Mostrando postagens com marcador Alexis Tsipras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexis Tsipras. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de julho de 2015

Slavoj Žižek sobre a Grécia: “É uma chance para a Europa acordar”

6/7/2015, [*] Slavoj Žižek, Newstatesman
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Varoufakis em reunião com o Eurogrupo (26/6/2015)

O forte e inesperado NÃO no referendum grego foi voto histórico, lançado em situação desesperada.
Em meu trabalho já várias vezes repeti a conhecida piada, datada da última década da União Soviética, de Rabinovitch, um judeu que quer emigrar.
O burocrata no guichê da emigração, pergunta por quê, e Rabinovitch responde:
São duas razões. A primeira é que tenho medo de que os comunistas percam poder na União Soviética. Depois, vem outro poder, que logo começará a pôr a culpa de todos os erros dos soviéticos, em nós, judeus. E recomeçarão os pogroms antijudeus...
Mas – o burocrata o interrompe – tudo isso é perfeito nonsense! Nada vai mudar na União Soviética, o poder dos sovietes durará para sempre!
— É – responde Rabinovitch. – Essa é minha segunda razão.
Ouvi contar que uma nova versão dessa piada circula agora em Atenas. Um jovem grego visita o Consulado da Austrália em Atenas e pede um visto de trabalho.
Por que você quer deixar a Grécia? – pergunta o funcionário.
— Por duas razões, responde o grego. Primeira, que tenho medo de que a Grécia separe-se da UE, o que levará a mais miséria e caos no país.
Mas – o funcionário o interrompe – tudo isso é perfeito nonsense! A Grécia continuará na UE e se submeterá a disciplina financeira!
É – responde o grego. – Essa é minha segunda razão.
Será que, parafraseando Stálin, as duas escolhas são piores?
*****

União Europeia e Grécia... Juntas até quando?

É chegado o momento de avançar para além dos debates irrelevantes sobre erros e possíveis avaliações erradas que o governo grego tenha feito. As apostas estão altas demais.
Que uma fórmula de conciliação sempre desapareça no último instante, nas negociações em curso entre a Grécia e os administradores da União Europeia (EU) já é, por si, evento profundamente sintomático. Afinal, não se trata realmente de questões financeiras reais – nesse plano, as diferenças são mínimas. A UE em geral acusa os gregos de só falarem em termos gerais, de fazerem promessas vagas sem detalhes especificados; e os gregos acusam a UE de tentar controlar até os mais ínfimos detalhes e impor condições aos gregos que são piores, até, que as que o antigo governo impunha. Mas entre as queixas mútuas, há outro conflito, muito mais profundo. v
O Primeiro-Ministro, Alexis Tsipras, da Grécia observou recentemente que, se ele e Angela Merkel sentassem juntos para jantar e conversar, em duas horas encontrariam fórmula aceitável. O argumento dele é que ele e Merkel, dois políticos, tratariam o desacordo como desacordo político, muito diferente de gerentões tecnocráticos como o Presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem.
Se há bandidão emblemático nesse enredo todo é esse Dijsselbloem, cujo lema é “Se caio no lado ideológico das coisas, não consigo nada”.
E isso nos leva ao xis da questão: Tsipras e Yanis Varoufakis, o ex-Ministro das Finanças que renunciou dia 6/7/2015, falam como se fosse parte de um processo político aberto, no qual as decisões sempre são, afinal, “ideológicas” (quer dizer: baseadas em preferências normativas), enquanto os tecnocratas da UE falam como se tudo fosse questão de medidas regulatórias a serem detalhadas.
Quando os gregos rejeitam essa abordagem e levantam questões políticas mais fundamentais, são acusados de mentir, de renegar soluções concretas e tal e tal. E é claro que a verdade está do lado dos gregos: a negação do “lado ideológico” que Dijsselbloem tanto quer é ideologia em estado puro. É posição que mascara (apresenta sob forma falsa) medidas regulatórias muito específicas que, de fato, tem raízes em decisões político-ideológicas.
Por conta dessa assimetria, o “diálogo” entre Tsipras ou Varoufakis e seus parceiros na União Europeia frequentemente se assemelha a conversa entre um jovem aluno que quer debate sério sobre questões básica, e um professor arrogante que, em suas respostas, humilhantemente ignora a questão e ataca o aluno com pontos técnicos (“Sua frase está mal construída! Você não formulou corretamente essa ideia! Você não está levando em conta o que a lei determina!”). Ou até um diálogo entre uma vítima de estupro, que desesperadamente narra o que lhe aconteceu e um policial que continuadamente a interrompe para pedir detalhes burocráticos administrativos do “evento”.
Essa passagem, da política propriamente dita para a administração técnica neutra caracteriza todo nosso processo político: decisões estratégicas baseadas no poder são cada vez mais e mais mascaradas sob regulações administrativas baseadas em conhecimento especializado pressuposto neutro, e são cada vez mais e mais negociadas em segredo e impostas sem qualquer consulta democrática.
Alexis Tsipras anuncia Referendum para 5/7/2015


A luta que se trava hoje é luta pela cultura econômica e política dominante (Leitkultur) na Europa. As potências da UE defendem o status quo tecnocrático que preserva e mantém há décadas a inércia da Europa.
Em suas Notas para uma Definição de Cultura, o brilhante conservador T.S.Eliot ensina que há momentos nos quais a única escolha que há é entre a heresia e a não crença, i.e., quando a única maneira de poder manter viva uma religião é fazer um corte sectário no âmago do corpo principal.
Essa é nossa posição hoje, em relação à Europa: só uma nova “heresia” (representada hoje pelo SYRIZA) pode salvar o que ainda vale a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no povão, a solidariedade igualitária.
A Europa que vencerá, se o SYRIZA for atropelado, é uma “Europa com valores asiáticos” (o que, é claro, nada tem a ver com a Ásia, mas tem tudo a ver com a tendência visível e atual no capitalismo contemporâneo, de suspender a democracia).
*****
Nós, da Europa Ocidental gostamos de olhar para a Grécia como se fôssemos observadores distanciados que acompanham, com compaixão e simpatia, o suplício de uma nação empobrecida. Esse confortável ponto de vista repousa sobre uma ilusão fatídica. Verdade é que o que se passa na Grécia nessas últimas semanas nos concerne a todos, o que está em jogo é o futuro da Europa. Portanto, quando lemos sobre a Grécia desses dias, não esqueçamos que, como diziam os antigos, de te fabula narratur [a fábula fala de ti].
Um ideal está emergindo gradualmente da reação do establishment europeu ao referendum, grego, o ideal que mais bem aparece explícito no título de uma coluna recente de Gideon Rachman no Financial Times: “O elo mais frágil da Eurozona são os votantes”.
Nesse mundo ideal, a Europa livra-se desse “elo mais frágil” e os especialistas ganham poder para impor diretamente o que entendam que sejam necessárias medidas econômicas – supondo que continue a haver eleições, a única função delas é confirmar o que os especialistas já decidiram. Problema, só, é que essa política de especialistas é baseada numa ficção, a ficção de “ampliar e fingir” (ampliar o prazo para pagar dívidas e fingir que todas as dívidas serão algum dia pagas).
Syriza vitorioso 26/1/2015

Por que essa ficção é tão renitente? Não é só que essa ficção torna mais aceitável a ampliação do prazo, ante os eleitores alemães; não é só, tampouco, que qualquer cancelamento de dívida grega possa disparar demandas semelhantes de Portugal, Irlanda, Espanha. É que os que estão no poder não querem realmente que a dívida seja integralmente paga.[1]
Os que criam dívidas e administram dívidas acusam os países endividados de não sentirem remorsos! São acusados do crime de se sentirem sem culpas. A pressão dos banqueiros e emprestadores cabe perfeitamente sob a definição do que a psicanálise chama de “superego”: o paradoxo do superego é que, como Freud percebeu, quanto mais obedecemos às suas demandas, mais nos sentimos culpados.
Imaginem um professor pervertido, que dá aos alunos tarefas impossíveis, e depois, sadicamente, goza quando vê a ansiedade e o pânico deles. O verdadeiro objetivo de emprestar dinheiro ao devedor não é receber de volta a dívida paga e o lucro, mas a continuação indefinida da situação de dívida, que mantém o devedor em dependência e subordinação perpétuas. Vale para a maior parte dos devedores, porque há devedores e devedores. Não só a Grécia, mas também os EUA nunca, nem teoricamente, conseguirão pagar sua dívida – o que hoje já reconhecem publicamente. Quer dizer que há devedores que podem chantagear os credores, porque os credores não podem ser deixados entregue à própria sorte e falir (caso de grandes bancos), devedores que podem controlar as condições dos pagamentos (governo dos EUA), e, finalmente, devedores que podem ser arrastados em praça pública e humilhados (a Grécia).
Os emprestadores e administradores de dívidas basicamente acusam o governo do SYRIZA de não se sentir suficientemente culpado – são acusados do crime de se sentir inocentes. Isso é o que mais perturba o establishment da UE no governo do SYRIZA: que ele admite que deve, mas sem culpa alguma. Livraram-se da pressão do superego.
Varoufakis personificou essa posição, nos seus contatos com Bruxelas: como ministro, sempre reconheceu o total peso da dívida e argumentou, muito racionalmente, que, dado que visivelmente a política da UE não havia funcionado, era forçoso encontrar alguma outra opção.
Paradoxalmente, o ponto que Varoufakis e Tsipras repetem sempre é que o governo do SYRIZA é a única chance que os credores ainda têm para rever pelo menos parte do dinheiro deles. O próprio Varoufakis já comentou sobre o enigma de por que os bancos fizeram jorrar tanto dinheiro dentro da Grécia e colaboraram com um estado clientelista, mesmo já sabendo em que pé estava a situação financeira da Grécia. Fato é que a Grécia nunca se teria endividado tanto sem a conivência do establishment ocidental.
O governo do SIRYZA sabe muito bem que a principal ameaça não lhe vem de Bruxelas: está na própria Grécia, num estado clientelista dos mais corruptos do mundo. A burocracia da UE deve ser culpada por, enquanto criticava a Grécia por tanta corrupção e ineficiência, ter continuado a apoiar (e a emprestar muito dinheiro!) à mesma força política (o partido Nova Democracia) que corporificava toda a corrupção e a ineficiência.
Yanis Varoufakis demissionário em 6/7/2015

O governo do SYRIZA quer, precisamente, quebrar esse impasse – como se lê nessa declaração programática de Varoufakis, que expõe o mais radical objetivo estratégico do governo do SYRIZA:
Uma saída de Grécia ou de Portugal ou Itália, da Eurozona, logo se desenvolverá numa fragmentação do capitalismo europeu, o que gerará uma região a mais de grave superávit recessivo no leste do Reno e norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa vê-se nas garras de uma viciosa estagflação.
Quem vocês imaginam que se beneficiaria desse desenvolvimento? Alguma Esquerda progressista, que nasceria feito fênix das cinzas das instituições públicas europeias?
Ou os nazistas da Alvorada Dourada, os neofascistas de várias origens, os xenófobos, ou especuladores?
Não tenho absolutamente dúvida alguma sobre qual desses dois grupos se beneficiaria da desintegração da Eurozona. Eu, de minha parte, não estou interessado em soprar ventos novos nas velas dessa versão pós-moderna dos anos 1930s.
Se tudo isso significa que seremos nós, os adequadamente errantes marxistas, que teremos a tarefa de salvar o capitalismo europeu dele mesmo, que seja! Não por amor a eles, ou de tanto que apreciamos o capitalismo europeu, a Eurozona, Bruxelas ou o Banco Central Europeu, mas só porque queremos minimizar o sofrimento humano desnecessário que essa crise cobrará. (10/12/2013, Confissões de um marxista errante (...)”, Yanis Varoufakis).
A política financeira do governo do SYRIZA seguiu estritamente essas linhas de orientação: sem déficit, disciplina rígida, mais dinheiro obtido com impostos arrecadados. Jornalistas alemães descreveram Varoufakis recentemente como um psicótico que vive em mundo próprio, diferente do nosso. Mas será ele assim tão radical?
O que mais irrita em Varoufakis não é algum radicalismo, mas sua modéstia racional pragmática. Se se examinam de perto as propostas apresentadas pelo SYRIZA, é impossível não ver que foram um dia parte de uma agenda social-democrata moderada típica (na Suécia dos anos 1960s, o programa do governo era muito mais radical). É um triste sinal de nossos tempos que, hoje, você tenha de pertencer a uma esquerda dita “radical”, para poder reivindicar essas mesmas medidas. Sinal de tempos muito sinistros, mas também uma chance para que a esquerda ocupe o espaço que, há décadas, foi ocupado pelo centro-esquerda moderado.


Talvez, contudo, a infinita repetição de o quanto são modestas as políticas do SYRIZA, que não passariam da velha boa social-democracia, talvez deixe passar sem perceber o objetivo delas – como se, de tanto repetirmos o que somos, os eurocratas entendam que não somos perigosos e, afinal, nos ajudem.
Mas fato é que o SYRIZA sim, é efetivamente perigoso: ele realmente ameaça a atual orientação da UE – o capitalismo global de hoje não suportará um retorno ao velho estado do bem-estar.
Portanto, há algo de hipócrita na repetição de o quanto são modestos os objetivos do SYRIZA. Porque o SYRIZA efetivamente deseja algo que é impossível dentro das coordenadas do sistema global existente.
Uma escolha estratégica séria terá de ser feita: e se tiver chegado o momento de deixar cair a máscara e passar a advogar abertamente uma mudança muito mais radical – necessária para garantir até um ganho bem modesto?
Muitos críticos do referendum grego disseram que era caso de pura demagogia, que não se via com clareza o que o referendum estaria votando. Com certeza, o referendum não mandava escolher entre EURO e DRACMA, entre Grécia dentro ou Grécia fora da UE: o governo grego várias vezes repetiu e enfatizou seu desejo de permanecer na UE e na Eurozona. Mas como sempre e mais uma vez, os críticos automaticamente traduziram a questão política chave que o referendum levantou, para termos de decisão administrativa sobre específicas medidas econômicas.
*****
Numa entrevista a Bloomberg dia 2/7/2015, Varoufakis deixou bem claro os termos do referendum. A escolha era entre continuação da política da UE dos últimos anos, que pôs a Grécia à beira da total ruína – a ficção de “ampliar e fingir” (ampliar o prazo para pagar dívidas e fingir que todas as dívidas serão algum dia pagas) – e outro recomeço realista, que não mais dependeria de ficções desse tipo, e geraria plano concreto sobre como iniciar a recuperação real da economia grega.
Sem tal plano, a crise só se reproduz, ela mesma, outra vez e outra vez e outra vez. No mesmo dia (2/7/2015), até o FMI concedeu que a Grécia precisa de alívio em grande escala da dívida, para criar “espaço para respirar” e fazer a economia andar (o FMI propôs moratória de 20 anos para o pagamento das dívidas).
O “NÃO” no referendum grego foi, portanto, muito mais que simples escolha entre dois diferentes modos de abordar a crise econômica. O povo grego resistiu heroicamente a desprezível campanha de medo que mobilizou até os mais baixos instintos de sobrevivência e autopreservação. Conseguiram ver através da manipulação brutal de que foram alvos, quando os inimigos do povo grego mentirosamente apresentaram o referendum como escolha entre o EURO e o DRACMA, entre Grécia na Europa e “Grexit”.


O “NÃO” dos gregos foi “NÃO”! aos eurocratas que diariamente provam que são incapazes de arrancar a Europa da própria inércia. Foi um “NÃO” à continuação da vida como sempre; um grito desesperado, a nos dizer que as coisas já não podem andar como sempre andaram. Foi uma decisão a favor de visão política autêntica, contra a estranha combinação de fria tecnocracia e quentes clichês racistas sobre os gregos preguiçosos, gastadores. Foi uma rara vitória de princípios contra o oportunismo egoísta e, de fato, autodestrutivo. O NÃO que venceu, foi um SIM à total consciência da crise na Europa; um SIM à necessidade de encenar um novo começo.
Agora, cabe à União Europeia agir. Conseguirá aquela gente acordar da inércia de autossatisfação, e compreender o sinal de esperança viva que o povo grego enviou ao mundo? Ou desencadeará sua ira perversa contra a Grécia, só para tentar continuar a sonhar seu velho sonho europeu dogmático?
Nota dos tradutores
[1] A propósito, ver/ler a epígrafe de: 2/7/2015, redecastorphoto em: FMI já lucrou € 2,5 bilhões com a grana que emprestou à Grécia.
________________________________________
[*] Slavoj Žižek (nasceu em Liubliana, capital da Eslovênia em 21 de março de 1949), doutorou-se em Filosofia na sua cidade natal e estudou Psicanálise na Universidade de Paris. Žižek é conhecido por seu uso de Jacques Lacan numa nova leitura da cultura popular, abordando temas como o cinema de Alfred Hitchcock e David Lynch, o leninismo e tópicos como fundamentalismo e tolerância, correção política, subjetividade nos tempos pós-modernos e outros.
Em 1979, começou a trabalhar no Instituto de Sociologia de Liubliana. Pouco depois, em 1980, começou a publicar livros que examinavam as teorias Hegelianas e Marxistas a partir do ponto de vista da teoria psicanalítica Lacaniana. Além disso, editou certo número de traduções de Louis Althusser, Jacques Lacan e Sigmund Freud para o Esloveno. Candidatou-se a presidente da Eslovênia em 1990, mas perdeu.
Tornou-se largamente reconhecido como teórico contemporâneo a partir da publicação de O Sublime Objeto da Ideologia, seu primeiro livro escrito em inglês, em 1989. O trabalho de Žižek não pode ser facilmente categorizado. Ele retorna ao sujeito cartesiano e à Ideologia Alemã, especialmente aos trabalhos de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Immanuel Kant e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling.
Žižek é ateu e suas teorias frequentemente vão contra as análises teóricas tradicionais. Ele costuma ser politicamente incorreto e já causou diversas polêmicas em vários círculos intelectuais. Ressalta com frequência que, para entender a política de hoje, nós precisamos de uma noção diferente de ideologia.

E agora?! Outra vez a nêmesis Nuland/ Nudelman? Grécia será destruída, para “salvá-la da Rússia”, feito a Ucrânia?!




5/7/2015, [*] John Helmer, Dance with Bears (de Moscou)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Está em preparação um putsch em Atenas, para salvar a aliada Grécia das garras da Rússia inimiga. Os putschistas-chefes são EUA e Alemanha, com apoio do pessoal que não paga impostos na Grécia – oligarcas gregos, armadores anglo-gregos e a Igreja Grega.
No mais alto e no mais baixo níveis do governo grego, e de Thessaloniki a Milvorni, todos os gregos compreendem o que está acontecendo. Ontem, votaram empenhadamente em ato de resistência. Segundo uma alta figura política em Atenas, veterano de 40 anos de política, “o que estamos vendo acontecer é mudança de regime em câmera lenta”.
Até domingo à tarde, a disputa ainda continuava muito apertada. Os votos SIM e NÃO estavam praticamente empatados, a diferença não maior que um fio de cabelo.
No início da manhã, o London Times de Rupert Murdoch publicou que:
Forças gregas de segurança têm já um plano secreto para usar o exército, com as polícias especiais antitumulto, para conter possível agitação civil depois do referendum de hoje sobre o futuro do país na Europa. Na chamada “Operação Nêmesis”, está previsto o uso de soldados para patrulhar as maiores cidades, se houver agitação pública prolongada. Detalhes do plano emergiram agora, com as pesquisas mostrando que os campos “SIM” e “NÃO” estão correndo pescoço a pescoço.
Nenhum funcionário ou militar grego fala com os jornais e jornalistas de Murdoch. Mas agentes dos governos de EUA e Grã-Bretanha, sim.
Até às 15h, estava pescoço a pescoço – então os jovens começaram a votar – informa o veterano político em Atenas.
Será que o resultado – 61% a 39% – no referendum, com margem de 22% a favor do Οχι (NÃO), que o New York Times declarou “chocante” e uma “vitória que nada resolve”, consegue derrotar a Operação Nêmesis? Será que no neo-Eixo – EUA e Alemanha – atacará novamente, como os alemães fizeram depois que o 1º Οχι grego, de 28/10/1940, derrotou a invasão italiana?
O Kremlin também compreende o que está acontecendo. Por isso, quando Victoria Nuland (de solteira, Nudelman) do Departamento de Estado visitou Atenas, para deixar lá seu ultimatum contra qualquer quebra no regime de sanções anti-Rússia; e quando, logo depois, começaram os think-tanks anglo-americanos, com “alertas” de que a Marinha Russa estaria pronta para entrar no porto de Pireus, já não restou qualquer dúvida e o jogo ali estava, bem claro.
A palavra-senha para a Operação Nêmesis é que a Grécia teria de ser salva, não dela própria nem dos credores, mas do grande inimigo em Moscou. Os russos decidiram nada fazer para aumentar a divulgação dessa propaganda; esperar e observar.
No cargo de Chefe do Gabinete de Assuntos Europeus e Eurasianos do Departamento de Estado, Nuland é a funcionária encarregada de promover guerras em solo europeu. O que ela fez na Ucrânia está documentado em UAU! É a minha garota! Biden e Kerry não têm colhões!. Ela esteve em Atenas, quase sem qualquer cobertura de mídia, dia 17/3/2015, quando fez dois ultimatos. O comunicado distribuído pela Embaixada dos EUA em Atenas levava o título de “Queremos ver prosperidade e crescimento em Atenas”.
Nuland disse ao Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras (à direita, na foto), que:
(...) não rompesse a unidade dos aliados da OTAN contra a Rússia. “Por causa dos eventos de agressão crescente no leste da Ucrânia” – disse ela – os EUA estamos muito satisfeitos por termos obtido solidariedade entre a União Europeia e os EUA; e por a Grécia ter desempenhado o papel que lhe cabe, ajudando a construir consenso.
Na imagem (abaixo) do encontro, distribuída também pela Embaixada dos EUA, vê-se que Nuland faz com as mãos a mesma ameaça que se lia nas entrelinhas do press-release.
Victoria Nuland e Alexis Tsipras

Nuland também avisou Tsipras de que não deixasse de pagar o que deve à Alemanha, ao Banco Central Europeu e ao FMI. Tsipras ouviu ordens para fazer “um bom acordo com as instituições”. O referendum que Tsipras convocou dia 27/6/2015, foi surpresa para Nuland. A parte nêmesis na Operação Nêmesis é o castigo planejado contra essa manifestação de húbris grega.
Ocupado há um ano em esbravejar contra a legitimidade do referendum de março 2014 na Crimeia, que disse “SIM” à reintegração da região à Rússia, o Departamento de Estado, por 48 horas, não deu atenção ao referendum grego. Dia 29/6/2015, perguntado sobre o que o governo dos EUA pensava fazer, no caso de o resultado do referendum “ser NÃO”, o porta-voz de Nuland, Mark Toner, disse que os EUA ignorariam o resultado.
Estamos focados, francamente, no contrário, quero dizer, em encontrar um caminho adiante que permita à Grécia continuar a fazer reformas, voltar a crescer e permanecer na Eurozona.
A única referência oficial de Washington, além dessa,  ao referendo grego, só veio dia 30/6/2015, quando, no briefing diário no Departamento de Estado, alguém perguntou:
O que vocês estão fazendo, dentro do FMI, no qual os EUA são o maior acionista, para pressionar também por esse lado, a favor de mais boa-vontade com os gregos?
Estamos monitorando cuidadosamente a situação (...) continuamos convencidos de que é importante que todos os lados cooperem para retomar um caminho que permitirá à Grécia retomar as reformas e voltar a crescer dentro da Eurozona. Mas, repito, estamos monitorando de perto.
O último atentado planejado pelo governo dos EUA para derrubar governo grego eleito foi contra o Primeiro-Ministro Andreas Papandreou entre 1987 e 1989. Com o filho dele e seu sucessor, George Papandreou, não foi preciso derrubar ninguém – George e sua mãe, Margarita Papandreou – já estavam sob controle de Washington. Mas contra Andreas, foram necessárias contramedidas sérias. Medidas de fato militares, para implantar o tipo da ditadura que houve na Grécia entre 1967 e 1974 e foi unanimemente impopular, nacionalmente e internacionalmente. Foram medidas extraordinariamente dispendiosas; para piorar, desacreditaram os militares de EUA e da OTAN, que foram vistos publicamente, sempre defendendo a “Junta” militar golpista e usurpadora em Atenas.
Foi quando o governo Reagan resolveu que Papandreou teria de ser derrubado pelo próprio povo, se possível em eleições. A estratégia foi “dar a Papandreou corda suficiente para se enforcar” – disse Robert Keeley, então embaixador dos EUA em Atenas. Foi também uma espécie de Operação Nêmesis.
O plano era derrotar a húbris de Papandreou diante do próprio eleitorado grego, primeiro num confronto militar no mar Egeu contra a Turquia; depois numa acusação de corrupção do Primeiro-Ministro por um banqueiro grego e proprietário de clube de futebol.
Andreas Papandreou (E) e Turgut Ozal (março-1987)

Nos dois casos, os gregos fizeram abortar os esforços de golpe, com movimentos que os funcionários norte-americanos não perceberam com suficiente antecedência. Os turcos retiraram-se, quando viram surgir força naval combinada de gregos e búlgaros; e o Primeiro-Ministro turco foi enviado para uma clínica cardiológica em Houston, Texas. George Koskotas, o homem que acusava Papandreou, foi preso em Boston e devolvido diretamente para uma prisão grega. Pode-se dizer que foi um caso de húbris reversa. Para mais informações, leia “27/1/2015, A Grécia, com Chipre, é o único estado-membro da OTAN a ter sido (e continuar) ocupado militarmente por outro estado-OTAN (Turquia) apoiado pela aliança inteira.
Ontem, domingo, se os eleitores gregos tivessem ficado divididos pela velha divisão da Guerra Civil, esquerda contra direita, azuis contra vermelhos, as forças de segurança teriam sido mobilizadas para enfrentar manifestantes na praça Maidan, epa!, digo, Praça Syntagma, e atiradores de precisão lá estariam pelos telhados do Grande Bretagne Hotel dando o sinal de partida para a Operação Nêmesis. Mas dessa vez o exército dos think-tank & jornais & jornalistas falharam quase totalmente, com tiros para todos os lados que, todos, erraram o alvo.
Em Londres, o Legatum Institute mantido com dinheiro norte-americano passou sem ver, completamente cegos, pelas pesquisas; e desperdiçou além das pesquisas também o próprio painel de discussões, com ataques contra Venezuela, China, Síria e Rússia, que usariam:
(...) fenômenos antes associados à democracia – eleições, internet, jornais, jornalistas e jornalismos, o mercado – para minar liberdades, além de minarem também: o potencial de auto-organização da sociedade.
Legatum deixou para Anne Applebaum o duvidoso privilégio de informar ao mundo que o governo grego pode ser derrubado, “porque” “foi eleito sobre premissa completamente falsa”.
O Royal Institute of International Affairs (Chatham House), que trovejava mês passado contra a infoguerra russa, desde então passou a trovejar contra as democracias tunisiana e nigeriana; essa semana está anunciando um novo painel de discussões sobre:
(...) o progresso obtido por Kiev nos quesitos transparência e reforma das instituições chaves de governo.
Chatham House há tempo está em silêncio sobre a democracia grega; do referendum, nem falou.
Em Washington, o International Republican Institute (IRI) – cujo lema é “ajudar a democracia a tornar-se mais efetiva, onde esteja em perigo” – há meses só faz lançar suas pesquisas sobre democracia pagas pelo Departamento de Estado, mas nesse caso só sobre a Costa do Marfim e o Zimbábue; nem uma palavra sobre a Grécia. E o National Democratic Institute (NDI) só se preocupa, há meses, com seus esquemas “democráticos” na Geórgia, no Iraque e no Kosovo.
O Pew Research Centre em Washington tentou antecipar o resultado do referendum grego, pesquisando 2,5 milhões de mensagens de Twitter na Grécia, e publicou os resultados dia 3/7/2015. Tuítos em grego foram 40% a 33% a favor do “SIM”. Em inglês, 32% a 7% a favor do “SIM”. Na vida real, os resultados da mídia social não se confirmaram. Se o Centro Pew não inventou tudo isso, o grande número de tuítos “neutros” converteram-se em votos “NÃO” no dia do referendum.



A Brookings Institution e o Peterson Institute – ambos mantidos com dinheiro do oligarca ucraniano Victor Pinchuk para bater tambor anti-Rússia na Ucrânia – parou a um passo de prever o resultado do referendumgrego, mas condenou o governo por tê-lo proposto. Dia 1º de julho/2015, Carlo Bastasin, jornalista italiano assalariado pela Brookings, dizia ter fontes que seriam “testemunhas oculares” de que o “líderes gregos têm conduta inescrupulosa” e de “Planos do governo grego para impor ainda mais recessão e arrocho do que os europeus”. As fontes do jornalista não têm nome.
No comitê executivo do Peterson Institute, a estratégia para a Grécia é dirigida por Andreas Dracopoulos. Trata-se de membro da família do armador grego Stavros Niarchos, e administrador do dinheiro da fundação de mesmo nome. Perguntado sobre o que o dinheiro de Niarchos estaria fazendo para minorar a crise doméstica, Andreas mencionou vales-comida para os pobres e camas para os sem-teto. Infelizmente, não falou de pagar impostos. Andreas Dracopoulos foi condecorado, por governo anterior, com a medalha de Grande Comandante da Ordem da Fênix; por causa da filantropia da Fundação Niarchos. Na imagem abaixo vê-se Dracopoulos ao lado do Arcebispo Demetrios, primaz da Diocese Norte-Americana da Igreja Grega, tradicional inimigo, ou pior, de governos em Atenas que a diocese veja como “de esquerda”.
Andreas Dracopoulos e Arcebispo Demetrios


A comunidade greco-norte-americana evitou qualquer declaração pública sobre o referendum. Em vez disso, dia 1/7/2015, a Associação EUA-Helênica Educacional Progressista [orig. American Hellenic Educational Progressive Association (AHEPA)], como é conhecido esse tradicional grupo de lobby, anunciou que:
Também conclamamos o governo Obama a aprofundar seu engajamento, para assegurar que os lados em disputa cheguem a solução adequada.
Se os greco-norte-americanos, Dracopoulos e a Igreja estavam convocando a Operação Nêmesis, com certeza não iam votar “NÃO” no dia 5/7/2015. Antes de a votação:
Seja qual for o resultado do referendum realizado na Grécia dia 5/7/2015, o que é crucial parta a comunidade greco-norte-americana é que as relações EUA-Grécia permaneçam fortes e garantidas, e que a importância geoestratégica e da contribuição da Grécia a favor dos interesses de segurança dos EUA e da OTAN sejam valorizadas e apreciadas.
Fontes políticas em Atenas reconhecem que, depois de chegar ao poder em janeiro, Tsipras e seus colegas no partido Syriza silenciosamente tomaram medidas de precaução contra um putsch pelas forças de segurança do país.
A liderança [dos militares e dos serviços de inteligência] foi trocada – dizem as fontes – mas não radicalmente. O Ministro da Defesa [Panos Kammenos] é homem de direita, mas não há “radicais” em comando.
Em Moscou houve ceticismo desde o início, de que Tsipras conseguiria ou decidiria resistir à pressão de EUA e Alemanha. Há mais sobre isso em Resposta russa ao Plano B da Grécia – sorrir, tocar o apito e contar o que sabe, mostrar cartão vermelho. Em abril/2015, e depois novamente em junho, Kammenos fugiu à discussão sobre que tipo de nova cooperação militar com a Rússia o lado grego está considerando. Adiaram-se discussões sobre detalhes, até que os dois governos tenham reunião conjunta de comissão ministerial, marcada para o final de julho.
Panos Komenos (E) e Sergey Shoigu (15/4/2015 em Moscou)

Analistas militares russos esperam que Chipre organize cooperação militar ampliada, incluindo a Marinha Russa e aeronaves de apoio à Marinha. Entendem que a Grécia não solicitará, nem o Kremlin aceita cooperação grega comparável. Sobre isso, há mais em Chipre é mais importante para a Rússia, que a Grécia, mas não é assim tãããão importante”.
Assim sendo, de onde Robert Kaplan tira a ideia de que EUA e UE devem atuar “para manter navios russos bem longe de portos gregos”? Kaplan, do Centro para Nova Segurança Norte-Americana [orig. Center for a New American Security (CNAS) em Washington, informou aos leitores de Wall Street Journal dia 30/6, que o golpe do Kremlin seria usar o Syriza como ferramenta para arrancar a Grécia da União Europeia e desmantelar posições da aliança dos EUA nas costas mediterrâneas e nos Bálcãs. A Rússia, segundo Kaplan,
(...) pode estar [sic] ajudando a inflamar as divisões internas do Syriza, na esperança de que o partido governante grego não consiga fazer todas as difíceis concessões necessárias para permanecer na Eurozona. [Um voto “NÃO” na Grécia] combinado com o desmembramento e enfraquecimento da Ucrânia enfraquecerá seriamente a posição geopolítica da Europa vis-à-vis à Rússia.
O think-tank de Kaplan em Washington informa que é sustentado por conhecidas empresas fornecedoras de equipamento militar; empresas norte-americanas de petróleo; os governos de Japão, Taiwan e Cingapura; OTAN; Exército, Marinha, Marine Corps e Força Aérea dos EUA; plus as Fundações Sociedade Aberta [Open Society] de George Soros. A principal executiva do CNAS é Michele Flournoy, fundadora do think-tank que está servindo como sua plataforma para lançar-se como a próxima Secretária da Defesa, se Hillary Clinton vencer a corrida presidencial ano que vem. Flournoy é uma das redatoras de um recente plano para que os EUA escalem os reforços em armas e soldados na Ucrânia e em toda a fronteira russa com os estados bálticos. O plano dela leva o título de “O que EUA e OTAN devem fazer”.
Michèle Flournoy


Até o relatório de Kaplan semana passada, a única coisa que o CNAS dissera sobre a Grécia fora um relatório em janeiro passado (2015), explicando “Por que Putin é o Grande Vencedor nas Eleições Gregas”. O especialista do think-tank responsável por essa pérola era um ex-funcionário do Tesouro dos EUA, com treinamento em árabe e nenhum trabalho sobre a Europa, menos ainda sobre a Grécia. Kaplan, que é soldado israelense, além de empregado do Pentágono e conferencista de agências de inteligência dos EUA, explica que seus saberes sobre Grécia advêm de “ter vivido em Atenas durante aquela década [1980s]”. A menos que tenha tido folga prolongada de qualquer trabalho que tenha feito na Grécia, Kaplan só andou por lá se trabalhava sob identidade falsa.
Quanto a guerra na Grécia agora, basta declarar de quem os gregos devem ser salvos. Os gregos votaram mais explicitamente que os ucranianos contra se sacrificarem aos interesses de EUA-OTAN. Mas os especialistas norte-americanos têm absoluta certeza de que não o fizeram por algum anseio de democracia à moda Eixo, mas movidos só por húbris. Para acabar com qualquer húbris, pois, aí está a Operação Nêmesis. Naturalmente.


[*] John Helmer (1946) é jornalista investigativo e blogueiro norte-americano baseado em Moscou. Especialista em Relações Internacionais. É filiado ao Consórcio de Jornalismo Independente nos EUA. Helmer está baseado em Moscou desde 1989 e realizou trabalhos para o jornal The Australian e The Australian Financial Review e muitas outras publicações em língua inglesa.