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sexta-feira, 22 de março de 2019

Fracassou a política dos EUA: Reabertas as fronteiras entre Iraque e Síria e a estrada Irã-Beirute




Imagem: Combatentes suspeitos de pertencer ao ‘Estado Islâmico’ (EI) esperam para serem revistados por membros das Forças Democráticas Sírias (curdos), depois de deixarem a última área ainda controlada pelo EI em Baghouz, na província de Deir Ezzor, norte da Síria, dia 22/2/2019 (BULENT KILIC/AFP/Getty Images)

21/3/2019, Original, em inglês em: Elijah J Magnier Blog

“Dinossauro com cabeça de periquito”. Assim o ex-presidente do Irã Hashemi Rafsanjani descreveu os EUA, evocando a grande força militar mas a completa falta de inteligência estratégica na política externa norte-americano. De fato, o encontro não frequente dos comandantes de estado-maior de Síria, Iraque e Irã em Damasco essa semana jamais seria possível sem a recente ação dos EUA na Síria.

establishment norte-americano fez grande favor aos três países alinhados com o “Eixo da Resistência”, ao eliminar o grupo do ‘Estado Islâmico” (EI) no último reduto a leste do Eufrates. O ataque dos norte-americanos a Baghuz (leste da Síria), realizado em conjunto com seus agentes locais curdos, levou os três comandantes militares a decidir reabrir a estrada entre Síria e Iraque, pavimentando assim uma via terrestre segura para Iraque e Síria. Significa que a estrada Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute está reaberta. Não é a primeira vez que o establishment norte-americano, com seu planejamento sempre precário, presta ajuda estratégica realmente importante ao Irã.

Quando o presidente Donald Trump dos EUA decidiu retirar-se da Síria, falando do país como “terra de areia e morte”, até que falava sério sobre o tal plano. Mas os EUA não podia sair sem, antes, eliminar o bolsão do ISIS na área controlada pelos EUA no leste da Síria, porque significaria deixar lá o único pretexto que os norte-americanos encontraram para ocupar aquela área. Por isso, Trump foi aconselhado a eliminar o ISIS (afinal!) antes de retirar seus soldados. Assim, depois de longos meses de paralisia, Trump afinal ordenou que seus soldados fizessem o que haviam dito que fariam, depois de os EUA, por meses, só terem protegido o grupo terrorista e permitido que dezenas de milhares de terroristas do ISIS se movimentassem com toda a liberdade para atacar o Exército Árabe Sírio e aliados ao longo do eixo Deir-ezzour al-Bukamal.

Difícil superestimar a importância da decisão de Trump de, finalmente, agir contra os terroristas do ISIS. Desde 2014 os EUA fingem que combatem contra os terroristas do ISIS, quando, na verdade, só fizeram facilitar o processo pelo qual o grupo expandiu-se e assassinou soldados do Exército Árabe Sírio os quais, esses sim, combatiam contra – não a favor – dos terroristas. Durante todo esse tempo, os EUA usaram o ISIS como pretexto para a presença militar dos EUA na Síria.
 
Os EUA agora, finalmente, realmente bombardearam e destruíram Raqqah, ocupada pelo ISIS; na sequência, conseguiram um acordo para deportar muitos milhares de combatentes do ISIS. Mas a Batalha de Baghuz, ainda em curso, é a primeira vez que os EUA realmente lutaram contra o ‘Estado Islâmico’. Diga-se a favor do presidente Trump que seu governo está, afinal, fazendo, mesmo, o que os EUA até agora só fingiram que faziam, ao longo de cinco anos: Trump afinal está realmente combatendo contra os terroristas do ISIS

Essa campanha espetacular e real, não ficcional, garante ao governo Trump os méritos por ter derrotado o ‘Estado Islâmico’ – embora todos saibam que, por meia década, quem realmente combateu contra os terroristas foram o Exército Árabe Sírio, a Rússia, os iraquianos do grupo Hashed al-Shaabi, o Exército do Iraque, o Hezbollah libanês e o Irã.

Em Baghuz, forças dos EUA (e aliados europeus) bombardearam o ISIS até confinar o grupo numa cidade bem pequena. Conseguiram abrir uma via segura para retirada de mulheres, crianças, idosos, terroristas feridos e os muitos que preferiram render-se. Mais de 35 mil terroristas do ‘Estado Islâmico’ e famílias saíram daquele lugar exíguo. 9.000 militantes foras feridos ou mortos. As forças dos EUA e seus agentes locais curdos conseguiram encurralar o que resta do grupo terrorista numa área de menos de 1kme nos próximos dias lançarão o assalto final. É questão de tempo, e o ISIS entregará seu último bastião a leste do Eufrates.

O fim próximo da ameaça que foi o ‘Estado Islâmico’ criou a oportunidade para um encontro raro. O comandante do Estado-maior do Irã, major-general Mohammad Baqeri; o ministro da Defesa da Síria, Ali Abdullah Ayyoub; e o comandante do Estado-maior do Iraque tenente-general Othman al-Ghanmi reuniram-se em Damasco, capital da Síria e decidiram reabrir as fronteiras entre Iraque e Síria.

Ao, finalmente, remover os terroristas do ‘Estado Islâmico daquela área, o governo dos EUA, sob a presidência de Trump afinal reconheceu o erro que os norte-americanos cometeram na Síria. Enquanto o ISIS foi mantido ali, tornou-se impossível o trânsito seguro de mercadorias necessárias para a sobrevivência dos cidadãos iranianos e iraquianos. Agora afinal, depois de reconhecer isso, os EUA tomaram a decisão correta de sair de lá, deixando apenas algumas centenas de soldados norte-americanos, para efetivamente proteger, não atacar, os locais.

Graças ao movimento dos EUA, o Irã pode agora enviar todos os suprimentos necessários e retomar o comércio regular com a Síria, num momento em que Israel já começa a bombardear o aeroporto de Damasco e tenta impedir ou, no mínimo, retardar, o fornecimento, ao Exército Árabe Sírio, de mísseis de precisão e outros equipamentos militares necessários para reconstruir as forças de defesa sírias. Com a abertura de uma nova passagem de fronteira entre Iraque e Síria, perde importância a ocupação, pelos norte-americanos, da passagem de al-Tanf. Se os EUA tentarem pressionar o Iraque para que suspenda o comércio com Irã ou Síria, Bagdá exigirá que Trump retire suas forças de toda a Mesopotâmia.

A decisão de Trump também implica que a economia síria volta a poder acumular alguma energia, tão logo a estrada por terra, até o Iraque, volte a operar normalmente. Os três comandantes acabaram dando boas risadas da política e dos movimentos dos EUA na Síria. Todos colheram importantes benefícios dos repetidos erros de estratégia que Washington comete, desde que ocupou o Iraque em 2003 e ‘mudou o regime’ de Saddam Hussein – eterno e feroz inimigo do Irã.
O ‘Estado Islâmico’, EI ou ISIS ainda é risco de segurança, mas deixou de ser ameaça militar. Remanescentes do grupo ainda podem atacar comboios ou alvos leves, mesmo depois do acordo conjunto dos três países para patrulhar as fronteiras e contribuir, com tecnologia, inteligência e soldados para proteger a passagem de fronteira de al-Bu e somar esforços reais na luta contra o terrorismo naquela área. 

EUA quase sempre consideram o grande cenário, quando seus estrategistas e planejadores tentam redesenhar fronteiras, mudar regimes e produzir estados falhados. Mas muitas vezes deixam passar sem ver detalhes que podem virar a guerra a favor dos supostos inimigos que os EUA produzem, nesse caso, a favor do Irã. Como Rafsanjani comentou certa vez, EUA são “um dinossauro com cabeça de periquito”.

Rafsanjani não foi o único a fazer comentários cáusticos. Em evento recente em homenagem aos sucessos no Iraque e na Síria, do comandante e da brigada Qods do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, major-general Qassem Soleimani, o líder da Revolução Islâmica Said Ali Khamenei disse, falando de EUA (e Arábia Saudita): “agradecemos a Alá, que nos deu inimigos imbecis”.


Tradução original no blog O Empastelador

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Os arquitetos do caos na Ásia Ocidental

3/2/2015, [*] Vijay Prashad, The Hindu, Nova Delhi
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Obama e o rei Salman da Arábia Saudita
Pandemônio, eis o que se vê praticamente sem interrupção, da Líbia ao Iraque. O Presidente Barack Obama dos EUA voou de Nova Delhi diretamente para os braços do rei Salman, novo governante da Arábia Saudita. A dupla tinha muito a discutir. Nem um nem outro pode estar muito satisfeito com a desgraça que seus países fizeram e continuam a distribuir por toda a Ásia Ocidental. Tragicamente, o único caminho que pensam em reforçar é exatamente o mesmo que só aprofundará os problemas e os tormentos nos próximos anos. Claramente o exemplo deles é o Egito, onde a dupla EUA-Arábia Saudita apoiou o golpe do general Abdel Fattah el-Sisi, e agora apoia o governo dele, apesar da repressão contra protestos.

O assassinato de uma jovem socialista, Shaimaa el-Sabbagh, quando depositava uma coroa de flores na Praça Tahrir, no 4º aniversário da revolução contra Mubarak, é sinal da podridão. Não impediu que um destacamento do “Estado Islâmico” (EI) atacasse na Península do Sinai, fazendo 30 mortos, entre militares e civis. Na Líbia, os sauditas e os EUA apoiam o ditador (Khalifa Haftar), como apoiaram no Iêmen (Abdullah Saleh). No Iraque e Síria, EUA e Arábia Saudita não gostaram do que viram e tentaram desfazer tudo. Os sauditas são movidos por sectarismo – sempre contra os xiitas (e a influência do Irã). Por isso, são obcecadamente contra os governos em Damasco e Bagdá, como também se opõem furiosamente aos rebeldes no Iêmen. Obama e o rei Salman não conseguiram resolver os problemas na região: acabaram-se todas as ideias e palpites que tinham a oferecer. Agora, outros terão de indicar o caminho adiante.


Líbia. O Corinthia Hotel é o mais luxuoso de Trípoli. Foi residência de primeiros-ministros sucessivos que temiam pela própria vida naquela capital perigosíssima (o Primeiro-Ministro Ali Zeidan foi raptado desse hotel, em 2013). Também abriga a missão da ONU, que conduziu um Diálogo sobre a Líbia, em Genebra. Dia 27/1/2015, pistoleiros entraram no hotel e mataram guardas e hóspedes estrangeiros (inclusive um mercenário que prestava serviços de segurança aos EUA). O ramo do Estado Islâmico em Trípoli reivindicou os créditos pela operação.


caos impera na Líbia desde 2011. Dois governos dizem que governam o país – ambos apoiados em milícias e esquadrões-da-morte, ambos com exércitos estrangeiros a lhes dar cobertura. A missão da ONU – da qual o ocidente desertou depois da guerra em 2011 — não conseguiu criar nenhum processo de paz. O governo apoiado internacionalmente do Primeiro-Ministro Abdullah al-Thani enviou delegação a Genebra para unir-se ao processo de paz “conduzido” pela ONU. Os músculos desse processo são os do general renegado Khalifa Haftar, que faz guerra privada, sua, contra as milícias islamistas em Benghazi sob o nome de “Operation Karama” (Dignidade). Mas o governo de al-Thani está na cidade oriental de Tobruk, exilado da capital (Trípoli) e das cidades principais (Benghazi e Misrata). Vive à sombra do Egito e da Arábia Saudita.

O governo de al-Thani é uma concha. É o herdeiro dos que herdaram a Líbia das mãos do ocidente e dos estados do Golfo. As armas em campo não favorecem o grupo governante. Em Benghazi, a maré reinante ainda é comandada por um grupo islamista radical, Ansar al-Sharia, formado depois da queda do coronel Gaddafi. No oeste da Líbia, quem manda é o movimento conhecido como Fajr Líbia (Alvorada Líbia). Inclui o poderoso Escudo Líbio de Misrata e remanescentes do Grupo Islâmico de Combate Líbio. Seu Primeiro-Ministro, Omar al-Hassi, viveu no Hotel Corinthia, de onde teve de ser retirado em segredo por guardas da segurança. O grupo Alvorada Líbia recusou-se a participar das conversações de paz de Genebra. O ator mais poderoso afastou-se do processo anêmico apoiado pelo ocidente. Mostra bem o quanto o ocidente é irrelevante na Líbia contemporânea (a embaixada dos EUA para a Líbia está instalada em Malta). Quem manda na Líbia são Qatar e Turquia, apoiadores estrangeiros do grupo Alvorada Líbia.

É só simples questão de tempo, até que o Estado Islâmico estabeleça bases na Líbia. A cidade de Derna há muito tempo é centro de recrutamento de islamistas radicais. Piada que circula em Derna informa que é a cidade, em todo o mundo, que mandou mais combatentes da liberdade para Iraque e Síria.

Majlis Shura Shabab al-Islam
Em junho passado (2014), o grupo Majlis Shura Shabab al-Islam, um desdobramento do Ansar al-Sharia, aderiu ao Estado Islâmico. Declarou que passava a caçar as marda al-nafous (almas doentes) que ameaçava “esse nosso oprimido Estado Islâmico”. Não é difícil estabelecer laços operacionais entre Derna e Síria-Iraque; os milicianos continuam infatigavelmente a ir e vir o quanto desejem, através da Turquia. Ouvem-se ecos do Estado Islâmico entre Derna e Benghazi, onde os soldados de Ansar al-Sharia beneficiam-se da audácia das declarações de Abu Bakr al-Baghdadi. Do fundo da derrota, arrancam a sensação de vitória.

Ninguém quer paz

Iêmen. Velhas fissuras tribais no Iêmen que isolaram a comunidade dos xiitas zaidistas liderados pela família al-Houthi impuseram-se. Em nome da Guerra ao Terror, em 2004 o velho autocrata do Iêmen, Abdullah Saleh, traiu e matou o líder zaidista Hussein Badreddin al-Houthi. Um acordo político razoável teria posto fim a esse conflito, mas Saleh não quis acordo algum.

Inteiramente apoiado pelo ocidente, Saleh serviu-se de ataques com drones e muito suborno para destruir os inimigos. Atraída pela isca, a Arábia Saudita — que sempre, antes, desprezara Saleh — acabou por ceder aos próprios preconceitos anti-xiitas e aceitou apoiar o ditador em sua guerra contra os zaidistas. Saleh tratou os zaidistas – não a al-Qaeda – como principal inimigo. O grupo terrorista havia desaparecido do Iêmen, mas reapareceu em 2004, resultado de recrutamento nas prisões, experiência na insurgência no Iraque e ódio contra a guerra norte-americana de drones. Mas Saleh não usou todo o seu potencial de fogo contra a al-Qaeda. Seus inimigos estavam noutro lugar.

A “Operation Scorched Earth” [Operação Terra Arrasada] em 2009 levou a uma invasão saudita do Iêmen, para pôr fim à resistência zaidista. Dezenas de milhares de refugiados fugiram da região; não se conhece o número de mortos. Ninguém convocou qualquer processo de paz. Foi luta até o último homem.

Protestos de houthis na capital Sanaa
A Primavera Árabe no Iêmen permitiu que os rebeldes houthis se unissem aos protestos contra o governo de Saleh. A Al-Qaeda, enquanto isso, tomava o controle das cidades de Jaar e al-Husn. Um “diálogo nacional” convocado então não levou a qualquer solução. Os houthis queriam um acordo político. Os governos da Arábia Saudita e do Iêmen conseguiram convencer o ocidente de que os houthis seriam aliados do Irã. A partir disso, todas as atenções concentraram-se em manter os houthis longe do poder. Aí, precisamente é que o “plano” falhou mais fragorosamente; os houthis agora já assumiram o controle de Sana’a (capital do Iêmen). Ainda não se sabe se os houthis serão magnânimos na vitória; mas tampouco se pode adivinhar se os sauditas e o ocidente aceitarão qualquer gesto, mesmo que magnânimo, dos houthis.

Parte de uma guerra maior

Síria. No dia em que o rei saudita Abdullah morreu, o braço armado que representa os sauditas na guerra contra a Síria – o Jaish al-Islam de Zahran Alloush – disparou foguetes contra Damasco. Alloush anunciou por Twitter que faria “chover centenas de foguetes sobre a capital durante o dia todo, em resposta à barbárie que o regime cometera com ataques aéreos no Ghouta”. A guerra entre Alloush e o governo de Bashar al-Assad tornou-se guerra menor, mas nem por isso é escaramuça menos mortal na guerra maior no Iraque e Síria. Os inimigos do Presidente Bashar al-Assad não são absolutamente gentis, e assaltam áreas civis sem descanso e com requintes de crueldade.

Estado Islâmico é mantido por Israel, EUA, Qatar... 
Os ataques israelenses dentro da Síria contra o Hezbollah, da resistência libanesa, só complicarão cada vez mais a situação. Confrontos nas Fazendas Shebaa, uma parte do Líbano ocupada por Israel, poderia ter-se convertido em mais uma guerra de Israel contra o Líbano. Enquanto foguetes voavam nas duas direções, o Estado Islâmico distribuiu documento no qual dizia que seria “prematuro” declarar um emirado no Líbano. Beirute respirou aliviada. São raras as boas notícias na região.

Mais para o norte, o Estado Islâmico sofreu duas derrotas militares. Em Kobane – a Stalingrado dos curdos – as Unidades de Proteção do Povo Curdo [ing. Kurdish People’s Protection Units (YPG) finalmente conseguiram expulsar os milicianos do Estado Islâmico. Ataques pela Força Aérea da coalizão dos EUA ajudaram a cortar as linhas de suprimento do Estado Islâmico, embora a sempre porosa fronteira com a Turquia sempre lhes garanta algum socorro.

Também no Iraque, a Brigada Badr, uma milícias de xiitas, atacou o Estado Islâmico na província de Diyala, que foi libertada. Nem o exército iraquiano nem o exército sírio tiveram qualquer função nessas duas derrotas infligidas ao Estado Islâmicos. Mas o Estado Islâmico é difícil de eliminar. O grupo desapareceu dessas áreas, e encontrou outras áreas onde se abrigar. Um ataque pelo Estado Islâmico em Kirkuk tirou a vida de um respeitado líder curdo-iraquiano, brigadeiro-general Sherko Shwany; o Estado Islâmico mostrou que continua no jogo. Empurrado para fora do Iraque e do norte da Síria, talvez assuma afinal a via que o levará ao norte da Jordânia.

O Estado Islâmico manteve preso um piloto jordaniano, tenente Mu’ath al-Kaseasbeh, durante um mês, mas só ameaçou executá-lo depois da queda de Kobane e Diyala. Disse que pouparia a vida do piloto, se a Jordânia libertasse uma quase-suicida-bomba iraquiana Sajida al-Rishawi (a bomba dela não explodiu, num ataque em 2005 em Amã, Jordânia); mas fracassaram as negociações sobre a libertação da moça, e o Estado Islâmico executou dois reféns japoneses. Ao que se sabe, o piloto jordaniano continua prisioneiro do Estado Islâmico. As tensões estão subindo na Jordânia, sobre o papel do reino na coalizão contra o Estado Islâmico. É precisamente o tipo de fissura que o Estado Islâmico quer ver crescendo na Jordânia. Qualquer passo para o sul, fará soar os sinos de alarme na Arábia Saudita.

Mu’ath al-Kaseasbeh; foto maior, de branco
Entrementes, um alto oficial da inteligência jordaniana me informa que já ruiu completamente a tentativa dos EUA para criarem uma força moderada contra o Estado Islâmico. A [operação] Müs’terek Operasyon Merkezi, que a CIA construiu com aliados na Turquia já fracassou. Um depois do outro, todos os grupos rebeldes que a CIA arregimentara trocaram a CIA por outras formações – mais recentemente, foi o Exército Mujahedin que se uniu à Frente Islâmica, grupo que reúne dois outros afiliados da al-Qaeda, Ahrar al-Sham e a Frente al-Nusra.

Verdade é que nem os EUA nem a Arábia Saudita têm qualquer agenda que faça algum sentido na Síria. Permanecem obcecados com derrubar o governo do presidente Assad, mas já estão em pânico ante o crescimento do Estado Islâmico. Quanto maior a audácia do Estado Islâmico em seu território natal, mais potentes os ecos enviados para a Líbia e para o interior da Península Árabe.



[*] Vijay Prashad é professor de estudos internacionais no Trinity College. Dentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People’s History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter. 
Publica artigos regularmente em Asia Times Online, Frontline Magazine e CounterpunchÉ usualmente entrevistado pela TRNN - The Real News Network  sobre Geopolítica e Política internacional; é também Editor-Chefe do LeftWord Books, Nova Delhi. É colunista de al-Araby al-Jadeed e Information Clearing House. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Árabes do Golfo espiam para dentro do mundo multipolar

11/10/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediff BLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

Churchill (E), Roosevelt(C) e Stalin(D) 
(Ialta, Crimeia - de 4 a 11 de fevereiro de 1945)
O tradicional sistema de alianças prevalecente na região do Golfo desde que o então Presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, deixou a Reunião de Ialta (1945) com Winston Churchill e Josef Stalin e tomou o rumo, sem se anunciar, do Egito, para encontro secreto com o rei Abdul Azziz ibn Saud da Arábia Saudita a bordo do destróier USS Murphysobre as águas do Grande Lago Salgado, está enfraquecendo inexoravelmente.

O sinal mais recente desse processo é o anúncio, que o Kremlin acaba de fazer, da visita do rei do Bahrain, Hamad ibn Isa Al Khalifa, que esteve no resort russo de Sochi no domingo (12/10/2014), para encontrar-se com o presidente Vladimir Putin e assistir ao trecho russo do Campeonato Mundial de Automobilismo da Fórmula 1 da FIA. O governante do Bahrain é braço auxiliar da família real saudita e só a intervenção brutal dos militares sauditas o tem ajudado, até agora, a manter fechada a panela de pressão que é a crescente aspiração por melhor democracia e respeito aos direitos humanos da maioria xiita no país.

O interessante é que ele foi degredado para a casa do cachorro no ocidente, e quase parece que a Rússia vai-se convertendo em local de peregrinação para governantes do Golfo Árabe que, como ele, não está feliz com o modo como o presidente Obama e as políticas dos EUA promovem democracia e respeito aos direitos humanos no Oriente Médio.

Se se tiver de apontar o momento de definição dessa desilusão crescente entre os árabes do Golfo com o governo Obama, foi quando a ex-Secretária de Estado Hillary Clinton desvelou dramaticamente o Século Norte-americano do Pacífico, com o máximo de espalhafato, e a estratégia de “pivô” dos EUA para a Ásia.

Hillary Clinton 
(por Davi Sales)
Os Clintons aproximam-se da família Bush no Texas, na devoção que manifestam pelos regimes árabes do Golfo, mas a Secretária de Estado não foi capaz de antecipar o efeito devastador que sua brilhante ideia do “pivô” teria sobre o moral dos aliados dos EUA no Golfo.

Os autocratas do Golfo Árabe foram tomados por terrível angústia por os EUA estarem a pivotear-se animadamente para a região do Pacífico Asiático, deixando-os entregues aos lobos na região; e por os EUA darem sinais de já não estarem totalmente comprometidos com a sobrevivência dos seus regimes arcaicos.

Àquela altura, a Primavera Árabe e os eventos cataclísmicos que levaram à queda de Hosni Mubarak no Egito, momento de definição do tal “pivô” nas estratégias dos EUA para o Oriente Médio, já haviam sacudido a fé que os árabes do Golfo ainda tivessem na lealdade dos EUA como Guardas Pretorianos de seus regimes, especialmente quando começaram a crescer as provas de que Washington se estava posicionando do “lado certo da história” e silenciosamente abraçava a Fraternidade Muçulmana, que, naquele momento, parecia ser a “força vital” emergente no Oriente Médio.

Como se não bastasse, começaram a circular notícias de que a dependência dos EUA do petróleo do Golfo havia começado a diminuir muito, conforme aumentava a produção de gás de xisto, o que, por sua vez, se traduziria em geopolítica como menor interesse, dos EUAna sobrevivência das oligarquias do petrodólar da região.

A tese como tal é ridícula, porque o envolvimento dos EUA com os estados do petrodólar nunca foi só como consumidor de petróleo, mas também como negociante no mercado mundial de energia e como exportador de tecnologia, além de tomar parte em todo o processo de reciclar petrodólares, que constitui um pilar chave do sistema bancário e das economias ocidentais. Mas, mesmo assim, a ideia interessava à estratégia de “pivô” de Clinton, e ganhou credibilidade.

Mubarak preso
Se a queda de Mubarak foi sinal de aviso, a relutância dos EUA em se envolver no movimento dos estados árabes do Golfo para promover “mudança de regime” na Síria acabou por dar a impressão que o poder dos EUA como sustentáculo do Oriente Médio estava entrando em declínio. 

Depois veio o engajamento direto dos EUA com o Irã (xiita). Como que esfregando sal nas feridas, Washington engajou Omã, um dos estados do Conselho de Cooperação do Golfo, para atuar como intermediário para discutir os termos do engajamento, mantendo no escuro a Arábia Saudita sobre o que se passava. Por fim, os piores medos dos sauditas pareceram estar-se realizando – com EUA e Irã normalizando suas relações e Riad perdendo espaço como aliado chave de Washington na região do Oriente Médio.

Claro, também se deve considerar o pano de fundo de pós-Guerra Fria contra o qual tudo isso se ia desdobrando – a ilusão que se ia esvaziando, do “momento unipolar” dos EUA, com a emergência já claramente marcada, de um mundo multipolar. Os árabes do Golfo começaram a tatear sobre as possibilidades que um mundo multipolar teria a oferecer para a salvaguarda de seus interesses existenciais. Dito em termos simples, os EUA continuavam a ser o melhor show na cidade; mas já não eram o único show na cidade.

Primeiro entra a Rússia. A guerra civil na Síria serviu para abrir os olhos dos árabes do Golfo – teste crucial de até que ponto iria Moscou em apoio de seu velho amigo e aliado (embora a Rússia também tivesse seus próprios interesses). A Rússia apareceu em forte contraste com o indisfarçado desinteresse dos EUA, ou absoluta vacilação e relutância, em qualquer projeto para salvar o regime de Mubarak.

Segundo, Moscou sempre desqualificou a Primavera Árabe sem economizar palavras, e mostrou-se extremamente fria quanto às forças que estariam gerando a ideia de transformação democrática no Oriente Médio. Ao contrário, a Rússia sempre se mostrou confortável com a ideia de fazer negócios com regimes autoritários. De fato, Moscou ridiculariza abertamente o projeto da democracia à moda EUA por onde passe.

Terceiro, a Rússia continua a considerar os Irmãos como “terroristas”, e a Fraternidade Muçulmana continua como grupo radical proscrito na lista de itens “a vigiar” dos russos. Os autocratas do Golfo Árabe gostaram imensamente do modo claro, sem meias palavras, como a Rússia vê o Islã político – como anátema no mundo moderno.

Abdel Fattah al-Sisi e Vladimir Putin em 13/9/2014
Quarto, a Rússia não perdeu tempo para cair nos braços da junta militar que tomou o poder no Cairo depois do golpe patrocinado pelos sauditas, no Egito, em julho do ano passado. Foi movimento que realmente impressionou os sauditas, num momento crucial, quando os norte-americanos ainda pregavam as virtudes da democracia às margens do Nilo. (Pode-se dizer que os russos até forçaram os EUA a repensar sua aproximação com a junta no Cairo, algo que os sauditas não conseguiram só com o próprio peso).

Quinto, a crise na Ucrânia convenceu os árabes do Golfo de que o DNA russo não mudara e Moscou insistiria naquela linha se seus interesses estivessem em jogo, custasse o que custasse. Dito de outro modo, os árabes do Golfo começaram a brincar com a ideia de tornar a Rússia acionista a sério do bem-estar e da sobrevivência do atual sistema oligárquico arcaico na área deles.

Sexto, a frieza profunda na separação entre EUA e Rússia também é atraente para os árabes do Golfo. Se a separação aprofundar-se mais, ainda melhor. Dito de forma simples, os norte-americanos serão forçados a pensar sobre as sombras russas na região do Golfo, e isso, por sua vez, forçará Washington a assumir renovado interesse no velho sistema de aliança construído sobre o impressionante conjunto de bases militares dos EUA na região.

Por fim, apesar de todo o destaque sobre um entendimento estratégico entre Rússia e Irã vivem a querer ostentar, os árabes do Golfo sabem que aquela relação é incrivelmente complexa, enraizada em animosidades e suspeitas mútuas e sórdidas traições entre as duas potências regionais, que têm longa tradição na história moderna.

A colaboração da Rússia na estratégia de contenção dos EUA contra o Irã nos anos recentes em torno do problema nuclear; a cumplicidade da Rússia com o regime de sanções dos EUA contra o Irã; a aversão que a elite russa tem pelo Irã; os interesses russos e iranianos que se superpõem no Cáspio, no Cáucaso e em regiões da Ásia Central – tudo isso só faz ressaltar a complexidade da relação.

Oleogasoduto Nabucco, projeto ligando Irã e Europa
Mais importante, a emergência de uma liderança simpática ao ocidente no Irã e a aceleração no engajamento EUA-Irã sempre preocupariam a Rússia. O espectro que ronda a Rússia é, claro, o potencial único que tem o Irã para ser instrumento chave no plano de jogo dos EUA para conseguir que a Europa se livre da pesada dependência dos suprimentos de energia russa (o que tem sérias implicações para a liderança trans-Atlântica dos EUA).

De fato, o Irã é a melhor opção para a Europa na busca para diversificar suas fontes de energia, mediante um eixo na Turquia. Por outro lado, qualquer redução no quanto a Europa depende de energia russa é muito mais que simples redução drástica na renda dos russos; o movimento também priva a Rússia de sua “ferramenta geopolítica” para alavancar políticas europeias. 

O ponto é que um Irã integrado com a “comunidade internacional” deixa de ter qualquer convergência de interesses com a Rússia, para desafiar as políticas regionais dos EUA. Cada vez mais, o Irã e os EUA podem até descobrir que estão na mesma página no que diga respeito à segurança e à estabilidade do Iraque (e possivelmente também da Síria). Essa tendência isolaria a Rússia e a forçaria a procurar novas parcerias regionais para se preparar para qualquer eventualidade de uma proximidade estratégica EUA-Irã. Tudo isso para dizer que as relações russo-iranianas estão hoje numa encruzilhada.

Sim, é verdade que não há qualquer possibilidade iminente de criar-se um eixo EUA-Irã, dado que o problema nuclear iraniano ainda não foi resolvido e não há sinais de os EUA virem a dar um “salto de fé” na direção do Irã. Os lobbies saudita e israelense trabalham sem parar em Washington para fazer gorar qualquer acordo nuclear, e os interesses dos EUA também são muito profundos e extensivos nos estados do Golfo Árabe, o que torna extremamente difícil para o atual governo na Casa Branca cooptar abertamente o Irã como aliado no Oriente Médio em futuro próximo.

Tudo isso posto, Moscou também não quer saber de correr riscos. Está fazendo aberturas na direção dos estados do Golfo Árabe e conta desesperadamente com que aqueles estados sejam atraídos pelas possibilidades que uma ordem mundial multipolar oferece.

Moscou conseguiu encontrar interlocutor firme no rei Abdullah da Jordânia. Ano passado, Abdullah visitou Moscou; este ano já lá esteve duas vezes (incluindo o dia 2/10/2014); e ainda faltam dois meses para uma terceira visita. Entre uma visita e outra, Abdullah recebeu em Amã um importante visitante russo – o líder checheno Ramzan Kadyrov.

Rei Abdullah da Jordânia e VladimirPutin (6/10/2014)
Interessante: Moscou sabe perfeitamente que não há como cogitar do fim da participação da Jordânia na agenda de “mudança de regime” liderada pelos sauditas contra a Síria, que a Jordânia é fritada pequena para uma grande potência como a Rússia. Mesmo assim continua a ser país interessante, porque pode servir para levar Moscou até a liderança saudita; e Moscou sempre poderá encontrar serventia para os laços que Abdullah mantém com o ocidente. Assim afinal se compreende que está em curso um diálogo denso entre Abdullah e Putin baseado em realpolitik para um acerto entre os interesses desses dois lados, num espírito de pragmatismo.

O mais importante é que a Jordânia tem laços estreitos com Israel e, dados os crescentes contatos entre sauditas e israelenses, Moscou há de ter visto que há espaço para desenvolver um campo comum, pelo menos até certo ponto, sobre a base de uma antipatia/desilusão partilhada entre todos esses quatro protagonistas ante as políticas regionais dos EUA.

O Egito, sem dúvida, cabe também nesse paradigma. Os laços russos-egípcios estão-se desenvolvendo rapidamente, e a visita do presidente Abdel Fattah al-Sisi a Moscou em agosto foi interpretada como recado” aos EUA, de que o Cairo tem opções estratégicas  num cenário multipolar.

Mas do ponto de vista russo, o peixe grande que interessa é a Arábia Saudita. Moscou não deixou pedra sem examinar nos últimos anos, mesmo ante a rejeição diplomática que recebeu de Riad, tentando energizar o relacionamento com vista a convertê-lo, adiante, em parceria, mas os sauditas mantiveram-se muito lentos – pelo menos até agora. A guerra civil na Síria manifesta uma contradição aguda. Mas o coração da matéria é que os sauditas continuam muito longe de desistir de sua aliança estratégica com os EUA.

Os sauditas não perdem a esperança de que o governo Obama possa ser contido nessa trilha para fazer um acordo com o Irã, antes do prazo fatal, em novembro. Se nenhum acordo frutificar e no meio tempo se o Senado dos EUA mudar de mãos e passar a ser controlado pelos Republicanos, o engajamento EUA-Irã pode não acrescentar grande coisa e, de fato, é possível até que as tensões aumentem entre os dois velhos adversários. A estratégia saudita, em resumo, é, de algum modo, nada fazer durante o resto do governo Obama, até final de 2016.

Javad Zarif e John Kerry, em Genebra (Irã e P5+1)
Mas as coisas podem mudar dramaticamente se houver um acordo EUA-Irã sobre a questão nuclear. Ambas Moscou e Riad teriam muito a perder se a integração do Irã, no ocidente, começasse em sentido real. (Israel também perderia muito). Se acontecer, o Oriente Médio entrará no mundo multipolar.

Mas há muitíssimos “se” e “mas” implícitos nesse cenário. Muito dependerá de como vier a ser a guerra de Obama contra o Estado Islâmico. A grande questão aqui é: o que acontece na sequência, se o Estado Islâmico se impuser e levar a luta para dentro da Arábia Saudita?

Afinal, como movimento que é de “neo-wahhabismo”, o alvo chave do Estado Islâmico sempre será a Arábia Saudita, não o Ocidente como tal. A estratégia do EI é de algum modo provocar os EUA para que intervenham militarmente, para que o EI possa surfar a onda dos sentimentos antiamericanos que se espalham no Oriente Médio muçulmano, a qual, por sua vez, sempre atrairá novos recrutas e mais dinheiro dos estados do Golfo para a causa do Califa.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

domingo, 5 de outubro de 2014

Abrir os olhos para as realidades sírias

3/10/2014, [*] Robert ParryConsortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ataque químico organizado pelo "ocidente" e realizado pelos "rebeldes" na Síria assassinou mais de 1000 pessoas entre adultos e crianças
No final do verão de 2013, a Washington oficial apressava-se a “sentenciar” que o presidente da Síria Bashar al-Assad (do mal) havia disparado barragem de mísseis contendo gás sarín, e assim massacrado centenas de civis em áreas próximas de Damasco controladas pelos rebeldes.

Era inconcebível para virtualmente todas as pessoas “que contam” em Washington que pudesse haver outra interpretação para os eventos de 21/8/2013. O colunista de segurança nacional do Washington Post, David Ignatius até explicou a razão “do grande quadro” pela qual o presidente Barack Obama era obrigado a lançar bombardeio punitivo contra o governo de Assad, porque, ao usar armas químicas, o presidente sírio cruzara a “linha vermelha” de Obama.

O que será o mundo quando as pessoas começarem a duvidar da credibilidade do poder dos EUA. Infelizmente, estamos descobrindo a resposta na Síria e em outras nações nas quais os líderes já concluíram que podem desafiar os EUA já fartos de guerras, sem pagar o preço.

Usar poder militar para manter a credibilidade da nação pode soar como ideia antiquada, mas é absolutamente relevante no mundo real onde todos vivemos. Já se tornou óbvio em semanas recentes que o presidente Obama(...) precisa demonstrar que há consequências para quem cruze uma “linha vermelha” norte-americana. Sem isso, a coerência do sistema global começa a dissolver-se − escreveu Ignatiusuma semana depois do incidente do gás sarín.

Naquele momento, poucos de nós levantaram questões sobre o “pensamento de grupo” dentro da Washington oficial sobre os ataques com sarín, em parte porque não faria sentido algum, para Assad, ter convidado inspetores da ONU para examinar os locais de outros ataques com gás, que Assad atribuía à oposição, e, em seguida lançar mais um grande ataque a poucas milhas do hotel ao qual estavam chegando os inspetores.

Também ouvi de dentro da inteligência dos EUA que alguns analistas da CIA tinham as mesmas dúvidas e suspeitavam que o suposto alto número de foguetes carregados com gás sarín (que era então a principal “prova” contra as forças do presidente Assad) havia sido muitíssimo aumentado, e que o pânico entre a população poderia ter inflado as dimensões do ataque.

Mas a razão mais forte para duvidar da Washington oficial talvez fosse a muito apressada conclusão segundo a qual Assad seria culpado de tudo que já vinha acontecendo dentro da oposição síria ao longo de dois anos, a saber, a radicalização e a conversão em força jihadista sunita hiper violenta, que se preparava para ataques brutais contra civis para derrubar o governo secular de Assad e impor em Damasco um estado islamista.

A MENTIRA dos neocons começou com Rumsfeld/Bush e continuou com Obama/H. Clinton/Kerry... Até hoje!

Blindados pela propaganda

Praticamente nenhuma das pesquisas, estudos e avaliações feitas em Washington detectou essa mudança, porque estavam todos já cegos, de uma cegueira geopolítica infligida pela propaganda dos neoconservadores, que insistiam em que a única via aceitável para interpretar a guerra civil síria seria ver Assad na posição de “o bandido”, e os rebeldes na posição de “os mocinhos”.

Afinal, “mudança de regime” na Síria é item presente há muito tempo na agenda dos neoconservadores; há tanto tempo quanto é item da agenda de Israel, que quer derrubar Assad porque é aliado de Irã e do Hezbollah libanês. No início da guerra na Síria, a dura resposta de Assad ao que ele sempre chamou de “terrorismo”, mas era conhecido nos EUA como “oposição síria” havia induzido também os “liberais intervencionistas” do governo de Obama para o campo dos “mudadores de regime”.

Nesse quadro, a ideia de que algum grupo sírio rebelde extremista poderia deliberadamente matar civis, como provocação para atrair um ataque militar dos EUA contra as defesas de Assad – e assim abrir caminho para uma vitória dos rebeldes – nunca conseguiu penetrar o quadro de referências que a Washington oficial aceitava. Em agosto de 2013, a opinião dominante nos EUA ensinava que os rebeldes sírios eram forças “do bem”.

Ao longo do ano passado, contudo, a realidade, pelo menos em parte, afinal, começou a impor-se. O caso do gás sarín contra o presidente Assad foi praticamente desmontado pelo relatório que a ONU publicou, depois de só haver sido encontrado um único foguete com gás sarín, e de cientistas independentes terem concluído que aquele único foguete carregado com gás teria alcance máximo de cerca de dois quilômetros – o que implicava que ataque algum poderia ter partido da base síria suspeita, localizada a cerca de nove quilômetros de distância.

O repórter investigativo Seymour Hersh também soube, de fontes muito bem postadas, que a comunidade de inteligência dos EUA já começara a suspeitar de extremistas rebeldes que estariam trabalhando ao lado de setores de linha-dura, na inteligência turca [ver Was Turkey Behind Syria-Sarín Attack?].

Mas muita “gente importante” do mundo oficial nos EUA, inclusive os editores dos jornais New York Times e Washington Post, continuaram a insistir que Assad tinha de ser o responsável pelo ataque com sarín. “Noticiavam” essa opinião deles próprios, como se fosse fato estabelecido. E sabe-se que essa gente não é dada a admitir os próprios erros.

Caixas de munição chegam para a Frente al-Nusra na Síria

Uma mudança de paradigma

Ao longo do último ano porém, o paradigma de interpretação do conflito sírio começou a mudar. Em setembro de 2013, muitas forças rebeldes sírias repudiaram a oposição “moderada” e abraçaram, em vez dela, a Frente al-Nusra da al-Qaeda, força jihadista muito agressiva na qual se haviam reunido os combatentes mais efetivos contra Assad.

Então, em fevereiro de 2014, a liderança da al-Qaeda começou a falar de uma força jihadista ainda mais brutal, já chamada Estado Islâmico do Iraque e Levante [Síria] (ing. ISIS ou ISIL). Esse Estado Islâmico promoveu estratégia de indizível brutalidade, como meio para intimidar rivais e afastar os ocidentais, do Oriente Médio.

O ISIL começou a existir depois da invasão dos EUA ao Iraque em 2003, quando o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi organizou a chamada “al-Qaeda no Iraque”, uma milícia sunita hiper violenta que atacava xiitas iraquianos e destruía suas mesquitas, espalhando uma viciosa guerra sectária por todo o Iraque.

Depois da morte de Zarqawi em 2006 – e com o afastamento de sunitas iraquianos menos extremistas – a al-Qaeda no Iraque sumiu de cena, até reaparecer na guerra na Síria, já transfigurada como Estado Islâmico e de volta também ao Iraque, numa grande ofensiva militar no verão passado.

Entre notícias de que o Estado Islâmico promove massacres e degola de reféns norte-americanos e britânicos, novamente voltou a parecer crível que haja grupos rebeldes sírios suficientemente agressivos para obter gás sarin e fazer um ataque químico perto de Damasco, matando inocentes e com o projeto de atribuir o crime ao governo do presidente Assad.

Até Ignatius do Post já parece mais cético quanto ao movimento rebelde sírio; e sobre o serviço que prestam as várias agências de inteligência dos EUA e aliados que sempre forneceram dinheiro, armas e treinamento – até a milicianos dos grupos mais extremistas.

Posto de fronteira da Turquia com a Síria

Abriram a porta

Em coluna na 5ª-feira2/10/2014, Ignatius critica não só a tal “oposição moderada” na Síria, mas também

(...) nações estrangeiras, como EUA, Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Jordânia, que estão financiando essa mistura caótica de rebeldes armados dentro da Síria. Essas maquinações estrangeiras ajudaram a abrir a porta para que o grupo terrorista Estado Islâmico passasse a ameaçar a região.

Até Ignatius já reconheceu que a ideia de pintar a oposição síria como movimento de raízes locais, constituído de reformadores idealistas, foi erro grave. Escreveu:

Desde o início da revolta contra o presidente Bashar al-Assad em 2011, aSíria foi cenário de uma guerra por procuração que envolveu potências regionais (Turquia, Arábia Saudita e Qatar) que, todas, queriam derrubar Assad, mas também competiam entre elas como rivais regionais.

Em diferentes momentos, essas três nações forneceram dinheiro e armas a grupos sunitas rebeldes, armas que acabaram nas mãos de extremistas. (...) Os EUA, Arábia Saudita e Jordânia uniram forças em 2013 para treinar e armar rebeldes moderados num campo de treinamento mantido pela CIA, na Jordânia. Mas esse programa jamais foi forte o suficiente para unificar as quase 1.000 brigadas espalhadas pelo país. A desorganização resultante ajudou a desacreditar a aliança rebelde conhecida como Exército Sírio Livre.

Os comandantes sírios rebeldes têm também alguma culpa por esta estrutura em cacos. Mas o caos foi gravemente piorado pelas potências exteriores que trataram a Síria como playground para seus serviços de inteligência. Essa intervenção cínica faz lembrar intervenções semelhantes que muito contribuíram para devastar o Líbano, o Afeganistão, o Iêmen, o Iraque e a Líbia, em guerras civis assemelhadas. (...)

David Ignatius
A história de como a Síria foi convertida em centro de pilotagem para agências de inteligência rivais, foi-me explicada por fontes aqui [em Istambul] e em Reyhanli, área de ação rebelde na fronteira turco-síria. Esforços externos para treinar e armar rebeldes sírios começaram há mais de dois anos em Istanbul, onde um ‘centro de operações militares’ foi criado, primeiro, num hotel próximo ao aeroporto.

Figura chave era um agente do Qatar, que ajudou a armar os rebeldes líbios que depuseram Muammar Gaddafi. Trabalhando com os qataris havia altos funcionários das inteligências turca e saudita. Mas a unidade interna das operações de Istambul acabou quando turcos e qataris começaram a apoiar grupos islamistas, que eles consideravam mais agressivos.

Aqueles jihadistas realmente surgiram como combatentes mais valorosos, mais duros – e o sucesso deles foi como um ímã para atrair mais apoio. Os turcos e qataris insistem que não apoiaram intencionalmente o grupo extremista Frente al-Nusra ou o Estado Islâmico. Mas armas e dinheiro enviado para brigadas islamistas mais moderadas acabaram em mãos desses grupos terroristas, e turcos e qataris fizeram-se de cegos.

Quanto ao crescimento desses radicais, Ignatius cita uma fonte da inteligência árabe, que disse ter “alertado um funcionário do Qatar, que respondeu: “Enviarei armas para a al-Qaeda, se ajudar a derrubar Assad”. Essa determinação de derrubar Assad a qualquer custo provou-se muito perigosa. “Os grupos islamistas cresceram e ficaram cada vez mais fortes, e o Exército Sírio Livre só fez enfraquecer cada vez mais” – recordou a fonte da inteligência árabe.

É hora de revelar a verdade sobre o gás sarín

Baseados nessa informação, a ideia de haver extremistas anti-Assad capazes de usar gás sarín – possivelmente com ajuda da inteligência turca, como Hersh denunciou – e lançar um ataque de pura provocação, com o objetivo de conseguir que o exército dos EUA destruísse o exército de Assad e abrisse caminho para uma vitória dos rebeldes já começa a fazer pleno sentido.

Afinal de contas, lá em Washington, a estratégia de propaganda de culpar Assad só convenceu os sempre influenciáveis neoconservadores que, em agosto de 2013 empurraram adiante o caminhão dos que pregavam “guerra-já” e forçaram ao silêncio qualquer um que duvidasse da versão segundo a qual Assad seria sempre “culpado de tudo”.

Israel assumiu a mesma posição sobre a Síria, aceitando até a vitória dos extremistas da al-Qaeda, se necessário para derrubar Assad e ferir seus aliados iranianos.

Michael Oren, Embaixador de Israel nos EUA
Em setembro de 2013, o então embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, disse ao Jerusalem Post em entrevistaque:

O maior perigo para Israel é o arco estratégico que se estende de Teerã a Damasco e a Beirute.

E via o regime Assad como pedra de apoio daquele arco...

(...) Sempre quisemos que Bashar Assad partisse. Em matéria de bandidos, sempre preferimos bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, a bandidos apoiados pelo Irã.

Disse que era assim, mesmo no caso dos bandidos não apoiados pelo Irã serem apoiados pela al-Qaeda.

Assim sendo, o perigo que advém dos extremistas sunitas já foi rebaixado, e o foco volta a ser derrubar Assad. Não surpreende que tenha havido tanta “surpresa” nos think-tanks da Washington oficial, quando o Estado Islâmico abriu nova frente no Iraque e expulsou de lá o exército iraquiano treinado pelos EUA. Mais uma vez, os neoconservadores conseguiram manter os olhos dos norte-americanos absolutamente cegos para uma verdade inconveniente.

Mas os neoconservadores ainda não acertaram as contas que têm a acertar, pelo impressionante fiasco na Síria, que eles ajudaram a criar. No momento, estão ocupadíssimos reescrevendo a narrativa: começaram a acusar Obama de ter esperado demais para armar os rebeldes sírios; e a insistir para que Obama, em vez de bombardear alvos do Estado Islâmico na Síria, passe a atacar a força aérea síria e crie uma zona aérea de exclusão, para que os rebeldes possam marchar sobre Damasco.

A temeridade enlouquecida de tal estratégia deveria ser óbvia para todos. Mas, se Obama tivesse sucumbido às demandas dos que queriam intervenção no verão de 2013 e atacasse o exército de Assad, talvez tivéssemos hoje a al-Qaeda ou o Estado Islâmico no controle de Damasco. [Ver Consortiumnews.com,  Neocons’ Noses into the Syrian Tent].  

Melhor fará Obama se romper o sigilo que veda o acesso aos relatórios de inteligência dos EUA sobre o ataque com gás sarín dia 21/8/2013, incluindo as manifestações de discordância de vários analistas da CIA que não consideraram demonstrada a responsabilidade de Assad. Essa informação lançaria luz consideravelmente nova sobre como a ação de serviços de inteligência turcos e árabes — com a ajuda de neoconservadores – tornou possível o surgimento e o crescimento do Estado Islâmico.
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[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano. Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).