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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Putin faz uma oferta a Obama, sobre a Síria


26/5/2015, [*]  M.K. Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na roça do Cherosim na Vila Vudu: Aparentemente, o embaixador Bhadrakumar, nessa sua fé i-na-ba-lá-vel de que Obama é grande estadista” , ainda não sabe que “os EUA já decidiram que haverá guerra” (ver/ler em 25/5/2015, Rostislav Ishchenko, redecastorphoto: “Ucrânia: unida ou não, estado miseravelmente fracassado).
Por isso, não por qualquer outra razão, Putin sentiu que tem de tentar todas as possibilidades que haja, para salvar a paz, inclusive procurar e pôr-se na dependência do que Cameron faça ou deixe de fazer.
Hoje, todos dependemos de Putin, até Cameron e a BCC (Besta Conservadora Coroada) [pano rápido].

Vladimir Putin

O telefonema do Presidente Vladimir Putin para o Primeiro-Ministro britânico, David Cameron na 2ª-feira (25/5/2015) tem de ser tomado como mais um sinal do gradual descongelamento das relações da Rússia com o ocidente, depois da visita que lhe fez o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, em Sochi recentemente (Vide Obama’s overture to Putin has paid off).
Putin usou a reeleição de Cameron como ocasião para reengajar a Grã-Bretanha, politicamente e diplomaticamente. Prima facie, o gesto de Putin é lisonjeiro. Vem num momento em que se ouvem muitas críticas dentro da Grã-Bretanha e nos EUA por a Grã-Bretanha ter-se convertido em ator menor nos assuntos globais.
Como escreveu Fareed Zakaria recentemente, com acerto [embora com aquele ar de idiota arrogante que é sua marca registrada (NTs)], Cameron passa a impressão de que não percebe que é sucessor de Pitt, Gladstone, Disraeli, Lloyd George, Churchill e Thatcher e nada faz além de manifestamente só “olhar para dentro”; e porque não fez grande discurso depois da reeleição sobre “um mundo de desafios” – a provável saída da Grécia da zona do euro, as ondas de migrantes que vêm das costas da África, a crise na Ucrânia, o Estado Islâmico e por aí vai. E por, no solene momento da posse, ter-se dedicado a expor um rascunho de plano para “garantir que melhores equipes de atendimento permaneçam nos hospitais do Reino Unido ao longo dos fins-de-semana”.
Moscou reserva-se o direito de discordar. Moscou sempre entendeu (mesmo no auge da Guerra Fria ou da perestroika de Mikhail Gorbachev) que há um único papel que cabe à Grã-Bretanha na política internacional, papel que, talvez, pode-se dizer, só a GB pode desempenhar – não a Alemanha, a França ou a Itália – a saber: servir de intermediária quando as coisas ficam realmente feias nas elações Rússia-EUA.
O documento distribuído pelo Kremlin sobre o telefonema de Putin para Cameron não foi tão lacônico como é usual, e até registra que Putin deixou uma via aberta para “cooperação construtiva” entre Rússia e Grã-Bretanha para promover a agenda bilateral e sobre questões internacionais. O comunicado sugere que Síria e Ucrânia figuraram entre os principais tópicos.
Bem obviamente, a Rússia vê a luta contra o Estado [Nada] Islâmico [EI] como ponto focal da crise na Síria; e quanto à Ucrânia, a ênfase está em encontrar “acordo duradouro”, o que demanda diálogo entre os representantes da região do Donbass e de Kiev.
nº 10 da Rua Downing, Londres

Em comparação, o press-release distribuído do n. 10 da Rua Downing é bastante mais informativo sobre os 30 minutos de conversa telefônica de Cameron com Putin. Informa, nas entrelinhas, que há ampla confluência de opiniões sobre a Síria entre Moscou e Londres, no que tenha a ver com pôr fim à guerra civil e deter a maré montante do Estado [Nada] Islâmico (E [Nada] I).
Quer dizer que os dois governantes acertaram que seus conselheiros de segurança nacional “reiniciarão conversas” sobre a Síria. Claramente, significa que os serviços de inteligência russo e britânico retomarão os contatos. Putin e Cameron parecem ter cuidadosamente desviado do ponto nevrálgico desse tema, que é o futuro do governo de Assad num acordo político.
Mas a versão britânica insistiu incomodamente nas “profundas diferenças” entre Moscou e Londres sobre a crise na Ucrânia, destacando que a prioridade no momento é a plena implementação do Acordo de Minsk e o trabalho do grupo trilateral de contato (Ucrânia, Rússia e a OSCE) para resolver as “questões de destaque”.
Resumo, Putin atou os fios do diálogo de Rússia com Grã-Bretanha e os dois governantes sublinharam que os negócios estão recomeçando, demarcando a trilha luminosa da cooperação produtiva entre os dois países, no quadro do grupo P5+1 que negocia com o Irã.
Isso posto, o objetivo principal de Putin foi engajar Cameron, mesmo, na questão da Síria (sobre a Ucrânia, a Rússia tem motivos para dar-se por satisfeita com o “formato” Normandia existente, que reúne Alemanha, França e Ucrânia).
A última vez que Putin e Cameron falaram sobre a Síria foi em maio de 2013, quando Cameron esteve em Sochi para reunir-se com o russo. E, sim, o mundo já nem parece o mesmo que então havia.
O foco naquele momento foram os esforços para “ajudar a modelar” um governo de transição na Síria, e Putin concordou com a necessidade de pôr fim à violência, para impedir que o extremismo crescesse e deter a “fragmentação” da Síria.
Pode bem ser que as respectivas posições não tenham mudado desde maio de 2013 – GB a bradar que o presidente Bashar al-Assad tem de sair e garantindo apoio à “oposição” síria; e a Rússia, por seu lado, preocupada com um vácuo de poder que se criará no caso de o governo sírio colapsar, e com o crescimento dos grupos terroristas.
Mas, por assim dizer, a posição de Moscou naqueles dias mostra-se hoje perfeitamente correta. Depois das conversas em Sochi há dois anos, Putin disse que Rússia e Grã-Bretanha tinham “interesse comum em pôr fim à violência e em lançar um acordo de paz que preserve a Síria como estado integral e soberano”.
Hoje, e isso não é pouco, esse “interesse comum” só pode ter-se aprofundado. Moscou estará à espera de que Londres atravesse até o âmago do governo Obama, para lá implantar a imperativa, urgente necessidade de reabrir a trilha para moldar uma transição política na Síria.
O dramático avanço do Estado [Nada] Islâmico na Síria, que se consumou com a tomada de Palmira há três dias, fez aumentar a pressão sobre a estratégia dos EUA para a Síria. Os aliados regionais dos EUA já pressionam por uma mudança na estratégia dos EUA, com intervenção maior na Síria. A Turquia já beira literalmente a chantagem, e disse que os EUA estariam inclinados a garantir apoio aéreo aos terroristas rebeldes que lutam na Síria [chamados pelos EUA, pela Reuters e pela Leilane Neubarth de “milícias rebeldes sírias” (NTs)]. Mas funcionários do governo dos EUA têm repetido que nenhuma decisão foi tomada até agora.
Estado (NADA) Islâmico - criação de Israel e EUA

Claramente a Turquia interessa-se mais pela “mudança de regime” na Síria do que por alguma luta contra o Estado [Nada] Islâmico; e a prioridade de Obama é que a estratégia que ele tinha para combater o Estado [Nada] Islâmico está em frangalhos [e agora se trata de salvar a própria cara (da estratégia e de Obama) (NTs)].
A avaliação de Putin deve ser que Obama não está inclinado a favor de solução militar na Síria, dada a extrema fragilidade da unidade do país, e o perigo real de que só o Estado [Nada] Islâmico ganhará se a Síria fragmentar-se. (DebkaFile, que tem contato com a inteligência de Israel noticiou que uma coluna do Estado [Nada] Islâmico está a caminho da fronteira da Síria com a Jordânia, onde estão 7 mil soldados das forças especiais dos EUA).
Tudo considerado, portanto, o telefonema de ontem para Cameron significa que Putin está levando indiretamente ao conhecimento de Obama que a Rússia está interessada em cooperar com EUA e Grã-Bretanha em termos práticos, na busca por uma solução política e, em termos imediatos, para pôr fim ao levante do Estado [Nada] Islâmico mediante cooperação em tempo real entre as agências de inteligência (as sanções ocidentais contra a Rússia também congelaram a cooperação entre os espiões). 

Evidentemente a questão síria está ganhando nova criticalidade, e Putin não tem nenhum problema de ego com Obama. Putin espera que Cameron fale com Obama nos próximos um, dois dias, como desenvolvimento do telefonema de ontem.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Afeganistão: O que se oculta por trás do ataque dos Talibã a Kunduz?

1/5/2015, [*] MK Bhadrakumar, Asia Times Online rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


(...) e surge também uma pergunta de um milhão de dólares: onde ficam os EUA no cenário que se desdobra no norte do Afeganistão, onde os Talibã voltaram a atacar? Para dizê-lo do modo mais gentil: a volta dos Talibã em ataques no norte do Afeganistão pode até, afinal de contas, não ser tão má ideia, do ponto de vista das estratégias dos EUA para “conter” Rússia e China, ou das ações norte-americanas para “mudança de regime” na Ásia Central.


Afeganistão - Divisões Administrativas
(clique na legenda para aumentar)
A atual ofensiva dos Talibã no norte do Afeganistão, focada em capturar Kunduz, faz-me lembrar os dias finais, tensos e angustiantes, do tempo que servi como diplomata em Tashkent nos últimos anos da década dos 1990s, e os Talibã surgiram na região de Amy Darya, deixando um rastro de sangue, horror e vingança. Quando a cidade de Kunduz caiu sob controle dos Talibã daquela vez, dois fatores comprovaram-se decisivos.

●– O primeiro foi o tradicional predomínio do grupo Mujahideen Hizb-i-Islami liderado por Gulbuddin Hekmatyar (agente favorito dos Interserviços de Inteligência do Paquistão [orig. Inter-Services Intelligence, ISI durante a “jihad afegã”) naquela região, onde vive população pashtun de dimensões consideráveis.

●– O segundo foi a realidade, ali constatável em campo, de que a marcha inexorável dos Talibã para dentro da região de Amu Darya, depois que capturaram Cabul em 1996, era de fato operação dos militares paquistaneses, para ir empurrando (e eventualmente estrangulá-las nos estreitos confins do Vale do Panjshir) as forças residuais da Aliança do Norte lideradas por Ahmad Shah Massoud.

Afeganistão - Vale do Panjshir (hachurado)
(clique na legenda para aumentar)
Esses dois fatores voltam à cena hoje – embora de modos diferentes. A verdadeira “identidade” entre os Talibã e Hezb-i-Islami – que sempre foi muito rala (apesar da influência do ISI paquistanês sobre os dois grupos) e sempre intrigou muito a olho nu, porque as dinâmicas locais sempre entravam em ação no labirinto das políticas tribais e regionais; e dado o papel confuso dos “comandantes em campo” – continua a ser criticamente importante mesmo hoje.

De fato, a política durante a presidência de Hamid Karzai consistia em “terceirizar” a segurança e as redes de inteligência para o Hizb-i-Islami, assim explorando os medos existenciais desses últimos de serem invadidos por enxames de Talibã. Evidentemente portanto, se o ISI continua a controlar o Hizb-i-Islami, o ISI poderia alterar a dinâmica no campo de batalha em Kunduz (embora o grupo insurgente esteja hoje relativamente muito enfraquecido, se comparado ao que foi nos últimos anos 1990s).

Claro, o resumo disso depende de onde, exatamente, está o serviço secreto paquistanês ante a atual ofensiva dos Talibã. A posição oficial do Paquistão é de que Islamabad não encoraja “o aumento da violência” que advém da ofensiva de primavera dos Talibã. Até aí, nada de novo. Mas o fato que realmente conta é que o ISI de modo algum poderia não ter percebido tamanho influxo de insurgentes, inclusive dos chamados combatentes “estrangeiros” (chechenos, uzbeques, etc.), que cruzava a fronteira para dentro do Afeganistão para apoiar uma ofensiva prolongada, dos Talibã, contra Kunduz. Isso, principalmente quando estão em pleno andamento operações militares paquistanesas nas áreas tribais adjacentes.

Aviação paquistanesa bombardeou alvos
na fronteira com o Afeganistão (1/5/2015)
Nesse caso, qual o plano de jogo dos serviços secretos do Paquistão? Será o caso de supormos que os Talibã escaparam completamente ao controle dos paquistaneses? Ou é o caso de os Talibã terem agora uma agenda própria? Ou os Talibã estão agindo a serviço de um ou outro ou vários outros serviços de inteligência? Isso, por um lado.

Há muitos indícios de que o clima das relações afegãs-paquistanesas possa deteriorar em breve, se o Talibã pressionar robustamente com a atual ofensiva. O jornal paquistanês Down  observou que Kabul e Islamabad também abrigam mútuos ressentimentos:

Há também a questão muito maior da reconciliação interna no Afeganistão que parece não estar avançando – impasse que está começando a tornar-se visível em termos de acusações nada diplomáticas que começam a ser ouvidas outra vez entre Paquistão e Afeganistão.

Do ponto de vista afegão, a abertura sem precedentes do presidente Ashraf Ghani para Islamabad não gerou a desejada cooperação em termos de usar a influência do Paquistão sobre os Talibã Afegãos, para empurrá-los até a mesa de negociações.

Do ponto de vista paquistanês, apesar da Operação Zarb-i-Azb, Operação Khyber-II e do massacre da escola em Peshawar, o estado afegão não respondeu com a presteza necessária às preocupações de segurança dos paquistaneses, nessa hora de necessidade. Confiança, como sempre, é item de oferta sempre pequena dos dois lados.

Claro que os Talibã, praticamente com certeza, há muito tempo têm uma agenda para a Ásia Central. Ninguém precisa contar novamente sobre o nexo entre os Talibã e os grupos militantes do Uzbequistão, Xinjiang, Caxemira e Norte do Cáucaso. Esse é o ponto no qual a atual ofensiva dos Talibã contra Kunduz, na qual os militantes da Ásia Central estão tendo, como já se sabe, papel chave, ganha seu significado regional.

Ásia Central - mapa político
A atual ação dos Talibã pode bem ter o objetivo de enfraquecer a capacidade da Rússia para resistir contra as tentativas dos extremistas para desestabilizar a Ásia Central e o Norte do Cáucaso. O controle sobre o norte do Afeganistão pode ajudar os Talibã – e seus grupos afiliados na Ásia Central – a negar “profundidade estratégica” aos grupos tadjiques e uzbeques nos estados vizinhos da Ásia Central. Tradicionalmente, a inteligência russa sempre trabalhou bem com esses grupos, na antiga oposição que sempre fizeram aos Talibã e a afiliados da al-Qaeda.

Por tudo isso, surge também uma pergunta de um milhão de dólares: onde ficam os EUA no cenário que se desdobra no norte do Afeganistão, onde os Talibã voltaram a atacar? Para dizê-lo do modo mais gentil: a presença dos Talibã no norte do Afeganistão pode até, afinal de contas, não ser tão má ideia, do ponto de vista das estratégias dos EUA para “conter” Rússia e China, ou das ações norte-americanas para “mudança de regime” na Ásia Central.

Leiam um colunista da revista National Interest, que explica o que a Rússia pode estar enfrentando: “ISIS em movimento: o mortal problema islamista, na Rússia”. Significativamente, o presidente Putin “revelou” (porque era informação sigilosa), em entrevista à televisão, que a inteligência russa tem provas de negociações clandestinas, inclusive com troca de logística, entre os EUA e os separatistas chechenos. Mas aqui entramos em região de fumaça e espelhos.

Por fim, as “Iniciativas do Cinturão e Estradas” [as Rota(s) da Seda”] da China, podem nem decolar, se tiverem de dar o primeiro passo nessas terríveis circunstâncias na Ásia Central.

China e Paquistão fecham acordo de investimento
em infraestrutura de US$ 40 bi (20/4/2015)
Será que se viam ares de “xeque-xeque-mate” na manhã depois da recente visita do presidente chinês Xi Jinping ao Paquistão? Ou agora, às vésperas da esperada inclusão do Paquistão (e do Irã) como membros plenos da Organização de Cooperação de Xangai – o que converte esses dois estados regionais em garantidores da segurança e da estabilidade na Ásia Central?

Não há respostas fáceis. Entrementes, nos informam que o “Estado Islâmico” (EI) está trabalhando para renascer em Kunduz. Um comentarista afegão disse à rádio Deutsche Welle essa semana, que:

(...) o EI recrutou várias centenas de combatentes no Chardarra, distrito de Kunduz. O governador da província já confirmara a informação há alguns meses. Naquele momento, os funcionários disseram que o grupo poderia lançar algum grande ataque. Agora que já atacaram Kunduz, as autoridades confirmaram que aumentou muito o número de militantes estrangeiros em Kunduz, que lutam contra forças afegãs. Testemunhas oculares dizem também que é muito alto o número de jihadistas estrangeiros.

Não há dúvidas de que se devem, sim, considerar as mais sinistras possibilidades, sobretudo agora, quando os alemães já dizem insistente e veementemente que é indispensável uma “instalação” de longo prazo, de militares dos EUA e da OTAN, no Afeganistão – independente do que desejem ou digam o povo afegão e os governos regionais.

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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

China tem apostas altas no conflito no Iêmen

31/3/2015, [*] MK BhadrakumarAsia Times Online − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os caminhos do petróleo & gás e pontos estratégicos
(clique na imagem para aumentar)
Pelo que se pode ver, é muito alto o nível de interesse de Pequim nos desenvolvimentos no Iêmen. Era de esperar, pode-se dizer, considerando que a China depende dos países do Golfo para metade de todas as suas importações de petróleo, além de manter amplo relacionamento com os países da região, que nunca parou de se expandir e aprofundar-se. A iniciativa “Estrada e Cinturão” acrescentou ao quadro uma dimensão estratégica, uma vez que a Rota da Seda cruza o Mar Vermelho.

Na verdade, a China será muito fortemente pressionada para tomar partido numa disputa regional. Isso converte a China numa espécie de “fiel depositário” do destino de todos, especialmente quando o Iêmen chegar ao Conselho de Segurança da ONU, o que é questão só de tempo.

Xinhua noticiou hoje a visita em curso da delegação da Defesa do Paquistão à Arábia Saudita, citando o Ministro da Defesa, Khawaja Asif, que disse que o Paquistão “garantirá todos os recursos, no caso de qualquer ameaça” à Arábia Saudita, mas, ao mesmo tempo, o Paquistão também busca “um fim para os conflitos no mundo muçulmano”. A matéria diz que o Primeiro-Ministro Nawaz Sharif “faria contato com líderes dos países amigos” (o que, presumivelmente, inclui o Irã). A mesma matéria dá a impressão de que o Paquistão pisa em ovos sobre uma linha muito tênue entre a devoção aos seus benfeitores sauditas e o risco de assumir qualquer dos lados numa guerra sectária.

Petróleo importado pela China, por país
(clique na imagem para aumentar)
Interessante, a rede Xinhua publicou nada menos que quatro comentários, entre ontem e hoje, sobre o conflito no Iêmen. Se se lê nas entrelinhas, há ali vestígios de desaprovação contra a intervenção militar dos sauditas, além de visível ceticismo quanto à eficácia de uma ofensiva por terra da aliança liderada pelos sauditas.

Mais significativamente, o papel do Irã é visto com muito clara compreensão e analisado sob uma luz positiva, e a China até antevê como possível que cresça o papel do Irã no mundo; a China, especificamente, prevê que aumentará o envolvimento entre EUA e Irã. Na sequência, alguns excertos interessantes:

●– Analistas dizem que a ação dos sauditas em apoio ao governo do Iêmen é motivada pelo desejo de preservar o importante status dos sauditas na região. Ainda mais: como fonte importante de ajuda econômica para o Iêmen, Riad de modo algum poderia tolerar qualquer inclinação de Sanaa na direção de Teerã.

Estreito de Bab el Mandeb
●– Uma das razões pelas quais Arábia Saudita e países árabes não pouparam esforços contra os houthis foi a necessidade de deter o rápido avanço dos rebeldes na direção da Arábia Saudita, e para bloquear o estratégico estreito de Bab al-Mandeb no Mar Vermelho, pelo qual passam milhares de navios todos os anos, disseram os analistas.

●– Segundo observadores, incursões terrestres serão muito difíceis e gerariam graves desafios para a coalizão (...) Geograficamente o Iêmen é terreno extremo, com montanhas altíssimas, cavernas e armadilhas de todo o tipo, extremamente difícil para a penetração de soldados por terra.

●– O Irã espera sinceramente o fim dos ataques aéreos dos sauditas contra posições dos houthis, e que se chegue a uma solução política para a crise no Iêmen, apesar de o país estar sendo acusado por alguns vizinhos de intrometer-se no Iêmen, disseram alguns analistas.

●– O objetivo do Irã é ver um governo de coalizão constituído no Iêmen, com a população xiita iemenita devidamente representada.

●– Os analistas não veem o Irã buscando influência dominante sobre o Iêmen, país que depende muito fortemente de dinheiro externo, que não é item abundante em Teerã por causa das sanções. Além disso, há um mar a separar o Irã e o Iêmen, enquanto a Arábia Saudita, que tradicionalmente tem tido forte influência no Iêmen, está logo ali, do outro lado da fronteira norte.

Hassan Rouhani (E) e Mohammad Javad Zarif
●– Ainda além disso, o Irã não quer que a crise no Iêmen crie ainda mais problemas para os esforços iranianos para melhorar os laços com seus vizinhos. O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, prometeu melhorar os laços com países vizinhos, como uma das prioridades de seu governo. Zarif também visitou países do Golfo com os quais têm sido raros os contatos e trocas de alto nível, por causa das relações estremecidas.

●– Para o Irã, a crise iemenita é questão complicada. Mas, se bem conduzida, poderá gerar um efeito-demonstração para todo o mundo, e especialmente para os EUA, do papel essencial que o Irã pode ter na solução de questões regionais.

Os comentários (ing.) estão aquiaquiaqui e aqui.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

domingo, 22 de março de 2015

Irã prepara-se para a volta da vitória

13/3/2015, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Teerã já mal tolerava, ao longo dos últimos anos, o teatro e as patacoadas do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu de Israel sobre a questão nuclear. Mas agora é sem luvas, afinal, com as conversações EUA-Irã entrando decididamente numa fase em que a mídia-empresa norte-americana discute se o acordo é “acordo”, “memorando de intenções”, “tratado”, só muda o nome.

Os diplomatas dos países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU já começaram consultas, em New York sobre uma resolução que levantará formalmente as sanções da ONU contra o Irã, caso o acordo seja assinado.

Israel recorreu repetidas vezes a crimes, como o assassinato de cientistas iranianos, e Netanyahu nunca perdeu oportunidade para caricaturar o Irã como se fosse responsável por todos os males desse nosso atormentado mundo, não raro com linguagem grosseira. O Irã jamais retaliou, nem ante a provocação mais ofensiva. Agora, vai acabar. E, dando às coisas o nome verdadeiro, Netanyahu não é páreo para Teerã.

Semana passada, o influente assessor do Supremo Líder e ex-Ministro de Relações Exteriores, Ali Akbar Velayati, chamou Netanyahu de “aquele vagabundo”, ao comentar a aparição [“daquele vagabundo”] no Congresso dos EUA, recentemente, para falar mal do Irã.

Ontem, o Supremo Líder, Ali Khamenei, usou outra expressão colorida – “o palhaço sionista”. Não há dúvidas de que o Irã já sentiu que Netanyahu perdeu a batalha, e a recente carta de deputados Republicanos pró-Israel do Congresso dos EUA pode ser o proverbial último prego no caixão da campanha israelense contra a decisão de Obama de acertar as coisas com Teerã.

Mohammad Javad Zarif, MRE do Irã 
Não há dúvida de que o Irã conhece, em detalhes, os meandros da política doméstica nos EUA.
(...)
O Irã, além do mais, fez a lição de casa, e será perda de tempo os norte-americanos inventarem que teria sido acordo Obama-Irã, não EUA-Irã. O Ministro das Relações Exteriores, Mohammad Zarif (especialista competentíssimo, em lei internacional) já deu boas lições aos muito carentes delas, ignorantes deputados norte-americanos, sobre o contato íntimo entre lei nacional e lei internacional, em políticas exteriores.

Seja como for, tão logo o Conselho de Segurança levante as sanções contra o Irã, abrir-se-ão as comportas, e a plena integração do Irã com o ocidente se tornará irreversível. Nenhum futuro governo dos EUA gostará de negar-se a si mesmo o prazer de magníficos negócios com país rico e civilizadíssimo. como o Irã. Mas o “Big Oil” texano proibirá.

Em seu discurso em Teerã ontem [5ª-feira, 12/3/2015], Khamenei elogiou demoradamente a equipe de negociadores iranianos – “gente boa, honesta, sincera, que trabalha para o avanço do país no futuro” – deixando claro que o acordo que está sendo finalizado conta com sua aprovação plena e suas bênçãos. Foi grande mensagem, que ecoará por todos os corredores do poder no Irã.

Khamenei fez esses comentários quando discursava para os membros da poderosa Assembleia dos Especialistas, onde se reúne “la crème de la crème” das elites religiosas (e políticas) iranianas.

Aiatolá Ali Khamenei em 12/3/2015
Vale anotar também que Khamenei teve a grata satisfação de ver eleito em eleições diretas e abertas, naquela Assembleia dos Especialistas, como novo presidente, seu amigo e companheiro de longa data, Aiatolá Mohammad Yazdi, o qual, e também é interessante, derrotou ali o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, por 47-26 votos. A especulação já começou, na mídia-empresa ocidental, que Yazdi, de 83 anos, pode, algum dia, vir a ser Supremo Líder do Irã (Daily Star).

Ontem, Zarif pessoalmente informou a Assembleia dos Especialistas sobre a situação do acordo nuclear. Sob todos os aspectos, é momento emocionante, entusiasmante, para a Revolução Islâmica de 1979. 35 anos de sítio, afinal já próximo de ser levantado.

É um grande momento não só para o ocidente, mas também para a Ásia, que a última fronteira da segurança energética esteja tão próxima – sobretudo para a China. A próxima visita do presidente Xi Jinping ao Irã está marcada com “timing” perfeito. Segundo o Ministro chinês de Relações Exteriores, Wang Yi, o resultado da visita promete ser “dramático”.

Evidentemente, o Irã escolherá com extremo cuidado os parceiros de energia. A política “Olhe para o leste” construída pelo ex-presidente Mahmoud Ahmedinejad já perdeu a relevância.

Os aiatolás Ali Khamenei (E) e Mohammad Yazdi em 12/3/2015
O Iran Daily, jornal muito próximo dos centros de poder em Teerã, comenta hoje em editorial,

Exportar gás por gasodutos ajuda a formar fortes laços diplomáticos e relações internacionais com nações regionais e trans-regionais. O Irã deve desenvolver laços próximos com estados como Turquia, Paquistão, Iraque e Índia, para aumentar suas exportações de gás. (...)

Dado que os europeus têm interesse em importar gás do Irã, o país do Golfo Persa já manteve conversações com a Suíça e a União Europeia, para transferir gás para a Europa. Mas são ainda indispensáveis equipamento e infraestrutura a serem desenvolvidas para que exportem o gás deles para a Europa. O Irã já é capaz de exportar gás para a Europa imediatamente, tão logo comece o bombeamento.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.