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quarta-feira, 20 de março de 2019

Sanções ocidentais afetam a economia libanesa - EUA empurram o Líbano para os braços de Irã e Rússia




O Líbano espera essa semana a visita do secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, num momento em que o mapa político econômico do Líbano está sendo redesenhado, e o Líbano sofre o mais grave revés econômico de sua história recente.

Entre as razões da deterioração da economia local, está não só a corrupção da liderança política e do 'baixo clero' do governo libanês, mas também as recentes sanções, as mais duras jamais impostas. E afetarão dramaticamente o Líbano enquanto o presidente Donald Trump permanecer no poder, se o Líbano não seguir a política e as ordens dos EUA.

Se como foi previsto, Washington declara guerra econômica ao país, as sanções deixarão poucas alternativas ao Líbano. Podem forçar o Líbano a voltar-se para a indústria civil iraniana, para sobreviver à pressão econômica dos EUA, e a depender da indústria militar russa para equipar as forças de segurança do Líbano. Acontecerá precisamente isso, se Pompeo insistir nas ameaças a funcionários libaneses, como assessores dele têm feito em visitas anteriores ao país. A insistente mensagem de funcionários dos EUA tem sido: ou você está conosco, ou contra nós.

Politicamente, o Líbano está dividido entre duas correntes, uma pró-EUA (e Arábia Saudita) e outra fora da órbita dos EUA. A situação econômica pode bem aprofundar a divisão interna, a ponto de a população reagir com fúria, para que se excluam do Líbano os EUA e aliados.


ImagemSaid Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, reunido 
com seu mais próximo aliado, presidente libanês Michel Aoun

Esse cenário pode também ser evitado, se Arábia Saudita injetar suficiente investimento que consiga religar a agonizante economia local. Mas a Arábia Saudita teme que todos os não alinhados às suas políticas e às políticas dos EUA possam extrair benefícios do apoio dos sauditas. Até aqui, Riad ainda não compreendeu completamente a dinâmica interna libanesa e o que é possível ou impossível alcançar no Líbano. O sequestro do primeiro-ministro Saad Hariri foi a mais flagrante indicação da ignorância saudita quanto à política libanesa. O mais provável é que a nenhuma visão estratégica dos sauditas para o Líbano venha a impedir qualquer apoio à periclitante situação econômica libanesa e pode levar o país a instabilidade grave.

Antes de 1982, 1 EUA-dólar equivalia a 3 libras libanesas. Aconteceu em parte porque a Organização de Libertação da Palestina (OLP) estava gastando dezenas de milhões de dólares no país, em benefício preferencial das famílias palestinas que viviam no Líbano. Além disso, organizações da ONU (UNRWA) e outras ONGs também distribuíam apoio financeiro a refugiados palestinos cujos lares foram tomadas por Israel, o que forçou muitas famílias a deixar o próprio país.

Depois da invasão israelense ao Líbano em 1982, a OLP foi forçada a deixar o país. Não muito depois, o EUA-dólar alcançou taxa de câmbio de 3.000 liras libanesas, depois desvalorizada, para estabilizar na taxa atual de 1 EUA-dólar por 1.500 liras libanesas. O Irã entrou em cena para apoiar os combatentes libaneses (a Resistência Islâmica no Líbano, i.e. o Hezbollah) a recuperar o próprio território então ocupado por Israel. No ano 2000, o Irã começou a investir pesadamente no Hezbollah, e o grupo conseguiu expulsar os israelenses de praticamente todo o território libanês. O investimento financeiro iraniano alcançou nível muito alto na época da guerra de 2006, quando Israel tentou e não conseguiu desarmar o Hezbollah, que manteve seus foguetes e mísseis fora do alcance de Israel.


Imagem: Said Nasrallah, líder do Hezbollah, com seu mais 


Em 2013, o governo sírio convocou o Hezbollah para apoiar o Exército Sírio que combatia para impedir a desintegração do país e impedir que os militantes takfiri ganhassem o controle do país. O Irã bombeou bilhões de dólares para derrotar ISIS e al-Qaeda e impedir que esses grupos se impusessem na Síria e Iraque, sabendo sempre que o alvo seguinte seria o Irã. O orçamento para as tropas do Hezbollah subiu à estratosfera. Apoio à movimentação de tropas, logística e pagamentos diários aos próprios combatentes, contribuíram para 'animar' a economia libanesa. O orçamento do Hezbollah subiu bem acima de $100 milhões por mês.

Mas depois da chegada de Donald Trump ao poder, e de os EUA terem desertado do acordo nuclear com o Irã, o governo dos EUA impôs àquele país as sanções mais severas de todos os tempos, e cortou as doações às organizações da ONU que apoiam os refugiados palestinos (UNRWA). As sanções contra o Irã forçaram o Hezbollah a viver sob novo orçamento: um plano de austeridade de cinco anos. As forças foram reduzidas a um mínimo na Síria, o movimento das tropas foram reduzidos conforme a verba mais curta, e todos os pagamentos adicionais foram suspensos. O Hezbollah reduziu o próprio orçamento a ¼ do que havia sido, sem suspender salários mensais e assistência médica a militantes e fornecedores, por ordem pessoal de Said Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah.

Essa nova situação financeira, de fluxo de dinheiro reduzido e sem moeda estrangeira, afetará a economia do Líbano. Prevê-se que as consequências sejam mais visíveis nos próximos meses, o que pode levar a possível reação doméstica, quando a população sentir o peso da dificuldade econômica.

EUA e Europa estão impondo controle estrito sobre ativos que entrem e saiam do Líbano. O país está numa lista negra financeira e todas as transações são fiscalizadas em detalhe. Doações religiosas de outros países estão proibidas, na prática, posto que expõem os doadores a acusações graves, por países ocidentais, de apoio ao terrorismo.

Enquanto Trump permanecer no poder, Hezbollah e Irã avaliam que a situação permanecerá crítica; estimam que, muito provavelmente, o presidente dos EUA será reeleito para um segundo mandato. Os próximos cinco anos serão muito provavelmente difíceis para a economia libanesa, especialmente se a visita de Pompeo trouxer mensagens e ordens às quais o Líbano não pode atender.





Pompeo quer que o Líbano desista da demanda de redefinir suas disputadas fronteiras líquidas com Israel, cedendo à entidade sionista os blocos 8, 9 e 10. A demanda não será atendida, e funcionários libaneses disseram em várias ocasiões que contam com os mísseis de precisão do Hezbollah para impedir que Israel continue a roubar água do Líbano.

Pompeo também quer que o Líbano exclua o Hezbollah do governo. Outra vez, o establishment norte-americano ignora que o Hezbollah é quase 1/3 da população do Líbano, apoiado por mais da metade dos xiitas, cristãos, sunitas e drusos libaneses, com cargos noExecutivo e no Legislativo do país.

Qual, então, a alternativa? Se Arábia Saudita entrar no jogo, o Líbano não precisa de um ou dois ou cinco bilhões, mas de dezenas de bilhões de dólares para ressuscitar a economia. E também precisa que de uma política de 'tirem as mãos daqui' para o establishment dos EUA, para que o país consiga se autogovernar.





Os sauditas já estão sofrendo com os abusos de Trump, e o dinheiro saudita está desaparecendo. E se os sauditas decidirem investir no Líbano, tentarão impor termos não muito diferentes do que os EUA exigem. A Arábia Saudita delira, se conta com bloquear, no Líbano, a influência do Irã e a ação dos apoiadores do Hezbollah: é objetivo completamente inatingível.

Quanto ao Líbano restam-lhe poucas escolhas. O Líbano pode aproximar-se ainda mais do Irã pensando em reduzir gastos e o preço de bens de consumo; e pode pedir à Rússia que apoie o exército libanês, se o ocidente não o fizer. A China prepara-se para entrar no país e, sim, pode ser alternativa positiva para o Líbano, usando o país como plataforma para chegar à Síria e, dali, ao Iraque e à Jordânia. Sem isso, o Líbano terá de preparar-se para juntar-se à lista dos países mais pobres da região e do mundo.

Um sombra paira sobre a terra dos cedros, que já teve de lutar pela própria sobrevivência no século 21. O Hezbollah, agora sujeito às sanções de EUA e Reino Unido, é a mesma força que já protegeu o país contra combatentes takfiri do ISIS e outros, que ameaçavam expulsar do país os cristãos. Esse foi o conselho que o presidente Sarkozy da França deu ao patriarca libanês, que os cristãos libaneses deixassem as suas casas. Os jihadistas takfiri e a OTAN têm precisamente os mesmos planos para o Líbano. 

O fracasso do plano do establishment dos EUA, de dividir o Iraque e criar um estado falhado na Síria, como parte de um "novo Oriente Médio" despertou o urso russo de sua longa hibernação. Hoje, a Rússia compete com os EUA pela hegemonia no Oriente Médio, obrigando Trump a tentar absolutamente tudo, sem limite, para quebrar a frente anti-EUA.

É batalha sem regras, vale-tudo no qual se permitem todos os golpes. Os EUA estão empurrando o Líbano para um beco, onde não lhe restará alternativa que não seja firmar uma íntima parceria com Irã e Rússia.


Postado há 17 hours ago por  O Empastelador

terça-feira, 7 de julho de 2015

E agora?! Outra vez a nêmesis Nuland/ Nudelman? Grécia será destruída, para “salvá-la da Rússia”, feito a Ucrânia?!




5/7/2015, [*] John Helmer, Dance with Bears (de Moscou)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Está em preparação um putsch em Atenas, para salvar a aliada Grécia das garras da Rússia inimiga. Os putschistas-chefes são EUA e Alemanha, com apoio do pessoal que não paga impostos na Grécia – oligarcas gregos, armadores anglo-gregos e a Igreja Grega.
No mais alto e no mais baixo níveis do governo grego, e de Thessaloniki a Milvorni, todos os gregos compreendem o que está acontecendo. Ontem, votaram empenhadamente em ato de resistência. Segundo uma alta figura política em Atenas, veterano de 40 anos de política, “o que estamos vendo acontecer é mudança de regime em câmera lenta”.
Até domingo à tarde, a disputa ainda continuava muito apertada. Os votos SIM e NÃO estavam praticamente empatados, a diferença não maior que um fio de cabelo.
No início da manhã, o London Times de Rupert Murdoch publicou que:
Forças gregas de segurança têm já um plano secreto para usar o exército, com as polícias especiais antitumulto, para conter possível agitação civil depois do referendum de hoje sobre o futuro do país na Europa. Na chamada “Operação Nêmesis”, está previsto o uso de soldados para patrulhar as maiores cidades, se houver agitação pública prolongada. Detalhes do plano emergiram agora, com as pesquisas mostrando que os campos “SIM” e “NÃO” estão correndo pescoço a pescoço.
Nenhum funcionário ou militar grego fala com os jornais e jornalistas de Murdoch. Mas agentes dos governos de EUA e Grã-Bretanha, sim.
Até às 15h, estava pescoço a pescoço – então os jovens começaram a votar – informa o veterano político em Atenas.
Será que o resultado – 61% a 39% – no referendum, com margem de 22% a favor do Οχι (NÃO), que o New York Times declarou “chocante” e uma “vitória que nada resolve”, consegue derrotar a Operação Nêmesis? Será que no neo-Eixo – EUA e Alemanha – atacará novamente, como os alemães fizeram depois que o 1º Οχι grego, de 28/10/1940, derrotou a invasão italiana?
O Kremlin também compreende o que está acontecendo. Por isso, quando Victoria Nuland (de solteira, Nudelman) do Departamento de Estado visitou Atenas, para deixar lá seu ultimatum contra qualquer quebra no regime de sanções anti-Rússia; e quando, logo depois, começaram os think-tanks anglo-americanos, com “alertas” de que a Marinha Russa estaria pronta para entrar no porto de Pireus, já não restou qualquer dúvida e o jogo ali estava, bem claro.
A palavra-senha para a Operação Nêmesis é que a Grécia teria de ser salva, não dela própria nem dos credores, mas do grande inimigo em Moscou. Os russos decidiram nada fazer para aumentar a divulgação dessa propaganda; esperar e observar.
No cargo de Chefe do Gabinete de Assuntos Europeus e Eurasianos do Departamento de Estado, Nuland é a funcionária encarregada de promover guerras em solo europeu. O que ela fez na Ucrânia está documentado em UAU! É a minha garota! Biden e Kerry não têm colhões!. Ela esteve em Atenas, quase sem qualquer cobertura de mídia, dia 17/3/2015, quando fez dois ultimatos. O comunicado distribuído pela Embaixada dos EUA em Atenas levava o título de “Queremos ver prosperidade e crescimento em Atenas”.
Nuland disse ao Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras (à direita, na foto), que:
(...) não rompesse a unidade dos aliados da OTAN contra a Rússia. “Por causa dos eventos de agressão crescente no leste da Ucrânia” – disse ela – os EUA estamos muito satisfeitos por termos obtido solidariedade entre a União Europeia e os EUA; e por a Grécia ter desempenhado o papel que lhe cabe, ajudando a construir consenso.
Na imagem (abaixo) do encontro, distribuída também pela Embaixada dos EUA, vê-se que Nuland faz com as mãos a mesma ameaça que se lia nas entrelinhas do press-release.
Victoria Nuland e Alexis Tsipras

Nuland também avisou Tsipras de que não deixasse de pagar o que deve à Alemanha, ao Banco Central Europeu e ao FMI. Tsipras ouviu ordens para fazer “um bom acordo com as instituições”. O referendum que Tsipras convocou dia 27/6/2015, foi surpresa para Nuland. A parte nêmesis na Operação Nêmesis é o castigo planejado contra essa manifestação de húbris grega.
Ocupado há um ano em esbravejar contra a legitimidade do referendum de março 2014 na Crimeia, que disse “SIM” à reintegração da região à Rússia, o Departamento de Estado, por 48 horas, não deu atenção ao referendum grego. Dia 29/6/2015, perguntado sobre o que o governo dos EUA pensava fazer, no caso de o resultado do referendum “ser NÃO”, o porta-voz de Nuland, Mark Toner, disse que os EUA ignorariam o resultado.
Estamos focados, francamente, no contrário, quero dizer, em encontrar um caminho adiante que permita à Grécia continuar a fazer reformas, voltar a crescer e permanecer na Eurozona.
A única referência oficial de Washington, além dessa,  ao referendo grego, só veio dia 30/6/2015, quando, no briefing diário no Departamento de Estado, alguém perguntou:
O que vocês estão fazendo, dentro do FMI, no qual os EUA são o maior acionista, para pressionar também por esse lado, a favor de mais boa-vontade com os gregos?
Estamos monitorando cuidadosamente a situação (...) continuamos convencidos de que é importante que todos os lados cooperem para retomar um caminho que permitirá à Grécia retomar as reformas e voltar a crescer dentro da Eurozona. Mas, repito, estamos monitorando de perto.
O último atentado planejado pelo governo dos EUA para derrubar governo grego eleito foi contra o Primeiro-Ministro Andreas Papandreou entre 1987 e 1989. Com o filho dele e seu sucessor, George Papandreou, não foi preciso derrubar ninguém – George e sua mãe, Margarita Papandreou – já estavam sob controle de Washington. Mas contra Andreas, foram necessárias contramedidas sérias. Medidas de fato militares, para implantar o tipo da ditadura que houve na Grécia entre 1967 e 1974 e foi unanimemente impopular, nacionalmente e internacionalmente. Foram medidas extraordinariamente dispendiosas; para piorar, desacreditaram os militares de EUA e da OTAN, que foram vistos publicamente, sempre defendendo a “Junta” militar golpista e usurpadora em Atenas.
Foi quando o governo Reagan resolveu que Papandreou teria de ser derrubado pelo próprio povo, se possível em eleições. A estratégia foi “dar a Papandreou corda suficiente para se enforcar” – disse Robert Keeley, então embaixador dos EUA em Atenas. Foi também uma espécie de Operação Nêmesis.
O plano era derrotar a húbris de Papandreou diante do próprio eleitorado grego, primeiro num confronto militar no mar Egeu contra a Turquia; depois numa acusação de corrupção do Primeiro-Ministro por um banqueiro grego e proprietário de clube de futebol.
Andreas Papandreou (E) e Turgut Ozal (março-1987)

Nos dois casos, os gregos fizeram abortar os esforços de golpe, com movimentos que os funcionários norte-americanos não perceberam com suficiente antecedência. Os turcos retiraram-se, quando viram surgir força naval combinada de gregos e búlgaros; e o Primeiro-Ministro turco foi enviado para uma clínica cardiológica em Houston, Texas. George Koskotas, o homem que acusava Papandreou, foi preso em Boston e devolvido diretamente para uma prisão grega. Pode-se dizer que foi um caso de húbris reversa. Para mais informações, leia “27/1/2015, A Grécia, com Chipre, é o único estado-membro da OTAN a ter sido (e continuar) ocupado militarmente por outro estado-OTAN (Turquia) apoiado pela aliança inteira.
Ontem, domingo, se os eleitores gregos tivessem ficado divididos pela velha divisão da Guerra Civil, esquerda contra direita, azuis contra vermelhos, as forças de segurança teriam sido mobilizadas para enfrentar manifestantes na praça Maidan, epa!, digo, Praça Syntagma, e atiradores de precisão lá estariam pelos telhados do Grande Bretagne Hotel dando o sinal de partida para a Operação Nêmesis. Mas dessa vez o exército dos think-tank & jornais & jornalistas falharam quase totalmente, com tiros para todos os lados que, todos, erraram o alvo.
Em Londres, o Legatum Institute mantido com dinheiro norte-americano passou sem ver, completamente cegos, pelas pesquisas; e desperdiçou além das pesquisas também o próprio painel de discussões, com ataques contra Venezuela, China, Síria e Rússia, que usariam:
(...) fenômenos antes associados à democracia – eleições, internet, jornais, jornalistas e jornalismos, o mercado – para minar liberdades, além de minarem também: o potencial de auto-organização da sociedade.
Legatum deixou para Anne Applebaum o duvidoso privilégio de informar ao mundo que o governo grego pode ser derrubado, “porque” “foi eleito sobre premissa completamente falsa”.
O Royal Institute of International Affairs (Chatham House), que trovejava mês passado contra a infoguerra russa, desde então passou a trovejar contra as democracias tunisiana e nigeriana; essa semana está anunciando um novo painel de discussões sobre:
(...) o progresso obtido por Kiev nos quesitos transparência e reforma das instituições chaves de governo.
Chatham House há tempo está em silêncio sobre a democracia grega; do referendum, nem falou.
Em Washington, o International Republican Institute (IRI) – cujo lema é “ajudar a democracia a tornar-se mais efetiva, onde esteja em perigo” – há meses só faz lançar suas pesquisas sobre democracia pagas pelo Departamento de Estado, mas nesse caso só sobre a Costa do Marfim e o Zimbábue; nem uma palavra sobre a Grécia. E o National Democratic Institute (NDI) só se preocupa, há meses, com seus esquemas “democráticos” na Geórgia, no Iraque e no Kosovo.
O Pew Research Centre em Washington tentou antecipar o resultado do referendum grego, pesquisando 2,5 milhões de mensagens de Twitter na Grécia, e publicou os resultados dia 3/7/2015. Tuítos em grego foram 40% a 33% a favor do “SIM”. Em inglês, 32% a 7% a favor do “SIM”. Na vida real, os resultados da mídia social não se confirmaram. Se o Centro Pew não inventou tudo isso, o grande número de tuítos “neutros” converteram-se em votos “NÃO” no dia do referendum.



A Brookings Institution e o Peterson Institute – ambos mantidos com dinheiro do oligarca ucraniano Victor Pinchuk para bater tambor anti-Rússia na Ucrânia – parou a um passo de prever o resultado do referendumgrego, mas condenou o governo por tê-lo proposto. Dia 1º de julho/2015, Carlo Bastasin, jornalista italiano assalariado pela Brookings, dizia ter fontes que seriam “testemunhas oculares” de que o “líderes gregos têm conduta inescrupulosa” e de “Planos do governo grego para impor ainda mais recessão e arrocho do que os europeus”. As fontes do jornalista não têm nome.
No comitê executivo do Peterson Institute, a estratégia para a Grécia é dirigida por Andreas Dracopoulos. Trata-se de membro da família do armador grego Stavros Niarchos, e administrador do dinheiro da fundação de mesmo nome. Perguntado sobre o que o dinheiro de Niarchos estaria fazendo para minorar a crise doméstica, Andreas mencionou vales-comida para os pobres e camas para os sem-teto. Infelizmente, não falou de pagar impostos. Andreas Dracopoulos foi condecorado, por governo anterior, com a medalha de Grande Comandante da Ordem da Fênix; por causa da filantropia da Fundação Niarchos. Na imagem abaixo vê-se Dracopoulos ao lado do Arcebispo Demetrios, primaz da Diocese Norte-Americana da Igreja Grega, tradicional inimigo, ou pior, de governos em Atenas que a diocese veja como “de esquerda”.
Andreas Dracopoulos e Arcebispo Demetrios


A comunidade greco-norte-americana evitou qualquer declaração pública sobre o referendum. Em vez disso, dia 1/7/2015, a Associação EUA-Helênica Educacional Progressista [orig. American Hellenic Educational Progressive Association (AHEPA)], como é conhecido esse tradicional grupo de lobby, anunciou que:
Também conclamamos o governo Obama a aprofundar seu engajamento, para assegurar que os lados em disputa cheguem a solução adequada.
Se os greco-norte-americanos, Dracopoulos e a Igreja estavam convocando a Operação Nêmesis, com certeza não iam votar “NÃO” no dia 5/7/2015. Antes de a votação:
Seja qual for o resultado do referendum realizado na Grécia dia 5/7/2015, o que é crucial parta a comunidade greco-norte-americana é que as relações EUA-Grécia permaneçam fortes e garantidas, e que a importância geoestratégica e da contribuição da Grécia a favor dos interesses de segurança dos EUA e da OTAN sejam valorizadas e apreciadas.
Fontes políticas em Atenas reconhecem que, depois de chegar ao poder em janeiro, Tsipras e seus colegas no partido Syriza silenciosamente tomaram medidas de precaução contra um putsch pelas forças de segurança do país.
A liderança [dos militares e dos serviços de inteligência] foi trocada – dizem as fontes – mas não radicalmente. O Ministro da Defesa [Panos Kammenos] é homem de direita, mas não há “radicais” em comando.
Em Moscou houve ceticismo desde o início, de que Tsipras conseguiria ou decidiria resistir à pressão de EUA e Alemanha. Há mais sobre isso em Resposta russa ao Plano B da Grécia – sorrir, tocar o apito e contar o que sabe, mostrar cartão vermelho. Em abril/2015, e depois novamente em junho, Kammenos fugiu à discussão sobre que tipo de nova cooperação militar com a Rússia o lado grego está considerando. Adiaram-se discussões sobre detalhes, até que os dois governos tenham reunião conjunta de comissão ministerial, marcada para o final de julho.
Panos Komenos (E) e Sergey Shoigu (15/4/2015 em Moscou)

Analistas militares russos esperam que Chipre organize cooperação militar ampliada, incluindo a Marinha Russa e aeronaves de apoio à Marinha. Entendem que a Grécia não solicitará, nem o Kremlin aceita cooperação grega comparável. Sobre isso, há mais em Chipre é mais importante para a Rússia, que a Grécia, mas não é assim tãããão importante”.
Assim sendo, de onde Robert Kaplan tira a ideia de que EUA e UE devem atuar “para manter navios russos bem longe de portos gregos”? Kaplan, do Centro para Nova Segurança Norte-Americana [orig. Center for a New American Security (CNAS) em Washington, informou aos leitores de Wall Street Journal dia 30/6, que o golpe do Kremlin seria usar o Syriza como ferramenta para arrancar a Grécia da União Europeia e desmantelar posições da aliança dos EUA nas costas mediterrâneas e nos Bálcãs. A Rússia, segundo Kaplan,
(...) pode estar [sic] ajudando a inflamar as divisões internas do Syriza, na esperança de que o partido governante grego não consiga fazer todas as difíceis concessões necessárias para permanecer na Eurozona. [Um voto “NÃO” na Grécia] combinado com o desmembramento e enfraquecimento da Ucrânia enfraquecerá seriamente a posição geopolítica da Europa vis-à-vis à Rússia.
O think-tank de Kaplan em Washington informa que é sustentado por conhecidas empresas fornecedoras de equipamento militar; empresas norte-americanas de petróleo; os governos de Japão, Taiwan e Cingapura; OTAN; Exército, Marinha, Marine Corps e Força Aérea dos EUA; plus as Fundações Sociedade Aberta [Open Society] de George Soros. A principal executiva do CNAS é Michele Flournoy, fundadora do think-tank que está servindo como sua plataforma para lançar-se como a próxima Secretária da Defesa, se Hillary Clinton vencer a corrida presidencial ano que vem. Flournoy é uma das redatoras de um recente plano para que os EUA escalem os reforços em armas e soldados na Ucrânia e em toda a fronteira russa com os estados bálticos. O plano dela leva o título de “O que EUA e OTAN devem fazer”.
Michèle Flournoy


Até o relatório de Kaplan semana passada, a única coisa que o CNAS dissera sobre a Grécia fora um relatório em janeiro passado (2015), explicando “Por que Putin é o Grande Vencedor nas Eleições Gregas”. O especialista do think-tank responsável por essa pérola era um ex-funcionário do Tesouro dos EUA, com treinamento em árabe e nenhum trabalho sobre a Europa, menos ainda sobre a Grécia. Kaplan, que é soldado israelense, além de empregado do Pentágono e conferencista de agências de inteligência dos EUA, explica que seus saberes sobre Grécia advêm de “ter vivido em Atenas durante aquela década [1980s]”. A menos que tenha tido folga prolongada de qualquer trabalho que tenha feito na Grécia, Kaplan só andou por lá se trabalhava sob identidade falsa.
Quanto a guerra na Grécia agora, basta declarar de quem os gregos devem ser salvos. Os gregos votaram mais explicitamente que os ucranianos contra se sacrificarem aos interesses de EUA-OTAN. Mas os especialistas norte-americanos têm absoluta certeza de que não o fizeram por algum anseio de democracia à moda Eixo, mas movidos só por húbris. Para acabar com qualquer húbris, pois, aí está a Operação Nêmesis. Naturalmente.


[*] John Helmer (1946) é jornalista investigativo e blogueiro norte-americano baseado em Moscou. Especialista em Relações Internacionais. É filiado ao Consórcio de Jornalismo Independente nos EUA. Helmer está baseado em Moscou desde 1989 e realizou trabalhos para o jornal The Australian e The Australian Financial Review e muitas outras publicações em língua inglesa.