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sexta-feira, 22 de março de 2019

Fracassou a política dos EUA: Reabertas as fronteiras entre Iraque e Síria e a estrada Irã-Beirute




Imagem: Combatentes suspeitos de pertencer ao ‘Estado Islâmico’ (EI) esperam para serem revistados por membros das Forças Democráticas Sírias (curdos), depois de deixarem a última área ainda controlada pelo EI em Baghouz, na província de Deir Ezzor, norte da Síria, dia 22/2/2019 (BULENT KILIC/AFP/Getty Images)

21/3/2019, Original, em inglês em: Elijah J Magnier Blog

“Dinossauro com cabeça de periquito”. Assim o ex-presidente do Irã Hashemi Rafsanjani descreveu os EUA, evocando a grande força militar mas a completa falta de inteligência estratégica na política externa norte-americano. De fato, o encontro não frequente dos comandantes de estado-maior de Síria, Iraque e Irã em Damasco essa semana jamais seria possível sem a recente ação dos EUA na Síria.

establishment norte-americano fez grande favor aos três países alinhados com o “Eixo da Resistência”, ao eliminar o grupo do ‘Estado Islâmico” (EI) no último reduto a leste do Eufrates. O ataque dos norte-americanos a Baghuz (leste da Síria), realizado em conjunto com seus agentes locais curdos, levou os três comandantes militares a decidir reabrir a estrada entre Síria e Iraque, pavimentando assim uma via terrestre segura para Iraque e Síria. Significa que a estrada Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute está reaberta. Não é a primeira vez que o establishment norte-americano, com seu planejamento sempre precário, presta ajuda estratégica realmente importante ao Irã.

Quando o presidente Donald Trump dos EUA decidiu retirar-se da Síria, falando do país como “terra de areia e morte”, até que falava sério sobre o tal plano. Mas os EUA não podia sair sem, antes, eliminar o bolsão do ISIS na área controlada pelos EUA no leste da Síria, porque significaria deixar lá o único pretexto que os norte-americanos encontraram para ocupar aquela área. Por isso, Trump foi aconselhado a eliminar o ISIS (afinal!) antes de retirar seus soldados. Assim, depois de longos meses de paralisia, Trump afinal ordenou que seus soldados fizessem o que haviam dito que fariam, depois de os EUA, por meses, só terem protegido o grupo terrorista e permitido que dezenas de milhares de terroristas do ISIS se movimentassem com toda a liberdade para atacar o Exército Árabe Sírio e aliados ao longo do eixo Deir-ezzour al-Bukamal.

Difícil superestimar a importância da decisão de Trump de, finalmente, agir contra os terroristas do ISIS. Desde 2014 os EUA fingem que combatem contra os terroristas do ISIS, quando, na verdade, só fizeram facilitar o processo pelo qual o grupo expandiu-se e assassinou soldados do Exército Árabe Sírio os quais, esses sim, combatiam contra – não a favor – dos terroristas. Durante todo esse tempo, os EUA usaram o ISIS como pretexto para a presença militar dos EUA na Síria.
 
Os EUA agora, finalmente, realmente bombardearam e destruíram Raqqah, ocupada pelo ISIS; na sequência, conseguiram um acordo para deportar muitos milhares de combatentes do ISIS. Mas a Batalha de Baghuz, ainda em curso, é a primeira vez que os EUA realmente lutaram contra o ‘Estado Islâmico’. Diga-se a favor do presidente Trump que seu governo está, afinal, fazendo, mesmo, o que os EUA até agora só fingiram que faziam, ao longo de cinco anos: Trump afinal está realmente combatendo contra os terroristas do ISIS

Essa campanha espetacular e real, não ficcional, garante ao governo Trump os méritos por ter derrotado o ‘Estado Islâmico’ – embora todos saibam que, por meia década, quem realmente combateu contra os terroristas foram o Exército Árabe Sírio, a Rússia, os iraquianos do grupo Hashed al-Shaabi, o Exército do Iraque, o Hezbollah libanês e o Irã.

Em Baghuz, forças dos EUA (e aliados europeus) bombardearam o ISIS até confinar o grupo numa cidade bem pequena. Conseguiram abrir uma via segura para retirada de mulheres, crianças, idosos, terroristas feridos e os muitos que preferiram render-se. Mais de 35 mil terroristas do ‘Estado Islâmico’ e famílias saíram daquele lugar exíguo. 9.000 militantes foras feridos ou mortos. As forças dos EUA e seus agentes locais curdos conseguiram encurralar o que resta do grupo terrorista numa área de menos de 1kme nos próximos dias lançarão o assalto final. É questão de tempo, e o ISIS entregará seu último bastião a leste do Eufrates.

O fim próximo da ameaça que foi o ‘Estado Islâmico’ criou a oportunidade para um encontro raro. O comandante do Estado-maior do Irã, major-general Mohammad Baqeri; o ministro da Defesa da Síria, Ali Abdullah Ayyoub; e o comandante do Estado-maior do Iraque tenente-general Othman al-Ghanmi reuniram-se em Damasco, capital da Síria e decidiram reabrir as fronteiras entre Iraque e Síria.

Ao, finalmente, remover os terroristas do ‘Estado Islâmico daquela área, o governo dos EUA, sob a presidência de Trump afinal reconheceu o erro que os norte-americanos cometeram na Síria. Enquanto o ISIS foi mantido ali, tornou-se impossível o trânsito seguro de mercadorias necessárias para a sobrevivência dos cidadãos iranianos e iraquianos. Agora afinal, depois de reconhecer isso, os EUA tomaram a decisão correta de sair de lá, deixando apenas algumas centenas de soldados norte-americanos, para efetivamente proteger, não atacar, os locais.

Graças ao movimento dos EUA, o Irã pode agora enviar todos os suprimentos necessários e retomar o comércio regular com a Síria, num momento em que Israel já começa a bombardear o aeroporto de Damasco e tenta impedir ou, no mínimo, retardar, o fornecimento, ao Exército Árabe Sírio, de mísseis de precisão e outros equipamentos militares necessários para reconstruir as forças de defesa sírias. Com a abertura de uma nova passagem de fronteira entre Iraque e Síria, perde importância a ocupação, pelos norte-americanos, da passagem de al-Tanf. Se os EUA tentarem pressionar o Iraque para que suspenda o comércio com Irã ou Síria, Bagdá exigirá que Trump retire suas forças de toda a Mesopotâmia.

A decisão de Trump também implica que a economia síria volta a poder acumular alguma energia, tão logo a estrada por terra, até o Iraque, volte a operar normalmente. Os três comandantes acabaram dando boas risadas da política e dos movimentos dos EUA na Síria. Todos colheram importantes benefícios dos repetidos erros de estratégia que Washington comete, desde que ocupou o Iraque em 2003 e ‘mudou o regime’ de Saddam Hussein – eterno e feroz inimigo do Irã.
O ‘Estado Islâmico’, EI ou ISIS ainda é risco de segurança, mas deixou de ser ameaça militar. Remanescentes do grupo ainda podem atacar comboios ou alvos leves, mesmo depois do acordo conjunto dos três países para patrulhar as fronteiras e contribuir, com tecnologia, inteligência e soldados para proteger a passagem de fronteira de al-Bu e somar esforços reais na luta contra o terrorismo naquela área. 

EUA quase sempre consideram o grande cenário, quando seus estrategistas e planejadores tentam redesenhar fronteiras, mudar regimes e produzir estados falhados. Mas muitas vezes deixam passar sem ver detalhes que podem virar a guerra a favor dos supostos inimigos que os EUA produzem, nesse caso, a favor do Irã. Como Rafsanjani comentou certa vez, EUA são “um dinossauro com cabeça de periquito”.

Rafsanjani não foi o único a fazer comentários cáusticos. Em evento recente em homenagem aos sucessos no Iraque e na Síria, do comandante e da brigada Qods do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, major-general Qassem Soleimani, o líder da Revolução Islâmica Said Ali Khamenei disse, falando de EUA (e Arábia Saudita): “agradecemos a Alá, que nos deu inimigos imbecis”.


Tradução original no blog O Empastelador

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Síria e atualidades do Oriente Médio por Claude Fahd Hajjar

junho de 2015, Jornal O Progresso - JP
Entrevista da [*] Dra. Claude Fahd Hajjar (vídeo 54’ 32”)
[*] Claude Fahd Hajjar, psicóloga, psicanalista, pesquisadora de temas árabes e do Oriente Médio, editora do site Oriente Mídia, coordenadora do Grupo de Trabalho Árabe, autora de Imigração Árabe 100 anos de Reflexão, Ícone Ed, 1985 (esgotado); co-traduziu “O Percurso de Um Combatente”, de Lucien Biterland, sobre Hafez Assad, 2000. Autora de inúmeros artigos publicados sobre Síria. Participa de programas de debate na TV sobre Palestina (2009), 11 de setembro (2010) e Síria (2013).

domingo, 21 de junho de 2015

Pepe Escobar: Partição do “Siriaque”


19/6/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Atual partição do Siriaque
(clique na imagem para aumentar)

Faltando menos de duas semanas para um possível acordo nuclear entre o Irã e o P5+1, a arriscada diplomacia que opera nesse “deserto de espelhos” [orig. wilderness of mirrors] que é a inteligência sobre o Oriente Médio chega a picos sem precedentes de atividade febril. E nada é o que parece ser.
É claro que muito que hoje depende desse acordo nuclear com o Irã tem a ver com o Oleogasodutostão. O Irã, assumindo-se que as sanções entrem rapidamente em colapso, poderá afinal vender gás natural à União Europeia – fazendo, teoricamente, concorrência à Gazprom; mas demorará muito, até que a arruinada infraestrutura iraniana seja recuperada.
E há também o futuro do proposto gasoduto chave Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões – rival de um projeto do Qatar. É fácil identificar os que não querem saber de Iraque estável, capaz de implantar gasodutos por todo o próprio território. O Qatar jacta-se de ter mais gás (que possa ser entregue) – e melhor infraestrutura que o Irã. A viabilidade de construir dutos desde o Qatar, via Arábia Saudita, Jordânia e Líbano já foi estudada. Se Teerã quer resultados rápidos, muito melhor negócio será exportar diretamente para a União Europeia (UE), via a Turquia, do que atravessando Iraque e Síria.
Quanto ao hegemon, as coisas eram muito mais fáceis antes da [operação] Choque e Pavor em 2003. Naquele momento, Washington era dona do mundo; era marchar e ocupar (e destruir) o que quisesse. Disso, afinal, tratava a Dominação de Pleno Espectro. Durou apenas uma fração (histórica) de segundo.
Agora, o autodescrito governo de “Não faça merda coisa estúpida” [orig. Don’t Do Stupid Stuff] de Obama praticamente já quase nem se qualifica, sequer, como espelho quebrado, naquele deserto de espelhos.
Aremos pois o deserto do “Siriaque”
Funcionários da OTAN em Bruxelas parecem crer nos sunitas linha-duríssima treinados pelo Pentágono na província de Anbar para usarem armamento pesado e com esse armamento derrubarem o governo do ex-Primeiro Ministro al-Maliki em Bagdá – que vinha causando problemas a Washington. Mas fato é que o treinamento facilitou a posterior “fusão” desses sunitas com o ISIS/ISIL/Daesh.
Oleogasoduto em operação no deserto

O Pentágono – ou, pode-se dizer, de fato, a OTAN – poderia facilmente esmagar o falso Califato. Não esmagam, porque não querem. Muito melhor é deixar prosperar o caos, a perfeita tática de Dividir para Governar que tão bem serve aos suspeitos de sempre. Já arruinaram a Síria. Já arruinaram o Iraque. Os comboios de suprimentos para o ISIS/ISIL/Daesh partem da fronteira de OTAN e Turquia-Síria, protegidos pela Força Aérea turca; o que equivale a dizer que a OTAN – e a CIA – estão “apoiando” de fato o Califato fake. O Egito está falido. O Irã, quase quebrado. As coisas nunca estiveram tão bem para os suspeitos de sempre.
Agora, vamos até uma alta fonte na inteligência saudita para complicar ainda mais o imbróglio. Segundo aquela fonte, Palmyra foi “dada” ao ISIS/ISIL/Daesh na Síria, assim como cidades chaves na província de Anbar no Iraque:
O Daesh já não é segredo, e os EUA têm tanto interesse nele quanto no [ex-] eixo do mal.
O fato de que o ISIS/ISIL/Daesh, depois de cada vitória em campo, rapidamente incorpora para si grandes quantidades de armamento norte-americano muito avançado, cuja operação exige meses de treinamento intensivo, pode sem dúvida indicar que os capangas do Califa sim, foram adestrados por gente da inteligência ocidental.
Ao mesmo tempo, a fonte na inteligência saudita alimenta a fantasia de um Califato de duas cabeças: uma na Síria, ligada ao governo de Assad em Damasco – o que é perfeita tolice, porque o Califato, no Iraque, combate contra o Irã.
O Presidente Barack Obama dos EUA, entrementes, procrastina e disse que:
(...) o ISIS/ISIL/Daesh pode ser derrotado, mas ao longo dos próximos três anos. Mais uma vez, como sempre, por que não deixar que viceje o caos?
Outra fonte na inteligência saudita está pelo que se poder ver muito desanimada: “Os EUA nunca permitirão mudança de regime” na Síria. Para esse agente, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) teria a função de “salvar a Síria”, e ele culpa a CIA por “interferir na transferência de armas para o Exército Sírio Livre”. No final, as petromonarquias do CCG “mudaram as rotas das entregas de armas, para evitar as obstruções da CIA”. Quer dizer: atualmente, os islamistas linha-duríssima da Frente al-Nusra, estão, pode-se dizer, armados como melhor se recomenda.
Terroristas da Frente al-Nusra, mantidos por EUA- Arábia Saudita - Qatar, juntaram-se ao ISIS/ISIL/Daesh

A Casa de Saud continua obcecada com derrubar Assad (e “o exílio dele para um enclave que resultará da redivisão da Síria”). Seria golpe mortal contra o Hezbollah, combinado à divisão do Iraque “que dizimaria o sonho de Teerã de restabelecer o império farsi, que Obama ajuda obsessivamente”.
Os sauditas também parecem crer na noção fantasiosa de que os sunitas na província de Anbar teriam descoberto que o ISIS/ISIL/Daesh é uma espécie de cover – alimentado simultaneamente pelo ocidente e pelo Irã – para “provocar disputas sectárias e acelerar a decisão por uma partição do país”. Na verdade, a Casa de Saud não quer qualquer partição do “Siriaque.” Quer dois regimes fantoches e total controle sobre eles. Para dizê-lo em termos suaves, Riad está bastante “frustrada” com as trapalhadas que já são marca registrada de Washington.
Nossa fórmula é caos, cada vez mais caos
Digam o que disserem os “especialistas”, o remapeamento do Oriente Médio pós-Sykes-Picot prossegue sem parar.
A Frente al-Nusra e o grupo Ahrar al-Sham – outro grupamento de jihadismo linha duríssima – continuam a ser integralmente armadas por Turquia, Arábia Saudita e Qatar. É coisa diretamente conectada ao proverbial “papel ativo” do novo capo da Casa de Saud, rei Salman. Assim se vê que Assad em Damasco enfrenta ataque em movimento de pinça: ISIS/ISIL/Daesh no leste, controlando pelo menos metade do país (OK, quase toda essa área é deserto); e Frente al-Nusra, controlando uma “coalizão jihadista de vontades” no norte e no centro. Quanto àquelas armas que o Pentágono forneceu aos incansavelmente elogiados e promovidos “rebeldes moderados”, já foram todas absorvidas pela Frente al-Nusra.
Sabe-se que durante aquela reunião do dia 2/6/2015, perfeita “coalizão de vontades” em Paris, co-patrocinada meio a meio por EUA e França para discutir ISIS/ISIL/Daesh, houve uma discussão “secreta”, de portas fechadas, na qual as petromonarquias do Golfo exploraram características que um acordo para a Síria teria de ter.
A Rússia também está muito ativa nesse front, especialmente com Arábia Saudita e Qatar, tentando conseguir que levassem seus respectivos grupos para a mesa de negociações.
Países do CCG - Conselho de Cooperação do Golfo

O problema é que o CCG não se satisfaz com menos do que exílio para Assad – na Rússia ou no Irã. E Washington, como se poderia adivinhar, só aceita golpe: “mudança de regime” light, a ser perpetrado por oficiais alawitas já familiarizados com a operação da máquina administrativa do estado sírio.
Nem uma nem outra ideia parece ser sequer remotamente exequível, uma vez que Arábia Saudita, Qatar e Turquia têm agendas muito profundamente diferentes e estão obcecadas com assegurar que os respectivos próprios e específicos rebeldes que recebem ordens de cada um desses estados, os rebeldes “deles” – de jihadistas linha super dura a falsos “moderados” – sejam as únicas e indiscutíveis futuras potências por ali.
E isso nos leva de volta para o possível acordo nuclear Irã/P5+1, dia 30/6/2015. A Síria é moeda crucial de barganha discutida em salas fechadas. Mas no que tenha a ver com o Império do Caos – para nem falar das petromonarquias do Golfo – o melhor negócio é a situação atual, mutável, extremamente confusa: um “Siriaque” completamente enfraquecido, guerra em dois fronts, o Irã na defensiva, e o Califato fake impondo a partição em solo, como realidade consumada.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

sexta-feira, 19 de junho de 2015

EUA: Deputados votam contra retirada do Iraque/Síria


Ou: Quando até o tal “debate parlamentar democrático” é golpe só
17/6/2015, [*] David SwansonWar is a Crime.org
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


(clique na imagem para aumentar)

Na 4ª-feira (17/6/2015) à tarde, por 288 votos contra, 139 a favor, uma abstenção e cinco deputados ausentes (a relação dos votantes e respectivos votos está aqui), a Câmara de Deputados dos EUA derrubou proposta de resolução (H.Con.Res.55) que exigia que o presidente Obama
retirasse do Iraque e Síria todas as Forças Armadas para lá enviadas a partir do dia 7/8/2014 (inclusive), exceto as Forças Armadas necessárias para proteger instalações e pessoal diplomático dos EUA:
(1) imediatamente, em período que não excederá 30 dias da data em que for aprovada essa Resolução; ou
(2) no caso de o Presidente determinar que essa retirada não é segura antes do fim do período acima fixado, até data que não ultrapasse 31/12/2015, ou a qualquer momento antes disso, tão logo o Presidente determine que as Forças Armadas podem ser retiradas em segurança.
Embora alguns dos 139 votos que votaram a favor da retirada imediata tenham sido dados por Deputados em busca de uma chance para votar a favor de mais guerra nos próximos 30 dias ou nos próximos seis meses e meio, a maioria deles, pode-se presumir, foram votos de deputados que realmente são favoráveis à retirada ou querem aparecer frente à opinião pública como se o fossem, em votação que tinha mínima chance de ser bem-sucedida.
Há cerca de dois anos, o Congresso foi empurrado por pressão da opinião pública a manifestar-se sobre se aprovaria ou não ataque com mísseis contra a Síria. Desde então, sempre se recusou a aprovar ou negar aprovação a guerras, por mais que a omissão sempre implique permitir que os EUA iniciem guerras, continuem a fazer, mantenham ou escalem as guerras já em curso.
Sabe-se que votações a favor de guerras têm longa história de agradar muito aos ricos doadores de dinheiro para campanhas eleitorais, e de muito desagradar aos eleitores.
No debate da 4a-feira passada (17/6/2015), a deputada Jackie Walorski, deixou claro que quer que a guerra continue, mas preserva-se o direito de denunciar o modo como foi e continua a ser completamente mal concebida. Essa foi a única serventia da votação: fazer os membros do Congresso mostrarem “a cara”, a favor ou contra, impedir que continuassem com um pé em cada canoa.
Pela atual configuração, 288 deputados estarão fora do Congresso na primeira oportunidade que haja para expulsá-los de lá e para, como aconteceu com Hillary Clinton em 2008 – e, esperemos, também no futuro – bloqueá-los na tentativa de alcançarem a presidência.



EVIDENTEMENTE, o presidente Obama já deixou bem claro que continuará suas guerras e sendo possível inventará outras, com ou sem o Congresso. Mas uma votação no Congresso a favor da retirada das tropas dos EUA e (se preciso) talvez mais uma votação, a favor de cortar os fundos com que Obama conta para suas guerras, e (se preciso) ainda mais outra votação a favor do impeachment de Obama seriam, no mínimo, bem interessantes.
A proposta da resolução antiguerra derrubada na 4a-feira foi apresentada pelos Republicanos Jim McGovern, Barbara Lee e Walter Jones, nos termos da Resolução para Poderes de Guerra, que permite que qualquer deputado ou senador inicie debate e votação sobre qualquer guerra que qualquer presidente dos EUA inicie sem autorização legal. Mas o senador McGovern preferiu não usar o debate parlamentar que ele próprio forçou, na direção em que o usou o então Congressista Dennis Kucinich, a saber, como debate parlamentar PARA PÔR FIM a alguma guerra.
Em vez disso, McGovern circunscreveu o debate: os congressistas só debateram se havia questão a debater.
Assim aconteceu que, durante duas horas, na 4a-feira, defensores e propagandistas das guerras dos EUA falaram longamente, apaixonadamente, gerando e incendiando cada vez mais medo entre os cidadãos e , portanto, a favor de cada vez mais e mais guerras. E os que pregavam que seria preciso discutir mais só fizeram pregar que se usasse corretamente a lei dos Poderes de Guerra... para gerar debates e mais debates... sobre leis, não sobre a paz.
EVIDENTEMENTE, os dois lados sabiam que a resolução que estava sendo “debatida” tinha mínimas chances de ser aprovada, o que implica dizer que o debate sobre a possibilidade de debater era a única possibilidade real de haver algum debate, mesmo que fingido.
Mas McGovern já planejara fazer debate exclusivamente defensivo. Argumentou que as asserções dos adversários da retirada dos soldados, segundo as quais a proposta exigiria imediata retirada em 30 dias, omitiam a evidência de que o presidente poderia optar, “se bem entendesse”, por retirada só ao final do ano.

RootsAction.com


Mas, como qualquer um pode ler no trecho acima citado, o projeto de lei jamais falou de “se o presidente bem entender”. O que se lê lá é “no caso de o Presidente determinar que essa retirada não é segura”. McGovern deu a impressão de estar perfeitamente consciente do absurdo incluído em seu próprio projeto de lei: em todos os casos, decisão que JAMAIS é ou será “segura” é a decisão de mandar soldados à guerra, ou de fazê-los permanecer em guerra. Mas McGovern fingiu que estaria deixando a Obama a alternativa de fingir que nada seria exatamente assim: a retirada passaria a ser automaticamente “segura”, se Obama “bem entendesse”.
Muitos adversários da resolução pró-retirada, apenas fingiram que defendiam a retirada. De fato, o argumento de muitos foi (1) retirada, sim; e (2) mais guerra, para “proteger os soldados”. E um dos que se opunham à resolução, Brad Sherman, argumentou que a resolução obrigaria a imediata retirada dos soldados em 30 dias, o que seria péssimo, porque estão vencendo a guerra e não estão absolutamente em perigo.
O debate só ganhou coerência e significado relevantes quando quatro deputados falaram contra a guerra. Um deles, em especial, falou contra a guerra com paixão e inteligência: John Lewis. Disse que o povo “está enojado, cansado de guerra” e que a guerra só torna as coisas sempre mais difíceis. “Nenhuma arma jamais deterá o terrorismo. Não há bombardeio que mate o ódio”. Pedi ao seu gabinete que enviasse o texto de seu discurso. Todos podem procurá-lo, durante a semana, no website de Lewis.
Os outros que também falaram contra a guerra foram Barbara Lee, muito rapidamente; Rick Nolan, também rapidamente; e Charlie Rangel que criticou os mitos da violência inerente do Oriente Médio e da “generosidade” de passadas “Guerras Boas” dos EUA. Também disse que não há razão alguma para haver soldados norte-americanos naquela região; que não é o ISIS quem está matando adolescentes desempregados nos EUA. Rangel foi o primeiro a levar para o “debate” da 4ª-feira temas caros ao movimento antiguerra.


Martin Dempsey por Webb Murray 


O Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, Martin Dempsey esteve na 4a-feira (17/6/2015) no Congresso, para falar a uma das comissões. E martelou a ideia de que o sectarismo religioso – não a guerra dos EUA – seria responsável pelo desastre que se vê até hoje no Iraque, praticamente inalterado. Dempsey disse também que não há solução militar. “Portanto” [sic] sua proposta é agir dos dois lados: enviar soldados dos EUA e simultaneamente armar e treinar os iraquianos. Não fez, como nunca faz, sentido algum.
[...] Para a Republicana Sheila Jackson Lee, é preciso debater a guerra, a qual, para ela é ação filantrópica a favor das vítimas estrangeiras das bombas dos EUA. Também recomendou que todos contenham a própria cobiça e o egoísmo pecaminosos. Outro Republicano, Jerrold Nadler disse que não sabe se a guerra deve prosseguir ou parar, mas tem certeza de que ele e seus colegas têm o direito de decidir sobre se a guerra continuará. A Republicana Eleanor Holmes Norton quer um referendo em Washington, DC (?) sobre a guerra. Mas só falou a favor de mais e mais guerra. O Republicano Mark Sanford “exige” mais debate sobre a guerra, fala dos custos financeiros da guerra, mas toma o cuidado de não dizer nem uma palavra nem a favor nem contra a continuação da guerra.
Royce fez longo discurso pró-guerra, depois das formalidades que McGovern cumpriu, de encerramento, sem se opor a guerra alguma. Para Royce os deputados e senadores sentiam-se paralisados, sem terceira via entre mais guerra e “nada fazer”. Bobagem. Desde outubro do ano passado, no mínimo, já se conhecem inúmeras possibilidades (ing.), todas para a paz.
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[*] David Swanson (nascido em 1969) é norte-americano, ativista social, blogueiro e articulista e escritor. Obteve um mestrado em filosofia na University of Virginia, em 1997. Como um ativista é co-fundador do site After Downing Street (agora War Is A Crime .org). Swanson liderou campanha acusando de crimes de guerra o ex-presidente George W. Bush e o vice Dick Cheney através extinto site ConvictBushCheney.Org. Contribuiu com Dennis Kucinich em The 35 Articles of Impeachment and the Case for Prosecuting George W. Bush. Ajudou na organização de campanhas como a Velvet Revolution em oposição à United States Chamber of Commerce. Participa ativamente do movimento Occupy Washington originado de Occupy Wall Street.
Como autor, escreveu vários livros:
Swanson é também blogueiro tendo outros sítios próprios: WarisaCrime.org e RootsAction onde escreve artigos replicados por vários sites políticos.