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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pepe Escobar: Sonhos norte-americanos, do G1 a Bilderberg


11/6/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Obama discursa na reunião de Kruen, Alemanha
Qual a conexão entre a reunião do G7 na Alemanha, a visita do presidente Putin à Itália, o clube Bilderberg reunido na Áustria e as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – o acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia – em Washington?
Comecemos pelo G7 nos Alpes da Bavária – de fato, um G1 cercado de uma leva de “parceiros juniores” – com o Presidente Barack Obama a regozijar-se nesse festim neoconservador induzido – arregimentando a União Europeia para ampliar sanções contra a Rússia, mesmo que provavelmente as sanções firam mais a União Europeia varrida pela austeridade [1] pelo ARROCHO, que a Rússia.
Como se podia prever, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês também caíram lá – depois de a realpolitik tê-los obrigado a conversar com a Rússia e a montar, juntos, o acordo Minsk-2.
O hipocrisiômetro já havia explodido pela tampa sobre os Alpes Bávaros, logo no discurso pré-jantar, do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ex-Primeiro Ministro da Polônia e russófobo de carteirinha/pró-guerra:
Todos nós preferiríamos ter a Rússia à mesa do G7. Mas nosso grupo não é simples grupo que partilha interesses políticos e econômicos. Antes de qualquer outra coisa, somos uma comunidade de valores. E é por isso que a Rússia não está entre nós.
Quer dizer que o negócio foi “valores” civilizados versus “agressão russa”.
O “civilizado” G1 + parceiros juniores não poderia jamais declarar lá que todos, coletivamente, se ariscam a pôr uma guerra nuclear em solo europeu, por causa de um “Banderastão” criado por Kiev, desculpe, é “agressão russa”.
Em vez disso, a parte realmente engraçada acontecia por trás das cortinas. Em Washington, grupos culpavam a Alemanha por o ocidente ter perdido a Rússia para a China; enquanto os adultos na União Europeia – bem longe dos Alpes Bávaros – culpavam Washington.
Ainda mais sumarenta é a visão contrária que circula entre os poderosos Masters of the Universe no mundo empresarial norte-americano sem política. Eles temem que nos próximos dois ou três anos, a França acabe por realinhar-se ao lado da Rússia (precedentes históricos abundam). E eles – mais uma vez – identificam a Alemanha como o problema-chave (com Berlim forçando Washington a envolver-se numa Mitteleuropa prussiana, que os norte-americanos guerrearam duas guerras para impedir que se formasse).
Quanto aos russos – do Presidente Putin e do Ministro Lavrov de Relações Exteriores, para baixo – já emergiu um consenso: não faz sentido algum discutir qualquer coisa substancial, se se considera o lastimável pedigree intelectual – ou absoluta imbecilidade neoconservadora – dos políticos e conselheiros do governo Obama que se autoapresentam como a turma do “Não faça merda coisa estúpida”. Quanto aos “parceiros juniores” – a maioria, gente da União Europeia – são irrelevantes, meros vassalos de Washington.
Seria delírio esperar que a gangue dos “valores civilizados” propusesse qualquer alternativa que ajudasse a vasta maioria dos cidadãos das nações G7 a conseguir coisa melhor que Mac-empregos, os mesmos que já mal sobrevivem, reféns que são do turbo-capitalismo dependente-viciado em finanças, que só beneficia o 1%. Muito mais fácil apontar o dedo para o bode expiatório proverbial – a Rússia – e tocar adiante com retórica da OTAN de distribuir medo e pregar guerra e guerra.
A Lady de Ferro Merkel também achou tempo para pontificar sobre mudança climática – pregando a todos por lá que invistam numa “economia global de baixo-carbono”. Poucos perceberam que o prazo para a total “descarbonização” ficou combinado para o final do século XXI, quando esse planeta estará em fundas, profundíssimas dificuldades.
Achtung! [Atenção!] Bilderberg!
A novilíngua soprada pelos neocons de Obama continua a pregar que a Rússia sonha com recriar o império soviético. Agora comparem com o que o Presidente Putin explica na Europa.
G1 e parceiros júniors em Kruen - Alemanha
Semana passada, o presidente Putin achou tempo para uma entrevista ao Corriere della Sera de Milão, às 2h da manhã. A entrevista foi publicada enquanto rolava a festa nos Alpes Bávaros, e antes da visita de Putin à Itália, dia 10/6/2015. Os interesses geopolíticos de EUA e Rússia foram expostos nos mais atrozes detalhes.
Quer dizer que Putin era persona non grata naquele G1 + parceiros juniores? OK. Na Itália ele visitou a Milan Expo;encontrou-se com o Primeiro-Ministro Renzi e com o Papa Francisco (vídeo no fim do parágrafo); fez com que todos recordassem os “laços econômicos e políticos privilegiados que unem Itália e Rússia”; e falou das 400 empresas italianas ativas na Rússia e no milhão de turistas russos que visitam a Itália anualmente.
Mais importante que tudo isso, Putin evocou também o tal dito consenso: a Rússia sempre representou visão alternativa como membro do G8. Agora, parece que “as outras potências” supõem que já não precisem disso. Em resumo: é impossível manter conversa de adultos com Obama e seus amiguinhos.
E na sequência, de Berlim – por onde andava exibindo suas impressionantes credenciais de política externa, Jeb Bush, irmão do destruidor do Iraque, Dábliu Bush, integralmente adestrado e “brifado” pelos seus conselheiros neoconservadores, declarou Putin “um agitador”; e seguiu pela Europa em luta contra (e o que mais seria?!) a “agressão russa”.
O véu retórico que encobriu o que realmente se discutiu nos Alpes Bávaros só começa a dissipar-se aos primeiros acordes dos verdadeiros nada-noviços nada-rebeldes: a reunião do Bilderberg Group que começa nessa 5ª-feira (11/6/2015), no Interalpen-Hotel Tyrol na Áustria, apenas três dias depois da reunião do G1+parceiros juniores.
Conspiracionismos possíveis à parte, Bilderberg pode ser definida como uma gangue ultrassecreta de lobbyistas de elite – políticos, chefões norte-americanos corporativos, funcionários da União Europeia, grandes industriais, chefes de agências de inteligência, cabeças europeias coroadas – anualmente organizada numa espécie de think-tank informal/formato lançador-de-políticas, para fazer avançar a globalização e todos os assuntos cruciais relacionados à agenda geral atlanticista. Pode chamar de Festival Mundial dos Masters of the Universe Atlanticistas.
Para lançar alguma luz sobre aquela escuridão – não que o pessoal lá seja adepto de alguma transparência – conhece-se a composição da comissão que dirige os trabalhos. E também a pauta da reunião na Áustria.
Naturalmente falarão sobre “agressão russa” (na linha de “e quem liga para Ucrânia falida? Queremos é impedir que a Rússia faça negócios com a Europa”).
Naturalmente falarão sobre a Síria (na linha da partilha do país, com o Califato já aceito como fato da vida-pós-Sykes-Picot).
Naturalmente falarão sobre o Irã (na linha do vamos-negociar: compramos a energia deles e os subornamos para que venham para nosso clube).
Mas o negócio realmente quente por lá é o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – suposto acordo “de livre comércio” entre EUA e UE.Pode-se dizer que todos os lobbyistas do big business/big finança lá estarão, praticamente todos eles, sob o mesmo teto austríaco.
Putin e o Papa Francisco em 10/6/2015
Não por acaso, Bilderberg começa exatamente na véspera do dia em que o Congresso dos EUA inicia o debate sobre a “tramitação de urgência” [orig. fast track”, lit. “trilha rápida”] para a lei que dá autoridade ao presidente para negociar a coisa.
WikiLeaks e muitos BRICS
Entra em cena WikiLeaks, com material que, num mundo justo, seria elemento crucial para emperrar toda a máquina de destruição.
A lei da “rápida tramitação”, se aprovada, prorrogará os novos poderes do Presidente dos EUA por nada menos que seis anos.Assim se inclui o próximo inquilino da Casa Branca que talvez venha a ser “The Hillarator” ou Jeb “Putin é agitador” Bush.
Essa autoridade presidencial para negociar acordos safados inclui não só o acordo da TTIP, mas também o da Parceria Trans-Pacífico (TPP) e também o Acordo de Comércio em Serviços (TiSA).

Em boa hora, WikiLeaks publicou o Anexo de Assistência à Saúde [orig. Healthcare Annex] do rascunho do capítulo “Transparência” da TPP, e a posição de cada país que está negociando. Não surpreende que o rascunho seja secreto. E nada há, nele, de “transparente”: é o sequestro não disfarçado, pela Big Pharma, de todas as autoridades nacionais da atenção à saúde pública.

O resumo da história é que esses três mega-acordos – TTP, TTIP e TiSA – são o mais completo modelo do que se pode, polidamente, descrever como governança global pelas grandes empresas – o mais molhado dos sonhos molhados deBilderberg.
Quem perde: os estados-nação e o próprio conceito de democracia ocidental.
Quem ganha: as megaempresas comerciais.
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Julian Assange, em declaração de poucas palavras [também em espanhol, para facilitar a leitura (NTs)], disse tudo:
É erro supor que a Parceira Trans-Pacífico seria um simples tratado comercial. Na verdade, são três megatratados que operam em conjunto: o TiSA, o TPP e o TTIP, e os três se acrescentam, em termos estratégicos, como um único grande tratado unificado, que racha o mundo: o ocidente versus o resto. Esse “Grande Tratado” é descrito pelo Pentágono como o coração econômico do “Pivô para a Ásia” dos militares dos EUA. Os arquitetos miram nada menos que o arco da história. O Grande Tratado está tomando forma em total segredo, porque, com essas suas ambições estratégicas jamais discutidas fora das elites, ele alicerça firmemente uma forma agressiva de empreendimento comercial transnacional para o qual o apoio é mínimo entre as populações.
Portanto, aí está a verdadeira agenda atlanticista – os toques finais sendo aplicados no arco que vai do G1+parceiros juniores até Bilderberg (devem-se esperar telefonemas crucialmente importantes da Áustria para Washington, na 6ª-feira, 12/6/2015).É a OTAN comercial. Pivotagem para a Ásia, excluindo Rússia e China. Ocidente vs. o resto.
Agora, o contragolpe. Enquanto rolava o show nos Alpes Bávaros, acontecia em Moscou o primeiro Fórum Parlamentar dos BRICS – antes da reunião de cúpula dos BRICS em Ufa, mês que vem (julho/2015).
Reuniões dos BRICS e OCX em Ufa, Rússia (jul/2015)
Neoconservadores – com Obama puxando a fila – desfalecem de gozo, sonhando que a Rússia estaria “isolada” do resto do mundo, por causa das sanções deles. Desde o começo das sanções, Moscou já assinou acordos econômicos/estratégicos com, pelo menos, 20 nações. No próximo mês, a Rússia hospedará a reunião de cúpula dos BRICS – 45% da população do planeta, PIB equivalente ao da UE, e em pouco tempo já terá ultrapassado o do atual G7 – e também a reunião da Organização de Cooperação de Xangai, quando Índia e Paquistão, atualmente membros-observadores, serão incorporados como membros plenos.
G1 + parceiros juniores? Vão procurar que-fazer! Vocês não são o único show na cidade, em nenhuma cidade.
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Nota dos tradutores
[1] O substantivo abstrato “austeridade” tem em português do Brasil a seguinte sinonímia: “autocontrole, autodomínio, circunspeção, circunspecção, comedimento, compostura, continência, critério, desafetação, despojamento, discrição, equilíbrio, frugalidade, gravidade, juízo, lhaneza, método, moderação, modéstia, ordem, parcimônia, ponderação, prudência, recolhimento, regra, reserva, respeito, retraimento, rigor, sensatez, senso, seriedade, severidade, simplicidade, singeleza, siso, sisudez, sobriedade, sofrósina, têmpera, temperança, tino, virtude, vulto, além de restrição e vigor”.


Pretender que o FMI obraria para obrigar países pobres e chantageados a operar com gravidade, juízo, tino, temperança é piada (quando não é descarada poka vergonha). Não é porque no Grupo GAFE (Globo, Abril, FSP e Estadão), de cada duas palavras, três são para “informar” que o governo democrático do Brasil é formado de malucos e ladrões, dedicados a torrar dinheiro como doidos e sem qualquer sabedoria ou compostura, que deveríamos insistir nós também, sempre na mesma trilha de repetição.
  • Os marxistas SEMPRE sabemos mais e melhor que qualquer imprensa-empresa e mais, até, que muuuuita FGV e FEA-USP & Chicago Boys.
  • A coisa não é “austeridade”. A coisa é ARROCHO.
  • Melhor dar à coisa o nome certo.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Pepe Escobar: Que jogo joga a Casa de Saud?

16/1/2015, [*] Pepe Escobar, RT − Rússia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Extração de petróleo em terra firme
A Casa de Saud atravessa tempos de problemas extremos. A arriscadíssima guerra que criaram com o baixo preço do petróleo pode sair pela culatra. A sucessão do rei Abdullah pode virar banho de sangue. E o protetor norte-americano pode estar passando por mudanças nas suas inclinações.

Comecemos pelo petróleo – e alguns prolegômenos. Ao mesmo tempo em que o fornecimento aumentou alguns milhões de barris/dia para os EUA, não sai petróleo suficiente do Irã, Kirkuk no Iraque, Líbia e Síria; e isso compensa o petróleo norte-americano a mais no mercado. Na essência, a economia global – pelo menos por hora, não está procurando mais petróleo, por causa da estagnação/recessão europeia e da relativa desaceleração na China.

Desde 2011, a Arábia Saudita vinha inundando o mercado para compensar a diminuição nas exportações do Irã causada pela guerra econômica que os EUA movem contra o país, codinome “sanções”. Riad, além de tudo, impediu que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP (ing. OPEC), reduzisse as quotas de produção por país. A Casa de Saud acredita que possa jogar o jogo de espera – enquanto o óleo extraído por fracking, quase todo norte-americano, é inexoravelmente expelido do mercado, porque é caro demais. Depois disso, os sauditas creem que recuperarão seus mercados.

Paralelamente, a Casa de Saud está obviamente gostando muito de “punir” Irã e Rússia pelo apoio que dão a Bashar Assad em Damasco. Mais do que qualquer outra coisa, a ideia de um acordo nuclear essencialmente entre EUA e Irã – que pode levar a uma détente de longo prazo – aterroriza a Casa de Saud (embora esse acordo ainda seja um gigantesco “talvez”). 

Previsão de variação dos preços do petróleo até 2025
Teerã, contudo, mantém-se em atitude de desafio. A Rússia conseguiu desviar o ataque, porque o rublo baixo significou que as entradas estatais não se modificaram – e não haverá déficit no orçamento. Quanto ao Leste Asiático, sedento de petróleo – inclusive a China, grande cliente dos sauditas – curte os tempos de fartura, enquanto duram.

Os preços do petróleo continuarão muito baixos, por hora. Essa semana, Goldman Sachs baixou suas previsões para 2015 para o petróleo WTI e o Brent Crude; o Brent baixou de US$ 83,75 o barril, para US$ 50,40, WTI caiu de US$ 73,75 para US$ 47,15 o barril. Os preços por barril podem logo cair para US$ 42,00 e US$ 40,50. Mas então haverá uma inevitável “recuperação em forma de meia-volta” [orig. “U-shaped recovery”].

Nomura aposta que o petróleo estará de volta aos US$ 80,00 o barril, ao final de 2015.

Castigar a Rússia ou morrer

O Presidente Barack Obama dos EUA, em entrevista, admitiu abertamente que queria “disruptions” no “preço do petróleo”, porque entendia que o presidente Vladimir Putin da Rússia teria “dificuldades enormes para lidar com a coisa”. Assim se resolve a discussão sobre castigar a Rússia e colusão EUA-sauditas – depois que o Secretário de Estado dos EUA permitiu/ endossou o que fazia o rei Abdullah em Jeddah, e simultaneamente elevava a produção de petróleo e embarcava numa estratégia de cortar o preço.

Barack Obama
Se Kerry entregou toda a indústria de gás de xisto dos EUA por estupidez ou por incompetência – provavelmente pelas duas causas – é irrelevante. O que interessa é que se a Casa de Saud tivesse recebido ordens para recuar, teria de recuar imediatamente; o “Império do Caos” domina os vassalos do Golfo Persa, que não têm autonomia nem para respirar, sem luz verde, no mínimo implícita, dos EUA.

Muito mais perturbador que isso é que a gangue que governa Washington não parece estar defendendo os interesses nacionais e industriais dos EUA. Se déficits monstruosos na balança comercial não bastassem, agora virtualmente toda a indústria norte-americana de petróleo corre o risco de ser destruída por uma escroqueria no preço do petróleo. Todos os analistas mentalmente sãos interpretam o movimento como contrário aos interesses nacionais dos EUA.

Seja como for, o negócio de Riad foi música para os ouvidos da Casa de Saud. A política oficial deles sempre foi impedir o desenvolvimento de quaisquer potenciais substitutos para o petróleo, inclusive o gás de xisto norte-americano. Assim, por que não deprimir os preços do petróleo e mantê-los deprimidos por tempo suficiente para que os investimentos em gás de xisto sejam convertidos em coisa de doidos?

Mas há um grande problema. A Casa de Saud simplesmente não obtém entradas suficientes para apoiar o orçamento anual, com o petróleo abaixo de US$ 90,00 o barril. Castigar Irã e Rússia pode parecer muito sedutor, mas ferir as próprias cadernetas de ouro de bolso, não.

No longo prazo, parece só haver preços mais altos. É possível substituir o petróleo em vários casos, mas ainda não há substituto – ainda – para o motor de combustão interna. Assim sendo, seja o que for que a OPEP esteja fazendo, está sempre preservando, de fato, a demanda por petróleo, versus substitutos para o petróleo, e maximizando o retorno de um recurso limitado. Resumo: é, sim, preço predatório.

Mais uma vez, há um vetor imenso, crucial, que complica. Pode-se ter a Casa de Saud e outros produtores do Golfo Persa inundando o mercado – mas são os Goldman Sach, JP Morgan e Citigroup quem faz o jogo sujo, nas sombras, via derivativos futuros alavancados de curto prazo [orig. via leveraged derivative short futures].

Quem manda nos preços do petróleo...
Preços do petróleo são questão tão opaca que só grandes bancos que comerciam petróleo, como Goldman Sachs ou Morgan Stanley têm alguma ideia de quem está comprando e quem está vendendo contratos futuros ou derivativos do petróleo – o que se chama “papel-petróleo” [orig. “paper oil”]. As não regras desse cassino multibilionário configuram o que se conhece como uma “bolha especulativa” – com pequena ajuda daqueles amigos nas bombas de bombear petróleo no Golfo. Com a venda de contratos futuros de petróleo e com as duas principais bolsas de valores, Londres e New York, monopolizando esses contratos futuros, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP, na realidade não mais controla os preços do petróleo; quem os controla é Wall Street. Esse é o grande segredo. A Casa de Saud talvez acalente a ilusão de que permanece no controle. Mas não permanece.

Aquele casamento disfuncional

Como se as coisas já não estivessem suficientemente confusas, a crucial sucessão da Casa de Saud ganhou ímpeto. O rei Abdullah, 91, foi diagnosticado com pneumonia e hospitalizado em Riad, na véspera do dia de Ano Novo, e respirava por aparelhos. Pode ter – ou não ter, nos termos da sempre secretiva Casa de Saud – câncer de pulmão. Não durará muito. O fato de que Abdullah seja saudado como “reformador progressista” diz tudo que se precisa saber sobre a Arábia Saudita. “Liberdade de manifestação”? Você está brincando.

Assim sendo, quem será o próximo? O primeiro, na linha de sucessão deve ser o príncipe coroado Salman, 79, também Ministro da Defesa. Foi governador da província de Riad por longos 48 anos. Esse falcão com alvará foi quem supervisionou as ricas “doações” privadas para os mujahedin afegãos na jihad dos anos 1980s, operando em conjunto com pregadores wahhabistas linha-dura. Dentre os filhos de Salman destacam-se o governador de Medina, príncipe Faisal. Desnecessário dizer, a família Salman controla virtualmente toda a imprensa-empresa saudita.

Saud al-Faisal, MRE da Arábia Saudita
Para pôr as mãos no Santo Graal, Salman tem de provar que está apto. Não é automático e, acima de tudo, Abdullah, osso duro de roer, já sobreviveu a dois de seus príncipes coroados, Sultan e Nayef. O futuro de Salman não é luminoso: passou por cirurgia na coluna, teve um infarto e há suspeitas de que esteja sofrendo de – muito apropriadamente – demência.

Não é bom augúrio que, quando promovido a Vice-Ministro da Defesa, Salman não tenha chegado a esquentar a cadeira – porque se envolveu no atroz jogo dos jihadistas de Bandar Bush, na Síria.

Seja como for, Salman já tem sucessor: segundo Vice Primeiro-Ministro príncipe Muqrin, ex-governador da província de Medina e depois chefe da inteligência saudita. Muqrin é muito, muito próximo de Abdullah. Muqrin parece ser o último filho “capaz” de Ibn Saud; “capaz”, aqui, é figura de retórica. O problema real contudo começa quando Muqrin tornar-se príncipe coroado. Porque, então, o seguinte, na linha de sucessão, será escolhido dentre os netos de Ibn Saud.

Ali entram em cena os chamados príncipes de 3ª-geração – um bando terrível. O primeiro dentre eles é ninguém menos que Mitab bin Abdullah, 62, o filho do rei; gritos de nepotismo têm procedência. Como um senhor da guerra, Mitab controla seus próprios homens armados na Guarda Nacional. Fontes contaram que Riad fervilha de boatos de que Abdullah e Muqrin fizeram um pacto: Abdullah faz Muqrin rei, e Muqrin faz Mitab príncipe coroado. Mais uma vez, sendo essa a secretiva Casa de Saud, aplica-se o mantra de Hollywood: ninguém sabe de coisa alguma.

Casa de Saud (Arábia Saudita)
Há filhos de Abdullah por todos os cantos: Governador de Meca, Vice-Governador de Riad, Vice-Ministro de Relações Exteriores, Presidente do Crescente Vermelho Saudita. Vale o mesmo para os filhos de Salman. Mas vem então Muhammad bin Nayif, filho do falecido príncipe coroado Nayif, que se tornou Ministro do Interior em 2012, encarregado da ultrassensível segurança interna, tipo capaz de atacar qualquer um e qualquer coisa. É o principal concorrente contra Mitab, dentre os príncipes de 3ª geração.

Implica dizer que podem esquecer qualquer ideia de “unidade” familiar, quando está em cena essa troupe notável de donos de fazendas de petróleo fingindo que personificam um país. E, seja como for, quem quer que herde o butim terá de encarar o abismo e a mesma litania de dificuldades: desemprego crescente; desigualdade abissal; horrenda divisão sectária; todas as formas de jihadismo – incluído o falso Califato de Ibrahim no “Síriaque”, já ameaçando marchar contra Meca e Medina; o indizivelmente medieval Conselho da Ulemas (aqueles, dados a açoitar, amputar, degolar); total dependência do petróleo; paranoia ilimitada contra o Irã; e um relacionamento tormentoso com A Voz do Dono, os EUA.

E quando chamarão a cavalaria?

E então acontece que os verdadeiros Mestres do Universo no eixo Washington-New York estão discutindo exatamente a erosão desse relacionamento; com a Casa de Saud sem ter com quem falar, além dos capachos, de Bush-2 a Kerry. O que quero dizer é que qualquer coisa que Kerry tenha dito sobre “cooperação” da Casa de Saud para destruir a economia russa valem realmente nada, coisa alguma.

Bandar (Bush) bin Sultan
Rumores do território dos Mestres do Universo indicam que a CIA, mais cedo ou mais tarde, pode mexer-se contra a Casa de Saud. Nesse caso, a única via pela qual a Casa de Saud pode garantir a própria sobrevivência é tornar-se amiga de, nem mais nem menos, Moscou. É onde se vê claramente mais uma vez o quanto é suicidaria a rota em que está hoje a Casa de Saud, ainda insistindo em tentar ferir a economia russa.

Como todos são inexoravelmente outsiders sempre que se trata da totalmente opaca Casa de Saud, há também uma corrente analítica para a qual os sauditas saberiam o que estão fazendo. Não necessariamente. A Casa de Saud parece acreditar que agradar aos neoconservadores dos EUA melhorará o status dos sauditas em Washington. Simplesmente não é assim, nunca acontecerá desse modo. Os neoconservadores permanecem obcecados com a ajuda da Casa de Saud ao Paquistão, para desenvolver mísseis nucleares; alguns dos quais – mais uma vez: é questão aberta à discussão – podem mesmo ser instalados na Arábia Saudita para “objetivos de defesa” contra a mítica “ameaça” iraniana.

Confuso? A palavra não explica nem o começo. Mas uma coisa é certa: seja qual for o jogo que Riad pensa que esteja jogando, melhor iniciarem logo conversações sérias com Moscou. Mas, por favor: não mandem Bandar Bush em outra missão russa.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.