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sexta-feira, 15 de março de 2019

Rouhani e Sistani, Irã e Iraque Visita histórica

(enquanto o mundo se reorganiza sem EUA & Brasil) 

EUA e Brasil vergonha do mundo 



13/3/2019, 
Al-Monitor (do correspondente) [dica de Pepe Escobar, pelo Facebook]
Traduzido pelo pessoal da Vila Mandinga e publicado pelo blog O Empastelador

A visita de estado de Hassan Rouhani ao Iraque foi um sucesso para o presidente iraniano. Em termos de cooperação política e econômica, foram assinados vários memorandos de entendimento para facilitar o comércio, os investimentos, as conexões logísticas e as viagens entre os dois vizinhos. Além disso, foi divulgada importante declaração conjunta sobre o compromisso dos dois países para implementar 
os Acordos de Argel 1975 e anexos relacionados, que enfrentam questões sensíveis e gravemente deterioradas como a demarcação de fronteiras.

São passos da maior importância para Rouhani. Mas o coroamento dessas démarches foi a audiência do dia 13 de março – evento sem precedentes – com o Grande Aiatolá Ali al-Sistani em Najaf — primeira vez que presidente iraniano em exercício é recebido pelo clérigo de mais alta hierarquia no Iraque. Sistani “acolheu com satisfação todos os movimentos para fortalecer as relações entre o Iraque e seus vizinhos para promover interesses mútuos e a partir do respeito à soberania dos estados e da não intervenção em assuntos internos". Também "expressou a necessidade de políticas regionais e internacionais moderadas nessa região, para evitar mais tragédia e danos." Para compreender a significação desse encontro, é preciso considerar a influência de Sistani no Irã.

Ano passado, houve 
110 mil alunos seminaristas no Irã, concentrados principalmente na cidade sagrada de Qom. Segundo dados do gabinete de Sistani, 49 mil alunos em 300 seminários no Irã receberam bolsas de estudos do Grande Aiatolá em 2013: 35 mil em Qom, 10 mil em Mashhad e 4.000 em Isfahan (muitos seminaristas recebem bolsas-auxílios de várias autoridades clericais. Além desses, também há estudantes no Irã que não recebem nenhum tipo de bolsa. Assim sendo, pode-se assumir que proporção significativa de seminaristas iranianos são mantidos diretamente por Sistani, o qual, embora viva há muitos anos no Iraque é cidadão iraniano. Essas redes têm grande influência no Irã, onde o sistema prevalecente, dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica [ver também Guardianship of the Jurist (ing.)] — embora só imponha disciplina política, não religiosa – repousa sobre a legitimidade religiosa.

Muçulmanos xiitas tendem a seguir autoridades religiosas no que tenha a ver com como conduzir a própria vida pessoal pelo que determine a religião. Esses altos jurisconsultos são chamados maraji al-taqlid ("fontes a serem imitadas"). Para manter serviços de caridade e estudos, recolhem um 'imposto', khums — imposto de 20% sobre a riqueza — além de doações dos fiéis. Embora não haja estatísticas de quanto seguidores tem cada marja, um 
estudo pioneiro lançou alguma luz sobre o tema.

Uma equipe do MIT [Massachusetts Institute of Technology] analisou milhares de peregrinos iranianos e iraquianos que fizeram a peregrinação do 
Arbaeen em 2015. O evento anual atrai milhões de peregrinos. Os iranianos que fazem a viagem ao Iraque não podem ser tomados como representantes do iraniano médico. Mesmo assim é interessante considerar que a distribuição dos Reformistas, em relação aos conservadores entre os iranianos pesquisados, foi quase sempre igual. Além disso, 19% dos respondentes iranianos eram de Teerã; 12,2% de Isfahan e 11,28% de Qom; na população iraniana as porcentagens respectivas foram 16,2%; 6,5% e 1,53%.

Porcentagem ligeiramente superior a 60% dos pesquisados disseram que seguem Khamenei; 20% que seguem o Grande Aiatolá Nasser Makarem Shirazi; e 15% seguem Sistani; 80% dos iraquianos declararam-se seguidores de Sistani.

Mas quanto a pagar o khums — considerando-se que cerca de metade dos entrevistados não quiseram responder – só 22% dos iranianos disseram pagá-lo a Khamenei, e 9% a Makarem Shirazi. Por sua vez, 11% dos iranianos disseram que pagam seu khums a Sistani, além de 46% dos iraquianos pesquisados, que também pagam a taxa sobre a riqueza a Sistani.

O que nos dizem esses dados? Claro que há várias dimensões a considerar – incluindo a consideração de que peregrinos religiosos não são amostra da maioria da população, especialmente no Irã. Mesmo assim, é possível extrair algumas inferências razoáveis:
  • Sistani conta com número considerável de seguidores empenhados no Irã.
  • Quem queira ser bem-sucedido no governo iraquiano precisa das bênçãos de Sistani.
  • Quem queira operar com sucesso no Iraque também precisa das bênçãos de Sistani.
  • Considerando-se que Sistani rejeita a teocracia, suas bênçãos podem também servir como guia em ocasiões em que seja relevante ganhar a classe média iraniana e outros estratos da sociedade menos ligados ao pensamento dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica.

Na verdade, muitos dados empíricos garantem evidências para tudo que acima se resumiu. Seja o governo em Bagdá, ou mesmo as autoridades de EUA e Irã, todos já aprenderam e aceitaram que é necessário evitar a oposição da suprema autoridade religiosa em Najaf, Iraque.

A grande influência que Sistani tem na política iraquiana (também extra-constitucional) ficou evidente seja quando conclamou o país a participar no processo eleitoral depois da invasão comandada pelos EUA, suas opiniões sobre primeiros-ministros ou até na luta contra o 'Estado Islâmico'. Essa influência ampliou-se para a política iraniana, onde várias facções buscaram o apoio dele para promover as respectivas posições e respectivos capitais políticos – especialmente em tempos de crise.

Por exemplo, 
Sistani recusou-se a receber o conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) quando visitou o Iraque — inclusive em 2008, na primeira viagem de presidente iraniano ao Iraque. Mas o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, político moderado veterano, que por muito tempo apoiou Rouhani, sim, foi recebido por Sistani quando Rafsanjani visitou o Iraqueem março de 2009. No verão daquele ano, vários grupos em Teerã tentaram convencer o Grande Aiatolá a apoiá-los, num momento em que a República Islâmica enfrentou o momento mais grave de agitações internas desde a Revolução de 1979, logo depois da disputada reeleição de Ahmadinejad.

Em telegrama que vazou do Departamento de Estado dos EUA, alguém 
bem próximo de Sistani dizia que o alto clérigo dissera que recebera cartas de todos os principais grupos envolvidos no conflito de facções no Irã, que "queriam que eu dissesse o que mais interessava a cada um". Sistani manteve-se neutro, em parte movido pelo desejo de não se deixar respingar por desdobramentos.

A cautelosa preferência de Sistani por forças pró-reforma no Irã transparece também no relacionamento muito próximo que mantém com o ministro de Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, que, desde que assumiu o ministério em in 2013, já foi várias vezes recebido pela suprema autoridade religiosa do Iraque. Na primeira visita de Zarif como ministro de Relações Exteriores, Sistani, 
segundo uma fonte, disse a Zarif que “Li quase todo o seu livro, Mr. Ambassador,[1] e valorizo sua experiência e entendo que o senhor merece a posição que tem, de ministro de Relações Exteriores." E o Iraque foi o primeiro país que Zarif visitou, depois de assumir o ministério.

Em mais um sinal da influência de Najaf na política iraniana, não se deve ignorar que uma das figuras mais poderosas e bem relacionadas no Irã é o representante pessoal de Sistani, o Aiatolá Jawad Shahristani. Fosse nas negociações sobre quem comandaria o governo em Bagdá, ou na mobilização para a luta contra o 'Estado Islâmico', Shahristani sempre teve papel de destaque, com acesso à mais alta liderança no Irã, o que, provavelmente, está além do alcance da maioria dos membros do Gabinete iraniano.

A influência que facilita esses poderosos canais de atuação surge, em parte, das complexidades de laços de família (e políticos): Shahristani é genro de Sistani; Shahristani também é sogro de Ali Khomeini, neto do Aiatolá Ruhollah Khomeini — fundador da República Islâmica.

Sobre esse pano de fundo, a decisão da suprema autoridade religiosa de conceder uma audiência a Rouhani e Zarif informa aos líderes iraquianos que se devem engajar no governo Rouhani, mesmo que contem com o apoio de centros rivais de poder em Teerã, como o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC). Mais que isso, os feitos de Rouhani essa semana devem ter deixado bem claro para o governo Trump e seus aliados árabes, que o Irã nem abandonará nem será abandonado pelo Iraque, embora não se deva interpretar essa posição, de Bagdá ao lado de Teerã, como Bagdá ter posto Teerã acima de Washington.

Por fim, e talvez o mais importante de tudo, o encontro de Rouhani e Sistani foi uma injeção muito necessária de capital político, em momento de crise doméstica. De fato, Rouhani vem enfrentando fogo incessante de seus inimigos de linha-dura, revitalizados pela saída do governo Trump do Plano Amplo de Ação Conjunta [o chamado 'acordo nuclear do Irã].

Apesar de a viagem de Rouhani ao Iraque já estar planejada há mais tempo, a agenda foi, parece, impactada pela dinâmica de poder em Teerã – e pela a visível preferência de Sistani por moderação e reforma no Irã. Esse detalhe não escapou aos rivais do presidente do Irã, como já se viu na 
cobertura doméstica polarizada de sua audiência com Sistani. Assim, com Rouhani e Zarif manobrando para reafirmar sua autoridade sobre a política exterior da República Islâmica, há vários indicadores a serem observados em busca de sinais sobre o comando que tenham nas questões das agendas regionais. Dentre esses, a possibilidade de uma visita à Síria em futuro próximo, que também seria a primeira de Rouhani como presidente.


[1] Āqā-ye Safir: Goftogu bā Mohammad-Javād Zarif, Safir-e Pishin-e Irān dar Sāzemān-e Mellal-e Mottahed [Mr. Ambassador: A Dialogue with Mohammad Javād Zarif, the Former Ambassador of Iran to the United Nations], MohammadMehdi Rāji (ed.), Tehran: Nashr-e Ney, 2013, ISBN 978-964-185-298-8 (paperback), 368 pp. Aqui, resenha em inglês [NTs].

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Grécia: Como o Império revidará



6/7/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
The Saker

OK, agora que todos já celebramos o belo “NÃO!” grego aos plutocratas da União Europeia, temos de voltar à real e examinar as opções do Império. Ou, na verdade, a opção do Império, no singular.
O Império é extremamente previsível. O exemplo da Grécia é caso exemplar, de manual, de como o Império usa bancos para estrangular um país com dívidas; criar uma classe governante comprador; fazer da imprensa-empresa nacional instrumento para a propaganda imperial; e tentar deter completamente qualquer processo democrático, negociando exclusivamente com a classe governante. Por alguma espécie de quase-milagre, no caso grego essa última fase fracassou.
Posso estar errado, mas meu instinto diz que o Império jamais levou muito a sério o SYRIZA ou, se levou, só passou a fazê-lo muito tarde demais. Quanto a Tsipras e Varoufakis, foram provavelmente tão surpreendidos como todos nós, quando repentinamente se viram “promovidos”, da liderança de um partido com 5% dos votos, à liderança legítima de toda a nação grega. Também tenho a impressão de que nem Tsipras nem Varoufakis esperavam pelo tsunami que desencadearam com esse referendum. Mas, seja qual for o caso, o que está feito está feito. Para absoluto horror dos euroburocratas, o povo grego falou e, no momento, o Império só tem uma opção: ou cooptar ou derrubar o governo grego, o que sempre funciona melhor.
Pessoalmente, sinto que é tarde demais para cooptar o governo. Além do que, Tsipras e Varoufakis tornaram-se figuras tão odiadas entre os euroburocratas, que a solução a ser provavelmente escolhida será derrubá-los.
Aparentemente, esse processo já está em andamento. Varoufakis que antes dissera que “vocês vão ter de me aguentar”, já renunciou. Quanto a Tsipras, parece estar suplicando por negociações. Espero estar errado, mas não estou muito entusiasmado com o que vi até aqui.
Então, mais uma revolução colorida?
O exemplo de Gaddafi da Líbia mostra claramente que um líder nacional pode render-se completamente e submeter-se aos anglo-sionistas e *mesmo assim* ser derrubado. Meu palpite é que não importa quantas concessões Tsipras faça, nada será suficiente para mantê-lo no poder. Tsipras humilhou os euroburocratas, e eles não o perdoarão. Agora só resta ao Império fazer da Grécia, exemplo. É a única solução lógica.
Estará Soros preparando...
Revolução Colorida para a Grécia?

Aconteça o que acontecer, a Grécia enfrentará tempos extremamente difíceis, politicamente e economicamente. Vimos recentemente como um país – nesse caso, a Armênia – pode ser facilmente “castigada” por atrever-se a desobedecer aos diktats imperiais.
Acho que a Grécia é, hoje, país muito mais fraco e frágil que a Armênia.
 
  • Para começar, porque os alemães e norte-americanos mais ou menos mandam no país; pode-se dizer até que são donos de tudo.
  • Em segundo lugar, um denso sólido 1/3 do país estava querendo aceitar os termos do ultimato da plutocracia transnacional.
  • Em terceiro, a Grécia é cercada pela OTAN e por instabilidade por todos os lados.
  • Quarto toda a imprensa-empresa do país, toda ela, é de propriedade dos anglo-sionistas.
  • Quinto, a Grécia não tem recursos naturais ou algum bom mercado fora da União Europeia.
Diferente de outros, não tenho muito medo dos militares gregos. Sim, militares quase sempre se posicionam ao lado das elites comprador, mas a última coisa que a União Europeia quer é outra junta militar fascista no governo de país no continente. E a reação do povo grego a um golpe aberto parece ser altamente imprevisível.
Acho que o cenário mais provável é que o próximo “evento” seja uma Maidan grega, seguida de acusações de brutalidade policial e todo o cenário típico de “revolução colorida”. Ao final do dia, o que acontecer dependerá muito da posição que tomem Tsipras e o seu partido:
 
  • se buscarem apaziguar os euroburocratas, se fizerem infinitas concessões, se agirem como “europatriotas” leais, nesse caso serão esmagados:
mas
  • se apelarem diretamente ao povo grego, e explicarem com clareza que aquela é a luta de libertação nacional dos gregos, e que a liderança precisa do apoio e da proteção do povo, nesse caso é altamente provável que vençam, sobretudo se optarem por romper com a Eurozona e coligar-se à União Econômica Eurasiana e à China, como suas apoiadoras.
PARE O ARROCHO - APOIE A GRÉCIA - MUDE A EUROPA

Espero estar errado, mas não vejo Tsipras ousando essa virada tão dramática. Eis por que prevejo, na sequência, uma “revolução colorida”.
Aconteça o que acontecer, não vai demorar. Logo saberemos.
The Saker


sábado, 4 de julho de 2015

Honduras Sangra


O Golpe de Estado e suas consequências
29/6/2015, [*] Eric Draitser e Ramiro S. Funez
Traduzido por Emerx
Honduras, 6 anos do Golpe Militar

28 de junho último foi o sexto aniversário do golpe militar em Honduras – o dia em que um governo de esquerda democraticamente eleito foi derrubado por uma camarilha de generais, políticos de direita e latifundiários apoiados e treinados pelos Estados Unidos. Seria mais correto chamar aquilo de “Golpe Silencioso”, principalmente por ter acontecido sem repercussão da mídia, que o cobriu apenas para espalhar mais desinformação que verdades. Hoje, seis anos depois (e depois da perda de vidas inocentes e de bilhões de dólares), este vergonhoso momento da história recente permanente amplamente esquecido.
  • Talvez por conta da persistente euforia sentida pelos não conservadores e pelos chamados progressistas nos meses que se seguiram à eleição e à posse de Obama.
  • Talvez por conta da ainda recente crise econômica e da tormenta do resgate financeiro.
  • Talvez simplesmente por conta do velho desrespeito imperialista e neocolonial pela América Latina e pelos direitos dos povos suficientemente desgraçados para viver no “pátio traseiro dos Estados Unidos”.
Seja qual for a razão, o fato é que o governo Obama e todos os que apoiaram o golpe naquele momento e agora são cúmplices da presente e contínua tragédia social, econômica e política de Honduras.
Mas por que trazer isso à tona agora ao invés de se limitar a celebrar o aniversário do golpe?
Pra começo de conversa, porque um dois principais participantes e beneficiários do golpe foi a provável candidata do Partido Democrata às presidenciais: Hillary Clinton.
Também porque, longe de ser um episódio discreto do sórdido passado imperialista dos Estados Unidos, o golpe e seu legado continuam a ser as forças motoras da sociedade e da política em Honduras. Seus participantes e beneficiários estão no governo ou passaram ao setor privado e continuam a se enriquecer em detrimento dos pobres e dos trabalhadores do país.
O governo golpista de Honduras continua engajado numa brutal campanha de limpeza étnica contra comunidades minoritárias para seu próprio benefício e para o benefício de seus patrocinadores dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.
Talvez o mais importante nisso tudo seja o fato de que o golpe de 2009 revela até que ponto os Estados Unidos permanecem um poder imperial e neocolonial na América Latina e nos refresca a memória quanto ao que países como Venezuela, Bolívia e Equador estão enfrentando. Isso ilustra nos termos mais implacáveis o custo humano das políticas de Washington, não em livros sobre um período histórico, mas em imagens e vídeos de um país hoje sob sua bota. Isso nos recorda o quão real esta luta permanece.
O Golpe e o apoio dos Estados Unidos
Em 2006, a eleição de José Manuel Zelaya, conhecido como “Mel” por seus amigos e apoiadores, foi um divisor de águas na história de Honduras. Um país que, como seus vizinhos, vitimado por uma sucessão de governos de direita patrocinados pelos Estados Unidos, havia finalmente eleito um homem cujas políticas priorizavam o povo e não os interesses empresariais ou militares. Embora originário de uma rica família e apesar de ter sido eleito pelo Partido Liberal, Zelaya deu uma significativa guinada à esquerda depois de assumir suas funções.
Não apenas Zelaya cometeu o pecado mortal de forjar laços com o então presidente Hugo Chávez, sua Aliança Bolivariana para os Povos da América e PetroCaribe, mas ele também desafiou o status quo ao prometer representar os pobres e as classes trabalhadoras num país tradicionalmente dominado por militares e latifundiários.
José Manuel Zelaya, ex - Presidente de Honduras

Como jornalista, autor e ex-conselheiro da Missão Permanente das Nações Unidas, Roberto Quesada disse a Counterpunch, numa entrevista exclusiva:
Zelaya chegou ao poder montado num partido tradicional, mas ele mudou as políticas do Partido Liberal dele fazendo um partido do povo. Ele transformou o palácio presidencial numa casa do povo... Pela primeira vez, os sem voz foram ouvidos... Ele queria introduzir a Quarta Urna. Pela primeira vez, o povo hondurenho iria decidir sobre uma mudança de constituição, já que aquela de 1982 só favorecia a direita e não os interesses dos hondurenhos e das hondurenhas.
E assim teria acontecido em 2009, em Honduras, um país que, a exemplo da Venezuela, da Bolívia, do Equador, e da pioneira Nicarágua, se libertaria democraticamente da hegemonia corporativa e empresarial dos Estados Unidos. Mas isso era claramente algo que Washington, mesmo com um recém-eleito presidente da “Esperança” e da “Mudança” na Casa Branca, não podia tolerar. E é aí que entra a recém-nomeada Secretária de Estado Hillary Clinton.
Clinton admitiu desde então aberta e descaradamente seu papel central na legitimação, no apoio e no fornecimento de cobertura política para o ilegal e internacionalmente condenado golpe contra Zelaya. Como observou o colaborador de Counterpunch, Mark Weisbrot, Clinton declarou claramente em seu livro Hard Choices que:
Nos dias que se seguiram [ao golpe], falei com a Secretária [Patricia] Espinosa no MéxicoCombinamos um plano para restaurar a ordem em Honduras e garantir que eleições justas e livres pudessem ser organizadas rápida e legitimamente, o que tornaria a discutível a questão Zelaya.
No que consistia exatamente o plano? Além de fornecer cobertura diplomática ao não chamar aquilo claramente de golpe de Estado, Clinton apelou para seu velho sócio Lanny Davis e para Bennett Ratcliff, que sussurraram doçuras aos ouvidos direitistas de Washington e de Wall Street, produzindo inclusive um risível op-ed no Wall Street Journal, abrindo caminho para “eleições” em Honduras, com o objetivo de, como disse Clinton, “tornar a questão Zelaya discutível”.
O próprio Davis explicou isso numa entrevista dada poucas semanas após o golpe:
Meus clientes representam o CEAL, o Conselho empresarial da América Latina, [seção Honduras]... Eu não represento o governo e não dialogo com o presidente [interino] [Roberto] Micheletti. Meus principais contatos são [os bilionários] Camilo Atala e Jorge Canahuati. Orgulho-me em representar empresários que estão comprometidos com o primado da Lei.
De fato, Davis expôs candidamente seu papel de agente de uma poderosa oligarquia financeira e de latifundiários que, até a eleição de Zelaya, sempre havia controlado firmemente as rédeas do governo de Honduras.
Hillary Clinton e os Direitos Humanos
(campanha 2016)

Essencialmente, Clinton e seu capanga tiveram um papel chave para facilitar um golpe ilegal contra um governo democraticamente eleito em benefício de seus amigos bilionários de Honduras e da agenda geopolítica dos Estados Unidos na região.
Apesar da retórica populista de sua presente campanha presidencial, Clinton tem diligentemente trabalhado em favor da direita, das forças antidemocráticas da América Latina e em favor do Império de maneira geral. É óbvio que nada disso é surpreendente para quem vem acompanhando o que fazem Clinton e o imperialismo estadunidense nesse campo.
Da mesma forma, em nada surpreende o papel dos Estados unidos no treinamento e no apoio aos generais hondurenhos que conduziram o golpe daquela manhã de junho de 2009. Como observou naquele momento o Observatório da Escola das Américas -School of the Americas Watch (SOAW):
(...) o golpe de 28 de junho em Honduras foi conduzido pelos graduados da Escola das Américas Gen. Romeo Vásquez Velásquez, chefe do Estado- Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras, pelo Gen. Luis Prince Suazo, chefe da Força Aérea…
O Col. Herberth Inestroza, Procurador das Forças Armadas, veterano da Escola das Américas, justificou o golpe militar e declarou numa entrevista ao Miami Herald:
(...) seria muito difícil para nós, com o treinamento que tivemos, estar em relação com um governo esquerdista. Isso é impossível.
Herberth Inestroza também confirmou que a decisão de dar o golpe partiu das Forças Armadas. Segundo informação que o Observatório da Escola das Américas obteve do governo dos Estados Unidos graças à Lei de Liberdade de Informação, Vásquez estudou na Escola das Américas pelo menos em dois períodos: primeiramente em 1976 e depois em 1984… O chefe da Força Aérea, General Luis Javier Prince Suazo, estudou na Escola das Américas em 1996.
A Escola das Américas (desde então rebatizada Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, WHINSEC) é um instituto das Forças Armadas dos Estados Unidos localizado em Fort Benning, Georgia, de infame celebridade por graduar um verdadeiro quem é quem entre ditadores militares da América Central e da América do Sul, líderes de esquadrões da morte e outros fascistas de carteirinha que deixaram suas marcas sangrentas em seus respectivos países.
Ela já foi chamada de “Escola dos Ditadores” e de “fábrica de golpes de Estado” e tudo indica que Honduras foi a vítima mais recente de seus ilustres alunos.
De fato, não foi a primeira vez que Honduras sofreu esse tipo de ação pois tanto o General Juan Melgar Castro (ditador militar, 1975-1978) e Policarpo Paz Garcia (chefe de esquadrões da morte e depois ditador militar, 1978-1982) foram graduados na Escola das Américas. Nem carece dizer, o legado dos Estados Unidos em Honduras é vergonhosamente sangrento.
Honduras: Pé de apoio das Forças Armadas dos Estados Unidos na América Central
Que ninguém se deixe levar pela crença de que os Estados Unidos deixaram de se envolver militarmente em Honduras depois do golpe de 2009. Com efeito, há apenas duas semanas, as Forças Armadas dos Estados Unidos anunciaram o envio de um contingente de Marines para Honduras supostamente para “fornecer assistência durante a temporada de furacões”. No entanto, a verdade é que os Estados Unidos estão simplesmente dando continuidade e até expandindo sua parceria militar e fazendo uma ocupação, de facto, de Honduras e de outros países chave na América Central.
Num entrevista exclusiva para Counterpunch, a coordenadora da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) nos Estados Unidos e membro do Partido Liberdade e Refundação (LIBRE), Lucy Pagoada, explicou sucintamente:
O golpe nos forçou a despertar para a realidade de Honduras. Vivi em Honduras até os 15 anos de idade. Nunca tinha visto meu país tão militarizado quanto se tornou após 2009. Ele foi transformado numa grande base militar financiada pelos Estados Unidos. Eles têm até forças da Escola das Américas por lá. Houve vários níveis de violência e tortura contra a resistência e a oposição desde o golpe.
Segundo Pagoada e outros militantes tanto em Honduras quanto nos Estados Unidos, o país se tornou essencialmente um anexo das Forças Armadas dos Estados Unidos, atuando como um palco para toda uma variedade de operações militares de Washington na região. Assista vídeo a seguir (em inglês):
Esta conclusão foi confirmada por um informe do North American Congress on Latin America (NACLA), que afirma:
O permanente crescimento da assistência estadunidense às forças armadas [de Honduras], [é] um indicador do apoio tácito dos Estados Unidos. Mas o papel dos Estados Unidos na militarização das forças nacionais de política tem sido igualmente direto. Em 2011 e 2012, o Drug Enforcement Administration’s Foreign-deployed Advisory Support Team (FAST)…instalou-se em Honduras para treinar unidades locais de política antidrogas e para ajudar na planificação e execução de operações de interdição de drogas. Apoiados pelos Estados Unidos, helicópteros equipados com armas de alto calibre desenvolvem operações dificilmente distinguíveis de operações militares típicas. Aliás, a população local se refere aos agentes do DEA e da polícia hondurenha como “soldados”.
Segundo o New York Times, cinco “comandos no estilo esquadrão” FAST foram enviados em várias regiões da América Central para treinar unidades locais de luta contra as drogas... Em julho de 2013, o governo hondurenho criou uma nova unidade de polícia de “elite” chamada TIGRES (Tropas de Inteligência e Grupos de Resposta Especial de Segurança). A unidade, que segundo os grupos defensores de direitos humanos é de natureza militar, bem como novas forças de polícia militar, tem recebido treinamento em técnicas de combate tanto pelas unidades de Forças especiais da Colômbia quanto por unidades militares dos Estados Unidos.
Para aqueles que têm um agudo entendimento de como os Estados Unidos apoiaram os esquadrões da morte na América Central nos anos 70 e 80, a descrição acima é de causar arrepios.
Essencialmente, as forças militares dos Estados Unidos e seus agentes encobertos fornecem armas, treinamento e coordenam uma grande diversidade de unidades bem treinadas cuja função é aterrorizar comunidades cujo único crime, longe de qualquer envolvimento com drogas, consiste em ser de oposição ao governo ou em ter o azar de estar em terras cobiçadas pelos interesses empresariais apoiados pelos Clinton e seus comparsas.
Obviamente, a presença militar dos Estados Unidos tem uma dimensão regional, na medida em que Washington tenta usar seus recursos para reafirmar ou manter seu controle sobre toda a região, controle este que vinha perdendo desde a eleição de Hugo Chávez há 15 anos e da subsequente ascensão de Evo Morales na Bolívia, de Rafael Correa no Equador e de Daniel Ortega na Nicarágua. Mas, desde uma perspectiva estritamente hondurenha, essa cooperação militar existe para dar aos militares hondurenhos, tanto às forças de segurança quanto à Polícia, o necessário apoio para operações de limpeza étnica e assassinato de opositores políticos para que o país seja seguro para os “negócios”.
A limpeza étnica de Honduras em nome do lucro
As operações militares em Honduras têm como primeiro objetivo enriquecer os oligarcas que governam o país desde a derrubada de Zelaya, em 2009.
O objetivo é uma limpeza étnica de primeira ordem, inclusive pela força bruta e pela expulsão, de maneira a liberar as propriedades para sua privatização.
Um dos meios através dos quais isso tem lugar é criação das chamadas cidades-modelo, um programa que promove paraísos fiscais para terras roubadas das nações indígenas e privatizadas.
Uma das comunidades mais profundamente afetadas são os Garifuna, uma nação de afro-indígenas, em cujas excelentes terras que se estendem por centenas de milhas ao longo da costa caribenha; o governo corrupto do presidente Hernandez e seus patrocinadores financeiros de Tegucigalpa e dos Estados Unidos pretendem criar uma zona turística milionária.
Povo Garifuna é expulso de Honduras

Uma reportagem de TeleSur de 2014 informa que a comunidade Barra Vieja Garifuna está ameaçada de expulsão pelo governo hondurenho, que pretende privatizar suas terras em favor do
(...) futuro projeto turístico Bahia de Tela, que prevê a construção de cinco Indura Beach e Golf Resort. Numa aliança com o capital privado, o governo de Honduras detém 49 por cento das ações, enquanto 51% ficam em mãos do setor privado.  
A cidade de Nova Iorque acolhe hoje cerca de 250 000 Garifuna de Honduras, Nicarágua, Guatemala e Belize; eles veem com amargor como suas famílias e amigos que estão em Honduras continuam a enfrentar a perseguição conduzida por governos de direita ao serviço dos interesses financeiros dos Estados Unidos ou de qualquer outro lugar.
Obviamente, os Garifuna não estão sós em sua desgraça, já que muitas outras comunidades indígenas estão enfrentando uma indizível repressão nas mãos do governo militarizado de Honduras e da versão século XXI dos esquadrões da morte.
Como relatou Lucy Pagoada em sua entrevista a Counterpunch:
Margarita Murillo, uma indígena, dedicou sua vida à defesa da terra e de seus trabalhadores. Ela foi assassinada: dispararam-lhe sete balaços em sua casa, no departamento de Yoro... Ela era uma líder da resistência.
Com efeito, o brutal assassinato de Murillo em agosto de 2014 foi outro pavoroso lembrete da guerra empreendida pelo governo hondurenho contra camponeses e povos indígenas que reagem à sua expulsão pelas elites empresariais.
Murillo, que havia sido recentemente eleita presidente da Asociativa Campesinos de Producción Las Ventanas, era advogada de seus camaradas indígenas e dos pobres; ela havia mediado uma disputa de terras entre famílias locais e um grupo de ricos latifundiários da região. Foi uma execução típica praticada por três mascarados.
O assassinato de Murilo foi muito mais que um simples crime motivado por uma luta fundiária localizada; foi antes uma clara advertência lançada contra o movimento de resistência em Honduras para significar que qualquer esforço organizado para reagir ao governo e aos ricos latifundiários que o apoiam terá de enfrentar a força bruta.
Esse é o tipo de mensagem que o povo de Honduras, particularmente quem viveu nos anos 70 e 80, entende muito bem. De fato, tal violência e o desespero que ela produz levaram muitos hondurenhos, particularmente membros da etnia Garifuna, a buscar uma vida melhor nos Estados Unidos.
Maria Vives é uma assistente administrativa de ministros da Give Them to Eat ministries of the Bronx Spanish Evangelical Church. Ela disse a Counterpunch:
Temos sopa de galinha e cestas básicas. Ajudamos pessoas em situação de emergência. Três mulheres Garifuna apareceram no verão passado e expressaram suas necessidades; elas estavam frustradas. Elas haviam sido pegas cruzando a fronteira puseram tornozeleiras nelas. Elas foram algemadas. (...) As pessoas ficaram sabendo que ajudávamos os necessitados e rapidamente apareceram quase 60 mulheres com suas crianças (...) Elas tinham várias razões para deixar Honduras. Por conta da violência, por exemplo: estavam matando muitas pessoas na vizinhança para se apropriar de suas terras. Algumas pessoas estavam apavoradas com medo de que seus filhos se juntassem a gangues. A partir de certa idade, as crianças são recrutadas por essas gangues. Sei de uma mãe que tem um de seus três filhos recrutado por um esses grupos.
A mídia-empresa, quando faz alguma cobertura dessa realidade, sempre fala na crise da imigração infantil de 2014, mas na realidade se trata de uma crise de refugiados.
Crianças hondurenhas presas nos EUA

Aquelas crianças, acompanhadas ou não, estavam fugindo precisamente dessa violência que ora descrevo.
Garifuna, membros de outras etnias indígenas ou camponeses, aquelas crianças buscaram refúgio nos Estados Unidos para fugir dos horrores perpetrados contra eles em Honduras. Mas estes horrores, é claro, foram tacitamente aprovados e encobertos pelo governo dos Estados Unidos.
Ao celebrar o sexto aniversário do golpe de 2009 contra o governo legal de Honduras, devemos não apenas reconhecer neste evento outro vil exemplo do imperialismo estadunidense e de seu apoio a governos repressivos na América Latina. Devemos também reconhecer que aquele evento singular desencadeou uma série de eventos que levaram à crise social e política atual de Honduras.
Como nos disse Roberto Quesada:
Não podemos falar do golpe como se fosse algo do passado. O golpe continua e deixa o país num estado caótico.
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[*] Eric Draitser é analista independente de Geopolítica com sede em Nova Yorque. É colaborador regular de Russia Today, Counterpunch, Research on Globalization, Press TV, New Eastern Outlook e muitos outros meios de comunicação. Produz também podcasts; disponíveis no iTunes e Stop Imperialism, bem como The Reality Principle, disponível exclusivamente no sítio BoilingFrogsPost.com. É  fundador de StopImperialism.org e atua em CounterPunch Radio. Recebe e-mail em: ericdraitser@gmail.com.

[*] Ramiro S. Fúnez é jornalista político hondurenho-americano, ativista e analista de Política Externa. Obteve seu diploma de Mestrado em Política na Universidade de Nova Iorque. Formou-se na Universidade St. John, com grau de Bacharel em Jornalismo. Sua experiência no jornalismo político inclui trabalhos produzidos para o World Policy Institute, Americas Quarterly, North American Congress on Latin America (NACLA), NY1 News, New York Daily News, El Diario La Prensa, Queens Chronicle, Queens Courier, Queens Tribune e vários outros meios de comunicação. Ramiro nasceu e cresceu em Nova York e gosta de escrever sobre e análise de política internacional e assuntos externos.. E-mail: ramirofunez@gmail.com.