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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Os arquitetos do caos na Ásia Ocidental

3/2/2015, [*] Vijay Prashad, The Hindu, Nova Delhi
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Obama e o rei Salman da Arábia Saudita
Pandemônio, eis o que se vê praticamente sem interrupção, da Líbia ao Iraque. O Presidente Barack Obama dos EUA voou de Nova Delhi diretamente para os braços do rei Salman, novo governante da Arábia Saudita. A dupla tinha muito a discutir. Nem um nem outro pode estar muito satisfeito com a desgraça que seus países fizeram e continuam a distribuir por toda a Ásia Ocidental. Tragicamente, o único caminho que pensam em reforçar é exatamente o mesmo que só aprofundará os problemas e os tormentos nos próximos anos. Claramente o exemplo deles é o Egito, onde a dupla EUA-Arábia Saudita apoiou o golpe do general Abdel Fattah el-Sisi, e agora apoia o governo dele, apesar da repressão contra protestos.

O assassinato de uma jovem socialista, Shaimaa el-Sabbagh, quando depositava uma coroa de flores na Praça Tahrir, no 4º aniversário da revolução contra Mubarak, é sinal da podridão. Não impediu que um destacamento do “Estado Islâmico” (EI) atacasse na Península do Sinai, fazendo 30 mortos, entre militares e civis. Na Líbia, os sauditas e os EUA apoiam o ditador (Khalifa Haftar), como apoiaram no Iêmen (Abdullah Saleh). No Iraque e Síria, EUA e Arábia Saudita não gostaram do que viram e tentaram desfazer tudo. Os sauditas são movidos por sectarismo – sempre contra os xiitas (e a influência do Irã). Por isso, são obcecadamente contra os governos em Damasco e Bagdá, como também se opõem furiosamente aos rebeldes no Iêmen. Obama e o rei Salman não conseguiram resolver os problemas na região: acabaram-se todas as ideias e palpites que tinham a oferecer. Agora, outros terão de indicar o caminho adiante.


Líbia. O Corinthia Hotel é o mais luxuoso de Trípoli. Foi residência de primeiros-ministros sucessivos que temiam pela própria vida naquela capital perigosíssima (o Primeiro-Ministro Ali Zeidan foi raptado desse hotel, em 2013). Também abriga a missão da ONU, que conduziu um Diálogo sobre a Líbia, em Genebra. Dia 27/1/2015, pistoleiros entraram no hotel e mataram guardas e hóspedes estrangeiros (inclusive um mercenário que prestava serviços de segurança aos EUA). O ramo do Estado Islâmico em Trípoli reivindicou os créditos pela operação.


caos impera na Líbia desde 2011. Dois governos dizem que governam o país – ambos apoiados em milícias e esquadrões-da-morte, ambos com exércitos estrangeiros a lhes dar cobertura. A missão da ONU – da qual o ocidente desertou depois da guerra em 2011 — não conseguiu criar nenhum processo de paz. O governo apoiado internacionalmente do Primeiro-Ministro Abdullah al-Thani enviou delegação a Genebra para unir-se ao processo de paz “conduzido” pela ONU. Os músculos desse processo são os do general renegado Khalifa Haftar, que faz guerra privada, sua, contra as milícias islamistas em Benghazi sob o nome de “Operation Karama” (Dignidade). Mas o governo de al-Thani está na cidade oriental de Tobruk, exilado da capital (Trípoli) e das cidades principais (Benghazi e Misrata). Vive à sombra do Egito e da Arábia Saudita.

O governo de al-Thani é uma concha. É o herdeiro dos que herdaram a Líbia das mãos do ocidente e dos estados do Golfo. As armas em campo não favorecem o grupo governante. Em Benghazi, a maré reinante ainda é comandada por um grupo islamista radical, Ansar al-Sharia, formado depois da queda do coronel Gaddafi. No oeste da Líbia, quem manda é o movimento conhecido como Fajr Líbia (Alvorada Líbia). Inclui o poderoso Escudo Líbio de Misrata e remanescentes do Grupo Islâmico de Combate Líbio. Seu Primeiro-Ministro, Omar al-Hassi, viveu no Hotel Corinthia, de onde teve de ser retirado em segredo por guardas da segurança. O grupo Alvorada Líbia recusou-se a participar das conversações de paz de Genebra. O ator mais poderoso afastou-se do processo anêmico apoiado pelo ocidente. Mostra bem o quanto o ocidente é irrelevante na Líbia contemporânea (a embaixada dos EUA para a Líbia está instalada em Malta). Quem manda na Líbia são Qatar e Turquia, apoiadores estrangeiros do grupo Alvorada Líbia.

É só simples questão de tempo, até que o Estado Islâmico estabeleça bases na Líbia. A cidade de Derna há muito tempo é centro de recrutamento de islamistas radicais. Piada que circula em Derna informa que é a cidade, em todo o mundo, que mandou mais combatentes da liberdade para Iraque e Síria.

Majlis Shura Shabab al-Islam
Em junho passado (2014), o grupo Majlis Shura Shabab al-Islam, um desdobramento do Ansar al-Sharia, aderiu ao Estado Islâmico. Declarou que passava a caçar as marda al-nafous (almas doentes) que ameaçava “esse nosso oprimido Estado Islâmico”. Não é difícil estabelecer laços operacionais entre Derna e Síria-Iraque; os milicianos continuam infatigavelmente a ir e vir o quanto desejem, através da Turquia. Ouvem-se ecos do Estado Islâmico entre Derna e Benghazi, onde os soldados de Ansar al-Sharia beneficiam-se da audácia das declarações de Abu Bakr al-Baghdadi. Do fundo da derrota, arrancam a sensação de vitória.

Ninguém quer paz

Iêmen. Velhas fissuras tribais no Iêmen que isolaram a comunidade dos xiitas zaidistas liderados pela família al-Houthi impuseram-se. Em nome da Guerra ao Terror, em 2004 o velho autocrata do Iêmen, Abdullah Saleh, traiu e matou o líder zaidista Hussein Badreddin al-Houthi. Um acordo político razoável teria posto fim a esse conflito, mas Saleh não quis acordo algum.

Inteiramente apoiado pelo ocidente, Saleh serviu-se de ataques com drones e muito suborno para destruir os inimigos. Atraída pela isca, a Arábia Saudita — que sempre, antes, desprezara Saleh — acabou por ceder aos próprios preconceitos anti-xiitas e aceitou apoiar o ditador em sua guerra contra os zaidistas. Saleh tratou os zaidistas – não a al-Qaeda – como principal inimigo. O grupo terrorista havia desaparecido do Iêmen, mas reapareceu em 2004, resultado de recrutamento nas prisões, experiência na insurgência no Iraque e ódio contra a guerra norte-americana de drones. Mas Saleh não usou todo o seu potencial de fogo contra a al-Qaeda. Seus inimigos estavam noutro lugar.

A “Operation Scorched Earth” [Operação Terra Arrasada] em 2009 levou a uma invasão saudita do Iêmen, para pôr fim à resistência zaidista. Dezenas de milhares de refugiados fugiram da região; não se conhece o número de mortos. Ninguém convocou qualquer processo de paz. Foi luta até o último homem.

Protestos de houthis na capital Sanaa
A Primavera Árabe no Iêmen permitiu que os rebeldes houthis se unissem aos protestos contra o governo de Saleh. A Al-Qaeda, enquanto isso, tomava o controle das cidades de Jaar e al-Husn. Um “diálogo nacional” convocado então não levou a qualquer solução. Os houthis queriam um acordo político. Os governos da Arábia Saudita e do Iêmen conseguiram convencer o ocidente de que os houthis seriam aliados do Irã. A partir disso, todas as atenções concentraram-se em manter os houthis longe do poder. Aí, precisamente é que o “plano” falhou mais fragorosamente; os houthis agora já assumiram o controle de Sana’a (capital do Iêmen). Ainda não se sabe se os houthis serão magnânimos na vitória; mas tampouco se pode adivinhar se os sauditas e o ocidente aceitarão qualquer gesto, mesmo que magnânimo, dos houthis.

Parte de uma guerra maior

Síria. No dia em que o rei saudita Abdullah morreu, o braço armado que representa os sauditas na guerra contra a Síria – o Jaish al-Islam de Zahran Alloush – disparou foguetes contra Damasco. Alloush anunciou por Twitter que faria “chover centenas de foguetes sobre a capital durante o dia todo, em resposta à barbárie que o regime cometera com ataques aéreos no Ghouta”. A guerra entre Alloush e o governo de Bashar al-Assad tornou-se guerra menor, mas nem por isso é escaramuça menos mortal na guerra maior no Iraque e Síria. Os inimigos do Presidente Bashar al-Assad não são absolutamente gentis, e assaltam áreas civis sem descanso e com requintes de crueldade.

Estado Islâmico é mantido por Israel, EUA, Qatar... 
Os ataques israelenses dentro da Síria contra o Hezbollah, da resistência libanesa, só complicarão cada vez mais a situação. Confrontos nas Fazendas Shebaa, uma parte do Líbano ocupada por Israel, poderia ter-se convertido em mais uma guerra de Israel contra o Líbano. Enquanto foguetes voavam nas duas direções, o Estado Islâmico distribuiu documento no qual dizia que seria “prematuro” declarar um emirado no Líbano. Beirute respirou aliviada. São raras as boas notícias na região.

Mais para o norte, o Estado Islâmico sofreu duas derrotas militares. Em Kobane – a Stalingrado dos curdos – as Unidades de Proteção do Povo Curdo [ing. Kurdish People’s Protection Units (YPG) finalmente conseguiram expulsar os milicianos do Estado Islâmico. Ataques pela Força Aérea da coalizão dos EUA ajudaram a cortar as linhas de suprimento do Estado Islâmico, embora a sempre porosa fronteira com a Turquia sempre lhes garanta algum socorro.

Também no Iraque, a Brigada Badr, uma milícias de xiitas, atacou o Estado Islâmico na província de Diyala, que foi libertada. Nem o exército iraquiano nem o exército sírio tiveram qualquer função nessas duas derrotas infligidas ao Estado Islâmicos. Mas o Estado Islâmico é difícil de eliminar. O grupo desapareceu dessas áreas, e encontrou outras áreas onde se abrigar. Um ataque pelo Estado Islâmico em Kirkuk tirou a vida de um respeitado líder curdo-iraquiano, brigadeiro-general Sherko Shwany; o Estado Islâmico mostrou que continua no jogo. Empurrado para fora do Iraque e do norte da Síria, talvez assuma afinal a via que o levará ao norte da Jordânia.

O Estado Islâmico manteve preso um piloto jordaniano, tenente Mu’ath al-Kaseasbeh, durante um mês, mas só ameaçou executá-lo depois da queda de Kobane e Diyala. Disse que pouparia a vida do piloto, se a Jordânia libertasse uma quase-suicida-bomba iraquiana Sajida al-Rishawi (a bomba dela não explodiu, num ataque em 2005 em Amã, Jordânia); mas fracassaram as negociações sobre a libertação da moça, e o Estado Islâmico executou dois reféns japoneses. Ao que se sabe, o piloto jordaniano continua prisioneiro do Estado Islâmico. As tensões estão subindo na Jordânia, sobre o papel do reino na coalizão contra o Estado Islâmico. É precisamente o tipo de fissura que o Estado Islâmico quer ver crescendo na Jordânia. Qualquer passo para o sul, fará soar os sinos de alarme na Arábia Saudita.

Mu’ath al-Kaseasbeh; foto maior, de branco
Entrementes, um alto oficial da inteligência jordaniana me informa que já ruiu completamente a tentativa dos EUA para criarem uma força moderada contra o Estado Islâmico. A [operação] Müs’terek Operasyon Merkezi, que a CIA construiu com aliados na Turquia já fracassou. Um depois do outro, todos os grupos rebeldes que a CIA arregimentara trocaram a CIA por outras formações – mais recentemente, foi o Exército Mujahedin que se uniu à Frente Islâmica, grupo que reúne dois outros afiliados da al-Qaeda, Ahrar al-Sham e a Frente al-Nusra.

Verdade é que nem os EUA nem a Arábia Saudita têm qualquer agenda que faça algum sentido na Síria. Permanecem obcecados com derrubar o governo do presidente Assad, mas já estão em pânico ante o crescimento do Estado Islâmico. Quanto maior a audácia do Estado Islâmico em seu território natal, mais potentes os ecos enviados para a Líbia e para o interior da Península Árabe.



[*] Vijay Prashad é professor de estudos internacionais no Trinity College. Dentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People’s History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter. 
Publica artigos regularmente em Asia Times Online, Frontline Magazine e CounterpunchÉ usualmente entrevistado pela TRNN - The Real News Network  sobre Geopolítica e Política internacional; é também Editor-Chefe do LeftWord Books, Nova Delhi. É colunista de al-Araby al-Jadeed e Information Clearing House. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Destruição da Líbia é alerta a Egito, Síria e Ucrânia

28/7/204, [*] Tony Cartalucci, New Eastern Outlook (NEO)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Aeroporto Internacional de Trípoli em 14/7/2014

A Líbia está considerando um deslocamento de força internacional para restabelecer a segurança, agora que a violência recomeçou em Trípoli, e dúzias de foguetes destruíram quase toda a frota de aviação civil naquele aeroporto internacional.
O governo analisa a possibilidade de solicitar que forças internacionais sejam enviadas para atuar em solo, restabelecer a segurança, e ajudar o governo a impor sua autoridade” – disse porta-voz do governo na Líbia, Ahmed Lamine, em declaração. A seguir vídeo de 14/7/2014, gravado em Trípoli:




O “amanhã democrático” prometido pela OTAN em 2011 aconteceu, vale lembrar –, na forma de eleições previsivelmente fraudulentas, rejeitadas pelo país inteiro, que produziram um vácuo de poder, que foi preenchido, como se viu, por conflito armado crescentemente violento.

O mais irônico disso tudo talvez seja que esses conflitos são já verdadeiras guerras travadas entre vários grupos que a própria OTAN estimulou, armou e usou para fazer a guerra de solo na Líbia, enquanto a própria OTAN só agia de longe, do céu, bombardeando o país durante praticamente todo o ano de 2011.

Os fantoches da OTAN canibalizam-se entre eles

Em maio de 2014, a luta na cidade de Benghazi no leste da Líbia já deixara incontáveis mortos, muitos e muitos feridos e legiões de moradores obrigados a abandonar as próprias casas para não morrer, quando um “general renegado” fazia guerra contra “militantes islamistas” dentro da cidade. Em artigo intitulado Famílias evacuam Benghazi, e general renegado ameaça com novos ataques, a agência Reuters escreveu, dia 18/5/2014:

O autodeclarado Exército Nacional Líbio, liderado por um general renegado, disse a civis no sábado que abandonassem bairros de Benghazi antes de ele iniciar ali mais um ataque contra militantes islamistas, um dia depois de ter havido ali dúzias de mortos, nos mais violentos confrontos na cidade em meses.

Terroristas (milícias) pesadamente armados circulam livremente em Benghazi (maio/2014
O general renegado é Khalifa Haftar (às vezes também escrito “Hifter”), que morou durante anos nos EUA, nos arredores de Langley Virginia, ao que se crê sendo treinado pela CIA, até que retornou à Líbia em 2011 para comandar as forças da OTAN em solo no ataque do ocidente contra aquele país.

Em artigo de 2011, o Business Insider perguntava: O general Khalifa Hifter é o homem da CIA na Líbia?”:

Desde que chegou aos EUA, no início dos anos 1990s, Hifter morou no subúrbio de Virginia, próximo de Washington, DC. Badr disse que nunca entendeu exatamente o que Hifter fazia para viver, e que a principal preocupação de Hifter sempre fora ajudar sua grande família.

Quer dizer: trata-se de ex-general de Gaddafi, que muda de lado e passa a trabalhar assumidamente para os EUA, instala-se em Virginia nos arredores de Washington, D.C. e consegue apoiar a própria grande família na Líbia, de modo que alguém que o conheceu ao longo de toda a vida diz que ‘nunca entendeu exatamente’? Hmm.

É altíssima a probabilidade de que Hifter tenha sido comprado para trabalhar a favor dos EUA. Assim como figuras como Ahmed Chalabi foram ‘cultivadas’ para um Iraque pós-Saddam, Hifter pode perfeitamente ter desempenhado papel semelhante como ativo da inteligência dos EUA, à espera de um momento para agir na Líbia.

Terrorista típico em Benghazi (14/7/2014)
A ironia desse “arranjo” é que muitos dos militantes sectários contra os quais Hafter está em luta em Benghazi são os mesmos militantes contra os quais Muammar Gaddafi se opôs ao longo de décadas como líder da Líbia; e são os mesmos militantes que a OTAN armou e organizou, com Hafter, para induzir a queda de Gaddafi em 2011.

Sobre sua própria guerra em Benghazi, Hafter disse que ela continuará “até que não reste nenhum terrorista em Benghazi”; e que “começamos essa batalha, que prosseguirá até alcançarmos nossos objetivos. A rua e o povo líbio estão do nosso lado”.

Os sentimentos de Hafter fazem perfeito eco ao que dizia Muammar Gaddafi em 2011. De diferente, só, que a imprensa-empresa ocidental negou, ao longo de décadas, que houvesse qualquer terrorista em Benghazi; e sempre apresentou as operações de Gaddafi em Trípoli como “massacre” de “pacíficos manifestantes pró-democracia”.

A OTAN destruiu a Líbia

As mesmas atrocidades que a OTAN listou, de início, como ‘causa’ para sua “intervenção humanitária” na Líbia, imediatamente passaram a aparecer como práticas da própria OTAN e das forças que a OTAN ou mantém ou acoberta. Cidades inteiras foram cercadas, deixadas sem comida e água, e bombardeadas por ar, até capitularem. Em outras cidades, populações inteiras foram, ou executadas, ou expulsas ou, em alguns casos, ‘empurradas’ para fora das fronteiras líbias. A cidade de Tawarga, onde viviam cerca de 10 mil líbios, foi totalmente destruída, a ponto de o London Telegraph referir-se a ela hoje como cidade fantasma.

Líbia: casas destruídas - herança dos EUA-OTAN
Desde a queda de Trípoli, Sirte e de outras cidades líbias que resistiram contra a invasão pelos terroristas da OTAN, praticamente nada se viu de qualquer estabilidade básica, muito menos da “revolução democrática” que a OTAN e seus terroristas-colaboradores prometiam para a Líbia. O governo em Trípoli continua em caos eterno; as forças de segurança divididas combatem entre elas mesmas; e agora há também um “general renegado” que a CIA introduziu na Síria, e que comanda operação militar em grande escala contra Benghazi, usando também força aérea e, aparentemente, sem a aprovação do governo em Trípoli.

Anos depois da conclusão da dita “revolução”, a Líbia continua sua trajetória forçada na direção do mais completo atraso. As grandes realizações do governo de Muammar Gaddafi já foram desmontadas há muito tempo e é pouco provável que venham a ser restauradas – e de serem ampliadas, então, disso, nem se cogita! – em futuro previsível. 

Na Líbia, a OTAN efetivamente desorganizou e destruiu uma nação inteira. A ação da OTAN na Líbia reduziu o país a pilhas de ruínas fumegantes, para que empresas ocidentais possam, não só pilhar os recursos nacionais, mas, também, usar o “modelo líbio” com o padrão para futura ação extraterritorial na Síria, Egito, Ucrânia e agora novamente no Iraque.

Egito, Síria, Ucrânia: atenção ao “modelo líbio”

Assim como foi feito na Líbia, também se tentou fazer “revoluções” assemelhadas no Egito, na Síria e na Ucrânia. As mesmas narrativas, palavra a palavra, inventadas nos think-tanks políticos; nas redações da imprensa-empresa; e nas “análises” dos especialistas acadêmicos ocidentais, para a Líbia, estão sendo agora requentadas para o Egito, Síria e Ucrânia.

As mesmas ONGs estão sendo usadas como meio para fazer chegar dinheiro, equipamento e outras modalidades de apoio aos grupos de oposição, em cada um desses países. Termos como “democracia”, “progresso”, “liberdade” e “luta contra a ditadura” são frequentes. Não houve protesto que não tenha sido inflado por militantes armados e, sempre, apoiados pelo Ocidente.

Al-Qaeda, armada pelos EUA-OTAN, na Síria
Na Síria, os protestos foram instrumentalizados e vendidos no ocidente como ação de “combatentes da liberdade”. De fato, a imprensa-empresa ocidental consome grande parte de seu tempo e de seus recursos tentando “explicar por que” a OTAN e seus parceiros regionais entregam armas e dinheiro a militantes sectários, inclusive à Al Qaeda, para que tentem derrubar o governo sírio.

No Egito, ainda há alguma ambiguidade, como houve também em 2011 no caso da Síria, sobre quem realmente são os manifestantes, o que realmente dizem e de que lado estão “as simpatias” do ocidente. Mas análise atenta mostra que, assim como a Fraternidade Muçulmana foi usada na Síria para montar o cenário para a guerra devastadadora que se seguiu, a Fraternidade Muçulmana no Egito também está sendo usada, praticamente do mesmo modo, contra o Cairo.

Finalmente, na Ucrânia, os manifestantes apresentados no ocidente como “pró-democracia”, “pró-União Europeia”, “pró-Euromaidan” já foram revelados como neonazistas, de ultra direita, nacionalistas conhecidos por recorrer regularmente à violência e à intimidação política. Exatamente como se viu na Síria em 2011 e no Egito agora, confrontos armados de baixa intensidade são cada dia mais frequentes, e a intensidade cresce regularmente, já configurando o que pode vir a ser mais uma guerra norte-americana guerreada por terceiros “nomeados”:  dessa vez, é a OTAN contra a Rússia, na Europa Oriental.

Desfile de neonazistas em Maidan (14/3/2014)
Esses três países e os envolvidos dos dois lados dessa guerra devem, isso sim, examinar detidamente o estado a que a Líbia foi reduzida. As tais “revoluções” só podem ter uma conclusão lógica e previsível: a destruição, a demolição, a divisão de cada uma das nações-alvo, antes de serem incorporadas, já em estado de cadáver, à sempre crescente “ordem supranacional” de Wall Street e Londres, para serem infinitamente saqueadas até serem reduzidas à miséria. E boa parte dos EUA, do Reino Unido e da União Europeia também já estão reduzidos a miséria, hoje.

Quem se preocupe com o que será feito de Egito, Síria ou Ucrânia no caso de a OTAN conseguir fincar as garras nesses países, que examine o caso da Líbia. E os que apoiaram a tal “revolução” na Líbia, que se perguntem a eles mesmos se estão satisfeitos com o resultado final. Querem ver o mesmo resultado também no Egito, na Síria e na Ucrânia? Ou, talvez, imaginam que os planos da OTAN para cada um desses países levarão a resultados muito diferentes do que os que se veem hoje na Líbia? Por quê? 

[*] Tony Cartalucci é um pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 31/1-7/2/2014

22/2/2014, Conflicts Forum’s 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mapa político do Oriente Médio
Já é visível que muitos “Mercados Emergentes” (ME) estão sofrendo com uma retirada do dinheiro de curto prazo que esteve “estacionado” lá como efeito de uma expansão monetária sem precedentes buscada principalmente por EUA, Japão e China. Agora, (depois do “afunilamento” [orig. taper] pelo Fed dos EUA) o “dinheiro quente” está sendo trazido de volta para casa – e por toda parte as moedas dos ME estão caindo. Mas a queda no valor das respectivas moedas foi particularmente evidente na Turquia (10% em relação ao dólar norte-americano, ao longo do último ano), que gerou uma reação do tipo “choque e pavor” pelo Banco Central Turco, com aumento de juros, de 7,75% para 12,5% — aumento possivelmente suficiente para “furar” o balão do “milagre” turco e, de fato, o “modelo turco” (da Fraternidade Muçulmana).

O Banco Central Turco tem boas razões para apertar o botão de alarme. A Turquia ficou altamente dependente desse “dinheiro quente” externo para cobrir seu crescente déficit atual, que já chega a $60,8 bilhões, cerca de 7% do PIB (no período jan.-nov. 2013). Perder esse portfólio de curto prazo não é só debilitante: é potencialmente fatal, seja economicamente seja para o destino político de Erdogan.

Como observou um comentarista econômico:

David P. Goldman
(...) a Turquia não pode financiar sua gigantesca carência de dinheiro emprestado, sem oferecer taxas de juros tão altas que farão explodir a bolha de construção-e-consumo que serviu como máscara para um suposto milagre econômico turco nos últimos anos (...). Parece pouco provável que o já atrasado aumento nos juros, pelo Banco Central, venha a impedir desvalorização ainda maior da lira. Com inflação de 7,4% e aumentando, a taxa de juros de referência, do BC, de 10%, oferece apenas um pequeno prêmio acima da taxa de inflação. Cerca de 2/5 da dívida interna da Turquia é denominada em moeda estrangeira, e a queda da lira manifesta-se em custos mais altos para o serviço dessa dívida.

A Turquia, ao que parece, ficará com o pior dos dois mundos, a saber, taxas de juros locais mais altas – e moeda fraca... Em vários sentidos, a bolha de Erdogan faz lembrar as experiências da Argentina em 2000 e do México em 1994, quando crescente dívida externa alimentou bolhas de vida curta, de prosperidade, seguidas de desvalorizações da moeda e quedas profundas. Argentina e México compraram popularidade oferecendo crédito barato aos consumidores, como fez Erdogan nos meses anteriores à eleição nacional de junho de 2011.

Mas a bolha de construção-e-consumo não é a única que pode furar; a crise turca também ameaça uma “narrativa” inteira e uma identidade. As ramificações políticas são profundas para os islamistas sunitas, como a Fraternidade Muçulmana.

A Fraternidade Muçulmana levou a sério o modelo Erdogan. Para eles, Erdogan parecia oferecer via certa e segura até o poder: oferecer progresso socioeconômico; adotar princípios islamistas genéricos e ambíguos; apresentar um islamismo não assertivo; mas, sobretudo, abraçar uma doutrina econômica (neo)liberal. A Fraternidade concluiu que, adotando aquelas políticas neoliberais, estariam de algum modo “vacinados” contra a desconfiança instintiva, no ocidente, contra governos islamistas – em outras palavras: se fossem economicamente neoliberais, o ocidente relevaria o islamismo deles, desde que se mantivesse como islamismo pouco assertivo, morno.

Recep Erdogan
Agora, Erdogan corre o risco de se ver desacreditado tanto por: (a) sua política externa domesticamente muito criticada, e que trouxe um jihadismo takfiri diretamente para dentro da própria Turquia, como porque (b) há agora o perigo extra de seu milagre econômico islamista ser exposto como nada além de quimera. A Fraternidade Muçulmana, duramente ferida no Egito, vê-se agora ante o risco de perder suas fundações intelectuais – e a própria identidade. Ainda mais grave, dado que – desde o tempo de Banna – o islamismo sunita deliberadamente se separou dos discursos históricos do Islã. E sempre que comunidades veem-se diante de crises existenciais, o mais frequente é que se voltem para as próprias raízes mais profundas, onde se podem renovar.

Hoje, a Turquia está usando todas as ferramentas de que dispõe para estabilizar a lira, mesmo sabendo que o movimento dificilmente terá impacto duradouro. Isso, porque os problemas financeiros da Turquia foram gravemente exacerbados por uma luta pelo poder que tem raízes profundas e que só se intensificará até as eleições locais em março; presidenciais, em agosto; e parlamentares em 2015.

Desde o início de 2012, Conflicts Fórum já alertava que o que estava sendo chamado de “Despertar Árabe” estava sendo mal interpretado na imprensa-empresa ocidental, como se fosse levante popular espontâneo; exigência de reformas – o que em grande parte refletiria a influência de valores ocidentais.

Argumentamos então que a ira popular dita “antissistema” naquele momento não incluía qualquer “grande ideia” que lhe desse rumo, e que estava sendo dominada e controlada por alguns “projetos de poder” que os eventos também haviam despertado.

Fraternidade Muçulmana
Um daqueles projetos de poder era o da Fraternidade Muçulmana; o outro era o da contrarrevolução dos estados do Golfo, determinados a esmagar qualquer movimento que ameaçasse os monarcas e as famílias reinantes no Golfo.

Outra vez, como Goldman destaca:

(...) agora, [quando o milagre de Erdogan já está sob risco], poucos analistas perguntam como a Turquia teria conseguido sustentar o atual déficit interno, que oscilou entre 8% e 10% do PIB durante os últimos três anos, situação tão ruim quando o déficit grego nos anos que antecederam o colapso financeiro em 2011. A resposta mais provável é que a Turquia tenha recebido vastos empréstimos, cedidos a ela por bancos sauditas e de outros estados do Golfo (...).

Dados do Banco Internacional de Compensações (BIS) mostram que a Turquia financiou grande parte de seu enorme déficit através do mercado interbancário, quer dizer, com empréstimos de curto prazo de outros bancos aos bancos turcos. Não se veem sinais, nos bancos ocidentais, de tão grande exposição à Turquia; os bancos do Golfo não divulgam a exposição regional, mas há evidências de que a solidariedade sunita tem algo a ver com a disposição original dos estados do Golfo, para comprar a dívida turca. As relações entre a Turquia e os estados do Golfo estão hoje em ruínas. Se os estados do Golfo perderam a paciência ou se ficaram sem recursos para apoiar o surto de endividamento de Erdogan; ou, ainda, se o “mau comportamento” da Turquia os levou a decidir retirar o apoio, é difícil dizer. Todos esses fatores, provavelmente, estiveram em ação. Em todos os casos, o rancor de Erdogan contra a Arábia Saudita empurrou-o para mais perto de Teerã”. Isso – parafraseando Donald Rumsfeld – pode contar como um “não sabido não sabido” (...) há desenvolvimentos potenciais que não sabemos que não sabemos.

Mas, haja aí um movimento deliberado ou o resultado de alguma mudança nas percepções dos banqueiros (e políticos) do Golfo, nos dois casos, o que se vê deve ser contado como mais uma aparente vitória dos contrarrevolucionários – que aí está, seja como for.

TiBerlusconi
Com certeza os estados do Golfo têm os meios – e já têm diante dos olhos o exemplo do primeiro-ministro Berlusconi, tirado do governo exatamente por uma escalada (manipulada) dos custos do financiamento da dívida externa. Na Líbia, o dinheiro do Golfo ajudou a financiar os rebeldes e garantiu treinamento para os “insurgentes” que derrubaram Gaddafi; na Síria e no Líbano, dezenas de bilhões foram gastos no esforço para consumar uma vingança contra o presidente Assad, por se ter aliado ao Irã; no Egito, os estados do Golfo financiaram grande parte dos movimentos de protesto contra Mursi e promoveram diretamente o golpe de Estado que derrubou Mursi; e na Turquia também, o “dinheiro” do Golfo parece ter desempenhado seu papel na derrubada do próprio modelo – o ícone, o “sucesso” do [partido] AKP – pelo qual a Fraternidade se autodefinia.

A contrarrevolução pode também exibir o escalpo do Hamás, cujas garras foram cortadas – cortesia da junta militar que o movimento ajudou a pôr no poder no Cairo.

Em 2012, estimava-se que os estados do Golfo tivessem superávit na conta corrente de mais de $400 bilhões (mais que o dobro da China, no mesmo ano). Enquanto os superávits do Golfo alcançavam esses níveis recordes, o resto do mundo árabe só via os respectivos equilíbrios orçamentários sumirem. E, além da riqueza do estado e o nível de riqueza dos bancos, empresas e indivíduos e famílias reunidos no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), ao que se calcula, já teria chegado a $3 trilhões (sem incluir os fundos soberanos). Essa acumulação de dinheiro “grande” gerou a visão de mundo de uma elite cosmopolita do Golfo, furiosamente privilegiada (e arrogante), imensamente rica – além de neoliberal e reacionária – que a fez usar sua riqueza como ferramenta básica para conter e fazer recuar os movimentos populares, além de intervir na política regional, para manter esse lucrativo status quo.

Essa riqueza gigantesca, já agora profundamente integrada no sistema financeiro global, “vacinou” em larga medida as ações dos estados do Golfo contra qualquer crítica séria pelo ocidente, por suas intervenções militares ou pela repressão contra qualquer oposição. Antes, como se vê, aconteceu o contrário: os think-tanks ocidentais já não têm como elogiar mais os emires pela “capacidade para sobreviver” e por seus “gastos sociais”.


No máximo, houve algum muito tímido comentário sobre os sauditas recorrerem a jihadistas para usá-los como “braço militar” dos estados do Golfo. Mas jamais se ouve qualquer crítica que denuncie a contradição entre essa ação e o proclamado desejo do Golfo de promover a democracia e “reformas” do “sistema árabe” – que foram os aspectos que levaram o ocidente a identificar-se com os manifestantes.

Tudo isso considerado, os estados do Golfo parecem ter alcançado uma vitória muito clara. E podem também festejar o modo como europeus – principalmente França e Grã-Bretanha – tão firme e rapidamente se identificaram com seus objetivos.

Mas, mesmo com tamanho sucesso visível, persiste uma vulnerabilidade, um medo, uma neurose, sempre localizável no discurso do Golfo. Há até um toque de paranoia no modo como os sauditas creem na própria propaganda: sempre vendo um xiita escondido atrás de cada árvore. Os estados do Golfo, isso sim, gastaram milhões para silenciar o desconforto doméstico; mas muitos relatos (além de vários artigos distribuídos por nosso Conflicts Fórum) sugerem que, apesar da imensa riqueza, os “Gulfies” “não estão felizes”, para citar The Economist. A liderança do reino está à deriva; “eles têm largura de banda muito estreita” – avalia um diplomata de outro país. “Mal dá para governarem o próprio país, não uma ambiciosa agenda regional”.

Vizinhos e aliados da Arábia Saudita também estão mais desconfiados, a cada dia. Diz The Economist:

Estão preocupados, e não só com as tensões domésticas. A política externa dos sauditas, nos anos recentes, tornou-se simultaneamente mais errática e mais assertiva.

O sheikh Salem Abdulaziz al-Sabah repete há quase uma década: 
O Kuwait está gastando muito dinheiro...
Seus aliados no Golfo temem que a Casa de Saud esteja perdendo o férreo controle na esfera religiosa, que foi atiçada para atender às ambições regionais dos sauditas – particularmente na Síria.

Os estados do Golfo contribuíram para a queda de Gaddafi, de Mursi, da Fraternidade Muçulmana, do Hamás e agora, possivelmente, também para a queda de Erdogan; mas suas políticas coletivas, se bem analisadas, fizeram avançar os próprios objetivos, segundo um porta-voz:

(...) dentro do novo ambiente, como Riad o vê, as políticas da Arábia Saudita continuam a ser movidas pelas prerrogativas da estabilidade regional.

De fato, muito longe de trazerem estabilidade à região, as políticas sauditas só trouxeram terríveis insegurança e tumultos e abriram a caixa de Pandora de uma radicalização do extremismo sunita que impõe hoje perigos muito maiores que no início do conflito afegão, nos anos 1980s. Assim como a cumplicidade de

Erdogan com jihadistas na Síria foi tiro pela culatra que atingiu a Turquia, assim também a cumplicidade entre o Golfo e radicais começa a repercutir de volta, para dentro das sociedades no Golfo.

Na verdade, compartimentar a incitação ao radicalismo – como os sauditas dizem que estariam fazendo – é empreitada irrealizável. É absolutamente impossível empurrar jovens para pensar e agir com radicalismo na Síria... e mantê-los dóceis e obedientes em casa.

O governo mantém o povo calado, com dinheiro; nos raros casos em que não funcionou, usaram ameaçasThe Economist cita um diplomata em Riad.

Arábia Saudita e Bahrain incentivam seus jovens a lutar... na Síria!
De fato, tanto o Bahrain como a Arábia Saudita tiveram de impor leis draconianas para calar críticas contra o governante; essas leis vieram mascaradas sob a rubrica de “combate ao terrorismo”. Os estados do Golfo, apesar de todo o gasto doméstico, não conseguiram criar instituições nacionais (tudo gira em torno da “família” governante e dos conselheiros mais íntimos). E todos, agora, enfrentam profundos problemas sociais, que o dinheiro só conseguiu mitigar parcialmente.

Apesar dos gastos crescentes do governo, muitos kuaitianos dizem que sua qualidade de vida está deteriorando. “As pessoas estão ficando furiosas” – diz um jovem ativista da oposição. – “Como você pode me pedir que gaste menos, quando o governo joga dinheiro fora?” Os maiores protestos são contra a qualidade dos serviços. Os kuaitianos recebem moradia do governo ou um empréstimo para comprar a casa, depois do casamento. Mas a lista de espera tem hoje 106.747 kuaitianos à espera, muitos dos quais esperarão durante décadas. A carência de moradias tornou proibitivo o custo de uma casa comprada com recursos privados. Quase metade da população do Kuwait tem menos de 20 anos e viverá com os pais até bem depois de entrados na idade adulta. Muitos kuaitianos agarram-se aos benefícios que realmente funcionam. A gasolina, por exemplo, é mais barata que a água. Os preços da eletricidade não sobem desde 1966 – assim, membros do governo, alguns dos quais reconhecem que devem reduzir os gastos, resistem a quaisquer cortes.

Raghu
Mandagolathur
Gastos generosos em programas ao longo dos últimos anos têm sido referidos como a razão pela qual o país teria passado relativamente incólume pela “primavera árabe”. O governo teme fazer mudanças que sejam impopulares – diz Raghu Mandagolathur, do Kuwait Financial Centre, um banco de investimentos..

Fato que não se pode deixar de ver, contudo, é que os estados do Golfo fracassaram em todos os objetivos de política externa que criaram para eles mesmos, há seis anos. A Arábia Saudita e seus aliados e procuradores fracassaram ao não conseguir reverter o “renascimento” do Irã, como o chamou o Professor Hossein Mousavian; fracassaram ao não conseguir destruir o Hezbollah, nem a Síria, nem Malaki no Iraque, nem, em geral, a “frente da Resistência” (exceto o Hamás). Os estados do Golfo já não têm a influência que tiveram no Líbano ou no Iêmen; a Líbia está reduzida ao caos total, e o Egito já avança pelos primeiros estágios, também, rumo ao caos.

O que os sauditas têm hoje pela frente é a realidade de que a primazia regional deles (e do CCG) está, muito provavelmente, acabada. Um novo equilíbrio está emergindo – com o Irã no polo oposto – mas, em vez de ter construído algum modus vivendi com essa nova realidade, os sauditas se posicionaram profundamente contra ela – e contra, também três nações historicamente poderosas, que têm economias, exércitos e recursos (tanto materiais como em termos de população) para efetiva ação política: o Irã, o Iraque e a Turquia.

A principal realização dos sauditas em todo esse período foi manter o Ocidente tão intimamente alinhado ao lado dos estados sunitas e seus interesses. Mas a avaliação que se vai disseminando, de o quanto esse grupamento de monarquias depende de jihadistas como “nosso exército”, já está pondo também essa “realização” sob forte estresse.




[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.