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quarta-feira, 17 de junho de 2015

EUA: Da Guerra Fria II ao McCarthyismo II


16/6/2015, [*] Robert ParryConsortiumnews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Exclusivo: Com a Guerra Fria II em pleno andamento, o New York Times está tirando a poeira do que pode ser chamado de macarthyismo II e “sugere” que quem não entrar em consonância com a propaganda dos EUA deve estar trabalhando para Moscou relata Robert Parry.


Profetas


Talvez não seja surpresa que o mergulho do governo dos EUA nessa Guerra Fria II esteja trazendo de volta todos os temas da propaganda anticomunista e anti-Rússia e de promoção dos “valores” norte-americanos que dominaram a Guerra Fria I. Mesmo assim, é gravemente preocupante a rapidez com que a grande imprensa-empresa norte-americana já retomou os temas daqueles anos, especialmente o New York Times, que já emergiu como veículo preferencial de propaganda da Washington Oficial.
O que mais espanta no comportamento do NYT e de muitos outros veículos da grande imprensa-empresa comercial nos EUA é a absoluta falta de autocrítica e de autopercepção. Todos esses “grandes veículos” acusam a Rússia de fazer propaganda e comprar solidariedades, aparentemente sem ver que o que a Rússia talvez faça não é nem sombra do que o governo dos EUA faz comprovadamente e rotineiramente, servindo-se para tanto das empresas de imprensa & noticiário. O NYT e todos os demais veículos de comunicação de massa agem como se só Moscou fizesse o que todos eles fazem mais aplicadamente e mais frequentemente.
Caso exemplar foi a matéria de primeira página da domingo (7/6/2015) do NYT, sob a manchete Russia Wields Aid and Ideology Against West to Fight Sanctions [Rússia usa Ajuda e Ideologia contra o Ocidente, em luta contra sanções], o jornal “esclarece”:
Moscou mobilizou três diferentes armas, na avaliação de funcionários norte-americanos e europeus: dinheiro, ideologia e desinformação. [1]
O artigo, de autoria de Peter Baker e Steven Erlanger, pinta o governo Obama como se estivesse sem defesas, ante o massacre dos despudorados russos:
Com o governo Obama e seus aliados europeus já tendo de impedir que se alastre a intervenção russa, eles também têm de enfrentar luta interna, contra o que veem como ação planejada por Moscou para alavancar o próprio poder, financiar partidos e movimentos políticos europeus e disseminar versões diferentes sobre o conflito.
Como muitos outros artigos recentes do NYT, esse também reproduz acusações feitas por funcionários europeus e dos EUA, mas absolutamente sem qualquer investigação jornalística, sem provas e sem ouvir o lado russo, sobre as acusações.
Ao final da longa matéria, os autores citam palavras de uma funcionária da Brookings Institution, Fiona Hill, ex-funcionária da inteligência dos EUA, que faz rápida referência à ausência de provas: “O que não se sabe é quantas provas sólidas há de tudo isso”. E só. O leitor do NYT, caso esteja à procura de reportagem séria, nada encontrará além dessa suposta “voz do outro lado”.
Escrever/falar muito, para NÃO informar sobre os fatos
Com tudo isso, o aspecto que mais chama a atenção no artigo é o quão amplamente os jornalistas deixam de lado a gigantesca quantidade de provas de que o governo dos EUA e seus aliados estão financiando operações de propaganda e apoiando ONGs que nada têm de “não governamentais”, porque são constituídas e mantidas exclusivamente para favorecer e divulgar pelo mundo as políticas do governo dos EUA.


Além do mais, o jornal fracassa ao não reconhecer que muitos dos relatos dos próprios funcionários do governo Obama, quando falam de questões globais, são relatos de propaganda, para ativamente desinformar a opinião pública.
Por exemplo, já se sabe com certeza que praticamente tudo que o Departamento de Estado “informou” sobre o ataque com gás sarín dia 21/8/2013 na Síria era mentira. Inspetores da ONU só encontraram um foguete carregado com sarín – não a imensa quantidade de foguetes de que falaram inicialmente os funcionários do governo dos EUA – e era foguete de curto alcance, muito mais curto alcance do que “informavam” o governo dos EUA e o New York Times [ver NYT Backs Off Its Syria-Sarin Analysis (NYT obrigado a desmentir as próprias análises sobre Síria e gás sarin)].
Na sequência, depois do golpe de 22/2/2014 na Ucrânia apoiado pelos EUA, o governo dos EUA e o NYT converteram-se em fontes inesgotáveis de propaganda, mentiras e desinformação. Além de recusar-se a ver o papel chave que os neonazistas e outras milícias também de extrema direita haviam tido [e continuam a ter] no golpe e na violência subsequente, o Departamento de Estado só fez passar “informes” falsos, como adiante se comprovou, para que fossem publicados no NYT.
Em abril de 2014, o NYT publicou matéria de primeira página baseada em fotos que supostamente mostrariam soldados russos na Ucrânia. Dois dias depois foi obrigado a desmentir-se, porque se descobriu que o Departamento de Estado mentira sobre a ocasião e o local onde havia sido feita uma das fotos que “comprovariam” a invasão russa. Sem a foto-prova crucial, toda a matéria desmoronou como castelo de cartas [vide NYT Retracts Ukraine Photo Scoop (NYT obrigado a retratar-se, depois de publicar como verdadeira foto alterada em laboratório)].
Outras vezes, a propaganda veio diretamente de altos funcionários do governo dos EUA. Por exemplo, dia 29/4/2014, Richard Stengel, Subsecretário de Estado para Diplomacia Pública, emitiu uma Dipnote na qual denunciava que a rede russa RT estaria pintando “quadro perigoso e falso do legítimo governo da Ucrânia”. “Legítimo governo”, para Stengel, seria o grupo golpista que assumiu o poder depois que o presidente eleito Viktor Yanukovych foi deposto. Nesse contexto, Stengel definiu a rede RT como “máquina de distorção; não é organização de distribuição de notícias”.
Sem oferecer nem as datas nem o horário em que os tais programas que tanto o ofenderam teriam ido ao ar, Stengel reclamou da “incansável repetição, sem qualquer questionamento, da ridícula afirmação (...) de que os EUA teriam investido US$ 5 bilhões na mudança de regime na Ucrânia. Não são fatos, nem opiniões. São mentiras, e quando a propaganda se traveste de noticiário, ela cria novos perigos reais e dá luz verde à violência”.
Pois a “ridícula afirmação” de RT, sobre os EUA terem aplicado US$ 5 bilhões no golpe para derrubar o governo eleito na Ucrânia, logo foi confirmada em discurso público feito pela Secretária de Estado Assistente para Assuntos Europeus e Eurasianos Victoria Nuland e dirigido a empresários norte-americanos e ucranianos, dia 13/12/2013. Nuland informou àqueles empresários que “já investimos mais de US$ 5 bilhões” no que tem de ser feito para a Ucrânia alcançar sucesso em suas “aspirações europeias”. [Vide Who’s the Propagandist: US or RT?(Quem é propagandista: EUA ou RT)].
Pode-se seguir adiante com os muitos casos em que o governo dos EUA mentiu ou falseou informação verdadeira nessa ou em outras crises internacionais. O que importa é deixar bem claro que a Washington oficial não tem as mãos limpas no que tenha a ver com fazer propaganda e impô-la à opinião pública como se fosse noticiário e jornalismo, por menor que seja a probabilidade de você ser informado sobre esse perigo pela matéria do NYT na domingo (7/6/2015).
Financiar golpes, golpistas e golpismos
À parte a disseminação direta de desinformação, por ação comunicativa do governo dos EUA, o mesmo governo dos EUA também distribuiu centenas de milhões de dólares para manter organizações “jornalísticas”, ativistas políticos e ONGs que existem para promover as metas políticas dos EUA dentro de países-alvos. Antes do golpe de 22/2/2014 na Ucrânia, havia centenas de operações desse tipo no país, mantidas pela “Dotação Nacional para a Democracia” [ing. National Endowment for Democracy, NED]. O orçamento dessa NED, pago pelo Congresso dos EUA, é superior a US$ 100 milhões/ano.

Mas a NED, que é presidida pelo neonconservador Carl Gershman desde que foi fundada em 1983, é só uma parte do quadro. Há inúmeras outras frentes de propaganda ativas sob o guarda-chuva do Departamento de Estado dos EUA e de sua USAID (US Agency for International Development). [2] Dia 1º de maio passado, a USAID lançou informe em que faz relatório resumido do seu serviço de pagar jornalistas “amigos” em todo o mundo, incluindo
(...) formação e treinamento de jornalistas, desenvolvimento de empresas-imprensa, construir capacidades para instituições de apoio a empresas-imprensa, e fortalecimento do marco legal regulatório de proteção à liberdade de imprensa.
A agência USAID estimava em US$ 40 milhões anuais o seu orçamento para “programas de fortalecimento da mídia independente em mais de 30 países”, incluindo ajuda a “organizações de midialivrismo e blogueiros defensores da liberdade de imprensa em mais de 12 países”. Na Ucrânia, antes do golpe, a USAID deu treinamento a jornalistas interessados em “segurança na telefonia móvel e websites”.
A USAID, trabalhando com a ONG Open Society do bilionário George Soros, também financia o Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção, engajado em “jornalismo investigativo” que se dedica a perseguir governos que tenham caído em desgraça em Washington, contra os quais se organiza sempre verdadeira barragem de acusações de corrupção. A ONG Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção [ing. Organized Crime and Corruption Reporting Project, OCCRP], foi fundada pela USAID e também colabora com Bellingcat [3], website dito “investigativo”, fundado pelo blogueiro Eliot Higgins. [4]
Já várias vezes Higgins distribuiu informação falsa pela Internet, inclusive longos “relatórios” já desmentidos, que atribuíam ao governo sírio integral responsabilidade no ataque com gás sarín de 2013 (...), além de outras notícias que, na sequência, também foram desmentidas.
Apesar de seu duvidoso currículo no campo da seriedade jornalística e acuidade, Higgins é elogiadíssimo por jornalistas das imprensa-empresas comerciais, com certeza porque os “resultados” das “investigações” dele sempre coincidem perfeitamente com o tema de propaganda em que o governo dos EUA e seus aliados estejam promovendo. Enquanto outros blogueiros mais genuínos e visivelmente menos dependentes de empresas e governos dos EUA são ignorados (quando não são execrados e desqualificados) pelas empresas jornalísticas “amigas dos EUA” e seus jornalistas empregados, Higgins só ouve elogios.
Em outras palavras: faça a Rússia o que fizer para dar a conhecer a sua versão dos fatos na Europa e nos EUA e nos países da órbita das “comunicações” norte-americanas, o governo dos EUA, servindo-se de seus agentes diretos e indiretos de influência, sempre está a postos para fazer calar, seja a versão russa, seja qualquer outra versão que não seja... a dos EUA.
Guerra Fria I - Cortina de Ferro

De fato durante a Guerra Fria original, a CIA e a antiga Agência de Informação dos EUA [orig. US Information Agency] refinaram a arte e as técnicas da “guerra da informação”, incluindo a criação/invenção de alguns dos traços e formulações que estão hoje em circulação, como a presença de entidades ostensivamente autodeclaradas “independentes” [mas não se sabe (a) do que/quem seriam independentes, nem (b) do que/quem dependem para subsistir (NTs)]; e a implantação na sociedade da ideia de que noticiário distribuído por entidades públicas de informação e comunicação não teria qualquer credibilidade; mas qualquer autodeclarado “jornalista-cidadão” ou “jornalismo-cidadão” e/ou qualquer blogueiro autodeclarado “independente”, esses, sim, seriam confiáveis.
Assim se construiu a rede conceitual e prática da moderna propaganda. Nessa rede insere-se hoje o New York Times que apareceu ao mundo, domingo passado (7/6/2015), para “noticiar” que quem não repita a propaganda do governo dos EUA... com certeza já foi subornado pelo “ouro de Moscou”.
Assim sendo, agora que já temos ativada a propaganda mais ensandecida da Guerra Fria II, só resta temer, para breve, o macarthyismo II.
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Notas dos tradutores
[1] Ainda assim, D. Eliane Cantanhede faz pior que o NYT. Ela mobiliza dinheiro, ideologia, desinformação plus as “marketagens” do marido dela, publicista a soldo do tucanato udenista golpista no Brasil. O Estado de S.Paulo incluído nele D. Eliane Cantanhede, é jornalismo de segunda mão, fora de lugar, atrasista, golpista chato de ler e muuuuuuuuito tolo.
[2] A USAID norte-americana foi ativíssima no Brasil desde os primeiros dias da ditadura, em conluio com sucessivos Ministérios da Educação e Cultura da ditadura, colaboração que ficou conhecida como “Acordos MEC-USAID”. Para saber mais, leia Fora MEC-USAID!.
[3] Bellingcat é grupo de “jornalismo investigativo” [só rindo!] muito citado na Folha de S.Paulo: “Analista critica alegações de manipulação no caso do voo da Malaysia Airlines. O grupo de pesquisa Bellingcat acusou a Rússia de manipulação das imagens por satélite do desastre do voo 17 de Malaysia Airlines”. A notícia é incopiável, só acessível a assinantes do UOL, o que ninguém aqui é e jamais será.
[4] O que se lê na wikipedia, nesse verbete, deve ter sido redigido pelo próprio Higgins: é pura autopropaganda.
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[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano.Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).

sábado, 14 de março de 2015

Como os “livres mercados” difamam a “democracia”

12/3/2015, [*] Robert ParryOEN– OpEdNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



O fio que liga toda a moderna política externa dos EUA é uma insistência obcecada em aplicar soluções de “livre mercado” a todos os problemas do mundo. Quer dizer... Isso, se você não tiver a grande sorte de viver em país aliado dos EUA no Primeiro Mundo, ou no caso de o seu país ser grande demais para ser violentado.

Assim, se você está na França, Canadá ou – não se pode esquecer! – na China, o seu país tem licença para oferecer serviços generosos de saúde e de educação, e pode construir infraestrutura moderna. Mas se você está num país do Terceiro Mundo, ou é vulnerável de algum outro modo – como, digamos, Ucrânia ou Venezuela – a Washington oficial insiste em que você fatie sua rede de seguridade social, e dê rédeas soltas aos investidores privados.

Se você é cordato e aceita deixar-se escravizar pelo “livre mercado”, então você se converte, pela definição norte-americana, numa “democracia” – mesmo que a “democratização” seja feita contra a vontade da maioria dos cidadãos daquele país considerado cordato. Em outras palavras, não importa o que os eleitores desejem; são obrigados a aceitar a “magia do mercado”, codinome “democracia”.

Hoje, no idioma falado nos EUA, “democracia” passou a significar o antônimo do significado clássico. Em vez de governo pela maioria do povo, tem-se governo pelo “mercado”, o que usualmente se traduz como governo por oligarcas locais, estrangeiros ricos e bancos globais.


Governos que não sigam essas regras – e que, diferente disso, cuidem de modelar as próprias sociedades de modo a suprir as necessidades dos cidadãos médios – são declarados “não livres”, o que imediatamente os torna alvos para “organizações não governamentais” (mantidas por dinheiro dos EUA) as quais treinam ativistas, pagam jornalistas e coordenam grupos de negócios para organizar uma oposição que providenciará a derrubada daqueles “governos não democráticos”.

Se algum governante cuidar de defender a soberania do próprio país e sirva-se, para tanto, de providências como exigir que aquelas ONGs registrem-se como “agentes estrangeiros”, o governante e seu país são imediatamente acusados de violar “direitos humanos” e torna-se candidato a formas mais agressivas de “mudança de regime”.

Atualmente, uma das principais queixas dos EUA contra a Rússia, é que os russos exigem que as ONGs mantidas por governos estrangeiros; ativas na Rússia; e dedicadas a influenciar decisões políticas em território russo registrem todos os seus ativistas como “agentes estrangeiros”. O New York Times e outros jornais e televisões ocidentais citaram essa lei de 2012 como “prova” de que a Rússia convertera-se numa ditadura; e ignoraram o fato de que os russos apenas copiaram legislação vigente nos EUA, chamada “Lei de Registro de Agente Estrangeiro” [orig. Foreign Agent Registration Act].

Quer dizer: tudo bem que os EUA rotulem gente paga por entidades estrangeiras para influenciar as políticas norte-americanas como “agentes estrangeiros” – e que os EUA metam na cadeia agente estrangeiro não fichado como tal. Mas se a Rússia fizer a mesma coisa, é antidemocrático e viola direitos humanos. Não há quem não saiba que muitas daquelas ONGs que operam na Rússia (e na Venezuela e no Brasil e por todos os países) não são entidades “independentes”; que são financiadas e mantidas por agências do governo dos EUA conhecidas como Dotação Nacional para a Democracia [National Endowment for Democracy (NED)] e Agência Norte-americana para o Desenvolvimento Internacional [orig. U.S. Agency for International Development (USAID). [1]


Há até um elemento autorreferente nessa queixa dos EUA. À frente da denúncia contra a Rússia e outros governos que limitam a ação dessas ONGs financiadas pelos EUA está a ONG Freedom House, que mantém um “índice de liberdade” que tira pontos de países que se recusem a aceitar a intromissão dos EUA em seus assuntos. Problema é que, ao longo dos últimos 30 anos, essa Freedom House passou a operar como subsidiária da NED, ela também mais uma ONG de aluguel.

A mão oculta da CIA

William Casey
A avançada começou a valer em 1983, quando o diretor da CIA William Casey foi mandado criar um sistema para sustentar a Freedom House e outros grupos de fora da agência, que passariam a trabalhar em propaganda e no tipo de ação política que a CIA historicamente sempre organizou e financiou clandestinamente. Casey ajudou a fazer o plano para um entidade a ser paga e mantida pelo Congresso, e que serviria como conduíte para o dinheiro do governo dos EUA.

Mas Casey reconheceu a necessidade de passar a esconder as pegadas da CIA. “Obviamente nós aqui [na CIA] não podíamos aparecer na linha de frente do desenvolvimento desse tipo de organização, nem como patrocinadores ou defensores” – Casey escreveu numa carta não datada para o então conselheiro da Casa Branca, Edwin Meese III. – E Casey propôs que se criasse uma “Dotação Nacional” [orig. a “National Endowment].” [Ver A mão oculta da CIA nos grupos pró-“democracia”,  Consortiumnews.com].

Carl Gershman
O planejamento de Casey levou, em 1983, à criação da NED, que foi entregue ao neoconservador Carl Gershman, que lá permanece, no comando, até hoje. Hoje, a National Endowment de Gershman distribui mais de US$ 100 milhões por ano, o que incluiu financiamento para zilhões de ativistas, jornalistas e outros grupos dentro da Ucrânia antes do golpe do ano passado, e hoje paga para manter dúzias de “projetos” na Venezuela, já de olho no próximo emergente a ser submetido ao tratamento de “mudança de regime”.

Mas o dinheiro da NED é apenas parte de como o governo dos EUA manipula eventos em países vulneráveis. Na Ucrânia, antes do golpe de fevereiro de 2014, a Secretária-de-Estado assistente, a neoconservadora Victoria Nuland fez saber aos líderes empresariais ucranianos que os EUA já haviam investido US$ 5 bilhões de dólares em suas “aspirações europeias”.

Nuland escolheu pessoalmente quem lhe parecia indicado para a nova liderança; informou ao embaixador Geoffrey Pyatt dos EUA que “Yats é o cara”, referindo-se ao político “pró-livre-mercado” Arseniy Yatsenyuk, o qual, não surpreendentemente emergiu como novo Primeiro-Ministro depois de violento golpe de estado que, dia 22/2/2014, derrubou o presidente eleito Viktor Yanukovich. Ouça vídeo gravação a seguir (em inglês):


O golpe marcou também o início de uma guerra civil que já custou mais de 6 mil vidas, a maioria de russos étnicos no leste da Ucrânia que apoiaram Yanukovich e foram tomados como alvo de sangrenta ação “antiterrorismo” comandada por neonazistas e outras milícias de extrema direita financiadas e armadas pelo governo de Kiev, sustentado pelos EUA. Mas para Nuland, todas as culpas do mundo recaem sempre sobre o presidente Vladimir Putin da Rússia. [Ver “Nuland manobra a propaganda para a Ucrânia (ing.), em Consortiumnews.com]

Além do número escandaloso de mortes na Ucrânia, a economia do país for destruída; mas Nuland, Yatseniuk e outros livre-mercadistas conceberam uma solução, alinhada com os desejos do FMI comandado pelos EUA: austeridade nas costas do ucraniano médio.

Falando à Comissão de Relações Exteriores do Senado na 3ª-feira (10/3/2015), Nuland exigiu “reformas” para converter a Ucrânia num “estado de livre-mercado”, incluindo decisões “para reduzir e cortar pensões, aumentar exigências sobre os trabalhadores e impor idade mais avançada para aposentadorias; [além de] cortar subsídios para o gás, que induzem ao desperdício”.

Em outras palavras, essas “reformas” são concebidas para fazer ainda mais difícil a vida já muito difícil dos ucranianos – cortar pensões, remover proteções ao trabalho, obrigar as pessoas a trabalhar até a velhice e forçá-las a pagar mais pela calefação durante o inverno.

“Partilhar” riqueza

Em troca dessas “reformas”, o FMI aprovou um “resgate” de US$ 17,5 bilhões a serem entregues à Ministra das Finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, que, até dezembro passada era a diplomata norte-americana responsável por um fundo de investimentos de US$ 150 milhões, dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para a Ucrânia, e que acabou com os cofres vazios, quando a diplomata meteu-se em negócios que – por razões que só ela conhece completamente – ela muito se esforçou para manter secretos. Agora, a Sra. Jaresko e a turma dela terão a magnífica oportunidade de zelar por mais de 100 vezes mais dinheiro. [Sobre ela, ver (ing.) “Os ‘valores’ norte-americanos da ministra das finanças da Ucrânia”].

Outros destacados norte-americanos também andam flanando em torno das oportunidades “democráticas” que se abrem na Ucrânia. Por exemplo, o filho do vice-presidente Joe Biden, Hunter, foi nomeado para a diretoria da Burisma Holdings, a maior empresa privada ucraniana de gás, empresa nebulosa, com sede em Chipre e associada ao Privat Bank.

Hunter e Joe Biden
O Privat Bank é controlado pelo bilionário oligarca à moda máfia, Ihor Kolomoysky, indicado pelo regime de Kiev para governar a província de Dnipropetrovsk, no centro-sul da Ucrânia. Nesse tributo à “democracia”, as autoridades ucranianas assalariadas pelos EUA deram a um oligarca uma província só dele, para governar. Kolomoysky também ajudou financeiramente as forças paramilitares constituídas para matar russos étnicos no leste da Ucrânia.

A empresa Burisma também deu emprego a outros lobbyistas norte-americanos bem relacionados, alguns deles ligados ao Secretário de Estado John Kerry, incluindo o ex-chefe de gabinete de Kerry no Senado, David Leiter, conforme já se sabe.

Como a revista Time noticiou, “o envolvimento de Leiter na empresa completa uma equipe de norte-americanos politicamente conectados, que também inclui um segundo novo membro da diretoria, Devon Archer, Democrata e ex-conselheiro da campanha presidencial de John Kerry em 2004. Ambos, Archer e Hunter Biden trabalharam como sócios do genro de Kerry, Christopher Heinz, sócio fundador de Rosemont Capital, uma corretora privada de valores”. [Ver (ing.) “Os porquês por trás da crise ucraniana”, Consortiumnews.com]

Assim se vê que essa moderna modalidade de “democracia” à moda dos EUA até que tem, afinal, alguns traços de “partilha de riquezas”.

Com o que chegamos à crise, que se agrava a cada momento, com a Venezuela, país latino-americano governado por uma década por governos eleitos de esquerda – com amplo apoio popular – que têm buscado partilhar a riqueza nacional venezuelana, o petróleo, o mais amplamente possível, inclusive no custeio de ambiciosos programas sociais para superar graves problemas dos venezuelanos, como as altas taxas de analfabetismo, doenças e miséria.

Não há dúvida possível de que o falecido presidente Hugo Chávez e seu sucessor Nicolas Maduro, os chamados governos chavistas, obtiveram muitos progressos na luta contra males que há séculos acometem a Venezuela e que jamais foram preocupação de qualquer dos governos protegidos pelos EUA, como do presidente Carlos Andrés Perez, que colaborava com a CIA e obedecia servilmente os ricos e poderosos.

Chávez e Maduro inspirados por Simón Bolívar
Um dos assessores de Andrés Perez revelou que o presidente venezuelano partilhava a villa onde vivia nos arredores de Caracas com gente do quilate de David Rockefeller e Henry Kissinger, servindo-lhes belas jovens, para animar as visitas.

Chávez e Maduro, no mínimo, tentaram melhorar a vida do povo venezuelano. Mas agora, quando o país enfrenta crise econômica que se agrava dia a dia, e aprofundada ainda mais pela queda nos preços do petróleo, Maduro viu-se sob pressão política crescente, boa parte da qual financiada ou “inspirada” por Washington, com apoio ativo do governo direitista da vizinha Colômbia.

Acusações de golpe

Maduro reagiu aos movimentos contra seu governo acusando alguns adversários de estarem urdindo um golpe, acusação que serviu de motivo de chacota no Departamento de Estado dos EUA e nos veículos da imprensa-empresa dominante nos EUA – duas entidades que parecem absolutamente convencidas de que os EUA nunca cogitaram nem jamais cogitarão de armar golpes na América Latina.

Essa semana, a Casa Branca declarou que a evidência de qualquer golpe ou tentativa de golpe urdido contra a Venezuela são ou invenção ou delírio, como noticiou o New York Times. O presidente Barack Obama falou então do que, para ele, seria “extraordinária ameaça à segurança nacional dos EUA”, vinda da Venezuela; e imediatamente congelou os bens depositados em território norte-americano de sete políticos e oficiais militares venezuelanos.

Obama mentindo sobre a Venezuela...

O fato de Obama pronunciar, sem piscar, a frase acima rouba a credibilidade de qualquer frase que o presidente dos EUA venha a pronunciar algum dia. A Venezuela absolutamente nada fez que ameace a “segurança nacional dos EUA”, extraordinariamente ou seja como for. Verdade ou não o que se teme hoje sobre algum golpe de estado em andamento, a Venezuela tem muitas mais e mais graves razões para temer pela sua segurança nacional nas mãos dos EUA.

Mas naquele mundo de sobe e desce da Washington Oficial, burocratas e jornalistas ouvem, acolhem e repetem todos e quaisquer absurdos, como mais esse.

Há poucas semanas, almocei com um funcionário de muitos anos do Departamento de Estado, que gargalhava ao falar da dor que a queda nos preços do petróleo estava causando à Venezuela e a outros estados “adversários”, inclusive Irã e Rússia.

Perguntei por que os EUA tanto se divertiam com o sofrimento dos povos desses país. Sugeri que, talvez, os EUA tivessem mais a ganhar se aquelas pessoas, naqueles países estivessem bem de vida, com dinheiro no bolso para comprar e fazer negócios.

A resposta dele foi que esses países haviam causado problemas para a política externa dos EUA no passado; agora chegou a hora de pagarem pelo que fizeram. Chamou-me de “adorador de Putin”, só porque disse que discordo da linha do Departamento de Estado de culpar a Rússia por todas as dificuldades da Ucrânia.

Hugo Chávez reconstruiu a Venezuela
Mas a questão realmente importante e mais ampla é: por que os EUA insistem em impor regras de “livre mercado” contra esses países, quando os democratas e até alguns republicanos já concordam que “livre mercado” sem absolutamente qualquer regulação nunca funcionou bem para o povo dos EUA?

Foi o extremismo do “livre mercado” que levou à Grande Depressão dos anos 1930s e à Grande Recessão de 2008, efeitos das quais só muito lentamente começam agora a retroceder.

Além do mais, já se sabe que democracia real – isto é, o desejo da maioria de modelar sociedades que atendam aos muitos, não só a uns bem poucos – leva também a bons resultados econômicos. A sociedade e a economia dos EUA eram consideravelmente mais firmes e mais fortes, quando as políticas oficiais estimulavam o crescimento de uma classe média, do New Deal até os anos 1970s.

Com certeza houve erros e planos malsucedidos durante aquelas décadas, mas todos os experimentos com qualquer “livre mercado” absolutamente sem controles levaram sempre à mais completa catástrofe. Pois, apesar disso, é o que o governo dos EUA parece determinado a impor a governos vulneráveis em outros países, cujas maiorias votam sempre na direção de construir ali sociedades mais igualitárias, mais justas.

E além de todo o impacto negativo do “livre mercado”, há também o perigo de que políticas desencaminhadas, que causam desigualdade cada vez maior e praticadas por governos eleitos, comecem a desmoralizar, a desacreditar, até difamar completamente, a própria democracia.
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Nota dos tradutores

[1] A USAID é agência de triste memória para nós no Brasil, há mais de 50 anos. Por exemplo colhido ao acaso na Internet, sem melhor procura:

A reforma universitária se deu durante o governo militar, que buscava submeter todo o ensino ao capitalismo dependente, representando abertamente as intenções da burguesia. No ano de 1965, o até então, Ministro da Educação, Raymundo Moniz de Aragão, entregou a responsabilidade de “reformular” a estrutura da universidade brasileira a um grupo de especialistas norte-americanos. A partir daí, segue-se uma sucessão de acordos entre o MEC e a USAID por intermédio da AID (Agência para o Desenvolvimento Internacional) realizados de forma sigilosa, já que a população só tomou conhecimento dos acordos em 1966.

Como ensina Lauro de Oliveira Lima, “é a primeira vez, ao que se saiba, que o planejamento educacional de um país é objeto de sigilo para o próprio povo que o utilizará”. Seguindo as orientações da assistência técnica da USAID o governo resolve adotar medidas para adequar o sistema educacional brasileiro ao modelo de desenvolvimento econômico que se intensificava na época (capitalismo- industrial)”.(“As Mazelas da Educação Brasileira, herdadas da ditadura militar”, 23/1/2011, Maria A. Alves Pionório, Revista Parâmetro).
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[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano. Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).