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terça-feira, 7 de julho de 2015

Pepe Escobar: Cavalo de Troia na Casa do Arrocho



6/7/2015, [*] Pepe Escobar, Sputniknews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





A Grécia inventou a democracia. A mitologia grega forjou o modo como o ocidente vê-se ele próprio. A Grécia inventou até o nome para esse anexo eurasiano – “Europa”.


Porque só criminosos hoje em dia presumem que possam causar dano a outras pessoas sem a ajuda da filosofia.
Robert Musil, O homem sem qualidades.


Odisseu/Ulisses demorou dez anos para voltar para casa, depois da Guerra de Troia. Descendentes dele estão agora fazendo história na casa original da democracia. E sem ter de ir a lugar algum. Já enfiaram seu Cavalo de Troia porta adentro da intolerância e do arrocho. Não há como desistir e voltar atrás, da restauração da dignidade. E se as musas governam tudo isso, a Grécia voltará ao DRACMA.
 
As chamadas “instituições” da UE – além de políticos cuja mediocridade tem dimensões cósmicas, representantes das nações ricas da UE – agiram como bárbaros todos os dias, provando, mais claramente impossível, o quanto toda a construção kafkeana da UE tem ódio de morte à democracia.

Bruxelas e Berlim provaram que estão no business da “mudança de regime”. Atualizando os excepcionalistas contra o Iraque em 2003, advogaram via “Choque e Pavor” econômico a destruição de um governo democraticamente eleito. O subsequente sonho molhado deles será impor renovado arrocho a um governo tecnocrático provisório não eleito.
PM Alexis Tsipras votando no referendum

Na semana passada, todas as mais incansáveis táticas de meter medo – aplicadas por Jeroen Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo, ou pelo Presidente da Comissão Europeia e oportunista de carteirinha`, Jean-Claude Juncker – só fizeram repetir que votar “NÃO” significaria “Grexit”. Hoje, a real possibilidade de um “Grexit” ameaça destruir o euro.
O medo máximo desse políticos cosmicamente medíocres é que outras democracias europeias – a começar pela Espanha, no próximo outono – comecem fatalmente a dizer “NÃO” à obsessão pró-arrocho sem fim.
O mero fato de estar acontecendo o que se vê acontecer já é a condenação final da Troika, cuja receita tamanho-único sempre se traduz em recessão, desemprego e miséria galopante. Essa noção de Europa está morta e enterrada.
Tudo é insustentável
 
Chegamos agora ao momento Termópilas real. Fazer ou morrer. Não há mapa do caminho de como a Grécia pode sobreviver na Eurozona sem destroçar sua sociedade já ferida. E implicaria o fim de políticas profundamente antieuropeias.

A reunião dessa 3a-feira (7/7/2015), envolvendo a chanceler Merkel e o Presidente Hollande da França mostra o desespero de hora final desses políticos de mediocridade galáctica. Merkel corre hoje o risco muito real de passar à história como responsável direta pelo Grexit. E Grexit – por doloroso que seja – ainda é uma solução.
Grécia incapaz de saldar empréstimo do BCE

A dívida grega é absolutamente “insustentável”, como se lê na novilíngua corrente. Alguma forma de “restruturação” é inevitável. Significa que um novo resgate tem de estar sendo arrematado, para ser apresentado pelos ministros das Finanças da Eurozona. Talvez ainda faltem semanas até que novo acordo seja forjado. No curto prazo, o Banco Central Europeu caminha numa longa corda bamba, obrigado a decidir o que fazer com o sistema bancário da Grécia.
O povo grego beneficiou-se de menos de 10% dos € 240 bilhões do “resgate” que a Grécia recebeu. Na verdade, foram resgatados bancos comerciais alemães e franceses [vide Tragédia Grega esconde segredo de bancos privados”, Maria Lucia Fattorelli, 4/7/2015 (NTs)] – e a Grécia foi obrigada a tomar “empréstimos de emergência” para pagar aqueles bancos. Para obter esses empréstimos, Atenas teve de impor arrocho e mais arrocho, nesse neoliberalismo deixado à solta.
Tudo sugere que a Eurozona vai continuar a fazer jogo duro. Embora o próprio FMI admita que seja inevitável algum alívio na dívida. Isso depois de já se saber, por documentos roubados/espionados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA e divulgados por WikiLeaks, que a própria Merkel, já desde outubro de 2011, admitia que a dívida grega é “insustentável”.
A dívida do governo grego está ainda em estonteantes € 320 bilhões de euros, 78% dos quais são devidos à Troika. E a Troika está tentada a arrochar ainda mais o parafuso – usando agora a tática de esvaziar as caixas de atendimento automático dos bancos, para induzir a “mudança de regime”. Mas a coisa pode sair errada e precipitar – e o que poderia ser? – Grexit.
Grexit (Banksy)
E Grexit será só o início de uma nova tragédia inspirada em Sófocles. Quando uma nação quebra com a moeda única, toda a união monetária fica completamente exposta. A Deusa (Neoliberal) do Mercado andará por lá, vorazmente procurando pela próxima vítima – Espanha, Itália, Irlanda.
O Cavalo de Troia democrático lá está, em silêncio, dentro da Casa do ARROCHO. A batalha vai começar.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

terça-feira, 30 de junho de 2015

Pepe Escobar: “Democracia Ateniense versus Deuses Neoliberais”


29/6/2015, [*] Pepe Escobar, SputnikNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Primeiro-Ministro Alexis Tsipras dá ao povo grego a oportunidade para decidir o próprio destino via um referendum democrático. É o que basta para pôr a troika – Banco Central Europeu (BCE), Comissão Europeia (CE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – em surto de fúria. Adiante, resumidamente, tudo que se precisa saber sobre o “sonho” de União Europeia.

Tsipras: O Banco da Grécia suspendeu os serviços bancários e introduziu controle capitais
Tsipras, claro, está certo; teve de convocar um referendum porque a troika dera “um ultimatum à democracia grega e ao povo grego”. De fato, “ultimatum que contraria os princípios fundadores e os valores da Europa”.
Mas por quê? Porque a aparentemente tão sofisticada rede político-econômica das “instituições” europeias – o CE, o Eurogrupo, o BCE – teve de enfrentar uma séria decisão política; e essencialmente por causa da sua sórdida mistura de ganância e incompetência, não conseguiram tomar nenhuma decisão política. Agora, afinal, os cidadãos da União Europeia começam a poder ver com mais clareza quem são os inimigos deles: as tais “instituições” nada transparentes que, supostamente, os representam.
Os – até aqui – €240 bilhões do resgate da Grécia (que mostrou a Grécia sendo usada como lavanderia do dinheiro dos “resgates” de bancos franceses e alemães) já fizeram a economia nacional encolher mais de 25%; o desemprego é gigante; e miséria cresce a níveis sem precedentes. E para as “instituições” da UE –plus o FMI – jamais houve qualquer Plano B; foi sempre à moda do euro-arrocho – uma espécie de Choque e Pavor econômico – ou caiam fora (e mergulhem no desespero). O pretexto sempre foi “salvar o euro”. E o que torna tudo mais absurdo é que a Alemanha não dá importância alguma a se a Grécia quebra, e se a saída da Grécia da Eurozona (“Grexit”) é inevitável.
E ainda que a União Europeia opere, na prática, como um monstrengo simulado e reacionário, o que mais intriga é ver intelectuais até aqui respeitáveis, como Jurgen Habermas, a denunciar o Syriza como partido “nacionalista” e elogiando o ex-e-eterno office-boy do Goldman Sachs e hoje Presidente do BCE, Mario Draghi.
À espera de Diógenes
O Referendum de 5/7/2015 vai muito além de os gregos responderem se aceitam ou rejeitam mais gigantescos aumentos de impostos e cortes em aposentadorias (que afetam pessoas que já vivem abaixo da linha oficial de pobreza); é o sine qua non que a troika tenta impor – qualificado como “medidas bárbaras” por vários ministros gregos – para desbloquear mais um resgate.

GREXIT

Pode-se argumentar que dia 5/7/2015 outro referendo, mais pertinente, estará respondendo à seguinte pergunta:
Qual é a linha vermelha para que a Grécia mantenha-se na Eurozona?
O Primeiro-Ministro Tsipras e o Ministro das Finanças Varoufakis derrubaram os rumores de que aceitariam qualquer humilhação para permanecer na Eurozona. Só serviu para radicalizar ainda mais a elite político-econômica alemã – da Dama de Ferro Merkel ao Ministro das Finanças, Schauble. O “segredo” mal escondido deles é que agora eles querem a Grécia fora do euro.
E isso está levando não poucos gregos – dos que ainda acreditavam nos benefícios de uma casa financeira comum de todos – a aos poucos começarem a aceitar uma Grexit. E de cabeça erguida.
O Banco Central Europeu ainda não detonou a bomba atômica – de esmagar todo o setor bancário grego. Mas de fato, com o encerramento do processo de Assistência de Emergência à Liquidez (orig. Emergency Liquidity Assistance, ELA) no fim de semana passado, o mundo desabará se milhões de gregos decidirem sacar seu dinheiro na abertura dos bancos, antes do referendum.

Varoufakis: Se a Europa quer humilhar a Grécia, será que precisamos dessa Europa?

O Banco da Grécia,
(...) como membro do sistema-euro, tomará todas as medidas necessárias para garantir estabilidade financeira aos cidadãos gregos nessas difíceis circunstâncias, como se lia num comunicado
Implica limitar fortemente os saques nos bancos – o que garantirá sobrevida à Grécia até o dia do referendum.
Verdade é que ninguém sabe o que acontecerá depois de 5/7/2015.
A Grexit é possibilidade muito clara. Projetando além disso e colhendo uma folha do “Anel” [dos Nibelungos] de Wagner, também parece claro que as “instituições” do euro, elas mesmas, estão jogando gasolina ao fogo que pode eventualmente consumir a Eurozona – consequência direta do empenho delas para imolar os gregos, como Brunnhilde.
O que a Grécia – berço da civilização ocidental – já mostrou ao mundo deve ser motivo de orgulho para os gregos; nada como um tiro de democracia, para fazer os Deuses do Neoliberalismo perderem as estribeiras.

Diógenes pós-moderno 
por GWF Hegel

Fica-se tentado a invocar um Diógenes pós-moderno, o primeiro filósofo homeless, só com sua lanterna, à procura de um homem honesto (em Bruxelas? Berlim? Frankfurt?) e sem jamais encontrar. Mas em vez de ele cruzar com a maior celebridade daquele tempo –Alexandre o Grande – imaginemos outro encontro, quando nosso Diógenes pós-moderno toma sol numa praça ateniense.
– Sou Wolfgang Schaeuble, Senhor da Finança Alemã.
– Sou Diógenes, Cínico.
– Posso oferecer-lhe tudo que você deseja.
– Desejo que caia fora do meu sol. Está fazendo sombra.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Pepe Escobar: Putin e a caravana saudita

  
E como sempre, ninguém nem viu
o que estava para acontecer...


22/6/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin trabalhando em S. Petersburgo...

Adivinhem quem entrou na sala, 5a-feira passada (18/6/2015), em São Petersburgo: o vice-príncipe coroado e Ministro da Defesa, Muhammad bin Salman, filho preferido do rei Salman; o Ministro do Exterior, Adel al-Jubeir (ex-embaixador nos EUA e ator muito próximo dos players do Departamento de Estado); e o todo poderoso Ministro do Petróleo, Ali al-Naimi. Todos lá estavam para um encontro com o Presidente Vladimir Putin, à margem do Fórum Econômico de São Petersburgo.
Em princípio, não poderia haver virada de jogo mais espetacular à vista. Uma caravana dos reis sauditas oferecendo tributo, ouro, incenso e mirra (ou, quem sabe, preços mais altos para o petróleo). Ninguém ainda sabe como tudo isso se articula no Novo Grande Jogo na Eurásia, no qual um dos principais frutos é a Guerra Fria 2.0 entre EUA e Rússia.
Putin e o rei Salman – muito discretamente – estiveram em contato por telefone durante semanas. O filho do rei convidou Putin a visitar Riad. Convite aceito. Putin convidou o rei a visitar Moscou. Convite aceito. Não há dúvidas de que o suspense já está matando gente, de tanta ansiedade. Mas é vida real? Ou são só fumaça e espelhos?
Quem é aliado de quem?
Para começar, o crucial front da energia. Putin discute agora o que, até aqui, foi guerra de preços, mas que pode (atenção: pode) vir a tornar-se uma “aliança de petróleo” (em palavras de Naimi), diretamente com a fonte: a Casa de Saud.

Assumindo-se que essa entente cordiale venha eventualmente a levar a uma subida no preço do petróleo, Putin marca importante vitória interna contra o que pode ser descrito como uma Quinta Coluna Atlanticista que tenta minar o impulso multipolar dos russos. Mais que isso, não machuca Moscou, em termos geoeconômicos, poder agregar a Arábia Saudita como grande comprador dos sistemas de defesa russos, de superior qualidade.

A inteligência russa está perfeitamente consciente de que a Casa de Saud ficou tremendamente “desapontada” – eufemismo monstro! – com a política do governo Obama que eles mesmos descrevem como “Não faça merda coisa estúpida”, e por alto número de motivos, das quais uma, nada insignificante, é a possibilidade concreta de um acordo nuclear Iran-P5+1 dia 30 de junho de 2015, o que será sinalização codificada de que Washington finalmente aceitou baixar seu próprio Muro da Desconfiança contra a República Islâmica, erguido há 36 anos.
Reunião de alto nível com a Casa de Saud e, pior, na Rússia, arrepia furiosas penas no Departamento de Estado. Não ficará sem castigo – contra Moscou e contra Riad. Afinal, os verdadeiros Masters of the Universe – não seus office-boys em diferentes setores do governo dos EUA – já há algum tempo procuram jeito para descartar a Casa de Saud.
Fórum Econômico de S. Petersburgo
A inteligência russa também sabe que, em Washington, a Casa de Saud depende hoje dos bons favores do lobby israelense – e tudo tem a ver com demonizar o Irã. E, agora, um acordo nuclear com o Irã – que tornará Teerã “normal”, na relação com o ocidente – já disparou o sinal mais vermelho possível de alarme, numa Riad já vulnerável.
A mensagem de Putin ao Irã é mais sofisticada. Moscou trabalhou muito ativamente a favor de um acordo nuclear bem-sucedido com o Irã; o que invalida a teoria de que Moscou esteja começando a jogar a carta saudita, para extrair “concessões” de Teerã.

Não há “concessão” alguma. A Rússia – e eventualmente também o Irã – fornecerão energia, ambos os países, para os mercados europeus. Não imediatamente, porque a modernização da infraestrutura iraniana exigirá anos e cataratas de investimentos. Mas logo no ano que vem, um Irã não sancionado pode ser afinal admitido como membro da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

Implica dizer que o Irã não virará fervorosamente pró-ocidente de um dia para o outro – como sonham algumas facções não neoconservadoras no Departamento de Estado. O Irã está consolidando seu poder regional; se engajará em relações normais, especialmente com europeus; mas, sobretudo, acelerará a integração na Eurásia, o que implica relações ainda mais próximas com ambas, Rússia e China. Para não dizer que na Síria, o Irã e a Rússia estão exatamente na mesma página geopolítica, o que é posição totalmente oposta à da Casa de Saud.
O movimento de Putin pode também isolar o Qatar – o qual, indiretamente, mas muito eficazmente, subsidia a al-Qaeda na Síria, com vistas a promover o próprio objetivo geoeconômico máximo: um gasoduto para gás natural do campo de Pars Sul, pela Arábia Saudita e Jordânia, até a costa do Mediterrâneo.
Sauditas estudam comprar armas russas

O projeto rival é o oleogasoduto Irã-Iraque-Síria, agora perenemente ameaçado, porque o grande acordo do “Siriaque” está já sob a mira do ISIS/ ISIL/ Daesh. Aqui, o que se vê é que o falso Califato apoia geoeconomicamente os projetos do Qatar; e geopoliticamente, os dos sauditas.
O que é certo é que a peregrinação de sauditas de alto escalão até São Petersburgo não poderia ser mais diametralmente oposta à cena em que se viu o (já tombado em desgraça) Bandar Bush a ameaçar Putin, em agosto de 2013, de atiçar os jihadistas chechenos contra os Jogos Olímpicos de Sochi, se Moscou não parasse de apoiar Bashar al-Assad da Síria.
Quem diz o quê?
É tentador ver nesse drama fabuloso uma subtrama do movimento dos BRICS – principalmente Rússia e China – em avançada no Oriente Médio, com Washington na ponta perdedora. Mas a coisa é mais como Putin jogando Mundo Multipolar, não Monopólio, e cuidando para que o Império do Caos tenha de suar muito para manter “no discurso previsto” [orig. “on message”] os seus blocos fantoches/vassalos, como o Conselho de Cooperação do Golfo.
Ainda falta verificar, no longo prazo, se tudo não passa de jogada desesperada dos sauditas para arrancar “concessões” do seu protetor imperial. Mas, assumindo-se que seja contato às veras, Moscou garante para si a capacidade para atender aos interesses dos dois lados, do Irã e dos sauditas; e assegura que esse “pivô [russo] para o Oriente Médio”, bem feito, de comum acordo, venha talvez a ser tão espetacular como o “pivô para a Ásia”, da Rússia; e as Novas Rotas da Seda, da China.
Até agora ainda não há provas de que a Casa de Saud tenha realmente percebido, mesmo, de que lado sopra o vento – quer dizer, o vento que empurra a caravana eurasiana da Rota da Seda do século 21, não importa o que o pensamento desejante dos excepcionalistas por aí viva a repetir.


Eles são medrosos; eles são paranoicos; eles são vulneráveis; e eles carecem de novos “amigos”. Ninguém melhor que Putin – e a inteligência russa – para tocar a nova batida, em várias tonalidades. A Casa de Saud absolutamente não merece confiança. É só ver os telegramas sauditas que WikiLeaks acaba de divulgar.
Tudo isso pode revelar-se uma bonanza geopolítica/geoeconômica. Mas também pode ser caso de manter os amigos próximos; e ainda mais próximos, os inimigos.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books