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sexta-feira, 15 de março de 2019

Rouhani e Sistani, Irã e Iraque Visita histórica

(enquanto o mundo se reorganiza sem EUA & Brasil) 

EUA e Brasil vergonha do mundo 



13/3/2019, 
Al-Monitor (do correspondente) [dica de Pepe Escobar, pelo Facebook]
Traduzido pelo pessoal da Vila Mandinga e publicado pelo blog O Empastelador

A visita de estado de Hassan Rouhani ao Iraque foi um sucesso para o presidente iraniano. Em termos de cooperação política e econômica, foram assinados vários memorandos de entendimento para facilitar o comércio, os investimentos, as conexões logísticas e as viagens entre os dois vizinhos. Além disso, foi divulgada importante declaração conjunta sobre o compromisso dos dois países para implementar 
os Acordos de Argel 1975 e anexos relacionados, que enfrentam questões sensíveis e gravemente deterioradas como a demarcação de fronteiras.

São passos da maior importância para Rouhani. Mas o coroamento dessas démarches foi a audiência do dia 13 de março – evento sem precedentes – com o Grande Aiatolá Ali al-Sistani em Najaf — primeira vez que presidente iraniano em exercício é recebido pelo clérigo de mais alta hierarquia no Iraque. Sistani “acolheu com satisfação todos os movimentos para fortalecer as relações entre o Iraque e seus vizinhos para promover interesses mútuos e a partir do respeito à soberania dos estados e da não intervenção em assuntos internos". Também "expressou a necessidade de políticas regionais e internacionais moderadas nessa região, para evitar mais tragédia e danos." Para compreender a significação desse encontro, é preciso considerar a influência de Sistani no Irã.

Ano passado, houve 
110 mil alunos seminaristas no Irã, concentrados principalmente na cidade sagrada de Qom. Segundo dados do gabinete de Sistani, 49 mil alunos em 300 seminários no Irã receberam bolsas de estudos do Grande Aiatolá em 2013: 35 mil em Qom, 10 mil em Mashhad e 4.000 em Isfahan (muitos seminaristas recebem bolsas-auxílios de várias autoridades clericais. Além desses, também há estudantes no Irã que não recebem nenhum tipo de bolsa. Assim sendo, pode-se assumir que proporção significativa de seminaristas iranianos são mantidos diretamente por Sistani, o qual, embora viva há muitos anos no Iraque é cidadão iraniano. Essas redes têm grande influência no Irã, onde o sistema prevalecente, dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica [ver também Guardianship of the Jurist (ing.)] — embora só imponha disciplina política, não religiosa – repousa sobre a legitimidade religiosa.

Muçulmanos xiitas tendem a seguir autoridades religiosas no que tenha a ver com como conduzir a própria vida pessoal pelo que determine a religião. Esses altos jurisconsultos são chamados maraji al-taqlid ("fontes a serem imitadas"). Para manter serviços de caridade e estudos, recolhem um 'imposto', khums — imposto de 20% sobre a riqueza — além de doações dos fiéis. Embora não haja estatísticas de quanto seguidores tem cada marja, um 
estudo pioneiro lançou alguma luz sobre o tema.

Uma equipe do MIT [Massachusetts Institute of Technology] analisou milhares de peregrinos iranianos e iraquianos que fizeram a peregrinação do 
Arbaeen em 2015. O evento anual atrai milhões de peregrinos. Os iranianos que fazem a viagem ao Iraque não podem ser tomados como representantes do iraniano médico. Mesmo assim é interessante considerar que a distribuição dos Reformistas, em relação aos conservadores entre os iranianos pesquisados, foi quase sempre igual. Além disso, 19% dos respondentes iranianos eram de Teerã; 12,2% de Isfahan e 11,28% de Qom; na população iraniana as porcentagens respectivas foram 16,2%; 6,5% e 1,53%.

Porcentagem ligeiramente superior a 60% dos pesquisados disseram que seguem Khamenei; 20% que seguem o Grande Aiatolá Nasser Makarem Shirazi; e 15% seguem Sistani; 80% dos iraquianos declararam-se seguidores de Sistani.

Mas quanto a pagar o khums — considerando-se que cerca de metade dos entrevistados não quiseram responder – só 22% dos iranianos disseram pagá-lo a Khamenei, e 9% a Makarem Shirazi. Por sua vez, 11% dos iranianos disseram que pagam seu khums a Sistani, além de 46% dos iraquianos pesquisados, que também pagam a taxa sobre a riqueza a Sistani.

O que nos dizem esses dados? Claro que há várias dimensões a considerar – incluindo a consideração de que peregrinos religiosos não são amostra da maioria da população, especialmente no Irã. Mesmo assim, é possível extrair algumas inferências razoáveis:
  • Sistani conta com número considerável de seguidores empenhados no Irã.
  • Quem queira ser bem-sucedido no governo iraquiano precisa das bênçãos de Sistani.
  • Quem queira operar com sucesso no Iraque também precisa das bênçãos de Sistani.
  • Considerando-se que Sistani rejeita a teocracia, suas bênçãos podem também servir como guia em ocasiões em que seja relevante ganhar a classe média iraniana e outros estratos da sociedade menos ligados ao pensamento dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica.

Na verdade, muitos dados empíricos garantem evidências para tudo que acima se resumiu. Seja o governo em Bagdá, ou mesmo as autoridades de EUA e Irã, todos já aprenderam e aceitaram que é necessário evitar a oposição da suprema autoridade religiosa em Najaf, Iraque.

A grande influência que Sistani tem na política iraquiana (também extra-constitucional) ficou evidente seja quando conclamou o país a participar no processo eleitoral depois da invasão comandada pelos EUA, suas opiniões sobre primeiros-ministros ou até na luta contra o 'Estado Islâmico'. Essa influência ampliou-se para a política iraniana, onde várias facções buscaram o apoio dele para promover as respectivas posições e respectivos capitais políticos – especialmente em tempos de crise.

Por exemplo, 
Sistani recusou-se a receber o conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) quando visitou o Iraque — inclusive em 2008, na primeira viagem de presidente iraniano ao Iraque. Mas o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, político moderado veterano, que por muito tempo apoiou Rouhani, sim, foi recebido por Sistani quando Rafsanjani visitou o Iraqueem março de 2009. No verão daquele ano, vários grupos em Teerã tentaram convencer o Grande Aiatolá a apoiá-los, num momento em que a República Islâmica enfrentou o momento mais grave de agitações internas desde a Revolução de 1979, logo depois da disputada reeleição de Ahmadinejad.

Em telegrama que vazou do Departamento de Estado dos EUA, alguém 
bem próximo de Sistani dizia que o alto clérigo dissera que recebera cartas de todos os principais grupos envolvidos no conflito de facções no Irã, que "queriam que eu dissesse o que mais interessava a cada um". Sistani manteve-se neutro, em parte movido pelo desejo de não se deixar respingar por desdobramentos.

A cautelosa preferência de Sistani por forças pró-reforma no Irã transparece também no relacionamento muito próximo que mantém com o ministro de Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, que, desde que assumiu o ministério em in 2013, já foi várias vezes recebido pela suprema autoridade religiosa do Iraque. Na primeira visita de Zarif como ministro de Relações Exteriores, Sistani, 
segundo uma fonte, disse a Zarif que “Li quase todo o seu livro, Mr. Ambassador,[1] e valorizo sua experiência e entendo que o senhor merece a posição que tem, de ministro de Relações Exteriores." E o Iraque foi o primeiro país que Zarif visitou, depois de assumir o ministério.

Em mais um sinal da influência de Najaf na política iraniana, não se deve ignorar que uma das figuras mais poderosas e bem relacionadas no Irã é o representante pessoal de Sistani, o Aiatolá Jawad Shahristani. Fosse nas negociações sobre quem comandaria o governo em Bagdá, ou na mobilização para a luta contra o 'Estado Islâmico', Shahristani sempre teve papel de destaque, com acesso à mais alta liderança no Irã, o que, provavelmente, está além do alcance da maioria dos membros do Gabinete iraniano.

A influência que facilita esses poderosos canais de atuação surge, em parte, das complexidades de laços de família (e políticos): Shahristani é genro de Sistani; Shahristani também é sogro de Ali Khomeini, neto do Aiatolá Ruhollah Khomeini — fundador da República Islâmica.

Sobre esse pano de fundo, a decisão da suprema autoridade religiosa de conceder uma audiência a Rouhani e Zarif informa aos líderes iraquianos que se devem engajar no governo Rouhani, mesmo que contem com o apoio de centros rivais de poder em Teerã, como o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC). Mais que isso, os feitos de Rouhani essa semana devem ter deixado bem claro para o governo Trump e seus aliados árabes, que o Irã nem abandonará nem será abandonado pelo Iraque, embora não se deva interpretar essa posição, de Bagdá ao lado de Teerã, como Bagdá ter posto Teerã acima de Washington.

Por fim, e talvez o mais importante de tudo, o encontro de Rouhani e Sistani foi uma injeção muito necessária de capital político, em momento de crise doméstica. De fato, Rouhani vem enfrentando fogo incessante de seus inimigos de linha-dura, revitalizados pela saída do governo Trump do Plano Amplo de Ação Conjunta [o chamado 'acordo nuclear do Irã].

Apesar de a viagem de Rouhani ao Iraque já estar planejada há mais tempo, a agenda foi, parece, impactada pela dinâmica de poder em Teerã – e pela a visível preferência de Sistani por moderação e reforma no Irã. Esse detalhe não escapou aos rivais do presidente do Irã, como já se viu na 
cobertura doméstica polarizada de sua audiência com Sistani. Assim, com Rouhani e Zarif manobrando para reafirmar sua autoridade sobre a política exterior da República Islâmica, há vários indicadores a serem observados em busca de sinais sobre o comando que tenham nas questões das agendas regionais. Dentre esses, a possibilidade de uma visita à Síria em futuro próximo, que também seria a primeira de Rouhani como presidente.


[1] Āqā-ye Safir: Goftogu bā Mohammad-Javād Zarif, Safir-e Pishin-e Irān dar Sāzemān-e Mellal-e Mottahed [Mr. Ambassador: A Dialogue with Mohammad Javād Zarif, the Former Ambassador of Iran to the United Nations], MohammadMehdi Rāji (ed.), Tehran: Nashr-e Ney, 2013, ISBN 978-964-185-298-8 (paperback), 368 pp. Aqui, resenha em inglês [NTs].

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Pepe Escobar – Por que ainda não há acordo nuclear em Viena


7/7/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


VIENA – Com a negociação Irã-P5+1 alcançando estágio crucial na 2a-feira (6/7/2015) à noite, e as equipes técnicas trabalhando para montar um texto limpo a ser distribuído na 3a-feira (7/7), o ponto que ainda está pegando acabou por ser o embargo de armas convencionais imposto ao Irã pelo Conselho de Segurança da ONU, como disse a Asia Times um veterano diplomata europeu.
Rússia e China, países BRICS, tinham posição coordenada: “SIM” ao fim do embargo. EUA e Reino Unido votaram “NÃO”. E a França, fator crucial, balançava.
Se fosse decisão que coubesse integralmente ao ministro de Relações Exteriores da França Laurent Fabius, o voto seria “NÃO”. Mas pode-se supor que, se a decisão final é do Presidente François Hollande, pode ser “SIM”. Não há o que a indústria francesa de armas deseje mais ardentemente, que acrescentar Teerã à sua lista ainda magra de fregueses para Rafales e Mistrals.
Voltando ao Grande Quadro, diplomatas iranianos insistiam que “todas as sanções relacionadas a aspectos nucleares tem de ser removidas. Foi o que ficou decidido em Lausanne”. Significa que o embargo a armas convencionais imposto pela ONU em 2007, e incluído nas sanções nucleares também tem de desaparecer.
Assim sendo, o que Asia Times noticiou no início da semana ainda se aplica: há diferenças severas dentro do P5+1 em várias questões chaves – daí a necessidade de eles negociarem por mais tempo entre eles mesmos, que com o Irã.
Essa é a razão chave para mais uma prorrogação do prazo final – até 9 de julho/2015, 5a-feira. E mesmo isso pode ainda não ser o fim da estrada.
Todos esses [colchetes]
Com apenas 24 horas até o Dia-D nessa 3a-feira (7/7/2015), os sinais são extremamente confusos. A delegação iraniana enfatizou que “não é um impasse”; afinal, os Ministros de Relações Exteriores do P5+1 estavam reunidos até tarde da noite, e pela segunda vez num dia frenético. Os negociadores iranianos insistiam que “o Irã está pronto para continuar por quanto tempo for preciso, enquanto houver oportunidade para avançar”.


Mesmo assim, o novo prazo tentativo – 3a-feira (7/7/2015) – já estava furado. Os russos, por sua vez, preparavam-se para deixar Viena na 3a-feira à noite; na sequência seu outro destino imediato – que, inicialmente, contaria com a presença também do Ministro Zarif de Relações Exteriores do Irã – são as duas reuniões de cúpula igualmente cruciais e simultâneas, dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai, em Ufa, Rússia. A OCX começará a discutir ativamente a incorporação do Irã como membro, já no próximo ano, na reunião que se realizará na Índia.
Embora sempre cuidadosos para não se mostrarem pressionados pelo tempo, começa a aparecer entre os diplomatas iranianos algum sinal de frustração quanto às reais intenções dos contrapartes norte-americanos: “Se não podem traduzir intenção política em decisões políticas, teremos de dar por encerradas essas negociações”.
Mas “nenhum dos dois lados quer perder momentum”. O movimento nada diplomático de Kerry no domingo – “o acordo pode ir para qualquer lado” – foi interpretado pelos iranianos como mensagem para aplacar o front interno (nos EUA), e vencer a batalha pela opinião pública em casa. Os iranianos só guardaram, daquilo tudo, que “estamos avançando”.
É difícil imaginar as complexidades que se escondem em texto de 85 páginas e cinco anexos, tudo exaustivamente detalhado. Os funcionários do Irã descrevem a coisa como “um pacote de 85 páginas e muitos colchetes”. Como diz um deles, “até para uma palavra, ou às vezes uma preposição, temos de consumir duas horas de trabalho no nível técnico” “Sucesso” é quando os negociadores conseguem resolver de 15 a 20 colchetes por dia.
O que logo foi definido, na última perna das negociações é que, depois do acordo, “será redigida uma Resolução”. O Conselho de Segurança “tomará conhecimento” do que tenha ficado acordado em Viena. E depois essa resolução suspenderá todas as resoluções passadas, até o dia da implementação. “A vantagem dessa resolução” – acrescenta um especialista iraniano do corpo técnico – “é registrar o que tenha sido acordado em Viena. E então tudo passa pela jurisdição do Conselho de Segurança da ONU”.


Do fundo de uma cálida noite vienense, com o legendário Café Sacher já fechado, ainda faltava muito que andar. Num quarto de hotel, um diplomata iraniano meditou: “os americanos criaram uma estrutura de sanções que não querem destruir. Estão emocionalmente apegados a ela”. Não surpreende que tantos dos colchetes ainda não resolvidos no texto final tenham a ver com as sanções de EUA e União Europeia.
E lá estava o busílis, sempre o mesmo: o governo Obama abrirá mão, afinal, da arma de eleição de toda a política externa dos EUA? Seria evento digno de celebração de gala na Wiener Staatsoper.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

terça-feira, 7 de julho de 2015

Pepe Escobar: Cavalo de Troia na Casa do Arrocho



6/7/2015, [*] Pepe Escobar, Sputniknews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





A Grécia inventou a democracia. A mitologia grega forjou o modo como o ocidente vê-se ele próprio. A Grécia inventou até o nome para esse anexo eurasiano – “Europa”.


Porque só criminosos hoje em dia presumem que possam causar dano a outras pessoas sem a ajuda da filosofia.
Robert Musil, O homem sem qualidades.


Odisseu/Ulisses demorou dez anos para voltar para casa, depois da Guerra de Troia. Descendentes dele estão agora fazendo história na casa original da democracia. E sem ter de ir a lugar algum. Já enfiaram seu Cavalo de Troia porta adentro da intolerância e do arrocho. Não há como desistir e voltar atrás, da restauração da dignidade. E se as musas governam tudo isso, a Grécia voltará ao DRACMA.
 
As chamadas “instituições” da UE – além de políticos cuja mediocridade tem dimensões cósmicas, representantes das nações ricas da UE – agiram como bárbaros todos os dias, provando, mais claramente impossível, o quanto toda a construção kafkeana da UE tem ódio de morte à democracia.

Bruxelas e Berlim provaram que estão no business da “mudança de regime”. Atualizando os excepcionalistas contra o Iraque em 2003, advogaram via “Choque e Pavor” econômico a destruição de um governo democraticamente eleito. O subsequente sonho molhado deles será impor renovado arrocho a um governo tecnocrático provisório não eleito.
PM Alexis Tsipras votando no referendum

Na semana passada, todas as mais incansáveis táticas de meter medo – aplicadas por Jeroen Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo, ou pelo Presidente da Comissão Europeia e oportunista de carteirinha`, Jean-Claude Juncker – só fizeram repetir que votar “NÃO” significaria “Grexit”. Hoje, a real possibilidade de um “Grexit” ameaça destruir o euro.
O medo máximo desse políticos cosmicamente medíocres é que outras democracias europeias – a começar pela Espanha, no próximo outono – comecem fatalmente a dizer “NÃO” à obsessão pró-arrocho sem fim.
O mero fato de estar acontecendo o que se vê acontecer já é a condenação final da Troika, cuja receita tamanho-único sempre se traduz em recessão, desemprego e miséria galopante. Essa noção de Europa está morta e enterrada.
Tudo é insustentável
 
Chegamos agora ao momento Termópilas real. Fazer ou morrer. Não há mapa do caminho de como a Grécia pode sobreviver na Eurozona sem destroçar sua sociedade já ferida. E implicaria o fim de políticas profundamente antieuropeias.

A reunião dessa 3a-feira (7/7/2015), envolvendo a chanceler Merkel e o Presidente Hollande da França mostra o desespero de hora final desses políticos de mediocridade galáctica. Merkel corre hoje o risco muito real de passar à história como responsável direta pelo Grexit. E Grexit – por doloroso que seja – ainda é uma solução.
Grécia incapaz de saldar empréstimo do BCE

A dívida grega é absolutamente “insustentável”, como se lê na novilíngua corrente. Alguma forma de “restruturação” é inevitável. Significa que um novo resgate tem de estar sendo arrematado, para ser apresentado pelos ministros das Finanças da Eurozona. Talvez ainda faltem semanas até que novo acordo seja forjado. No curto prazo, o Banco Central Europeu caminha numa longa corda bamba, obrigado a decidir o que fazer com o sistema bancário da Grécia.
O povo grego beneficiou-se de menos de 10% dos € 240 bilhões do “resgate” que a Grécia recebeu. Na verdade, foram resgatados bancos comerciais alemães e franceses [vide Tragédia Grega esconde segredo de bancos privados”, Maria Lucia Fattorelli, 4/7/2015 (NTs)] – e a Grécia foi obrigada a tomar “empréstimos de emergência” para pagar aqueles bancos. Para obter esses empréstimos, Atenas teve de impor arrocho e mais arrocho, nesse neoliberalismo deixado à solta.
Tudo sugere que a Eurozona vai continuar a fazer jogo duro. Embora o próprio FMI admita que seja inevitável algum alívio na dívida. Isso depois de já se saber, por documentos roubados/espionados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA e divulgados por WikiLeaks, que a própria Merkel, já desde outubro de 2011, admitia que a dívida grega é “insustentável”.
A dívida do governo grego está ainda em estonteantes € 320 bilhões de euros, 78% dos quais são devidos à Troika. E a Troika está tentada a arrochar ainda mais o parafuso – usando agora a tática de esvaziar as caixas de atendimento automático dos bancos, para induzir a “mudança de regime”. Mas a coisa pode sair errada e precipitar – e o que poderia ser? – Grexit.
Grexit (Banksy)
E Grexit será só o início de uma nova tragédia inspirada em Sófocles. Quando uma nação quebra com a moeda única, toda a união monetária fica completamente exposta. A Deusa (Neoliberal) do Mercado andará por lá, vorazmente procurando pela próxima vítima – Espanha, Itália, Irlanda.
O Cavalo de Troia democrático lá está, em silêncio, dentro da Casa do ARROCHO. A batalha vai começar.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pepe Escobar: Acordo nuclear arrasta-se. EUA-Irã em guerra de informação


30/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


VIENA – Assim sendo, hoje não é o Dia-D. Nada de pouso no território por trás do Muro da Desconfiança. Não haverá acordo nuclear entre Irã e P5+1 hoje – e por várias e complexas razões, muito diferentes do que se poderia supor pela viciosa guerra de informação “midiática”; não se chegou à formulação precisa, exata, de cada palavra em cada lugar das 85 páginas de texto.
Tudo se resume, todas as idas e vindas e dramáticas reviravoltas, a uma questão de confiança. Quer dizer, a conseguir abrir uma brecha no Muro de 36 anos de Desconfiança entre Washington e Teerã.
Há avanços, é claro. No status do centro de pesquisa de Fordo, por exemplo, pela primeira vez os dois lados chegaram a um acordo. Compare isso à fissura cósmica – exacerbada pelo palavreados dos norte-americanos – sobre o fim gradual das sanções.
É o que lá está, no coração da valsa vienense diplomática; o que acontece depois de adotado o acordo – o que alguns negociadores definem como “operacionalização”. Só depois que o Congresso dos EUA revisar o acordo, serão dadas “garantias firmes” de que as sanções serão levantadas. É a muito comentada mas ainda nebulosa “fase três” – quando toda a estrutura de sanções EUA, UE e ONU deverá ser desfeita.
Aí está o problema – como um alto oficial iraniano disse a Asia Times:
O principal problema para Teerã é como ter garantia completa de que esse processo complexo será integralmente implementado.
O que Teerã quer – segundo negociadores insiders – é “conduzir um processo paralelo”: enquanto o Irã vai cumprindo seus compromissos de restrição nuclear, os EUA, principalmente, trabalham para desmontar o “processo institucionalizado das sanções”. Não é segredo que Washington controla todo o quadro. E o segredo de um acordo bem-sucedido é que todos esses detalhes sejam explicitados por escrito.
Negociadores insiders dizem a Asia Times que, num plano técnico, num máximo de três meses todos os necessários compromissos estarão cumpridos. Mesmo coisa como mudar o reator em Arak, processo muito caro.
Então, qual é o problema? Mais uma vez, é questão de confiança (que falta).
Atenção às centrífugas “midiáticas”
As negociações nucleares operam em três diferentes níveis – dois dos quais técnicos, abaixo do nível do Ministério de Relações Exteriores. Se pelo menos tivéssemos um neo-Wittgenstein para desconstruí-los!
É tudo entre EUA e Irã. Os demais atores são, no máximo, coadjuvantes.
Imaginem o ministro Zarif, de Relações Exteriores do Irã, vez ou outra, aos gritos no nariz do Secretário de Estado, John Kerry, dos EUA, no calor dos debates. O Supremo Líder, Aiatolá Khamenei, entrou na discussão, faz pouco tempo, alertando Zarif para que esfriasse a cabeça.
John Kerry (E) e Mohammad Javad Zarif

Os russos não são tão proativos quanto poderiam ser; é como se estivessem apostando numa mão vencedora, de integração eurasiana, com acordo nuclear, ou sem acordo nuclear. Os chineses não dizem palavra; papel passivo, só olhando. Os alemães são racionais – pode-se dizer equidistantes. O Ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, só faz pose; mas por mais que se esforce nas poses dramáticas, está ainda muito longe de qualificar-se como algum neo-Talleyrand. É incapaz de acrescentar coisa alguma, seja o que for, que tenha qualquer substância.
E há as famosas linhas vermelhas. As do Supremo Líder Aiatolá Khamenei sempre foram muito claras – até para os negociadores norte-americanos. E não são linhas pessoais, só dele: elas representam um consenso iraniano.
O que é certo é que, depois de total imersão nas tecnicalidades do drama vienense, o que acontece (segundo a imprensa-empresa norte-americana) nada tem a ver com a negociação real no Palais Coburg.
Envolver o Senado dos EUA é retroceder a Lausanne, como os diplomatas iranianos veem a questão.
Imagine se fosse o contrário, todos à espera do que o Parlamento Iraniano tivesse a dizer. Em vez de manter-se silenciosa, a imprensa ocidental estaria em fúria. A distribuição de rascunhos das conclusões de Lausanne criou muita confusão sobre a posição do Irã.
Os EUA tumultuarem completamente as discussões, nesse caso, significa que o Senado dos EUA está tornando obsoleta qualquer ideia de prazo final, como o marcado para hoje.
Sem nenhuma consideração à realidade, as centrífugas midiáticas giram sem parar. Considere a demanda dos EUA – há três meses – de entrevistarem 18 cientistas e professores. Para começar, é falsa demanda nunca discutida menos ainda concedida na mesa de negociações. E desapareceu. Mas apesar disso foi adiante ressuscitada para gerar guerra na mídia.
Outros detalhes problemáticos são simplesmente suprimidos. O protocolo adicional ao acordo tem sérios parâmetros. Assim, por exemplo, o famoso parágrafo 5c declara que cabe ao país que esteja sob inspeção conceder acesso ou não. A AIEA não pode andar por lá confiscando computadores como bem entenda, por exemplo. Só tem autorização para recolher amostras ambientais.
Sanções no divã de Freud
Diplomatas iranianos são absolutamente firmes sobre mudar “a cultura das sanções” – e o efeito psicológico massivo que a completa e que contamina qualquer empresa, mesmo na Ásia, que decida fazer negócios com o Irã. Os negociadores iranianos preveem que só aí o Irã tenha de investir no mínimo seis meses de trabalho duro. E admitem prontamente que a questão continua pelo menos sobre a mesa com norte-americanos.


Há muitas, muitas questões muito enlouquecedoramente complexas. Ninguém sabe, por exemplo, sobre a liquidez iraniana distribuída por vários diferentes bancos. O que se sabe é que o Irã tem cerca de US$ 110 bilhões congelados pelo mundo. Rumores de que Teerã possa repassar esses fundos a “procuradores” são motivo de zombaria até entre diplomatas europeus.
Com tudo isso, e se não houver acordo algum? Zarif já disse publicamente que não será o fim do mundo. Isso porque o Irã – e os iranianos – trabalharam forte para construir uma “economia de resistência” (e não surpreende que o Supremo Líder tenha teorizado sobre a “flexibilidade heroica” [1]). Como diz um funcionário iraniano,
(...) os EUA sabem muito bem que sanções não afetaram o Irã. Os arquitetos das sanções contra o Irã tinha certeza de que o Irã entraria em colapso no final de 2012, o mais tardar. E que o país seria consumido em agitações sociais.
Nada disso aconteceu, é claro. E assim voltamos às centrífugas “midiáticas” girando enlouquecidas. Aqui vai um clássico, da véspera do Dia-D.
AFP distribuiu matéria nessa 2a-feira (29/6/2015), em que se lê EUA dizem que foi encontrado um modo de garantir acesso dos EUA a sítios iranianos suspeitos . Funcionários do Irã descrevem a coisa como “desinformação planejada, para influenciar a mesa de negociações”. Admitem que pode ser, no melhor dos casos, “ideia dos norte-americanos”. Mas nada disso foi jamais negociado, porque nada tem a ver com a questão nuclear.
Não surpreende que a AFP tenha recebido “pancadinhas à porta”, do Ministério de Relações Exteriores da França, como Asia Times soube. Em menos de uma hora a linguagem já mudara completamente, para “potências globais que negociam com o Irã apresentaram proposta...” Àquela altura, a versão inicial – falsa – já estava viralizada e era repetida por todos os jornalões do planeta.
Dia 22/6/2015, também em matéria da AFP, o portentoso Fabius já delineara seu roteiro de três itens para o acordo,
(...) acordo robusto (...) que inclui limitar a capacidade iraniana para pesquisa e desenvolvimento; um regime de verificação que cobrirá, se necessário, instalações militares; e que permite a volta automática das sanções, no caso de violações pelo Irã.
O protocolo adicional não fala de inspeção de instalações militares. Os registros mostram que o Irã – por duas vezes e voluntariamente – ofereceu acesso aos inspetores a instalações militares de Parchin em 2005. E todas as questões sobre essas instalações foram resolvidas no âmbito da AIEA.
Não surpreende que os iranianos tenham
(...) sérias dúvidas sobre as intenções dos que tanto insistem em ganhar acesso a instalações da defesa.
Não há precedentes, exceto nos preparativos e provocações para a guerra contra o Iraque. Naquele caso, o governo dos EUA ignorou totalmente a AIEA, porque a decisão de iniciar a operação “Choque e Pavor” já havia sido tomada.
Vontade política, alguma por aí?
Até aí uma simples amostra do que os negociadores iranianos chamam de “muitas diferenças” a impedir qualquer acordo. Todos os insiders em Viena sabem que o governo dos EUA só faz distribuir “notícias” segundo as quais “o Irã precisa do acordo”; mas nós, os EUA, “queremos o acordo”. Funcionários iranianos chamam a atenção para o fato de que Lausanne já deu a necessária infraestrutura para o enriquecimento pacífico de urânio, mesmo que com severas restrições. Mas o governo dos EUA quer doentiamente que o Irã só tenha direito a enriquecimento “simbólico”.



Eis a coisa, na formulação de um diplomata iraniano:
(...) os norte-americanos estão com arrependimento de comprador, depois das conversações de Lausanne.
E começam as obstruções. E as centrífugas “midiáticas” girando feito loucas. E o reforço incansável do Muro da Desconfiança – mecanismo infernal que tem sua própria lógica não-Wittgenstein, posto a funcionar em alta rotação para pôr o Irã no papel de culpado de tudo, no caso de um possível monumental fracasso.
Será que o governo Obama realmente quer algum acordo justo – tipo o seu único sucesso na política externa? Ou tudo não passa de mais um caso elaborado de “você sabe quem manda aqui?” – uma hiperpotência ávida por comprovar sua tal “credibilidade” sem par?
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Nota dos tradutores
[1]Khamenei avalizou plenamente a ofensiva diplomática de Rouhani, enfatizando – muito clara e explicitamente – dois conceitos: a “flexibilidade do herói”, como o lutador que cede, num momento ou noutro, por interesse tático, mas que jamais desvia os olhos e mantém o rival sempre à vista; e a “leniência do campeão” – que é o subtítulo sutilíssimo de um livro que o próprio Khamenei traduziu do árabe, sobre como o segundo Imã xiita, Hasan ibn Ali, conseguiu evitar uma guerra no século 7º, mostrando flexibilidade na relação com o inimigo” (Pepe Escobar, 19/9/2013, redecastorphoto em: Obama-Rouhani: luz, câmera, ação, Asia Times Online).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
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