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terça-feira, 30 de junho de 2015

Rússia: Olho por olho


29/6/2015, [*] Israel Shamir, Unz Review
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin (poker face)

Fogo e fumaça e enxofre, novas sanções ou os tanques dos EUA nas fronteiras, todas as pragas lançadas sobre a Rússia, uma por cima da outra.
O presidente Putin poderia adotar o lema de Guilherme de Orange: saevis tranquillus in undis, calmo, em plena tempestade. A tempestade está por toda a parte.
  • Já há tanques norte-americanos nos estados bálticos.
  • Navios norte-americanos a caminho do Mar Negro.
  • As sanções da União Europeia contra a Rússia foram prorrogadas por outros seis meses.
  • Há patrimônio russo confiscado na França e na Bélgica.
  • Na Síria, Damasco é ameaçada por rebeldes que os EUA armaram e continuam a armar.
  • A Grécia quer alistar-se ao lado da Rússia, mas provavelmente não ousará.
  • A Armênia, pequeno país escondido entre o Irã e a Turquia, acaba de integrar-se aos estados da União Eurasiana liderada pela Rússia, e já apareceram perturbações da ordem pública por lá, que obrigam a lembrar de Kiev 2013.
  • A Ucrânia está em escombros, enviando ondas e ondas de refugiados para a Rússia.
Qualquer nação mais fraca já estaria histérica. Putin e a Rússia permanecem inabaláveis.
E há aquela piada do Mississipi. Um criminoso negro e um criminoso branco estão sendo levados para a cadeia. O negro está calmo, o branco, em prantos. “Pare de se lamuriar”, diz o negro. “É fácil falar” – diz o branco. – “Vocês negros são acostumados a ser maltratados”. É feito a Rússia. Desde os dias dos sovietes, a Rússia está acostumada aos maus tratos, e desde antes, até, porque a rivalidade entre os herdeiros de Roma e os herdeiros de Constantinopla é, sim, muito antiga. Agora, acabou mais um curto período de calmaria. E estamos de volta à guerra fria. Surpresa, surpresa: a maioria dos russos preferiria a hostilidade do ocidente, como nos tempos de Brezhnev, ao cálido abraço ocidental nos dias de Gorbachev e Yeltsin. Verdade é que as coisas melhoraram muito, com a guerra fria e as sanções.
Boris Ieltsin e Mikhail Gorbachev (D)
  • Os russos ricos e ociosos, afastados dos prazeres de Miami e Côte d’Azur, prestam mais atenção aos compatriotas menos afortunados. Não que russos ricos e ociosos roubem hoje menos, mas eles gastam mais na Rússia mesmo, do que saqueiam.
  • Senhora muito conhecida, Valentina Matvienko, Presidente do Senado russo, foi proibida de viajar à Europa e aos EUA, e teve de passar uns feriados numa estação de veraneio na Rússia. Rapidamente percebeu o que faltava ali, apesar do charme considerável do lugar. E providenciou os necessários recursos para necessárias melhorias. Tomara que todos eles sejam impedidos de sair do país, era o clamor que se ouvia por todos os lados.
  • Os produtores russos de queijo jamais conseguiriam competir com queijos franceses e italianos que ano passado abundavam nos mercados liberais abertos e transfronteiras. Vieram as sanções e, em seis meses, as vendas já quase dobraram. Os queijos russos, mais baratos, encontram-se livremente à venda quando, antes, os supermercados preferiam estocar só os caros queijos estrangeiros.
  • O Exército precisa de tudo para defender a Pátria Mãe, e a indústria russa de alta tecnologia recebe mais e mais encomendas do Ministério da Defesa. Fábricas fechadas e trabalhadores demitidos ou semiaposentados ganham nova vida, compradores estrangeiros fazem fila à entrada, o rublo foi estabilizado. Os jovens acham o que fazer, melhor que assistir à televisão e reclamar do governo. Um sentimento de orgulho russo – depois das terríveis humilhações na Iugoslávia, na Ucrânia e noutros lugares – está de volta.
  • A infraestrutura está flamante. Moscou ganha novas centenas de quilômetros de ciclovias, os parques estão bonitos e bem cuidados. A capital do país brilha, limpíssima, apesar das dificuldades trazidas por chuvas pesadas.
  • Agora você começa a entender por que os russos são favoráveis às sanções. Estão com o governo e o presidente, cujos índices de aprovação, medidos por agências norte-americanas de avaliação de opinião pública, alcançam espetaculares 89%. Nunca houve coisa semelhante. Não que os russos queiram guerra, mas estão fartos de ver seu país empurrado de costas contra a parede, como veem as coisas. Os russos não querem qualquer império só deles, mas querem ser ouvidos e querem ter seus desejos considerados. E querem que seu governo faça os ex-parceiros, atuais adversários, pagarem por cada gesto ou ação anti-Rússia.
Dentre os passos retaliatórios mais populares tomados pelo governo russo, está a firme determinação de não mais colaborar para a retirada das tropas da OTAN que ainda ocupam o Afeganistão.
O presidente Putin, no primeiro mandato, em 2001, foi apoiador entusiasta dos EUA. E, depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, ele ofereceu ajuda russa para transferir equipamento para dentro e para fora daquele país. Hoje, quase 15 anos depois, essa via curta e fácil até Cabul foi fechada. Os norte-americanos que arrastem seu armamento pesado para cima e para baixo das montanhas, e pelos vales do Paquistão, onde são emboscados por guerrilheiros com longa experiência em combater invasores, de Alexandre o Grande, até Brezhnev.
Os russos também gostaram da decisão olho-por-olho de banir dúzias de políticos ocidentais, proibidos de entrar em solo russo, como resposta ao banimento de políticos russos, proibidos de entrar em solo europeu. A Rússia talvez não seja o mais buscado destino turístico, mas, acredite se quiser, a proibição de entrar dói. A simples ideia de resposta russa ativa, já colheu de surpresa os europeus: pensavam que os russos não tinham meios, ou não tinham coragem. O berreiro dos figurões ocidentais impedidos de entrar na Rússia é música aos ouvidos dos russos.
Sobre a crise da Ucrânia, há muitos que sonham com tanques russos varrendo Kiev e restaurando a paz civil na Ucrânia atormentada, mas esse sonho permanecerá não realizado, enquanto o presidente Putin acreditar que há outros meios, pacíficos, para resolver o problema. Mesmo assim, o estilo obsessivamente pró-paz, dos soviéticos, e o medo da guerra dão lugar a atitude mais vigorosa, dado que a guerra, quando nos é imposta, é necessidade inevitável da vida. O velho mantra entorpecedor de “qualquer coisa é melhor que guerra” caiu ante a realidade.
Desfile de civis com retratos de perentes mortos
na IIª Grande Guerra em 9/5/2015. Putin à frente.

As celebrações, dia 9 de maio de 2015, dos 70 anos do Dia da Vitória, ficarão para sempre na memória do povo, e deram aos cidadãos boa chance de ver os mais novos brinquedos dos militares russos. Esse ano, os russos destacaram a própria vitória, mais que qualquer vitimização, sofrimentos e perdas. A vitória foi vista como vitória dos russos sobre a Europa, não só sobre a Alemanha; porque praticamente todas as nações europeias, de França, Espanha e Itália, a Hungria e Bulgária, combateram ao lado de Hitler e contra a Rússia. É a mais absoluta verdade, mas foi verdade raramente mencionada, até esse ano. Fanadas as esperanças russas de que a Europa apoiasse as políticas russas de independência em benefício também da Europa, veio afinal a consciência de que os líderes europeus são servis hoje a Washington, como seus predecessores foram servis a Berlim.
Lentamente, ah, tão lentamente, o gigante russo recordou seus dias de juventude, as batalhas do Rio Volga e a tomada de Berlim. Essas memórias o fizeram rir de Frau Merkel e de Mr. Obama. Imediatamente depois do desfile militar do dia 9 de maio, milhões de civis marcharam pelas ruas carregando fotos dos pais e avôs, soldados na Grande Guerra. Foi movimento absolutamente inesperado: nem eu nem outros observadores e jornalistas, estrangeiros ou locais, previram evento de tais dimensões. A cidade planejara marcha de dez mil participantes; 50 vezes mais que isso, mais de meio milhão de pessoas marcharam pelas ruas só em Moscou. Em toda a Rússia foram 12 milhões.
Esse ato sem precedentes de solidariedade à Rússia disparou tremores sísmicos por toda a sociedade. Muitos dos caminhantes levavam imagens do comandante vitorioso daqueles dias, Joseph Stálin. Não é nome amado por todos, longe disso. Mas nome que, apenas mencionado, já faz tremer de fúria os gatos mais gordos e seus aliados, não pode ser de todo mau. Há quem queira devolver o nome de Stalingrado ao local da grande batalha, que foi alterado por Khrushchev. Mas Putin não gosta da ideia. Por enquanto.
A presença do Presidente Xi Jiping da China às celebrações de maio significou um realinhamento histórico com a China: é mudança de proporções oceânicas nas políticas russas. A conexão com a China só se fortalece, dia a dia. Essa é atitude nova: antes, russos e chineses sempre desconfiaram uns dos outros, mesmo depois de superada a hostilidade dos últimos dias do período soviético. Liberais moscovitas pró-ocidente descartaram os chineses e planejaram uma guerra contra a China, liderada pelos EUA. Hoje, esse pesadelo já é passado. Não estamos de volta exatamente aos anos 1950s, quando Mao e Stálin estabeleceram seus laços, mas estamos perto.
Xi Jinping e Putin nos 70 anos do Dia da Vitória

Há coisa de 800 anos, a Rússia esteve em situação semelhante, furiosamente pressionada pelo ocidente. O Papa abençoou uma Cruzada contra os russos, exigindo que aceitassem a hegemonia do ocidente, e desistissem de sua cristandade bizantina. Foi quando o príncipe Alexandre preferiu aceitar o patrocínio dos mongóis sucessores de Genghis Khan, a submeter-se ao diktat ocidental. A troca funcionou: a Rússia continuou a existir e o príncipe valente foi canonizado pela Igreja, como Santo Alexandre Nevsky. Os russos até hoje entendem que usar apoios orientais é menos perigoso para a alma russa do que se curvar a demandas ocidentais.
Será que Putin, nascido em São Petersburgo, que muito preza seus contatos europeus e fala quatro línguas fluentemente (mas não fala chinês), repetirá o feito de Santo Alexandre e realinhará a Rússia com o oriente? Seria perda gigante para a Europa, como Velho Continente convertido em colônia dos EUA.
São Petersburgo, cidade onde está enterrado o corpo de Santo Alexandre é, definitivamente, cidade europeia, virada para o oeste, diferente de Moscou, que olha para o leste. É especialmente deliciosa em junho, o mês das Noites Brancas, quando a cidade é banhada em luz fria e clara durante o dia, e em luz leitosa, quase opaca, à noite, com os lilases em plena floração, debruçados sobre o espelho d’água dos canais e rios que cortam a capital russa do norte, onde nunca se está longe de um curso d’água. A velha glória imperial ainda descansa às margens do rio Neva.
Ali foi o coração do Império Russo, até que Lênin levou o governo de volta para a antiga capital, Moscou. Por isso, durante os anos soviéticos, Petersburgo (então batizada Leningrado) não sofreu com os massivos programas de moradias populares que desfiguraram Moscou. O historiador britânico Arnold Toynbee (hoje caído em desgraça, por sua inclinação antissionista) disse que a mudança para Moscou “corporificou a reação da alma russa contra a civilização ocidental”. A presidência de Putin, ele talvez dissesse, corporificou uma guinada pró-Europa na alma russa. Algo como uma traição da Europa contra a Rússia (como alguns russos veem as coisas) teria levado Putin a afastar-se, agora, da Europa?
Putin discursa na abertura do SPIEF-2015

Vi o presidente Putin no recente Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo. No Fórum, Putin saiu-se muito bem: calmo, impenetrável poker face, respondeu com sinceridade todas as perguntas. Em momento algum pareceu irritado ou incomodado. Lidou com calma com a crise da propriedade russa confiscada. Muita gente preferia vê-lo esmurrar a mesa, confiscar bens de franceses e belgas. Nada disso. Prometeu usar os meios legais facultados pelas cortes europeias de justiça.
Putin chegou a São Petersburgo depois de viagem muito bem-sucedida a Baku, capital do Azerbaijão rico em petróleo, onde os Jogos Europeus ofereceram oportunidade para longos encontros com os presidentes da Turquia e do Azerbaijão. Nenhum líder ocidental deu as caras, mas os governantes do nosso lado do mundo apreciaram devidamente a companhia uns dos outros.
Em resumo, o presidente Putin é homem de fala suave. Se tem algum grande porrete, não o exibe por aí. Não se mostra desconsolado, ante a grosseria e as más intenções ocidentais. Parece que está trabalhando muito em busca de arranjos alternativos, mas quer adiar pelo máximo tempo possível quaisquer decisões mais dolorosas. Eventualmente, talvez seja forçado a uma aliança estratégica com a China, que minará ainda mais o que resta da independência europeia.
Mas as coisas não são ou brancas ou pretas. A Rússia está conectada ao ocidente por várias inesperadas vias. O mais implacável inimigo da Rússia é o ex-Ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt. A esposa dele está proibida de entrar em território russo. Ao mesmo tempo, Bildt indicou um conselheiro para uma empresa russa de petróleo cujo proprietário e o segundo mais rico dos oligarcas russos, Michael Friedman. Friedman, um dos sete oligarcas originais dos tempos de Yeltsin, começou como cambista revendedor de ingressos para shows. Gasta prodigamente em escolas hebraicas de educação religiosa. O seu Alfa Bank tentou interromper a produção de novo tanque russo Armata, levando à falência a fábrica que produzia as proteções blindadas do tanque. Friedman e Putin são amigos. É o que deveria bastar contra a propaganda de que o cruel ditador russo seria inimigo jurado dos oligarcas judeus.
Os jornais russos são livres para atacar Putin...

Verdade é que a Rússia continua liberal, e os liberais russos copiam os liberais norte-americanos, mutatis mutandis. Tratam Putin como seus contrapartes nos EUA tratavam Bush II, embora, a julgar pelo vocabulário, Putin mais pareça um Kim Jong Il. Os jornais são livres para atacar Putin, e usam furiosamente essa liberdade. Diretores de teatro insertam “cacos” anti-Putin nas falas de peças clássicas, sempre como se Putin vivesse de falar contra a Igreja. No cinema, o mundo de Putin é reino de misérias e abusos, feito filme de Jim Jarmusch.
Mas o povo comum gosta de Putin, como Bush II era popular nos estados Republicanos. E gostariam ainda mais, se ele arrancasse dois olhos de norte-americanos, por olho russo. Por enquanto, Putin prefere prosseguir na retaliação simbólica.
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[*] Israel Shamir escreve extensivamente sobre assuntos públicos, principalmente com relação ao conflito Israel/Palestina e política russa, incluindo três livros, Galilee Flowers, Cabbala of Power e Masters of Discourse, disponíveis em inglês, francês, alemão, espanhol, russo, árabe, norueguês, sueco, italiano e húngaro.
Ele se descreve como um nativo de Novosibirsk, na Sibéria; mudou-se para Israel em 1969, serviu como pára-quedista no Exército e lutou na guerra de 1973; depois virou-se para o jornalismo escrito. No final dos anos 1970s ele se juntou à BBC em Londres depois de viver algum tempo no Japão. Regressou a Israel em 1980. Passou a escrever para o jornal israelense Haaretz; foi o porta-voz no Knesset pelo Partido Socialista de Israel (Mapam). Também traduziu e anotou para o russo, a partir do original, as obras enigmáticas de SY Agnon, o único escritor em hebraico a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua perspectiva sobre o conflito Israel/Palestina foi resumida em The Pine and the Olive,, publicado em 1988 e reeditado em 2004. Nesse mesmo ano foi recebido na Igreja Ortodoxa de Jerusalém ea Terra Santa, sendo batizado pelo Arcebispo Adam Teodósio Attalla Hanna. Atualmente vive em Jaffa, mas passa muito tempo em Moscou e Estocolmo; é pai de três filhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Nos EUA: síndrome anti-China


 
O Partido Comunista da República Popular da China (PC-RPC) não se deixará arrastar para guerra sem objetivo, contra os EUA.


23/6/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch [O título foi corrigido]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
A China cuida de chegar cada vez mais fundo no interior da Ilha-Mundo, em esforço para remodelar completamente os fundamentos geopolíticos do poder global (...).

Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção (...).

Se a China conseguir conectar suas indústrias em crescimento, aos vastos recursos naturais da Terra Central Eurasiana, nesse caso muito possivelmente (...), o império do mundo ali estará para ela, à vista.

7/6/2015, Alfred McCoy, redecastorphoto em: Geopolítica do Declínio Norte-Americano Global traduzido [orig. The Geopolitics of American Global Decline, The Unz Review].



O futuro da política será decidido na Ásia, não no Afeganistão ou Iraque, e os EUA estarão bem no centro da ação.

(11/10/2011, Foreign Policy, ex-secretária de Estado Hillary Clinton em America’s Pacific Century).

Nova Rota da Seda - Projeto Completo (clique na legenda para aumentar)

A ascensão metórica da China preocupa Washington, não porque a China seja ameaça aos seus vizinhos ou à segurança nacional dos EUA, mas porque a influência da China está em expansão na região.
A China está criando as instituições de que precisa para financiar o próprio desenvolvimento (BAII e Novo Banco dos BRICS), está construindo a infraestrutura de que precisa para conectar os continentes mediante moderníssimas ferrovias de alta velocidade (Nova Rota da Seda) e está atraindo aliados e parceiros de comércio que querem participar no plano chinês para crescimento e prosperidade.
Por isso Washington está preocupada: porque a China converteu-se numa usina de energia econômica que não corresponde ao modelo neoliberal de arrocho punitivo, privatização perniciosa e inflação ensandecida.
A China escapou da órbita do império e mapeou o próprio curso, motivo pelo qual Washington só faz provocar Pequim em torno de uma ações insignificantes de reivindicação de umas poucas terras no Mar do Sul da China. Washington crê que possa ter sucesso militar onde fracassou economicamente e politicamente. Sobre a provocação, vejam o que diz Bloomberg News:
EUA e Japão estão fazendo exercícios militares separados com os filipinos, próximos ao disputado Mar do Sul da China (...). Essas manobras anuais CARAT Philippines de exercícios conjuntos começaram na 2ª-feira (22/6/2015), ao largo da costa leste da ilha Palawan e se estenderão até dia 26/6/2015, segundo o porta-voz da Marinha dos EUA Arlo Abrahamson. Navios filipinos e japoneses estão em manobras também na mesma região, até 27/6/2015, disse o ministro da Força Marinha de Autodefesa do Japão, semana passada.
Os EUA têm apoiado as nações do sudeste asiático, inclusive as Filipinas, enquanto aumentam as tensões com a China, por demandas territoriais no Mar do Sul da China; e o Japão fornece navios de patrulha para a guarda costeira filipina (...). O exercício inclui uma fase no mar, com o submarino USS Fort Worth de combate em águas litorâneas, o USNS Safeguard de mergulho e socorro e um avião P-3 Orion de vigilância, além de, pelo menos, uma fragata filipina, segundo a Marinha dos EUA (...).
Os exercícios japoneses com os filipinos realizam-se em áreas próximas das vizinhas ilhas Spratly, onde a China criou mais de 2 mil acres de terrenos artificiais sobre águas que as Filipinas, Vietnã, Brunei, Taiwan e a Malásia reivindicam como suas. O Japão enviará uma aeronave P-3C anti-submarinos e de vigilância marítima, e 20 soldados. (“U.S., Japan Join Philippines in Navy Drills Near South China Sea”, 21/6/2015, Bloomberg).
Os exercícios “show de força” são concebidos para provocar e intimidar a China. Não têm nenhum outro objetivo.

Protestos nas Filipinas contra manobras militares
EUA-Japão no Mar da China em 24/6/2015

Os EUA quer forçar a China a render-se aos diktats da única potência indispensável, a abandonar todos os seus compromissos com novas instituições que estão sendo criadas, a escancarar seus mercados a empresas norte-americanas & Wall Street, e a deixar que os EUA façam como bem entenderem na redação das regras do comércio mundial. Eis o que Washington realmente quer e motivo pelo qual o moderado Chuck Hagel foi trocado pelo truculento Ashton Carter, como secretário da Defesa.
Os donos do poder nos EUA preferiram um leão-de-chácara, que esmurraria o nariz da China e lhe ensinaria quem manda. Carter é perfeito para a tarefa, burocrata quebra-pernas, que se acha “o mais esperto da rua”. Peter Lee oferece interessante percepção sobre Carter, em postado recente no seu blog China Matters. Diz ele:
(...) o assertivo Ash Carter não faz o policial durão, na parceria com o policial bonzinho Obama/Kerry: Ash é, só ele, todo o show, o que deliciará os fãs do controle militar sobre a política exterior por todos os cantos.
É bom perceber que outros já começam a ver que o Pentágono assumiu completamente a política externa dos EUA. Não há dúvidas de que Carter manda e desmanda na Ásia e Europa.
Lee parece convencido de que Carter permanecerá no posto mesmo depois de Obama já ter sido substituído, se Madame Clinton for eleita. O que não é surpresa, pois foi Clinton quem introduziu o termo “pivô” no léxico estratégico, em discurso que fez em 2010 intitulado “O Século do Pacífico Norte-Americano” [orig. “America’s Pacific Century”]. Naquela apresentação (“America’s Pacific Century”, Secretária de Estado Hillary Clinton, Foreign Policy Magazine, 2011), Clinton expôs os temas básicos que, adiante, seriam convertidos em “alta prioridade” dos EUA, a reorientação do poder dos EUA para o Pacífico Asiático. (...) Disse ela que:
(...) aproveitar o crescimento e o dinamismo da Ásia é central para os interesses econômicos e estratégicos dos EUA. Abrir mercados na Ásia garante aos EUA oportunidades sem precedentes para investimento, comércio e acesso a tecnologia de ponta (...). As empresas norte-americanas precisam pôr a mão na vasta e crescente base de consumidores asiáticos.
Não poderia haver melhor resumo. Tendo reduzido a antiga grande classe média norte-americana a gigantesco cadáver putrefato, incapaz de sustentar sequer uma demanda magra ou algum crescimento, as elites norte-americana estão carregando os barcos e partindo para a China, o Valhalla que brilha prateado sobre a colina. Clinton dá a impressão de supor que deva ser facílimo entrar naqueles potentes mercados asiáticos, desde que os EUA empurremos nossas ambições mais alucinadas com dose forte de diplomacia de canhão – que é onde o capataz Carter entra em cena.
Ash Carter em ação!


Mas Clinton não inventou, ela mesma, o tal pivô: a coisa foi-lhe ensinada em rápidas lições pelo cérebro do pivô, Kurt M. Campbell. Campbell é co-fundador e ex-presidente do Center for a New American Security. Segundo o website desse Center for a New American Security:
De 2009 a 2013 [Campbell] serviu como Secretário de Estado Assistente para Assuntos do Leste da Ásia e Pacífico, onde [sic] lhe são atribuídos os créditos por ter arquitetado o “pivô para a Ásia”. Naquela função, o Dr. Campbell elaborou ampla estratégia norte-americana que o levou aos mais distantes pontos da região do Pacífico Asiático, onde advogou incansavelmente a favor de interesses norte-americanos, particularmente na promoção do comércio e investimentos.
Numa recente entrevista em vídeo com o neoconservador Robert Kagan, Campbell regurgita a mesma retórica que já se ouviu no discurso da Clinton. Para ele,
A maior parte da história do século 21 [sic] estará na região do Pacífico Asiático (...). É do mais alto interesse nacional dos EUA mostrar que desempenharemos papel central naquele drama, assim como já o fizemos no século 20 (...). [Os dois partidos] reconhecem que nossa presença militar é nosso tíquete de entrada para o grande jogo no Pacífico Asiático. (Foreign Policy, vídeo a seguir [em inglês]).
Parece haver consenso crescente de que os militares norte-americanos seriam a perfeita ferramenta para persuadir a China a desistir. Mas... será que é?
A última coisa que o governo Obama deseja é guerra a tiros com a China, principalmente porque a China tem meios para retaliar, e não só militarmente. Explico-me:
Segundo o cientista político Pang Zhongying, a relação atual entre China e os EUA é relação como nunca antes houve na história das relações internacionais (...). O nível de interdependência entre China e EUA é sem precedentes. Antes dos anos 1970s, ninguém poderia sequer imaginar que esses dois países seriam interdependentes na escala em que hoje são. Naquele momento, só existia interdependência entre EUA e Europa, ou dentro do G7, no máximo. O atual nível de interdependência jamais antes existiu entre EUA e China.
Em outras palavras, os dois países precisam um do outro e estão interligados por uma rede complexa de laços financeiros e econômicos, inclusive o 1,3 trilhão de papéis da dívida norte-americana, guardado em cofres chineses. Essa interdependência implica que os EUA não podem abusar no caso da China, como abusaram no caso da Rússia, sem que os próprios EUA se ponham em grave risco.
Assim sendo, apesar de os EUA ainda manterem posição economicamente e militarmente dominante, não podem simplesmente jogar o bom-senso e a cautela pela janela, e impor sanções, ou escalar nas hostilidades e provocações, além de um certo ponto, sem que os EUA ponham em risco a própria segurança. A China sabe disso, razão pela qual continuará a fazer avançar agressivamente a própria agenda, ao mesmo tempo em que vai evitando do melhor modo possível a beligerância e a hostilidade dos EUA.
(Dica de Pepe Escobar) (clique na legenda para aumentar)

A República Popular da China (RPC) continua comprometida com o “desenvolvimento pacífico”. O antagonismo dos EUA é apenas mais um dos muitos obstáculos que a China terá de superar para dar realidade aos seus planos para integrar toda a massa de terra eurasiana num grande (o maior) e próspero bloco comercial. Basta conferir mais um trecho do artigo seminal de Alfred McCoy (Geopolítica do Declínio Global dos EUA, traduzido em redecastorphoto):
Simultaneamente, a liderança chinesa começou a colaborar com estados vizinhos, num programa massivo para integrar a rede nacional de ferrovias numa grade transcontinental. A partir de 2008, alemães e russos uniram-se aos chineses para lançar a “Ponte Terrestre Eurasiana” (também chamada “Nova Rota da Seda”). Duas vias leste-oeste, a antiga Trans-Siberiana no norte e uma nova rota que acompanha o traçado da antiga Rota da Seda, pelo Cazaquistão, devem conectar toda a Eurásia. (...)
Em abril, o presidente Xi Jinping assinou acordo com o Paquistão para gastar US$ 46 bilhões num Corredor Econômico China-Paquistão. Rodovias, conexão com ferrovias e oleogasodutos estender-se-ão por 3.218 km, de Kashgar em Xinjiang, no extremo oeste da China, até o porto de Gwadar, no Paquistão, inaugurado em 2007. A China investiu mais de US$ 200 bilhões na construção desse porto estratégico em Gwadar, no Mar da Arábia, a apenas 600 km do Golfo Pérsico. (...)
Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção.
Aí está, hein?! O fim de um império e o começo de outro.
O Partido Comunista da China de modo algum permitirá que sua grande oportunidade escape, deixando-se sugar para dentro de uma guerra dispendiosa e sem sentido, contra os EUA. Seria ridículo. Os chineses continuarão a conectar ferrovias com ferrovias, rodovias com rodovias, estradas cibernéticas com estradas cibernéticas, até que a Nova Rota da Seda se torne realidade.
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[*] Mike Whitney é escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, uma massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com