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domingo, 31 de maio de 2015

Porque Obama quer cancelar as sanções contra o Irã


Em busca de fonte alternativa de gás
27/4/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
É essencial reconhecer que o Irã não tem atualmente qualquer programa de armas nucleares, nem possui arma nuclear.

Dia 26/2/2015, James Clapper, Diretor da Agência Nacional de Inteligência disse à Comissão das Forças Armadas do Senado que “o Aiatolá Khamenei, Líder Supremo do Irã, encerrou completamente o programa nuclear de seu país em 2003” e “tanto quanto sei não tomou qualquer decisão para construir alguma arma nuclear”.

Assim se repete a avaliação “altamente confiável” da Comunidade de Inteligência (CI) dos EUA, que disse exatamente isso em novembro de 2007

Micah Zenko, Putting Irã’s Nuclear Program in Context, Council on Foreign Relations.

Acordo Nuclear - Irã vs União Europeia/EUA (Suiça)

Começar com a verdade sempre ajuda, e, no caso do Irã, a verdade é muito simples. O Irã não tem armas nucleares, não tem programa para construir armas nucleares e jamais foi apanhado praticando desvio de combustível atômico, para usá-lo em objetivos diversos do original. O Irã pesquisa e produz tecnologias nucleares exclusivamente para fins pacíficos.
Esses são os fatos. Talvez não confirmem as mentiras propagadas pela imprensa-empresa comercial, mas nem por isso deixam de ser fatos. O Irã não é culpado de crime algum. O Irã é exclusiva e inteiramente a vítima de um atentado praticado pelo poder-alucinado de Washington, obcecado por controlar os recursos vitais que abundam no Oriente Médio e promover a hegemonia regional de Israel. É disso que se trata. Tudo é geopolítica. Nada tem coisa alguma a ver com armas atômicas.
A empresa-imprensa comercial que cobre as chamadas “negociações nucleares” em Lausanne e agora em Viena mantém-se maniacamente focada no “número de centrífugas”, nos programas de monitoramento da AIEA, na capacidade para enriquecer urânio e em miríades de outros tópicos que existem em grande número para, precisamente, afastar a atenção do único fato importante: que o Irã não tem armas atômicas, nem interesse em algum dia vir a tê-las.
Empurrado para uma simulação de afogamento nesse mar de notícias ocas, de questiúnculas sem importância, o leitor é induzido a sentir que o Irã “tem-de” estar escondendo alguma coisa e, portanto, sim, com certeza é ameaça real à segurança nacional dos EUA. Claro que isso, precisamente, é o que os “especialistas” autores desses artigos visam a conseguir. Vivem de meter um saco sobre os olhos do público consumidor de “notícias” e de levá-lo a crer em algo que é demonstrada e comprovadamente falso...
No que tenha a ver com o Irã, o único fato verdadeiro é o que NENHUM veículo da imprensa-empresa noticia: que o Irã não está fazendo nada que seja ilegal ou clandestino. O Irã, simplesmente, demanda o direito de enriquecer urânio para finalidades pacíficas, que o Tratado de Não Proliferação lhe assegura, tratado que o Irã deseja, com toda a razão, ver respeitado. O Irã não se deixará destratar pelos EUA, nem deixará que o tratem como “país de segunda classe”. O Irã sempre se comportou honradamente desde o início – o que está anos-luz à frente do que se pode dizer dos EUA.
A imprensa-empresa comercial não quer discutir os “protocolos adicionais” que o Irã aceitou para construir confiança entre os membros da ONU, porque, se as pessoas forem informadas desse assunto, todos verão que o Irã já concedeu muito mais, além do previsto no início das negociações. Mesmo assim, continua a ser alvo das acusações mais estúpidas e absurdas, com manchetes diárias sobre “a intransigência” dos iranianos, ou o “jogo duplo” dos iranianos. Mas se alguém exige provas da tal intransigência ou da má fé dos iranianos... não há provas. É tudo só opinionismo jornalístico o mais desavergonhado, e a continuada implantação de medo e mais medo na população, quando não é simples e reles maledicência dita “jornalística”. Leem-se páginas e páginas (impressas ou virtuais) de empresas da imprensa comercial, e tudo – literalmente tudo que ali se lê – é mentira integral ou parcial.
NYTimes - especialista em NOTÍCIAS FALSAS

O mais recente golpe-besteirol da “imprensa de informação” centra-se na questão do “breakout time” [apr. ‘tempo de pausa’], ‘nome’ que foi dado ao tempo necessário para que o Irã consiga construir uma bomba nuclear se decidir fazê-lo, o que já disse que não quer fazer.
Breakout time” é a nova palavra-propaganda repetida milhares de vezes na imprensa comercial, sempre para sugerir e reforçar que Teerã estaria a poucas horas de concluir a construção de uma bomba atômica a qual ato seguinte, seria lançada para aniquilar Israel. É ridículo. É conto de fadas que assume que – porque os EUA são país homicida que anda pelo mundo a aniquilar qualquer coisa que respire –todos os demais países teriam a máxima pressa para seguir o mesmo modelo, no instante em que tivessem chance. É ideia errada em muito níveis.
Primeiro, que o Irã não quer armas atômicas. Segundo, que nem todos os governantes do mundo são megalômanos, maníacos obcecados por matar-sem-parar, cujo único prazer na vida é reduzir a ruínas fumegantes grandes fatias do planeta. Não. Esse não é comportamento generalizado: esse comportamento é específico de governantes dos EUA. Outros governantes não são doentes pervertidos. Muitos não sofrem dessa doença sociopática em estado tão avançado.
A questão nuclear é só cortina de fumaça. Nada tem a ver com o inexistente programa nuclear iraniano. O verdadeiro problema é que o Irã é país soberano com política externa independente. Washington não gosta de países independentes. Washington gosta de países e calam o bico e fazem o que são mandados fazer. Países que não se deixam mandar são inimigos de Washington e são postos numa lista de matar. E é quando entram em cena as sanções. Sanções são o meio pelo qual Washington enfraquece o inimigo, antes de bombardeá-los até viraram fumaça. São o porrete que os EUA usam para pôr de joelhos os rivais.
Quem tenha acompanhado o noticiário nos últimos dias sabe que alguma coisa muito estranha está acontecendo. Os EUA fizeram como se não estivessem nem-aí e mudaram a política para o Irã. É desenvolvimento chocante. Os EUA mantiveram a mesma política de selvageria contra Cuba durante 60 anos, sem mudar coisa alguma. Que as políticas selvagens de Washington funcionem ou não, nunca fez diferença; o que interessa é causar dano máximo, sofrimento máximo aos povos que os EUA odeiem. Assim sendo, por que a repentina mudança no caso do Irã? Por que Obama tenta agora um acordo com um país que as elites norte-americanas abertamente desprezam?
E não se pode esquecer, que a “abertura” de Obama, hoje, para o Irã, é extremamente impopular também em grupos muito poderosos, no Congresso, nas empresas da mídia, em Israel e entre funcionários do mais alto escalão também no Departamento de Estado dentro do próprio governo Obama. Teria acontecido que os agentes de poder, que mexem o cordame que movimenta Obama e lhe dizem o que fazer, de repente viram a luz e resolveram que é chegada a era da reconciliação e da paz com o Irã? É claro que não. Ninguém acredita nisso.
Obama só assinará acordo com o Irã, se daí puder extrair alguma vantagem. E a vantagem que os EUA querem extrair do Irã chama-se “gás”. Os EUA querem um substituto para o gás russo que chega à Europa, para que possam destruir completamente a Rússia e implementar o tal plano estratégico de estender o poder norte-americano por toda a Ásia, para que as megaempresas norte-americana possam conservar a posição dominante na economia global. Obama faz-se de negociador sensível com o Irã, para poder pivotear-se para a Ásia o mais facilmente possível.
Mas... E é plausível que o Irã venha a substituir o gás russo no lucrativo mercado da União Europeia?

Os EUA querem reviver o Projeto Nabucco... 

Vejam esse trecho de um artigo de 2014 que previa exatamente o cenário que vemos hoje, vale dizer, os EUA tentando impedir que se crie uma zona UE-Rússia de livre comércio que fará encolher o PIB dos EUA e deixará a única potência indispensável em rota de apressado declínio. O título do artigo é “UE busca o Irã como alternativa ao gás russo” [orig. EU turns to Irã as alternative to Russian gas].
A União Europeia está silenciosamente promovendo a necessidade, cada vez mais urgente de um plano para importar gás natural do Irã, ao mesmo tempo em que as relações com Teerã vão sendo descongeladas, e as relações com seu maior fornecedor de gás, a Rússia, entram em processo de rápido resfriamento (...).
“O Irã caminha rapidamente para o topo de nossas prioridades, para adotar medidas de médio prazo que ajudem a diminuir nossa dependência da Rússia, como fornecedora de gás natural” – diz a fonte. “O gás do Irã pode chegar à Europa muito facilmente , e politicamente já se vê clara reaproximação entre Teerã e o ocidente.”
O Irã, que está vivendo sob sanções, tem a segunda maior reserva de gás, só inferior à da Rússia, e é possível alternativa, uma vez que as conversações entre Teerã e o Ocidente cheguem a algum acordo sobre o discutido programa nuclear da República Islâmica.
“Alto potencial para produção de gás, reformas no setor doméstico de gás que estão em andamento e a normalização das relações com o ocidente fazem do Irã alternativa viável à Rússia” – disse uma publicação que circula entre membros do Parlamento Europeu (...).
“O interesse do Irã em entregar gás à Europa é grande. Partes da elite econômica e política iraniana, assim como empresas ocidentais já se preparam para o fim das sanções” – disse Frank Umbach, diretor de pesquisas sobre energia do King’s College em Londres (...).
Há muito tempo o Irã trabalha para conseguir construir um gasoduto que conectaria seu imenso campo Pars Sul, de gás, e os consumidores europeus – o chamado Gasoduto Persa.
“É produto extremamente ambicioso” – disse Handjani. “Mesmo se só se construir metade do projeto, já será imensa realização para a Europa e para o Irã” (...).
Estudos independentes de viabilidade mostram que se as sanções forem levantadas e começarem logo os investimentos, o Irã poderá fornecer 10-20 bilhões de metros cúbicos de gás/ano à Turquia e à Europa, já no início da década dos 2020s” (euractiv.com 25/09/2014, EU turns to Irã as alternative to Russian gas).

- Sr. Presidente, queremos enrigecer sua espinha...

Por isso Obama tanto quer o fim das sanções. Porque precisa encontrar fonte alternativa de gás para a Europa, ou não terá aliados europeus em sua guerra contra a Rússia. E derrotar a Rússia já está convertida em prioridade estratégica top de Washington.
Os EUA estão dispostos a arriscar tudo – até a guerra nuclear – para manter o monopólio do poder global e para prolongar sua hegemonia até o próximo século.
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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por sua reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Árabes do Golfo espiam para dentro do mundo multipolar

11/10/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediff BLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

Churchill (E), Roosevelt(C) e Stalin(D) 
(Ialta, Crimeia - de 4 a 11 de fevereiro de 1945)
O tradicional sistema de alianças prevalecente na região do Golfo desde que o então Presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, deixou a Reunião de Ialta (1945) com Winston Churchill e Josef Stalin e tomou o rumo, sem se anunciar, do Egito, para encontro secreto com o rei Abdul Azziz ibn Saud da Arábia Saudita a bordo do destróier USS Murphysobre as águas do Grande Lago Salgado, está enfraquecendo inexoravelmente.

O sinal mais recente desse processo é o anúncio, que o Kremlin acaba de fazer, da visita do rei do Bahrain, Hamad ibn Isa Al Khalifa, que esteve no resort russo de Sochi no domingo (12/10/2014), para encontrar-se com o presidente Vladimir Putin e assistir ao trecho russo do Campeonato Mundial de Automobilismo da Fórmula 1 da FIA. O governante do Bahrain é braço auxiliar da família real saudita e só a intervenção brutal dos militares sauditas o tem ajudado, até agora, a manter fechada a panela de pressão que é a crescente aspiração por melhor democracia e respeito aos direitos humanos da maioria xiita no país.

O interessante é que ele foi degredado para a casa do cachorro no ocidente, e quase parece que a Rússia vai-se convertendo em local de peregrinação para governantes do Golfo Árabe que, como ele, não está feliz com o modo como o presidente Obama e as políticas dos EUA promovem democracia e respeito aos direitos humanos no Oriente Médio.

Se se tiver de apontar o momento de definição dessa desilusão crescente entre os árabes do Golfo com o governo Obama, foi quando a ex-Secretária de Estado Hillary Clinton desvelou dramaticamente o Século Norte-americano do Pacífico, com o máximo de espalhafato, e a estratégia de “pivô” dos EUA para a Ásia.

Hillary Clinton 
(por Davi Sales)
Os Clintons aproximam-se da família Bush no Texas, na devoção que manifestam pelos regimes árabes do Golfo, mas a Secretária de Estado não foi capaz de antecipar o efeito devastador que sua brilhante ideia do “pivô” teria sobre o moral dos aliados dos EUA no Golfo.

Os autocratas do Golfo Árabe foram tomados por terrível angústia por os EUA estarem a pivotear-se animadamente para a região do Pacífico Asiático, deixando-os entregues aos lobos na região; e por os EUA darem sinais de já não estarem totalmente comprometidos com a sobrevivência dos seus regimes arcaicos.

Àquela altura, a Primavera Árabe e os eventos cataclísmicos que levaram à queda de Hosni Mubarak no Egito, momento de definição do tal “pivô” nas estratégias dos EUA para o Oriente Médio, já haviam sacudido a fé que os árabes do Golfo ainda tivessem na lealdade dos EUA como Guardas Pretorianos de seus regimes, especialmente quando começaram a crescer as provas de que Washington se estava posicionando do “lado certo da história” e silenciosamente abraçava a Fraternidade Muçulmana, que, naquele momento, parecia ser a “força vital” emergente no Oriente Médio.

Como se não bastasse, começaram a circular notícias de que a dependência dos EUA do petróleo do Golfo havia começado a diminuir muito, conforme aumentava a produção de gás de xisto, o que, por sua vez, se traduziria em geopolítica como menor interesse, dos EUAna sobrevivência das oligarquias do petrodólar da região.

A tese como tal é ridícula, porque o envolvimento dos EUA com os estados do petrodólar nunca foi só como consumidor de petróleo, mas também como negociante no mercado mundial de energia e como exportador de tecnologia, além de tomar parte em todo o processo de reciclar petrodólares, que constitui um pilar chave do sistema bancário e das economias ocidentais. Mas, mesmo assim, a ideia interessava à estratégia de “pivô” de Clinton, e ganhou credibilidade.

Mubarak preso
Se a queda de Mubarak foi sinal de aviso, a relutância dos EUA em se envolver no movimento dos estados árabes do Golfo para promover “mudança de regime” na Síria acabou por dar a impressão que o poder dos EUA como sustentáculo do Oriente Médio estava entrando em declínio. 

Depois veio o engajamento direto dos EUA com o Irã (xiita). Como que esfregando sal nas feridas, Washington engajou Omã, um dos estados do Conselho de Cooperação do Golfo, para atuar como intermediário para discutir os termos do engajamento, mantendo no escuro a Arábia Saudita sobre o que se passava. Por fim, os piores medos dos sauditas pareceram estar-se realizando – com EUA e Irã normalizando suas relações e Riad perdendo espaço como aliado chave de Washington na região do Oriente Médio.

Claro, também se deve considerar o pano de fundo de pós-Guerra Fria contra o qual tudo isso se ia desdobrando – a ilusão que se ia esvaziando, do “momento unipolar” dos EUA, com a emergência já claramente marcada, de um mundo multipolar. Os árabes do Golfo começaram a tatear sobre as possibilidades que um mundo multipolar teria a oferecer para a salvaguarda de seus interesses existenciais. Dito em termos simples, os EUA continuavam a ser o melhor show na cidade; mas já não eram o único show na cidade.

Primeiro entra a Rússia. A guerra civil na Síria serviu para abrir os olhos dos árabes do Golfo – teste crucial de até que ponto iria Moscou em apoio de seu velho amigo e aliado (embora a Rússia também tivesse seus próprios interesses). A Rússia apareceu em forte contraste com o indisfarçado desinteresse dos EUA, ou absoluta vacilação e relutância, em qualquer projeto para salvar o regime de Mubarak.

Segundo, Moscou sempre desqualificou a Primavera Árabe sem economizar palavras, e mostrou-se extremamente fria quanto às forças que estariam gerando a ideia de transformação democrática no Oriente Médio. Ao contrário, a Rússia sempre se mostrou confortável com a ideia de fazer negócios com regimes autoritários. De fato, Moscou ridiculariza abertamente o projeto da democracia à moda EUA por onde passe.

Terceiro, a Rússia continua a considerar os Irmãos como “terroristas”, e a Fraternidade Muçulmana continua como grupo radical proscrito na lista de itens “a vigiar” dos russos. Os autocratas do Golfo Árabe gostaram imensamente do modo claro, sem meias palavras, como a Rússia vê o Islã político – como anátema no mundo moderno.

Abdel Fattah al-Sisi e Vladimir Putin em 13/9/2014
Quarto, a Rússia não perdeu tempo para cair nos braços da junta militar que tomou o poder no Cairo depois do golpe patrocinado pelos sauditas, no Egito, em julho do ano passado. Foi movimento que realmente impressionou os sauditas, num momento crucial, quando os norte-americanos ainda pregavam as virtudes da democracia às margens do Nilo. (Pode-se dizer que os russos até forçaram os EUA a repensar sua aproximação com a junta no Cairo, algo que os sauditas não conseguiram só com o próprio peso).

Quinto, a crise na Ucrânia convenceu os árabes do Golfo de que o DNA russo não mudara e Moscou insistiria naquela linha se seus interesses estivessem em jogo, custasse o que custasse. Dito de outro modo, os árabes do Golfo começaram a brincar com a ideia de tornar a Rússia acionista a sério do bem-estar e da sobrevivência do atual sistema oligárquico arcaico na área deles.

Sexto, a frieza profunda na separação entre EUA e Rússia também é atraente para os árabes do Golfo. Se a separação aprofundar-se mais, ainda melhor. Dito de forma simples, os norte-americanos serão forçados a pensar sobre as sombras russas na região do Golfo, e isso, por sua vez, forçará Washington a assumir renovado interesse no velho sistema de aliança construído sobre o impressionante conjunto de bases militares dos EUA na região.

Por fim, apesar de todo o destaque sobre um entendimento estratégico entre Rússia e Irã vivem a querer ostentar, os árabes do Golfo sabem que aquela relação é incrivelmente complexa, enraizada em animosidades e suspeitas mútuas e sórdidas traições entre as duas potências regionais, que têm longa tradição na história moderna.

A colaboração da Rússia na estratégia de contenção dos EUA contra o Irã nos anos recentes em torno do problema nuclear; a cumplicidade da Rússia com o regime de sanções dos EUA contra o Irã; a aversão que a elite russa tem pelo Irã; os interesses russos e iranianos que se superpõem no Cáspio, no Cáucaso e em regiões da Ásia Central – tudo isso só faz ressaltar a complexidade da relação.

Oleogasoduto Nabucco, projeto ligando Irã e Europa
Mais importante, a emergência de uma liderança simpática ao ocidente no Irã e a aceleração no engajamento EUA-Irã sempre preocupariam a Rússia. O espectro que ronda a Rússia é, claro, o potencial único que tem o Irã para ser instrumento chave no plano de jogo dos EUA para conseguir que a Europa se livre da pesada dependência dos suprimentos de energia russa (o que tem sérias implicações para a liderança trans-Atlântica dos EUA).

De fato, o Irã é a melhor opção para a Europa na busca para diversificar suas fontes de energia, mediante um eixo na Turquia. Por outro lado, qualquer redução no quanto a Europa depende de energia russa é muito mais que simples redução drástica na renda dos russos; o movimento também priva a Rússia de sua “ferramenta geopolítica” para alavancar políticas europeias. 

O ponto é que um Irã integrado com a “comunidade internacional” deixa de ter qualquer convergência de interesses com a Rússia, para desafiar as políticas regionais dos EUA. Cada vez mais, o Irã e os EUA podem até descobrir que estão na mesma página no que diga respeito à segurança e à estabilidade do Iraque (e possivelmente também da Síria). Essa tendência isolaria a Rússia e a forçaria a procurar novas parcerias regionais para se preparar para qualquer eventualidade de uma proximidade estratégica EUA-Irã. Tudo isso para dizer que as relações russo-iranianas estão hoje numa encruzilhada.

Sim, é verdade que não há qualquer possibilidade iminente de criar-se um eixo EUA-Irã, dado que o problema nuclear iraniano ainda não foi resolvido e não há sinais de os EUA virem a dar um “salto de fé” na direção do Irã. Os lobbies saudita e israelense trabalham sem parar em Washington para fazer gorar qualquer acordo nuclear, e os interesses dos EUA também são muito profundos e extensivos nos estados do Golfo Árabe, o que torna extremamente difícil para o atual governo na Casa Branca cooptar abertamente o Irã como aliado no Oriente Médio em futuro próximo.

Tudo isso posto, Moscou também não quer saber de correr riscos. Está fazendo aberturas na direção dos estados do Golfo Árabe e conta desesperadamente com que aqueles estados sejam atraídos pelas possibilidades que uma ordem mundial multipolar oferece.

Moscou conseguiu encontrar interlocutor firme no rei Abdullah da Jordânia. Ano passado, Abdullah visitou Moscou; este ano já lá esteve duas vezes (incluindo o dia 2/10/2014); e ainda faltam dois meses para uma terceira visita. Entre uma visita e outra, Abdullah recebeu em Amã um importante visitante russo – o líder checheno Ramzan Kadyrov.

Rei Abdullah da Jordânia e VladimirPutin (6/10/2014)
Interessante: Moscou sabe perfeitamente que não há como cogitar do fim da participação da Jordânia na agenda de “mudança de regime” liderada pelos sauditas contra a Síria, que a Jordânia é fritada pequena para uma grande potência como a Rússia. Mesmo assim continua a ser país interessante, porque pode servir para levar Moscou até a liderança saudita; e Moscou sempre poderá encontrar serventia para os laços que Abdullah mantém com o ocidente. Assim afinal se compreende que está em curso um diálogo denso entre Abdullah e Putin baseado em realpolitik para um acerto entre os interesses desses dois lados, num espírito de pragmatismo.

O mais importante é que a Jordânia tem laços estreitos com Israel e, dados os crescentes contatos entre sauditas e israelenses, Moscou há de ter visto que há espaço para desenvolver um campo comum, pelo menos até certo ponto, sobre a base de uma antipatia/desilusão partilhada entre todos esses quatro protagonistas ante as políticas regionais dos EUA.

O Egito, sem dúvida, cabe também nesse paradigma. Os laços russos-egípcios estão-se desenvolvendo rapidamente, e a visita do presidente Abdel Fattah al-Sisi a Moscou em agosto foi interpretada como recado” aos EUA, de que o Cairo tem opções estratégicas  num cenário multipolar.

Mas do ponto de vista russo, o peixe grande que interessa é a Arábia Saudita. Moscou não deixou pedra sem examinar nos últimos anos, mesmo ante a rejeição diplomática que recebeu de Riad, tentando energizar o relacionamento com vista a convertê-lo, adiante, em parceria, mas os sauditas mantiveram-se muito lentos – pelo menos até agora. A guerra civil na Síria manifesta uma contradição aguda. Mas o coração da matéria é que os sauditas continuam muito longe de desistir de sua aliança estratégica com os EUA.

Os sauditas não perdem a esperança de que o governo Obama possa ser contido nessa trilha para fazer um acordo com o Irã, antes do prazo fatal, em novembro. Se nenhum acordo frutificar e no meio tempo se o Senado dos EUA mudar de mãos e passar a ser controlado pelos Republicanos, o engajamento EUA-Irã pode não acrescentar grande coisa e, de fato, é possível até que as tensões aumentem entre os dois velhos adversários. A estratégia saudita, em resumo, é, de algum modo, nada fazer durante o resto do governo Obama, até final de 2016.

Javad Zarif e John Kerry, em Genebra (Irã e P5+1)
Mas as coisas podem mudar dramaticamente se houver um acordo EUA-Irã sobre a questão nuclear. Ambas Moscou e Riad teriam muito a perder se a integração do Irã, no ocidente, começasse em sentido real. (Israel também perderia muito). Se acontecer, o Oriente Médio entrará no mundo multipolar.

Mas há muitíssimos “se” e “mas” implícitos nesse cenário. Muito dependerá de como vier a ser a guerra de Obama contra o Estado Islâmico. A grande questão aqui é: o que acontece na sequência, se o Estado Islâmico se impuser e levar a luta para dentro da Arábia Saudita?

Afinal, como movimento que é de “neo-wahhabismo”, o alvo chave do Estado Islâmico sempre será a Arábia Saudita, não o Ocidente como tal. A estratégia do EI é de algum modo provocar os EUA para que intervenham militarmente, para que o EI possa surfar a onda dos sentimentos antiamericanos que se espalham no Oriente Médio muçulmano, a qual, por sua vez, sempre atrairá novos recrutas e mais dinheiro dos estados do Golfo para a causa do Califa.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mais uma vitória de Putin − Gasoduto “Ramo Sul” será construído com a Áustria

25/6/2014, [*] Tyler Durden, ZeroHedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entradas e saídas de gasodutos na Ucrânia
Nunca foi segredo que o prêmio para quem controle a Ucrânia é a posse da vasta infraestrutura do gasoduto que parte da Rússia e chega à Europa. Mas, dado que todo o gás pertence, em primeiro lugar, à [empresa russa] Gazprom, realmente não importa se Kiev tinha posse do gás que enchiam os dutos que levavam o gás para a Europa; nem se, como é hoje o caso, a Ucrânia seria apenas um duto de transferência do gás totalmente russo, entregue a países europeus, sem que gás algum permanecesse na Ucrânia, hoje destroçada pela guerra civil.

Afinal de contas, a Ucrânia absolutamente não consegue mais comprar gás russo, porque não tem crédito nem dinheiro para pagar adiantado; mas, se roubar gás destinado à Alemanha e outros países, a Ucrânia estará simplesmente antagonizando seus novos “melhores amigos” na OTAN, os quais são, todos, clientes da [russa] Gazprom.

Não, o gasoduto que emergiu no papel de estrela principal no conflito na Ucrânia nada tem a ver com a Ucrânia, mas é gasoduto que percorre várias centenas de quilômetros do sul da Ucrânia – o chamado Projeto Ramo Sul (orig. South Stream Project) – que deixa o litoral sul da Crimeia no Mar Negro russo, cruza o Mar Negro e atravessa Bulgária, Sérvia, Hungria, e termina na central de distribuição de gás em Baumgarten, Áustria, de onde partem gasodutos de distribuição para toda a Europa Central, principalmente para a Alemanha.

O projeto, de 2007, foi concebido para não passar pela Ucrânia e servir como alternativa para o agora congelado gasoduto Nabucco apoiado por EUA e Europa; e recolheria o gás do Cáspio (principalmente do Azerbaijão e do Turcomenistão) e atravessaria a Turquia, antes de emergir na Bulgária, de onde seguiria a via europeia do Ramo Sul até a central austríaca de distribuição e dali adiante. Mapa a seguir:

Oleogasodutos que abastecem a Europa
(clique na imagem para aumentar)

Não surpreendentemente, foi a central de trânsito do Ramo Sul, a Bulgária, que começou a criar problemas para Putin, apesar de Putin ter conseguido “atropelar” o projeto Nabucco (quando, em junho de 2013, o presidente da gigante austríaca de energia OMV, Gerhard Roiss, anunciou que o projeto estava “superado”, depois que o consórcio turco Shah Deniz preferiu o Gasoduto Trans-Adriático (mapa no fim do parágrafo) ao Nabucco, como rota de exportação para suprir a Itália, em vez da Áustria).

Oleogasoduto Trans Adriático
(clique na imagem para aumentar)

Lembrem que aconteceu em janeiro, quatro meses antes de o governo ucraniano ser derrubado: o primeiro-ministro da Bulgária – país que mantém relação especialíssima de amor & ódio com a Rússia, e relação na qual os EUA adorariam injetar mais ódio – Plamen Oresharski, surpreendentemente ordenou a suspensão dos trabalhos no gasoduto Ramo Sul, por recomendação da união europeia. A decisão foi anunciada depois de conversações entre Oresharski e senadores norte-americanos.

Há agora um pedido, da Comissão Europeia, depois do qual suspendemos os trabalhos que estavam em andamento. Eu mesmo ordenei a suspensão “Outros procedimentos serão decididos depois de novas consultas com Bruxelas – Oresharski disse a jornalistas, depois de conversar com John McCain, Chris Murphy e Ron Johnson durante visita que fizeram à Bulgária.

Naquela ocasião, McCain, comentando a situação, disse que “a Bulgária deve resolver os problemas do [gasoduto] Ramo Sul, em colaboração com colegas europeus”. E acrescentou que na atual situação, queriam menos envolvimento russo.

Os EUA decidiram que querem pôr-se em posição de excluir todos os que querem excluir países nos quais os EUA tenham algum interesse; não há absolutamente nenhuma racionalidade econômica. Os europeus são muito pragmáticos, estão procurando fontes de energia – recursos de energia limpa, que a Rússia pode fornecer. Mas o problema com o [gasoduto] Ramo Sul é que ele não se encaixa na política da situação, disse Ben Aris, editor de Business New Europa, à RT.

Foi também em janeiro, quando autoridades da União Europeia (UE) ordenaram à Bulgária que suspendesse a construção de sua conexão com o gasoduto, planejada para transportar gás natural russo através do Mar Negro até a Bulgária e dali em diante para o leste da Europa. Bruxelas quer o projeto congelado, à espera de uma decisão sobre se violaria as regras sobre concorrência na UE para um único mercado de energia. Entende que o Ramo Sul não respeita as regras que proíbem produtores de controlarem também o acesso aos dutos.

Aí, claro, está a questão, porque, como a Europa tantas vezes teve de aprender pela via difícil, sua super dependência da Rússia para a produção e para o trânsito do gás implica que não tem qualquer meio para pressionar o Kremlin – o que os recentes eventos na Ucrânia só fizeram confirmar.

Projeto Ramo Sul (South Stream) em azul
Projeto (falido) Nabucco (em vermelho)
Agora, Putin apenas cimentou a realidade que não tem tanto a ver com quem controla o trânsito da energia pelos dutos, mas com quem controla a Europa: EUA ou Rússia. “Os EUA opõem-se ao projeto do gasoduto russo Ramo Sul, porque querem fornecer gás à Europa, como únicos fornecedores, eles mesmos”, disse o Presidente Putin, na 3ª-feira (24/6/2014). Chamou a situação de “mera disputa concorrencial”.

[Os EUA] têm feito de tudo para quebrar esse contrato. Nada há aqui de excepcional. É mera disputa concorrencial. Nessa disputa, usam-se também instrumentos políticos – disse o presidente da Rússia, depois de conversar com presidente da Áustria, Heinz Fischer, em Viena.

Estamos em conversações com nossos parceiros num contrato comercial, não com estranhos ou terceiros. Nossos amigos dos EUA estão infelizes por causa do Ramo Sul... Bem... Também ficaram infelizes em 1962, quando o projeto “gás em troca de gasodutos”, com a Alemanha, estava começando. Agora, estão outra vez infelizes. Mas nada mudou, exceto que os EUA querem fornecer gás à Europa, como únicos fornecedores, eles mesmos. Se acontecesse como os EUA prefeririam, o gás norte-americano não seria mais barato que o gás russo – gás de gasoduto é sempre mais barato que gás liquefeito – disse Putin.

O que, por sua vez, nos leva ao auge da disputa política em torno do Ramo Sul, quando, hoje cedo, em mais um tento a favor do Kremlin, a Áustria, um dos países mais estáveis e respeitados na Europa, com crédito padrão AAA, deu a aprovação final ao projeto do tal “controverso” projeto de gasoduto russo. A aprovação é claro sinal de desafio à União Europeia. É, simultaneamente, aceno de boas vindas ao presidente Putin da Rússia em sua chegada, agora, à Áustria – país neutro e cliente consumidor, há muito tempo, da energia que Moscou lhe fornece.

Como a Agência Reuters noticiou:

(...) os principais executivos da Gazprom russa e da OMV austríaca selaram o acordo para construir um trecho do gasoduto Ramo Sul até a Áustria, país que firmemente defendeu o projeto ante a oposição que lhe fez a Comissão Europeia.

Oleogasodutos "Santo Graal" - Rússia e China
(clique na imagem para aumentar)
Em outras palavras, apenas um mês depois de Putin ter assinado o contrato “Santo Graal” com Pequim,  ele não apenas conseguiu formalizar essa conquista russa em pleno território europeu, com mais um gasoduto – e gasoduto que absolutamente nada tem a ver com a Ucrânia (o que é importante por várias razões, mas, sobretudo, porque é o que se pode chamar de um “Plano B”), mas também obteve massiva vitória política, conseguindo cavar uma fissura no coração da Eurozona, com a Áustria desafiando abertamente os seus pares europeus e se posicionando ao lado de Putin.

Desnecessário dizer, a Comissão Europeia está furiosíssima, aos gritos de que o Ramo Sul descumpriria normas e leis que protegem a livre concorrência na UE, porque não garantiria acesso também a terceiros. O gasoduto Ramo Sul, como dito acima, também contraria a política da UE de diversificar fontes, para reduzir o muito que a Europa depende da Rússia.

Mas o presidente da OMV, Gerhard Roiss, em surpreendente momento de realpolitik clarividente, só fez, de fato, reconhecer que, no que tenha a ver com o futuro da energia na Europa, Putin é mais importante que Mario Draghi.

Numa conferência de imprensa depois de assinar o contrato, Roiss disse:

A Europa precisa do gás russo. A Europa mais precisará de gás russo no futuro, porque a produção de gás na Europa já está caindo (...) Creio que a União Europeia também sabe disso.

É claro que sabem disso. A questão é que não querem admitir, porque a admissão sela o destino da Europa como estado-vassalo da Rússia, em matéria de energia. Como sonho “cheirado” em “gases” de má qualidade (perdoem o trocadilho), a alternativa seria a Europa receber gás natural liquefeito dos EUA.

Sobre isso, ninguém menos que o presidente da Cheniere Energy, Charif Souki disse em abril, quando perguntado se o terminal da Cheniere “conseguiria salvar” os países do leste europeu da dependência da Rússia, que:  

(...) é lisonjeiro que alguém suponha que sejamos capazes de tal coisa, mas é total loucura. É tal nonsense, que não acredito que alguém realmente acredite nisso.  

É claro que não acreditam, mas tudo é política. E na política sempre se trata de adquirir mais poder, ou de se submeter ao poder de outros. Hoje a Áustria adquiriu mais poder; ao desertar do campo de seus pares europeus pode ter iniciado um processo que leve ao racha da própria Eurozona; e com Vladimir Putin a manobrar o cordame.


O projeto pôs a indústria europeia contra os políticos da UE e dividiu os apoiadores do Ramo Sul gasoduto que se estende da Alemanha por toda a Europa Central e Sudeste da Europa pesadamente dependentes da Rússia dos demais estados-membros da UE.

Em visita de trabalho de um dia a Viena, que mereceu críticas na UE, Putin falou dos laços comerciais muito estreitos que ligam a Rússia à Áustria, o primeiro país europeu que assinou, em 1968, acordos de longo termo de fornecimento de gás com Moscou.

Disse que a Áustria é parceiro “importante e confiável” para a Rússia, que é o terceiro maior parceiro comercial da Áustria fora da UE depois de EUA e Suíça.

O presidente austríaco Heinz Fischer também defendeu o projeto do [gasoduto] Ramo Sul: “Ninguém conseguiu me explicar – nem consigo explicar ao povo austríaco – por que um gasoduto que corta a União Europeia e vários países-membros da OTAN deveria ser proibido de andar por 50 km em território austríaco”.

Ah! Para registrar: o presidente da Áustria disse também que é “contra sanções contra Moscou” (para o caso de a Europa tentar aprovar por unanimidade sanções contra a Rússia a propósito da Ucrânia).

E por falar de Ucrânia, as coisas ficaram realmente bizarras em Viena, quando o presidente da Câmara de Comércio da Áustria relembrou Putin de que parte da Ucrânia pertencia à Áustria em 1914. Ao que Putin respondeu de bate-pronto “Mas... O que você está querendo dizer? Diga logo: qual é sua proposta?” – o que levou às gargalhadas a elite comercial presente. Mais um pouco, sacomé, Putin estará contando piadas, na Europa, sobre a anexação da Hungria.

E aí está, para que todos vejam, no caso de alguém ainda não ter percebido: o que está acontecendo na Ucrânia não passa de piada para os corretores do poder na Europa, a “elite comercial”. A decisão já está tomada há muito tempo: Putin não encontrará nenhuma objeção vinda dessa dita “elite”, faça o que fizer em relação ao tal país irrelevante e devastado pela guerra. Exceto, claro, as objeções “televisivas” da CIA e dos EUA, no teatrinho montado para consumo do mínimo denominador comum.

50% do projeto conjunto Ramo Sul-Áustria pertencerá à Gazprom – maior produtora russa de gás – e 50% pertencerá ao Grupo OMV da Áustria, maior empresa austríaca de petróleo e gás.

O presidente da Áustria disse que, se alguém criticar a Áustria, terá também de criticar outros países-membros [da UE] e suas empresas.

Espero que nunca chegue o momento em que um país como a Áustria não possa manter conversações com país-parceiro que tenha intensas relações conosco e não esteja em posição de negociar com a EU – disse o presidente austríaco.

Sabemos que diálogo desse tipo não contradiz qualquer decisão da UE.

Quis dizer com isso que ninguém, na Europa, pode meter-se a dizer a Putin o que fazer.

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Alexei Miller (Gazprom) e Gerhard Roiss (OMV) (E) assinam contrato de construção 
do Projeto Ramo Sul (South Stream) em 24/6/2014
Quanto às questões logísticas do gasoduto, agora que o acordo já está assinado, serão resolvidas a seu tempo: o presidente da Gazprom, Alexei Miller disse que está em contato semanal, quando não diário, com o Comissário Europeu de Energia, Guenther Oettinger, cuidando da aprovação do projeto do Ramo Sul.

Resolvemos os problemas à medida que surgem; e agora o problema de construir o gasoduto está a um passo de ser solucionado – disse Miller.

O acordo do gasoduto não trata da questão do acesso de terceiros, o que a lei da União Europeia exige, para impedir que o proprietário de uma fonte de energia monopolize seus canais de distribuição. Roiss, da OMV, disse que a questão tem de ser negociada com Bruxelas. Roiss disse que:

(...) a parte austríaca do gasoduto, planejada para ser construída em 2016 e começar a entregar gás no início de 2017, será construída em perfeito acordo com a lei europeia. (...)

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Obviamente... Putin quer dividir a União Europeia. Nada de novo. É o que os russos sempre fazem, quando estão encurralados – disse o ministro de Relações Exteriores da Suécia Carl Bildt em entrevista à televisão, na 2ª-feira (23/6/2014).

Bem, bem, Mr. Bildt... a Rússia ainda consegue semear muita discórdia na União Europeia, é claro, se o país mais estável do bloco acaba de alinhar-se ao lado de Putin e diz a todos os próprios “parceiros” europeus, Merkel e Cameron incluídos, um grande “fodam-se”. Quanto à sua avaliação completamente errada de quem está “encurralado”, deixemos-prá-lá: afinal, como outro político europeu de destaque “no bloco”, Jean-Claude Juncker, já nos explicou, quando a coisa fica realmente séria “no bloco”, “o bloco” tem de mentir.
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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).