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sábado, 20 de junho de 2015

China Zomba do G7: “Convescote de endividados”. E alerta que “Confronto será desastre para a Europa”


15/6/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin não foi convidado para a reunião do G7 na Bavária de Angela Merkel semana passada, o que significa que o presidente russo não apenas perdeu dois dias no cinematográfico Castelo Elmau, mas também perdeu a chance de sair com Obama para comprarem calças curtas de couro (lederhosen). Obama, a julgar pelo que disseram testemunhas oculares e algumas fotos divertidas, deixou sair o Clark Griswold que vive nele, enquanto caminhava pela cidade bávara de Krun.

Obama no papel de Clark Griswold

O G7 não está gostando nada-nada do modo como a Rússia vem-se comportando no Leste da Europa e, assim, Putin foi excluído daquele “Clube do Bolinha” universal plus Merkel, até que o Kremlin decida-se a promover os valores democráticos ocidentais.
Mas o G7 também é excelente oportunidade para exclusionismos, o que significa que não só exclui ex-super potências, como também exclui super potências em ascensão, e ninguém viu à mesa por lá tampouco Xi Jinping.
Mas “Xi, Tiozão” (como é afetuosamente chamado na China) não parece estar perdendo o sono, porque, aos olhos de Pequim, o G7 — muito parecido, nisso, com o FMI e o BDA (Banco de Desenvolvimento da Ásia) – não passa de relíquia inoperante de uma ordem econômica e política global que está adiantadíssima na trilha rumo à obsolescência, se já não chegou lá.
O Global Times (o qual, nunca me canso de repetir, pertence ao jornal do Partido Comunista governante, o People’s Daily) tem muito mais a dizer sobre por que o G7 é muito amplamente irrelevante no mundo moderno.

G7 visto pelos chineses


Das páginas do The Global Times:
A reunião de cúpula do G7 chegou ao término na Alemanha, semana passada. Especialistas e a mídia chinesa não mostraram qualquer interesse por aquela instituição informal ultrapassada, exceto quanto a uma Declaração sobre Segurança Marinha emitida por ministros de Relações Exteriores do G7. A declaração manifestou as preocupações dos signatários quanto a “ações unilaterais” no Mar do Sul da China; a China foi o alvo óbvio.
A julgar pela agenda e resultados da reunião do G7 esse ano, ela caminhou na direção oposta à tendência global a favor da paz, do desenvolvimento, da cooperação e converteu-se em mera ferramenta geopolítica.
Desde os primeiros tempos de existência o G7 sempre foi um clube de ricaços onde se reúnem as grandes potências ocidentais, e tem o objetivo de manter a hegemonia coletiva do Ocidente sob mando dos EUA. Sempre se focou em questões da economia mundial, e depois passou a ocupar-se também de negócios políticos e de segurança. Depois da Guerra Fria, a Rússia foi incluída no grupamento, que por pouco não se converteu em centro da governança global, e parecia que estavam resolvidos a substituir o Conselho de Segurança da ONU.
Mas os demais membros do G7 jamais trataram a Rússia como parceiro igual. A Rússia só era autorizada a discutir política e segurança, nunca assuntos financeiros e econômicos.
Quando o mundo entrou no século 21, novas economias começaram a emergir e o centro político e econômico do mundo foi-se transferindo gradualmente para o Pacífico Asiático. A crise financeira global de 2008 empurrou os membros do G7 para um impasse, e essas nações começaram a aperceber-se de que só conseguiriam livrar-se da crise com a ajuda das economias emergentes. Foi quando os EUA propuseram definir um G20 como a principal plataforma para discutir problemas econômicos internacionais. Dentro do G20, por mais que o G7, como um subgrupo, tente dominar a construção da agenda, o G7 nada pode fazer sem a cooperação de novas economias cujas vozes são mais claramente audíveis atualmente.
Contudo, países como os EUA e o Japão não conseguem, sem muita dificuldade, aceitar o crescente prestígio internacional das economias emergentes, e relutam em ceder a própria hegemonia. Quando a crise financeira amainou um pouco, a mídia “ocidental” pôs-se a propagandear vigorosamente o “renascimento” do G7. Mas a performance econômica dos membros do G7 mostra que a reunião foi um convescote de endividados.
Putin e Merkel um tanto "azedos"... 

Em certa medida, o papel do G7 na governança econômica global é negativo. O FMI e o Banco Mundial são controlados por membros do G7. Essa é uma das razões da baixa capacidade de implementação do G20.
No campo da política e da segurança, as potências ocidentais jamais se cansam de destacar a grande importância que teria o G7. Mas o G7 já mostrou que não é capaz de manter a estabilidade regional e, em vez de construir alguma estabilidade, levou o Oriente Médio ao caos. Depois da crise na Ucrânia, o ocidente excluiu a Rússia do G8 original, com o que criaram o atual G7, formato que já está a caminho de converter-se em relíquia da Guerra Fria.
Rússia e China foram alvos principais das discussões nessa reunião do G7. Resolveram continuar a pressionar a Rússia, enquanto prossegue a crise ucraniana. Quanto à China, ocuparam-se com questões relacionadas ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) e aos Mares do Leste e do Sul da China. Mas vale a pena registrar que membros europeus manifestaram posição diferente de EUA e Japão, nos dois assuntos.
Se o G7 será convertido em ferramenta geopolítica ou em relíquia da Guerra Fria e coisa que depende largamente dos países europeus. Diferente dos EUA, a Europa mantém laços geopolíticos e econômicos muito íntimos com a Rússia. Se o G7 for convertido em plataforma para confrontação entre o ocidente e a Rússia, sem dúvida será um desastre para a Europa. Buscar solução pacífica para a crise ucraniana com a Rússia, isso sim, serve bem aos interesses europeus. Quanto às disputas nos Mares do Leste e do Sul da China, a milhares de quilômetros de distância do continente europeu, esses países não precisam envolver-se necessariamente.
Durante a reunião do G7, o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe tentou atrair países europeus para o vagão japonês anti-China. A China deve continuar a desconfiar muito do governo japonês.
Claro que tudo isso tem de ser tomado com um grão de sal, considerando que vem diretamente do Politburo – mas não há dúvidas de que há aí algumas importantes observações a serem analisadas com atenção.
Xi Jinping (New Yorker)

Por exemplo, a China toma como iguais o G7, o FMI e o Banco Mundial, essas últimas duas instituições que Pequim, pode-se dizer, está desafiando diretamente com seu BAII e o Fundo “Rota da Seda”. Em público, a China tem cuidado para manter posição de conciliação em relação a bancos de financiamento multilaterais. Isso, em parte, porque a China não tem interesse algum em arrepiar quaisquer penas entre os países ocidentais que assumiram algum considerável risco político ao jogarem o próprio peso no prato BAII da balança, apesar da feroz oposição de Washington. Além disso, adotar posição declarada e abertamente crítica contra instituições cujos objetivos são ostensivamente semelhantes aos do BAII, cria o risco de enviar mensagem errada aos países que dependem da ajuda de instituições supranacionais.
Isso posto, fazer equivaler entre eles o FMI, o Banco Mundial, o Banco de Desenvolvimento Asiático e o G7, antes de subsequentemente chamar o G7 de “relíquia da Guerra Fria” é uma espécie de saída pela tangente, sugerindo que as instituições multilaterais dominadas por membros do G7 estão também, por causa das lideranças às quais servem, a caminho da irrelevância.
Além do mais, afirmar que “a performance econômica dos membros do G7 mostra que a reunião foi um convescote de endividados” é, por um lado, hipocrisia (afinal de contas, a China está sentada sobre dívida de US$ 28 trilhões); mas por outro lado dá conta do fato de que, ainda que o crescimento da China seja hoje mais lento, com Pequim fazendo uma difícil transição de uma economia puxada a investimentos, para um modelo de economia movida a consumo, o crescimento econômico no ocidente simplesmente não existe, parou; e quanto ao Japão, bem... Tóquio luta desesperadamente contra um pesadelo deflacionário há décadas, doença que a Abe-conomia ainda não deu jeito de curar.
Em outras palavras, talvez até se possa dizer que o milagre econômico chinês estaria enfrentando um “pouso difícil”. Mas com certeza não há como negar que, mesmo nesse estado “difícil”, a máquina econômica chinesa ainda consegue superar, em desempenho, o ocidente.
Por fim, e talvez o mais importante de tudo, a China sugere que a dominação por Washington levou o G7 a adotar políticas externas míopes, que conspiraram para incendiar o caos sectário que se vê hoje no Oriente Médio (hoje, a verdade é que os EUA já não tem nem ideia, nem meios para saber, quem os norte-americanos apoiam, se milícias xiitas, e onde; ou milícias sunitas, e onde). E criaram condições para uma 2ª Guerra Fria no Leste da Europa.


A exclusão deliberada da Rússia, Pequim está dizendo, ameaça converter o G7 no que seria efetivamente um braço político da OTAN. E isso compromete qualquer possibilidade de a instituição poder ser agente promotor de paz e cooperação.
Mais uma vez, sim, há aí muita propaganda servida quente, saída diretamente da cozinha do Partido Comunista. Mas... não há como negar que a análise geopolítica subjacente é perfeita e acuradíssima, ainda que nos seja servida em pratos de hiperbólica porcelana.
O G7, como o FMI e o Banco Mundial, vai-se rapidamente convertendo em vítima da arrogância dos seus membros mais poderosos. Algum senso dominante do excepcionalismo dos EUA pode vir a criar ali o mesmo tipo de autocomplacência e rigidez que paralisou o FMI. E pode acontecer já, antes até de as potências mundiais emergentes superarem corpos políticos já bem firmemente constituídos, exatamente como aquelas mesmas potências moveram-se e superaram instituições econômicas imprestáveis.
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[*] Tyler Durden é nome de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).e pseudônimo coletivo dos redatores de notícia “que contribuem” para o site e agregador de conteúdos Zero Hedge, especializado em relatórios sobre Economia, Wall Street e Setor Financeiro.

domingo, 14 de junho de 2015

G7: Moedas a proteger, países a bombardear


Salve-se o “Nº 1” e danem-se as consequências
12-14/6/2015, [*] Vijay Prashad, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Membros do G7 -  ao fundo o Schloss Elmau
Os membros do G7 acabam de concluir sua 41ª reunião de cúpula. Presidentes e primeiros-ministros de Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, do Reino Unido e dos EUA reuniram-se num majestoso palácio bávaro, o Schloss Elmau. Localização perfeita para o convescote dos Masters of the Universe.
Proclamam que a ocupação deles todos é manter a ordem do mundo. Na verdade, o que mais os interessa é preservar, custe o que custar, o próprio poder.
A primeira reunião do G7 aconteceu em 1974 no Castelo de Rambouillet – grande castelo feudal na França. O objetivo daquela reunião era que os estados do G7 encontrassem estratégia comum para enfrentar o cartel de petróleo da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) e para a Nova Ordem Econômica Mundial (NOEM).
A OPEP havia reduzido a oferta, para fazer subir os preços do petróleo cru, o que ameaçava o crescimento econômico nos países industrializados avançados. A NOEM havia sido aprovada na Assembleia Geral da ONU, com apoio dos estados do Terceiro Mundo.
E exigia-se pois uma nova arquitetura econômica e política internacional para beneficiar as nações mais pobres. O G7 foi criado para quebrar as duas coisas, a OPEP e a NOEM. Em larga medida, conseguiu.
Engolir inteiro o mundo
Depois da extinção da URSS em 1991, o G7 incluiu a Rússia em sua órbita, e em 1994 converteu-se em G8. A questão então era criar suficiente consolidação que impedisse a emergência de um novo polo econômico e político no planeta – que já se via no horizonte, com o crescimento da China.
Com a crise financeira mundial em 2007, o ocidente já muito puído, virou-se na direção do bloco dos países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em busca de liquidez financeira.
BRICS - dados econômicos
A promessa foi que se esses estados, principalmente a China, oferecessem fundos ao sistema financeiro mundial, o G8 seria suspenso em favor de um G20. A China aceitou. A promessa de esvaziar o G7 foi rapidamente posta de lado, no instante em que os bancos sentiram-se seguros. O G20 foi adiado.
A confiança cresceu no ocidente depois da intervenção da OTAN na Líbia, em 2011. Hoje se vê que não apenas o sistema financeiro foi salvo, mas o intervencionismo “humanitário” também ofereceu legitimidade suficiente ao ocidente para usar sua força militar superior e passar a “governar” o planeta.
A pressão do ocidente contra o Irã a partir de meados dos anos 2000s intensificou-se, quando as tensões com a Rússia vieram afinal à luz em torno da Síria e da Ucrânia. O G8 suspendeu a Rússia, como membro, em 2014. Na mais recente reunião do G7, a Rússia foi alvo da retórica mais ensandecida. O Presidente dos EUA, Barack Obama, perguntou, sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin:
Será que ele continua a destroçar a economia de seu país e a manter o isolamento da Rússia, movido por um mais orientado desejo de recriar as glórias do império soviético?
Se o império soviético já vai longe, há muito tempo, a ambição ocidental de vir a comandar a política mundial permanece intacta. Contradições na política do G7 afetam a Europa muito mais do que afetam os EUA. Dois grandes fornecedores de energia para a Europa ocidental – Irã e Rússia, estão sob as sanções promovidas pelos EUA através do G7; e a Líbia, outro grande fornecedor de energia, foi completamente destruída, literalmente, na guerra da OTAN e na sequência.
É a Europa que se vê obrigada a suportar os mais pesados custos dos excessos do G7. A chanceler alemã Angela Merkel, poderia perfeitamente perguntar a seu colega Obama se o que ele mais deseja é destruir a economia da Europa, movido pela malfadada ambição de perpeturar a hegemonia dos EUA.
O G7 – como descobri durante as pesquisas para meu livro sobre o grupo, The Poorer Nations – só muito raramente divulga seus principais debates.
G7 mais União Europeia
Os pronunciamentos públicos nos anos 1970s foram gestos sobre estabilidade e ordem. No privado, os governantes discutiram em termos bem práticos o que fazerem para mais açoitar a OPEP e o bloco do Terceiro Mundo por todos os meios necessários, inclusive gerando instabilidade.
Só bico, nada de ação
Na mais recente reunião, os Masters of the Universe prometeram deixar para trás os combustíveis fósseis até o final do século XXI (dentro dos próximos 85 anos); e acabar com a pobreza no mundo, até 2050. Nada de programa de ação, só promessas ocas.
O que foi discutido em segredo seria muito mais interessante, mas teremos de esperar décadas antes de poder ler as transcrições das reuniões secretas.
Na antessala, esperando que lhe concedessem uma audiência, estava o Primeiro-Ministro do Iraque, Haider al-Abadi. Disseram a ele que o G7 “concordou em trabalhar junto para continuar a combater o terrorismo”. Como farão tão coisa? O G7 não tem nem a mais pálida ideia.
Ainda não temos estratégia completa – disse Obama na conclusão da reunião – porque isso exige compromissos a serem assumidos pelos iraquianos.
Já faz um ano que os EUA e seus aliados – apoiados pelo G7 – bombardeiam sem parar o Iraque e a Síria, mas, pelo que agora se vê, sem qualquer tipo de estratégia.
Ainda não temos plano finalizado, porque os iraquianos ainda não nos deram plano algum – disse Obama.
Os Masters of the Universe exigem para si o direito de determinar todos os assuntos planetários, de usar força militar como bem entendam, e ainda manifestam o mais descarado desdém por seus aliados subalternos.

E Obama deu as costas a Abadi...
Obama deu as costas a Abadi, que parecia ansioso para dizer mais. Obama meteu-se em animada conversa com o Primeiro-Ministro da Itália, Matteo Renzi, e com a Presidenta do FMI, Christine Lagarde. Abadi lá ficou, falando sozinho. Ninguém prestou atenção nele. Acabou por se afastar. Parece que não percebeu que fora descartado quando Obama lhe deu as costas.
Os Masters of the Universe estavam ocupadíssimos com eles mesmos. Têm moedas a proteger e países a bombardear.
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[*] Vijay Prashad fé professor de Estudos internacionais no Trinity College. Dentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People’s History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter.
Publica artigos regularmente em Asia Times Online, Frontline Magazine e Counterpunch. É usualmente entrevistado pela TRNN - The Real News Network sobre Geopolítica e Política internacional; é também Atualmente é Editor-Chefe de LeftWord Books, Delhi, Índia. É colunista de al-Araby al-Jadeed e Information Clearing House. Seu mais recente livro é No Free Left: the Futures of Indian Communism.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pepe Escobar: Sonhos norte-americanos, do G1 a Bilderberg


11/6/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Obama discursa na reunião de Kruen, Alemanha
Qual a conexão entre a reunião do G7 na Alemanha, a visita do presidente Putin à Itália, o clube Bilderberg reunido na Áustria e as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – o acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia – em Washington?
Comecemos pelo G7 nos Alpes da Bavária – de fato, um G1 cercado de uma leva de “parceiros juniores” – com o Presidente Barack Obama a regozijar-se nesse festim neoconservador induzido – arregimentando a União Europeia para ampliar sanções contra a Rússia, mesmo que provavelmente as sanções firam mais a União Europeia varrida pela austeridade [1] pelo ARROCHO, que a Rússia.
Como se podia prever, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês também caíram lá – depois de a realpolitik tê-los obrigado a conversar com a Rússia e a montar, juntos, o acordo Minsk-2.
O hipocrisiômetro já havia explodido pela tampa sobre os Alpes Bávaros, logo no discurso pré-jantar, do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ex-Primeiro Ministro da Polônia e russófobo de carteirinha/pró-guerra:
Todos nós preferiríamos ter a Rússia à mesa do G7. Mas nosso grupo não é simples grupo que partilha interesses políticos e econômicos. Antes de qualquer outra coisa, somos uma comunidade de valores. E é por isso que a Rússia não está entre nós.
Quer dizer que o negócio foi “valores” civilizados versus “agressão russa”.
O “civilizado” G1 + parceiros juniores não poderia jamais declarar lá que todos, coletivamente, se ariscam a pôr uma guerra nuclear em solo europeu, por causa de um “Banderastão” criado por Kiev, desculpe, é “agressão russa”.
Em vez disso, a parte realmente engraçada acontecia por trás das cortinas. Em Washington, grupos culpavam a Alemanha por o ocidente ter perdido a Rússia para a China; enquanto os adultos na União Europeia – bem longe dos Alpes Bávaros – culpavam Washington.
Ainda mais sumarenta é a visão contrária que circula entre os poderosos Masters of the Universe no mundo empresarial norte-americano sem política. Eles temem que nos próximos dois ou três anos, a França acabe por realinhar-se ao lado da Rússia (precedentes históricos abundam). E eles – mais uma vez – identificam a Alemanha como o problema-chave (com Berlim forçando Washington a envolver-se numa Mitteleuropa prussiana, que os norte-americanos guerrearam duas guerras para impedir que se formasse).
Quanto aos russos – do Presidente Putin e do Ministro Lavrov de Relações Exteriores, para baixo – já emergiu um consenso: não faz sentido algum discutir qualquer coisa substancial, se se considera o lastimável pedigree intelectual – ou absoluta imbecilidade neoconservadora – dos políticos e conselheiros do governo Obama que se autoapresentam como a turma do “Não faça merda coisa estúpida”. Quanto aos “parceiros juniores” – a maioria, gente da União Europeia – são irrelevantes, meros vassalos de Washington.
Seria delírio esperar que a gangue dos “valores civilizados” propusesse qualquer alternativa que ajudasse a vasta maioria dos cidadãos das nações G7 a conseguir coisa melhor que Mac-empregos, os mesmos que já mal sobrevivem, reféns que são do turbo-capitalismo dependente-viciado em finanças, que só beneficia o 1%. Muito mais fácil apontar o dedo para o bode expiatório proverbial – a Rússia – e tocar adiante com retórica da OTAN de distribuir medo e pregar guerra e guerra.
A Lady de Ferro Merkel também achou tempo para pontificar sobre mudança climática – pregando a todos por lá que invistam numa “economia global de baixo-carbono”. Poucos perceberam que o prazo para a total “descarbonização” ficou combinado para o final do século XXI, quando esse planeta estará em fundas, profundíssimas dificuldades.
Achtung! [Atenção!] Bilderberg!
A novilíngua soprada pelos neocons de Obama continua a pregar que a Rússia sonha com recriar o império soviético. Agora comparem com o que o Presidente Putin explica na Europa.
G1 e parceiros júniors em Kruen - Alemanha
Semana passada, o presidente Putin achou tempo para uma entrevista ao Corriere della Sera de Milão, às 2h da manhã. A entrevista foi publicada enquanto rolava a festa nos Alpes Bávaros, e antes da visita de Putin à Itália, dia 10/6/2015. Os interesses geopolíticos de EUA e Rússia foram expostos nos mais atrozes detalhes.
Quer dizer que Putin era persona non grata naquele G1 + parceiros juniores? OK. Na Itália ele visitou a Milan Expo;encontrou-se com o Primeiro-Ministro Renzi e com o Papa Francisco (vídeo no fim do parágrafo); fez com que todos recordassem os “laços econômicos e políticos privilegiados que unem Itália e Rússia”; e falou das 400 empresas italianas ativas na Rússia e no milhão de turistas russos que visitam a Itália anualmente.
Mais importante que tudo isso, Putin evocou também o tal dito consenso: a Rússia sempre representou visão alternativa como membro do G8. Agora, parece que “as outras potências” supõem que já não precisem disso. Em resumo: é impossível manter conversa de adultos com Obama e seus amiguinhos.
E na sequência, de Berlim – por onde andava exibindo suas impressionantes credenciais de política externa, Jeb Bush, irmão do destruidor do Iraque, Dábliu Bush, integralmente adestrado e “brifado” pelos seus conselheiros neoconservadores, declarou Putin “um agitador”; e seguiu pela Europa em luta contra (e o que mais seria?!) a “agressão russa”.
O véu retórico que encobriu o que realmente se discutiu nos Alpes Bávaros só começa a dissipar-se aos primeiros acordes dos verdadeiros nada-noviços nada-rebeldes: a reunião do Bilderberg Group que começa nessa 5ª-feira (11/6/2015), no Interalpen-Hotel Tyrol na Áustria, apenas três dias depois da reunião do G1+parceiros juniores.
Conspiracionismos possíveis à parte, Bilderberg pode ser definida como uma gangue ultrassecreta de lobbyistas de elite – políticos, chefões norte-americanos corporativos, funcionários da União Europeia, grandes industriais, chefes de agências de inteligência, cabeças europeias coroadas – anualmente organizada numa espécie de think-tank informal/formato lançador-de-políticas, para fazer avançar a globalização e todos os assuntos cruciais relacionados à agenda geral atlanticista. Pode chamar de Festival Mundial dos Masters of the Universe Atlanticistas.
Para lançar alguma luz sobre aquela escuridão – não que o pessoal lá seja adepto de alguma transparência – conhece-se a composição da comissão que dirige os trabalhos. E também a pauta da reunião na Áustria.
Naturalmente falarão sobre “agressão russa” (na linha de “e quem liga para Ucrânia falida? Queremos é impedir que a Rússia faça negócios com a Europa”).
Naturalmente falarão sobre a Síria (na linha da partilha do país, com o Califato já aceito como fato da vida-pós-Sykes-Picot).
Naturalmente falarão sobre o Irã (na linha do vamos-negociar: compramos a energia deles e os subornamos para que venham para nosso clube).
Mas o negócio realmente quente por lá é o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – suposto acordo “de livre comércio” entre EUA e UE.Pode-se dizer que todos os lobbyistas do big business/big finança lá estarão, praticamente todos eles, sob o mesmo teto austríaco.
Putin e o Papa Francisco em 10/6/2015
Não por acaso, Bilderberg começa exatamente na véspera do dia em que o Congresso dos EUA inicia o debate sobre a “tramitação de urgência” [orig. fast track”, lit. “trilha rápida”] para a lei que dá autoridade ao presidente para negociar a coisa.
WikiLeaks e muitos BRICS
Entra em cena WikiLeaks, com material que, num mundo justo, seria elemento crucial para emperrar toda a máquina de destruição.
A lei da “rápida tramitação”, se aprovada, prorrogará os novos poderes do Presidente dos EUA por nada menos que seis anos.Assim se inclui o próximo inquilino da Casa Branca que talvez venha a ser “The Hillarator” ou Jeb “Putin é agitador” Bush.
Essa autoridade presidencial para negociar acordos safados inclui não só o acordo da TTIP, mas também o da Parceria Trans-Pacífico (TPP) e também o Acordo de Comércio em Serviços (TiSA).

Em boa hora, WikiLeaks publicou o Anexo de Assistência à Saúde [orig. Healthcare Annex] do rascunho do capítulo “Transparência” da TPP, e a posição de cada país que está negociando. Não surpreende que o rascunho seja secreto. E nada há, nele, de “transparente”: é o sequestro não disfarçado, pela Big Pharma, de todas as autoridades nacionais da atenção à saúde pública.

O resumo da história é que esses três mega-acordos – TTP, TTIP e TiSA – são o mais completo modelo do que se pode, polidamente, descrever como governança global pelas grandes empresas – o mais molhado dos sonhos molhados deBilderberg.
Quem perde: os estados-nação e o próprio conceito de democracia ocidental.
Quem ganha: as megaempresas comerciais.
>
Julian Assange, em declaração de poucas palavras [também em espanhol, para facilitar a leitura (NTs)], disse tudo:
É erro supor que a Parceira Trans-Pacífico seria um simples tratado comercial. Na verdade, são três megatratados que operam em conjunto: o TiSA, o TPP e o TTIP, e os três se acrescentam, em termos estratégicos, como um único grande tratado unificado, que racha o mundo: o ocidente versus o resto. Esse “Grande Tratado” é descrito pelo Pentágono como o coração econômico do “Pivô para a Ásia” dos militares dos EUA. Os arquitetos miram nada menos que o arco da história. O Grande Tratado está tomando forma em total segredo, porque, com essas suas ambições estratégicas jamais discutidas fora das elites, ele alicerça firmemente uma forma agressiva de empreendimento comercial transnacional para o qual o apoio é mínimo entre as populações.
Portanto, aí está a verdadeira agenda atlanticista – os toques finais sendo aplicados no arco que vai do G1+parceiros juniores até Bilderberg (devem-se esperar telefonemas crucialmente importantes da Áustria para Washington, na 6ª-feira, 12/6/2015).É a OTAN comercial. Pivotagem para a Ásia, excluindo Rússia e China. Ocidente vs. o resto.
Agora, o contragolpe. Enquanto rolava o show nos Alpes Bávaros, acontecia em Moscou o primeiro Fórum Parlamentar dos BRICS – antes da reunião de cúpula dos BRICS em Ufa, mês que vem (julho/2015).
Reuniões dos BRICS e OCX em Ufa, Rússia (jul/2015)
Neoconservadores – com Obama puxando a fila – desfalecem de gozo, sonhando que a Rússia estaria “isolada” do resto do mundo, por causa das sanções deles. Desde o começo das sanções, Moscou já assinou acordos econômicos/estratégicos com, pelo menos, 20 nações. No próximo mês, a Rússia hospedará a reunião de cúpula dos BRICS – 45% da população do planeta, PIB equivalente ao da UE, e em pouco tempo já terá ultrapassado o do atual G7 – e também a reunião da Organização de Cooperação de Xangai, quando Índia e Paquistão, atualmente membros-observadores, serão incorporados como membros plenos.
G1 + parceiros juniores? Vão procurar que-fazer! Vocês não são o único show na cidade, em nenhuma cidade.
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Nota dos tradutores
[1] O substantivo abstrato “austeridade” tem em português do Brasil a seguinte sinonímia: “autocontrole, autodomínio, circunspeção, circunspecção, comedimento, compostura, continência, critério, desafetação, despojamento, discrição, equilíbrio, frugalidade, gravidade, juízo, lhaneza, método, moderação, modéstia, ordem, parcimônia, ponderação, prudência, recolhimento, regra, reserva, respeito, retraimento, rigor, sensatez, senso, seriedade, severidade, simplicidade, singeleza, siso, sisudez, sobriedade, sofrósina, têmpera, temperança, tino, virtude, vulto, além de restrição e vigor”.


Pretender que o FMI obraria para obrigar países pobres e chantageados a operar com gravidade, juízo, tino, temperança é piada (quando não é descarada poka vergonha). Não é porque no Grupo GAFE (Globo, Abril, FSP e Estadão), de cada duas palavras, três são para “informar” que o governo democrático do Brasil é formado de malucos e ladrões, dedicados a torrar dinheiro como doidos e sem qualquer sabedoria ou compostura, que deveríamos insistir nós também, sempre na mesma trilha de repetição.
  • Os marxistas SEMPRE sabemos mais e melhor que qualquer imprensa-empresa e mais, até, que muuuuita FGV e FEA-USP & Chicago Boys.
  • A coisa não é “austeridade”. A coisa é ARROCHO.
  • Melhor dar à coisa o nome certo.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.