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terça-feira, 30 de junho de 2015

Rússia: Olho por olho


29/6/2015, [*] Israel Shamir, Unz Review
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin (poker face)

Fogo e fumaça e enxofre, novas sanções ou os tanques dos EUA nas fronteiras, todas as pragas lançadas sobre a Rússia, uma por cima da outra.
O presidente Putin poderia adotar o lema de Guilherme de Orange: saevis tranquillus in undis, calmo, em plena tempestade. A tempestade está por toda a parte.
  • Já há tanques norte-americanos nos estados bálticos.
  • Navios norte-americanos a caminho do Mar Negro.
  • As sanções da União Europeia contra a Rússia foram prorrogadas por outros seis meses.
  • Há patrimônio russo confiscado na França e na Bélgica.
  • Na Síria, Damasco é ameaçada por rebeldes que os EUA armaram e continuam a armar.
  • A Grécia quer alistar-se ao lado da Rússia, mas provavelmente não ousará.
  • A Armênia, pequeno país escondido entre o Irã e a Turquia, acaba de integrar-se aos estados da União Eurasiana liderada pela Rússia, e já apareceram perturbações da ordem pública por lá, que obrigam a lembrar de Kiev 2013.
  • A Ucrânia está em escombros, enviando ondas e ondas de refugiados para a Rússia.
Qualquer nação mais fraca já estaria histérica. Putin e a Rússia permanecem inabaláveis.
E há aquela piada do Mississipi. Um criminoso negro e um criminoso branco estão sendo levados para a cadeia. O negro está calmo, o branco, em prantos. “Pare de se lamuriar”, diz o negro. “É fácil falar” – diz o branco. – “Vocês negros são acostumados a ser maltratados”. É feito a Rússia. Desde os dias dos sovietes, a Rússia está acostumada aos maus tratos, e desde antes, até, porque a rivalidade entre os herdeiros de Roma e os herdeiros de Constantinopla é, sim, muito antiga. Agora, acabou mais um curto período de calmaria. E estamos de volta à guerra fria. Surpresa, surpresa: a maioria dos russos preferiria a hostilidade do ocidente, como nos tempos de Brezhnev, ao cálido abraço ocidental nos dias de Gorbachev e Yeltsin. Verdade é que as coisas melhoraram muito, com a guerra fria e as sanções.
Boris Ieltsin e Mikhail Gorbachev (D)
  • Os russos ricos e ociosos, afastados dos prazeres de Miami e Côte d’Azur, prestam mais atenção aos compatriotas menos afortunados. Não que russos ricos e ociosos roubem hoje menos, mas eles gastam mais na Rússia mesmo, do que saqueiam.
  • Senhora muito conhecida, Valentina Matvienko, Presidente do Senado russo, foi proibida de viajar à Europa e aos EUA, e teve de passar uns feriados numa estação de veraneio na Rússia. Rapidamente percebeu o que faltava ali, apesar do charme considerável do lugar. E providenciou os necessários recursos para necessárias melhorias. Tomara que todos eles sejam impedidos de sair do país, era o clamor que se ouvia por todos os lados.
  • Os produtores russos de queijo jamais conseguiriam competir com queijos franceses e italianos que ano passado abundavam nos mercados liberais abertos e transfronteiras. Vieram as sanções e, em seis meses, as vendas já quase dobraram. Os queijos russos, mais baratos, encontram-se livremente à venda quando, antes, os supermercados preferiam estocar só os caros queijos estrangeiros.
  • O Exército precisa de tudo para defender a Pátria Mãe, e a indústria russa de alta tecnologia recebe mais e mais encomendas do Ministério da Defesa. Fábricas fechadas e trabalhadores demitidos ou semiaposentados ganham nova vida, compradores estrangeiros fazem fila à entrada, o rublo foi estabilizado. Os jovens acham o que fazer, melhor que assistir à televisão e reclamar do governo. Um sentimento de orgulho russo – depois das terríveis humilhações na Iugoslávia, na Ucrânia e noutros lugares – está de volta.
  • A infraestrutura está flamante. Moscou ganha novas centenas de quilômetros de ciclovias, os parques estão bonitos e bem cuidados. A capital do país brilha, limpíssima, apesar das dificuldades trazidas por chuvas pesadas.
  • Agora você começa a entender por que os russos são favoráveis às sanções. Estão com o governo e o presidente, cujos índices de aprovação, medidos por agências norte-americanas de avaliação de opinião pública, alcançam espetaculares 89%. Nunca houve coisa semelhante. Não que os russos queiram guerra, mas estão fartos de ver seu país empurrado de costas contra a parede, como veem as coisas. Os russos não querem qualquer império só deles, mas querem ser ouvidos e querem ter seus desejos considerados. E querem que seu governo faça os ex-parceiros, atuais adversários, pagarem por cada gesto ou ação anti-Rússia.
Dentre os passos retaliatórios mais populares tomados pelo governo russo, está a firme determinação de não mais colaborar para a retirada das tropas da OTAN que ainda ocupam o Afeganistão.
O presidente Putin, no primeiro mandato, em 2001, foi apoiador entusiasta dos EUA. E, depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, ele ofereceu ajuda russa para transferir equipamento para dentro e para fora daquele país. Hoje, quase 15 anos depois, essa via curta e fácil até Cabul foi fechada. Os norte-americanos que arrastem seu armamento pesado para cima e para baixo das montanhas, e pelos vales do Paquistão, onde são emboscados por guerrilheiros com longa experiência em combater invasores, de Alexandre o Grande, até Brezhnev.
Os russos também gostaram da decisão olho-por-olho de banir dúzias de políticos ocidentais, proibidos de entrar em solo russo, como resposta ao banimento de políticos russos, proibidos de entrar em solo europeu. A Rússia talvez não seja o mais buscado destino turístico, mas, acredite se quiser, a proibição de entrar dói. A simples ideia de resposta russa ativa, já colheu de surpresa os europeus: pensavam que os russos não tinham meios, ou não tinham coragem. O berreiro dos figurões ocidentais impedidos de entrar na Rússia é música aos ouvidos dos russos.
Sobre a crise da Ucrânia, há muitos que sonham com tanques russos varrendo Kiev e restaurando a paz civil na Ucrânia atormentada, mas esse sonho permanecerá não realizado, enquanto o presidente Putin acreditar que há outros meios, pacíficos, para resolver o problema. Mesmo assim, o estilo obsessivamente pró-paz, dos soviéticos, e o medo da guerra dão lugar a atitude mais vigorosa, dado que a guerra, quando nos é imposta, é necessidade inevitável da vida. O velho mantra entorpecedor de “qualquer coisa é melhor que guerra” caiu ante a realidade.
Desfile de civis com retratos de perentes mortos
na IIª Grande Guerra em 9/5/2015. Putin à frente.

As celebrações, dia 9 de maio de 2015, dos 70 anos do Dia da Vitória, ficarão para sempre na memória do povo, e deram aos cidadãos boa chance de ver os mais novos brinquedos dos militares russos. Esse ano, os russos destacaram a própria vitória, mais que qualquer vitimização, sofrimentos e perdas. A vitória foi vista como vitória dos russos sobre a Europa, não só sobre a Alemanha; porque praticamente todas as nações europeias, de França, Espanha e Itália, a Hungria e Bulgária, combateram ao lado de Hitler e contra a Rússia. É a mais absoluta verdade, mas foi verdade raramente mencionada, até esse ano. Fanadas as esperanças russas de que a Europa apoiasse as políticas russas de independência em benefício também da Europa, veio afinal a consciência de que os líderes europeus são servis hoje a Washington, como seus predecessores foram servis a Berlim.
Lentamente, ah, tão lentamente, o gigante russo recordou seus dias de juventude, as batalhas do Rio Volga e a tomada de Berlim. Essas memórias o fizeram rir de Frau Merkel e de Mr. Obama. Imediatamente depois do desfile militar do dia 9 de maio, milhões de civis marcharam pelas ruas carregando fotos dos pais e avôs, soldados na Grande Guerra. Foi movimento absolutamente inesperado: nem eu nem outros observadores e jornalistas, estrangeiros ou locais, previram evento de tais dimensões. A cidade planejara marcha de dez mil participantes; 50 vezes mais que isso, mais de meio milhão de pessoas marcharam pelas ruas só em Moscou. Em toda a Rússia foram 12 milhões.
Esse ato sem precedentes de solidariedade à Rússia disparou tremores sísmicos por toda a sociedade. Muitos dos caminhantes levavam imagens do comandante vitorioso daqueles dias, Joseph Stálin. Não é nome amado por todos, longe disso. Mas nome que, apenas mencionado, já faz tremer de fúria os gatos mais gordos e seus aliados, não pode ser de todo mau. Há quem queira devolver o nome de Stalingrado ao local da grande batalha, que foi alterado por Khrushchev. Mas Putin não gosta da ideia. Por enquanto.
A presença do Presidente Xi Jiping da China às celebrações de maio significou um realinhamento histórico com a China: é mudança de proporções oceânicas nas políticas russas. A conexão com a China só se fortalece, dia a dia. Essa é atitude nova: antes, russos e chineses sempre desconfiaram uns dos outros, mesmo depois de superada a hostilidade dos últimos dias do período soviético. Liberais moscovitas pró-ocidente descartaram os chineses e planejaram uma guerra contra a China, liderada pelos EUA. Hoje, esse pesadelo já é passado. Não estamos de volta exatamente aos anos 1950s, quando Mao e Stálin estabeleceram seus laços, mas estamos perto.
Xi Jinping e Putin nos 70 anos do Dia da Vitória

Há coisa de 800 anos, a Rússia esteve em situação semelhante, furiosamente pressionada pelo ocidente. O Papa abençoou uma Cruzada contra os russos, exigindo que aceitassem a hegemonia do ocidente, e desistissem de sua cristandade bizantina. Foi quando o príncipe Alexandre preferiu aceitar o patrocínio dos mongóis sucessores de Genghis Khan, a submeter-se ao diktat ocidental. A troca funcionou: a Rússia continuou a existir e o príncipe valente foi canonizado pela Igreja, como Santo Alexandre Nevsky. Os russos até hoje entendem que usar apoios orientais é menos perigoso para a alma russa do que se curvar a demandas ocidentais.
Será que Putin, nascido em São Petersburgo, que muito preza seus contatos europeus e fala quatro línguas fluentemente (mas não fala chinês), repetirá o feito de Santo Alexandre e realinhará a Rússia com o oriente? Seria perda gigante para a Europa, como Velho Continente convertido em colônia dos EUA.
São Petersburgo, cidade onde está enterrado o corpo de Santo Alexandre é, definitivamente, cidade europeia, virada para o oeste, diferente de Moscou, que olha para o leste. É especialmente deliciosa em junho, o mês das Noites Brancas, quando a cidade é banhada em luz fria e clara durante o dia, e em luz leitosa, quase opaca, à noite, com os lilases em plena floração, debruçados sobre o espelho d’água dos canais e rios que cortam a capital russa do norte, onde nunca se está longe de um curso d’água. A velha glória imperial ainda descansa às margens do rio Neva.
Ali foi o coração do Império Russo, até que Lênin levou o governo de volta para a antiga capital, Moscou. Por isso, durante os anos soviéticos, Petersburgo (então batizada Leningrado) não sofreu com os massivos programas de moradias populares que desfiguraram Moscou. O historiador britânico Arnold Toynbee (hoje caído em desgraça, por sua inclinação antissionista) disse que a mudança para Moscou “corporificou a reação da alma russa contra a civilização ocidental”. A presidência de Putin, ele talvez dissesse, corporificou uma guinada pró-Europa na alma russa. Algo como uma traição da Europa contra a Rússia (como alguns russos veem as coisas) teria levado Putin a afastar-se, agora, da Europa?
Putin discursa na abertura do SPIEF-2015

Vi o presidente Putin no recente Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo. No Fórum, Putin saiu-se muito bem: calmo, impenetrável poker face, respondeu com sinceridade todas as perguntas. Em momento algum pareceu irritado ou incomodado. Lidou com calma com a crise da propriedade russa confiscada. Muita gente preferia vê-lo esmurrar a mesa, confiscar bens de franceses e belgas. Nada disso. Prometeu usar os meios legais facultados pelas cortes europeias de justiça.
Putin chegou a São Petersburgo depois de viagem muito bem-sucedida a Baku, capital do Azerbaijão rico em petróleo, onde os Jogos Europeus ofereceram oportunidade para longos encontros com os presidentes da Turquia e do Azerbaijão. Nenhum líder ocidental deu as caras, mas os governantes do nosso lado do mundo apreciaram devidamente a companhia uns dos outros.
Em resumo, o presidente Putin é homem de fala suave. Se tem algum grande porrete, não o exibe por aí. Não se mostra desconsolado, ante a grosseria e as más intenções ocidentais. Parece que está trabalhando muito em busca de arranjos alternativos, mas quer adiar pelo máximo tempo possível quaisquer decisões mais dolorosas. Eventualmente, talvez seja forçado a uma aliança estratégica com a China, que minará ainda mais o que resta da independência europeia.
Mas as coisas não são ou brancas ou pretas. A Rússia está conectada ao ocidente por várias inesperadas vias. O mais implacável inimigo da Rússia é o ex-Ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt. A esposa dele está proibida de entrar em território russo. Ao mesmo tempo, Bildt indicou um conselheiro para uma empresa russa de petróleo cujo proprietário e o segundo mais rico dos oligarcas russos, Michael Friedman. Friedman, um dos sete oligarcas originais dos tempos de Yeltsin, começou como cambista revendedor de ingressos para shows. Gasta prodigamente em escolas hebraicas de educação religiosa. O seu Alfa Bank tentou interromper a produção de novo tanque russo Armata, levando à falência a fábrica que produzia as proteções blindadas do tanque. Friedman e Putin são amigos. É o que deveria bastar contra a propaganda de que o cruel ditador russo seria inimigo jurado dos oligarcas judeus.
Os jornais russos são livres para atacar Putin...

Verdade é que a Rússia continua liberal, e os liberais russos copiam os liberais norte-americanos, mutatis mutandis. Tratam Putin como seus contrapartes nos EUA tratavam Bush II, embora, a julgar pelo vocabulário, Putin mais pareça um Kim Jong Il. Os jornais são livres para atacar Putin, e usam furiosamente essa liberdade. Diretores de teatro insertam “cacos” anti-Putin nas falas de peças clássicas, sempre como se Putin vivesse de falar contra a Igreja. No cinema, o mundo de Putin é reino de misérias e abusos, feito filme de Jim Jarmusch.
Mas o povo comum gosta de Putin, como Bush II era popular nos estados Republicanos. E gostariam ainda mais, se ele arrancasse dois olhos de norte-americanos, por olho russo. Por enquanto, Putin prefere prosseguir na retaliação simbólica.
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[*] Israel Shamir escreve extensivamente sobre assuntos públicos, principalmente com relação ao conflito Israel/Palestina e política russa, incluindo três livros, Galilee Flowers, Cabbala of Power e Masters of Discourse, disponíveis em inglês, francês, alemão, espanhol, russo, árabe, norueguês, sueco, italiano e húngaro.
Ele se descreve como um nativo de Novosibirsk, na Sibéria; mudou-se para Israel em 1969, serviu como pára-quedista no Exército e lutou na guerra de 1973; depois virou-se para o jornalismo escrito. No final dos anos 1970s ele se juntou à BBC em Londres depois de viver algum tempo no Japão. Regressou a Israel em 1980. Passou a escrever para o jornal israelense Haaretz; foi o porta-voz no Knesset pelo Partido Socialista de Israel (Mapam). Também traduziu e anotou para o russo, a partir do original, as obras enigmáticas de SY Agnon, o único escritor em hebraico a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua perspectiva sobre o conflito Israel/Palestina foi resumida em The Pine and the Olive,, publicado em 1988 e reeditado em 2004. Nesse mesmo ano foi recebido na Igreja Ortodoxa de Jerusalém ea Terra Santa, sendo batizado pelo Arcebispo Adam Teodósio Attalla Hanna. Atualmente vive em Jaffa, mas passa muito tempo em Moscou e Estocolmo; é pai de três filhos.

Ucrânia: “Essa gente venderia baratinha a Novorrússia”


17/6/2015, [*] Rostislav Ishchenko, The Vineyard of the Saker
Traduzido do russo para inglês por Gideon e do inglês para português pela Vila Vudu
Novorrússia e região
(clique na imagem para aumentar)

Gente é coisa que sempre me impressiona. Por exemplo, muitos russos creem sinceramente que tipos diferentes de russos vivem na Crimeia, no Donbass, em Odessa e Carcóvia, porque a Crimeia agora é Rússia, porque há guerra no Donbass e porque Carcóvia e Odessa ainda estão ocupadas e sob repressão.
Pode-se dizer então que os cidadãos de Moscou são 1,5 vezes melhores que os de Volgogrado, 2 vezes melhores que os cidadãos de Kursk e três vezes melhores que cidadãos da Carcóvia e Rostov-on-the-Don, porque durante a 2ª Guerra Mundial os alemães capturaram Carcóvia e Rostov 3 vezes, Kursk uma, mas jamais ocuparam completamente Stalingrado e jamais puseram os pés em Moscou. Claro, Petropavlovsk-Kamchatsky é população de traidores, os quais, quando nosso país combatia, lá estavam, em segurança, por trás do front.

Operação Barbarossa – Alemanha ataca a URSS (clique na imagem para aumentar)

Não há exagero algum: aquela ideia geral é partilhada pelos russos médios, sobre os eventos em curso para desestabilizar o mundo e nosso país hoje. Mas esse tipo de confusão não é fenômeno exclusivamente russo.
Na Ucrânia, o presidente Putin apareceu consistentemente à frente dos demais “candidatos”, quando pesquisas perguntaram “Em quem você votaria, se políticos estrangeiros pudessem concorrer com políticos locais, em eleições na Ucrânia?”.
Como se não bastasse, se, na Rússia, o índice de aprovação do governo Putin subiu para 80-85% depois que a Crimeia voltou a ser russa, na Ucrânia Putin venceu no primeiro turno, com 75-80% dos votos, essas eleições hipotéticas, todos os anos, durante cinco anos.
Recentemente conversei com um sociólogo meu amigo, que ainda faz esse tipo de pesquisa sem publicar os resultados, e ele diz que em 2014 Putin venceu outra vez, logo no primeiro turno, aquelas hipotéticas eleições na Ucrânia, e mantém praticamente sem alteração o índice de aprovação de antes. O que nós ouvimos cá, “do lado de cá”, é que metade dos cidadãos ucranianos acreditam sinceramente que o país está em guerra contra a Rússia e que “Putin, o amaldiçoado” inventou aquela guerra.
Além do mais, a Ucrânia não está simplesmente em guerra. Aquela guerra é vista pela parte da população que tem orientação pró-Europa como uma luta da democracia contra o totalitarismo: de tudo que é bom, contra tudo que é mau. E Putin encarna pessoalmente o “totalitarismo russo” e tudo que não presta. Pois mesmo assim... os ucranianos “democratas” só querem saber de Putin, para ser presidente deles!
A fraternidade das redes sociais russas frequentemente zomba dos compatriotas euro-obcecados, argumentando, com razão, que eles lá atribuem a Putin traços verdadeiramente divinos. É Deus. Sem a intervenção de Putin-Deus, nada teria acontecido, nem na, nem em torno da, Ucrânia. E ninguém parece dar-se conta de que a consciência das massas russas passa por processo muito semelhante. Mas ali a divisão no pensamento das massas é outra.
Putin é visto como homem capaz de fazer absolutamente qualquer coisa. Por exemplo: pode pôr os EUA no lugar subalterno que eles bem merecem, com um erguer de sobrancelhas; pode pôr fim à crise ucraniana, pode expulsar da Síria o “Estado Islâmico” e criar um paraíso na Terra, antes do café da manhã. É só Putin querer! Mas, ninguém sabe por quê, Putin não parece querer fazer nada disso! Assim sendo, centenas de blogueiros começaram a lhe dar conselhos amigáveis do tipo “Mexa-se, Vladimir Vladimirovich! Estrangule o inimigo!”.

Surpresa...?

E há também outra dessas lendas paralelas, segundo a qual haveria uma “quinta coluna” de liberais dentro do governo, os oligarcas que Putin libertou e aos quais deu carta branca – os Rockefellers, os Morgans, os ubíquos Rothschilds, os Maçons e a conspiração sionista mundial e mais sortimento variado de forças do mal. E essas forças do mal, às quais, numa vida anterior, Putin jurou fidelidade, não permitem que o povo russo e seus verdadeiros defensores derrotem para sempre o Reich norte-americano em seu próprio terreno... E por isso aquelas forças estão fazendo de tudo para derrotar o invencível Donbass.
Segundo essa versão, Putin está(ria) em guerra com ele mesmo, e a única razão pela qual os EUA ainda não devoraram a Rússia é porque Putin, como Viiy, [1] personagem de Gogol, ainda não ergueu as pálpebras, mas já está quase começando a erguê-las.
O único sujeito mais durão que Putin é Surkov. Surkov é coisa séria. Em todas as versões, ele articula para trair o Donbass e, na sequência, destrói Putin, depois a Rússia. Para conseguir isso, forçou Putin a assinar os acordos Minsk-1 e Minsk-2. Também espremeu para fora do Donbass um aspirante a marechal de campo que há um ano só faz contar como tudo está vindo abaixo dada a ausência dele mesmo. Surkov indicou gente sua para todas as funções no Donbass; e essa gente já roubou tudo, receberam propinas inimagináveis e agora estão querendo que o Donbass renda-se. Nada conseguiram em um ano, mas todos os discursos públicos do “marechal de campo” terminam com a declaração de que mais cedo ou mais tarde o astuto Surkov achará seu próprio caminho.
Ocasionalmente, alguém se vê obrigado a reconhecer que a “cambada local” que está no poder no Donbass recusa-se a entregar o Donbass. Mas nem isso abala a onipotência de Surkov.
Essa versão, na verdade, dispensa a presença de Putin. Putin é redundante nesse esquema. É um custo explicar o que faz Putin, se só Surkov e suas intrigas fazem acontecer tudo que acontece. Mas quem perderia tempo com esses detalhes? A frase “Surkov enganou Putin” é o resumo da ópera. Ninguém sequer se dá o trabalho de considerar que há o FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia) (FSB) e o que faz; ou o Serviço de Inteligência Exterior, ou, mesmo, o Diretorato Central de Inteligência do Comando Geral (GRU), com o qual o Serviço Secreto da Ucrânia sonha todas as noites. O que fazem todos esses serviços?
Como seria possível que um assessor enganasse tão flagrantemente o presidente, o qual, em todas as ocasiões públicas sempre manifesta nível notavelmente alto de conhecimento e compreensão do que se passa no país, no mundo e nos arredores do sistema solar? Estará Putin proibido de receber informações de Ivanov, Medvedev, Fratkov e Bortnikov? Ou, quem sabe, Surkov enganou também todos esses?

Vladislav Surkov e Vladimir Putin

Posso construir aqui centenas dessas narrativas deliradas. Alguém poderia me explicar, por favor, por que gente capaz de desenhar naves espaciais, construir pontes, resolver equações complexas, curar doenças, ensinar ao mesmo tempo 30 crianças numa mesma sala, quando a maioria mal dá conta de uma ou duas crianças por vez, passaria, de repente, em plena luz do dia, a não conseguir usar o próprio pensamento racional e se poria a aceitar e repetir a mais alucinada versão de conspiração inventada... para “explicar” a situação política?
Por que os ucranianos não admitem logo que, se insistentemente “elegem” e “reelegem” Putin para a presidência da Ucrânia (mesmo que, ao fazê-lo, estejam interessados só nos talentos gerenciais do “candidato”), não pode haver dúvida alguma de que, sim, o que os ucranianos mais desejam é um sistema russo de governo? Como é possível não ver que isso significa que os ucranianos sentem e sabem que a vida é melhor na Rússia; e que, portanto, ninguém lá está lutando contra a Rússia, mas só, exclusivamente, contra os próprios preconceitos e complexos?
Os russos devem refletir realmente sobre o seguinte fato: a Crimeia, que recebeu cidadania russa em 2014 só difere do infeliz Donbass encharcado em sangue, porque a Marinha Russa está ancorada na Crimeia. Fosse o contrário, o Donbass estaria incorporado à Rússia e o povo da Crimeia estaria lutando no Perekop ou, talvez, teria sido reprimido como foram Odessa e Carcóvia.
Por que ambos, tanto os caçadores de agendas ocultas como os que só se interessam por explicações simples e erradas e que não conseguem compreender por que Putin simplesmente não manda seus soldados e canhões para resolver o caso do Donbass, não tratam de recordar que, em 2000, Putin foi eleito presidente de um país imenso em tamanho, mas mínimo em termos de influência política?
O país que Putin recebeu para governar em 2000 era comparável à Ucrânia no governo Kuchma. Naquele momento, os dois países patrocinaram o processo de paz na Transdnístria, e a Ucrânia, naquele momento, participava ativamente da resolução de conflitos na Abcássia, na Ossétia Sul e em Nagorno-Karabakh.
Depois de apenas 15 anos, a Ucrânia cai aos pedaços diante dos nossos olhos, consumida no fogo de uma guerra civil. E Putin, hoje, é presidente de uma superpotência. Sejamos bem claros nesse ponto: ninguém no mundo, hoje, discorda de que a Rússia é, sim, uma superpotência. Há cinco anos, a expressão “superpotência” era menos discutida que ridicularizada, e havia até diplomatas russos que rejeitavam a expressão.
Não será o caso, quem sabe, de Putin ser político mais hábil, mais inteligente, melhor democrata e mais bem informado que os “blogueiros” “livres” e “independentes” da “oposição” e que os grandes “marechais de campo”, que escrevem e pensam como se tudo soubessem, não só os próprios “blogueiros” “livres” mas também seus seguidores e leitores igualmente “livres”, cada um dos quais se apresenta, se não como um perfeito Aristóteles, sempre, no mínimo, como um neo-Alexandre o Grande?


É muito possível que uma equipe tenha trabalhado incansavelmente ao longo de 15 anos, com revezamentos, mas sempre preservando a dinâmica geral do grupo, e que Surkov não passe de mais um assessor, com espaço de manobra tão limitado como os demais. Nenhuma capacidade além das que se leem na descrição do cargo & funções. Se hoje se dedica a assuntos da Ucrânia absolutamente não significa que ninguém mais o faça.
Absolutamente não estou supondo que na tal equipe todos gostem muito uns dos outros. Estou, aliás, convencido, que alguns membros da equipe não são os melhores amigos, para dizê-lo com suavidade. Mas não esperamos que nos sirvam “harmonias familiares”: precisamos que nos sirvam sucessos políticos. Uma pessoa que esteja pensando que esse arranjo não é eficiente, que atire a primeira pedra em mim.
Lembro aos duvidadores que nos anos 1989-1991 toda a audiência do programa “Look” e leitores do jornal “Twinkle” compreendiam os erros do passado e como construir o luminoso futuro. Mas dessa “sabedoria” [no Brasil, foi a “sabedoria” da tucanaria uspeana udenista do ex-FHC e atual NADA [2]], surgiram os “dissolutos anos 1990s”, ao qual muitos não sobreviveram e os que sobreviveram não conseguem compreender como conseguiram fazer o que fizeram e como o país sobreviveu.
Eis por que não podemos confiar cegamente no primeiro que aparece e diz que sabe tudo antes dos demais. Yeltsin era desses, considerado infalível por muitos. É suficiente propor perguntas diretas e dar respostas plausíveis.
O mais importante de tudo: que ninguém pense que, se o primeiro acordo de Minsk (Minsk-1) foi considerado natimorto por metade dos comentaristas e que 99% deles descreveram o acordo Minsk-2 nos mesmos termos, daí se pode(ria) concluir que Putin não compreende coisas que “qualquer um” compreende perfeitamente.
Se Surkov realmente tem alguma responsabilidade pela Ucrânia, e a Ucrânia, por mais de um ano, caminha inequivocamente na direção de uma guerra, nesse caso o resultado não aconteceria contra a vontade dele. Se Surkov tivesse trabalhado pela paz a qualquer preço (mesmo ao preço de cair em desgraça), ou já teria havido alguma paz vergonhosa ou Surkov já teria sido demitido.
A vida não é roteiro de filme de suspense Hollywoodiano, com trama complexa, na qual o mal é onipresente e insidioso. A variedade de desejos pessoais, interesses, aspirações dos que têm influência pode tornar muito previsíveis as decisões políticas. A vitória depende de compreensão mais profunda da ampla gama de possibilidade de encontrar um curso de ações que o opositor não espere.




Isso é o que o governo russo faz brilhantemente. Nada tem de agradável, é claro, que o governo russo não partilhe seus planos com o grande público. Mas lembramos bem o que o velho Mueller, representado por Bronevoy, diz em 17 Moments of Spring: “Se duas pessoas sabem, até o porco sabe”.
A conclusão é que é melhor que os russos nos preocupemos um pouco, que alertar aqueles nossos “amigos e parceiros” do ocidente; melhor nos preocuparmos um pouco, que ceder nossos trunfos às práticas miseráveis daquela gente.

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Notas dos tradutores
[1] O conto “Viiy” pode ser lido e português em O Capote e outras histórias, São Paulo: Editora 34 (trad. do russo de Paulo Bezerra). Lá se lê: “Viiy é uma criação colossal da imaginação popular. É o nome que os ucranianos dão ao rei dos gnomos, cujas pálpebras chegam ao chão. Toda essa história é lenda popular. Por não querer submetê-la a qualquer modificação, narro-a quase com a mesma simplicidade com que a ouvi contar”.


[2] “A inflação acumulada do ano de 1990 foi de 1.476,56%. [EM 1993] O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, anuncia o programa de estabilização econômica. O chamado Plano FHC cria a URV (Unidade Real de Valor), indexador que será base para a nova moeda, o Real. Nesse ano, 1993, FHC ministro da Fazenda, a inflação acumulada foi de 2.780,6%” [com informações de Almanaque].
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[*] Rostislav Shchenko é Presidente do Centro de Análise Sistemática e Previsões Políticas da Ucrânia.