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quarta-feira, 15 de abril de 2015

“Neocons” e a promoção do caos no Oriente Médio

13/4/2015, [*] Ray McGovernConsortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Guerra do Golfo Pérsico em 1991
Depois da Guerra do Golfo em 1991, os neoconservadores nos EUA supuseram que nenhum país nunca mais conseguiria resistir aos exércitos high-tech dos EUA e deram-se conta de que já não havia União Soviética para limitar as ações dos EUA. Foi quando nasceu a estratégia das “mudanças de regime” – e muita gente começou a morrer.

O general de quatro estrelas e ex-insider em Washington, Wesley Clark, cantou essa história toda há vários anos, de como Paul Wolfowitz e seus coconspiradores neoconservadores implementaram o plano deles, de varredura, para desestabilizar países chaves no Oriente Médio, tão logo ficou evidente para todos eles que a Rússia pós-soviética “não nos conterá”.



Como revi recentemente no clip de oito minutos em YouTube (acima, em inglês), do discurso do general Clark em outubro de 2007, o que mais me saltou aos olhos foi que os neoconservadores sentiam-se fortalecidos pela avaliação que fizeram de que, depois do colapso da União Soviética, a Rússia estaria neutralizada, já sem capacidade para conter a ação militar dos EUA no Oriente Médio.

A fala pública de Clark escapou a qualquer crítica ou comentário na mídia-empresa sempre amiga dos neoconservadores (surpresa, surpresa!), mas ele conta lá que lembra perfeitamente de ter ouvido, de um alto general do Pentágono, pouco depois dos ataques do 11/9/2001, sobre o plano coordenado por Donald Rumsfeld/ Paul Wolfowitz para  “mudança de regime” no Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã.

Foi muito surpreendente, porque oficialmente os EUA apresentam-se como país que respeitaria a lei internacional, que protesta muito quando outras nações poderosas derrubam (alguns) presidentes em estados fracos e – depois da IIª Guerra Mundial – os EUA condenaram agressões passadas cometidas pelos nazistas alemães e protestaram muito por os soviéticos “subverterem” nações pró-EUA.

Mas o que realmente me chamou a atenção dessa vez foi o significado de Clark lá estar denunciando Wolfowitz, em 1992, a se gabar do que supunha que tivesse sido uma grande lição aprendida do ataque ao Iraque (“Tempestade no Deserto”) em 1991, a saber, que “os soviéticos não nos conterão”.

O que Clark disse que Wolfowitz dissera tem a ver diretamente com um problema que me atormenta desde março de 2003, quando George W. Bush atacou o Iraque. Será que osneocons – conhecidos como “os doidos” entre a pequena população que permanece mentalmente sã em Washington – teriam sido suficientemente doidos a ponto de optar pela guerra para “rearranjar” o Oriente Médio, se a União Soviética não se tivesse esfacelado em 1991?

Não é questão ociosa. Apesar do fracasso dos EUA no Iraque e por toda parte, os “doidos”neocons ainda têm enorme influência sobre o Establishment em Washington. Assim sendo, a questão muda um pouco: será que, com a Rússia muito mais estável e muito mais forte hoje, os “doidos” ainda estão pensando em arriscar uma escalada militar contra a Rússia, pela Ucrânia – o que William R. Polk, diplomata norte-americano aposentado, avaliou como confrontação nuclear potencialmente perigosa, uma “crise dos mísseis cubanos ao contrário”?

O comentário de Putin 

O vácuo geopolítico que permitiu que os neocons tentassem pôr em operação o esquema deles de “mudança de regime” no Oriente Médio pode bem ser a causa profunda do que o presidente Vladimir Putin da Rússia disse em seu discurso do Estado da Nação, dia 25/4/2005, (vídeo com legendas em inglês no fim do parágrafo) que o colapso da União Soviética foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. O comentário do presidente Putin foi convertido em meme favorito dos que obram para demonizar Putin, apresentando-o como decidido a atacar a Europa, para assim reconstruir alguma poderosa neo-URSS.


Mas, falando dois anos depois da invasão contra o Iraque, Putin parece acertar, pelo menos no que tenha a ver com o modo como os neocon sexploraram a ausência do contrapeso russo, para super distender o poder dos EUA, de modo que agrediram muito violentamente o mundo, devastadores para as pessoas nos países atacados pelas intervenções norte-americanas e, mesmo, com considerável prejuízo para os próprios EUA.

Se se toma alguma distância e tenta-se uma visada não enviesada sobre a disseminação da violência no Oriente Médio ao longo dos últimos 25 anos, é difícil não chegar à conclusão de que o comentário do presidente Putin acertou o olho do alvo. Com a Rússia enfraquecida como potência militar nos anos 1990s e início dos 2000s, nada havia que contivesse os políticos norte-americanos e os impedisse de se atirarem ao mais desatinado aventureirismo contra o “baixo ventre macio” da Rússia, ação que, anos antes, implicaria risco considerável de confrontação armada entre EUA e Rússia.

Morei na URSS durante os anos 1970s e não desejo a ninguém aquele tipo de regime restritivo. Mas até que se desintegrou, foi regime militarmente forte a ponto de conter o aventureirismo à moda Wolfowitz. E digo que – para os milhões de pessoas já mortas, feridas ou arrancadas da própria terra e da própria casa pela ação militar dos EUA no Oriente Médio ao longo dos últimos 12 anos – o colapso da URSS, como força de contenção contra as guerras norte-americanas não foi só “catástrofe geopolítica”: foi desastre absoluto, até agora ainda sem remédio ou alívio.

Encontro com Wolfowitz

No discurso de 2007, o general Clark contou de um encontro que teve, no início de 1991, com Paul Wolfowitz, então subsecretário de Defesa para Assuntos Políticos (e depois, de 2001 a2005, vice-secretário de Defesa). Aconteceu logo depois de um grande levante dos xiitas no Iraque, em março de 1991. O governo do presidente George H.W. Bush provocara o levante, mas nada fez para salvar os xiitas da retaliação brutal que Saddam Hussein aplicou-lhes, Saddan que mal sobrevivera à derrota no Golfo Pérsico.

Paul Wolfowitz
Nas palavras de Clark, Wolfowitz disse:

Devíamos ter-nos livrado de Saddam Hussein. A verdade é que, uma das coisas que aprendemos é que podemos usar força militar no Oriente Médio, e os soviéticos não nos impedirão. Temos cinco, dez anos para limpar aqueles velhos governos clientes dos soviéticos – Síria, Irã (sic), Iraque – antes que a próxima superpotência apareça para nos desafiar.

Hoje, claro, já são mais de dez anos. Mas não se deixem enganar pela suposição de que Wolfowitz e seus colegas neocons entendam que teriam falhado de modo significativo. O desassossego que eles iniciaram não para de aumentar – no Iraque, Síria, Líbia, Somália, Líbano, para nem falar da nova onda de violência que atinge frontalmente o Iêmen, além da crise na Ucrânia. Pois... a carapaça antiaderente que envolve os mesmos neocons continua a recobri-los e protegê-los, na grande mídia-empresa.

Um detalhe é, sim, verdade: o Irã é terrível desapontamento para os neocons. O Irã está hoje mais estável e menos isolado do que antes; desempenha papel sofisticado no Iraque; e está muito próximo de concluir um grande acordo nuclear com o ocidente – o que impedirá que algum macaco neocon-israelense entre na loja de porcelanas para quebrar tudo, como aconteceu no passado.

Revés anterior sofrido pelos neocons aconteceu no final de agosto de 2013, quando o presidente Barack Obama decidiu não se deixar prender na ratoeira que os neocons lhe preparavam para que ordenasse às forças dos EUA que bombardeassem a Síria. Wolfowitz et alii estiveram muito próximos de conseguir que os EUA formalmente se envolvessem na guerra contra o governo do presidente Bashar al-Assad da Síria quando aconteceu o que aconteceu. Com a ajuda de Vladimir Putin, o diabo encarnado (para os neocons), Obama enfrentou os neocons, derrotou-os e evitou a guerra.

Vladimir Putin
Uma semana depois de já não haver qualquer dúvida de que os neocons não conseguiriam a guerra que queriam na Síria, de repente, lá estava eu, no estúdio central da rede CNN em Washington ao lado de Paul Wolfowitz e do ex-senador Joe Lieberman, outro destacado neocon. Como contei em How War on Syria Lost Its Way”,  a cena era surreal – na verdade, fúnebre, com os dois, Wolfowitz e Lieberman, aos palavrões, furiosos, como se tivessem saído do estádio onde o time deles perdera feio o Super Bowl.

Preferências israelenses/neocons

Mas os neocons são duros na queda. Apesar dos grotescos fracassos, como a Guerra no Iraque, e seus desapontamentos, como não conseguir a guerra com que sonhavam, na Síria, eles jamais aprendem qualquer lição, nem mudam as próprias metas. Apenas recalibram o objetivo. Passaram imediatamente a atirar contra Putin novamente, dessa vez por causa da Ucrânia, como meio para limpar o caminho novamente para “mudança de regime” na Síria e no Irã.

Os neocons também podem extrair algum consolo, do “sucesso” que tiveram nas ações para pôr fogo no Oriente Médio, com xiitas e sunitas já saltando uns na goela dos outros – péssimo para muita gente em todo o mundo e com certeza para as muitas vítimas inocentes na região, mas, afinal, nem tão péssimo para os neocons. Líderes israelenses e seus companheiros de leito (homens e mulheres) entendem que guerras lá entre os próprios muçulmanos sempre têm, no mínimo, alguma vantagem de curto prazo para Israel, porque consolidam o controle sobre a Cisjordânia palestina.

Em memorandum que a organização Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS) enviou ao presidente Obama dia 6/9/2013, chamamos a atenção de todos para uma matéria excepcionalmente clara e sincera sobre as motivações de israelenses e neoconservadores, assinada por ninguém menos que a chefe da sucursal do The New York Times em Jerusalém e empenhada amiga de Israel, Jodi Rudoren, de 2/9/2013, apenas dois dias antes de Obama colher os frutos do sucesso de Putin, que conseguira persuadir os sírios a entregar seus arsenais de armas químicas para serem destruídas, e cancelasse qualquer plano de atacar a Síria – para terrível consternação dos neocons em Washington.

Jodi Rudoren
Pode-se provavelmente perdoar Rudoren pela ingenuidade “politicamente incorreta”. A moça estava há apenas um ano no serviço, tinha pouca experiência de como noticiar eventos do Oriente Médio e – excitadíssima ante e iminência do ataque à Síria – ela aparentemente esqueceu o que reza o manual de redação do Times para quem escreva de Jerusalém. Seja como for, as prioridades de Israel transpareceram muito claramente no que Rudoren escreveu.

No artigo dela, intitulado Israel apoia ataque limitado contra a Síria, Rudoren observava que os israelenses andavam dizendo, em voz baixa, que o melhor resultado para a guerra na Síria que (então) já durava 2 anos e meio seria, pelo menos naquele momento, resultado-zero:

Para Jerusalém, o status quo, por horrendo que seja do ponto de vista humanitário, é preferível, seja a uma vitória do governo de Assad e seus apoiadores iranianos, seja a um fortalecimento dos grupos rebeldes, cada dia mais dominados por jihadistas sunitas.

É situação “de tabela”, na qual é preciso que os dois times percam, ou, pelo menos, você não deseja que qualquer deles vença – quer que fique como está – disse Alon Pinkas, um ex-cônsul geral de Israel em New York. “Que sangrem os dois, que sangrem até morrer: esse é o pensamento estratégico por aqui. Enquanto sangrarem, a Síria não será ameaça real”.

Mais claro, impossível. Se esse ainda é o modo como os líderes israelenses veem a situação na Síria, eles contam com envolvimento cada vez maior dos EUA – declarado ou clandestino – como meio que garantiria que nenhuma solução apareça para o conflito na Síria. Quanto mais tempo demorar a matança entre sunitas e xiitas, não só na Síria, mas por todo o Oriente Médio, mais segura estaria Israel, pelo cálculo dos líderes em Telavive.

Ajudar os terroristas

Mas os líderes israelenses também deixaram claro que, se algum lado tiver de prevalecer, que prevaleçam os sunitas, apesar de todo o extremismo sangrento da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Em setembro de 2013, pouco depois do artigo de Rudoren, o embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, então conselheiro muito próximo do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, disse ao Jerusalem Post que Israel preferia os extremistas sunitas, a Assad.

O maior perigo para Israel vem do arco estratégico que se estende de Teerã a Damasco e Beirute. E vemos o governo de Assad como pedra basilar desse arco – disse Oren numa entrevista. – Sempre quisemos que Bashar Assad saísse, sempre preferimos os bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, aos bandidos apoiados pelo Irã. E disse que continuava a ser assim, mesmo que os “bandidos” fossem ligados à al-Qaeda.

Michael Oren
Em junho de 2014, Oren – que então falava como ex-embaixador – disse que Israel preferiria uma vitória do Estado Islâmico, que estava massacrando soldados iraquianos capturados e degolando ocidentais, à continuação do governo de Assad, apoiado pelos cidadãos sírios.

Do ponto de vista de Israel, se um dos males tiver de prevalecer, que prevaleça o mal sunita – disse Oren.

Netanyahu disse coisa semelhante dia 3/3/2015, no discurso ao Congresso dos EUA, no qual trivializou a ameaça do Estado Islâmico com suas “facas de açougueiro, armas capturadas e YouTube”, comparado ao Irã que, para ele, estaria “exaurindo as nações” do Oriente Médio.

O fato de o principal aliado da Síria ser o Irã, com o qual a Síria mantém tratado de defesa mútua tem papel importante nos cálculos dos israelenses. Por isso, enquanto alguns líderes ocidentais tentam construir algum acordo realista, ainda que imperfeito, para pôr fim à guerra na Síria, outros, com considerável influência em Washington, querem, só, que o governo do presidente Assad e toda a região sangrem até a morte.

Por cruel e cínica que seja essa estratégia, não é muito difícil de entender. Mas, sim, parece ser uma dessas situações complicadas, politicamente carregadas, que está muito acima das competências pelas quais são pagos os calouros, os amadores, que aconselham o presidente Obama – e que, muito lamentavelmente, não têm recursos nem talentos nem meios para derrotar os neocons que mandam no Establishment em Washington. Para nem falar do Congresso que Netanyahu mantém hipnotizado.

Espertalhões desmascarados

Falando de Congresso, um ano depois da matéria de Rudoren, o senador Bob Corker, R-Tennessee, que atualmente preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado, divulgou alguns detalhes do ataque militar que estava planejado contra a Síria, ao mesmo tempo em que muito lamentou que tivesse sido cancelado.

Bob Corker
Nessa fala, Corker apresentou a mudança abrupta de Obama, dia 31/8/2013, quando optou por negociações, em vez de ataque declarado à Síria, Como “o pior momento da política exterior dos EUA desde que estou aqui”. Seguindo estritamente o roteiro dos neocons, Corker atacou o acordo com Putin e os sírios, para livrar a Síria de suas armas químicas.

Corker protestou:

Na essência – lamento se soar um tanto retórico – pulamos no colo de Putin.

Um grande Não-Não, é claro – sobretudo no Congresso – a qualquer coisa que se assemelhe a “pular no colo de Putin”, mesmo que Obama tenha conseguido tirar as armas químicas da Síria, sem fazer os EUA pularem em mais uma guerra no Oriente Médio.

Seria ótimo, é claro, se o general Clark tivesse partilhado antes, com o resto dos norte-americanos, o que sabia sobre a posição do Pentágono. Ninguém jamais o veria como “vazador” de segredos.

Quando fez aquele discurso (vídeo acima), em setembro de 2007, o general estava empenhado na tentativa quixotesca de conseguir a indicação dos democratas como candidato à presidência em 2008. Em outras palavras, Clark quebrou o juramento de silêncio que todos os generais fazem, e que perdura mesmo depois da aposentadoria, apenas para conseguir separar-se, pouco que fosse, do fracasso dos EUA no Iraque – e arrancar alguns votos entre os Democratas antiguerra. Não funcionou, então ele apoiou Hillary Clinton; não funcionou, então ele apoiou Barack Obama.

Wolfowitz, como lhe é característico, já tomou novamente pé na situação. Agora trabalha para ser conselheiro de política externa e de defesa de Jeb Bush, aspirante à presidência dos EUA, e com certeza já está a soprar suas ideias para o Oriente Médio nas orelhas do próximo chefão. Alguém sabe se “pandemônio” tem plural?
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[*] Ray McGovern nasceu no Bronx em Nova York em 25/8/1939 e lá cresceu. Formou-se com honras pela Universidade Fordham e serviu no Exército dos EUA de 1962-1964. Está casado com Rita Kennedy por 50 anos. Juntos têm cinco filhos e oito netos.
Aposentado como analista da CIA onde trabalhou no período 1963-1990. Trabalhou inicialmente como oficial da CIA responsável pela análise da política soviética no Vietnã.
No início da década de 1980, já como analista sênior, montou e dirigiu o grupo de National Intelligence Estimates que preparava o President's Daily Brief. Rotineiramente apresentava essesbriefings matinais de inteligência na Casa Branca. Em meados da década de 1980 era o analista que conduzia briefings matinais one-on-one com o Vice-Presidente, os Secretários de Estado e da Defesa, o Comandante do Estado Maior Conjunto e do Assistente do Presidente para a Segurança Nacional. Sua carreira CIA começou no governo do presidente John F. Kennedy, e durou até a Presidência da George Bush (pai).
Após aposentar-se fundou a organização Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS)[Profissionais Veteranos de Inteligência, pela Sanidade] onde atua até hoje.

domingo, 5 de outubro de 2014

Abrir os olhos para as realidades sírias

3/10/2014, [*] Robert ParryConsortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ataque químico organizado pelo "ocidente" e realizado pelos "rebeldes" na Síria assassinou mais de 1000 pessoas entre adultos e crianças
No final do verão de 2013, a Washington oficial apressava-se a “sentenciar” que o presidente da Síria Bashar al-Assad (do mal) havia disparado barragem de mísseis contendo gás sarín, e assim massacrado centenas de civis em áreas próximas de Damasco controladas pelos rebeldes.

Era inconcebível para virtualmente todas as pessoas “que contam” em Washington que pudesse haver outra interpretação para os eventos de 21/8/2013. O colunista de segurança nacional do Washington Post, David Ignatius até explicou a razão “do grande quadro” pela qual o presidente Barack Obama era obrigado a lançar bombardeio punitivo contra o governo de Assad, porque, ao usar armas químicas, o presidente sírio cruzara a “linha vermelha” de Obama.

O que será o mundo quando as pessoas começarem a duvidar da credibilidade do poder dos EUA. Infelizmente, estamos descobrindo a resposta na Síria e em outras nações nas quais os líderes já concluíram que podem desafiar os EUA já fartos de guerras, sem pagar o preço.

Usar poder militar para manter a credibilidade da nação pode soar como ideia antiquada, mas é absolutamente relevante no mundo real onde todos vivemos. Já se tornou óbvio em semanas recentes que o presidente Obama(...) precisa demonstrar que há consequências para quem cruze uma “linha vermelha” norte-americana. Sem isso, a coerência do sistema global começa a dissolver-se − escreveu Ignatiusuma semana depois do incidente do gás sarín.

Naquele momento, poucos de nós levantaram questões sobre o “pensamento de grupo” dentro da Washington oficial sobre os ataques com sarín, em parte porque não faria sentido algum, para Assad, ter convidado inspetores da ONU para examinar os locais de outros ataques com gás, que Assad atribuía à oposição, e, em seguida lançar mais um grande ataque a poucas milhas do hotel ao qual estavam chegando os inspetores.

Também ouvi de dentro da inteligência dos EUA que alguns analistas da CIA tinham as mesmas dúvidas e suspeitavam que o suposto alto número de foguetes carregados com gás sarín (que era então a principal “prova” contra as forças do presidente Assad) havia sido muitíssimo aumentado, e que o pânico entre a população poderia ter inflado as dimensões do ataque.

Mas a razão mais forte para duvidar da Washington oficial talvez fosse a muito apressada conclusão segundo a qual Assad seria culpado de tudo que já vinha acontecendo dentro da oposição síria ao longo de dois anos, a saber, a radicalização e a conversão em força jihadista sunita hiper violenta, que se preparava para ataques brutais contra civis para derrubar o governo secular de Assad e impor em Damasco um estado islamista.

A MENTIRA dos neocons começou com Rumsfeld/Bush e continuou com Obama/H. Clinton/Kerry... Até hoje!

Blindados pela propaganda

Praticamente nenhuma das pesquisas, estudos e avaliações feitas em Washington detectou essa mudança, porque estavam todos já cegos, de uma cegueira geopolítica infligida pela propaganda dos neoconservadores, que insistiam em que a única via aceitável para interpretar a guerra civil síria seria ver Assad na posição de “o bandido”, e os rebeldes na posição de “os mocinhos”.

Afinal, “mudança de regime” na Síria é item presente há muito tempo na agenda dos neoconservadores; há tanto tempo quanto é item da agenda de Israel, que quer derrubar Assad porque é aliado de Irã e do Hezbollah libanês. No início da guerra na Síria, a dura resposta de Assad ao que ele sempre chamou de “terrorismo”, mas era conhecido nos EUA como “oposição síria” havia induzido também os “liberais intervencionistas” do governo de Obama para o campo dos “mudadores de regime”.

Nesse quadro, a ideia de que algum grupo sírio rebelde extremista poderia deliberadamente matar civis, como provocação para atrair um ataque militar dos EUA contra as defesas de Assad – e assim abrir caminho para uma vitória dos rebeldes – nunca conseguiu penetrar o quadro de referências que a Washington oficial aceitava. Em agosto de 2013, a opinião dominante nos EUA ensinava que os rebeldes sírios eram forças “do bem”.

Ao longo do ano passado, contudo, a realidade, pelo menos em parte, afinal, começou a impor-se. O caso do gás sarín contra o presidente Assad foi praticamente desmontado pelo relatório que a ONU publicou, depois de só haver sido encontrado um único foguete com gás sarín, e de cientistas independentes terem concluído que aquele único foguete carregado com gás teria alcance máximo de cerca de dois quilômetros – o que implicava que ataque algum poderia ter partido da base síria suspeita, localizada a cerca de nove quilômetros de distância.

O repórter investigativo Seymour Hersh também soube, de fontes muito bem postadas, que a comunidade de inteligência dos EUA já começara a suspeitar de extremistas rebeldes que estariam trabalhando ao lado de setores de linha-dura, na inteligência turca [ver Was Turkey Behind Syria-Sarín Attack?].

Mas muita “gente importante” do mundo oficial nos EUA, inclusive os editores dos jornais New York Times e Washington Post, continuaram a insistir que Assad tinha de ser o responsável pelo ataque com sarín. “Noticiavam” essa opinião deles próprios, como se fosse fato estabelecido. E sabe-se que essa gente não é dada a admitir os próprios erros.

Caixas de munição chegam para a Frente al-Nusra na Síria

Uma mudança de paradigma

Ao longo do último ano porém, o paradigma de interpretação do conflito sírio começou a mudar. Em setembro de 2013, muitas forças rebeldes sírias repudiaram a oposição “moderada” e abraçaram, em vez dela, a Frente al-Nusra da al-Qaeda, força jihadista muito agressiva na qual se haviam reunido os combatentes mais efetivos contra Assad.

Então, em fevereiro de 2014, a liderança da al-Qaeda começou a falar de uma força jihadista ainda mais brutal, já chamada Estado Islâmico do Iraque e Levante [Síria] (ing. ISIS ou ISIL). Esse Estado Islâmico promoveu estratégia de indizível brutalidade, como meio para intimidar rivais e afastar os ocidentais, do Oriente Médio.

O ISIL começou a existir depois da invasão dos EUA ao Iraque em 2003, quando o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi organizou a chamada “al-Qaeda no Iraque”, uma milícia sunita hiper violenta que atacava xiitas iraquianos e destruía suas mesquitas, espalhando uma viciosa guerra sectária por todo o Iraque.

Depois da morte de Zarqawi em 2006 – e com o afastamento de sunitas iraquianos menos extremistas – a al-Qaeda no Iraque sumiu de cena, até reaparecer na guerra na Síria, já transfigurada como Estado Islâmico e de volta também ao Iraque, numa grande ofensiva militar no verão passado.

Entre notícias de que o Estado Islâmico promove massacres e degola de reféns norte-americanos e britânicos, novamente voltou a parecer crível que haja grupos rebeldes sírios suficientemente agressivos para obter gás sarin e fazer um ataque químico perto de Damasco, matando inocentes e com o projeto de atribuir o crime ao governo do presidente Assad.

Até Ignatius do Post já parece mais cético quanto ao movimento rebelde sírio; e sobre o serviço que prestam as várias agências de inteligência dos EUA e aliados que sempre forneceram dinheiro, armas e treinamento – até a milicianos dos grupos mais extremistas.

Posto de fronteira da Turquia com a Síria

Abriram a porta

Em coluna na 5ª-feira2/10/2014, Ignatius critica não só a tal “oposição moderada” na Síria, mas também

(...) nações estrangeiras, como EUA, Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Jordânia, que estão financiando essa mistura caótica de rebeldes armados dentro da Síria. Essas maquinações estrangeiras ajudaram a abrir a porta para que o grupo terrorista Estado Islâmico passasse a ameaçar a região.

Até Ignatius já reconheceu que a ideia de pintar a oposição síria como movimento de raízes locais, constituído de reformadores idealistas, foi erro grave. Escreveu:

Desde o início da revolta contra o presidente Bashar al-Assad em 2011, aSíria foi cenário de uma guerra por procuração que envolveu potências regionais (Turquia, Arábia Saudita e Qatar) que, todas, queriam derrubar Assad, mas também competiam entre elas como rivais regionais.

Em diferentes momentos, essas três nações forneceram dinheiro e armas a grupos sunitas rebeldes, armas que acabaram nas mãos de extremistas. (...) Os EUA, Arábia Saudita e Jordânia uniram forças em 2013 para treinar e armar rebeldes moderados num campo de treinamento mantido pela CIA, na Jordânia. Mas esse programa jamais foi forte o suficiente para unificar as quase 1.000 brigadas espalhadas pelo país. A desorganização resultante ajudou a desacreditar a aliança rebelde conhecida como Exército Sírio Livre.

Os comandantes sírios rebeldes têm também alguma culpa por esta estrutura em cacos. Mas o caos foi gravemente piorado pelas potências exteriores que trataram a Síria como playground para seus serviços de inteligência. Essa intervenção cínica faz lembrar intervenções semelhantes que muito contribuíram para devastar o Líbano, o Afeganistão, o Iêmen, o Iraque e a Líbia, em guerras civis assemelhadas. (...)

David Ignatius
A história de como a Síria foi convertida em centro de pilotagem para agências de inteligência rivais, foi-me explicada por fontes aqui [em Istambul] e em Reyhanli, área de ação rebelde na fronteira turco-síria. Esforços externos para treinar e armar rebeldes sírios começaram há mais de dois anos em Istanbul, onde um ‘centro de operações militares’ foi criado, primeiro, num hotel próximo ao aeroporto.

Figura chave era um agente do Qatar, que ajudou a armar os rebeldes líbios que depuseram Muammar Gaddafi. Trabalhando com os qataris havia altos funcionários das inteligências turca e saudita. Mas a unidade interna das operações de Istambul acabou quando turcos e qataris começaram a apoiar grupos islamistas, que eles consideravam mais agressivos.

Aqueles jihadistas realmente surgiram como combatentes mais valorosos, mais duros – e o sucesso deles foi como um ímã para atrair mais apoio. Os turcos e qataris insistem que não apoiaram intencionalmente o grupo extremista Frente al-Nusra ou o Estado Islâmico. Mas armas e dinheiro enviado para brigadas islamistas mais moderadas acabaram em mãos desses grupos terroristas, e turcos e qataris fizeram-se de cegos.

Quanto ao crescimento desses radicais, Ignatius cita uma fonte da inteligência árabe, que disse ter “alertado um funcionário do Qatar, que respondeu: “Enviarei armas para a al-Qaeda, se ajudar a derrubar Assad”. Essa determinação de derrubar Assad a qualquer custo provou-se muito perigosa. “Os grupos islamistas cresceram e ficaram cada vez mais fortes, e o Exército Sírio Livre só fez enfraquecer cada vez mais” – recordou a fonte da inteligência árabe.

É hora de revelar a verdade sobre o gás sarín

Baseados nessa informação, a ideia de haver extremistas anti-Assad capazes de usar gás sarín – possivelmente com ajuda da inteligência turca, como Hersh denunciou – e lançar um ataque de pura provocação, com o objetivo de conseguir que o exército dos EUA destruísse o exército de Assad e abrisse caminho para uma vitória dos rebeldes já começa a fazer pleno sentido.

Afinal de contas, lá em Washington, a estratégia de propaganda de culpar Assad só convenceu os sempre influenciáveis neoconservadores que, em agosto de 2013 empurraram adiante o caminhão dos que pregavam “guerra-já” e forçaram ao silêncio qualquer um que duvidasse da versão segundo a qual Assad seria sempre “culpado de tudo”.

Israel assumiu a mesma posição sobre a Síria, aceitando até a vitória dos extremistas da al-Qaeda, se necessário para derrubar Assad e ferir seus aliados iranianos.

Michael Oren, Embaixador de Israel nos EUA
Em setembro de 2013, o então embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, disse ao Jerusalem Post em entrevistaque:

O maior perigo para Israel é o arco estratégico que se estende de Teerã a Damasco e a Beirute.

E via o regime Assad como pedra de apoio daquele arco...

(...) Sempre quisemos que Bashar Assad partisse. Em matéria de bandidos, sempre preferimos bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, a bandidos apoiados pelo Irã.

Disse que era assim, mesmo no caso dos bandidos não apoiados pelo Irã serem apoiados pela al-Qaeda.

Assim sendo, o perigo que advém dos extremistas sunitas já foi rebaixado, e o foco volta a ser derrubar Assad. Não surpreende que tenha havido tanta “surpresa” nos think-tanks da Washington oficial, quando o Estado Islâmico abriu nova frente no Iraque e expulsou de lá o exército iraquiano treinado pelos EUA. Mais uma vez, os neoconservadores conseguiram manter os olhos dos norte-americanos absolutamente cegos para uma verdade inconveniente.

Mas os neoconservadores ainda não acertaram as contas que têm a acertar, pelo impressionante fiasco na Síria, que eles ajudaram a criar. No momento, estão ocupadíssimos reescrevendo a narrativa: começaram a acusar Obama de ter esperado demais para armar os rebeldes sírios; e a insistir para que Obama, em vez de bombardear alvos do Estado Islâmico na Síria, passe a atacar a força aérea síria e crie uma zona aérea de exclusão, para que os rebeldes possam marchar sobre Damasco.

A temeridade enlouquecida de tal estratégia deveria ser óbvia para todos. Mas, se Obama tivesse sucumbido às demandas dos que queriam intervenção no verão de 2013 e atacasse o exército de Assad, talvez tivéssemos hoje a al-Qaeda ou o Estado Islâmico no controle de Damasco. [Ver Consortiumnews.com,  Neocons’ Noses into the Syrian Tent].  

Melhor fará Obama se romper o sigilo que veda o acesso aos relatórios de inteligência dos EUA sobre o ataque com gás sarín dia 21/8/2013, incluindo as manifestações de discordância de vários analistas da CIA que não consideraram demonstrada a responsabilidade de Assad. Essa informação lançaria luz consideravelmente nova sobre como a ação de serviços de inteligência turcos e árabes — com a ajuda de neoconservadores – tornou possível o surgimento e o crescimento do Estado Islâmico.
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[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano. Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).