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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Síria e atualidades do Oriente Médio por Claude Fahd Hajjar

junho de 2015, Jornal O Progresso - JP
Entrevista da [*] Dra. Claude Fahd Hajjar (vídeo 54’ 32”)
[*] Claude Fahd Hajjar, psicóloga, psicanalista, pesquisadora de temas árabes e do Oriente Médio, editora do site Oriente Mídia, coordenadora do Grupo de Trabalho Árabe, autora de Imigração Árabe 100 anos de Reflexão, Ícone Ed, 1985 (esgotado); co-traduziu “O Percurso de Um Combatente”, de Lucien Biterland, sobre Hafez Assad, 2000. Autora de inúmeros artigos publicados sobre Síria. Participa de programas de debate na TV sobre Palestina (2009), 11 de setembro (2010) e Síria (2013).

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Rússia, Arábia Saudita: novidades


24/6/2015, [*] Boris DOLGOV, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohammed bin Salman e Vladimir Putin (18/6/2015)

Salman bin Abdulaziz Al Saud (80 anos), rei da Arábia Saudita, aceitou o convite do presidente Vladimir Putin para visitar a Rússia, disse o vice-príncipe-coroado e Ministro da Defesa saudita Mohammad bin Salman, na 5ª-feira, 18/6/2015, em Moscou. O evento pode vir a ser o ponto de virada nesse relacionamento. O príncipe disse que seu país considera a Rússia como parceira importante e relembrou que a União Soviética foi o primeiro país a reconhecer o reino, em 1926.
Karim Khakimov, diplomata soviético conhecido, orientalista e especialista em Oriente Médio, foi o primeiro embaixador na Arábia Saudita, e muito contribuiu para o desenvolvimento de relações, alcançando útil compreensão mútua, com os dois países aprendendo sobre história e tradições um do outro.
Hoje a Arábia Saudita é importante potência regional. O reino ocupa a posição de liderança espiritual do mundo muçulmano e abriga em seu território os dois principais locais sagrados para esses fiéis, Meca e Medina, cidades chaves na vida do Profeta Maomé. O Hajj é uma peregrinação islâmica anual e dever dos crentes (todos os muçulmanos adultos fisicamente e financeiramente aptos, que possam simultaneamente manter a família durante a sua ausência), que têm de cumpri-lo pelo menos uma vez na vida. A peregrinação é um dos pilares do Islã. A reunião, durante o Hajj é considerada a maior congregação anual de pessoas em todo o mundo.
O reino é o maior dos sete estados árabes à volta do Golfo Persa, a saber Arábia Saudita, Kuwait, Bahrain, Iraque, Omã, Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Todas essas nações (com exceção do Iraque) são parte do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) dos Estados Árabes do Golfo. Esses países coordenam suas ações em vários campos. O Escudo de Força da Península (ou “Escudo da Península”) é o braço militar do CCG, que visa a deter e a revidar agressão militar contra qualquer estado membro do CCG.
O reino saudita, rico em petróleo é membro protagonista da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os lucros acumulados das exportações de petróleo permitem à Arábia Saudita melhorar a infraestrutura econômica, social e educacional do país, e investir em todo o mundo, inclusive nos países desenvolvidos do ocidente.
Salman foi coroado novo rei da Arábia Saudita dia 23/1/2015, depois da morte de seu meio-irmão, rei Abdullah. Em abril de 2015, o rei Salman indicou um sobrinho como seu herdeiro presuntivo, e fez do próprio filho o segundo na linha de sucessão.
Ao fazer do Ministro do Interior, Mohammad bin Nayef, 55, príncipe coroado, e do Ministro da Defesa, Mohammad bin Salman, 30, vice-príncipe-coroado, o rei Salman decidiu, de fato, a linha de sucessão no maior exportador de petróleo do mundo por várias décadas. Esse arranjo significa que a coroa passará para uma nova geração pela primeira vez, desde 1953, quando o trono passou do fundador da dinastia, rei Abdulaziz Ibn Saud, para o primeiro de seis dos seus filhos que lá se sucederam até hoje. Praticamente todos os poderes do rei estão agora concentrados nessas novas quatro mãos.  
Mohammed bin Nayef (D) e Mohammed bin Salman

A reforma já vem em boa hora. O velho sistema originou uma coorte de problemas e inquietação social. Como outros estados árabes, o reino também teve problemas (talvez não tão agudos como em outros países árabes, mas ainda assim graves) que poderiam levar a levantes como os da Primavera Árabe que sacudiram o Oriente Médio em 2011-2012. Do modo como as coisas foram feitas, o rei deu aos herdeiros jovens uma chance, ao mesmo tempo em que preserva a sucessão. Só o tempo dirá se o sistema funciona. Há competição entre grupos dentro da família real, embora nunca tenha havido golpe na sucessão.
O rei Salman também fez mudanças na estrutura do governo. Muqrin bin Abdulaziz (70 anos), 35º e mais jovem filho vivo do rei Abdulaziz, fundador da dinastia, foi substituído como príncipe coroado. O novo príncipe coroado, Mohammed bin Nayef, é o primeiro de sua geração a ser introduzido nos altos escalões do governo, e continuará como Ministro do Interior, mas também terá o papel, como príncipe coroado, de Vice-Primeiro-Ministro. A idade desse príncipe sugere que terá papel importante nas próximas várias décadas na Arábia Saudita, e faz dele o mais provável próximo rei.
O príncipe Mohammed bin Salman, responsável pelos ataques aéreos sauditas no Iêmen, permanecerá como Ministro da Defesa, acumulando a função com o título de vice-príncipe-coroado. Também comanda um grande conselho que supervisiona todas as questões econômicas e de desenvolvimento.
Em outra importante mudança, Salman substituiu o veterano Ministro de Relações Exteriores, príncipe Saud al-Faisal, no cargo desde outubro de 1975, pelo embaixador do reino em Washington, embaixador Adel al-Jubeir, o primeiro não membro da família real a ocupar a chefia daquele ministério. A substituição do veterano Ministro de Relações Exteriores pelo embaixador saudita nos EUA e insider há muito tempo em Washington, plebeu e mais jovem, acentua a sensação de mudança generacional.
A mulher que há mais tempo tinha lugar no governo saudita, Nora al-Fayez, foi demitida do cargo de Vice-Ministra para a educação feminina, como diz o decreto. Jamais aceita pelos ultraconservadores, ela trabalhava aplicadamente para conseguir incluir educação física no currículo para moças nas escolas públicas sauditas.
A reforma da sucessão e as mudanças no governo não devem ser interpretadas como alguma drástica mudança de política. Dar chance às novas gerações é tema de candentes discussões no reino já há muito tempo. As novas nomeações, especialmente a nomeação do novo Ministro de Relações Exteriores, prova que as linhas políticas gerais permanecem inalteradas.
Mas a decisão da nova liderança saudita de desenvolver relações com a Rússia pode incluir mais coisas que relações bilaterais que se modificam no Oriente Médio e Próximo, e podem mesmo influenciar tendências globais. As relações desenvolveram-se lentamente desde a crise síria, em relação à qual Rússia e Reino Saudita têm posições divergentes. As relações foram negativamente afetadas pela intervenção do Reino no Bahrain em 2011 para sufocar levante da população xiita, e pelos ataques aéreos contra os houthis no Iêmen.
Protestos no Bahrain (março/2011)

Sem considerar diferenças que haja nos conflitos regionais, a Arábia Saudita fez tentativas para melhorar as relações. Recentemente, delegações sauditas visitaram a Rússia. Os visitantes da Arábia Saudita disseram à agência russa de notícias RIA Novosti que, independente das diferentes posições sobre a Síria, os dois lados podem cuidar de promover cooperação benéfica para ambos, seguindo o modelo das relações entre Rússia e Turquia.
Há motivos importantes por trás do desejo dos sauditas de promover o desenvolvimento de cooperação bilateral. Primeiro, que a Rússia retomou seu lugar entre as potências mundiais. Tem significativa influência global – fator a considerar quando se trata de encaminhar soluções de problemas regionais. Segundo, a Arábia Saudita seguiu a política imposta pelos EUA, de apoio aos radicais armados, como os que lutam contra o regime de Bashar al-Assad na Síria. E aquela política resultou no surgimento de um “Estado Islâmico” extremista, que hoje ameaça também a segurança da Arábia Saudita.
O mesmo aconteceu no Iêmen. A coalizão de estados árabes liderada pela Arábia Saudita lançou campanha aérea contra os houthis, sob o pretexto de defender o governo do já deposto presidente do Iêmen, Abd-Rabbu Mansour Hadi. Os houthis têm o apoio da maioria da população, além do apoio do Irã. Condenados internacionalmente, os bombardeios aéreos levaram a grande número de mortes de civis e não trouxeram qualquer dos resultados previstos pelos EUA. A Arábia Saudita fracassou e não conseguiu conter o levante dos houthis. A al-Qaeda na Península Árabe iemenita (AQAP) também ameaça a Arábia Saudita.
Todas as políticas lideradas pelos EUA fracassaram e absolutamente não produziram qualquer resultado positivo contra as ameaças à segurança do reino. O bom-senso levou a Arábia Saudita a oferecer cinco dias de cessar-fogo aos houthis em maio, de modo que fosse possível atender aos problemas humanitários, enquanto os houthis e representantes do presidente deposto iniciaram conversações em Genebra com a intermediação da ONU. Essas conversas não trouxeram qualquer resultado.
O que se vê é que a Arábia Saudita parece estar revisando suas políticas pró-EUA, mudando todo o curso político multidimensional daquelas políticas; e passando a incluir a cooperação com a Rússia.
Especialmente importante, nisso, é que a Rússia pode servir como intermediária no processo de melhorar as relações entre Arábia Saudita e Irã. O Irã já inúmeras vezes declarou-se pronto a reunir-se com a Arábia Saudita em “território neutro”.
A decisão do Reino, de melhorar as relações, foi confirmada durante a recente visita à Rússia, em junho de 2015, de uma delegação saudita chefiada pelo Ministro de Defesa do Reino Saudita, príncipe Mohammad bin Salman. O ministro foi recebido pelo Presidente Vladimir Putin à margem do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo de 2015. A delegação saudita incluiu o Vice-Comandante da Marinha Saudita, almirante Ibrahim Nasir. Em visita ao “Supermercado Militar” Exército-2015, o almirante disse que seu país se interessa por comprar navios russos, especialmente a nova corveta classe-Steregushchy.
Sim, estamos interessados. Por isso estamos aqui, e não falamos exclusivamente da Marinha. Estamos interessados em fragatas, corvetas e navios de guarda [orig. guard ships]. É muito cedo para comparar preços, avaliar a logística. Só depois tomaremos nossas decisões, disse o almirante.
Cooperação econômica bilateral, a situação no Oriente Médio, inclusive o conflito na Síria e a ameaça que é o “Estado Islâmico”, todos esses foram itens discutidos na agenda da conversa entre o presidente Putin e o príncipe Mohammad bin Salman. A visita desse alto funcionário saudita pode ser vista, sim, como demarche contra os EUA – o país que ignorou o Fórum de São Petersburgo e insiste que as sanções contra a Rússia devem permanecer.
Rússia e Arábia Saudita assinaram protocolo de cooperação nuclear em 18/6/2014

A Rússia também está interessada em desenvolver relações com a Arábia Saudita.
●– Primeiro, a Arábia Saudita é um dos estados árabes líderes, como Egito e Argélia. Essa aproximação aumentará a presença russa no mundo árabe e muçulmano, o que ampliará sua influência internacional.
●– Segundo, a Arábia Saudita tem vastos recursos financeiros. O relacionamento pode trazer significativos investimentos para a economia russa.
●– Terceiro, unir-se é o passo mais lógico, dos dois lados, contra o “Estado Islâmico”.
A Arábia Saudita pode vir a revisar a própria posição em algumas das questões do Oriente Médio. Com a Rússia como intermediária, pode melhorar suas relações com Síria e Irã – países também ameaçados pelo “Estado Islâmico”. Como recentes eventos já mostraram, os grupos apoiados pela Arábia Saudita, como, por exemplo, a Frente al-Nusra, que luta contra o governo do presidente Bashar al-Assad na Síria, é aliada do “Estado Islâmico”. Nenhum desses grupos pode ser considerado, em sã consciência, amigo da Arábia Saudita.
Por fim, ao reforçar a cooperação econômica e militar com estados árabes, a Rússia pode fortalecer sua posição, para resistir melhor à pressão e às sanções impostas pelo “ocidente”. Não se vê à vista qualquer indício de melhora nas relações entre Rússia e o “ocidente”.
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[*] Boris Dolgov é membro da Academia Russa de Ciências e do Instituto de Estudos Orientais em Moscou. Investigador de geopolítica focado em temas do Oriente Médio. Professor Dolgov confirma que, longe de um cenário artificial da “Primavera Árabe” a Síria está, inegavelmente, envolvida com tentativa de ocupação estrangeira. É o principal analista russo da crise na Síria e compreende que a ocupação do país por forças estrangeiras se seguirá uma guerra contra o Irã e futura ocupação da Ásia Central. É também crítico feroz da catástrofe provocada pelas operações “humanitárias” dos EUA-OTAN na Iugoslávia e na Líbia.

domingo, 21 de junho de 2015

Pepe Escobar: Partição do “Siriaque”


19/6/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Atual partição do Siriaque
(clique na imagem para aumentar)

Faltando menos de duas semanas para um possível acordo nuclear entre o Irã e o P5+1, a arriscada diplomacia que opera nesse “deserto de espelhos” [orig. wilderness of mirrors] que é a inteligência sobre o Oriente Médio chega a picos sem precedentes de atividade febril. E nada é o que parece ser.
É claro que muito que hoje depende desse acordo nuclear com o Irã tem a ver com o Oleogasodutostão. O Irã, assumindo-se que as sanções entrem rapidamente em colapso, poderá afinal vender gás natural à União Europeia – fazendo, teoricamente, concorrência à Gazprom; mas demorará muito, até que a arruinada infraestrutura iraniana seja recuperada.
E há também o futuro do proposto gasoduto chave Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões – rival de um projeto do Qatar. É fácil identificar os que não querem saber de Iraque estável, capaz de implantar gasodutos por todo o próprio território. O Qatar jacta-se de ter mais gás (que possa ser entregue) – e melhor infraestrutura que o Irã. A viabilidade de construir dutos desde o Qatar, via Arábia Saudita, Jordânia e Líbano já foi estudada. Se Teerã quer resultados rápidos, muito melhor negócio será exportar diretamente para a União Europeia (UE), via a Turquia, do que atravessando Iraque e Síria.
Quanto ao hegemon, as coisas eram muito mais fáceis antes da [operação] Choque e Pavor em 2003. Naquele momento, Washington era dona do mundo; era marchar e ocupar (e destruir) o que quisesse. Disso, afinal, tratava a Dominação de Pleno Espectro. Durou apenas uma fração (histórica) de segundo.
Agora, o autodescrito governo de “Não faça merda coisa estúpida” [orig. Don’t Do Stupid Stuff] de Obama praticamente já quase nem se qualifica, sequer, como espelho quebrado, naquele deserto de espelhos.
Aremos pois o deserto do “Siriaque”
Funcionários da OTAN em Bruxelas parecem crer nos sunitas linha-duríssima treinados pelo Pentágono na província de Anbar para usarem armamento pesado e com esse armamento derrubarem o governo do ex-Primeiro Ministro al-Maliki em Bagdá – que vinha causando problemas a Washington. Mas fato é que o treinamento facilitou a posterior “fusão” desses sunitas com o ISIS/ISIL/Daesh.
Oleogasoduto em operação no deserto

O Pentágono – ou, pode-se dizer, de fato, a OTAN – poderia facilmente esmagar o falso Califato. Não esmagam, porque não querem. Muito melhor é deixar prosperar o caos, a perfeita tática de Dividir para Governar que tão bem serve aos suspeitos de sempre. Já arruinaram a Síria. Já arruinaram o Iraque. Os comboios de suprimentos para o ISIS/ISIL/Daesh partem da fronteira de OTAN e Turquia-Síria, protegidos pela Força Aérea turca; o que equivale a dizer que a OTAN – e a CIA – estão “apoiando” de fato o Califato fake. O Egito está falido. O Irã, quase quebrado. As coisas nunca estiveram tão bem para os suspeitos de sempre.
Agora, vamos até uma alta fonte na inteligência saudita para complicar ainda mais o imbróglio. Segundo aquela fonte, Palmyra foi “dada” ao ISIS/ISIL/Daesh na Síria, assim como cidades chaves na província de Anbar no Iraque:
O Daesh já não é segredo, e os EUA têm tanto interesse nele quanto no [ex-] eixo do mal.
O fato de que o ISIS/ISIL/Daesh, depois de cada vitória em campo, rapidamente incorpora para si grandes quantidades de armamento norte-americano muito avançado, cuja operação exige meses de treinamento intensivo, pode sem dúvida indicar que os capangas do Califa sim, foram adestrados por gente da inteligência ocidental.
Ao mesmo tempo, a fonte na inteligência saudita alimenta a fantasia de um Califato de duas cabeças: uma na Síria, ligada ao governo de Assad em Damasco – o que é perfeita tolice, porque o Califato, no Iraque, combate contra o Irã.
O Presidente Barack Obama dos EUA, entrementes, procrastina e disse que:
(...) o ISIS/ISIL/Daesh pode ser derrotado, mas ao longo dos próximos três anos. Mais uma vez, como sempre, por que não deixar que viceje o caos?
Outra fonte na inteligência saudita está pelo que se poder ver muito desanimada: “Os EUA nunca permitirão mudança de regime” na Síria. Para esse agente, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) teria a função de “salvar a Síria”, e ele culpa a CIA por “interferir na transferência de armas para o Exército Sírio Livre”. No final, as petromonarquias do CCG “mudaram as rotas das entregas de armas, para evitar as obstruções da CIA”. Quer dizer: atualmente, os islamistas linha-duríssima da Frente al-Nusra, estão, pode-se dizer, armados como melhor se recomenda.
Terroristas da Frente al-Nusra, mantidos por EUA- Arábia Saudita - Qatar, juntaram-se ao ISIS/ISIL/Daesh

A Casa de Saud continua obcecada com derrubar Assad (e “o exílio dele para um enclave que resultará da redivisão da Síria”). Seria golpe mortal contra o Hezbollah, combinado à divisão do Iraque “que dizimaria o sonho de Teerã de restabelecer o império farsi, que Obama ajuda obsessivamente”.
Os sauditas também parecem crer na noção fantasiosa de que os sunitas na província de Anbar teriam descoberto que o ISIS/ISIL/Daesh é uma espécie de cover – alimentado simultaneamente pelo ocidente e pelo Irã – para “provocar disputas sectárias e acelerar a decisão por uma partição do país”. Na verdade, a Casa de Saud não quer qualquer partição do “Siriaque.” Quer dois regimes fantoches e total controle sobre eles. Para dizê-lo em termos suaves, Riad está bastante “frustrada” com as trapalhadas que já são marca registrada de Washington.
Nossa fórmula é caos, cada vez mais caos
Digam o que disserem os “especialistas”, o remapeamento do Oriente Médio pós-Sykes-Picot prossegue sem parar.
A Frente al-Nusra e o grupo Ahrar al-Sham – outro grupamento de jihadismo linha duríssima – continuam a ser integralmente armadas por Turquia, Arábia Saudita e Qatar. É coisa diretamente conectada ao proverbial “papel ativo” do novo capo da Casa de Saud, rei Salman. Assim se vê que Assad em Damasco enfrenta ataque em movimento de pinça: ISIS/ISIL/Daesh no leste, controlando pelo menos metade do país (OK, quase toda essa área é deserto); e Frente al-Nusra, controlando uma “coalizão jihadista de vontades” no norte e no centro. Quanto àquelas armas que o Pentágono forneceu aos incansavelmente elogiados e promovidos “rebeldes moderados”, já foram todas absorvidas pela Frente al-Nusra.
Sabe-se que durante aquela reunião do dia 2/6/2015, perfeita “coalizão de vontades” em Paris, co-patrocinada meio a meio por EUA e França para discutir ISIS/ISIL/Daesh, houve uma discussão “secreta”, de portas fechadas, na qual as petromonarquias do Golfo exploraram características que um acordo para a Síria teria de ter.
A Rússia também está muito ativa nesse front, especialmente com Arábia Saudita e Qatar, tentando conseguir que levassem seus respectivos grupos para a mesa de negociações.
Países do CCG - Conselho de Cooperação do Golfo

O problema é que o CCG não se satisfaz com menos do que exílio para Assad – na Rússia ou no Irã. E Washington, como se poderia adivinhar, só aceita golpe: “mudança de regime” light, a ser perpetrado por oficiais alawitas já familiarizados com a operação da máquina administrativa do estado sírio.
Nem uma nem outra ideia parece ser sequer remotamente exequível, uma vez que Arábia Saudita, Qatar e Turquia têm agendas muito profundamente diferentes e estão obcecadas com assegurar que os respectivos próprios e específicos rebeldes que recebem ordens de cada um desses estados, os rebeldes “deles” – de jihadistas linha super dura a falsos “moderados” – sejam as únicas e indiscutíveis futuras potências por ali.
E isso nos leva de volta para o possível acordo nuclear Irã/P5+1, dia 30/6/2015. A Síria é moeda crucial de barganha discutida em salas fechadas. Mas no que tenha a ver com o Império do Caos – para nem falar das petromonarquias do Golfo – o melhor negócio é a situação atual, mutável, extremamente confusa: um “Siriaque” completamente enfraquecido, guerra em dois fronts, o Irã na defensiva, e o Califato fake impondo a partição em solo, como realidade consumada.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books