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domingo, 26 de abril de 2015

Doutrina Hillary: “Viemos, vimos, todos morreram”

16/4/2015, [*] Wayne MadsenStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os que dizem que a chamada “Doutrina Obama” de política exterior foi, na melhor das hipóteses, amorfa e conflitante, veem a possibilidade de um governo Hillary Clinton, como ainda mais danosa para a política exterior dos EUA. Agora que a ex-Secretária de Estado já anunciou formalmente que é candidata à presidência dos EUA, especialistas dedicam-se a dissecar as decisões dela enquanto comandava a diplomacia dos EUA. Entre aquelas decisões estão não só os mais gritantes fracassos da política exterior de Obama, como resultado direto do agitar de sabres e da diplomacia temerária da Sra. Clinton, mas também sinais gritantes da avidez com que ela sempre quis engajar-se em operações, assemelhada à conhecia obsessão por revoluções de George Soros. Tudo isso preocupa muitos diplomatas, temerosos de que um governo Hillary Clinton – com o marido como “embaixador itinerante” – venha a castigar ainda mais o mundo, com mais desse mesmo aventureirismo intervencionista norte-americano.

Quando Obama já quase havia sido convencido a envolver militarmente os EUA na guerra na Síria, empurrado pela doutrina da “Responsabilidade de Proteger”, R2P, de Hillary, e desenvolvida com a assistência da embaixadora dos EUA à ONU, Susan Rice, e da encarregada de Assuntos Multilaterais e Direitos Humanos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Samantha Power, Obama, parece, deu-se conta de que a tal Responsabilidade de Proteger era caminho certo para embrulhar os EUA em mais uma guerra sangrenta no Oriente Médio.

Se Obama tivesse desconsiderado ‘'conselhos'’ das mesmas Clinton, Rice & Power quanto a operações anteriores de “R2P” na Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen, não haveria hoje o Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL) na Síria e Iraque, nem seus muitos ramos na Líbia, Tunísia, Iêmen e Egito.

Hillary Clinton apoiou terrotistas na Líbia
Hillary Clinton na presidência não apenas promoverá mais causas de R2P e trará mais instabilidade para o mundo, mas, também, sem dúvida, ela também promoverá sua secretária de estado assistente, que a própria Hillary selecionou a dedo, Victoria Nuland, o cérebro (?) por trás do golpe de estado da Praça Maidan na Ucrânia, que fez mais para desestabilizar a Europa do que qualquer outra pessoa, desde quando Ronald Reagan introduziu mísseis cruzadores com ogivas nucleares na Europa Ocidental, nos anos 1980s.

A Sra. Clinton pode, inclusive, encontrar algum trabalho de alta política externa para o marido da Nuland, Robert Kagan da Brookings Institution, um dos arquitetos neoconservadores da invasão e ocupação do Iraque pelos EUA, redator da autorização para guerra, que o senado aprovou em 2002, e a favor da qual a Sra. Clinton votou, quando senadora por New York.

Outras das acólitas de Hillary no Departamento de Estado, que se empenhou para conseguir que a política externa dos EUA retrocedesse décadas, por causa das ações de intervencionismo agressivo, é Roberta Jacobson, secretária de Estado assistente para questões do Hemisfério Ocidental, que irritou a Venezuela ao chamar o país de “ameaça” à segurança nacional dos EUA, na véspera da chegada de Obama para participar da Cúpula das Américas no Panamá. Obama e Jacobson foram forçados a voltar atrás na posição dos EUA sobre a Venezuela, por causa do coro de críticas que receberam de vários presidentes latino-americanos e do Caribe.

Hillary Hitler
Claro que o reinado da Sra. Clinton no Departamento de Estado incluiu também o apoio que ela deu a um golpe militar que depôs o presidente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, em 2009.

Então secretária de Estado, Clinton apoiou apaixonadamente o golpe contra Zelaya que foi coordenado até pelo embaixador que ela pusera em Tegucigalpa, Hugo Llorens, cubano-americano e diplomata de carreira com laços com a extrema direita da comunidade de cubanos no sul da Flórida. Apesar de o próprio embaixador dos EUA ter dito, depois do golpe, em telegrama a Clinton, que a ação era ilegal, nos termos da constituição de Honduras, Clinton recusou-se a cortar a ajuda financeira à junta que tomara o poder em Honduras. A Sra. Clinton sempre se recusou a chamar de golpe o golpe que derrubou Zelaya, porque esse ‘reconhecimento’ obrigaria os EUA a cortar a assistência à junta militar. Llorens não poderia ter sido mais claro em telegrama confidencial, depois do golpe, que enviou a Clinton, e que adiante WikiLeaks divulgou para conhecimento público:

“Independente dos méritos das alegadas violações que Zelaya tivesse cometido, é perfeitamente claro, mesmo com leitura [da Constituição de Honduras] apenas superficial, que a remoção do presidente por força militar foi ilegal, e até os mais fervorosos defensores do golpe não conseguiram encontrar argumento para preencher o vácuo que há entre ‘Zelaya infringiu a lei’ e ‘portanto foi despachado pelos militares para a Costa Rica, sem qualquer julgamento’.”

Hillary Clinton
Apenas poucos dias antes de Clinton anunciar sua candidatura à presidência, por vídeo distribuído pela Internet, Obama disse a líderes americanos que estavam acabados os “dias de intromissão” dos EUA em assuntos da América Latina. Mas apenas seis anos antes, a secretária de Estado de Obama muito se intrometera em Honduras, aprovando e promovendo um golpe contra o presidente legítimo. Depois, veio um “golpe constitucional” (sic) contra Fernando Lugo presidente eleito do Paraguai em 2012, com a Sra. Clinton no posto de secretária de Estado. E também houve tentativas de golpe, durante o mandato da Sra. Clinton, contra os presidentes da Bolívia e do Equador, além, das várias tentativas de golpe contra o presidente Nicolas Maduro da Venezuela.

Clinton sempre tentará encobrir o papel que ela teve no golpe em Honduras, mas foi papel muito significativo. Ela encontrara-se com Zelaya na cúpula da Organização dos Estados Americanos em San Pedro Sula, Honduras, apenas poucas semanas antes do golpe. O falecido presidente Hugo Chávez da Venezuela e Evo Morales, presidente da Bolívia, disseram que o golpe jamais teria acontecido sem apoio ativo do Comando Sul dos EUA em Miami, bem como dos militares norte-americanos estacionados na base aérea Soto Cano-Palmerola em Honduras. Zelaya incomodou o Pentágono, quando anunciou planos para transformar aquela base aérea em um aeroporto internacional. Muitos dos altos comandantes militares de Honduras, inclusive todos os que organizaram e desencadearam o golpe, foram treinados no conhecido Western Hemisphere Institute for Security Cooperationem Fort Benning, Georgia, a antiga “Escola das Américas”, e claramente obedeceram ordens do Pentágono, como cachorros que esperam por um osso.

Clinton riu: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu”
Nada provavelmente ilustra melhor a perfídia de Hillary Clinton, que o noticiário de outubro de 2011. Todas as redes de TV do mundo mostraram que, ao comentar o assassinato brutal do líder líbio Muammar Gaddafi, Clinton riu: “Nós viemos, nos vimos, ele morreu”.

Durante a campanha presidencial de 2007, a Sra. Clinton voou várias vezes em atividades de campanha num avião Air Rutter International Gulfstream II (número na cauda N216RR). O Air Rutter pertencia a um doador da campanha da Clinton, Arik Kislin, filho de Sam (Semyon) Kislin, rico emigrado de Odessa, Ucrânia, instalado em New York. A INTERPOL noticiou que a empresa Trans Commodities, Inc. de Sam Kislin tinha ligações com dois conhecidos gângsteres uzbeques, Lev e Mikhail Chernoy, israelenses. Sam Kislin é conhecido apoiador da organização United Jewish Appeal e de Israel. Um dos problemas com a candidatura de Hillary Clinton é que ela, como seu marido mulherengo leviano, sempre estão a um passo de algum escândalo.

Por exemplo, dia 1/10/2007, o New York Post noticiou que um ex-empregado da Air Rutter, Mark Billey, que depois seria preso acusado de abusar de crianças, declarara que vira vários policiais federais norte-americanos, armados, circulando pelas instalações da empresa Air Rutter, em Long Beach. Isso, precisamente quando o avião da mesma empresa levava a candidata Clinton por todo o país. (...)

Claro que, na próxima campanha, continuarão as ‘solicitações’ do casal Clinton, a governantes de outros países, para que doem dinheiro à “Clinton Foundation”, que o casal mantém –, se os Clintons querem mesmo voltar a morar no número 1.600 da Avenida Pennsylvania.

Os Clintons nomearam mais um FANTOCHE
no Haiti e continuam no LUCRO.
Bill Clinton construiu negócio muito lucrativo, de receber massivas quantidades de dinheiro doado a países devastados por terremotos e tsunamis, como Indonésia e Haiti. Pelo que se sabe do caso do Haiti, bem pouco do dinheiro destinado aos sobreviventes do terremoto chegou algum dia aos destinatários.

Se Hillary Clinton for eleita “a primeira mulher a presidir os EUA”, muitas das crianças que estão nascendo hoje em todo o mundo talvez não estejam vivas para festejar o quarto ou quinto aniversário. Os inocentes serão os que mais sofrerão com a doutrina Hillary na presidência: “Viemos, vimos, todos morreram”.

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[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

EUA-2013: ainda o conceito de “responsabilidade de proteger”

1/10/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, It. – L'ARTE DELLA GUERRA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
por Donkey Hotey
Durante o primeiro mandato, o presidente Obama afastou-se formalmente da política exterior e militar de seu antecessor, George W. Bush, dando a impressão de que os EUA já não desejariam continuar sendo “os policiais do mundo”, e que alterariam o desempenho que tinham então no Afeganistão e em outros pontos, para concentrar-se em seus problemas internos. Nasceu assim a doutrina que seria chamada “doutrina Obama”.
Mas a guerra jamais saiu da agenda do governo Obama: foi o que se viu na guerra contra a Líbia, conduzida em 2011 pela OTAN sob o comando dos EUA, com massivo ataque aéreo e com força sustentada infiltrada do exterior.
No início do segundo mandato, o presidente anunciou que “os EUA estão virando a página”. Mas a página seguinte também era página de guerra.
A nova estratégia previa o uso de forças armadas mais flexíveis e prontas a agir rapidamente, dotadas de sistemas de armas sempre da mais alta tecnologia. Previa emprego sempre maior dos serviços secretos e das forças especiais. No novo modo de fazer guerras, o ataque aberto é preparado e acompanhado por ação clandestina, orientada para minar por dentro o país atacado. Como foi feito na Líbia, e faz-se hoje na Síria, armando e treinando “rebeldes”, na maioria não sírios, muitos dos quais alistados em grupos islamistas oficialmente considerados grupos terroristas.
Simultaneamente, o presidente Obama enuncia a nova “estratégia de contraterrorismo”: da “guerra ilimitada ao terror”, passava-se a uma série de “ações letais focadas” com o objetivo de “desmantelar redes específicas de extremistas violentos que ameaçam os EUA”. Essas ações empregavam cada vez mais drones armados, cujo emprego é considerado “legal”, porque os EUA estariam numa “guerra justa, de autodefesa”.
O Democrata Obama, se autoapresentando como “pomba” (laureado com o Prêmio Nobel da Paz), apenas dá continuidade à estratégia do ‘falcão’ Republicano, apoiador declarado da intervenção armada.
Samantha Power
Como justificar tal metamorfose? É quando entra em cena Samantha Power, então docente em Harvard [1], ganhadora de um Prêmio Pulitzer [2003] com um livro no qual expõe sua teoria da “responsabilidade de proteger” que caberia aos EUA em “tempos de genocídio”. [2] La Power é nomeada para o Conselho de Segurança Nacional (órgão do qual fazem parte os principais comandantes das Forças Armadas e dos serviços secretos, com a competência de dar aconselhamento ao presidente sobre sua política externa e militar). Obama em seguida a põe na presidência de um novo “Comitê para a Prevenção de Atrocidades” e, por fim, lhe dá o posto de embaixadora dos EUA nas Nações Unidas. E La Power será a principal artífice da campanha que preparou a guerra contra a Líbia, apresentando-a como necessária para pôr fim a violações de direitos humanos. E é sempre ela que, sob os mesmos motivos, trabalha a favor de que os EUA ataquem a Síria.
Sem dúvida há a mão de Samantha Power também no recente discurso do presidente Obama à ONU. Sobretudo quando diz que, ante os conflitos no Oriente Médio e no Norte da África, “o perigo para o mundo não advém de EUA impacientes demais para imiscuir-se em assuntos de outros países”, mas, sim, “de os EUA não se empenharem suficientemente, criando um vácuo de liderança que nenhum outro país está pronto para preencher.” E assim, os EUA reivindicam o direito de intervir militarmente onde bem entendam. Não por autointeresse, mas porque lhes cabe a sacrossanta “responsabilidade de proteger”. [3]
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Notas dos tradutores
[1] Samantha Power é jornalista, foi correspondente de guerra nos Bálcãs, antes de fundar o Centro Carr de Políticas de Direitos Humanos em Harvard, onde passou a lecionar.
[2] O livro é A Problem from Hell: America in the Age of Genocide [Um problema do inferno: EUA na Era do Genocídio], de 2002. Sobre ele, ver também 8/10/2013, redecastorphoto em: “Abusos da Realidade: o excepcionalismo dos EUA e a doutrina Obama”, Noam Chomsky, Information Clearing House, em port..
[3] Ao conceito da “responsabilidade de proteger”, a presidenta Dilma Rousseff do Brasil opôs o conceito de “responsabilidade ao proteger”: “O Brasil sempre lutará para que prevaleçam as decisões emanadas da ONU. Mas queremos ações legítimas, fundadas na legalidade internacional. Com esse espírito, senhor presidente, defendi a necessidade da “responsabilidade ao proteger”, como complemento necessário da “responsabilidade de proteger” (21/9/2011, Discurso da presidenta Dilma Rousseff”, 66ª. Assembleia Geral da ONU.

[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pepe Escobar: “Obama prepara seus Santos Tomahawks”

27/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online –The roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A doutrina da “responsabilidade de proteger” [orig. responsibility to protect (R2P)] invocada para legitimar a guerra de 2011 contra a Líbia acaba de metamorfosear-se em “responsabilidade de atacar” [orig. “responsibility to attack'” (R2A)] a Síria. Só porque o governo Obama disse.

No domingo, a Casa Branca disse que tinha “muito pouca dúvida” de que o governo de Bashar al-Assad usara armas químicas contra seus próprios cidadãos. Na 2ª-feira, o secretário de Estado aumentou para certeza “inegável” – e acusou Assad de “obscenidade moral”.


Implica que quando os EUA bombardearam Fallujah com fósforo branco no final de 2004 seria bombardeio moral. E quando os EUA ajudaram Saddam Hussein a atacar os iranianos com gás em 1988, teria sido gaseificação moral.

O governo Obama resolveu que Assad recebeu os inspetores de armas químicas da ONU na Síria e em seguida, para comemorar a chegada deles, desfechou ataque com armas químicas contra, na maior parte, mulheres e crianças, a apenas 15 km do hotel onde os inspetores estavam hospedados. Se você não acredita, é porque embarcou em teorias conspiratórias.

Provas? E quem precisa de provas? A autorização que Assad deu aos inspetores veio “tarde demais”. Além do mais, a equipe da ONU só tem mandado para determinar quais armas químicas foram usadas – mas não quem as usou – como disse o porta-voz de Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU.

Barack Obama
No que tenha a ver com o governo Obama e com o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David “das Arábias” Cameron – apoiados numa barragem de mísseis da imprensa-empresa – nada disso importa. Assad invadiu a “linha vermelha” de Obama. E ponto final. Washington e Londres estão em modo frenesi-sem-limites para desmentir qualquer fato que contradiga a decisão. Reina o duplifalar – tipo “responsabilidade para atacar”. Se só se veem semelhanças com Iraque 2.0, é porque é tudo igual. Tempos de consertar os fatos, alinhando-os à política, tudo outra vez.

Tempos de armas de enganação em massa, tudo outra vez.

O eixo de gracinhas saudita-israelenses

A janela de oportunidades para a guerra é já. As forças de Assad avançam, de Qusayr a Homs; expulsam da periferia de Damasco os “rebeldes” remanescentes; implantam-se nos arredores de Der’ah onde contra-atacam os “rebeldes” treinados pela CIA que recebem armas avançadas, pela fronteira Síria-Jordânia; e organizam o assalto para expulsar “rebeldes” e jihadis dos subúrbios de Aleppo.

Ah! Israel e Arábia Saudita mal se aguentam de tanta excitação, porque estão conseguindo exatamente o que buscavam, só com os bons velhos métodos de Rabo-Balança-o-Cachorro. Telavive até telegrafou, para dizer como quer que a coisa seja feita: na 2ª-feira, o jornal Yedioth Ahronoth estampou manchete: “A caminho para atacar”; e até ensinou a Ordem de Batalha ideal:


Há meses, até o Diretorado de Inteligências das Forças Armadas de Israel, AMAN [orig. Intelligence Directorate of the Israeli Defense Forces (IDF), AMAN] já concluíra que Assad não seria doido a ponto de cruzar a “linha vermelha” de Obama. Então, inventaram o conceito de “duas linhas vermelhas entrecruzadas”: a segunda linha seria o governo sírio “perder controle sobre seus depósitos e centros de produção de armas químicas”. E a inteligência israelense propôs outras estratégias a Washington, de uma zona aérea de exclusão, até o sequestro das armas (que implicaria ataque por terra).

Hoje se volta à opção número 1: ataques aéreos aos depósitos de armas químicas. Como se EUA – e Israel – tivessem informação atualizada minuto a minuto sobre onde exatamente se localizam os tais depósitos.

Bandar bin Sultan
A Casa de Saud também telegrafou seus desejos – depois que o príncipe Bandar bin Sultan, codinome “Bandar Bush”, foi nomeado pelo rei Abdullah para chefiar a inteligência geral saudita. A fúria de Abdullah explica-se: a mãe dele e duas de suas esposas são filhas de uma tribo sunita ultraconservadora, da Síria. Quanto a Bandar Bush, tem mais vidas que Rambo ou o Exterminador: está de volta ao mesmo papel que desempenhou nos anos 1980s, na jihad afegã, quando era o garoto de recados, ajudando a CIA a armar os “combatentes da liberdade” do presidente Ronald Reagan.

A Jordânia – uma ficção de país, totalmente dependente dos sauditas – foi facilmente manipulada para tornar-se centro “secreto” de operação de guerra. E quem manda lá? Ninguém menos que o meio-irmão caçula de Bandar e vice-conselheiro nacional de segurança, Salman bin Sultan, codinome “mini-Bandar”. Versão árabe de “Dr. Evil and Mini Me” [1].

Mas há mais gente da CIA, além dos sauditas, no front jordaniano.

Tudo que se diga sobre a importância do relatório publicado no Al-Monitor é pouco. O relatório vazou inicialmente para o jornal libanês Al-Safir. Ali está toda a estratégia de Bandar, revelada em seu encontro com o presidente Putin da Rússia, sobre o qual Asia Times Online já escreveu. Depois de tentar – durante quatro horas – convencer Putin a desistir da Síria, Bandar convenceu-se: “Só resta a opção militar”.

Misture Kosovo e Líbia, e voilà!

Bill Clinton
O ex-presidente Bill Clinton resurgiu (perfeito timing) para comparar as opções de Obama na Síria e a jihad de Reagan no Afeganistão. “Bubba” acertou sobre a posição de Bandar. Mas deve ter cheirado alguma coisa, se pensava em termos das consequências – que são todas, do Talibã até aquela entidade mítica, a “al-Qaeda”. OK. Pelo menos, a al-Qaeda já está ativa na Síria; não precisarão inventá-la.

Quanto àquele bando de amadores que cercam Obama – de fãzocas da R2P como Susan Rice, à nova embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power, todos são falcões de direita – todos querem mais Kosovo. Kosovo – com uma pitada de Líbia – está sendo apresentado como modelo ideal para a Síria: R2P via ataques aéreos (ilegais). Na sequência, o New York Times já se pôs a papaguear freneticamente a mesma ideia.

Fatos, é claro, não há, nessa narrativa – nem a explosão da embaixada da China em Belgrado (remix, na Síria, com a embaixada russa?) nem chegar a um passo de guerra com a Rússia.

A Síria nada tem a ver com os Bálcãs. Na Síria, há guerra civil. A maioria da população síria urbana, não os camponeses atrasados, apoiam Damasco – por causa do comportamento terrível dos “rebeldes” nos espaços que controlam; e a absoluta maioria da população deseja solução política e as conversações, agora já quase totalmente torpedeadas, de Genebra-2.

O esquema jordaniano – inundar o sul da Síria com mercenários pesadamente armados – é remix do que a CIA e os sauditas fizeram ao Af-Pak; e os únicos vitoriosos serão os jihadistas da Frente al-Nusra. Quanto à solução que Israel espera de Obama – bombardeio indiscriminado de depósitos de armas químicas – com certeza resultará em dano colateral horrendo, com R2A que matará ainda mais civis.

O futuro permanece sombrio. Maldita nova coalizão de vontades: Washington já tem no saco os poodles britânico e francês, e pleno apoio das democráticas petromonarquias do Golfo, da Jordânia, que só obedece, e das bombas atômicas de Israel. É o que passa por “comunidade internacional”, em tempos de duplifalar.

Martin Dempsey
Os britânicos já se puseram a repetir pesadamente que não é preciso qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU [2]; quem se incomoda se é Iraque 2.0? Para o Partido da Guerra, não faz diferença alguma que o Comandante do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey já tenha dito que os “rebeldes” sírios não promovem interesses dos EUA.

Washington já tem pronto todo o necessário para que os Santos Tomahawks voem: há 384 deles já posicionados no leste do Mediterrâneo. Bombardeiros B-1 podem decolar a qualquer momento da base aérea Al Udeid no Qatar. E com certeza entrarão em cena as bombas de perfuração detona-bunker.

O que acontecerá na sequência, só com várias bolas de cristal concêntricas – de Tomahawks, a uma barragem de fogo aéreo e comandos de Operações Especiais pelo solo, até campanha sustentada de bombardeio aéreo que durará meses. Na longa entrevista que deu ao jornal Izvestia, o presidente Assad dá a impressão de pensar que Obama está blefando.

Seja como for, a Síria não será “mamão com açúcar”, como a Líbia. Mesmo semidestruído em todas as frentes, Gaddafi resistiu durante oito longos meses depois que a OTAN iniciou seu bombardeio humanitário. A Síria tem exército cansado, mas ainda muito forte, de 200 mil soldados; muito armamento soviético e russo; sistemas antiaéreos muito bons; e pleno apoio dos especialistas em guerra assimétrica, do Irã e do Hezbollah. Além da Rússia, que só precisa adiantar algumas baterias S-300 de defesa antiaérea e fornece sólida informação de inteligência.

Assim sendo, tratem de habituar-se ao funcionamento das relações internacionais em tempo de duplifalar. O exército do general Abdel Fattah al-Sisi no Egito pode matar centenas de seu próprio povo que protestavam contra golpe militar. Washington não dá bola – como se viu no golpe que não é golpe e correspondente banho de sangue que não é banho de sangue.

Não se sabe com precisão o que exatamente aconteceu na saga das armas químicas perto de Damasco. Mas é o pretexto para mais uma guerra norte-americana – apenas poucos dias antes da reunião do Grupo dos 20, em São Petersburgo, com Putin como anfitrião. Santos Tomahawks! R2A, lá vão eles.
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Notas dos tradutores
[1] Personagens de Austin Powers, em O Homem do Membro de Ouro [Goldmember, 2002]
[2] Ontem (26/8/2013), no canal GloboNews-SP, Demétrio Magnoli, aquela “sumidade” pós-graduada pela USP, disse: “Atacarão por resolução da OTAN (?!), dado que não haverá resolução da ONU”. Quem ouviu, ouviu, porque o programa, hoje, é totalmente inencontrável.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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