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domingo, 12 de dezembro de 2010

Cancún, mudança climática e WikiLeaks



Por Amy Goodman (7 de dezembro de 2010) - Democracy Now! - Tradução Adital
Tradução para o español

Cancún, México. Nessa semana, sob os auspícios das Nações Unidas, aconteceram negociações de vital importância para reverter o aquecimento global provocado pelos seres humanos. Trata-se da primeira reunião de grande importância desde o fracasso da Cúpula de Copenhague, em 2009, e se desenvolve no final da década mais quente que tenha se tenha registro. Apesar de muita coisa estar em jogo, as expectativas são poucas e, segundo temos conhecimento, graças às mensagens diplomáticas publicadas pelo WikiLeaks recentemente, os Estados Unidos, o maior contaminador da história do planeta, está envolvido no que um jornalista aqui classificou de "um negócio muito, muito sujo".

Um negócio sujo de verdade! No ano passado, em Copenhague, o presidente Barack Obama apenas chegou à cidade, conseguiu isolar um grupo seleto de países do restante da Cúpula, reunião a que somente poderia participar quem tivesse convite, para negociar o que foi divulgado como o “Acordo de Copenhague”. Esse acordo esboça um plano para que os países "se comprometam" publicamente a reduzir as emissões de carbono, ao mesmo tempo em que aceitam se comprometer com algum tipo de processo de verificação.

Também, segundo esse acordo, os países ricos e desenvolvidos se comprometeriam a pagar milhões de dólares a países pobres em vias de desenvolvimento para ajudá-los a adaptar-se à mudança climática e para que tenham economias baseadas em energias ecológicas em seu caminho rumo ao desenvolvimento. Isso pode soar bem; porém, na realidade o acordo foi desenhado para substituir o Protocolo de Kyoto, um tratado vinculante em âmbito mundial que conta com mais de cento e noventa países signatários. Chama a atenção que os Estados Unidos nunca o assinou.

As mensagens do Departamento de Estado estadunidense publicados por WikiLeaks ajudam a esclarecer o que aconteceu. Um dos principais críticos dos países desenvolvidos na etapa prévia à Cúpula de Copenhague foi o presidente Mohamed Nasheed, da República de Maldivas, um país formado por pequenas ilhas no Oceano Índico, que finalmente assinou o Acordo de Copenhague. Um memorando secreto do Departamento de Estados dos EUA, filtrado através de WikiLeaks, datado de 10 de fevereiro de 2010, resume as consultas feitas pelo recentemente nomeado Embaixador de Maldivas nos Estados Unidos, Abdul Ghafoor Mohamed. O memorando informa que durante seu encontro com o enviado especial adjunto dos Estados Unidos para a mudança climática, Jonathan Pershing, o embaixador disse:

“As Maldivas gostariam que países pequenos como nós, que estão na primeira linha do debate sobre mudança climática, recebam uma ajuda concreta por parte das economias maiores. Dessa maneira, outros países perceberiam que se pode obter vantagens a partir de sua expressão de conformidade”. Mohamed pediu cinquenta milhões de dólares para desenvolver projetos para proteger Maldivas do aumento do nível do mar

Pershing aparece em um memorando relacionado ao de Maldivas, datado uma semana depois, que se refere a uma reunião com Connie Hedegaard, Comissária Europeia de Ação pelo Clima, que desempenhou um papel chave em Copenhague, da mesma forma que agora em Cancún. Segundo o memorando, “Hedegaard sugeriu que os países da Aliança de Pequenos Estados Insulares (AOSIS, por suas siglas em inglês) “poderiam ser nossos melhores aliados”, já que necessitam financiamento”. Em outro memorando, datado de 17 de fevereiro de 2010, foi informado que “Hedegaard respondeu que devemos fazer algo a respeito dos países que não cooperam, como a Venezuela ou a Bolívia”. As declarações provinham de uma reunião com o Assessor Adjunto de Segurança Nacional para Assuntos Econômicos Internacionais, Michael Froman. O memorando continua dizendo: “Froman esteve de acordo em que necessitamos neutralizar, cooptar ou marginalizar a esses e a outros países, tais como Nicarágua, Cuba ou o Equador”.

A mensagem é clara: Se jogam com os Estados Unidos, receberão ajuda; se se opõem, receberão castigo.

Aqui em Cancun, perguntei a Jonathan Pershing e ao principal negociador estadunidense e enviado especial para a mudança climática, Todd Stern, acerca dos memorando e acerca de se o papel dos Estados Unidos equivalia a suborno ou democracia: “Se discute muito aqui, dentro e fora da Cúpula, acerca da coerção que se exerce tanto para que os países assinem o acordo, como para castigar àqueles que não o assinam, como Bolívia e Equador. A pergunta que vem é: “Isso é suborno ou democracia?” O que podemos esperar disso? Quais são seus comentários acerca das publicações de WikiLeaks?”

Stern respondeu: “Acerca das publicações de WikiLeaks, em si mesmas, não tenho comentários; é a postura do governo dos Estados Unidos. Em relação à sua pergunta mais ampla, lhe contarei uma breve anedota. Você deve recordar de uma das intervenções mais enérgicas, eloqüentes e fortes da noite final da Cúpula de Copenhague do ano passado, quando o Ministro da Noruega, Eric Solheim, ficou de pé após ter sido acusado diretamente de que a Noruega incorria em suborno por ser tão generosa em suas contribuições de assistência para mitigar os efeitos da mudança climática. Solheim ficou de pé e deixou sem argumentos a quem havia sugerido tal coisa, ao dizer-lhe que não podia, por um lado, pedir ajuda e expor uma sólida causa legítima de necessidade de assistência pela mudança climática; e, por outro, dar as costas e acusar-nos de suborno. Se desejam acusar-nos de suborno, eliminemos, então, a causa de qualquer acusação de suborno, eliminemos o dinheiro. Estive completamente de acordo com ele nesse momento e continua com a mesma posição agora”.

Perguntei-lhe: “Então, o que acontece com os países que foram castigados? Bolívia e Equador...”.

Stern disse: “Passemos à próxima pergunta”.

O moderador disse: “Creio que passaremos à próxima pergunta, por esse outro lado da sala...”

Sim, essa pergunta se referia aos países que os Estados Unidos retiraram o dinheiro da assistência destinado a minimizar os efeitos climáticos, como Equador e Bolívia, por se opor ao Acordo de Copenhague. Tanto ele quanto Pershing, como também o moderador, ignoraram a pergunta.

No entanto, Pablo Solón, embaixador da Bolívia para as Nações Unidas, tem uma resposta. Solón disse que os fatos falam por si mesmos: “Somente posso referir-me aos fatos, porque uma coisa que posso dizer com respeito às publicações de WikiLeaks é que não contêm fatos, portanto não quero julgar a nenhum país com base nisso; porém, posso assegurar-lhes é que cortaram a assistência a Bolívia e ao Equador. Isso é um fato. Além disso, disseram muito claramente: “Vamos cortar a ajuda porque vocês não apóiam o Acordo de Copenhague”. E isso é chantagem”. O Embaixador Solón não se mostra otimista a respeito do resultado das negociações que se desenvolvem em Cancún.

Solón disse: “Os compromissos propostos nesse momento implicam um aumento da temperatura de quatro graus Celsius [7.2 degrees Fahrenheit]. Isso é uma catástrofe para a vida humana e para a Mãe Terra”.

 Denis Moynihan contribuiu na pesquisa para esta coluna

domingo, 5 de dezembro de 2010

Decrescer ou morte?

Por valioso que o conceito decrescimento seja num sentido ecológico, só pode adquirir significado genuíno como parte de uma crítica da acumulação de capital. John Bellamy Foster abre um debate sobre o 'decrescimento', a crise de clima e o capitalismo.

ARTIGO | 4 DEZEMBRO, 2010 - 02:13
Imagem de ctrlzarchitectures.com
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No parágrafo inicial do seu livro de 2009 Storms of My Grandchildren [Tempestades dos/Ataques aos meus netos], James Hansen, o principal climatologista dos Estados Unidos e a autoridade científica mais avançada do mundo sobre o aquecimento global, declarou: ‘O planeta Terra, a criação, o mundo no qual a civilização se desenvolveu, o mundo com os padrões climáticos que conhecemos e as linhas de costa estáveis, está em perigo iminente... A conclusão alarmante é que a exploração contínua de todos os combustíveis fósseis na Terra ameaça não só outros milhões de espécies no planeta como também a sobrevivência da própria humanidade – e o tempo para o fazer é mais curto do que pensávamos.’

Ao fazer esta declaração Hansen, contudo, falava apenas duma parte da crise ambiental global que atualmente ameaça o planeta: a saber, as alterações climáticas. Recentemente, os cientistas mais destacados (incluindo Hansen) propuseram nove limites planetários, que marcam o espaço operacional seguro para o planeta. Três desses limites (alterações climáticas, biodiversidade, e ciclo do nitrogênio) já foram ultrapassados, enquanto os outros, como o uso de água fresca e acidificação do oceano, são brechas planetárias emergentes. Em termos ecológicos, a economia cresceu agora a uma escala e intrusividade tais que está a ultrapassar tanto os limites planetários como a rasgar os ciclos biogeoquímicos do planeta.

Assim, quase quatro décadas depois de o Clube de Roma ter levantado a questão dos 'limites do crescimento’, o ídolo de crescimento econômico da sociedade moderna está a enfrentar novamente um desafio formidável. O que é conhecido como ‘ Economia do decrescimento', associado ao trabalho de Serge Latouche em particular, emergiu como movimento intelectual europeu destacado com a conferência histórica sobre 'de-crescimento econômico para a sustentabilidade ecológica e a equidade social’ em Paris em 2008 e inspirou desde então um ressurgir do pensamento verde radical, tal como vem resumido na 'Declaração de Decrescimento’ de Barcelona 2010.

Ironicamente, a subida meteórica do decrescimento (décroissance em francês) como conceito coincidiu durante os três últimos anos com o reaparecimento da crise econômica e da estagnação numa escala que não se via desde os anos 30. O conceito de decrescimento, por isso, força-nos a confrontarmo-nos com a pergunta: será o decrescimento factível numa sociedade capitalista - crescer-ou-morrer – e em caso negativo, o que diz sobre a transição para uma nova sociedade?

Segundo o sítio web do projeto de decrescimento europeu (degrowth.eu), ‘o decrescimento transporta a ideia duma redução voluntária do tamanho do sistema econômico que implica uma redução do PIB.’ 'Voluntário' aqui aponta para a ênfase em soluções voluntaristas – embora não tão individualistas e sem planejamento, na concepção europeia, como a ‘simplicidade voluntária’ movimento, dos EUA, onde os indivíduos (normalmente bem na vida) simplesmente decidem saltar fora do modelo de mercado de alto consumo. Para Latouche o conceito de decrescimento significa uma mudança social importante: uma viragem radical do crescimento como objetivo principal da economia moderna, para o seu contrário (contração, redução).

Falsa promessa
Uma premissa subjacente deste movimento é que, em face de uma emergência ecológica planetária, a promessa da tecnologia verde provou ser falsa. Isto pode ser atribuído ao 'paradoxo de Jevons’, segundo o qual uma maior eficiência no uso de energia e de recursos não conduz à conservação, mas sim a um maior crescimento econômico, e assim a mais pressão sobre o ambiente.

A conclusão inevitável – associada a uma larga variedade de pensadores político-econômicos e ambientais, não apenas aos ligados diretamente ao projeto de decrescimento europeu – é que tem de haver uma alteração drástica nas tendências econômicas que operam desde a revolução industrial. Como o economista marxista dos Estados Unidos Paul Sweezy colocou há mais de duas décadas a questão: ‘Uma vez que não há nenhuma maneira de aumentar a capacidade do ambiente de suportar os fardos [econômico e demográfico] colocados sobre ele, resulta que o ajuste deve vir inteiramente do outro lado da equação. E uma vez que o desequilíbrio já atingiu proporções perigosas, também se segue que o essencial para o êxito é uma reversão, não simplesmente um abrandamento, das tendências subjacentes nestes poucos séculos passados. ’

Dado que os países ricos já são caracterizados pelo excesso ecológico, está cada vez mais evidente que de fato não há nenhuma alternativa, como Sweezy acentuou, a uma reversão nas exigências colocadas ao ambiente pela economia. Isto é compatível com o argumento do economista ecológico Herman Daly, que insistiu desde há muito na necessidade de uma economia de estado estável. Daly traça esta perspectiva em relação à famosa discussão de John Stuart Mill sobre o 'estado estacionário’ nos seus Princípios da Economia Política, que argumentava que se a expansão económica estabilizasse (como os economistas clássicos esperavam), o objetivo econômico da sociedade poderia então ser deslocado para os aspectos qualitativos da existência, em vez de uma mera expansão quantitativa.

Um século depois de Mill, Lewis Mumford insistiu na sua obra Condição do Homem, publicada pela primeira vez em 1944, que não só um estado estacionário no sentido de Mill era ecologicamente necessário, como devia ser ligado a um conceito de 'comunismo básico... Aplicando à comunidade inteira os padrões do lar’ e distribuindo ‘benefícios segundo as necessidades’ (uma visão que extraiu de Marx).

Hoje em dia este reconhecimento da necessidade de levar o crescimento econômico nas economias sobredesenvolvidas a uma paragem, e até de encolher essas economias, é visto como enraizamos teoricamente em A Lei da Entropia e o Processo Econômico de Nicholas Georgescu-Roegen que estabeleceu a base da economia ecológica moderna.

O decrescimento como tal não é visto, mesmo pelos seus proponentes, como uma solução estável, mas uma solução dirigida a reduzir o tamanho da economia a um nível de produto que pudesse ser mantido num estado estável perpetuamente. Isto poderia significar encolher as economias ricas até um terço dos níveis de hoje por um processo que equivaleria a investimento negativo (uma vez que não só o investimento líquido cessaria como nem todo o capital gasto seria substituído).

Uma economia estável, pelo contrário, executaria investimento de substituição, mas deter-se-ia em face de novo investimento líquido. Como Daly a define, ‘economia estável’ é ‘uma economia com estoques constantes de pessoas e artefatos, mantidos a alguns níveis desejados, suficientes, através de taxas baixas de "produção" de manutenção – isto é, pelos fluxos factíveis mais baixos de matéria e energia’.

Atacado por contradições
Obviamente nada disto surgiria facilmente dada a existência da economia capitalista de hoje. Especialmente, o trabalho de Latouche, que pode ser examinado como exemplar do projecto de decrescimento europeu, é atacado por contradições, resultantes não do conceito de decrescimento em si, mas pela sua tentativa de contornar a questão do capitalismo. Isto pode ser visto no seu artigo de 2006, ‘The Globe Downshifted’ [O Globo reduzido] onde discute sob uma forma retorcida:

‘Para alguns muito à esquerda, a resposta de algibeira é que o capitalismo é o problema, deixando-nos presos a uma rotina monótona e sem forças para nos movermos em direção a uma sociedade melhor. A contração econômica é compatível com o capitalismo? Esta é uma pergunta-chave, mas a que é importante responder sem recorrer ao dogma, se se quiser entender os verdadeiros obstáculos...

‘O capitalismo eco-compatível é concebível em teoria, mas irrealista na prática. O capitalismo iria requerer um alto nível de regulamentação que ocasionasse a redução da nossa pegada ecológica. O sistema de mercado, dominado por enormes corporações multinacionais, nunca dará lugar ao caminho virtuoso do eco-capitalismo por sua própria vontade...

‘Os mecanismos para contrariar poder com poder, como existiram sob as regulamentações Keynesianas-Fordistas da era social-democrata, são concebíveis e desejáveis. Mas a luta de classes parece ter-se despedaçado. O problema é este: o capital ganhou...

‘Uma sociedade baseada na contração econômica não pode existir sob o capitalismo. Mas o capitalismo é uma palavra enganadoramente simples com uma longa, complexa história. Livrar-se dos capitalistas e proibir o trabalho assalariado, a moeda e a propriedade privada dos meios da produção, mergulharia a sociedade num caos. Traria terrorismo de larga escala... Temos de encontrar outra saída do desenvolvimento, do economicismo (uma crença na primazia das causas e dos fatores econômicos) e do crescimento: um tal que não signifique renunciar às instituições sociais que foram anexadas pela economia (moeda, mercados, até salários), mas as reenquadrem segundo princípios diferentes’.

Nesta feição aparentemente pragmática, não-dogmática, Latouche tenta delinear as diferenças entre o projeto de decrescimento e a crítica socialista do capitalismo: (1) declarando que ‘o capitalismo eco-compatível é concebível’, pelo menos em teoria; (2) sugerindo que abordagens da regulamentação Keynesiana e as denominadas ‘Fordistas’, associadas à democracia social, poderiam – se ainda factíveis – domesticar o capitalismo, empurrando-o pelo ‘caminho virtuoso do eco-capitalismo’; e (3) insistindo que o decrescimento não é dirigido a quebrar a dialética do capital-trabalho assalariado ou a mexer na propriedade privada dos meios de produção. Noutros escritos Latouche deixa bem claro que vê o projecto do decrescimento como compatível com a valorização continuada (isto é o aumento das relações de valor capitalistas) e que tudo que se aproxime da igualdade substantiva é considerado fora de alcance.

O que Latouche advoga mais explicitamente em relação ao problema ambiental é a adoção do que refere como ‘medidas reformistas, cujos princípios [de economia de bem-estar] foram delineados no início do século 20 pelo economista liberal Arthur Cecil Pigou [e que] levariam a uma revolução’ internalizando as externalidades ambientais da economia capitalista. Ironicamente, esta posição é idêntica à da Economia ambiental neoclássica – enquanto distinta da crítica mais radical muitas vezes promovida pela Economia ecológica, onde a noção de que os custos ambientais podem ser simplesmente internalizados na economia capitalista atual é agudamente atacada.

Implicações de classe
‘A própria crise ecológica é mencionada’ no projeto corrente de decrescimento, como o filósofo grego Takis Fotopoulos observou criticamente, ‘em termos de um problema comum que "a humanidade" enfrenta por causa da degradação do ambiente, sem menção alguma das implicações de classe diferenciadas desta crise, isto é do fato de as implicações econômicas e sociais da crise ecológica serem principalmente pagas em termos de destruição de vidas e de sustento dos grupos sociais mais baixos – no Bangladesh ou em Nova Orleans – e muito menos nos termos das elites e das classes médias.’

Dado que faz do conceito abstrato de crescimento econômico o seu alvo e não da realidade concreta da acumulação de capital, a teoria do decrescimento – na forma influente verbalizada por Latouche e outros – acha naturalmente difícil confrontar-se com a realidade de hoje de crise/estagnação econômica que produziu níveis de desemprego e devastação econômica maiores do que em qualquer momento desde os anos 30.

O próprio Latouche escreveu em 2003 que ‘não haveria nada pior do que uma economia de crescimento sem crescimento’. Mas enfrentando uma economia capitalista presa numa crise estrutural profunda, os analistas do decrescimento europeus têm pouco para dizer. A Declaração do Decrescimento, lançada em Barcelona em Março de 2010, simplesmente pronunciou-se assim: ‘as assim chamadas medidas anti-crise que procuram impulsionar o crescimento econômico piorarão a desigualdade e as condições ambientais em longo prazo’. Não querendo defender o crescimento, nem romper com as instituições do capital – nem, de fato, alinhar-se com as e os trabalhadores, cuja necessidade maior no momento é o emprego – os principais teóricos do decrescimento permanecem estranhamente silenciosos face à maior crise econômica desde a Grande Depressão.

De fato, quando confrontado com 'decrescimento real’ na Grande Recessão de 2008-2009 e a necessidade duma transição para um 'decrescimento sustentável’, o notável economista ecológico Joan Martinez-Alier, que abraçou recentemente o estandarte do decrescimento, ofereceu o paliativo de 'um Keynesianismo verde de curto-prazo ou dum new deal1 verde’. O objetivo, afirmou, era promover o crescimento econômico e ‘conter a subida do desemprego’ através de investimento público em tecnologia verde e infraestruturas.

Isto foi encarado como consistente com o projeto de decrescimento, desde que tal Keynesianismo verde ‘não se tornasse uma doutrina do crescimento econômico contínuo’. Todavia como a gente trabalhadora se deveria ajustar nesta estratégia basicamente tecnológica (pregada em ideias de eficiência energética que os teóricos do decrescimento geralmente rejeitam) não foi deixado claro.

De fato, em vez de tratar com o problema do desemprego diretamente – através dum programa radical que daria empregos às pessoas dirigidos à criação de valores de uso genuínos em modos compatíveis com uma sociedade mais sustentável – os teóricos do decrescimento preferem enfatizar horários de trabalho mais curtos e separar ‘o direito a receber remuneração pelo fato de ser empregado’ (por meio da promoção de um rendimento básico universal). Supõe-se que tais mudanças permitam que o sistema econômico encolha e garantam ao mesmo tempo o rendimento às famílias – enquanto mantêm intactos todo o tempo a estrutura subjacente de acumulação de capital e os mercados.

Todavia, a partir de um ponto de vista mais crítico, é difícil ver a viabilidade de horários de trabalho mais curtos e garantias de rendimento básico na escala sugerida a não ser como elementos numa transição para uma sociedade pós-capitalista (de fato socialista). Como Marx disse, a regra do capital é: ‘acumule-se, acumule-se! É Moisés mais os profetas!’

Romper com a base institucional de 'a lei do valor’ do capitalismo ou questionar a estrutura subjacente que apoia a exploração do trabalho (ambos os quais seriam ameaçados por uma redução aguda do horário de trabalho e pelas garantias de rendimento substancial) é levantar questões mais amplas à mudança de sistema – que os principais teóricos do decrescimento parecem não ter vontade de reconhecer neste momento. Mais ainda, uma abordagem significativa à criação de uma nova sociedade teria de fornecer não meramente o rendimento e o lazer, mas dirigir-se às necessidades humanas do trabalho útil, criativo, não-alienado.

Decrescimento e o Sul
Ainda mais problemática é a atitude da maior parte da teoria corrente de decrescimento para com o Sul global. 'O decrescimento ', escreve Latouche, ‘deve aplicar-se ao Sul tanto como ao Norte se se quer que haja alguma possibilidade de impedir as sociedades do Sul de correrem para o beco sem saída da Economia de crescimento. Enquanto há ainda tempo, deveriam apontar não para o desenvolvimento, mas para o desembaraçamento – remover os obstáculos que os impedem de desenvolver-se diferentemente... Os países do Sul precisam sair da dependência econômica e cultural do Norte e redescobrir as suas próprias histórias’.

Não tendo uma teoria adequada do imperialismo, e não conseguindo dirigir-se à vasta brecha de desigualdade que separa as nações mais ricas das mais pobres, Latouche reduz assim todo o imenso problema do subdesenvolvimento a uma autonomia cultural e sujeição a um fetiche de crescimento ocidentalizado.

Isto pode ser comparado com a resposta muito mais refletida de Herman Daly que escreve: ‘é uma perda completa de tempo assim como moralmente retrógrado pregar doutrinas de estado estável a países subdesenvolvidos antes que os países superdesenvolvidos tenham tomado qualquer medida para reduzir o seu próprio crescimento demográfico ou o crescimento do seu consumo de recursos per capita. Por isso, o paradigma estável deve ser primeiro aplicado nos países superdesenvolvidos... Uma das maiores forças necessárias para empurrar os países superdesenvolvidos em direção ao... paradigma de estado estável deve ser o ultraje do terceiro mundo em relação ao seu sobreconsumo...

O ponto de partida na Economia do desenvolvimento deve ser o “teorema da impossibilidade”... Que uma economia de consumo de massas ao alto estilo dos Estados Unidos para um mundo de quatro mil milhões de pessoas [isto foi em 1975] é impossível, e mesmo que se por algum milagre pudesse ser realizado, seria certamente de vida curta’.

A noção de que o decrescimento como conceito pode ser aplicado essencialmente do mesmo modo tanto aos países ricos do centro como aos países pobres da periferia representa um erro de categoria que resulta da imposição crua de uma abstração (decrescimento) num contexto no qual essencialmente não tem sentido, como o Haiti, o Mali, ou até de muitas formas a Índia. O verdadeiro problema na periferia global está em superar elos imperiais, transformando o modo existente de produção e criando possibilidades produtivas sustentáveis-igualitárias.

É claro que muitos países do Sul com rendimentos per capita muito baixos não podem permitir-se um decrescimento, mas precisam de uma espécie de desenvolvimento sustentável, dirigido a verdadeiras necessidades como o acesso a água, alimentos, cuidados de saúde, educação, etc. Isto necessita duma viragem radical na estrutura social das relações de produção do capitalismo/imperialismo. É significativo que em artigos de Latouche feitos circular amplamente não haja praticamente nenhuma menção àqueles países, como Cuba, Venezuela e Bolívia, onde há envolvimento em lutas concretas para desviar as prioridades sociais do lucro para as necessidades sociais. Cuba, como o Relatório do Living Planet indicou, é o único país na terra com um alto desenvolvimento humano e uma pegada ecológica sustentável.

Co-revolução
É inegável hoje que o crescimento econômico é o condutor principal da degradação ecológica planetária. Mas prender uma análise inteira de alguém ao derrube de uma 'sociedade de crescimento’ abstrata é perder toda a perspectiva histórica e descartar séculos de ciência social. Por valioso que o conceito decrescimento seja num sentido ecológico, só pode adquirir significado genuíno como parte de uma crítica da acumulação de capital e parte da transição para uma ordem sustentável, igualitária, comunal – em que as e os produtores associados administram a relação metabólica entre natureza e sociedade no interesse de sucessivas gerações e a própria terra (socialismo/comunismo como Marx o definiu).

O que é necessário é um ‘movimento co-revolucionário’, adotando o termo cheio de significado de David Harvey que unirá a tradicional crítica da classe trabalhadora ao capital, a crítica do imperialismo, as críticas do patriarcado e do racismo e a crítica do crescimento ecologicamente destrutivo (juntamente com os respectivos movimentos de massas).

Na crise generalizada dos nossos tempos, tal movimento co-revolucionário abrangente é concebível. Aqui o objeto seria a criação de uma nova ordem na qual a valorização do capital não governaria mais a sociedade.

‘O socialismo é útil,’ escreveu E. F. Schumacher em Small is Beautiful [O que é pequeno é belo], precisamente por causa da 'possibilidade que cria de superar a religião da Economia,’ isto é, ‘a tendência moderna no sentido da quantificação total à custa da apreciação das diferenças qualitativas’. Numa ordem sustentável, as pessoas nas economias mais ricas (especialmente as das camadas mais altas de rendimento) teriam de aprender a viver com 'menos' em termos de mercadorias para baixar as exigências per capita ao ambiente. Ao mesmo tempo, a satisfação de necessidades humanas genuínas e os requisitos de sustentabilidade ecológica podem tornar-se os princípios constitutivos duma nova ordem mais comunal, dirigida para a reciprocidade humana, permitindo uma melhoria qualitativa, até a plenitude.

Tal estratégia é consistente com prover as pessoas de trabalho que valha à pena não dominado pelo produtivismo cego. A luta ecológica, entendida nesses termos, deve apontar não simplesmente para o decrescimento em abstracto, mas mais concretamente para a desacumulação – no sentido duma transição a partir dum sistema orientado para a acumulação sem fim de capital.

No seu lugar deveria pôr uma nova sociedade co-revolucionária, dedicada às necessidades comuns da humanidade e da terra.

Artigo publicado em Red Pepper
Tradução de Paula Sequeiros para esquerda.net John Bellamy Fosteré editor da revista Monthly Review


1 Programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do Presidente Franklin Delano Roosevelt, com o objectivo de recuperar e reformar a economia norte-americana e assistir os prejudicados pela Grande Depressão (Wikipedia).

Mercadorizando a Natureza numa era de alterações climáticas

Dias antes das negociações do clima em Cancún, Nnimo Baasey escreve sobre os especuladores de carbono que estarão aí a fazer propaganda à utilidade do mercado de carbono como meio para combater as alterações climáticas através da compensação, em vez de encetar uma ação verdadeiramente drástica.

ARTIGO | 5 DEZEMBRO, 2010 - 16:32
Banco Mundial fora das nossas florestas
Banco Mundial fora das nossas florestas

Durante cerca de duas semanas, a partir [de 29 de Novembro], o mundo será encerrado numa outra sessão de negociações sobre como combater as alterações climáticas. A conferência, a ter lugar em Cancún, México, atraiu menos excitação do que a sua predecessora que teve lugar em Copenhagen, Dinamarca, há um ano.

A excitação com Copenhagen foi em parte conduzida pela informação falsa que circulou de que o Protocolo de Kioto terminava naquela reunião. Embora fossem feitos esforços sérios, mas falhados, para liquidar o protocolo naquela conferência, o seu primeiro período termina de fato em 2012, enquanto se entrará num segundo período de compromisso assim que o primeiro período chegue ao fim.

Mas por que há-de alguém querer matar o protocolo e por que deve ser mantido? O Protocolo de Kioto é visto por alguns como o único instrumento legalmente vinculativo com que as nações industrializadas e altamente poluentes podem ser levadas a comprometer-se na redução de emissões na fonte. Desta perspectiva, quando os países lutam para abolir o protocolo, estão simplesmente a tentar evitar fazer qualquer verdadeiro compromisso para suster as alterações climáticas.

Deixar a questão para o mercado?
Um problema com o funcionamento da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) e as negociações em curso é que baseiam um pedaço do seu raciocínio e enquadramento na lógica do mercado. Isto segue o caminho criado pela mentalidade que construiu um paradigma vicioso de capitalismo de desastre, no qual a tragédia é vista como oportunidade do lucro. O que queremos dizer com isto?

Em vez de tomar medidas para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa responsáveis pelo aquecimento global, algumas pessoas ocupam-se em multiplicar maneiras de tornar cada item da natureza numa mercadoria deposta no altar do mercado. Por este meio, a tudo está a ser atribuído um valor e muitas outras coisas são privatizadas para além do mais.

O que torna isto ofensivo é que, em primeiro lugar, não se pode pôr um preço na natureza, na vida. Em segundo lugar, os especuladores estão a propagandear a utilidade do mercado de carbono como um meio para combater as alterações climáticas. Algumas das maneiras em que isto se manifesta é através dos projetos de compensação de carbono pelos quais os poluidores nos países industrializados continuam a poluir, com base no cálculo de que as suas emissões estão a ser compensadas em qualquer outro lugar.

Como os Friends of the Earth International afirmaram numa recente mensagem nos meios de comunicação, “o comércio de Carbono não leva a verdadeiras reduções de emissões. Ele é uma distração perigosa em relação à verdadeira ação para enfrentar as causas estruturais das alterações climáticas, como o sobre-consumo. Os países desenvolvidos devem cortar radicalmente as suas emissões de carbono através de verdadeiras mudanças internas e não comprando compensações a outros países. A compensação de carbono não tem nenhum benefício para o clima ou para os países em desenvolvimento - só beneficia os países desenvolvidos, os investidores privados e os principais poluidores que querem continuar com o atual estado de coisas.”

Cancún estará obviamente a fervilhar com especuladores de carbono e comerciantes, como foi o caso em Copenhagen. E eles têm boas razões para lá estar. Estarão lá porque os governantes dos dois lados da divisória vêem benefícios nesses esquemas, embora os chamados benefícios sejam pecuniários e de fato danosos para a Terra Mãe. Mas desde que o dinheiro entre nos bolsos de alguns países pobres, os países ricos podem continuar a poluir, tendo pago a sua “penitência”.

Não é só o dinheiro
O mundo parece surdo face à necessidade de verdadeiras ações para restringir as alterações climáticas e o foco permanece no dinheiro. De fato, enquanto muitos dos itens da agenda de Cancún são adiados, no que toca à redução de emissões de carbono nas nações industrializadas não há falta alguma de propostas sobre como os mercados de carbono podem ser introduzidos para dar uma aparência de ação.

A Redução de Emissões de Desflorestamento e Degradação (REDD) é um desses esquemas dentro do esquema. Está a fazer-se um progresso rápido em REDD e as conversações estão já a avançar noutras variantes do esquema. Os povos indígenas e das comunidades florestais estão a opor-se ao REDD e objetam à sua implementação, à medida que a atenção se está a enfocar nas florestas como meros estoques de carbono para fins mercantis. Significativamente, muitos vêem o REDD como não estando a procurar parar o desflorestamento, mas simplesmente a procurar reduzi-lo.

Também se argumenta que nenhum desflorestamento reduzido poderá ser sustido, porque os desflorestadores se podem deslocar simplesmente para outra floresta ou dividir em zonas para continuar com as suas atividades. Por outras palavras, o REDD é uma linda ficção que pode bombear dinheiro para dentro dos bolsos de alguns países e corporações, mas irá marginalizar os povos da floresta e não irá ajudar a combater as alterações climáticas. A atração, como os críticos disseram, é que se este mecanismo estiver ligado ao mercado de carbono, irá permitir que os países desenvolvidos entreguem dinheiro para projetos REDD que conservam florestas em países em desenvolvimento, e em troca recebam créditos de carbono - comprando o direito de poluir.

Também haverá uma rejeição estridente de um papel do Banco Mundial seja ele qual for na arquitetura das finanças climáticas que possa ser harmonizada em Cancún.

A atmosfera está criada para uma série sombria, sinuosa de negociações.

Contudo, os movimentos sociais e outros grupos da sociedade civil estão preparados para levantar as vozes das pessoas, como já foi amplamente expresso no Acordo dos Povos, atingido na Conferência dos Povos do Mundo sobre as Alterações Climáticas e os Direitos da Terra Mãe que teve lugar em Abril de 2010 em Cochabamba, Bolívia.

O movimento de justiça ambiental que primeiro tomou medidas sérias em Copenhagen vai certamente tomar medidas mais firmes nas ruas de Cancún e em milhares de Cancúns que se planeiam para uma multidão de localizações à volta do mundo.

A mensagem em Cancún, se devemos esperar movimentações para verdadeiras ações de ataque às alterações climáticas, é que os governos devem prestar a atenção ao que as pessoas estão dizendo, aos verdadeiros desafios enfrentados por povos vulneráveis ao redor do mundo, e não dar ouvidos a especuladores de carbono.


Artigo de Nnimo Bassey1, presidente da Friends of the Earth International, publicado em 25 Nov. 2010 - foei.org
Tradução de Paula Sequeiros para esquerda.net