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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Quem perdeu o mundo?


O estranho caso de como a Líbia virou questão eleitoral nos EUA

30/10/2012, Ira Chernus, Tom Dispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ira Chernus
Quem perdeu a Líbia? De fato, quem perdeu todo o Oriente Médio? Eis duas perguntas candentes que estão por trás da sequência infindável de manchetes sobre o “Benghazi-gate” [1]. Mas a pergunta que todos deveríamos estar fazendo é outra: Como um incidente trágico, mas isolado, num consulado dos EUA em local do qual poucos norte-americanos algum dia ouviram falar, é inflado até se converter em questão em torno da qual passou a girar toda a disputa presidencial nos EUA, que continua empatada?

Minha opinião, curta: isso aconteceu por causa da persistência do mito de uma política externa de poder; a ideia, já velha de décadas, de que os EUA teriam algum direito inalienável a ser “donos” do mundo e a controlar tudo e todos os lugares. Quero dizer: ninguém pode perder poder que nunca teve.

A campanha eleitoral em curso nos mostra como as coisas pouco mudaram, desde o início da Guerra Fria, quando os baluartes Republicanos gritavam “Quem perdeu a China?” [2].

Mais de 60 anos depois, ainda é surpreendentemente fácil preencher com alta ansiedade o enorme vácuo político: basta acusar o adversário de ter “perdido” um país, ou, pior ainda, toda uma grande região da qual os EUA, sabe-se lá como ou por quê, supunham que fossem “donos”.

A fórmula “Quem perdeu...?” opera como truque mágico. Não há como perceber o modo como funciona, a menos que desviemos nossa atenção, dos que gritam ‘advertências’ de perigo e alarme, para olhar o que realmente se passa por baixo dos panos.

Quem manda aqui?

O estranho caso em Benghazi já começou cheio de surpresas. Só um raro comentarista [3] não repetiu a “explicação” que se lia por todos os cantos, segundo a qual os eleitores, em 2012, pouca importância dariam a assuntos externos. Que, agora, só “a economia, estúpido!”. Que temas externos só criariam breve agitação e mais nada; e tratariam, claro, de Afeganistão, Paquistão ou China.

Embaixador Christopher Stevens
Apesar disso, a morte do embaixador dos EUA na Líbia, J. Christopher Stevens, e três outros cidadãos dos EUA virou grito de campanha contra Barack Obama. O que torna o caso ainda mais surpreendente: quando começaram a chegar notícias da tragédia, tudo levava a crer que, como caso político, a coisa não prosperaria.

Mas, dia seguinte, com as primeiras notícias sobre as mortes já em todos os veículos, Mitt Romney também já estava nas manchetes, acusando seu concorrente: “A liderança norte-americana é necessária para assegurar que os eventos na região não fujam de controle”. [4] Presidente tem de mostrar “decisão ao aplicar nosso poder” e prontidão para usar “força total”. Barack Obama falhara nas duas frentes, disse Romney, como o comprovariam as mortes em Benghazi.

O candidato Republicano foi devidamente criticado por “politizar” o incidente. Foi criticado, praticamente, por todos os lados [5]. Até Ed Rogers, conhecido porta-voz dos Republicanos, escreveu que “Romney tropeçou”  [6] e que “o presidente Obama disse a coisa certa, no tom certo”.

Mitt Romney
Romney jamais retirou uma linha do que dissera no primeiro dia – mas, de algum modo, as mesmíssimas palavras, de início denunciadas como “não presidenciais”, foram-se transformando misteriosamente em argumentos poderosos contra a reeleição do presidente. Um mês adiante, nova narrativa já dominava as manchetes: as críticas de Romney no caso da Líbia “acertavam o alvo” [7], mudando a dinâmica  [8], e estavam tendo papel fundamental [9] no ressurgimento de sua campanha.

Essa mudança de tom refletia, pelo menos em parte, com certeza, a necessidade primal da imprensa-empresa, que precisa de disputa equilibrada, para manter cativo o interesse dos consumidores. No momento em que ocorreram as mortes na Líbia, todos concordavam que Obama começava a ampliar a vantagem sobre Romney, a qual, a partir dali, poderia ser decisiva; qualquer coisa que aumentasse as chances de Romney seria sempre bem-vinda em qualquer mesa de editor de veículo-empresa.

Há notícias que, por mais que o editor insista, nunca “pegam”; mas a história da Líbia “pegou”. De algum modo ecoou nos corações e mentes de muitos norte-americanos. É preciso entender por quê.

Grande parte dessa explicação reside no poder das palavras-chaves na primeira fala: “poder” e “controle” [orig. might e control]. Seus estrategistas capturaram, naquela fala, uma verdade básica da política norte-americana: o público tem apetite insaciável por histórias sobre desafios ao poder global dos EUA e o pressuposto direito de os EUA controlarem o mundo. Então mandaram Romney repetir, insistir e insistir, naquela versão da narrativa.

Em seu primeiro grande discurso sobre política exterior [10], Romney absolveu o adversário de qualquer responsabilidade direta nas quatro mortes, mas acusou Obama de pecado mil vezes pior. Num arriscado salto de imaginação, converteu o incidente em Benghazi em ponta de lança de vasto assalto contra os EUA: “Nossas embaixadas foram atacadas. Nossa bandeira foi queimada (...) Nossa nação, atacada”. O trabalho do presidente é nos proteger, dominando nossos inimigos – disse Romney. É nosso consistente currículo de vitórias, tanto quanto nossos valores, que fazem os EUA “excepcionais” – e durante o turno de guarda de Obama, como o incidente em Benghazi teria provado, os EUA e seu excepcionalismo foram-se, todos, pelo ralo.

Não foi simples exagero, ao denunciar a “fraqueza” presidencial. Como já fizera no primeiro dia, Romney outra vez levantava questão até mais crucial em qualquer narrativa popular da política exterior dos EUA: “quem é o encarregado-em-chefe hoje e aqui?”.

Afinal, de que serve ser superpotência global, se não consegue controlar os eventos em todo o mundo? Como disse Romney: “É responsabilidade do nosso presidente usar o grande poder dos EUA para modelar a história”. E nisso, nesse ponto absolutamente crucial, Romney insistiu, Obama falhara miseravelmente; e um embaixador dos EUA pagara, por essa falha, com a própria vida.

Uma mitologia bipartidária

O debate Romney Obama
Os debates deram a Romney uma chance para afinar seu ataque. No segundo, Obama driblou habilmente as acusações sobre a Líbia (embora, de fato, jamais tenha respondido a qualquer delas). À altura do terceiro debate [11], os estrategistas de Romney, parece, não viram vantagem e viram muitos riscos em pressionar sobre a questão líbia. Mas ainda viam grande possibilidade de ganho em manter ativada a questão mais “geral”. Então Romney rapidamente deixou para trás a questão líbia. Disse que “Estamos vendo, em nação após nação, grande número de eventos perturbadores”.

Construiu seu argumento com imagens de medo: “Vejo o Oriente Médio com uma maré montante de violência, caos, tumulto (...) Dá para ver a al-Qaeda entrando ali”. O poder em Washington precisava ser devolvido às mãos certas, para que, “sob o manto da liderança firme”, os EUA possam “ajudar o Oriente Médio” a fazer retroceder a “maré crescente do tumulto e da confusão” e submeter os terroristas.

Tradução: Durante décadas praticamente todos os governos no Oriente Médio, o coração energético do mundo, foram nossos aliados (mais exatamente, nossos fregueses [12], embora esse palavrão não possa ser usado em ambientes de gente fina). Nós construíamos  [13] os exércitos deles, apoiávamos as ditaduras deles, e contávamos com eles para calar qualquer manifestação de antiamericanismo. Agora, sob Obama, essa área crucial do mundo, que sempre mantivemos sob nosso tacão, está fugindo ao controle. Perca o controle, porque fracassa no exercício de nosso poder, e acabou-se nossa segurança nacional.

Poder, força, controle e segurança nacional são, todos, partes do mesmo pacote; nada mais importante para os EUA – e Obama estava deixando tudo isso ir-se pelo ralo. E por aí ia a narrativa Republicana (apesar de copiosos documentos vazados sobre “a armação/ manipulação/ golpe na Líbia, construída(o) dentro do Congresso [14]). O que até aí vinha sendo apresentado como grande trunfo de Obama – afinal, é o homem que matou Osama bin Laden – passava, de repente, a parecer muito pouco.

Os Democratas de fato responderam, construindo história espantosamente semelhante sobre uma (como disse o presidente no 3º debate) “liderança forte e firme”, a qual, diziam os Democratas estava conseguindo impedir que o Oriente Médio ficasse fora de controle. Em outras palavras, os EUA, de fato, não perderam, de modo algum, a Líbia. Mas essa foi a única diferença entre os dois e o único aspecto sobre o qual houve alguma disputa.

O debate entre Republicanos e Democratas não se trava entre objetivos no Oriente Médio, onde os dois lados assumem pleno apoio a ditadores amigos como na Arábia Saudita [15] e no Bahrain [16], e os dois lados concordam quanto à necessidade de eleições democráticas, pluralismo religioso, imprensa livre, direitos assegurados às mulheres, reforço ao capitalismo de livre empresa e quanto à destruição de todos os terroristas islamistas.

Em termos mais amplos, Republicanos e Democratas concordam, como concordam há décadas, que o objetivo principal, superior, dominante da política exterior de Washington tem de ser modelar a história, controlar o mundo e fazê-lo cópia perfeita dos valores norte-americanos e forçá-lo a trabalhar a favor dos interesses dos EUA. Essa visão mítica da política exterior dos EUA é raro exemplo de consenso e perfeita sintonia entre os dois partidos.

Quando falo de mito, não estou dizendo que seja mentira. Estou dizendo que é uma narrativa fundacional [17] do poder norte-americano que manifesta o que assumimos de mais basal sobre o mundo – uma história segundo a qual toda e qualquer nação do planeta é, em teoria, nossa; só não será, se nós a “perdermos”.

Para muitos norte-americanos (embora não seja bem assim no resto do mundo), essa narrativa não reflete húbris ou arrogância ou intoxicação pelo poder imperial. É normal: é senso comum. Ao longo de nossa história, no coração da mitologia nacional dominante sempre houve, assumida, a ideia de que os EUA seriam “a locomotiva do mundo” e todas as demais nações seriam “o reboque” (como Dean Acheson, Secretário de Estado do presidente Harry Truman, disse certa vez). A razão era simples (pelo menos para os norte-americanos): éramos a primeira e a maior nação fundada sobre verdades morais universais que seriam, supostamente, autoevidentes para qualquer pessoa razoável.

Claro que controlar o mundo atenderia nossos interesses de vários modos tangíveis. Mas nosso autointeresse principal, reza o mito, sempre foi e sempre será o aprimoramento moral – quiçá, a perfeição – de todo o mundo. Servindo a nós mesmos, servimos a toda a humanidade.

A mais furiosa batalha política que há ou pode haver

A única questão que vale a pena debater, portanto, é como podemos usar nosso poder preponderante e nossa riqueza do modo mais produtivo e esperto, para manter o controle efetivo. Muitos norte-americanos contam com que seu presidente saiba o que fazer. Simultaneamente, muitos norte-americanos temem que ele não saiba. Um pilar mais recente da narrativa dos dois partidos – o mito da insegurança da pátria [18] – sugere coisa diferente.

Segundo esse mito, não importa a força militar máxima que acumulemos, nem o controle máximo que exerçamos, sempre há “uma maré montante de tumulto” em algum canto do mundo, que ameaça nossa segurança nacional. A todo momento, em algum ponto do mundo, temos algo crucial a perder. O nome da ameaça pode mudar com surpreendente facilidade. Mas o perigo tem de estar em algum lugar. É essencial, para manter o mito, a narrativa, a história.

E aquela narrativa, por sua vez, é hoje essencialmente importante em todas as eleições presidenciais. Como Maureen Dowd, colunista do New York Times escreveu certa vez, “Todas as eleições seguem a mesma narrativa: o pai forte conseguirá proteger a casa, contra os invasores?” [19] (Pensem em Ronald Reagan e o conto dos reféns iranianos  [20], ou em George W. Bush e o 11/9  [21]). Se um dos candidatos é o presidente, a questão passa a ser: “Mostrou-se pai suficientemente forte para controlar o mundo e, assim, proteger a casa?”.

Todos os desafiantes apostam nessa ansiedade, recolhendo o exemplo mais à mão, o mais acessível do dia, como gancho ao qual se penduram as sempre idênticas acusações de fraqueza e omissão ante perigos. Desde os dias do “Quem perdeu a China”, os Republicanos jogam essa carta com notável competência [22].

Esse ano, parecia que um Democrata que “avançou” [23] no Afeganistão, matou bin Laden e conduziu pessoalmente  [24] uma campanha de assassinatos em massa (também individuais), armado com drones e diretamente da Casa Branca teria, sem dúvida possível, protegido bem o flanco direito contra esse previsível ataque do Grande Velho Partido [orig. Great Old Party, GOP, os Republicanos]. Então, o destino doou as mortes em Benghazi à campanha de Romney, às salas de redação dos jornais e televisões, e a considerável porção do público norte-americano. Dê-se ao pessoal da campanha de Romney um mérito que é deles: perceberam a oportunidade logo ao primeiro momento do primeiro dia.

Mitt tinha de perguntar “Quem perdeu a Líbia?” e, em seguida, converter a pergunta em “Quem perdeu o Oriente Médio?” – não só para melhorar suas chances, mas também porque parte muito significativa dos eleitores ansiavam por esse “debate.” Afinal, cada vez que surge a pergunta “Quem perdeu........ [preencha a lacuna]?”, a própria pergunta reafirma, simultaneamente, tanto a promessa de que merecemos, mesmo, controlar o mundo, quanto a perturbadora ansiedade de que estamos sob risco de perder o que nos pertence por direito.

O que, apesar das dimensões trágicas, não passou de evento de guerra na Líbia, passou a ser a questão central de uma campanha eleitoral presidencial nos EUA, porque comprovou que é, nas eleições de 2012, a palavra código que aciona todo o pacote mitológico. Para muitos norte-americanos, a mais profunda sensação de segurança pode advir, simplesmente, de sentir que nossa mitologia tradicional – as velhas lentes familiares através das quais vemos nossa nação e seu papel no mundo – permanece intacta.

Mas, no horizonte, já é impossível não ver uma outra questão que começa a aparecer: por quanto tempo ainda sobreviverá essa mitologia? Foi grave e profundamente ferida na Guerra do Vietnã, quando a fantasia do controle global foi violentamente sacudida pela realidade. A mesma ferida voltou a abrir-se, com quantidades terríveis de sangue, em várias guerras, hoje, sem sentido e sem resultados aproveitáveis [25] e nos conflitos no Iraque, no Afeganistão e por toda a parte.

Hoje, estão em curso tantas mudanças inquietantes em todo o mundo, que nem se as pode prever, muito menos controlá-las. Não tarda – talvez já em 2020, talvez mesmo em 2016 – o grito de batalha já seja, quem sabe, “Quem perdeu o mundo?”.

Já é até possível imaginar que, algum dia, os norte-americanos conseguirão abordar o debate do qual realmente precisamos – sobre eleger um novo paradigma de política exterior adequado ao mundo real, hoje, onde a fantasia do controle global já se tornou irrelevante, porque os fatos mais corriqueiros já a contradizem bem evidentemente, enquanto declina o poder dos EUA e outras nações já vão, aos poucos, ganhando força.

Mas que ninguém espere que a velha mitologia morra morte silenciosa, discreta. A batalha política entre o velho mito contra novo mito é a mais furiosa batalha política que há ou pode haver.



Notas de rodapé

[2] Wikipedia - China Hands (em inglês)
[3] 23/9/2012, Tom Dispatch, Tom Engelhardt em: Obama Against the World
[4] 12/9/2012,Washington Post, em: Mitt Romney’s statement on the Libya ambassador attack
[5] 12/9/2012, Los Angeles Times, David Lauter e Mitchell Landsberg em: Romney's quick criticism on Libya draws rebuke
[6] 12/9/2012, Washington Post, Ed Rogers em: The president was poised; Romney stumbled
[7]  11/10/2012, Washington Post, Scott Wilson em: Ryan presses Biden on Libya
[8] 15/10/2012, Bloomberg – Businessweek, Margaret Talev e John McCormick em: Romney Gaining Ground as Scrutiny Rises on Taxes, Libya
[9] 13/10/2012, Newser, John Johnson em: Romney Steps Up Criticism Over Libya Attack
[10] 8/10/2012, Washington Post, em: Text of Romney Speech on Foreign Policy at VMI
[11] 22/10/2012, Debate transcrito (em inglês) 
[12] 31/1/2011, lobelog Foreign Policy, Gareth Porter em: Why Washington Clings To A Failed Middle East Strategy
[13] 14/9/2012, The Atlantic, Armin Rosen em: “The U.S. and Egypt Sure Look Like Allies, at Least on Military Matters
[14] Idem nota [13]
[15] 13/1/2012, Council on Foreign Relations, Thomas W. Lippman em: Saudi Arabia Remains Indispensable U.S. Ally, Argues New CFR Book”  
[16] 18/9/2012, Tom Dispatch, Jen Marlowe em: Terror and Teargas on the Streets of Bahrain
[17] Blog MythicAmerica, Ira Chernus em: THE MEANING OF “MYTH” IN THE AMERICAN CONTEXT
[18] Blog Mythic America, Ira Chernus em: “THE MYTHOLOGY OF HOMELAND INSECURITY
[19] 31.1/2012, The New York Times, Maureen Dowd em: Who’s Tough Enough?
[20] Verão de 1992, The Fletcher Fórum, Warren Cohen em: October Surprise: America's Hostages in Iran and the Election of Ronald Reagan. By Gary Sick
[21] 14/12/2004, Tom Dispatch, Tom Engelhardt  em: Tomgram: Ira Chernus on the Electoral Fear Factor
[23] 10/12/2009, Tom Dispatch, Tom Engelhardt em: The Nine Surges of Obama’s War
[25]  20/10/2012, redecastorphoto, Nick Turse em: “Fórmula falhada para guerra permanente - Império muda de pele, não de vícios (em português, trad. Vila Vudu)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Debates eleitorais nos EUA-2012: a agenda dos jornalistas “moderadores”


O que todos os jornalistas perguntam e o que nenhum jornalista pergunta

26/10/2012, FAIR-Fairness and Accuracy in Reporting
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Sinal de avanço considerável nos debates pré-eleitorais no Brasil é que, aqui, os jornalistas empregados das empresas-imprensa já estão contidos, exclusivamente, na função de cronometradores.
Só depois de encerrada a votação, as empresas-imprensa liberam seus empregados para que digam, ao vivo, todas as asneiras que lhes ocorram às cabeças mal informadas, à guisa de “análises”, e façam todas as perguntas viciadas e preconceituosas que lhes ocorram às cabeças idem.
Assim se preserva no Brasil, melhor do que nos EUA, a lisura democratizatória das eleições: resistindo o mais possível à ação DES-democratizatória de jornalistas empregados de empresas-imprensa viciosas, quando não são empresas ativamente fascistizantes.
Mas não se conclua daí que os jornalistas das empresas-imprensa brasileira sejam qualitativamente melhores que outros. Não são.

Os jornalistas das empresas-imprensa no Brasil são os piores do mundo e impingem aqui, a consumidores PAGANTES, o pior jornalismo do mundo.

No Brasil, de diferente, é que a democracia que está hoje em reconstrução já é muito melhor que a decrépita e já quase completamente inoperante democracia norte-americana.
Jornalistas e jornais são, em todo o mundo em que reina a empresa-imprensa do capital, agentes de uniformização da opinião das massas, agentes de criação de consumidores para mercados de opinião & consumo, que são mercados como quaisquer outros e exigem comportamento/ pensamento/ opinião uniforme, de manada – o que o próprio jornalismo existe para construir, e as empresas-imprensa para modelar como produto e vender (Gramcsi dixit).

Mas é interessante ver que, nos EUA, o negócio é MUITO PIOR do que aqui!
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Os jornalistas do establishment das empresas-imprensa que moderaram os debates eleitorais dos candidatos dos dois principais partidos às eleições presidenciais de 2012 nos EUA mantiveram a discussão contida numa pauta absurdamente estreita. Os analistas de FAIR comentam.

Imensa quantidade de temas não foram trazidos à discussão pública coordenada por jornalistas, nas seis horas totais de debates televisionados. Dentre temas econômicos, ninguém perguntou a ninguém sobre miséria, desigualdade de renda, crise de moradia, sindicatos, agricultura ou sobre a ação do Fed - Federal Reserve.

As questões sociais também foram truncadas: nenhuma pergunta sobre raça, racismo, direitos dos gays (inclusive o direito ao casamento, para pessoas do mesmo sexo), liberdades civis, justiça criminal ou legalização de drogas. Apesar de haver quatro juízes na Suprema Corte já com idade superior a 70 anos, nenhum jornalista perguntou aos candidatos sobre que nomes têm em mente para futuras indicações à Suprema Corte ou a outros postos do Judiciário cuja indicação é prerrogativa do presidente.

Nem uma única referência à mudança climática, que, para muitos eleitores é a principal ameaça que pesa hoje não só sobre os EUA, mas sobre a humanidade – e foi a primeira vez que essa questão não veio à tona em ciclo de debates presidenciais desde 1984 (Treehugger, 22/10/2012). Nenhum tópico da pauta dos ambientalistas foi discutido – a menos que se inclua como tal a pergunta sobre preços da gasolina, proposta por um dos eleitores no debate em que havia eleitores presentes.

Temas internacionais, só sobre fatia estreitíssima do mundo; nenhuma pergunta sobre América Latina, África Subsaariana ou Europa, Rússia incluída.

O que perguntaram os jornalistas?

FAIR analisou os temas levantados nas perguntas propostas pelos jornalistas moderadores nos três debates presidenciais e no debate entre os candidatos a vice-presidente, e as perguntas propostas por candidatos indecisos selecionados pela jornalista Candy Crowley para o debate de 16/10 (tema surgido em mais de uma pergunta em cada segmento do debate foi contada como única referência ao tema).

FAIR contou 28 tópicos mencionados, no total, 53 vezes, em 35 segmentos de debate. 22 menções foram classificadas como “questão econômica”; 20, como “política externa”; e 10, como “políticas sociais”. Outras oito menções foram classificadas como “outros” – sobre caráter, táticas de campanha ou o legado George W. Bush. (Alguns tópicos – como “comércio” – foram classificados em mais de uma categoria).

Embora a questão n.1 entre os eleitores seja, com larga diferença à frente das demais, “empregos”, e tenha sido tópico citado com frequência nas perguntas, os jornalistas perguntaram duas vezes mais sobre “empregos” no quadro amplo da economia e em relação ao orçamento federal, que tratado como tema autônomo: 11 vezes na modalidade “diluída” versus 5 vezes em pergunta direta. A questão do déficit apareceu três vezes; impostos, quatro vezes; Seguridade Social e Medicare apareceram duas vezes cada tema, sempre no contexto dos gastos federais. O tema “comércio” só foi mencionado uma vez.

As perguntas de política internacional concentraram-se pesadamente no Oriente Médio e nos conflitos nos países de maioria muçulmana. Líbia e Afeganistão foram citados três vezes nos debates; Irã e Síria, três vezes cada; e Israel, Paquistão e Egito, só foram referidos num único segmento. À parte um momento, em que falaram da China, nenhum jornalista perguntou a nenhum candidato sobre qualquer outra região do planeta.

Nem todas as questões de política internacional, consideraram só uma parte do mundo; em seis outros segmentos dos debates houve questões sobre os militares, política de segurança ou política internacional em geral. Uma dessas foi sobre a guerra de drones; mas o jornalista moderador Bob Schieffer (22/10/2012) assumidamente nada perguntou ao presidente responsável pela guerra dos drones:

“Pergunto ao senhor, governador, porque já conhecemos a posição do presidente Obama sobre isso: qual sua posição sobre o emprego dos drones?”

Nas relativamente poucas perguntas sobre políticas sociais, atenção à saúde apareceu três vezes – incluídos dois segmentos em que a pergunta foi sobre a contribuição do Medicare para o aumento do déficit. Por duas vezes levantaram-se questões de gênero; controle de armas, só uma vez.

Importante – e absolutamente sem importância

Não houve tempo para discutir número altíssimo de temas políticos criticamente importantes, mas os jornalistas moderadores encontraram tempo para fazer perguntas absolutamente sem sentido. Por exemplo, Jim Lehrer (3/10/2012) perguntou aos candidatos a presidente: “O governo federal tem alguma responsabilidade na melhoria da educação pública nos EUA?” (Esperava talvez que Romney dissesse que não? Obama?) Ou o que Martha Raddatz perguntou aos candidatos a vice-presidente (11/10/2012):

“Se eleito, o que podem os senhores oferecer a esse país, como homem, como ser humano, que ninguém poderia dar, se não cada um de vocês?”

As perguntas selecionadas pelos moderadores nos debates refletem, presumivelmente, as questões que os jornalistas conhecidos da imprensa-empresa do establishment veem como importantes – e como desimportantes. Bem claramente, os jornalistas moderadores consideram mais importantes as questões do orçamento federal, do que os eleitores, ao serem convidados a indicar o principal problema que o país enfrenta.

As perguntas podem também refletir pressões partidárias: consideradas as perguntas propostas pelos moderadores, a principal questão de política internacional que os EUA enfrentariam hoje seria o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia – importância difícil de explicar, se não se considera que a campanha de Romney definiu esse evento como uma das fontes principais de críticas contra a política externa do governo de Obama.

As influências partidárias e do próprio establishment da imprensa-empresa não devem surpreender ninguém, dado que a Comissão para os Debates Presidenciais é absolutamente controlada pelos dois principais partidos, e as campanhas podem vetar nomes de jornalistas para operarem como moderadores (FAIR Media Advisory, 3/10/2012) – modelo de debate que jamais permitirá que se façam perguntas realmente relevantes, sobre temas realmente importantes e diversificados.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Vazamentos, debates, eleições: quem deseja que os EUA ataquem o Irã?


21/10/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Vazamentos” pelos veículos da grande imprensa-empresa nunca são ingênuos e obrigam a lembrar que onde há fumaça há fogo. Dessa vez, em mais um movimento clássico, foi o New York Times  [1] que publicou, no sábado, notícias “vazadas” de que o Irã estaria interessado em conversações diretas com os EUA.

Eleições EUA 2012 - Obama vs Romney 
O modo como a questão nuclear iraniana apareceu no New York Times, exatamente na véspera do debate dramaticamente decisivo entre os candidatos Barack Obama e Mitt Romney sobre questões de política exterior, mostra bem o peso, dentro dos mais altos escalões do establishment norte-americano, do chamado “partido da guerra” – que vota por mais guerras e opõe-se a qualquer tipo de negociação diplomática entre Washington e Teerã.

O “vazamento” pelo NYT ajuda a torpedear contatos EUA-Irã que, obviamente, já estão em andamento. Dado que só meia dúzia de pessoas, dos mais altos escalões do governo dos EUA, sabem desses contatos absolutamente não divulgados até agora, o “vazamento” é, também, ato de sabotagem contra o governo Obama, para favorecer a candidatura Romney; e só pode ter partido de peixões realmente muito grandes em Washington, interessados em guerra.

A Casa Branca tratou de desmentir o mais rapidamente possível o tal “vazamento”: repetiram que Obama não tem qualquer intenção de manter conversações diretas com o Irã. [2] A resposta visa a neutralizar o veneno que pinga da matéria publicada no NYT a qual, mesmo que não tenha sido produzida para esse fim específico, muito ajudará Romney, no debate de hoje, a repetir que Obama estaria “afrouxando” contra o Irã.

Ali Akbar Salehi
Mas, se se leem as entrelinhas, a Casa Branca também escreveu que “em princípio, sempre é favorável a conversações diplomáticas”.  [3] Ora! E qual seria o problema de haver conversações diretas EUA-Irã, se se sabe que, de fato, só conversações diretas podem pôr fim àquele impasse sem solução?

A grande questão é que um Obama que favoreça mais a via diplomática que a guerra contra o Irã não tem, hoje, a reeleição garantida nos EUA. O NYT não está longe da verdade: parece haver número significativo de cidadãos norte-americanos que, sim, estarão votando a favor de mais guerra.

O Irã também reagiu com negativa pro-forma  [4] à matéria do NYT, mas também do lado iraniano da mesa houve entrelinhas: o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi deixou entrever a informação de que os contatos estão “em pausa”, por causa das eleições presidenciais nos EUA; depois das eleições, sim, a via política será novamente ativada. Mencionou especificamente o final de novembro, como momento previsto para que se retomem as negociações.



Notas de rodapé
[1] 20/10/2012, Xinhuanet, China, em: U.S., Iran agree to one-on-one nuclear negotiations – media”.
[2] 22/10/2012, Sydney Morning Herald, Margareth Talev, em: No deal for nuclear talks with Iran after US election”.
[3] 21/10/2012, Associated Press, Mathew Daly, em: White House prepared to meet one-on-one with Iran”.


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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.