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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Por trás da crise grega


2/7/2015, [*] William R. Polk, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Crise grega
por Latuff - 2010
Ao focar exclusivamente os aspectos monetários da crise grega, a narrativa construída e distribuída pela mídia perde de vista grande parte do que realmente atormenta os gregos e também do que poderia possibilitar alguma solução.
Por mais de meio século, os gregos viveram tempos de grande perigo. Nos anos 1930s, viveram sob uma ditadura brutal, cujo modelo foi a Alemanha Nazista, com polícia secreta copiada da Gestapo e com os dissidentes mandados para morrer num campo de concentração numa ilha. E então, aconteceu coisa estranhíssima: Benito Mussolini invadiu a Grécia.
Para proteger o autorrespeito e o próprio país, os gregos puseram de lado o ódio contra a ditadura de Metaxas e uniram-se para combater o invasor estrangeiro. Os gregos fizeram tão belo trabalho na defesa do país deles, que Adolf Hitler teve de adiar a invasão da Rússia, para ir até lá resgatar os fascistas italianos.
Há quem diga que esse movimento pode ter salvo Josef Stalin, porque o adiamento forçou a Wehrmacht a combater na lama, neve e gelo da Rússia, condições para as quais não estava preparada. Mas, ironicamente, isso também salvou a ditadura de Metaxas e a monarquia. O rei e os mais altos oficiais gregos fugiram para o Egito então ocupado pela Grã-Bretanha e, como novos aliados, foram declarados parte do “Mundo Livre”.
Enquanto isso, na Grécia, os alemães saqueavam grande parte da indústria grega, dos estaleiros e estoques de comida. Os gregos passaram fome. Como Mussolini disse então, “os alemães tiraram dos gregos até os cordões dos sapatos”.
Então os gregos começaram a reagir. Em outubro de 1942, iniciaram um movimento de resistência que, em dois anos, tornou-se o maior da Europa. Quando a França se orgulhava dos seus menos de 20 mil partisans, o movimento da resistência grega alistara 2 milhões de resistentes, e já derrotara pelo menos duas divisões de soldados alemães. E sem nenhuma ajuda externa.

Winston Churchill
por Strogulski

Quando o desfecho da guerra começou a se configurar, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, decidiu devolver a Grécia ao regime de antes da guerra, com a monarquia e o antigo governo. Temia a influência dos comunistas ativos dentro do movimento de resistência.
Churchill tentou conseguir que o exército anglo-americano, que se aprontava para invadir a Itália, invadisse não a Itália, mas a Grécia. Fato é que tanto insistiu nessa mudança no plano de guerra que quase rompeu a aliança militar dos Aliados. Quando não conseguiu o que queria, mandou para a Grécia todos os soldados que ainda estavam sob o comando dele. Com isso precipitou uma guerra civil que rachou ao meio o país. Os líderes da resistência clandestina foram derrotados e o movimento foi esmagado. A burocracia, a polícia e os programas da ditadura do pré-guerra retomaram o controle do país.
Depois da guerra, com a Grã-Bretanha já arruinada e sem meios para sustentar sua política imperial, Londres entregou a Grécia aos norte-americanos que anunciaram a “Doutrina Truman” e afogaram o país em dinheiro, com o que impediram o sucesso eleitoral da esquerda. O dinheiro norte-americano funcionou bem por algum tempo, mas a mão pesada da ditadura criou uma nova geração de supostos democratas que desafiaram a ditadura.
Esse é o tema belamente exposto no filme Z, de Costa Gavras, estrelado por Yves Montand (trailer no fim do parágrafo, em francês). Como o filme mostra, o movimento liberal do início dos anos 1960s foi derrotado por uma nova ditadura militar, “o governo dos coronéis”.
Quando a junta militar foi derrubada em 1974, a Grécia conheceu um breve período de “normalidade”, mas nenhuma das fissuras profundas que havia na sociedade haviam sido realmente remediadas. Independente de que partido político designasse os ministros, a burocracia sempre autoperpetuada continuava no controle. A corrupção era generalizada. E, mais importante que tudo isso, a Grécia tornara-se um sistema político que Aristóteles chamaria de oligarquia.
Os muito ricos usavam o dinheiro para criar para eles mesmos um estado dentro do estado. Estenderam seu poder para todos os nichos da economia e construíram o sistema bancário grego de modo que se tornou essencialmente extra-territorializado. O porto de Piraeus encheu-se de megaiates de gente que não pagava impostos e Londres foi comprada, pelo menos em boa parte, por gente que sangrava a economia grega. Todo o dinheiro “inteligente” [orig. “smart money”] da Grécia estava aplicado fora do país.
A crise atual
Esse estado de coisas poderia ter durado muito mais tempo, mas quando a Grécia uniu-se à União Europeia em 1981, banqueiros europeus (principalmente alemães) farejaram uma oportunidade: voaram em bandos para a Grécia, para oferecer empréstimos. Até quem não tinha renda que tornasse razoável qualquer empréstimo ganhou empréstimos. Na sequência, os banqueiros começaram a cobrar pagamentos. Chocados, os empresários começaram a demitir. O desemprego cresceu. As oportunidades evanesceram.
Não há qualquer remota chance de aqueles empréstimos serem pagos. Nunca deveriam ter sido oferecidos e nunca deveriam ter sido aceitos. Para manter-se à tona o governo cortou em serviços públicos (não cortou gastos militares) e o povo sofreu muito. Nas eleições de 2004, o povo ainda não havia sofrido o suficiente a ponto de eleger a coalizão radical liderada pelo partido “Unidade” (SYRIZA). Naquele ano, o partido recebeu apenas 3,3% dos votos.
Então, depois do crash financeiro de 2008 vieram anos de dificuldades que aumentavam dia a dia, todos os políticos eram considerados culpados de tudo e havia muita ira. Era ira popular, dos que se sentiam desorientados pelos banqueiros e pela própria loucura. Não havia esperança nem havia saída à vista, e os gregos começaram a virar-se na direção do partido SYRIZA. Depois de várias tentativas, afinal nas eleições de 2015 o SYRIZA alcançou 36,3% dos votos, e elegeu 249 dos 300 membros do Parlamento.
Hoje, as condições que empurraram na direção dessa eleição são ainda mais graves: a renda nacional da Grécia caiu 25% e o desemprego entre os mais jovens é superior a 50%. Assim sendo, o que resta aos negociadores fazer?

Taxas de desemprego Eurozona, Alemanha e Grécia

Com Alemanha e UE a exigir mais e mais ARROCHO, os gregos estão furiosos. Há no país memórias profundas de ódio aos alemães (antes eram soldados, agora são banqueiros). Os gregos foram mal interpretados, mal representados e traídos pelos seus próprios políticos vezes sem conta. O Primeiro-Ministro Alexis Tsipras sabe que, se for marcado com o rótulo “vendido”, sua carreira está acabada.
E o pacote do dito “resgate” que o FMI e o BCE ofereceram pesa muito contra a Grécia. Os gregos veem a opção de sair do euro como semelhante à posição que Grã-Bretanha e Suécia assumiram desde o início, de não adotar a moeda europeia – mas terá de haver ajuste doloroso para a economia grega, caso a Grécia tome a decisão, sem precedentes, de desligar-se do euro.
Mesmo assim – a menos que FMI e BCE façam nova oferta, que traga alguma coisa que dê aos gregos chance de uma vida melhor e cancelem parte significativa da dívida – entendo que os gregos acertarão se votarem “Não”, no domingo; se rejeitarem as demandas dos banqueiros, que querem mais e mais ARROCHO; e se abandonarem o euro.
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[*] William Roe Polk (nascido em 1929 em Fort Worth , Texas) é um veterano consultor de política externa, diplomata, autor e parente do presidente James K. Polk e do proeminente advogado e diplomata Frank Polk. É ex-professor de História e ex-Reitor da Universidade de Harvard e da Universidade de Chicago tendo sido também Presidente da Adlai Stevenson Institute of International Affairs.
Polk ensinou História do Oriente Médio e Política em Harvard 1955-61, e foi então nomeado pelo Presidente Kennedy para o Departamento de Estado no Conselho de Planeamento de Política com foco no Oriente Médio e Norte da África. Serviu como membro da equipe de gestão na Crise dos Mísseis Cubanos.
Polk demitiu-se do governo federal para se juntar à Universidade de Chicago como professor de História em 1965, onde lecionou por 10 anos e estabeleceu seu Centro de Estudos do Oriente Médio. Foi vice-presidente da Fundação WP Carey e membro do Conselho de Relações Exteriores dos EUA Vive atualmente no sul da França e é casado com a Baronesa Elisabeth von Oppenheimer. Lecionou no Instituto Canadense de Relações Internacionais, no Conselho de Relações Exteriores, no Instituto Real de Relações Internacionais e no Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia de Ciências da União Soviética (hoje Rússia), bem como mais de uma centena de universidades e faculdades.
É autor de inúmeros livros:


  • Backdrop to Tragedy: The Struggle for Palestine (1957). coauthors William R. Polk, David M. Stamler, and Edmund Asfour. Beacon Press online edition.
  • The Opening of South Lebanon, 1788-1840: A Study of the Impact of The West on the Middle East (1963). Harvard University Press
  • The United States and the Arab World (1965). Harvard University Press, 3rd edition 1975: ISBN 0-674-92718-4
  • The Arab World. 4th edition 1980, hardcover: ISBN 0-674-04316-2, paperback: ISBN 0-674-04317-0
  • The Arab World Today. 5th edition 1991, ISBN 0-674-04319-7
  • Beginnings of Modernization in the Middle East: The Nineteenth Century (1968). University of Chicago Press, ISBN 0-226-67425-8
  • Passing Brave (1973). Alfred Knopf, ISBN 0-394-47893-2 reprint Panda Press 2013
  • The Elusive Peace: The Middle East in the Twentieth Century (1979). Palgrave Macmillan, ISBN 0-312-24383-9
  • Neighbors and Strangers: The Fundamentals of Foreign Affairs (1997). University Of Chicago Press, ISBN 0-226-67329-4
  • Polk's Folly: An American Family History (2000). Doubleday, ISBN 0-385-49150-6, Anchor paperback ISBN 0-385-49151-4
  • Understanding Iraq: The Whole Sweep of Iraqi History from Genghis Khan's Mongols to the Ottoman Turks to the British Mandate to the American Occupation (2005). HarperCollins hardcover: ISBN 0-06-076468-6, paperback: ISBN 0-06-076469-4
  • The Birth of America: From Before Columbus to the Revolution (2006). HarperCollins hardcover: ISBN 0-06-075090-1
  • Violent Politics: A History of Insurgency, Terrorism, and Guerrilla War, from the American Revolution to Iraq (2007). HarperCollins hardcover: ISBN 0-06-123619-5
  • Understanding Iran: Everything You Need to Know, From Persia to the Islamic Republic, From Cyrus to Ahmadinejad (2009). Palgrave * *Macmillan hardcover: ISBN 978-0-230-61678-3
  • Personal History: Living in Interesting Times Panda Press 2013
  • Distant Thunder: Reflections on the Dangers of Our Times Panda Press 2013
  • Humpty Dumpty: The Fate of Regime Change Panda Press 2013
  • Blind Man's Buff, a Novel set in Afghanistan Panda Press 2013

quarta-feira, 17 de junho de 2015

EUA: Da Guerra Fria II ao McCarthyismo II


16/6/2015, [*] Robert ParryConsortiumnews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Exclusivo: Com a Guerra Fria II em pleno andamento, o New York Times está tirando a poeira do que pode ser chamado de macarthyismo II e “sugere” que quem não entrar em consonância com a propaganda dos EUA deve estar trabalhando para Moscou relata Robert Parry.


Profetas


Talvez não seja surpresa que o mergulho do governo dos EUA nessa Guerra Fria II esteja trazendo de volta todos os temas da propaganda anticomunista e anti-Rússia e de promoção dos “valores” norte-americanos que dominaram a Guerra Fria I. Mesmo assim, é gravemente preocupante a rapidez com que a grande imprensa-empresa norte-americana já retomou os temas daqueles anos, especialmente o New York Times, que já emergiu como veículo preferencial de propaganda da Washington Oficial.
O que mais espanta no comportamento do NYT e de muitos outros veículos da grande imprensa-empresa comercial nos EUA é a absoluta falta de autocrítica e de autopercepção. Todos esses “grandes veículos” acusam a Rússia de fazer propaganda e comprar solidariedades, aparentemente sem ver que o que a Rússia talvez faça não é nem sombra do que o governo dos EUA faz comprovadamente e rotineiramente, servindo-se para tanto das empresas de imprensa & noticiário. O NYT e todos os demais veículos de comunicação de massa agem como se só Moscou fizesse o que todos eles fazem mais aplicadamente e mais frequentemente.
Caso exemplar foi a matéria de primeira página da domingo (7/6/2015) do NYT, sob a manchete Russia Wields Aid and Ideology Against West to Fight Sanctions [Rússia usa Ajuda e Ideologia contra o Ocidente, em luta contra sanções], o jornal “esclarece”:
Moscou mobilizou três diferentes armas, na avaliação de funcionários norte-americanos e europeus: dinheiro, ideologia e desinformação. [1]
O artigo, de autoria de Peter Baker e Steven Erlanger, pinta o governo Obama como se estivesse sem defesas, ante o massacre dos despudorados russos:
Com o governo Obama e seus aliados europeus já tendo de impedir que se alastre a intervenção russa, eles também têm de enfrentar luta interna, contra o que veem como ação planejada por Moscou para alavancar o próprio poder, financiar partidos e movimentos políticos europeus e disseminar versões diferentes sobre o conflito.
Como muitos outros artigos recentes do NYT, esse também reproduz acusações feitas por funcionários europeus e dos EUA, mas absolutamente sem qualquer investigação jornalística, sem provas e sem ouvir o lado russo, sobre as acusações.
Ao final da longa matéria, os autores citam palavras de uma funcionária da Brookings Institution, Fiona Hill, ex-funcionária da inteligência dos EUA, que faz rápida referência à ausência de provas: “O que não se sabe é quantas provas sólidas há de tudo isso”. E só. O leitor do NYT, caso esteja à procura de reportagem séria, nada encontrará além dessa suposta “voz do outro lado”.
Escrever/falar muito, para NÃO informar sobre os fatos
Com tudo isso, o aspecto que mais chama a atenção no artigo é o quão amplamente os jornalistas deixam de lado a gigantesca quantidade de provas de que o governo dos EUA e seus aliados estão financiando operações de propaganda e apoiando ONGs que nada têm de “não governamentais”, porque são constituídas e mantidas exclusivamente para favorecer e divulgar pelo mundo as políticas do governo dos EUA.


Além do mais, o jornal fracassa ao não reconhecer que muitos dos relatos dos próprios funcionários do governo Obama, quando falam de questões globais, são relatos de propaganda, para ativamente desinformar a opinião pública.
Por exemplo, já se sabe com certeza que praticamente tudo que o Departamento de Estado “informou” sobre o ataque com gás sarín dia 21/8/2013 na Síria era mentira. Inspetores da ONU só encontraram um foguete carregado com sarín – não a imensa quantidade de foguetes de que falaram inicialmente os funcionários do governo dos EUA – e era foguete de curto alcance, muito mais curto alcance do que “informavam” o governo dos EUA e o New York Times [ver NYT Backs Off Its Syria-Sarin Analysis (NYT obrigado a desmentir as próprias análises sobre Síria e gás sarin)].
Na sequência, depois do golpe de 22/2/2014 na Ucrânia apoiado pelos EUA, o governo dos EUA e o NYT converteram-se em fontes inesgotáveis de propaganda, mentiras e desinformação. Além de recusar-se a ver o papel chave que os neonazistas e outras milícias também de extrema direita haviam tido [e continuam a ter] no golpe e na violência subsequente, o Departamento de Estado só fez passar “informes” falsos, como adiante se comprovou, para que fossem publicados no NYT.
Em abril de 2014, o NYT publicou matéria de primeira página baseada em fotos que supostamente mostrariam soldados russos na Ucrânia. Dois dias depois foi obrigado a desmentir-se, porque se descobriu que o Departamento de Estado mentira sobre a ocasião e o local onde havia sido feita uma das fotos que “comprovariam” a invasão russa. Sem a foto-prova crucial, toda a matéria desmoronou como castelo de cartas [vide NYT Retracts Ukraine Photo Scoop (NYT obrigado a retratar-se, depois de publicar como verdadeira foto alterada em laboratório)].
Outras vezes, a propaganda veio diretamente de altos funcionários do governo dos EUA. Por exemplo, dia 29/4/2014, Richard Stengel, Subsecretário de Estado para Diplomacia Pública, emitiu uma Dipnote na qual denunciava que a rede russa RT estaria pintando “quadro perigoso e falso do legítimo governo da Ucrânia”. “Legítimo governo”, para Stengel, seria o grupo golpista que assumiu o poder depois que o presidente eleito Viktor Yanukovych foi deposto. Nesse contexto, Stengel definiu a rede RT como “máquina de distorção; não é organização de distribuição de notícias”.
Sem oferecer nem as datas nem o horário em que os tais programas que tanto o ofenderam teriam ido ao ar, Stengel reclamou da “incansável repetição, sem qualquer questionamento, da ridícula afirmação (...) de que os EUA teriam investido US$ 5 bilhões na mudança de regime na Ucrânia. Não são fatos, nem opiniões. São mentiras, e quando a propaganda se traveste de noticiário, ela cria novos perigos reais e dá luz verde à violência”.
Pois a “ridícula afirmação” de RT, sobre os EUA terem aplicado US$ 5 bilhões no golpe para derrubar o governo eleito na Ucrânia, logo foi confirmada em discurso público feito pela Secretária de Estado Assistente para Assuntos Europeus e Eurasianos Victoria Nuland e dirigido a empresários norte-americanos e ucranianos, dia 13/12/2013. Nuland informou àqueles empresários que “já investimos mais de US$ 5 bilhões” no que tem de ser feito para a Ucrânia alcançar sucesso em suas “aspirações europeias”. [Vide Who’s the Propagandist: US or RT?(Quem é propagandista: EUA ou RT)].
Pode-se seguir adiante com os muitos casos em que o governo dos EUA mentiu ou falseou informação verdadeira nessa ou em outras crises internacionais. O que importa é deixar bem claro que a Washington oficial não tem as mãos limpas no que tenha a ver com fazer propaganda e impô-la à opinião pública como se fosse noticiário e jornalismo, por menor que seja a probabilidade de você ser informado sobre esse perigo pela matéria do NYT na domingo (7/6/2015).
Financiar golpes, golpistas e golpismos
À parte a disseminação direta de desinformação, por ação comunicativa do governo dos EUA, o mesmo governo dos EUA também distribuiu centenas de milhões de dólares para manter organizações “jornalísticas”, ativistas políticos e ONGs que existem para promover as metas políticas dos EUA dentro de países-alvos. Antes do golpe de 22/2/2014 na Ucrânia, havia centenas de operações desse tipo no país, mantidas pela “Dotação Nacional para a Democracia” [ing. National Endowment for Democracy, NED]. O orçamento dessa NED, pago pelo Congresso dos EUA, é superior a US$ 100 milhões/ano.

Mas a NED, que é presidida pelo neonconservador Carl Gershman desde que foi fundada em 1983, é só uma parte do quadro. Há inúmeras outras frentes de propaganda ativas sob o guarda-chuva do Departamento de Estado dos EUA e de sua USAID (US Agency for International Development). [2] Dia 1º de maio passado, a USAID lançou informe em que faz relatório resumido do seu serviço de pagar jornalistas “amigos” em todo o mundo, incluindo
(...) formação e treinamento de jornalistas, desenvolvimento de empresas-imprensa, construir capacidades para instituições de apoio a empresas-imprensa, e fortalecimento do marco legal regulatório de proteção à liberdade de imprensa.
A agência USAID estimava em US$ 40 milhões anuais o seu orçamento para “programas de fortalecimento da mídia independente em mais de 30 países”, incluindo ajuda a “organizações de midialivrismo e blogueiros defensores da liberdade de imprensa em mais de 12 países”. Na Ucrânia, antes do golpe, a USAID deu treinamento a jornalistas interessados em “segurança na telefonia móvel e websites”.
A USAID, trabalhando com a ONG Open Society do bilionário George Soros, também financia o Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção, engajado em “jornalismo investigativo” que se dedica a perseguir governos que tenham caído em desgraça em Washington, contra os quais se organiza sempre verdadeira barragem de acusações de corrupção. A ONG Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção [ing. Organized Crime and Corruption Reporting Project, OCCRP], foi fundada pela USAID e também colabora com Bellingcat [3], website dito “investigativo”, fundado pelo blogueiro Eliot Higgins. [4]
Já várias vezes Higgins distribuiu informação falsa pela Internet, inclusive longos “relatórios” já desmentidos, que atribuíam ao governo sírio integral responsabilidade no ataque com gás sarín de 2013 (...), além de outras notícias que, na sequência, também foram desmentidas.
Apesar de seu duvidoso currículo no campo da seriedade jornalística e acuidade, Higgins é elogiadíssimo por jornalistas das imprensa-empresas comerciais, com certeza porque os “resultados” das “investigações” dele sempre coincidem perfeitamente com o tema de propaganda em que o governo dos EUA e seus aliados estejam promovendo. Enquanto outros blogueiros mais genuínos e visivelmente menos dependentes de empresas e governos dos EUA são ignorados (quando não são execrados e desqualificados) pelas empresas jornalísticas “amigas dos EUA” e seus jornalistas empregados, Higgins só ouve elogios.
Em outras palavras: faça a Rússia o que fizer para dar a conhecer a sua versão dos fatos na Europa e nos EUA e nos países da órbita das “comunicações” norte-americanas, o governo dos EUA, servindo-se de seus agentes diretos e indiretos de influência, sempre está a postos para fazer calar, seja a versão russa, seja qualquer outra versão que não seja... a dos EUA.
Guerra Fria I - Cortina de Ferro

De fato durante a Guerra Fria original, a CIA e a antiga Agência de Informação dos EUA [orig. US Information Agency] refinaram a arte e as técnicas da “guerra da informação”, incluindo a criação/invenção de alguns dos traços e formulações que estão hoje em circulação, como a presença de entidades ostensivamente autodeclaradas “independentes” [mas não se sabe (a) do que/quem seriam independentes, nem (b) do que/quem dependem para subsistir (NTs)]; e a implantação na sociedade da ideia de que noticiário distribuído por entidades públicas de informação e comunicação não teria qualquer credibilidade; mas qualquer autodeclarado “jornalista-cidadão” ou “jornalismo-cidadão” e/ou qualquer blogueiro autodeclarado “independente”, esses, sim, seriam confiáveis.
Assim se construiu a rede conceitual e prática da moderna propaganda. Nessa rede insere-se hoje o New York Times que apareceu ao mundo, domingo passado (7/6/2015), para “noticiar” que quem não repita a propaganda do governo dos EUA... com certeza já foi subornado pelo “ouro de Moscou”.
Assim sendo, agora que já temos ativada a propaganda mais ensandecida da Guerra Fria II, só resta temer, para breve, o macarthyismo II.
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Notas dos tradutores
[1] Ainda assim, D. Eliane Cantanhede faz pior que o NYT. Ela mobiliza dinheiro, ideologia, desinformação plus as “marketagens” do marido dela, publicista a soldo do tucanato udenista golpista no Brasil. O Estado de S.Paulo incluído nele D. Eliane Cantanhede, é jornalismo de segunda mão, fora de lugar, atrasista, golpista chato de ler e muuuuuuuuito tolo.
[2] A USAID norte-americana foi ativíssima no Brasil desde os primeiros dias da ditadura, em conluio com sucessivos Ministérios da Educação e Cultura da ditadura, colaboração que ficou conhecida como “Acordos MEC-USAID”. Para saber mais, leia Fora MEC-USAID!.
[3] Bellingcat é grupo de “jornalismo investigativo” [só rindo!] muito citado na Folha de S.Paulo: “Analista critica alegações de manipulação no caso do voo da Malaysia Airlines. O grupo de pesquisa Bellingcat acusou a Rússia de manipulação das imagens por satélite do desastre do voo 17 de Malaysia Airlines”. A notícia é incopiável, só acessível a assinantes do UOL, o que ninguém aqui é e jamais será.
[4] O que se lê na wikipedia, nesse verbete, deve ter sido redigido pelo próprio Higgins: é pura autopropaganda.
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[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano.Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).