Restos do naufrágio que matou mais de 300 migrantes africanos no Mediterrâneo
Todos recordam a coalizão OTAN/AFRICOM [Organização do Tratado do Atlântico Norte / Comando dos EUA na África] de vontades, “comandada” pelo rei Sarkô I da França, com o presidente Barack Obama dos EUA “liderando da retaguarda”, e o mote “Viemos, vimos, ele morreu” cunhado por uma ex-Secretária de Estado, hoje candidata à presidência dos EUA, com US$ 2,5 bilhões para gastar na campanha.
Pois bem, essa fabulosa coleção de imperialistas humanitários ainda está solta, agora matando – por procuração – nas águas do Mediterrâneo, também conhecido como “Club Med”, também conhecido como Mare Nostrum, depois de os mesmos imperialistas humanitários terem destruído um estado viável – a Líbia, república árabe secular – sob o falso pretexto de que estariam impedindo “um genocídio”.
Perguntado sobre o assunto hoje, uma vez que anda pontificando pontifica sobre o genocídio dos armênios, esse patético arremedo de Secretário-Geral da ONU, Ban-Ki Moon[1] talvez dissesse que o potencial massacre na Líbia não poderia – e a palavra decisiva aqui é “poderia” – de modo algum ser descrito nem como “crime atroz” [a definição genérica, pela ONU de três crimes: genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra(NTs)]
Os seis meses de ininterrupto bombardeio humanitário contra a Líbia, concebido para impedir que se consumasse um “crime atroz” absolutamente hipotético e improvável, terminou por “libertar” dessa vida para o outro mundo pelo menos 10 vezes mais pessoas que todas as escaramuças prévias entre tropas do coronel Gaddafi e “rebeldes” armados, a maioria dos quais milícias islamistas linha-duríssima, que hoje também já estão bem “libertadas” para disseminar o inferno dos jihadistas, da Líbia, no leste, até a Síria, no norte.
Os praticantes do imperialismo humanitário criaram, como lhes interessava, uma terra arrasada “libertada” – o que eles chamam de “vitória” – atravessada por milícias armadas; instalaram ali o mais absoluto caos, que alcança grande parte do Magreb e da África Ocidental, e desencadearam massiva crise humanitária.
Encalhados no MENA (Middle East-North of Africa)
O imperialismo humanitário que se vê aplicado à área que o Pentágono adora definir como MENA (Middle East-Northern Africa) [Oriente Médio-Norte da África] – da Líbia ao Iraque, Síria e agora também Iêmen, além das subguerras por procuração no Mali, Somália e Sudão – levou, segundo a Anistia Internacional, “ao maior desastre com refugiados desde a IIª Guerra Mundial”. A Anistia estima que, até 2014, não menos de 57 milhões de pessoas foram convertidas em refugiados.
Barco com migrantes de porto africano
Uma subtrama crucialmente importante é que, segundo a Organização Internacional sobre Migração [orig. International Organization on Migration (IOM)], o número de refugiados que morrem na tentativa de penetrar na Fortaleza Europa aumentou mais de 500% entre 2011 e 2014.
É que o imperialismo humanitarista, como o aplica o Pentágono/ OTAN/ AFRICOM, entregou as águas do Club Med ao reais vencedores: uma vasta rede de traficantes de seres humanos que inclui contrabandistas, policiais corruptos e até muitos “tera-ristas”.[2]
Em toda a Europa, só a Itália – para mérito dela – está indignada e disposta a receber pelo menos uma fração, de fato bem poucos, do massacrado povo africano dos botes. Afinal, o privilegiado porto de partida deles é a “libertada” Líbia, e o privilegiado porto de chegada é a Sicília italiana. França, Alemanha, a Grã-Bretanha e a Suécia vêm depois da Itália, com propostas ainda mais modestas.
Essa afásica parede de silêncio da UE/OTAN deve-se ao fato de que a Europa está convertida em saco de gatos de partidos políticos anti-imigrantes. Afinal os pressupostos imigrados são bodes expiatórios perfeitos. Como “nacionalistas” assustadiços os definem, eles achatam os salários; vivem dos serviços públicos; quase todos eles são criminosos; reproduzem-se como coelhos; destroem a “identidade nacional”; e, claro, há tantos “tera-ristas” entre eles, todos interessados em submeter a Europa ao chador e à lei da Xaria.
Dificilmente essa União Europeia assustada, devastada pela “austeridade”, subjugada pelo autoritarismo militarista da OTAN conseguirá mobilizar suficiente desejo e força para construir uma política comum, que dê resposta à tragédia do Club Med putrefato, afogado numa tsunami de cadáveres africanos. Grande parte da União Europeia, de fato, já suspendeu a Operação Mare Nostrum – e optou por policiar/controlar as águas da Fortaleza Europa, em vez de agir por princípios humanitários.
Chame a cavalaria de drones
Proposta modesta implica bombardear os barcos dos contrabandistas [de migrantes] ainda nos portos de origem, antes que se encham de sua trágica carga humana; sob a proteção da ONU, estabelecer ao longo do litoral “libertado” da Líbia estações de socorro humanitário para triar os elegíveis para receber asilo político na União Europeia; facilitar para esses a viagem por ar ou mar para as nações dispostas a recebê-los; ou – servindo-se da metodologia dos EUA – dronar o “inimigo” até reduzi-lo a farelo, os contrabandistas e seus financiadores. Afinal de contas, os drones norte-americanos são especialistas no assunto, operando sobre a tal para sempre infame “lista de matar” sob as ordens de Obama, e sem que a lei internacional tome conhecimento.
Isso, contudo, jamais acontecerá. Como Nick Turse demonstra em livro recente que abre novos caminhos, a Líbia foi apenas a primeira guerra do AFRICOM (depois transferida para a OTAN, como examinei); o Pentágono tem planos muito mais sórdidos no seu crescente pivoteamento para a África.
Enquanto isso, aquelas gangues fabulosamente ricas em petróleo e gás no Golfo Pérsico – os mesmos que estão comprando todos os signos ostensivos de luxo entre Paris e Londres – estão ocupadas “criando” o cerne na maior crise de refugiados desde a IIª Guerra Mundial: na Síria, teatro privilegiado da próxima guerra daquelas mesmas gangues, contra o Irã.
E a hacienda de petróleo da Casa de Saud, com o Império do Caos “liderando pela retaguarda”, mas fornecendo as bombas, os jatos bombardeiros, a inteligência e a escalada (graças a nove naves de guerra dos EUA já despachadas para águas do Iêmen) – também está muito ocupada dando andamento à sua bombástica “Tempestade Decisiva” contra a mais pobre das nações árabes do planeta, preparando a cena para outro capítulo da crise de refugiados sempre em crescimento.
No Afeganistão, os Talibã já anunciaram que a nova ofensiva da primavera começa nessa 6ª-feira (24/4/2015); a OTAN, cujo traseiro coletivo já foi chutado a valer por um punhado de Talibã armados com Kalashnikovs falsificadas, não estará, sequer, “liderando pela retaguarda”.
No fundo do Mare Nostrum, metido nos uniformes de putrefata gala, jaz o cadáver da União Europeia/OTAN civilizada.
[2] Tentativa de traduzir “terarists”, que é transliteração do modo como Bush pronuncia a palavra “terroristas”. Todas as correções e sugestões são bem-vindas.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News NetworkTelevison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, noblog redecastorphoto.
Os que dizem que a chamada “Doutrina Obama” de política exterior foi, na melhor das hipóteses, amorfa e conflitante, veem a possibilidade de um governo Hillary Clinton, como ainda mais danosa para a política exterior dos EUA. Agora que a ex-Secretária de Estado já anunciou formalmente que é candidata à presidência dos EUA, especialistas dedicam-se a dissecar as decisões dela enquanto comandava a diplomacia dos EUA. Entre aquelas decisões estão não só os mais gritantes fracassos da política exterior de Obama, como resultado direto do agitar de sabres e da diplomacia temerária da Sra. Clinton, mas também sinais gritantes da avidez com que ela sempre quis engajar-se em operações, assemelhada à conhecia obsessão por revoluções de George Soros. Tudo isso preocupa muitos diplomatas, temerosos de que um governo Hillary Clinton – com o marido como “embaixador itinerante” – venha a castigar ainda mais o mundo, com mais desse mesmo aventureirismo intervencionista norte-americano.
Quando Obama já quase havia sido convencido a envolver militarmente os EUA na guerra na Síria, empurrado pela doutrina da “Responsabilidade de Proteger”, R2P, de Hillary, e desenvolvida com a assistência da embaixadora dos EUA à ONU, Susan Rice, e da encarregada de Assuntos Multilaterais e Direitos Humanos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Samantha Power, Obama, parece, deu-se conta de que a tal Responsabilidade de Proteger era caminho certo para embrulhar os EUA em mais uma guerra sangrenta no Oriente Médio.
Se Obama tivesse desconsiderado ‘'conselhos'’ das mesmas Clinton, Rice & Power quanto a operações anteriores de “R2P” na Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen, não haveria hoje o Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL) na Síria e Iraque, nem seus muitos ramos na Líbia, Tunísia, Iêmen e Egito.
Hillary Clinton apoiou terrotistas na Líbia
Hillary Clinton na presidência não apenas promoverá mais causas de R2P e trará mais instabilidade para o mundo, mas, também, sem dúvida, ela também promoverá sua secretária de estado assistente, que a própria Hillary selecionou a dedo, Victoria Nuland, o cérebro (?) por trás do golpe de estado da Praça Maidan na Ucrânia, que fez mais para desestabilizar a Europa do que qualquer outra pessoa, desde quando Ronald Reagan introduziu mísseis cruzadores com ogivas nucleares na Europa Ocidental, nos anos 1980s.
A Sra. Clinton pode, inclusive, encontrar algum trabalho de alta política externa para o marido da Nuland, Robert Kagan da Brookings Institution, um dos arquitetos neoconservadores da invasão e ocupação do Iraque pelos EUA, redator da autorização para guerra, que o senado aprovou em 2002, e a favor da qual a Sra. Clinton votou, quando senadora por New York.
Outras das acólitas de Hillary no Departamento de Estado, que se empenhou para conseguir que a política externa dos EUA retrocedesse décadas, por causa das ações de intervencionismo agressivo, é Roberta Jacobson, secretária de Estado assistente para questões do Hemisfério Ocidental, que irritou a Venezuela ao chamar o país de “ameaça” à segurança nacional dos EUA, na véspera da chegada de Obama para participar da Cúpula das Américas no Panamá. Obama e Jacobson foram forçados a voltar atrás na posição dos EUA sobre a Venezuela, por causa do coro de críticas que receberam de vários presidentes latino-americanos e do Caribe.
Hillary Hitler
Claro que o reinado da Sra. Clinton no Departamento de Estado incluiu também o apoio que ela deu a um golpe militar que depôs o presidente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, em 2009.
Então secretária de Estado, Clinton apoiou apaixonadamente o golpe contra Zelaya que foi coordenado até pelo embaixador que ela pusera em Tegucigalpa, Hugo Llorens, cubano-americano e diplomata de carreira com laços com a extrema direita da comunidade de cubanos no sul da Flórida. Apesar de o próprio embaixador dos EUA ter dito, depois do golpe, em telegrama a Clinton, que a ação era ilegal, nos termos da constituição de Honduras, Clinton recusou-se a cortar a ajuda financeira à junta que tomara o poder em Honduras. A Sra. Clinton sempre se recusou a chamar de golpe o golpe que derrubou Zelaya, porque esse ‘reconhecimento’ obrigaria os EUA a cortar a assistência à junta militar. Llorens não poderia ter sido mais claro em telegrama confidencial, depois do golpe, que enviou a Clinton, e que adiante WikiLeaks divulgou para conhecimento público:
“Independente dos méritos das alegadas violações que Zelaya tivesse cometido, é perfeitamente claro, mesmo com leitura [da Constituição de Honduras] apenas superficial, que a remoção do presidente por força militar foi ilegal, e até os mais fervorosos defensores do golpe não conseguiram encontrar argumento para preencher o vácuo que há entre ‘Zelaya infringiu a lei’ e ‘portanto foi despachado pelos militares para a Costa Rica, sem qualquer julgamento’.”
Hillary Clinton
Apenas poucos dias antes de Clinton anunciar sua candidatura à presidência, por vídeo distribuído pela Internet, Obama disse a líderes americanos que estavam acabados os “dias de intromissão” dos EUA em assuntos da América Latina. Mas apenas seis anos antes, a secretária de Estado de Obama muito se intrometera em Honduras, aprovando e promovendo um golpe contra o presidente legítimo. Depois, veio um “golpe constitucional” (sic) contra Fernando Lugo presidente eleito do Paraguai em 2012, com a Sra. Clinton no posto de secretária de Estado. E também houve tentativas de golpe, durante o mandato da Sra. Clinton, contra os presidentes da Bolívia e do Equador, além, das várias tentativas de golpe contra o presidente Nicolas Maduro da Venezuela.
Clinton sempre tentará encobrir o papel que ela teve no golpe em Honduras, mas foi papel muito significativo. Ela encontrara-se com Zelaya na cúpula da Organização dos Estados Americanos em San Pedro Sula, Honduras, apenas poucas semanas antes do golpe. O falecido presidente Hugo Chávez da Venezuela e Evo Morales, presidente da Bolívia, disseram que o golpe jamais teria acontecido sem apoio ativo do Comando Sul dos EUA em Miami, bem como dos militares norte-americanos estacionados na base aérea Soto Cano-Palmerola em Honduras. Zelaya incomodou o Pentágono, quando anunciou planos para transformar aquela base aérea em um aeroporto internacional. Muitos dos altos comandantes militares de Honduras, inclusive todos os que organizaram e desencadearam o golpe, foram treinados no conhecido Western Hemisphere Institute for Security Cooperationem Fort Benning, Georgia, a antiga “Escola das Américas”, e claramente obedeceram ordens do Pentágono, como cachorros que esperam por um osso.
Clinton riu: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu”
Nada provavelmente ilustra melhor a perfídia de Hillary Clinton, que o noticiário de outubro de 2011. Todas as redes de TV do mundo mostraram que, ao comentar o assassinato brutal do líder líbio Muammar Gaddafi, Clinton riu: “Nós viemos, nos vimos, ele morreu”.
Durante a campanha presidencial de 2007, a Sra. Clinton voou várias vezes em atividades de campanha num avião Air Rutter International Gulfstream II (número na cauda N216RR). O Air Rutter pertencia a um doador da campanha da Clinton, Arik Kislin, filho de Sam (Semyon) Kislin, rico emigrado de Odessa, Ucrânia, instalado em New York. A INTERPOL noticiou que a empresa Trans Commodities, Inc. de Sam Kislin tinha ligações com dois conhecidos gângsteres uzbeques, Lev e Mikhail Chernoy, israelenses. Sam Kislin é conhecido apoiador da organização United Jewish Appeal e de Israel. Um dos problemas com a candidatura de Hillary Clinton é que ela, como seu marido mulherengo leviano, sempre estão a um passo de algum escândalo.
Por exemplo, dia 1/10/2007, o New York Post noticiou que um ex-empregado da Air Rutter, Mark Billey, que depois seria preso acusado de abusar de crianças, declarara que vira vários policiais federais norte-americanos, armados, circulando pelas instalações da empresa Air Rutter, em Long Beach. Isso, precisamente quando o avião da mesma empresa levava a candidata Clinton por todo o país. (...)
Claro que, na próxima campanha, continuarão as ‘solicitações’ do casal Clinton, a governantes de outros países, para que doem dinheiro à “Clinton Foundation”, que o casal mantém –, se os Clintons querem mesmo voltar a morar no número 1.600 da Avenida Pennsylvania.
Os Clintons nomearam mais um FANTOCHE no Haiti e continuam no LUCRO.
Bill Clinton construiu negócio muito lucrativo, de receber massivas quantidades de dinheiro doado a países devastados por terremotos e tsunamis, como Indonésia e Haiti. Pelo que se sabe do caso do Haiti, bem pouco do dinheiro destinado aos sobreviventes do terremoto chegou algum dia aos destinatários.
Se Hillary Clinton for eleita “a primeira mulher a presidir os EUA”, muitas das crianças que estão nascendo hoje em todo o mundo talvez não estejam vivas para festejar o quarto ou quinto aniversário. Os inocentes serão os que mais sofrerão com a doutrina Hillary na presidência: “Viemos, vimos, todos morreram”.
[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al Jazeera, Strategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC
Nova sede do Banco Central Europeu em Frankfurt (em construção)
A cidade de Frankfurt, na Alemanha, é o maior centro financeiro da Europa e abriga a Bolsa de Valores do país, incontáveis outras instituições financeiras e a sede do Banco Central Europeu (BCE), responsável pela administração da política monetária das 18 nações da Eurozona. O lugar ferve de tanto dinheiro, como se vê pelo riquíssimo novo prédio-sede do BCE, que está custando uma fortuna.
O preço original do enorme palácio do BCE esteve estimado em 500 milhões de euros, cerca de 550 milhões de dólares, mas a conta, já se sabe, chega a 1,3 bilhões de euros (£930 milhões; US$ 1,4 bilhões). Esse fiasco escandalosamente caro foi coordenado pelas mesmas pessoas às quais cabe comandar os rumos financeiros de 18 nações e seus 500 milhões de desgraçados cidadãos. Se os talentos do BCE para administrar as próprias contas são os mesmos com que administra o dinheiro da Europa, se controla gastos pelo mundo, como controla a construção das suas duas novas torres monstro, então a Europa entrou em trilha de desastre certo.
Muito estranhamente, o BCE não é o único que está pagando pelo boom de construções burocráticas na Europa. Há outra organização que tem sede na Europa e ambição só comparável à própria incompetência, que também está construindo prédio-sede majestosamente luxuoso e caro, com custos escandalosamente altos, sobre os quais reina o mais impenetrável silêncio “jornalístico”.
Quem comanda mais essa farsa vergonhosa é a OTAN, Organização de EUA-Canadá-Europa do Tratado do Atlântico Norte, que está caindo fora do Afeganistão ainda lambendo as próprias feridas, depois de ter tentado derrotar um bando de milicianos calçados com sandálias e vestidos em farrapos, que deram muito trabalho às super tecnológicas forças do “ocidente”, numa guerra cujo resultado se podia prever facilmente. Mas o fracasso no Afeganistão não serviu para dar melhor foco aos zelosos líderes da OTAN, que agora se puseram a provocar a Rússia, na tentativa de encontrar alguma justificativa para a existência daquele seu dinossauro em cacos, sangrando por mil feridas e derrotado.
O problema da OTAN não é só perder as guerras em que se intromete, mas que, depois de cada guerra em que é derrotada, a OTAN imediatamente se põe a procurar novas guerras nas quais se intrometer — a ser comandadas do alto do novo prédio-mamute coberto de lantejoulas e desavergonhadamente caro, com custos que já ultrapassaram todas as provisões.
Guerra como todas as guerras da OTAN
A operação “Protetor Unificado” da OTAN para derrubar o líder líbio Muammar Gaddafi envolveu massiva blitz aérea, de 9.658 ataques aéreos que culminaram com o assassinato de Gaddafi — e causaram o colapso da Líbia, entregue a bandos de fanáticos tresloucados do bárbaro Estado Islâmico que, hoje, já se constituíram e estabeleceram-se.
Líbia antes e depois da “intervenção humanitária”
dos EUA - União Europeia e OTAN
(clique na imagem para aumentar)
Apesar do horror da catástrofe que a OTAN gerou na Líbia, é impossível não rir do trabalho de Ivo H. Daalder e James G Stavridis, que, em 2012, publicaram análise “aprofundada” na revista Foreign Affairs sob o título de “A vitória da OTAN na Líbia”. Os dois “sábios” escreveram que:
(...) a operação da OTAN na Líbia foi saudada, com justiça, como uma intervenção modelo.
O envolvimento da OTAN na Líbia demonstrou que a aliança ainda é fonte essencial de estabilidade.
(...) A OTAN talvez ainda demore uma década, para replicar sucesso equivalente ao que obteve na Líbia. Os membros da OTAN devem portanto usar a reunião de cúpula de Chicago para fortalecer a aliança e assegurar que a partilha dos sacrifícios que tão bem funcionou na Líbia – e continua a funcionar bem no Afeganistão hoje – passe a ser a regra, não a exceção.
Fato é que absolutamente nada funciona bem, nem na Líbia, nem no Afeganistão hoje, dois anos depois da aplicada defesa feita por Daalder-Stavridis da tal “a partilha dos sacrifícios”, e é óbvio que a OTAN foi e ainda é o oposto de “fonte de estabilidade” nesses dois desgraçados países.
(...) a OTAN vai aumentar o número de soldados no Afeganistão para 15 mil e seu secretário-geral diz que, em vez de atuar como força de manutenção da paz, os soldados da aliança assumirão as funções de combate que competiam aos soldados dos EUA, o que é perfeita loucura.
(...) a insurgência no Afeganistão continuará até que todas as tropas estrangeiras saiam do país, não importa a nacionalidade delas. Depois de algum tempo, o governo de Cabul entrará em colapso e haverá anarquia, até que algum senhor-da-guerra, brutal, sem lei, milionário do ópio e da heroína, chegue ao poder. Ele governará o país como sempre foi governado pelos afegãos: com ameaças, ferocidade religiosa, chantagem, corrupção e selvageria total, em todos os campos onde seja possível governar assim sem revide. E a mais recente ocupação estrangeira será também lembrança e nada mais.
O número de soldados de EUA-OTAN no Afeganistão foi reduzido, de um pico de 130 mil, para cerca de 13 mil, dos quais 10 mil são norte-americanos, mas o novo QG da OTAN em construção em Bruxelas só cresce em tamanho e custos. O orçamento aprovado para o complexo-gigante era de 460 milhões de euros (US$ 500 milhões) em 2010; hoje já ultrapassa € 1,25 bilhões, cerca de US$ 1,4 bilhões de dólares.
Quartel-General da OTAN em Bruxelas (em construção)
A revista alemã Der Spiegelnoticiou em janeiro que o escândalo dos custos gigantes estava sendo mantido em segredo por todos os governos que contribuem para manter a OTAN. Um telegrama vazado do embaixador alemão explicava que, numa reunião de representantes da OTAN em dezembro passado,
(...) falou-se do efeito desastroso para a imagem da aliança, se a construção tivesse de ser suspensa e a OTAN aparecesse como incapaz de levar a cabo, no prazo previsto, um projeto de construção decidido e aprovado em reunião dos presidentes dos países que constituem a OTAN desde abril de 1999, em Washington. O risco de novos aumentos nos custos já é palpável.
A solução para o problema de imagem que a própria OTAN criou para ela mesma era simples: todo o pessoal responsável por administrar os negócios de uma aliança militar que envolve 28 países, 3,5 milhões de combatentes armados e 5 mil armas nucleares resolveu que, atendendo a pedidos do Secretário-Geral, todos tratariam “confidencialmente” do escândalo. Em outras palavras, os gastos que ultrapassam qualquer previsão no cronograma de construção estão sendo deliberadamente ocultados da opinião pública, na esperança de que os executivos da OTAN não sejam expostos como incompetentes.
Enquanto isso, ao mesmo tempo em que tentam esconder as próprias falhas, erros e fracassos no gerenciamento de negócios simples de gerência básica, os chefes da OTAN põem-se a pular na frente da Rússia, tentando persuadir o mundo que o presidente Putin estaria montando uma invasão vinda do leste. O ponto focal dos temores-pânicos que a OTAN manifesta é o mesmo do regime corrupto e caótico no poder na Ucrânia, que tem sérias discordâncias com a Rússia, motivo pelo qual é furiosamente apoiado pelos EUA, a ponto de os EUA deixarem-se envolver em todos os tipos de distorções, ameaças e mentiras.
Como se leu no britânico Daily Telegraph dia 4/3/2015, o comandante das tropas dos EUA na Europa, general Frederick “Ben” Hodges, acusou a Rússia de ter infiltrado 12 mil soldados em território do leste da Ucrânia – o que é mentira e nonsense irresponsável.
Hodges trabalhou como oficial de ligação entre o exército e o Congresso em Washington, quando, obviamente adquiriu o gosto da ostentação política. Foi o que se viu num discurso político, do tipo que generais não têm autorização para fazer, em que Hodges disse que:
Temos de aumentar o custo para Putin. No momento, ele tem 85% de apoio doméstico. Mas quando as mães começarem a receber os cadáveres dos filhos, quando o custo aumentar, o apoio doméstico desabará – fala que é tão ofensiva quanto é hostil.
Em fevereiro, o Wall Street Journal noticiou novas palavras de Hodges:
Acredito que os russos estão-se mobilizando nesse exato momento, para uma guerra que eles supõem que acontecerá dentro de cinco, seis anos, mas acho que já perceberam que as coisas acontecerão, e que haverá algum tipo de guerra, em alguma escala, contra alguém, dentro dos próximos cinco, seis anos.
Não se pode saber que interpretação o Presidente Putin dará a isso, mas não há dúvidas de que os modos belicosos de Hodges não ajudam a persuadir Moscou de que a coalizão EUA-OTAN dará um passo, que seja, para modificar sua política de incansável beligerância.
Outros líderes da OTAN falaram também em termos igualmente ameaçadores, para convencer o público da Europa Ocidental de que a Rússia teria atacado a Ucrânia.
Mas, afinal, ainda que a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, nem EUA nem OTAN teriam qualquer coisa a ver com a questão.
A coalizão EUA-OTAN espertamente ignora (e ensina a ignorar) o fato de que a Ucrânia não é estado membro, nem da União Europeia, nem da OTAN e que, portanto, não há tratado de tipo algum com qualquer nação do planeta que exija que EUA ou OTAN garantam apoio político, econômico ou militar, no caso de disputa bilateral com qualquer outro país. Pois apesar disso, a OTAN “encampou” o conflito entre Ucrânia e Rússia para “justificar” sua política de incansáveis hostilidade e provocação contra Moscou.
A OTAN deveria ter sido extinta imediatamente depois do colapso da União Soviética, porque a ameaça soviética era a única razão para sua existência; mas decidiu ampliar o número de membros e a presença militar cada vez mais próxima das fronteira da Rússia. Não surpreende que a Rússia preocupe-se muito com as intenções da OTAN, sempre que a coalizão flexiona os músculos à procura de novos conflitos existentes ou inventados.
Philip Breedlove (Strangelove?)
O Comandante da OTAN, general norte-americano Breedlove, também tem contribuído ativamente para aumentar as tensões e os temores na Europa, sempre a disparar ‘alertas’ contra supostas manobras russas. Dia 5/3/2015 entregou-se, de vez, ao delírio, e, sem nem um fiapo de prova, anunciou que a Rússia deslocara
(...) bem mais de mil veículos de combate, além deforças de combate, alguns de seus batalhões de artilharia de mais sofisticada defesa aéreapara dentro da Ucrânia.
Esse pronunciamento foi semelhante a outro, de deslavada mentira, quando, dia 18/11/2014, o mesmo general declarou ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung que havia “unidades regulares do exército russo no leste da Ucrânia”.
A onda de propaganda anti-Rússia gerada pela OTAN, de confrontação e tentativas de intimidar, só aumentou e se a OTAN persistir nesse curso, é muito provável que Moscou decida agir, o que só fará aumentar muito todos os riscos e perigos já existentes. É mais que hora de as nações que constituem a OTAN aceitem a realidade de que a Rússia é das principais potências internacionais, com interesses legítimos na sua própria região. É claro que Moscou não se ajoelhará, assustada com ameaças tolas, imaturas, do mais patético agitar-os-sabres de generais norte-americanos e seus aliados vacilantes.
É mais que hora de a OTAN começar a construir laços, em vez de destruir qualquer laço existente — e a construir pontes políticas, em vez de construir escritórios coruscantes e escandalosamente caros.
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[*] Brian Cloughley estuda e escreve sobre os países do sul da Ásia há mais de 30 anos. Atualmente é o Analista de Defesa mais credenciado para a região escrevendo para o IHS/Jane’s Sentinel, Country Risk, Couterpunch, Reuters e muitas outras publicações e Agências de Notícias, cobrindo o Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Nepal, Paquistão e Sri Lanka com relatórios mensais. Outras das suas tarefas são a análise e atualização sobre armas nucleares, biológicas, químicas e radiológicas desenvolvidas na região para Grupo Informativo IHS do Jane’s Sentinel. Ele e sua esposa, Margaret, residem na França, na pequena aldeia de Voutenay sur Cure, na Borgonha.
O recente aniversário de 70 anos da libertação de Auschwitz faz lembrar o grande crime do fascismo, cuja iconografia nazista está impregnada em nossa consciência. O fascismo é preservado como história, fragmentos de filmes de camisas negras [no Brasil “camisas verdes” (Nrc)] e passo de ganso, a criminalidade ali, terrível e clara. Mas nas mesmas sociedades liberais, de elites viciadas, dependentes, de guerras, que falam de nunca esquecer o fascismo de antes, oculta-se cuidadosamente o crescente perigo de um tipo contemporâneo de fascismo; porque é o fascismo dessas mesmas elites.
Iniciar guerra de agressão (...) – disseram os juízes do Tribunal de Nuremberg em 1946 – não é crime internacional simples; é o supremo crime internacional, diferente de outros crimes de guerra, porque contém nele o mal acumulado de todos os demais.
Se os nazistas não tivessem invadido a Europa, Auschwitz e o Holocausto não teriam acontecido. Se os EUA e seus satélites não tivessem iniciado a sua guerra de agressão contra o Iraque em 2003, quase um milhão de pessoas não teriam morrido; e o Estado Islâmico, ouISIS, ISIL ou Daesh, não nos teria encurralado em sua selvageria. São os rebentos do fascismo moderno, inflado pelas bombas, massacres, banhos de sangue e mentiras que compõem o teatro surreal que se conhece como “noticiário”, “jornalismo” ou “informação”.
Como fez o fascismo dos anos 1930s e 1940s, distribuem-se mentiras com precisão de metrônomo: graças a uma empresa-imprensa onipresente e repetitiva e a violenta censura por omissão a que se chama “jornalismo”. Considere-se a catástrofe na Líbia.
Em 2011, a OTAN lançou 9.700 ataques [orig. “strike sorties”] contra a Líbia, dos quais mais de 1/3 tinham como alvo instalações civis. Foram usadas ogivas de urânio. As cidades de Misrata e Sirte foram implacavelmente bombardeadas até serem reduzidas a ruínas. A Cruz Vermelha identificou covas coletivas, e a Cruz Vermelha relatou que:
(...) a maioria [das crianças assassinadas pela OTAN] tinham menos de dez anos.
(...)
Secretamente treinados e abastecidos pelo Special Air Service (SAS) britânico, muitos dos “rebeldes” se integrariam adiante ao ISIS, cujo mais recente vídeo mostra a degola de 21 trabalhadores cristãos coptas presos em Sirte, a cidade destruída para salvá-los por bombardeios da OTAN.
Líbia antes e depois dos bombardeios "humanitários"dos EUA-OTAN (clique na imagem para aumentar)
Para Obama, Cameron e Hollande, o verdadeiro crime de Gaddafi foi a independência econômica da Líbia e sua declarada intenção de parar de vender em dólares norte-americanos a maior reserva de petróleo da África. O petrodólar sempre foi um dos pilares do poder imperial dos EUA.
Gaddafi planejou audaciosamente subscrever uma moeda africana comum que teria lastro em ouro; criou um banco africano e promoveu a união econômica de países pobres, mas ricos em recursos naturais valiosos. Viesse tudo isso a se concretizar ou não, a simples noção era inadmissível para os EUA quando se preparava para “entrar” na África e subornar todos os governos africanos com “parcerias” militares.
Depois do ataque pela OTAN, acobertado por uma Resolução do Conselho de Segurança, Obama, escreveu Garikai Chengu, e:
(...) confiscou [na realidade ROUBOU (Nrc)] US$30 bilhões em barras de ouro do Banco Central da Líbia, que Gaddafi reservara para criar um Banco Central Africano e o dinar, moeda africana que teria lastro ouro.
O Modelo Kosovo
A “guerra humanitária”[1] contra a Líbia baseou-se num modelo muito caro ao coração dos liberais ocidentais, especialmente nas empresas-imprensa. Em 1999, Bill Clinton e Tony Blair mandaram a OTAN bombardear a Sérvia, porque – mentiram eles – os sérvios estariam cometendo “genocídio” contra os albaneses étnicos na província secessionista do Kosovo.
David Scheffer, embaixador at-large dos EUA para crimes de guerra (só rindo), disse que
(...) número bem próximo de 225 mil homens albaneses étnicos, com idades entre 14 e 59 anos podem ter sido assassinados.
A dupla Clinton e Blair pôs imediatamente a evocar o Holocausto e o “espírito da IIª Guerra Mundial”.
Os heroicos aliados do ocidente foram o Exército de Libertação do Kosovo [orig. Kosovo Liberation Army (KLA), cujo currículo de assassinatos foi esquecido. O Secretário de Assuntos Exteriores da Grã-Bretanha, Robin Cook, deixou com eles o número de seu telefone, com instruções para que chamassem a qualquer hora que precisassem, diretamente, pelo celular.
Belgrado bombardeada pelos EUA-OTAN em 1995
Terminado o bombardeio – ação da OTAN – e com praticamente toda a infraestrutura da Sérvia em ruínas, além de escolas, hospitais, monastérios e da rede nacional de televisão, desceram em Kosovo equipes internacionais de investigadores e especialistas, para exumar as provas do “holocausto”. O FBI não encontrou nenhuma cova coletiva das que tanto se falava e voltou para os EUA. A equipe de especialistas espanhóis tampouco encontrou prova alguma de “holocausto” algum e também voltou para casa, não sem antes denunciarem, zangados, “a pirueta semântica em que nos envolveram as máquinas de propaganda pró-guerra”.
Um ano depois, um tribunal da ONU sobre a Iugoslávia anunciou o número real de mortos no Kosovo: 2.788. Esse número incluía combatentes dos dois lados e sérvios assassinados pelo KLA. Jamais houvera ali genocídio algum. O “holocausto” não passou de mentira. O ataque da OTAN, no Kosovo, foi fraudulento.
Mercados em expansão
Por trás da mentira, há objetivos muito sérios. A Iugoslávia foi federação com características específicas e únicas, multiétnica, que se impôs como uma ponte política e econômica na Guerra Fria. Muitos dos serviços e principais fábricas eram de propriedade pública. Isso não era absolutamente aceitável para a Comunidade Europeia então em expansão, especialmente para a Alemanha recém reunificada, empenhada em avançar para o leste e capturar seus “mercados naturais” nas províncias iugoslavas da Croácia e Eslovênia.
Quando os europeus reuniram-se em Maastricht em 1991 para traçar os planos para a desastrosa Eurozona, firmou-se um acordo secreto: a Alemanha reconheceria a Croácia. Foi a sentença de morte, para a Iugoslávia.
Em Washington, cuidaram para que a economia da Iugoslávia, que lutava para sobreviver, não recebesse empréstimos do Banco Mundial. A OTAN, então não mais que uma das relíquias já praticamente defunta da Guerra Fria, foi reinventada para servir como braço armado do império. Numa conferência de “paz” para o Kosovo em 1999, em Rambouillet, na França, os sérvios foram submetidos e entregues às táticas de dupla face do império ocupante.
O acordo de Rambouillet incluía um Anexo B, secreto, que a delegação dos EUA inseriu no último dia. Ali se exigia a ocupação militar de toda a Iugoslávia – país com memórias amargas da ocupação nazista – a implementação de uma “economia de livre mercado” e a privatização de todo o patrimônio do estado. Nenhum estado soberano poderia jamais assinar tal documento. E o castigo veio rápido: a OTAN bombardeou furiosamente um país indefeso. Foi o movimento precursor do que, na sequência, seriam as catástrofes no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia.
Intervenções norte-americanas
Desde 1945, mais de um terço dos países membros da ONU sofreram algum tipo ou todos os tipos seguintes de agressão pelas mãos do moderno fascismo norte-americano: 69 países membros da ONU sofreram invasão, tiveram governos derrubados, movimentos populares foram reprimidos, eleições foram manipuladas, a população civil sofreu bombardeios e as economias nacionais foram saqueadas, depois de perderem todos os seus mecanismos de proteção; ou as sociedades padeceram sob o mais ensandecido e violento regime de “sanções”. O historiador britânico Mark Curtis estima que os mortos nesses processos, somados, cheguem a milhões. Em cada caso, lá estava, em operação, alguma grande mentira.
Hoje, pela primeira vez desde o 11/9/2001, dá-se por encerrada nossa missão de combate no Afeganistão – foram as palavras de Obama, no discurso sobre o Estado da União de 2015.
Nada mais falso. A verdade é que algo entre 10 mil soldados e 20 mil mercenários armados contratados pelo Pentágono permanecem no Afeganistão, sem data para sair.
A mais longa guerra da história dos EUA está chegando a uma conclusão responsável – disse Obama.
Na verdade, mais civis foram mortos no Afeganistão em 2014 que em qualquer ano, em tempo algum nos registros históricos da ONU. A maioria dos mortos – civis e soldados – morreu durante a presidência de Obama.
A tragédia do Afeganistão rivaliza com o crime épico na Indochina. Em seu elogiado e muito citado O Grande Tabuleiro de Xadrez: O primado norte-americano e seus imperativos estratégicos [orig. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives], Zbigniew Brzezinski, padrinho das políticas dos EUA desde o Afeganistão até hoje, escreve que, se a América quer controlar a Eurásia e dominar o mundo, não pode manter uma democracia popular, porque:
(...) a busca do poder não é objetivo que mobilize a paixão popular (...).A democracia é inimiga da mobilização imperial.
Está coberto de razão.
Como WikiLeaks e Edward Snowden mostraram, um estado policial e de vigilância está usurpando a democracia. Em 1976, Brzezinski, então Conselheiro para Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter, demonstrou o que queria dizer desferindo golpe mortal contra a primeira e única democracia que o Afeganistão jamais conhecera. Quem conhece essa história crucial?
O momento luminoso do Afeganistão
Nos anos 1960s, uma revolução popular varreu o Afeganistão, o país mais pobre do mundo, derrubando, em 1978 os últimos vestígios do regime aristocrático. O Partido Democrático do Povo do Afeganistão [ing. People’s Democratic Party of Afghanistan (PDPA) formou um governo e declarou seu programa de reformas, que incluía a abolição do feudalismo, liberdade para todas as religiões, direitos iguais para as mulheres e justiça social para as minorias étnicas. Mais de 13 mil prisioneiros políticos foram libertados das cadeias em Cabul e outras cidades; todos os arquivos policiais foram queimados em praça pública.
O novo governo introduziu assistência gratuita à saúde para os mais pobres; aboliu o regime de servidão por dívidas [orig. peonage]; foi lançado programa de combate massivo ao analfabetismo. Para as mulheres, os avanços foram de magnitude jamais vista. No final dos anos 1980s, metade dos estudantes matriculados na universidade eram mulheres; metade do número de médicos que trabalhavam no Afeganistão eram mulheres, como um terço dos funcionários públicos e a maioria dos professores.
Cada moça, cada menina – recorda Saira Noorani, médica cirurgiã – era livre para estudar, ginásio, universidade. Podíamos ir onde quiséssemos, vestir a roupa que quiséssemos. Frequentávamos cafés e íamos ao cinema às 6as-feiras para assistir aos mais recentes filmes (quase sempre indianos), ouvíamos as músicas que quiséssemos. Tudo começou a desandar, quando osmujaheddin começaram a vencer a guerra. Matavam professores, queimavam escolas. Vivíamos aterrorizadas. É engraçado e triste pensar que o “ocidente” tanto apoiou aquela gente.
O governo do PDPA foi apoiado pela União Soviética, apesar do o ex-Secretário de Estado dos EUA, Cyrus Vance, ter admitido, depois, que “não há prova alguma de qualquer cumplicidade dos soviéticos [na revolução afegã]”. Alarmado com a confiança que crescia pelo mundo, com movimentos de libertação nacional, Brzezinski decidiu que, se o Afeganistão fosse bem-sucedido sob governo do PDPA, a independência e os avanços do povo afegão seriam “ameaça de exemplo a ser replicado”.
Moças numa biblioteca de Cabul em 1979
Dia 3/7/1979, a Casa Branca autorizou, em segredo, apoio dos EUA a grupos tribais “fundamentalistas” conhecidos como mujaheddin – programa que chegou a mais de US$ 500 milhões por ano em armas e outros tipos de ajuda que os EUA davam a terroristas, há quase 40 anos. O objetivo, então, foi derrubar o primeiro governo secular e reformista que nascera no Afeganistão.
Em agosto de 1979, a embaixada dos EUA em Cabul informou que “interesses mais amplos dos EUA serão mais bem atendidos se [o governo do PDPA passar por mudança de regime],apesar do retrocesso que isso possa vir a implicar para o futuro das reformas sociais e econômicas no Afeganistão”. [2] Os itálicos são meus.
Aqueles mujaheddin são o núcleo do qual nasceram a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Entre eles estava Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu dezenas de milhões de dólares em dinheiro da CIA. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico de ópio; também era dado a jogar ácido no rosto de mulheres que se recusassem a usar o véu. Convidado para visitar Londres, foi saudado pela Primeira-Ministra Margaret Thatcher como um “combatente da liberdade”.
Fanáticos desse tipo teriam continuado circunscritos nos respectivos mundos tribais, se Brzezinski não tivesse lançado o movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central para minar o processo político para uma transição secular e democrática naquela região do mundo; para, também, “desestabilizar” a União Soviética; criando, como escreveu em sua biografia, “uns poucos muçulmanos exaltados”.
Esse grande plano coincidiu com as ambições do ditador paquistanês, general Zia ul-Haq, para dominar a região. Em 1986, aCIA e a agência de inteligência do Paquistão, conhecida comoISI, começaram a recrutar pessoas de todo o mundo para unir-se à jihad afegã. Um dos recrutados então foi o multimilionário saudita Osama bin Laden.
Operadores que, adiante se uniriam aos Talibã e à al-Qaeda, foram recrutados num colégio islâmico no Brooklyn, New York, e receberam treinamento paramilitar dado pela CIA num de seus campos de treinamento em Virginia. Foi a chamada “Operação Ciclone” [orig.“Operation Cyclone”]. O sucesso dessa operação foi celebrado em 1996, quando o último presidente do governo doPDPA, o afegão Mohammed Najibullah – que discursara ante a Assembleia Geral da ONU, para pedir ajuda – foi enforcado num poste de luz pelos Talibã.
O “revide” da Operação Ciclone e daqueles “poucos muçulmanos exaltados” de Brzezinski foi o 11/9/2001. A Operação Ciclone converteu-se em “guerra ao terror”, na qual perderam a vida incontáveis homens, mulheres e crianças em todo o mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, Iêmen, Somália e Síria. A mensagem dos verdadeiros terroristas foi então, como continua a ser até hoje: “Ou estão conosco, ou estão contra nós”. Vídeo a seguir, em inglês:
Traços do fascismo
O traço comum de todos os fascismos, passados e presentes, é o assassinato em massa. A invasão dos EUA ao Vietnã teve “zonas de fogo livre”, “contagem de corpos” e “dano colateral”. Na província de Quang Ngai, onde eu estava como jornalista, muitos milhares de civis (“gooks”) foram mortos pelos EUA; mas só um, de incontáveis massacres, o massacre em My Lai, é lembrado.
No Laos e no Camboja, o maior bombardeio aéreo de toda a história da humanidade produziu uma era de terror marcada pelo espetáculo de fileiras de crateras que, fotografadas de cima parecem monstruosos colares. Esse bombardeio gerou para o Camboja o seu próprio ISIS, então liderado por Pol Pot.
Hoje, a maior campanha de terrorismo que o mundo jamais conheceu executa famílias inteiras, de convidados de casamentos, a famílias já enlutadas em funerais. São as vítimas de Obama. Segundo o New York Times, Obama seleciona os que serão assassinados durante a semana, marcando os nomes numa “lista de matar” que a CIA lhe apresenta às 3ª-feiras, na Sala de Situação na Casa Branca. É Obama quem decide, sem nem sinal de justificativa legal, quem vive e quem morre. A arma do carrasco nessas crimes de esquadrão-da-morte são mísseis Hellfire disparados de um drone (robô aéreo pilotado à distância). O morto é pulverizado. Cada morto é assinalado numa tela de computador como um “inseto esmagado” [orig. “bugsplat”].
Em vez dos passos-de-ganso temos agora a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E em vez do líder bombástico, temos o “reformador falhado” [orig. reformer manqué], que não para nunca, planejando e executando assassinatos. E sempre sorridente – escreveu o historiador Norman Pollack.
O excepcionalismo norte-americano
O que une o velho e o novo fascismo é o culto da superioridade de alguns.
Creio no excepcionalismo norte-americano com cada fibra do meu ser, disse Obama, evocando declarações do fetichismo nacionalista dos anos 1930s.
Como o historiador Alfred W. McCoy mostrou, foi Carl Schmitt, devotado seguidor de Hitler, quem disse que:
Obama em discurso "excepcionalista" em West Point (28/5/2014)
Que não seja ainda reconhecida como ideologia de predação é prova do sucesso também de uma campanha de propaganda de lavagem cerebral e fascistização. Insidiosa, não declarada, espertamente apresentada como avanço e ilustração em andamento, essa ideologia norteamericanista envenena já toda a cultura ocidental.
Cresci e fui educado sob rigorosa dieta fílmica, quando só se assistia a filmes de glorificação dos EUA e dos norte-americanos, praticamente todos eles versões distorcidas da história. Não tinha nem ideia de que a máquina de guerra nazista/fascista fora derrotada pelo Exército Vermelho, à custa da vida de 13 milhões de russos. Ao contrário, os EUA perderam, no Pacífico, menos de 400 mil soldados e mataram muito mais do que isso. Hollywood inverteu a história.
De diferente, hoje, que os públicos de cinema são convidados a se compadecer da “tragédia” de soldados psicopatas que matam profissionalmente em terras distantes – exatamente como o presidente mata ou deixa que matem os seus próprios soldados (além de civis aos milhares) por todo o mundo. Encarnação da violência hollywoodiana, o ator e diretor Clint Eastwood, foi indicado para um Óscar esse ano por seu filme American Sniper, sobre um assassino com alvará e munição gratuita para matar com precisão. O New York Times descreve o filme como “patriótico, pró-família, que quebrou todos os recordes de bilheteria no lançamento”.
Não há filmes heroicos sobre a fascistização dos EUA. Durante a IIª Guerra Mundial, os EUA (e a Grã-Bretanha) foram à guerra contra os gregos que haviam lutado heroicamente contra o nazismo e ainda resistiam contra o crescimento do fascismo grego. Em 1967, aCIA ajudou a levar ao poder uma junta militar fascista em Atenas – como também [colocaram MILICANALHAS no poder (Nrc)] no Brasil e em quase toda a América Latina.
Alemães e europeus do leste da Europa que se aliaram à agressão e aos crimes dos nazistas contra a humanidade sempre encontraram abrigo seguro nos EUA. Muitos foram estimulados e receberam recompensas por seus talentos ou por seus serviços. Werner von Braun foi o “pai” da bomba V-2 dos terroristas nazistas, e também do programa espacial dos EUA.
Nos anos 1990s, com as ex-repúblicas soviéticas, o leste da Europa e os Bálcãs já convertidas em postos avançados da OTAN, os herdeiros de um movimento nazista na Ucrânia encontraram sua oportunidade. Responsáveis pela morte de judeus, poloneses e russos durante a invasão nazista na União Soviética, os fascistas ucranianos foram reabilitados e essa “nova onda” nazista foi saudada pelos EUA como “nacionalistas”.
O Golpe na Ucrânia
Aquele processo alcançou o apogeu em 2014, quando o governo Obama consumiram US$ 5 bilhões de dólares para organizar o golpe que derrubaria o governo eleito da Ucrânia. As tropas de choque foram os neonazistas dos grupos conhecidos, Setor Direita (Pravy Sektor) e Svoboda. Entre os líderes neonazistas estavam Oleh Tyahnybok, que pregava o expurgo da “máfia Moscou–judeus” e “o resto da ralé” onde incluía gays, feministas e elementos da esquerda política.
Milicia do Setor Direita (Pravy Sektor) de Kiev
Todos esses fascistas integram hoje o governo golpista de Kiev. O primeiro vice-presidente do Parlamento ucraniano é Andriy Parubiy, co-fundador e hoje líder do partido governante Svoboda. Dia 14/2/2015, Parubiy anunciou que estava indo a Washington para “só retornar quando os EUA nos entregarem armamento moderno de alta precisão”. Se conseguir, a coisa será noticiada como mais um ato de guerra... da Rússia.
Nenhum líder ocidental falou contra o renascimento do fascismo no coração da Europa – com a única exceção de Vladimir Putin, Presidente da Rússia, a mesma Rússia que perdeu 22 milhões de cidadãos numa invasão nazista que chegou pelas fronteiras da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a Vice-Secretária Assistente de Estado para Assuntos de Europa e Eurásia, Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland, criticou furiosamente os líderes europeus que se opõem a os EUA armarem o governo de Kiev. Referiu-se ao Ministro da Defesa da Alemanha como “o ministro do derrotismo”.
Nuland foi o “cérebro” por trás do golpe em Kiev. Casada com Robert Kagan, luminar dos neoconservadores e co-fundador do Projeto para o “Novo Século Americano”, primeiro a falar a favor da invasão do Iraque, em 1998. Nuland foi conselheira para política exterior do vice-presidente Dick Cheney.
Mas o golpe de Nuland na Ucrânia não saiu conforme ela esperava. A OTAN foi bloqueada e não conseguiu ocupar a tradicional, histórica, legítima base naval de águas temperadas dos russos na Crimeia. A população crimeana, dominantemente russa – e ilegalmente anexada à Ucrânia por Nikita Krushchev em 1954 – votou com ampla maioria pela reintegração do país à Rússia, como já haviam feito antes, em 1990. O referendo foi livre, voluntário, limpo e observado por observadores internacionais. Não houve invasão.
Victoria "Foda-se a União Europeia" Nuland
Ao mesmo tempo, o regime de Kiev voltou-se para a população étnica russa no leste, com ferocidade de limpeza étnica. Servindo-se de milícias neonazistas, à moda da Waffen-SS, sitiaram e bombardearam vilas e cidades. Usaram a fome como arma de guerra, cortaram o fornecimento de energia, congelaram contas bancárias, cortaram o pagamento de aposentadorias e pensões.
Mais de um milhão de refugiados fugiu pela fronteira, para a Rússia. Na mídia ocidental, foram “noticiados” como gente que fugia da “violência gerada pela invasão russa”. O comandante da OTAN, general Breedlove — cujo nome e ações bem poderiam ter servido de inspiração para o Dr. Strangelove [Dr. Fantástico] de Stanley Kubrick – anunciou que 40 mil soldados russos invadiam “em massa”. Em tempos de vigilância planetária por satélite, ninguém viu coisa alguma. A “invasão” russa só existiu na fantasia do general.
Repressão contra os russos étnicos
O povo russo-ucraniano bilíngue que vive na Ucrânia – um terço da população – há muito tempo procura uma federação que reflita a diversidade étnica do país, e seja autônoma e independente de Moscou. A maioria não é “separatista”, mas cidadãos que preferem viver na segurança de seu estado histórico e cultural, não como vassalos de Kiev. A revolta e o desejo de criar “estados” autônomos são reação aos ataque de Kiev contra eles. Praticamente nada disso jamais foi explicado pelos jornais e televisões das empresas-imprensa aos públicos ocidentais.
Dia 2/5/2014, em Odessa, 41 russos étnicos foram queimados vivos no prédio do sindicato, com a polícia de longe, só assistindo. O líder do Setor Direita, Dmytro Yarosh, saudou o massacre como “mais um dia brilhante em nossa história nacional”. A “mídia” nos EUA e Grã-Bretanha repercutiu o evento como “terrível tragédia”, resultado de “confrontos” entre “nacionalistas” (de fato, são os neonazistas) e “separatistas” (de fato, são pessoas que organizam um referendo para aprovar a federalização da Ucrânia).
O New York Times enterrou a história, desqualificada como se fosse propaganda russa contra o que para os russos seriam políticas antissemitas do governo de Kiev. O Wall Street Journal culpou as vítimas. Obama parabenizou a Junta de Kiev[3]por sua “moderação”.
Se fosse possível provocar Putin até arrastá-lo a ir em ajuda dos ucranianos, o papel predefinido para ele, de “pária” justificaria a mentira de que a Rússia estaria invadindo a Ucrânia. Dia 29/1/2015, o principal comandante militar da Ucrânia, general Viktor Muzhemko, quase sem se dar conta, desmentiu a própria base das sanções dos EUA e da União Europeia contra a Rússia, quando disse, enfaticamente, numa conferência de imprensa, que “o Exército Ucraniano não está combatendo contra unidades regulares do Exército Russo”. Havia “cidadão individuais” que operavam como membros de “grupos ilegais armados”, mas absolutamente não se tratava de invasão russa. Nenhuma novidade, portanto.
Vadym Prystaiko, Vice-Ministro de Relações Exteriores de Kiev, chamava àquela situação de “guerra em escala total contra a Rússia nuclear”.
Dia 21/2/2015, o senador norte-americano, James Inhofe, republicano de Oklahoma, apresentou projeto de lei que autoriza o envio de armas norte-americanas para o regime em Kiev. Na apresentação ao Senado, Inhofe exibiu fotos que disse ser de tropas russas cruzando a Ucrânia, que se sabe, há muito tempo, que são imagens forjadas, recordação dos tempos em que Ronald Reagan exibia fotos falsas de uma instalação soviética na Nicarágua, e de quando Colin Powell mostrou na ONU provas falsificadas de que haveria armas de destruição em massa no Iraque.
A intensidade da campanha de difamação contra a Rússia, cujo presidente é mostrado como se fosse perfeito vilão em novelão de horário nobre é a mais espantosa que já vi em toda a minha longa experiência como repórter.
Robert Parry
Robert Parry, um dos mais conhecidos e respeitados jornalistas investigativos dos EUA, que revelou o escândalo dos Irã-Contra, escreveu recentemente que:
Nenhum governo europeu, desde o governo de Adolf Hitler na Alemanha nazista, teve a desfaçatez de mandar tropas de assalto nazistas em ataque contra o próprio povo. Pois o governo de Kiev fez exatamente isso, e sabendo bem o que fazia. E por todo o espectro político/jornalístico no ocidente o único movimento que se viu foi de acobertamento, para ocultar essa realidade, a ponto de ignorar até fatos muito bem conhecidos e comprovados.
(...)
Se você ainda não entendeu como o mundo pode estar-se encaminhando para uma guerra mundial três – muito semelhante ao modo como entrou na guerra mundial um há um século –, basta examinar a loucura que se concentra sobre a Ucrânia e que até agora continua a resistir contra todos os fatos e contra toda a racionalidade.
As lições de Nuremberg
Em 1946, o Procurador de Justiça do Tribunal de Nuremberg disse, da imprensa-empresa alemã:
O uso pelos conspiradores nazistas da guerra psicológica é muito bem conhecido. Antes de cada grande agressão, com raras exceções baseadas na experiência prévia, eles iniciavam insistente campanha pela imprensa, calculada para debilitar as vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque (...).
No sistema de propaganda do Estado hitlerista, as mais importantes armas do poder totalitário eram a imprensa impressa e o rádio diários” [Des Freedman, Daya Kishan Thussu (eds.), Media and Terrorism: Global Perspectives].
Tribunal de Nuremberg
No Guardian de 2/2/2015, Timothy Garton-Ash, professor em Oxford, pregou abertamente a favor de uma guerra mundial. “É preciso parar Putin” – dizia a manchete, “e às vezes só armas podem deter armas”. O professor até concorda que a ameaça de guerra pode aumentar a paranoia de tentarem cercar a Rússia, mas tudo bem... porque ele checou todo o equipamento militar necessário e aconselha os leitores que “o melhor kit de armas à venda é norte-americano”.
Em 2003, esse mesmo Garton-Ash repetiu a propaganda que levou ao massacre do Iraque. Saddam Hussein, escreveu ele, “teve, como [Colin] Powell documentou, quantidades imensas armazenadas de horrendas e aterrorizantes armas químicas e biológicas, e mantêm escondido o que resta delas”. Elogiava Blair como “intervencionista liberal cristão gladstoniano”. Em 2006, escreveu: “Agora temos pela frente o grande teste seguinte para o ocidente, depois do Iraque: o Irã” (Timothy Garton-Ash, “Let's make sure we do better with Iran than we did with Iraq”, The Guardian, 12/1/2006).
Os seus surtos – ou, como Garton-Ash prefere, sua “torturada ambivalência liberal” – são bastante frequentes na elite liberal transatlântica que se comprometeram num pacto faustiano. Tony Blair, criminoso de guerra, é o líder que tiveram e perderam.
O Guardian, veículo que publicou o artigo de Garton-Ash, publicou anúncio de página inteira de propaganda de um bombardeiro norte-americano Stealth. Sob a ameaçadora imagem do monstro fabricado pela Lockheed Martin, lia-se “O F-35 GRANDE para a Grã-Bretanha”. Esse “kit” norte-americano custará aos contribuintes britânicos UK£ 1,3 bilhões. Os modelos F de antes mataram muita gente em todo o mundo. Afinado com o grande anunciante, um editorial do Guardian “exigia” aumento nos gastos militares.
Outra vez, o objetivo é grave e claro. Os senhores do mundo querem a Ucrânia, não só como base de mísseis; querem também a economia ucraniana. A nova Ministra das Finanças de Kiev, Natalie Jaresko, é ex-funcionária do Departamento de Estado, que recebeu em tempo recorde a cidadania ucraniana.
Querem a Ucrânia por causa do gás abundante. O filho do vice-presidente Joe Biden já está instalado na diretoria de uma das maiores empresas de petróleo, gás e fracking da Ucrânia. Empresas que produzem sementes geneticamente modificadas, como a infame Monsanto, querem comprar para elas o rico solo agricultável da Ucrânia.
Hunter Biden e Joe Biden em 24/9/2009
Mas, sobretudo, querem a poderosíssima vizinha da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior reserva de gás natural da Terra. Com o degelo, querem controlar também o Oceano e a longa fronteira de terra russa no Ártico.
O homem deles em Moscou sempre foi Boris Yeltsin, beberrão, que entregou a economia de seu país ao ocidente. Seu sucessor, Putin, restabeleceu a Rússia como orgulhosa nação soberana: esse é o crime imperdoável que Putin cometeu.
A responsabilidade que nos cabe, ao restante de nós, é clara: temos de identificar e expor as mentiras dos fanáticos por guerras e jamais calar diante deles. Implica que é preciso despertar os grandes movimentos populares, que são portadores de toda a civilização, por frágil que seja, que os modernos imperiais algum dia conheceram. Mais importante, é resistir, impedir que conquistem e ocupem nossa mente, nossa razão, nossa humanidade, nosso autorrespeito. Se permanecermos calados, a nossa derrota é certa. E um holocausto começará.
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Notas dos tradutores
[1] “Guerra humanitária” é dos mais bem–sucedidos “sintagmas–golpe” cultivados pela imprensa–empresa de propaganda de fascistização contemporânea. Sobre “sintagmas-golpe” ver epígrafe em redecastorphoto: Departamento de Estado e o “vácuo sírio” (sic).
[3] “A palavra “junta” (ing. e português) é usada aqui em referência ao regime fascista de Kiev por razões históricas, por causa de nosso respeito pelo povo do Donbass, que usa a palavra russa “хунта”, que soa exatamente como “junta”, para referir-se ao regime de Kiev. Embora não haja perfeita correspondência de significados, o regime de Kiev é suficientemente próximo das juntas de ditadores militares em todo o mundo, para que a palavra caiba também perfeitamente para o que se vê em Kiev. Se alguém não gostar de “junta” nesse sentido, pode trocá-la por “regime ditatorial” (de “A batalha por Debalcevo. Resultados”, 2/3/2015, cassad_eng, traduzido do russo por “Uncle Martin”, (ing.).
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[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. Acarreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.