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sexta-feira, 22 de março de 2019

Fracassou a política dos EUA: Reabertas as fronteiras entre Iraque e Síria e a estrada Irã-Beirute




Imagem: Combatentes suspeitos de pertencer ao ‘Estado Islâmico’ (EI) esperam para serem revistados por membros das Forças Democráticas Sírias (curdos), depois de deixarem a última área ainda controlada pelo EI em Baghouz, na província de Deir Ezzor, norte da Síria, dia 22/2/2019 (BULENT KILIC/AFP/Getty Images)

21/3/2019, Original, em inglês em: Elijah J Magnier Blog

“Dinossauro com cabeça de periquito”. Assim o ex-presidente do Irã Hashemi Rafsanjani descreveu os EUA, evocando a grande força militar mas a completa falta de inteligência estratégica na política externa norte-americano. De fato, o encontro não frequente dos comandantes de estado-maior de Síria, Iraque e Irã em Damasco essa semana jamais seria possível sem a recente ação dos EUA na Síria.

establishment norte-americano fez grande favor aos três países alinhados com o “Eixo da Resistência”, ao eliminar o grupo do ‘Estado Islâmico” (EI) no último reduto a leste do Eufrates. O ataque dos norte-americanos a Baghuz (leste da Síria), realizado em conjunto com seus agentes locais curdos, levou os três comandantes militares a decidir reabrir a estrada entre Síria e Iraque, pavimentando assim uma via terrestre segura para Iraque e Síria. Significa que a estrada Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute está reaberta. Não é a primeira vez que o establishment norte-americano, com seu planejamento sempre precário, presta ajuda estratégica realmente importante ao Irã.

Quando o presidente Donald Trump dos EUA decidiu retirar-se da Síria, falando do país como “terra de areia e morte”, até que falava sério sobre o tal plano. Mas os EUA não podia sair sem, antes, eliminar o bolsão do ISIS na área controlada pelos EUA no leste da Síria, porque significaria deixar lá o único pretexto que os norte-americanos encontraram para ocupar aquela área. Por isso, Trump foi aconselhado a eliminar o ISIS (afinal!) antes de retirar seus soldados. Assim, depois de longos meses de paralisia, Trump afinal ordenou que seus soldados fizessem o que haviam dito que fariam, depois de os EUA, por meses, só terem protegido o grupo terrorista e permitido que dezenas de milhares de terroristas do ISIS se movimentassem com toda a liberdade para atacar o Exército Árabe Sírio e aliados ao longo do eixo Deir-ezzour al-Bukamal.

Difícil superestimar a importância da decisão de Trump de, finalmente, agir contra os terroristas do ISIS. Desde 2014 os EUA fingem que combatem contra os terroristas do ISIS, quando, na verdade, só fizeram facilitar o processo pelo qual o grupo expandiu-se e assassinou soldados do Exército Árabe Sírio os quais, esses sim, combatiam contra – não a favor – dos terroristas. Durante todo esse tempo, os EUA usaram o ISIS como pretexto para a presença militar dos EUA na Síria.
 
Os EUA agora, finalmente, realmente bombardearam e destruíram Raqqah, ocupada pelo ISIS; na sequência, conseguiram um acordo para deportar muitos milhares de combatentes do ISIS. Mas a Batalha de Baghuz, ainda em curso, é a primeira vez que os EUA realmente lutaram contra o ‘Estado Islâmico’. Diga-se a favor do presidente Trump que seu governo está, afinal, fazendo, mesmo, o que os EUA até agora só fingiram que faziam, ao longo de cinco anos: Trump afinal está realmente combatendo contra os terroristas do ISIS

Essa campanha espetacular e real, não ficcional, garante ao governo Trump os méritos por ter derrotado o ‘Estado Islâmico’ – embora todos saibam que, por meia década, quem realmente combateu contra os terroristas foram o Exército Árabe Sírio, a Rússia, os iraquianos do grupo Hashed al-Shaabi, o Exército do Iraque, o Hezbollah libanês e o Irã.

Em Baghuz, forças dos EUA (e aliados europeus) bombardearam o ISIS até confinar o grupo numa cidade bem pequena. Conseguiram abrir uma via segura para retirada de mulheres, crianças, idosos, terroristas feridos e os muitos que preferiram render-se. Mais de 35 mil terroristas do ‘Estado Islâmico’ e famílias saíram daquele lugar exíguo. 9.000 militantes foras feridos ou mortos. As forças dos EUA e seus agentes locais curdos conseguiram encurralar o que resta do grupo terrorista numa área de menos de 1kme nos próximos dias lançarão o assalto final. É questão de tempo, e o ISIS entregará seu último bastião a leste do Eufrates.

O fim próximo da ameaça que foi o ‘Estado Islâmico’ criou a oportunidade para um encontro raro. O comandante do Estado-maior do Irã, major-general Mohammad Baqeri; o ministro da Defesa da Síria, Ali Abdullah Ayyoub; e o comandante do Estado-maior do Iraque tenente-general Othman al-Ghanmi reuniram-se em Damasco, capital da Síria e decidiram reabrir as fronteiras entre Iraque e Síria.

Ao, finalmente, remover os terroristas do ‘Estado Islâmico daquela área, o governo dos EUA, sob a presidência de Trump afinal reconheceu o erro que os norte-americanos cometeram na Síria. Enquanto o ISIS foi mantido ali, tornou-se impossível o trânsito seguro de mercadorias necessárias para a sobrevivência dos cidadãos iranianos e iraquianos. Agora afinal, depois de reconhecer isso, os EUA tomaram a decisão correta de sair de lá, deixando apenas algumas centenas de soldados norte-americanos, para efetivamente proteger, não atacar, os locais.

Graças ao movimento dos EUA, o Irã pode agora enviar todos os suprimentos necessários e retomar o comércio regular com a Síria, num momento em que Israel já começa a bombardear o aeroporto de Damasco e tenta impedir ou, no mínimo, retardar, o fornecimento, ao Exército Árabe Sírio, de mísseis de precisão e outros equipamentos militares necessários para reconstruir as forças de defesa sírias. Com a abertura de uma nova passagem de fronteira entre Iraque e Síria, perde importância a ocupação, pelos norte-americanos, da passagem de al-Tanf. Se os EUA tentarem pressionar o Iraque para que suspenda o comércio com Irã ou Síria, Bagdá exigirá que Trump retire suas forças de toda a Mesopotâmia.

A decisão de Trump também implica que a economia síria volta a poder acumular alguma energia, tão logo a estrada por terra, até o Iraque, volte a operar normalmente. Os três comandantes acabaram dando boas risadas da política e dos movimentos dos EUA na Síria. Todos colheram importantes benefícios dos repetidos erros de estratégia que Washington comete, desde que ocupou o Iraque em 2003 e ‘mudou o regime’ de Saddam Hussein – eterno e feroz inimigo do Irã.
O ‘Estado Islâmico’, EI ou ISIS ainda é risco de segurança, mas deixou de ser ameaça militar. Remanescentes do grupo ainda podem atacar comboios ou alvos leves, mesmo depois do acordo conjunto dos três países para patrulhar as fronteiras e contribuir, com tecnologia, inteligência e soldados para proteger a passagem de fronteira de al-Bu e somar esforços reais na luta contra o terrorismo naquela área. 

EUA quase sempre consideram o grande cenário, quando seus estrategistas e planejadores tentam redesenhar fronteiras, mudar regimes e produzir estados falhados. Mas muitas vezes deixam passar sem ver detalhes que podem virar a guerra a favor dos supostos inimigos que os EUA produzem, nesse caso, a favor do Irã. Como Rafsanjani comentou certa vez, EUA são “um dinossauro com cabeça de periquito”.

Rafsanjani não foi o único a fazer comentários cáusticos. Em evento recente em homenagem aos sucessos no Iraque e na Síria, do comandante e da brigada Qods do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, major-general Qassem Soleimani, o líder da Revolução Islâmica Said Ali Khamenei disse, falando de EUA (e Arábia Saudita): “agradecemos a Alá, que nos deu inimigos imbecis”.


Tradução original no blog O Empastelador

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Eleições no Irã – “Rouhani: tempo passado e consenso”

17/6/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online  - IRANIAN ELECTION
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hassan Rouhani, Presidente eleito da República Islâmica do Irã
Há confusão à vista, depois de uma semana de insistente propaganda segundo a qual o presidente eleito do Irã, Hassan Rouhani, seria “reformista”. Rouhani, “reformista”?! E por qual outro motivo Mohammed Khatami, ex-presidente reformista do Irã, apoiaria sua candidatura? Seria portanto protegido de Khatami?

Aiatolá Ruhollah
Khomeini
Tudo isso é forçar o argumento. Rouhani tem o título honorário de Hojatoleslam, que significa “autoridade em Islã”. É homem do establishment político e religioso iraniano, e há décadas é membro dos dois mais altos corpos diretivos, intimamente associados ao crème de la crème do regime – a Assembleia dos Especialistas e o Conselho de Discernimento. E também presidiu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, de 1989 a 2005.

A carreira política de Rouhani começou no período pré-revolucionário. Foi seguidor ardente e apaixonado do Imã Khomeini – de fato, leva o crédito de ter sido o primeiro a chamar Ruhollah Khomeini de “Imã”, o primeiro Supremo Líder do Irã.

O ardor revolucionário de Rouhani como jovem clérigo chamou rapidamente a atenção de Khomeini. Foi membro do Parlamento (Majlis) iraniano desde o início em 1980 até 2000. Foi vice-presidente do Parlamento, na presidência de Akbar Hashemi Rafsanjani no mesmo mandato. Quando Rafsanjani tornou-se presidente em 1989, levou Rouhani para o Conselho de Segurança. Rafsanjani também introduziu Rouhani no Conselho de Discernimento em 1991, em momento em que o presidente estava no auge de seu poder político.

Mohammed Khatami
Ao mesmo tempo, em 1992, Rafsanjani pôs Rouhani na presidência do Centro para Pesquisa Estratégica, um think tank que tem papel seminal na construção das políticas de segurança e de relações exteriores e nos serviços do Conselho de Discernimento.

Rouhani foi eleito para a Assembleia dos Especialistas em 2000 – com Rafsanjani, que já deixara a presidência. (Rafsanjani tornou-se vice-presidente da Assembleia dos Especialistas e, de 2007 a 2011, ocupou a presidência).

Aliás, Rouhani ainda é membro da Assembleia dos Especialistas e do Conselho de Discernimento, além do Conselho de Segurança.

Assim, o que emerge é que o povo iraniano elegeu, em eleições justas e limpas, com comparecimento às urnas de mais de 70% dos eleitores, e no primeiro turno, com maioria absoluta de 50,7%, um candidato que interessa ao establishment religioso, com impecável currículo de revolucionário, que goza de total confiança do Supremo Líder e que, pode-se dizer, controla as várias facções dentro do governo.

Akbar Hashemi
Rafsanjani
Rouhani só se tornou um grande “conciliador-curador” depois da presidência de Mahmud Ahmadinejad, de contestação e disputa contra o establishment religioso. Rafsanjani promoveu sua carreira, mas Rouhani manteve a confiança do Supremo Líder, Ali Khamenei mesmo depois que começaram a aparecer divergências entre os dois velhos combatentes, e, evidentemente, há vastas afinidades intelectuais e políticas também com Khatami.

Rouhani é, sem dúvida, político muito bem dotado, que se adapta bem às circunstâncias mutáveis da revolução islâmica. Esse traço permitiu-lhe manter-se na posição chave de conselheiro de segurança em dois governos, de Rafsanjani e de Khatami, sem perder, durante décadas, a posição de membro do Conselho de Discernimento e da Assembleia de Especialistas.

Do ponto de vista do regime, Rouhani fez a ponte entre as presidências de Rafsanjani e de Khatami. Obviamente, era figura “grande” demais para trabalhar sob ordens de Ahmadinejad; e optou por converter-se, naquele momento, em conselheiro de Khamenei e seu representante no Conselho de Segurança.

Eleito para unir o país

Mahmud Ahmadinejad
O que explica a fácil eleição de Rouhani? Primeiro, é mandato no qual se integram todas as faces da sociedade iraniana – urbana e rural, classe média e intelectuais, clérigos, o bazaar... Foi eleito, porque encarna a solidariedade nacional, num momento em que o país enfrenta terríveis ameaças externas e internas, e qualquer desunião, fragmentação ou polarização só faria aumentar os perigos.

Para os eleitores iranianos, o papel principal do presidente sempre foi administrar a economia. Também a eleição de Ahmadinejad foi baseada em sua promessa de “trazer os ganhos do petróleo para a mesa do jantar”. O povo manifestou a própria angústia ante as dificuldades econômicas – principalmente a inflação alta e o desemprego; a frustração com os erros na administração da economia e com o crescente isolamento do Irã na Região.

Mohammed
Baquer Qalibaf
É importante notar que cerca de dois terços dos eleitores manifestaram preferir ou Rouhani ou o prefeito de Teerã, Mohammed Baquer Qalibaf. É significativo, porque os dois eram considerados os candidatos menos “ideológicos” e mais “gerencialmente eficientes”.

As sanções impostas pelo ocidente feriram muito profundamente a economia do Irã. Embora os eleitores atribuam as sanções à hostilidade das potências ocidentais contra a República Islâmica (que já tem 30 anos de história) e saibam que nenhum presidente conseguirá remover as sanções, eles também se dão conta de que uma política exterior ativa e criativa pode tornar as sanções menos efetivas – e até completamente não efetivas – como viram acontecer nas presidências de Rafsanjani e Khatami.

Dito de outro modo, a eleição de Rouhani deve ser interpretada como autorização para buscar interação construtiva com países vizinhos e com toda a comunidade internacional, consideradas as necessidades da economia iraniana.

Nesse sentido, chama a atenção que a eleição de Rouhani tenha sido acolhida com simpatia e bem recebida instantaneamente em todo o Golfo Persa. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Khalifa bin Zayed al-Nahyan foi rápido na saudação que enviou a Rouhani, em que manifesta o máximo interesse “em construir relações baseadas na cooperação” com o Irã.

Os EUA deram jeito de saudar a vitória de Rouhani, e a Casa Branca expressou “respeito pela manifestação do povo iraniano”, que demonstra que os iranianos “estão determinados a agir para modelar o próprio futuro”. O governo Obama declarou-se disposto a “engajar diretamente o governo iraniano”. É passo atrás, em relação às beligerantes declarações anteriores de altos funcionários, segundo as quais o resultado da eleição presidencial no Irã nada alteraria.

Washington foi colhida de surpresa pela votação expressiva e convincente que Rouhani obteve, que o poupou de um segundo turno desgastante e que o posiciona como interlocutor efetivo.

Salto de fé

Mas, de fato, a eleição de Rouhani faz alguma diferença para a política externa do Irã? Por um lado, há quem veja Rouhani como reformador “de fundo”, essencialmente reformador; e há Israel, do outro lado, que insiste em que nada mudou no Irã, e os EUA devem impor ao país sanções ainda mais duras.

A verdade está no meio do caminho entre esses dois extremos. Durante a campanha, Rouhani não se cansou de repetir, bem claramente, que promoveria políticas domésticas e externas nuançadas, pragmáticas e criativas. Embora clérigo, Rouhani não subscreve as linhas mais duras da política social. Em termos amplos, suas declarações ecoavam as mesmas linhas que já seguiu e implementou durante a presidência de Rafsanjani (e de Khatami).

Seyed Hossein
Mousavian
Na presidência de Khatami, foi o encarregado do dossiê nuclear, assistido por Seyed Hossein Mousavian – que hoje vive e trabalha nos EUA. Evidentemente, o governo Obama conhece bastante bem o pensamento de Rouhani. Mousavian tem defendido uma fórmula segundo a qual os iranianos preservariam o direito de enriquecer urânio, sob estritas garantias à Agência Internacional de Energia Atômica que satisfariam os EUA; em troca, Teerã seria “recompensada” com um aliviamento das sanções e com maior integração com a comunidade internacional.

Apesar de ser figura do establishment, Rouhani é reconhecido pela comunidade internacional pela visão nuançada e conciliatória que se viu quanto foi o principal negociador da equipe nuclear iraniana, na presidência de Khatami. Mas, naquele momento, o próprio Khatami era reconhecido pelo mesmo tipo de abordagem. Grande ironia é que George W. Bush tenha escolhido denunciar aquele mesmo Irã de Khatami, como parte do “eixo do mal”.

A grande pergunta, portanto, é até que ponto o governo Obama estará preparado para quebrar a crosta já ossificada, carregada de preconceitos, que encobre qualquer pensamento sobre o Irã entre influentes grupos das elites políticas nos EUA; e como o próprio Obama operará, caso decida erguer a cabeça e ignorar ou desafiar o lobby israelense, tomando nova posição, racional, em relação ao Irã de Rouhani.

Barack Obama: "Todas as opções estão sobre a mesa"
Em resumo, o governo Obama tem pela frente um enorme desafio, se optar por não dar um salto de fé e se persistir no curso atual. Afinal, qualquer melhora nas relações com o Irã demandará tempo e terá de ser processo lento e gradual, porque o clima tenso não cederá facilmente.

Feitas as contas, nada mais distante da verdade que apresentar Rouhani como “reformista” disposto a combater contra moinhos de vento, e que opor-se-ia ao establishment iraniano. Talvez não tenha a retórica combativa de Ahmadinejad nem a disposição bombástica para se posicionar nos palcos globais, nem usará o tom provocativo e controverso de seu predecessor nas questões regionais e internacionais.

Mas Rouhani não se desviará da rota traçada. Não pode ser diferente. É experiente demais, conhece o establishment e sabe que, nas eleições de 1997, Khatami foi eleito por arrasadora votação de 70% dos eleitores, mas as políticas iranianas permaneceram exatamente na mesma trilha, durante todo seu governo.

Ventos de mudança

Ali Akbar Velayati
Isso posto, os pensamentos e ações de todos os principais atores protagonistas aqui – não só Rafsanjani, Khatami e Rouhani, mas também outros candidatos como Ali Akbar Velayati ou Mohammed Aref – sinalizaram que há aguda consciência entre as elites políticas no Irã de que é preciso mudar, em termos das carências e necessidades do país e, também, para manterem-se afinados com o espírito do tempo.

As sanções foram o principal tópico na campanha eleitoral. O foco está mais circunscrito, hoje, na necessidade de o Irã ser mais pragmático nas relações com o mundo e na urgência de modernizar-se no plano doméstico.

As multidões que acorreram às ruas de Teerã para celebrar a vitória de Rouhani mostram também que, no plano popular, há altas expectativas de mudança. Rouhani e o coletivo da liderança política iraniana com certeza sabem disso.

As primeiras palavras de Rouhani depois da vitória eleitoral mostram o que opera em sua mente, como construtor de pontes:

Essa é vitória da sabedoria, vitória da moderação, vitória do crescimento e da consciência, e vitória do compromisso sobre o extremismo e o destempero. (...) Aperto calorosamente a mão de todos os moderados, reformistas e principistas [leia-se “conservadores”].

Aiatolá Ali Khamenei
Pode-se dizer também que Khamenei pôs-se ao lado da nação, até aqui, ao garantir aos candidatos plena exposição pública pela mídia e por todos os meios, de modo jamais visto, para que todos apresentassem suas plataformas e programas políticos. Assim, o livre jogo das paixões pôde acontecer antes das eleições, não depois, como em 2009.

A questão hoje, portanto, está reduzida a introduzir mudanças no próprio sistema islâmico iraniano. Pode-se dizer que a política iraniana está olhando para trás, para andar avante. Ahmadinejad deixa o legado do que se pode definir como presidência que mais dividiu, que uniu; e os eleitores definiram um posicionamento segundo o qual o país não poderá avançar se não houver passado consensual, do qual todos partilhem.

E assim aconteceu, paradoxalmente, que uma “terceira geração” de eleitores iranianos elegeu, para liderá-los, um discípulo-favorito do Imã Khomeini. É o mesmo que dizer que essa eleição enterrou a divisão entre reformistas e conservadores, na política iraniana. O cisma tornou-se irrelevante.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.