Mostrando postagens com marcador Ahmadinejad. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ahmadinejad. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de julho de 2013

“Rouhanimania”: o Irã captura a atenção do mundo

29/7/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hassan Rouhani, presidente eleito do Irã
A troca de comando em Teerã, semana que vem, obriga a ver o Irã como o que realmente é naquele volátil Oriente Médio  – um oásis de estabilidade. O que torna possível a troca de comando é a legitimidade política do regime iraniano e sua substancial base social, apesar do inevitável desgaste que lhe advenha depois de décadas no poder.

Mahmoud
Ahmadinejad
Sabemos assim que o presidente Mahmoud Ahmedinejad voltará à sua profissão original, como professor universitárioQuanto a isso, nenhum problema. A ironia é que a nova universidade propõe nova especialização, em engenharia nuclear, decisão que, evidentemente, foi aprovada pelo Líder Supremo, Ali Khamenei.

O presidente eleito, Hassan Rouhani está organizando seu gabinete e já praticamente não há dúvida de que trará de volta Bijan Zanganeh – o velho bruxo, ex-ministro do todo poderoso ministério do petróleo – para comandar os negócios novamente – antecipando, presumivelmente, que a indústria precisa ser modernizada, tecnologicamente atualizada, esperemos que com tecnologia e investimentos ocidentais, de modo que o Irã possa afinal emergir como grande exportador, esperemos, para o mercado ocidental.

Ali Akbar
Hashemi Rafsanjani
Evidentemente se vê a mão de Rafsanjani na reconvocação de Zanganeh? Sim, sim, sem dúvida. A palavra “pragmatismo” está em todos os lábios, o que explica o alto grau de interesse entre os países regionais, todos interessados em comparecer à cerimônia de posse, semana que vem. Representantes de 40 países já confirmaram presença, mas todos os olhos estão postos em Riad, tentando adivinhar quem representará o reino na posse, em Teerã – mas o jornal Asharq Al-Awsat mantém o suspense.

Enquanto isso, no ocidente, o debate continua. Em termos gerais, pode-se dizer que já emergiram três linhas de pensamento – além das previsões catastrofistas de Israel, segundo as quais Rouhani seria “lobo em pele de cordeiro” (que ninguém está levando a sério).

Há um consenso geral segundo o qual o evento Rouhani é evento positivo. As surpreendentes revelações, pelo ex-embaixador da França em Teerã, Francois Nicoulland, segundo o qual o currículo de Rouhani como negociador nuclear iraniano destaca seus talentos e, simultaneamente, descortina amplas possibilidades para as próximas semanas, no front diplomático.

Bijan Zanganeh
O timing do artigo do New York Times é fascinante. Pode-se praticamente garantir que o governo Obama conhece o conteúdo das revelações trazidas à luz por Nicoulland.

Mesmo assim, persistem os Santos Tomás da dúvida nos think-tanks norte-americanos que insistem que Rouhani não merece(ria) “confiança” – signifique o que significar, porque diplomatas não costumam “confiar” cegamente em ninguém. Andam claramente infelizes, agora que o governo Obama começa a “engajar” o Irã. Mas essa linhagem de formadores de opinião está perdendo prestígio. Começam a ser vistos como “o time B” de Israel.

Chama a atenção quanto a isso que até o Financial Times, que jamais foi amigo do Irã, já tenha publicado editorial audacioso, introduzindo a ideia de que o Ocidente terá de usar a imaginação, em vez de continuar a provocar o Irã; que terá de ser racional e conciliatório nas negociações passo a passo (ideia já proposta, de fato, por Moscou). E o Financial Times reflete o pensamento dominante em Londres e Washington.
__________________________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Eleições no Irã – “Rouhani: tempo passado e consenso”

17/6/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online  - IRANIAN ELECTION
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hassan Rouhani, Presidente eleito da República Islâmica do Irã
Há confusão à vista, depois de uma semana de insistente propaganda segundo a qual o presidente eleito do Irã, Hassan Rouhani, seria “reformista”. Rouhani, “reformista”?! E por qual outro motivo Mohammed Khatami, ex-presidente reformista do Irã, apoiaria sua candidatura? Seria portanto protegido de Khatami?

Aiatolá Ruhollah
Khomeini
Tudo isso é forçar o argumento. Rouhani tem o título honorário de Hojatoleslam, que significa “autoridade em Islã”. É homem do establishment político e religioso iraniano, e há décadas é membro dos dois mais altos corpos diretivos, intimamente associados ao crème de la crème do regime – a Assembleia dos Especialistas e o Conselho de Discernimento. E também presidiu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, de 1989 a 2005.

A carreira política de Rouhani começou no período pré-revolucionário. Foi seguidor ardente e apaixonado do Imã Khomeini – de fato, leva o crédito de ter sido o primeiro a chamar Ruhollah Khomeini de “Imã”, o primeiro Supremo Líder do Irã.

O ardor revolucionário de Rouhani como jovem clérigo chamou rapidamente a atenção de Khomeini. Foi membro do Parlamento (Majlis) iraniano desde o início em 1980 até 2000. Foi vice-presidente do Parlamento, na presidência de Akbar Hashemi Rafsanjani no mesmo mandato. Quando Rafsanjani tornou-se presidente em 1989, levou Rouhani para o Conselho de Segurança. Rafsanjani também introduziu Rouhani no Conselho de Discernimento em 1991, em momento em que o presidente estava no auge de seu poder político.

Mohammed Khatami
Ao mesmo tempo, em 1992, Rafsanjani pôs Rouhani na presidência do Centro para Pesquisa Estratégica, um think tank que tem papel seminal na construção das políticas de segurança e de relações exteriores e nos serviços do Conselho de Discernimento.

Rouhani foi eleito para a Assembleia dos Especialistas em 2000 – com Rafsanjani, que já deixara a presidência. (Rafsanjani tornou-se vice-presidente da Assembleia dos Especialistas e, de 2007 a 2011, ocupou a presidência).

Aliás, Rouhani ainda é membro da Assembleia dos Especialistas e do Conselho de Discernimento, além do Conselho de Segurança.

Assim, o que emerge é que o povo iraniano elegeu, em eleições justas e limpas, com comparecimento às urnas de mais de 70% dos eleitores, e no primeiro turno, com maioria absoluta de 50,7%, um candidato que interessa ao establishment religioso, com impecável currículo de revolucionário, que goza de total confiança do Supremo Líder e que, pode-se dizer, controla as várias facções dentro do governo.

Akbar Hashemi
Rafsanjani
Rouhani só se tornou um grande “conciliador-curador” depois da presidência de Mahmud Ahmadinejad, de contestação e disputa contra o establishment religioso. Rafsanjani promoveu sua carreira, mas Rouhani manteve a confiança do Supremo Líder, Ali Khamenei mesmo depois que começaram a aparecer divergências entre os dois velhos combatentes, e, evidentemente, há vastas afinidades intelectuais e políticas também com Khatami.

Rouhani é, sem dúvida, político muito bem dotado, que se adapta bem às circunstâncias mutáveis da revolução islâmica. Esse traço permitiu-lhe manter-se na posição chave de conselheiro de segurança em dois governos, de Rafsanjani e de Khatami, sem perder, durante décadas, a posição de membro do Conselho de Discernimento e da Assembleia de Especialistas.

Do ponto de vista do regime, Rouhani fez a ponte entre as presidências de Rafsanjani e de Khatami. Obviamente, era figura “grande” demais para trabalhar sob ordens de Ahmadinejad; e optou por converter-se, naquele momento, em conselheiro de Khamenei e seu representante no Conselho de Segurança.

Eleito para unir o país

Mahmud Ahmadinejad
O que explica a fácil eleição de Rouhani? Primeiro, é mandato no qual se integram todas as faces da sociedade iraniana – urbana e rural, classe média e intelectuais, clérigos, o bazaar... Foi eleito, porque encarna a solidariedade nacional, num momento em que o país enfrenta terríveis ameaças externas e internas, e qualquer desunião, fragmentação ou polarização só faria aumentar os perigos.

Para os eleitores iranianos, o papel principal do presidente sempre foi administrar a economia. Também a eleição de Ahmadinejad foi baseada em sua promessa de “trazer os ganhos do petróleo para a mesa do jantar”. O povo manifestou a própria angústia ante as dificuldades econômicas – principalmente a inflação alta e o desemprego; a frustração com os erros na administração da economia e com o crescente isolamento do Irã na Região.

Mohammed
Baquer Qalibaf
É importante notar que cerca de dois terços dos eleitores manifestaram preferir ou Rouhani ou o prefeito de Teerã, Mohammed Baquer Qalibaf. É significativo, porque os dois eram considerados os candidatos menos “ideológicos” e mais “gerencialmente eficientes”.

As sanções impostas pelo ocidente feriram muito profundamente a economia do Irã. Embora os eleitores atribuam as sanções à hostilidade das potências ocidentais contra a República Islâmica (que já tem 30 anos de história) e saibam que nenhum presidente conseguirá remover as sanções, eles também se dão conta de que uma política exterior ativa e criativa pode tornar as sanções menos efetivas – e até completamente não efetivas – como viram acontecer nas presidências de Rafsanjani e Khatami.

Dito de outro modo, a eleição de Rouhani deve ser interpretada como autorização para buscar interação construtiva com países vizinhos e com toda a comunidade internacional, consideradas as necessidades da economia iraniana.

Nesse sentido, chama a atenção que a eleição de Rouhani tenha sido acolhida com simpatia e bem recebida instantaneamente em todo o Golfo Persa. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Khalifa bin Zayed al-Nahyan foi rápido na saudação que enviou a Rouhani, em que manifesta o máximo interesse “em construir relações baseadas na cooperação” com o Irã.

Os EUA deram jeito de saudar a vitória de Rouhani, e a Casa Branca expressou “respeito pela manifestação do povo iraniano”, que demonstra que os iranianos “estão determinados a agir para modelar o próprio futuro”. O governo Obama declarou-se disposto a “engajar diretamente o governo iraniano”. É passo atrás, em relação às beligerantes declarações anteriores de altos funcionários, segundo as quais o resultado da eleição presidencial no Irã nada alteraria.

Washington foi colhida de surpresa pela votação expressiva e convincente que Rouhani obteve, que o poupou de um segundo turno desgastante e que o posiciona como interlocutor efetivo.

Salto de fé

Mas, de fato, a eleição de Rouhani faz alguma diferença para a política externa do Irã? Por um lado, há quem veja Rouhani como reformador “de fundo”, essencialmente reformador; e há Israel, do outro lado, que insiste em que nada mudou no Irã, e os EUA devem impor ao país sanções ainda mais duras.

A verdade está no meio do caminho entre esses dois extremos. Durante a campanha, Rouhani não se cansou de repetir, bem claramente, que promoveria políticas domésticas e externas nuançadas, pragmáticas e criativas. Embora clérigo, Rouhani não subscreve as linhas mais duras da política social. Em termos amplos, suas declarações ecoavam as mesmas linhas que já seguiu e implementou durante a presidência de Rafsanjani (e de Khatami).

Seyed Hossein
Mousavian
Na presidência de Khatami, foi o encarregado do dossiê nuclear, assistido por Seyed Hossein Mousavian – que hoje vive e trabalha nos EUA. Evidentemente, o governo Obama conhece bastante bem o pensamento de Rouhani. Mousavian tem defendido uma fórmula segundo a qual os iranianos preservariam o direito de enriquecer urânio, sob estritas garantias à Agência Internacional de Energia Atômica que satisfariam os EUA; em troca, Teerã seria “recompensada” com um aliviamento das sanções e com maior integração com a comunidade internacional.

Apesar de ser figura do establishment, Rouhani é reconhecido pela comunidade internacional pela visão nuançada e conciliatória que se viu quanto foi o principal negociador da equipe nuclear iraniana, na presidência de Khatami. Mas, naquele momento, o próprio Khatami era reconhecido pelo mesmo tipo de abordagem. Grande ironia é que George W. Bush tenha escolhido denunciar aquele mesmo Irã de Khatami, como parte do “eixo do mal”.

A grande pergunta, portanto, é até que ponto o governo Obama estará preparado para quebrar a crosta já ossificada, carregada de preconceitos, que encobre qualquer pensamento sobre o Irã entre influentes grupos das elites políticas nos EUA; e como o próprio Obama operará, caso decida erguer a cabeça e ignorar ou desafiar o lobby israelense, tomando nova posição, racional, em relação ao Irã de Rouhani.

Barack Obama: "Todas as opções estão sobre a mesa"
Em resumo, o governo Obama tem pela frente um enorme desafio, se optar por não dar um salto de fé e se persistir no curso atual. Afinal, qualquer melhora nas relações com o Irã demandará tempo e terá de ser processo lento e gradual, porque o clima tenso não cederá facilmente.

Feitas as contas, nada mais distante da verdade que apresentar Rouhani como “reformista” disposto a combater contra moinhos de vento, e que opor-se-ia ao establishment iraniano. Talvez não tenha a retórica combativa de Ahmadinejad nem a disposição bombástica para se posicionar nos palcos globais, nem usará o tom provocativo e controverso de seu predecessor nas questões regionais e internacionais.

Mas Rouhani não se desviará da rota traçada. Não pode ser diferente. É experiente demais, conhece o establishment e sabe que, nas eleições de 1997, Khatami foi eleito por arrasadora votação de 70% dos eleitores, mas as políticas iranianas permaneceram exatamente na mesma trilha, durante todo seu governo.

Ventos de mudança

Ali Akbar Velayati
Isso posto, os pensamentos e ações de todos os principais atores protagonistas aqui – não só Rafsanjani, Khatami e Rouhani, mas também outros candidatos como Ali Akbar Velayati ou Mohammed Aref – sinalizaram que há aguda consciência entre as elites políticas no Irã de que é preciso mudar, em termos das carências e necessidades do país e, também, para manterem-se afinados com o espírito do tempo.

As sanções foram o principal tópico na campanha eleitoral. O foco está mais circunscrito, hoje, na necessidade de o Irã ser mais pragmático nas relações com o mundo e na urgência de modernizar-se no plano doméstico.

As multidões que acorreram às ruas de Teerã para celebrar a vitória de Rouhani mostram também que, no plano popular, há altas expectativas de mudança. Rouhani e o coletivo da liderança política iraniana com certeza sabem disso.

As primeiras palavras de Rouhani depois da vitória eleitoral mostram o que opera em sua mente, como construtor de pontes:

Essa é vitória da sabedoria, vitória da moderação, vitória do crescimento e da consciência, e vitória do compromisso sobre o extremismo e o destempero. (...) Aperto calorosamente a mão de todos os moderados, reformistas e principistas [leia-se “conservadores”].

Aiatolá Ali Khamenei
Pode-se dizer também que Khamenei pôs-se ao lado da nação, até aqui, ao garantir aos candidatos plena exposição pública pela mídia e por todos os meios, de modo jamais visto, para que todos apresentassem suas plataformas e programas políticos. Assim, o livre jogo das paixões pôde acontecer antes das eleições, não depois, como em 2009.

A questão hoje, portanto, está reduzida a introduzir mudanças no próprio sistema islâmico iraniano. Pode-se dizer que a política iraniana está olhando para trás, para andar avante. Ahmadinejad deixa o legado do que se pode definir como presidência que mais dividiu, que uniu; e os eleitores definiram um posicionamento segundo o qual o país não poderá avançar se não houver passado consensual, do qual todos partilhem.

E assim aconteceu, paradoxalmente, que uma “terceira geração” de eleitores iranianos elegeu, para liderá-los, um discípulo-favorito do Imã Khomeini. É o mesmo que dizer que essa eleição enterrou a divisão entre reformistas e conservadores, na política iraniana. O cisma tornou-se irrelevante.
___________________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ahmadinejad, o indescartável


21/2/2013, Thierry Meyssan, Red Voltaire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thierry Meyssan
A democracia iraniana está viva e vibrante. As divisões de 2009 já são passado, a tal ponto que até o presidente Obama teve de admitir publicamente que Mahmoud Ahmadinejad foi eleito em eleições legítimas e limpas, pela maioria dos iranianos. O movimento Verde uniu-se à burguesia urbana, e parte da “juventude” já amadureceu.

Hoje, Washington já não acalenta qualquer esperança de derrubar o regime; então, trabalha para dividi-lo. Os EUA bem que gostariam de extrair algum lucro da atual crise entre a corrente religiosa do clã Larijani e a corrente nacionalista da família Ahmadinejad.

A aliança histórica entre as correntes religiosa e nacionalista está abalada pelo fraco desempenho de Ali Larijani nas pesquisas eleitorais e pela avassaladora popularidade de Ahmadinejad. Com as eleições de junho já batendo à porta, a crise acabou por vir a público.

Ali Larijani e Mahmoud Ahmadinejad lado a lado no Parlamento iraniano
A quatro meses das eleições no Irã, ainda não se sabe quem será o candidato que substituirá o carismático Mahmoud Ahmadinejad para os próximos quatro anos. A Constituição proíbe um 3º mandato para Ahmadinejad, mas ele pode manter-se próximo ao poder e pode voltar nas eleições seguintes, como fez Vladimir Putin.

Em 2009, os protestos varreram Teerã e Isfahan: apoiadores do candidato liberal acusavam as autoridades de ter manipulado os resultados das eleições. Esse movimento rapidamente perdeu fôlego, mas deixou feridas profundas no movimento da juventude. O qual foi afinal calado depois de uma massiva demonstração de apoio às instituições da Revolução Islâmica. Os próprios iranianos teriam sido convencidos pelos vencidos? Inúmeras vozes argumentaram que as instituições estimularam os tumultos.

Hussein Moussaoui
A juventude não conhecia o programa de Moussaoui e ignorava completamente que ele promovia o capitalismo global e alinhava-se a ele. Erradamente, os jovens supunham que Moussaoui representasse a moral social liberal. Sem perceber, haviam sido persuadidos de que tinham de escolher entre “liberdades individuais” e “o regime”. E os jovens desapareceram das cerimônias nacionais.

Surpreendidas pela violência do protesto, as autoridades foram lentas em responder.

Primeiro, houve uma defesa pela mídia. Por exemplo: um grupo de especialistas analisou quadro a quadro o famoso vídeo do jovem Neda, apresentado como morto por forças de segurança durante uma manifestação antirregime. Concluíram que o vídeo havia sido forjado. Depois se organizaram grupos de discussão, mediados por instrutores adultos que iniciaram os jovens na compreensão do pensamento dos revolucionários iranianos mais velhos. Todos esses esforços deram fruto, e hoje se vê outra vez forte participação dos iranianos com menos de 30 anos nas recentes cerimônias nacionais oficiais.

Washington, por sua vez, não poupou esforços para semear a cizânia na sociedade iraniana e trabalhou para acentuar os conflitos generacionais.

Foram criadas mais de uma centena de estações de televisão por satélite, em farsi, para inundar o país com propaganda do “Sonho Norte-americano”. Conseguiram distrair a atenção dos iranianos e afastá-los de suas redes locais e nacionais, mas, no geral, não há sinais de que tenham seduzido a população que vota.

No momento em que tantos se preparavam para mais uma tentativa de “revolução colorida” e “mudança de regime”, a surpresa veio da coalizão governante.

A confrontação clássica entre as facções religiosa e nacionalista endureceu e, afinal, explodiu numa cena pública.

Aiatolá Ali Khamenei
O presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad, e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, puseram-se a acusar-se mutuamente de proteger assessores corruptos. As redes ocidentais em farsi exibiram imagens dos bate-bocas. Apesar das exortações à calma e ao bom-senso, o Supremo Líder, Aiatolá Ali Khamenei não consegue acalmar os protagonistas.

Além do mais, Ahmadinejad conta com apoio popular massivo em todo o país, exceto, paradoxalmente, em Teerã, cidade da qual foi prefeito. A rápida industrialização do país, programas recentes de redistribuição dos lucros do petróleo, pagos mensalmente a todos os cidadãos adultos, e a construção de moradias por todo o país vendidas a preços subsidiados, conquistaram os votos de trabalhadores urbanos e da agricultura.

Ahmadinejad, que sente que seu candidato será eleito por ampla margem de votos, não hesita em desafiar a oposição mais religiosa, e mostra que, se dependesse dele, as exigências dos jovens seriam atendidas. Permitiu-se inclusive celebrar uma “Miss hijab”, para poder criticar mais livremente a lei que torna obrigatório o uso do véu.

Sadeq Larijani
Ali Larijani e seu irmão Sadeq (presidente do Judiciário) estão forçados a constatar que o candidato rival está avançando no trabalho de promover a candidatura do chefe de gabinete de Ahmadinejad, Rahim Mashaei Esfendiar. Esfendiar dedica-se a reescrever discursos oficiais, trocando as referências religiosas por referências mais universais, não tão exclusivamente xiitas.

Os religiosos temem que essa flexibilização abra a porta para o declínio do Islã. Responderam espalhando boatos de que a família Ahmadinejad perdeu a cabeça; que se creem em contato direto com o Parlamento e, enquanto esperam, tenham garantir lugar, reservando para eles mesmos uma cadeira no Conselho de Ministros.

Para acalmar as coisas e preservar a unidade da Revolução, o Supremo Líder pode exigir que o grupo Ahmadinejad indique candidato menos divisionista e polarizador que Mashaei.

A imprensa-empresa ocidental está em surto de esquizofrenia.

Enquanto as redes em farsi só falam dessa confrontação, as redes europeias não publicam uma linha sobre o caso. Só fazem continuar a induzir os públicos a crerem que o Irã seria uma ditadura monolítica comandada por mulás.

Os jovens, que tomaram as ruas contra “o regime” em 2009, já são hoje aplicados apoiadores de Ahmadinejad e muito provavelmente votarão no candidato que Ahmadinejad indique, em junho.

Os jovens iranianos acreditam que, com Ahmadinejad (e seu candidato às próximas eleições), a Revolução Islâmica conseguirá conciliar a libertação nacional e o respeito pelas liberdades individuais.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pepe Escobar: “Irã, Paquistão, Síria, Qatar - O Oleogasodutostão em construção”


14/4/2013, Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
A construção está quase completada: um gasoduto de gás natural que liga Irã e Paquistão, projeto que faz antever mudança geopolítica gigantesca. As potências regionais unem-se nesse mercado chave de energia, de olhos na China e de costas para o ocidente.

Desde o início dos anos 2000s, analistas e diplomatas em toda a Ásia sonham com uma futura Grade Asiática de Segurança Energética.

Disso se trata – dentre outros desenvolvimentos – da conclusão do trecho final do gasoduto de 7,5 bilhões de dólares, 1.700 km de extensão, para transporte de gás natural entre Irã-Paquistão, o gasoduto IP, que começa no campo iraniano gigante de South Pars, no Golfo Pérsico, e deve estar plenamente operante no final de 2014.

Iranianos trabalham em uma seção do oleoduto ligando o Irã - Paquistão (IP) depois que o projeto foi lançado durante uma cerimônia na cidade fronteiriça iraniana de Chah Bahar em 11 de março de 2013.
Ninguém perde dinheiro apostando na reação de Washington: se Islamabad insistir nesse gasoduto IP, estará “violando as sanções da ONU contra o programa nuclear do Irã”. Mas nada disso tem qualquer coisa a ver com a ONU: só tem a ver com sanções inventadas pelo Congresso e pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

Sanções? Que sanções? Islamabad precisa desesperadamente de energia. A China precisa desesperadamente de energia. E a Índia será furiosamente tentada a seguir a mesma via, sobretudo quando o gasoduto IP alcançar Lahore, a apenas 100 km da fronteira da Índia. A Índia, já que se falou dela, está importando petróleo iraniano e não está sendo castigada por isso.

Todos a bordo do trem ganha-ganha

Quando o presidente Mahmoud Ahmadinejad e o presidente paquistanês Asif Zardari encontraram-se no porto iraniano de Chabahar, no início de março, já transcorrera muito tempo desde a primeira vez em que se falou de gasoduto Irã-Paquistão, em 1994 – então chamado Irã-Paquistão-Índia (IPI), também conhecido como “oleogasoduto da paz”. As pressões subsequentes, pelos dois governos Bush, foram tão violentas, que a Índia abandonou a ideia em 2009.

Ahmadinejad e Zaradari em início de mar/2013.
Abertura da construção do Olegasoduto IP.
O gasoduto Irã-Paquistão é o que os chineses chamam de “negócio ganha-ganha”. O trecho iraniano já está concluído. Sabedora dos imensos problemas de fluxo de caixa que Islamabad enfrenta, Teerã está emprestando $500 milhões; e Islamabad entrará com $1 bilhão, para concluir o trecho paquistanês. Interessa anotar que Teerã só concordou com emprestar o dinheiro, depois que Islamabad comprometeu-se a não desistir (como fez a Índia), por mais que Washington a pressione.

O gasoduto Irã-Paquistão, como cordão umbilical chave (de aço), zomba da divisão artificial, estimulada pelos EUA, entre xiitas e sunitas. Teerã precisa desse alívio, e de maior influência no sul da Ásia. Ahmadinejad até riu: “com gás natural ninguém faz bomba atômica”.

Zardari, por sua vez, melhorou as próprias chances para as eleições paquistanesas, dia 11 de maio. Com o gasoduto Irã-Paquistão bombeando 750 milhões de metros cúbicos de gás natural para o coração da economia paquistanesa, terão fim os cortes de energia e as fábricas não fecharão. O Paquistão não tem petróleo. Pode ter alto potencial para energia solar ou eólica, mas não há, nem capitais de investimento, nem know-how para desenvolvê-lo.

Dar as costas a Washington é fórmula garantida de sucesso político-eleitoral no Paquistão, sobretudo depois da invasão territorial, em 2011, para assassinar Bin Laden; e, isso, sem falar dos ataques ininterruptos que Obama e a CIA mantêm, dia e noite, sem descanso, com os seus drones, contra as áreas tribais.

Mais importante que isso, Islamabad sabe que terá de manter íntima cooperação com Teerã, para assegurar o controle do Afeganistão, depois de 2014. Se o Paquistão não se aproximar de Teerã, a Índia lá chegará, e haverá uma aliança Índia-Irã na cabine de pilotagem.

Um tal Plano B sugerido por Washington não passou de algumas vagas promessas de construir barragens hidrelétricas, que se encaixaria num oleogasodutostão norte-americano, miragem que o deserto inspira aos norte-americanos, sempre só no papel, mas desde a era Bill Clinton.

Assentamento de tubos do Oleogasodutostão IP
O Ministério de Relações Exteriores em Islamabad argumentou que cabia a Washington, no mínimo, tentar manifestar alguma compreensão. Quanto à vivaz imprensa paquistanesa, está em campo. [1]

E o grande vencedor é... a China

O gasoduto Irã-Paquistão já é protagonista estrela da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda – das que realmente contam, não as que só existem na imaginação de Hillary Clinton. E há também a estratégica, ultra sumarenta questão Gwadar 
Islamabad decidiu entregar à China não só o controle operacional do porto de Gwadar no Mar da Arábia, no ultra sensível sudoeste do Baloquistão; crucialmente importante, Islamabad e Pequim também assinaram acordo de $4 bilhões para construir uma refinaria de petróleo, que refinará 400 mil barris por dia e será a maior refinaria do Paquistão.

Porto de Gwadar, operado pela China. Localização estratégica perto de fronteira Irã-Paquistão
Gwadar, porto de águas profundas, foi construído pela China, mas até recentemente era administrado por Cingapura.

O plano de longo prazo dos chineses é uma maravilha. O próximo passo, depois da refinaria de petróleo, será implantar um oleoduto que ligue o porto de Gwadar a Xinjiang, paralelo à rodovia Karakoram, o que configurará Gwadar como nó chave de distribuição para todo o Oleogasodutostão, levando gás e petróleo do Golfo Pérsico até o oeste da China. Assim estará afinal superado o “dilema de Ormuz”, que Pequim ainda enfrenta.

Gwadar, porto estrategicamente localizado na confluência entre o sudoeste e o sul da Ásia, não distante da Ásia central, emergirá afinal como centro de distribuição de gás, petróleo e petroquímicos – com o Paquistão como corredor de energia crucial, unindo Irã e China. Isso tudo, é claro, desde que a CIA não ponha fogo no Baloquistão.

Vista geral do Porto da Gwadar
O inevitável resultado de curto prazo de tudo isso é que a obsessão norte-americana por sanções e mais sanções está prestes a ser despachada para o fundo do Mar da Arábia, não muito longe de onde descansa o cadáver de Osama bin Laden. E, com o gasoduto Irã-Paquistão, IP, convertido em IPC – com a adição da China – talvez a Índia também acorde, fareje o cheiro de gás e tente ressuscitar a ideia inicial de um gasoduto IPI, Irã-Paquistão-Índia.

O ângulo sírio do Oleogasodutostão

Esse claro, visível, grande sucesso dos iranianos no sul da Ásia contrasta com seus padecimentos no sudoeste da Ásia.

Os campos de gás de South Pars – o maior do mundo – são partilhados entre o Irã e o Qatar. Teerã e Doha desenvolveram relação extremamente complexa, em que se misturam cooperação e duríssima concorrência.

A razão crucial (nunca declarada) pela qual o Qatar trabalha tão obcecadamente pela “mudança de regime” na Síria, é matar ainda no berço o oleoduto de $10 bilhões que ligará Irã-Iraque-Síria, cuja construção foi acordada em julho de 2011. O mesmo se aplica à Turquia – porque esse oleoduto IIS passará longe de Ancara... que sempre se apresenta como encruzilhada chave na distribuição de energia entre ocidente e oriente.

É claro que o oleoduto Irã-Iraque-Síria é tão amaldiçoado em Washington quanto o outro, Irã-Paquistão. A diferença é que, no caso do oleoduto IIS, Washington pode contar com os aliados Qatar e Turquia para que sabotem toda a iniciativa.

Isso implica sabotar não só o Irã, mas também a estratégia dos “Quatro Mares” que o presidente sírio Bashar al-Assad anunciou em 2009, pela qual Damasco se converteria em um portal de acesso para o Oleogasodutostão, conectada ao Mar Cáspio, ao Mar Negro, ao Golfo Pérsico e ao Mediterrâneo Leste.

É estratégia que mostra uma Síria em íntima conexão com os fluxos de energia iraniana – não com a energia qatari. O oleoduto Irã-Iraque-Síria, ISS, é conhecido na região como o “oleoduto da amizade”. Como nunca deixaria de fazer, a imprensa-empresa ocidental refere-se a ele como oleoduto “islâmico” (e os oleodutos sauditas seriam o quê?! Católicos?!). O que torna tudo ainda mais ridículo é que o gás que viaja por esse oleoduto corre para a Síria e dali para o Líbano – e do Líbano escorre para mercados europeus próximos, todos carentes, famintos, famélicos, de energia.

Erimtan Can
Os jogos no Oleogasodutostão complicam-se ainda mais se se soma aí o ultra complexo caso de amor “energético” entre o Curdistão iraquiano e a Turquia, bem detalhados por Erimtan Can – e as recentes descobertas de gás no Mediterrâneo Leste, em águas territoriais de Israel, Palestina, Chipre, Egito, Líbano e Síria; vários deles, talvez todos esses atores, podem transformar-se, de importadores, em exportadores de energia.

Israel terá a clara opção de enviar seu gás por gasoduto para a Turquia e dali exportá-lo para a Europa. É o que explica o tal telefonema de “desculpas” (conversa fiada) entre Erdogan, primeiro-ministro da Turquia, e o israelense Netanyahu, que Obama agenciou.

As fronteiras terrestres e marítimas entre Israel e Líbano continuam pendentes de uma nebulosa “Linha Azul” da ONU, criada nos idos de 2000. Damasco – como Teerã – apóiam Beirute, mais uma vez contra o desejo de Washington. E Damasco também apóia a estratégia de Bagdá de diversificar os meios de distribuição, mais uma vez na tentativa de escapar do Estreito de Ormuz. Daí a importância do oleoduto Irã-Iraque-Síria.

Não surpreende que a Síria seja a linha vermelha demarcada por Teerã. Agora, todo o Oleogasodutostão está à espera: quer saber até que ponto o Qatar está disposto a acompanhar a ensandecida obsessão de Washington.



Nota de rodapé

[1] “LAHORE: Dois dias depois de EUA lançaram ameaça velada contra o Paquistão e os planos do país para importar gás natural do Irã, o presidente Asif Ali Zardari disse, no sábado, que o projeto multibilionário será completado, custe o que custar”.

“Ninguém tem poder para fazer parar esse projeto” – disse o presidente Zardari a um grupo de editores da imprensa escrita e âncoras de redes de televisão, em Bilawal House, Lahore, no sábado. “Como estado soberano, o Paquistão pode firmar qualquer acordo, com qualquer país, com vistas a equacionar nosso problema de energia” – Zardari acrescentou (3/3/2013, The Express Tribune, Islamabad em: Iran gas pipeline project: Unnerved by US threats, Pakistan stands firm)


________