes das mais de mil escolas privadas, em mais de 120 países, organizadas por seus aderentes, ou das manchetes do jornal Zaman, também de seguidores de Gülen – e o maior jornal da Turquia.

Joshua Hendrick
Como observa Hendrick, muita gente sequer se dá conta de que vive na órbita de Gülen – um pai que envie a filha para uma escolha “de gülenistas” na África do Sul, por exemplo; ou um empregado de serviço terceirizado de uma empresa de construção, mandado trabalhar na Rússia. A negabilidade e a ambiguidade sempre foram e continuam a ser “cruciais para o ininterrupto crescimento [do movimento] nos últimos 30 anos”.

O outro fator é o próprio Gülen. O magnetismo pessoal sempre o ajudou a conquistar seguidores desde os anos 1960s, quando, ainda jovem imã de mesquita, já era conhecido pelo estilo emocional de pregar, frequentemente explodindo em lágrimas e, mesmo, atirando-se e rolando pelo chão. Um seguidor que acabava de voltar de uma visita ao Hocaefendi nos EUA, descreveu-o para Hendricks como “dono de poderes que uma pessoa medianamente culta e educada nem consegue imaginar. É um presente de Deus”.

Em alguns sentidos, Gülen é reverenciado como se reverenciam os “pole” sufis, seres humanos eleitos por Deus para difundir a verdade divina; mas o movimento Gülen é mundano demais para ser incluído entre movimentos sufis. “Agir” é o princípio orientador declarado dos gülenistas, não qualquer distanciamento ou introspecção.

Acompanhando os ensinamentos de dum adivinho turco do século 20, Bediüzzaman Said Nursi, Gülen crê que a humanidade tenha de ser salva do pecado e aprender o caminho da revelação e o exemplo profético do Corão. A partir do mesmo ponto, outros revivalistas muçulmanos no século 19, sobretudo Sayyid Qutb, do Egito, justificaram a violência e a aplicação à força da lei sagrada. Gülen tende na direção inversa. Prega “abraçar as pessoas, sem considerar diferenças de opinião, visão de mundo, ideologia, etnia ou crença” e com vistas à “democracia, aos direitos humanos e às liberdades” – o que para Qutb é anátema.

Bediüzzaman Said Nursi
A visão de mundo de Gülen ajuda a entender, em certa medida, o internacionalismo do movimento, a ênfase no ensino de idiomas nas suas escolas, e a busca do diálogo entre várias fés, em encontros, conferências e projetos universitários. Diferente de outras organizações islâmicas, o movimento Gülen não recolhe dinheiro exclusivamente para muçulmanos, mas também para não muçulmanos (para as vítimas do terremoto no Haiti, por exemplo). Gülen e seus principais assessores dedicam muito trabalho no esforço de se afastarem de qualquer antissemitismo, e, até, de qualquer crítica contra Israel. Assim, os esforços do movimento para fixar-se nos EUA foram muito facilitados; há ali cerca de 140 escolas especiais gülenistas, e Gülen cultivou boas relações com aliados poderosos na política, na educação e nas artes.

Apesar disso tudo, os gülenistas estão sendo examinados de perto por pais e mães norte-americanos que enviam seus filhos para aquelas escolas, e que se preocupam com a opacidade de seus objetivos e métodos; e, em termos mais gerais, também por observadores que não veem com clareza o que, exatamente, Gülen prega ou representa.

Desde o início do século 19, a educação é preocupação central dos reformadores muçulmanos – com ênfase nas ciências – e o movimento de Gülen não é diferente. Na Turquia, o movimento já controla oito universidades, dúzias de escolas secundárias privadas e cerca de 350 outras instituições que preparam os alunos para os exames vestibulares, de acesso às universidades. O sistema público de educação na Turquia não tem boa reputação; os pais, então, economizam para conseguir mandar os filhos para essas instituições pré-vestibulares.

Numa dessas instituições, imaculadamente limpa e muito bem equipada, um gülenista, professor graduado, disse-me que os cursos preparatórios gülenistas põem alunos nas melhores universidades da Turquia, e que reservam 15% dos lugares para alunos pobres, que recebem bolsas de estudo. O professor interrompeu nossa conversa para ir à mesquita, do outro lado da rua, fazer suas preces; e voltou depois, acompanhado de dois alunos agradáveis, de boas maneiras (as moças estudam em ala separada dos rapazes). Contaram-me sobre o sistema “grande irmão”, pelo qual se assegura apoio moral e material aos alunos que vivem longe de casa e que se distribuem pelos dormitórios da escola preparatória. Um dos rapazes observou que os professores o tratavam “como seu próprio filho”. O movimento gülenista é dado a analogias familiares. Não aprecia trabalhadores que só se dedicam “das nove às cinco”; e a dedicação é apreciada igualmente nos alunos e nos professores.

Riqueza, sucesso, a excitação de participar de uma verdade sublime – o movimento Gülen difunde-se com muita energia, empurrado por esses estímulos. É fácil imaginar o senso de dever que toma os gülenistas mais pobres depois que são elevados àquele mundo de brilhos, cosmopolita e, sobretudo, muito firmemente entretecido. Tanto quanto mediante os livros e discursos do Hocaefendi, eles são também promovidos por laços de amizade; no caso de as famílias originais não quererem trilhar os novos caminhos, então os gülenistas têm de escolher entre a família velha e a nova família.

Cultos e organizações fechadas em todo o mundo se têm servido de métodos semelhantes, e os resultados nem sempre são felizes. Uma psicóloga em Istambul contou-me sobre um menino muito pobre, filho de um porteiro no distrito mais caro da cidade, que a procurou depois de ter tido contato com um grupo de gülenistas. Eles o acolheram, convidaram-no a visitar a casa onde viviam juntos, o apresentaram às ideias do Hocaefendi, e o fizeram sentir-se vivo, realizado e acolhido. Até que um dia, sozinho em casa, mexendo numa pilha de DVDs, pôs no aparelho um dos discos. Era um guia para atrair novos recrutas, com táticas que o rapaz reconheceu que haviam sido usadas para atraí-lo. Pouco adiante, o rapaz procurou minha amiga psicóloga.

No início de seu livro, Hendrick reproduz parte da transcrição de um vídeo vazado e que foi item da acusação em processo movido contra Gülen em 2000, no qual foi julgado in absentia (Gülen já havia fugido da Turquia para os EUA) por conspiração contra o estado secular. Nesse já famoso excerto, Gülen diz aos seus apoiadores:

Vocês devem mover-se nas artérias do sistema, sem que ninguém perceba a presença de vocês, até alcançarem os centros de poder (...) Vocês têm de esperar até terem tomado todo o poder do estado.

Mas Hendrick não avança muito profundamente na discussão das várias denúncias que se fizeram contra Gülen ao longo dos anos; como sociólogo, talvez entenda que não é trabalho que lhe caiba.

Alegações de que Gülen estaria tentando tomar o controle de órgãos do estado, particularmente o Judiciário e a Política datam, pelo menos, de 1971, quando Gülen cumpriu pena de sete meses de prisão por trabalhar para minar o secularismo. Essas acusações têm a ver com uma importante diferença entre o movimento de Gülen e outras tradições islamistas turcas. Enquanto outras tradições reagiram de modo ortodoxo contra os obstáculos legais e políticos que lhes foram impostos, concorrendo em eleições e disputando postos de poder, os gülenistas tentaram permanecer corretamente alinhados às instituições seculares (nem sempre com sucesso, como o comprovam a condenação e a prisão de Gülen), ao mesmo tempo em que, gradualmente, se infiltravam dentro delas.

Ahmet Sik, ao ser preso em 31/5/2013
Em 2011, um jornalista, Ahmet Şık, lançou um livro The Imam’s Army [O Exército do Imã], no qual expôs o modo como os gülenistas assumiram o controle da força policial turca, ao longo de vinte anos.

The Imam’s Army é livro rico de detalhes fascinantes. Fala de uma diretiva que teria sido lançada para os policiais gülenistas no final dos anos 1990s, no auge de uma campanha, pelas autoridades seculares, contra os islamistas turcos. Por essa diretiva, os seguidores de Gülen na Polícia receberam ordens para retirar de suas casas todos os livros, espalhar latas vazias de cerveja pela casa, não usar turbantes para, assim, exibir imagem “secular”. Şık também escreve sobre transferências e demissões que são rotina para todos os policiais veteranos ou procuradores que tentam atacar gülenistas, e as campanhas de vilificação movidas contra eles pelas empresas-imprensa ligadas aos gülenistas, em especial pelo jornal Zaman.

Şık recuperou parte de seu material de livro publicado antes, escrito por um ex-chefe de polícia, Hanefi Avcı. Em setembro de 2010, dois dias antes da data em que teria de comprovar suas denúncias numa conferência de imprensa, e apesar de sua manifesta tendência de direita, Avcı foi preso e acusado de pertencer a uma organização de esquerda. Şık foi preso no ano seguinte, pouco antes da data prevista para o lançamento de The Imam’s Army. (Apesar dos esforços da polícia para destruir todas as cópias digitais do livro, o texto foi postado na Internet, e foi baixado 100 mil vezes em dois dias). Mais jornalistas foram presos na sequência, sob pretextos variados, e todos os casos foram reunidos numa só grande investigação sobre um alegado complô contra o governo, pelo antigo establishment secular. A conspiração recebeu o nome de Ergenekon, da pátria mítica da nação turca na Ásia Central.

Quando foi iniciada em 2007, a investigação Ergenekon foi bem recebida por muitos turcos como oportunidade para o país pôr ponto final aos abusos cometidos pelas Forças Armadas e seus aliados. Mas muito antes de a investigação chegar ao clímax, em agosto do ano passado, com a prisão de 242 pessoas, incluído um ex-chefe do Estado-Maior, acusado de pertencer à “organização terrorista Ergenekon”, já muitos haviam mudado de opinião sobre todo o processo, dadas as flagrantes irregularidades no inquérito e no julgamento. Houve condenações sem outras provas além de gravações ilegalmente obtidas; vários casos visíveis de provas “plantadas” contra um ou outro acusado. A maior irregularidade de todas, provavelmente, se verificou num processo relacionado a esse, em que 330 membros, entre aposentados e do serviço ativo das Forças Armadas foram encarcerados, condenados por planejarem um golpe, em 2003, embora não houvesse qualquer prova contra eles além de um único CD cujo exame mostrou que, um dia, ali estivera gravada a versão 2007 do Microsoft Office.

Hanefi Avcı
O julgamento “Ergenekon” deveria ter sido a vingança final colhida pelos longamente reprimidos islamistas turcos e Erdoğan como seu líder. Mas há boas razões para afirmar que jamais existiu algo semelhante à tal organização Ergenekon e que todo o processo foi motivado por desejo de vingança. Segundo Gareth Jenkins, acadêmico britânico que analisou a fundo todo o caso, a operação foi montada e executada não por Erdoğan, mas por “uma gangue de seguidores de Gülen na polícia e nos baixos escalões do Judiciário”. Na opinião de Jenkins, os gülenistas usaram a operação para castigar seus inimigos. Jenkins acredita que Ahmet Şık, Hanefi Avcı e os demais jornalistas presos – alguns dos quais ainda esperam pela sentença – foram punidos por serem “críticos, opositores ou rivais do movimento Gülen”.

Ainda em 2006, Fethullah Gülen foi absolvido da acusação de tentar tomar o estado turco, mas Erdoğan, seu ex-aliado, deu nova vida à mesma ideia. Tendo apoiado aquela investigação Ergenekon, Erdoğan dedica-se agora a reabrir o mesmo caso, sem dúvidas para usar como publicidade e propaganda os abusos judiciários cometidos pelos gülenistas. Mês passado, Erdoğan reagiu com abuso de sua própria autoria: fez aprovar uma lei, pelo Parlamento, que dá maior poder ao governo para controlar juízes e procuradores.

A disputa entre Gülen e Erdoğan marca o fim de uma parceria que levou o islamismo ao poder na Turquia, e põe por terra a crença, cara até a alguns liberais, de que, se a Turquia deixasse falar sua maioria religiosa e pia, seria também país mais justo.
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[*] Christopher de Bellaigue nasceu em Londres em 1971. Trabalha como jornalista no Oriente Médio e Sul da Ásia desde 1994. Seu primeiro livro, In the Rose Garden of the Martyrs: A Memoir of Iran, foi indicado para o Prêmio Ondaatje da Royal Society of Literature. Seu último livro é Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Tragic Anglo-American Coup. Vive atualmente em Teerã com sua esposa e dois filhos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Golpes, golpistas e “mudança de regime”: Por que não nos agradecem?


21/6/2012, Pankaj Mishra, London Review of Books, vol. 34, n. 12, pp. 19-20
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre: BELLAIGUE, Christopher de. Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Very British Coup [Patriota da Pérsia: Muhammad Mossadegh e um Golpe BB (Bem Britânico], Londres: Bodley Head, 310 pp, £20.00, ISBN 978 1 84792 108 6

Não somos liberais do tipo que a CIA consegue assassinar, como Allende e Mossadegh
(Aiatolá Ali Khamenei, aos EUA, durante a revolução iraniana, em 1979)

Pankaj Mishra
Em 1890, um ativista muçulmano itinerante de nome Jamal al-din al-Afghani estava no Irã, quando o então governante iraniano, Naser al-Din Shah Qajar, entregou uma concessão de tabaco a um comerciante britânico chamado G.F. Talbot; de fato, garantiu-lhe total monopólio para comprar, vender e exportar tabaco. Al-Afghani pôs-se a protestar, tentando chamar a atenção de todos, e criticou veementemente a medida, aprovado por um coro de intelectuais seculares e de comerciantes conservadores. Para Al-Afghani, depois daquela concessão, os plantadores locais de fumo estariam para sempre entregues aos infiéis, sem qualquer defesa; disse que ali começava o fim de todos os pequenos comerciantes de tabaco. Imediatamente organizou grupos de pressão – o que foi inovação política até então jamais vista em Teerã –, que enviavam cartas anônimas às autoridades e funcionários e distribuíam panfletos e cartazes pelas ruas, conclamando os iranianos à revolta. Na primavera seguinte, houve grandes protestos de rua nas principais cidades.

Com a ajuda do telégrafo, também recentemente aparecido no Irã, as manifestações de massa que receberiam o nome de Tobacco Protest [Protestos do Tabaco] foram tão cuidadosamente planejadas e coordenadas como só voltariam a ser 100 anos depois, na Revolução Islâmica de Khomeini, quando gravadores e cassettes de fitas gravadas tiveram papel semelhante ao do telégrafo, e as mulheres participaram em massa.

Al-Afghani também escreveu ao Grande Aiatolá Mirza Hassan Shirazi em Najaf, oferecendo ao clérigo xiita enormemente popular e influente, mas alheio à vida política, uma primeiríssima lição xiita sobre o que seriam os “ajustes estruturais’que as empresas financeiras ocidentais, dali em diante, imporiam aos países pobres:

“Não sei o que faça para que entendais o que é o Banco!” – escreveu Afghani. “Banco é entregar as rédeas do governo ao inimigo do Islã, escravizar o povo àquele inimigo, render-se a ele; e entregar todo o poder e todo o domínio nas mãos do inimigo estrangeiro.”

Al-Afghani talvez exagerasse. Mas sabia bem, pelo que vira acontecer na Índia e no Egito, o quão rapidamente acontecia de comerciantes e banqueiros ocidentais aparentemente inócuos converterem-se em diplomatas e soldados. O Xá já depusera aos pés da Europa e dos imperialistas europeus ainda informais a relativa imunidade de que gozava o Irã. 

Em 1872, com os capitais do país já saqueados e com um massivo déficit no orçamento, o Xá entregara outro monopólio, dessa vez para construir estradas férreas, rodovias, fábricas, barragens e minas, a outro cidadão britânico, o Barão Reuter (fundador da agência de notícias de mesmo nome). O próprio Lord Curzon ficou boquiaberto quando, vinte anos depois, foi informado sobre os termos da concessão; descreveu-a como “a mais completa rendição de todos os recursos de um reino, entregues a mãos estrangeiras, com a qual alguém algum dia sonhou – e muito menos alguém algum dia obteve – em toda a história.” Houve protestos da Rússia, vizinha do Irã e principal concorrente da Grã-Bretanha na região, e a concessão foi cancelada; e Reuter, aliás, já tinha outros ferros aquecendo no fogo.

Ocorrida apenas oito anos depois de os britânicos ocuparem o Egito, a concessão do tabaco chamou a atenção de al-Afghani, como prática obscena. Expulso do Irã pelo Xá, al-Afghani manteve ativo fogo de barreira de cartas para todos os principais clérigos xiitas nas cidades santas da Mesopotâmia, implorando que saíssem do estado de apatia política e se mobilizassem para lutar contra o Xá. Poucos meses depois, Shirazi escreveu sua primeira carta ao Xá, sobre tema político, denunciando os bancos estrangeiros e o poder crescente que acumulavam sobre a população muçulmana; e as concessões comerciais que os europeus recebiam. O Xá, desesperado para manter o apoio que lhe dava a Ulema, enviou emissários para tentar seduzir Shirazi. O clérigo, além de não ceder, respondeu com uma fatwa – que declarava pecado de anti-islamismo o ato de fumar, até que fosse cancelado o monopólio dado aos britânico para o comércio do tabaco. O gesto foi surpreendente bem-sucedido – até o palácio do Xá foi convertido em território sem-cigarros. E o Xá afinal capitulou, aceitou as condições de uma aliança entre clérigos, intelectuais e capitais autóctones e, em janeiro de 1892, cancelou a concessão do tabaco.

Muhammad Mossadegh era, nesse momento, o filho mais velho, de nove anos, mas de inteligência precoce, de um alto funcionário da administração do Xá. Homa Katouzian, autor de uma primeira biografia em língua inglesa, atribui sua oposição consistente a “qualquer concessão a qualquer potência estrangeira” à permanência de uma memória infantil da fúria popular que varreu o Irã contra aqueles primeiros ataques europeus à soberania nacional iraniana. Mossadegh, filho de família nobre, e que, ainda criança, recebeu o título nobiliárquico de mussadiq al-saltaneh, “garantidor da monarquia”, viria a ser, por improvável que parecesse, o líder da transição no Irã, da monarquia dinástica, para a política de massas. Depois daqueles eventos da infância, Mossadegh viveria o resto da infância e toda a adolescência até chegar à idade adulta, num cenário de efervescência política que, antes daquele momento, ninguém jamais vira na Ásia.

Intelectuais e ativistas asiáticos começaram a desafiar o poder arbitrário dos imperialistas ocidentais e seus aliados nativos no final do século 19. Na primeira geração, havia agitadores e organizadores sociais polemistas, como al-Afghani, que agregaram à sua volta jovens anti-imperialistas cheios de energia, mas desorganizados, em Cabul, Istambul, Cairo e Teerã. A geração seguinte já produzia homens como Mossadegh, que foram expostos às práticas e hábitos ocidentais, ou formados e treinados em instituições de estilo ocidental, e eram talvez mais bem aparelhados para oferecer aos seus incansáveis compatriotas ideologia e políticas coerentes de nacionalismo anticolonial.

Christopher de Bellaigue
Na biografia escrita com astúcia política por Christopher de Bellaigue, Mossadegh não é o “velho tonto esperto” ou a “Xerazade birrenta” de tantas incontáveis matérias jornalísticas ou memórias, mas filho “daquela geração de asiáticos educados no ocidente que voltaram para casa, bigodes primorosamente aparados, para vender liberdade a seus compatriotas”:

“Servidores aplicados de uma mesma amante, La Patrie, esses turcos, árabes, persas e indianos liderariam os movimentos anticoloniais e transformariam o mapa do mundo”.

Mossadegh era espírito mais democraticamente orientado que Atatürk, por exemplo: de Bellaigue diz dele que foi “o primeiro líder liberal do moderno Oriente Médio ou da América”. Mas foi menos bem-sucedido que seus heróis, Gandhi e Nehru; estava próximo dos 70 anos e era hipocondríaco, quando afinal se tornou Primeiro-Ministro do Irã, em 1951.

Foi destino de Mossadegh ser liberal democrata num momento em que, como Nehru observou, vendo o modo como os navios de guerra britânicos comandavam o curso da política egípcia, “democracia em país oriental parece significar só uma coisa: mais um instrumento para exercer sobre nós o poder imperialista”.

Embora mais focados e com melhores recursos que al-Afghani, líderes moderados secularistas como Mossadegh tornaram-se vítimas fáceis dos imperialistas ardilosos. Jamais tiveram mais que uns poucos aliados “simbólicos” no ocidente; e foram desprezados no oriente, pelos fundamentalistas e linha-dura, que, adiante, assumiriam a tarefa pós-colonial de reconstruir a dignidade e força nacionais em vários locais do mundo.

O Aiatolá Khomeini, por exemplo, sempre falou com desdém de Mossadegh e de seu fracasso, por não ter cuidado de proteger o Irã contra o avanço do ocidente.

Todos, liberais e radicais iranianos sabem, de cor, muitos casos em que o país foi humilhado pelo ocidente no século 19, quando era dominado por britânicos e russos. Os eventos do início do século 20 minaram ainda mais a autonomia política do Irã, num momento em que as instituições políticas iranianas estavam sendo liberalizadas (havia parlamento recém estabelecido, como resultado da Revolução Constitucionalista de 1905-7).

Na Ia. Guerra Mundial, Grã-Bretanha e Rússia primeiro ocuparam, depois dividiram o país, para manter afastados os exércitos germano-otomanos. Nem o fim da guerra trouxe qualquer alívio. O Exército Vermelho ameaçava pelo norte, e os britânicos, já retalhando os territórios do Império Otomano, viram ali a oportunidade para anexar o Irã. Lord Curzon, então secretário do Exterior e convencido, nas palavras de Harold Nicolson, de que “Deus selecionou pessoalmente a classe superior britânica como instrumento da Vontade Divina”, impôs um acordo anglo-iraniano que, na prática, destruiu quase toda a soberania do Irã.

Conta-se que Mossadegh chorou, ao saber do acordo. Em desespero, decidiu emigrar para a Europa, com projeto para não voltar. Verdade é que Curzon, que nunca se destacou como arguto analista do humor dos nativos, subavaliara a reação local contra o acordo. O acordo foi denunciado; membros pró-britânicos do Majlis [Parlamento] foram fisicamente atacados. Ante tal oposição, Curzon endureceu ainda mais:

“Essa gente tem de aprender, custe o que custar, que não sobrevivem sem nossa ajuda. Não me incomoda esfregar no chão esses narizes arrogantes”.

Apesar da dureza de Curzon, a firmeza dos iranianos fez naufragar o tal acordo por “Vontade Divina”. Mas outro acordo mais terrestre e igualmente desigual já ligava Irã e Grã-Bretanha.

Prescientemente, comprando ações da empresa de petróleo APOC (Anglo-Persian Oil Company) em 1913, Winston Churchill já garantira que 84% dos lucros da empresa fossem remetidos à Grã-Bretanha. Em 1933, Reza Khan, soldado autodidata que se aproveitou do caos pós-guerra para chegar ao poder, fundou nova dinastia reinante (para profundo desgosto de Mossadegh) e renegociou um novo acordo com a APOC, acordo que, como logo se viu, foi notavelmente idêntico ao anterior. 

Durante a IIa. Guerra Mundial, tropas britânicas e russas derrubaram o antigo Xá, caracterizadamente pró-germânico, e coroaram Muhammad Reza, filho dele.

Durante esses anos, a política britânica foi manifestação diária, sempre repetida, do que de Bellaigue chama, sem exagerar, de “desprezo profundo pela Pérsia e pelos persas” – desprezo que explica e oferece a fagulha que incendiaria, não só o real nacionalismo iraniano, como, também, a inamovível certeza, entre os iranianos, de que a Grã-Bretanha é “força maléfica”.

Quando, em 1978, o Xá acusou Khomeini de ser agente britânico, caluniou-o da forma mais viciosa, tentando uma operação de difamação para a qual não houvesse remédio possível. Mas a acusação saiu-lhe pela culatra e gerou o primeiro grande protesto de massa contra o Xá.

A empresa APOC, rebatizada como Anglo-Iranian Oil Company, AIOC, em 1935, alcançou lucros de $3 bilhões de dólares entre 1913 e 1951, dos quais só $624 milhões permaneceram no Irã. Em 1947, o governo britânico arrecadou £15 milhões em impostos só sobre os lucros da empresa; ao governo iraniano coube só metade disso, a título de royalties. A empresa também alijou da administração os cidadãos iranianos; e impediu Teerã de fazer qualquer tipo de auditoria em suas contas.

O crescente sentimento anti-britânico finalmente obrigou Muhammad Reza a nomear Mossadegh como Primeiro-Ministro no início de 1951. Entre os nacionalistas iranianos já havia então partidos secularistas, partidos religiosos e partidos comunistas, além de partidos da esquerda não comunista. Mossadegh – o qual, como narra de Bellaigue, “foi o primeiro e único estadista iraniano a reunir em todo de si todas as linhagens nacionalistas” – tratou imediatamente de nacionalizar a indústria do petróleo.

Dezenas de milhares de iranianos saudaram, nas ruas, os funcionários enviados de Teerã para ocupar as unidades da empresa britânica em Abadan; os carros cobertos de poeira eram beijados. Um desses carros pertencia a Mehdi Bazargan, que, mais tarde, seria o Primeiro-Ministro da República Islâmica do Irã. 

O embaixador dos EUA relatou que Mossadegh era apoiado por 95% da população; o Xá confessou a Averell Harriman, diplomata que o visitava, que não se atrevera a dizer uma palavra contra a nacionalização. Mossadegh sentia-se carregado nas asas da história. “Centenas de milhões de asiáticos, depois de séculos de exploração colonial, chegaram agora à independência e à liberdade” – Mossadegh discursou na ONU, em outubro de 1951; os europeus reconheceram os direitos à soberania e à dignidade nacional de indianos, indonésios e paquistaneses. Por que continuavam a ignorar o Irã?

Foi apoiado por ampla coalizão de novos países asiáticos. Até os delegados de Taiwan, que ganharam direito a um assento na ONU à custa da República Popular da China de Mao, lembraram os britânicos de que “passou o tempo em que o controle sobre a indústria do petróleo do Irã poderia ser partilhado com empresas estrangeiras”.

Outros regimes pós-coloniais também rapidamente nacionalizariam as respectivas indústrias de petróleo, o que lhes deu controle sobre os preços internacionais e deixou as economias do ocidente expostas a choques severos. Mas a Grã-Bretanha, enfurecida com a impertinência de Mossadegh e desesperadamente carente da renda que lhe advinha do, então, maior investimento britânico no exterior, nada via e nada ouvia.

A Grã-Bretanha já não tinha meios para manter o império, mas, como de Bellaigue anota, em vários locais, “sobretudo no Irã, prosseguia o desfile dos louros de bochechas rosadas, em ternos e coletes bem cortados, como se nada houvesse mudado”. Muitos deles trabalhavam como diretores da Anglo-Iranian Oil Company – e, como um deles confessou, eram “perdidos, resmungões, mesquinhos, sem qualquer ideia comum que os unisse, confusos, acovardados, de mente estreita, caolhos”. 

Ainda convencida de que os britânicos “haviam prestado grande serviço aos iranianos por ter encontrado e extraído petróleo”, a Grã-Bretanha rejeitou uma proposta, apoiada pelos EUA, de que os lucros fossem divididos igualmente entre iranianos e britânicos; e lançou campanha devastadoramente efetiva de bloqueio contra a economia do Irã. “Se hoje nos curvarmos a Teerã, amanhã nos curvaremos a Bagdá” – como publicou o Express, na velha lógica de Curzon.

O retorno de Churchill a Downing Street em 1951 levou os neoimperialistas a endurecer ainda mais: o Daily Mail exortou o governo a “agir imediatamente, antes que a podridão se alastre”. Rapidamente foi construído um consenso anti-Mossadegh, que envolveu também os liberais. 

Em 1891, al-Afghani já contestara a imagem criada por Reuter, segundo o qual os iranianos lutariam por soberania como fanáticos religiosos; e perguntara-se se a coisa teria algo a ver com o interesse comercial britânico. Em 1951, o Observer de David Astor apenas requentava e repetia “notícias” e palavreado de Reuter, para proteger interesses britânicos. Em 1951, o jornal apresentava Mossadegh como “fanático”, “um trágico Frankenstein”... obcecado por um nacionalismo xenófobo”. 

Nas palavras de de Bellaigue: “Havia inquietação em todo o mundo branco, ante o show de má vontade oriental, de Mossadegh”. O ministério de Relações Exteriores britânico iniciou campanha de propaganda para convencer os norte-americanos da justeza da causa britânica; a imprensa dos EUA, obedientemente, alinhou-se. 

O New York Times e o Wall Street Journal compararam Mossadegh a Hitler, mesmo quando seu populismo às vezes autoritário enfrentava oposição do Parlamento, cada vez mais dividido, além de uma crescente oposição interna, de comerciantes, proprietários de terras, monarquistas, militares e clérigos de direita e extrema-direita (alguns dos quais abririam a cerca para dar passagem aos primeiros aventureiros da CIA e do MI6).

Em The US Press and Iran: Foreign Policy and the Journalism of Deference [Imprensa nos EUA e Irã: política exterior e jornalismo de deferência] (1988), William Dorman e Mansour Farhang provam que nenhum grande veículo de imprensa nos EUA jamais deu voz às queixas dos iranianos contra a AIOC. Em vez disso, o Washington Post reclamava que o povo iraniano era incapaz de manifestar “qualquer emoção de gratidão”. Anos depois, escrevendo com remorsos sobre o próprio trabalho em Teerã, o correspondente do New York Times Kennett Love, apresentaria Mossadegh como “um homem razoável” tentando atuar sob “pressões não razoáveis”. Mas o próprio Love estava sendo, então, sutilmente coagido a obedecer aos que Love descreveu depois como “meus absolutamente obtusos editores pró-establishment” em New York, e a colaborar com a embaixada dos EUA.

Já tendo inventado e proclamado o “século americano”, o Time de Henry Luce dedicou particular atenção ao Irã-mercadoria: pregou que “os russos devem intervir lá, passar a mão em todo o petróleo e declarar a Terceira Guerra Mundial”. Os britânicos, já decididos a derrubar Mossadegh, logo se puseram a explorar a crescente obsessão dos norte-americanos com o expansionismo soviético: o Irã seria bom teste de como denegrir o nacionalismo asiático: associando-o ao comunismo soviético. Encontraram audiência receptiva nos irmãos Dulles (um, secretário de Estado; o outro, diretor da CIA no novo governo de Eisenhower), em 1953.

Trabalhando com fontes persas, de Bellaigue oferece informação de primeira qualidade sobre a “Operation Ajax” – o golpe montado pela CIA/MI6 que mudou o regime de Mossadegh e implantou lá o Xá Reza Pahlavi, em agosto de 1953, como imperador (quase) inamovível do Irã. 

A história de como EUA e Grã-Bretanha destruíram todas as esperanças dos iranianos de construírem para eles mesmos um estado liberal moderno já foi várias vezes contada. Mas as lições de 1953 ainda estão longe de terem sido bem aprendidas. 

Já em 1964, Richard Cottam, assessor político da embaixada dos EUA nos anos 1950s e, depois, professor e especialista em Irã, alertava para a evidência de que as “distorções” introduzidas por jornalistas, intelectuais e professores no que se sabe sobre a era Mossadegh beiram “o grotesco; e até que essa era possa ser analisada sob luz menos falsa, praticamente não há esperança de que os EUA construam política externa menos simplória, mais sofisticada e de melhor qualidade, para o Irã.” (E poderia ter acrescentado: para todo o Oriente Médio.) O New York Times deu destaque às renovadas esperanças imperiais, imediatamente depois do golpe que mudou o regime e derrubou Mossadegh:

“Países subdesenvolvidos e ricos em recursos aprenderam a lição, pagando o alto preço que têm de pagar todos quantos, como o Irã, se deixem tomar por nacionalismo fanático”. 

Apesar de informado muitas vezes por Kennett Love, o Times nunca fez qualquer menção ao papel protagonista que teve a CIA na “mudança do regime” de Mossadegh: aquela foi a primeira grande operação da agência, então desconhecida do grande público, de toda a Guerra Fria. Nas boas vindas que deu ao Xá, quando visitou os EUA em 1954, o Times exultava:

“Hoje, Mossadegh está onde tem de estar – na cadeia. O petróleo voltou a fluir para os livres mercados do mundo”. “E o Irã”, continuava o Times, “marcha rumo a novos e auspiciosos horizontes”. 

A imprensa-empresa nos EUA, que descrevia Mossadegh como “o Führer iraniano” aplaudia agora os projetos do Xá, de modernização faraônica. Foi resultado, pelo menos em parte, de o Xá garantir hospedagem de potentado aos figurões da imprensa-empresa nos EUA cujos nomes apareceram na lista divulgada pelos revolucionários iranianos em 1979 (Walter Cronkite, Barbara Walters, Peter Jennings e Mrs. Arthur Sulzberger).

Fortalecido por esse apoio, o antes tímido Xá começou a manifestar sintomas da síndrome que al-Afghani identificara em um dos predecessores:

“Por bizarro que pareça, não há dúvidas de que, após cada visita à Europa, o Xá aprofunda as ações de tirania contra o próprio povo”.

A imprensa-empresa nos EUA tinha pouco tempo a perder ouvindo iranianos médios. Mas os iranianos médios, já em 1953, como escreve de Bellaigue, viam os EUA como “novos cúmplices do Xá, na injustiça e na opressão”.

Empresas dos EUA ganharam fatia de 40% da produção de petróleo no Irã, depois de o regime de Mossadegh ser derrubado por golpe [“mudança de regime”]. No início da década dos 1960s, intelectuais iranianos, muitos deles forçados ao exílio, já haviam começado a pesquisar para descobrir como aconteceu de – nas palavras de Jalal al-e Ahmad, em Gharbzadegi [1] – os movimentos dos EUA terem permanecido absolutamente encobertos e ignorados, enquanto outros entravam e saiam do Irã; a ponto de “os iranianos só nos termos dado conta do que acontecera, depois de todas as torres de petróleo de empresas ocidentais já terem empalado nossa terra”.

A hostilidade dos iranianos contra os EUA só aumentou, ao tempo em que a CIA mantinha negociações regulares com torturadores e carrascos da polícia secreta do Xá. Até que a hostilidade saltou à tona, em 1979, chocando políticos e formadores de opinião nos EUA, que tentaram encontrar explicações para a revolução iraniana, como também tentaram encontrar explicações para o 11/9, em “interpretações” do Islã. 

Nenhum daqueles políticos e formadores de opinião percebeu que, como acontecera nos Protestos do Tabaco de 1891 e no levante nacionalista que levou Mossadegh ao poder, já se constituíra uma ampla coalizão nacional iraniana disposta a combater contra o Xá e seus aliados estrangeiros. 

Verdade é que, nos primeiros dias da revolução iraniana de 1979, os mossadeghistas (como Bazargan) apareciam em posição tão sólida e destacada quando seus aliados islamistas e socialistas. Mas dois fatores fizeram pender a favor dos revolucionários islamistas radicais a balança da indignação popular e do correspondente poder revolucionário: Jimmy Carter ofereceu asilo ao Xá em 1979; e só os estudantes islamistas encontraram meios para impor resposta/retaliação à altura da ofensa (e atacaram a embaixada dos EUA em Teerã).

A guerra brutal que Saddam Hussein impôs ao Irã durante oito anos, cinicamente auxiliado pelos EUA, forçou a República Islâmica a entrincheirar-se e ajudou a polir a imagem popular do Grande Satã. Sempre sob pressão, reformadores liberais que se reuniam em torno de Mohammad Khatami foram novamente enfraquecidos quando George W. Bush, repentinamente, decidiu incluir o Irã no seu “eixo do mal”. Depois disso, as invasões e ocupações pelos norte-americanos nas vizinhanças do Irã só fizeram confirmar a percepção dominante entre os iranianos de que o ocidente é incompetente e incapaz, tanto culpado do que Khomeini definiu comoistikbar i jahani (“arrogância global”).

Em nenhum momento estivemos mais próximos de guerra entre o Irã e os EUA, que nos últimos meses, com políticos e jornalistas norte-americanos atentamente dedicados a promover as sandices em tom de bravado de Binyamin Netanyahu. Praticamente não se vê sinal na “grande” mídia, nem nos EUA nem na Grã-Bretanha, de que alguém esteja prestando atenção ao trabalho de de Bellaigue e de outros notáveis intelectuais iranianos. 

Resenha do livro de de Bellaigue publicada recentemente no The Guardian insistia que “o Xá levou ao Irã prosperidade, segurança e prestígio que jamais tivera, desde o século 17”. Mahmoud Ahmadinejad – político menor, oportunista, cujo apoio vem diminuindo e que é consistentemente desaprovado pelo Supremo Líder, aparece pintado nos jornais como o próximo Hitler.

Simultaneamente os liberais ignoram os efeitos das sanções econômicas sobre os cidadãos comuns – exatamente como já fizeram nos anos 1950s – e os governantes optam por não ver que, agindo como agem, dão sobrevida a um regime já semidesacreditado. Isso, porque as sanções e o ataque obcecado pelo ocidente contra o governo iraniano reduzem (de fato, cancelam completamente) qualquer possibilidade de qualquer mudança política ou econômica no Irã – motivo pelo qual também o “movimento verde”, que se opõe ao governo da revolução popular islâmica, também se opõe às sanções econômicas impostas pelo ocidente. 

Os aiatolás parecem estar sendo hoje sustentados no poder, de fato, pelas sanções econômicas impostas pelos EUA; como os revolucionários cubanos parecem estar sendo sustentado no poder, de fato, pelo embargo econômico imposto pelos EUA. 

Mas o tempo passa e os iranianos, a cada dia, veem mais claramente exposta a hipocrisia dos EUA, que nada faz além de servir ao estado ilegal de Israel, o único estado em todo o Oriente Médio armado com bombas atômicas. Os iranianos sabem, é claro, que os EUA, em 2005, firmaram acordo nuclear com a Índia. Se há opinião que atravessa e impõe-se sobre todas as divisões políticas no Irã é a defesa do direito do Irã a manter seus programas de pesquisa nuclear. 

O ocidente aspirante a progressista e avançado é incompetente para analisar corretamente, dentre outras coisas, a força ainda não abalada do nacionalismo iraniano, provado em longos combates. Mais bizarro e perigoso é que ignoram o quanto e como a atitude do grupo e da classe dominante no Irã foi-se endurecendo e radicalizando, depois de um século de humilhações que o ocidente lhe impõe ou tenta impor. 

Em 1979, durante a crise dos reféns norte-americanos detidos no Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, então jovem revolucionário e hoje Supremo Líder da República Popular Islâmica do Irã, disse, em resposta a ameaças dos EUA, há 33 anos:

“Não somos liberais do tipo que a CIA consegue assassinar, como Allende e Mossadegh”.

Sabia do que falava.



Nota dos tradutores
[1] Termo pejorativo, em persa. Apareceu no título [traduzido ao inglês como] Occidentosis: A Plague from the West [Ocidentose: a praga que veio do ocidente], escrito por Jalal Al-e Ahmad e publicado clandestinamente em 1962. Em inglês tem sido traduzido por Weststruckness, Westoxification, West-struck-ness”, “Westitis” (aprox. “ocidentalhagem” / “ocidentalice” / “ocidentite”, no sentido de “canalhagem” / “canalhice ocidental”, “ocidentose” / “infecção” / “doença ocidental”.