Mostrando postagens com marcador Ali Larijani. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ali Larijani. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de junho de 2014

EUA gaguejam sobre o Iraque. O Irã põe a boca no mundo

14/6/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama, presidente dos EUA
De uma perspectiva de longo prazo, não é possível discordar de que o presidente dos EUA, Barack Obama, tomou a decisão certa, de não mandar tropas norte-americanas contra o grupo afiliado da al-Qaeda “Estado Islâmico do Iraque e Síria” [ing. ISIS] que atacou regiões do norte do Iraque no início dessa semana. A declaração de Obama na 6ª-feira (13/6/2014) pode ser assim resumida, em palavras dele mesmo:

Quero ter certeza de que todos entendem essa mensagem – os EUA simplesmente não se envolverão em ação militar na ausência de plano dos próprios iraquianos, que nos dê alguma garantia de que os iraquianos estão preparados para trabalhar em conjunto. Não vamos nos deixar arrastar de volta para uma situação na qual enquanto lá estivermos seguramos algumas coisas e com enormes sacrifícios para nós, mas, no instante em que saímos de lá, de repente as pessoas começam a agir de modo que não conduz à estabilidade de longo prazo e à prosperidade do país.

Bem claramente, Obama recusa-se a se deixar acuar pelos críticos domésticos. O que Obama pensou sobre o caso envolveu, com certeza:

(a) sim, o ISIS pode “eventualmente” vir a ser ameaça a interesses dos EUA;
(b) as forças armadas iraquianas sim, precisam apoio adicional para deter o avanço do ISIS;
(c) mas o desafio não é “só”, sequer “primeiramente”, desafio militar;
(d) a questão central no Iraque são as diferenças sectárias, que os líderes políticos têm de enfrentar e superar;
(e) os vizinhos do Iraque “também têm responsabilidades” no apoio à acomodação política, que tem a ver com os interesses legítimos de todas as comunidades no Iraque;
(f) o ISIS é “problema regional” e “problema de longo prazo”.

Obama referiu-se vagamente a que os EUA estão em contato com outros países para ver “como podem apoiar um esforço para criar o tipo de unidade política que dê mais peso às forças de segurança”. Presumivelmente, falava dos aliados regionais dos EUA.

Hassan Rouhani, presidente do Irã
Significativamente, horas depois da declaração de Obama, o presidente Hassan Rouhani esclareceu a posição de Teerã sobre a situação do Iraque. Deixou claro que Teerã está apoiando total e completamente o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki que fez bonito nas eleições parlamentares recentes e garantiu para si um novo mandato.

Rouhani disse que o Irã não aceitará os atentados da Arábia Saudita contra os xiitas que chegaram ao poder no Iraque. Alertou que os países que têm dado apoio financeiro e armas ao ISIS (leia-se Arábia Saudita e Qatar) mais cedo ou mais tarde enfrentarão as consequências.

Rouhani descartou absolutamente qualquer objetivo de trabalhar com os norte-americanos na questão iraquiana. Por outro lado, destacou que Teerã está disposto a garantir ajuda e assistência ao governo iraquiano, incluindo aconselhamento militar, caso Bagdá solicite (solicitação que, até agora, ainda não foi feita). Mas essa ajuda será consistente com a política iraniana de absolutamente em nenhum caso enviar tropas para combater fora do país. Assim sendo, nada de coturnos iranianos em solo não iraniano; mas Maliki pode contar com suprimentos e aconselhamento militares e com a ajuda da inteligência iraniana.

De fato, os iranianos avaliaram cautelosamente a situação e concluíram que o ISIS não passa de pequena fagulha; que a queda de Mosul aconteceu por razões específicas; e que o exercito iraquiano tem meios para recuperar o terreno perdido.

Leia a seguir o que publicou a Agência FarsNews, sobre a fala de Rouhani 


Presidente Rouhani: Não haverá tropas iranianas no Iraque

14/6/2014, FarsNews, Irã


Teerã (FarsNews) – O presidente do Irã Hassan Rouhani desmentiu notícias de que estariam sendo enviadas tropas iranianas ao Iraque, mas disse que Teerã está pronta para ajudar seu parceiro ocidental em sua guerra aos terroristas, nos termos da lei internacional, se Bagdá o solicitar.

Nós, como República Islâmica, somos amigos e vizinhos do Iraque e temos boas relações com o governo do Iraque e a nação iraquiana – disse Rouhani em conferência de imprensa em Teerã, no sábado (14/6/2014).

Se o governo iraquiano pedir ajuda, estudaremos o pedido. Até agora não recebemos nenhum pedido, mas estamos prontos a ajudar, no quadro das leis internacionais e do pedido da nação iraquiana – acrescentou.

Claro, temos de saber que ajuda e assistência é uma questão, e interferência e intrusão (no campo de batalha) é outra. Se o governo do Iraque nos pedir, ajudaremos, mas jamais se cogitou de pôr soldados iranianos em combate no Iraque – disse o presidente.

Desde que foi criada, a República Islâmica jamais tomou medida desse tipo e nunca enviamos soldados iranianos para combates em outros países. Claro que, se solicitados, garantiremos aos países nossos saberes e nossas opiniões de especialistas consultados. – disse o presidente Rouhani.

Rouhani disse que: a nação iraquiana é perfeitamente capaz de exterminar o terrorismo.

O presidente do Irã também alertou sobre a possibilidade de o Irã vir a ter de enfrentar o ISIL ou qualquer outro grupo terrorista que se aproxime das fronteiras iranianas, e disse: Se um grupo terrorista se aproximar de nossas fronteiras, sem dúvida o confrontaremos, porque é nosso dever defender nossa integridade territorial e interesses nacionais.

O presidente também se dirigiu aos estados que estão fornecendo ajuda financeira e armas aos terroristas do ISIL, alertando que o terror voltará para incendiar também aqueles países.

Rouhani desmentiu matéria publicada pela imprensa-empresa ocidental, segundo a qual funcionário iraniano não identificado teria informado sobre o início de cooperação entre Irã e EUA contra os terroristas no Iraque. O presidente disse: Os norte-americanos talvez queiram fazer alguma coisa, mas não estou informado de coisa alguma.

Falou do terrorismo como questão importante na região, e disse que eventos recentes no Iraque aconteceram porque grupos terroristas estão furiosos ante os resultados das eleições, que mantiveram no poder os xiitas e o primeiro-ministro Nouri al-Maliki por vias integralmente democráticas. Disse que não é aceitável a intenção de alguns grupos, de compensar, com terrorismo, suas perdas e fracassos eleitorais.

Rouhani também se referiu à baixa potência militar dos terroristas do ISIL; disse que o colapso de Mosul foi resultado de vários elementos e de alguma coordenação (com traidores dentro da cidade).

Repetiu que o Irã preocupa-se ativamente sobre a disseminação do terrorismo na região, e lembrou a proposta que o país apresentou à ONU dia 25/9/2013 (dia 18/12/2013, a Assembleia Geral da ONU aprovou por expressiva maioria a proposta do presidente Rouhani, World Against Violence and Extremism (WAVE) [O Mundo contra a Violência e o Extremismo]), de combater o extremismo e a violência, e que foi bem recebida pelos estados regionais e de todo o mundo (...).

Na 6ª-feira (13/6/2014), o Wall Street Journal publicou matéria em que se liz que Teerã teria enviado duas unidades de elite do seu Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [orig. Islamic Revolution Guards Corps (IRGC)] ao Iraque, para combaterem conta os terroristas do ISIS.

Hossein Amir Abdollahian
Poucas horas depois, o vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir Abdollahian, desmentiu categoricamente a matéria, e disse à Agência Farsi de Notícias que: é falsa a informação sobre envio de forças militares iranianas ao Iraque.  

O vice-ministro iraniano de Relações Exteriores também disse que o Iraque tem consideráveis capacidades militares, perfeitamente suficientes para dar combate a militantes do ISIL. O ministro de Relações Exteriores do Iraque Hoshyar Zebari também não confirmou a matéria do WSJ, quando perguntado se guardas do IRGC estariam entrando na luta no Iraque: Sinceramente, nada sei sobre isso. Estou em Londres... – disse ele ao repórter do WSJ que lhe telefonou.

Em Teerã, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores Marzieh Afgham já dissera que o Irã não está envolvido nos conflitos no Iraque. Até agora não recebemos nenhum pedido de ajuda, do Iraque. O exército iraquiano é perfeitamente capaz de lidar com essa dificuldade.

_________________________

Teerã concluiu que todo o drama dos ataques do ISIS foi operação clandestina montada pelas potências regionais que promovem a agenda da “mudança de regime” na Síria apoiadas pelos EUA. Rouhani teve a elegância de não citar os EUA nominalmente. A próxima rodada de conversações sobre o programa nuclear iraniano deve começar na próxima 2ª-feira (16/6/2014), em Genebra.

Ali Larijani põe a boca no mundo

Mas o líder do Parlamento, Ali Larijani, não se sentiu preso a nenhuma regra de polidez diplomática. Larijani tirou as luvas durante discurso público em Teerã ontem e literalmente desmascarou todo o papel dos EUA na Síria ao lado de Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Turquia, etc..

Ali Larijani culpa EUA e estados da região pelas crises na Síria e no Iraque

14/6/2014, FarsNews, Irã

Ali Larijani, presidente do Parlamento do Irã
Teerã (FNA) – O presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani acusou as potências mundiais de estarem usando terrorismo como ferramenta para promover seus objetivos de propaganda e responsabilizou diretamente os EUA e estados da região pelas crises no Iraque e na Síria – nos dois casos, resultantes do apoio que EUA deram a grupos terroristas Takfiri e Baathi.

Os Baathistas e Takfiris devem ser responsabilidades pelos recentes eventos no Iraque. Quando aconteceu na Síria, muitos países em torno do Irã vieram até nós para dizer que se a Síria fosse democrática, os Takfiris já não estariam lá. Hoje pergunto: se houvesse democracia no Iraque, veríamos os Takfiris, hoje, fazendo o que fazem – disse Larijani num fórum em Teerã, na 6ª-feira (13/6/2014) à tarde.

É perfeitamente óbvio que os norte-americanos e demais países aqui à nossa volta são responsáveis pelo que hoje se vê no Iraque. Não têm sequer um Parlamento adequado. E só fazem discursar sobre democracia no Iraque e na Síria – acrescentou.

Larijani falou longamente sobre como os eventos de hoje mostram o quanto o terrorismo cresceu como instrumento das grandes potências para promover seus interesses: o terrorismo é uma espécie de pretexto que, quando não está já à mão, sempre pode ser “acionado”...

Comandante da Força Iraniana Basij,  Mohammad Reza Naqdi
Noutra fala importante, na 4ª-feira (11/6/2014), o Comandante da Força Iraniana Basij [de voluntários], general-brigadeiro Mohammad Reza Naqdi, condenou os crimes cometidos pelos terroristas Takfiri e salafistas na região, e disse que são crimes apoiados por estados ocidentais e países árabes ricos em petróleo.

Essas correntes (Takfiri) que falam dos xiitas como infiéis, decretam o assassinato de xiitas, cometem crimes e massacram inocentes sob a falsa noção de que assim ordenaria o Islã, e que inventam diferenças entre xiitas e sunitas até em suas fatwas só dizem mentiras  – disse Naqdi na província Sistão e Balouquestão, no sudoeste.

Disse que os grupos Takfiri cometem crimes que se alinham aos interesses mais sórdidos das potências arrogantes, e obededem ao que lhes ordenam think-tanks ocidentais e israelenses, todos apoiados por petrodólares de alguns países árabes.

A Síria tornou-se alvo e lócus de violência mortal desde março de 2011. Há inúmeros relatórios que comprovam que as potências ocidentais e seus aliados na região – especialmente o Qatar, a Arábia Saudita e a Turquia – garantem apoio aos terroristas que operam dentro da Síria.

Também no Iraque, as forças iraquianas continuam a combater contra terroristas Takfiri cujos militantes avançam no Iraque.

Dia 10/6/2014, a província de Nineveh no norte do Iraque caiu em mãos de militantes de um chamado Islamic State of Iraque and the Levant (ISIL). Os ataques dos Takfiri forçaram mais de meio milhão de habitantes de Mosul, capital da província Nineveh, e dos arredores da cidade, a deixar as próprias casas.

Ao mesmo tempo em que os terroristas tentam controlar duas áreas na província Diyala na 5ª-feira (12/6/2014), as forças iraquianas já retomavam o controle do centro de Tikrit e de partes de Mosul. Os terroristas Takfiri ameaçaram marchar contra a capital, Bagdá.

Sabe-se que há grupos Takfiri entrando no Iraque vindos da Síria e da Arábia Saudita, com o objetivo deliberado de comprometer a segurança no país

_________________________________________

Se se aproximam, como acima, as falas de Obama e Rouhani sobre os desenvolvimentos no Iraque, vê-se claramente que Washington caiu presa numa ratoeira. Dito claramente, Obama está sendo convocado para defender a “democracia” contra os terroristas do ISIS – os quais, muito evidentemente, sim, implicam grave ameaça a interesses dos EUA na região. Mas... os terroristas do ISIS são, na essência, criação dos EUA e de seus aliados regionais – “são os nossos [deles!] filhos-da-puta” no Oriente Médio (para usar a famosa fórmula cunhada por FDRoosevelt para descrever Anastasio Somoza brutal ditador nicaraguense).

A melhor aposta, para Obama, é que Maliki não procure ajuda externa e consiga fazer escafederem-se os ISIS usando o próprio exército do Iraque e os guerrilheiros curdos da Peshmerga e seu aliado iraniano. E o Irã, por sua vez, confia que Maliki derrotará os tais terroristas.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ahmadinejad, o indescartável


21/2/2013, Thierry Meyssan, Red Voltaire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thierry Meyssan
A democracia iraniana está viva e vibrante. As divisões de 2009 já são passado, a tal ponto que até o presidente Obama teve de admitir publicamente que Mahmoud Ahmadinejad foi eleito em eleições legítimas e limpas, pela maioria dos iranianos. O movimento Verde uniu-se à burguesia urbana, e parte da “juventude” já amadureceu.

Hoje, Washington já não acalenta qualquer esperança de derrubar o regime; então, trabalha para dividi-lo. Os EUA bem que gostariam de extrair algum lucro da atual crise entre a corrente religiosa do clã Larijani e a corrente nacionalista da família Ahmadinejad.

A aliança histórica entre as correntes religiosa e nacionalista está abalada pelo fraco desempenho de Ali Larijani nas pesquisas eleitorais e pela avassaladora popularidade de Ahmadinejad. Com as eleições de junho já batendo à porta, a crise acabou por vir a público.

Ali Larijani e Mahmoud Ahmadinejad lado a lado no Parlamento iraniano
A quatro meses das eleições no Irã, ainda não se sabe quem será o candidato que substituirá o carismático Mahmoud Ahmadinejad para os próximos quatro anos. A Constituição proíbe um 3º mandato para Ahmadinejad, mas ele pode manter-se próximo ao poder e pode voltar nas eleições seguintes, como fez Vladimir Putin.

Em 2009, os protestos varreram Teerã e Isfahan: apoiadores do candidato liberal acusavam as autoridades de ter manipulado os resultados das eleições. Esse movimento rapidamente perdeu fôlego, mas deixou feridas profundas no movimento da juventude. O qual foi afinal calado depois de uma massiva demonstração de apoio às instituições da Revolução Islâmica. Os próprios iranianos teriam sido convencidos pelos vencidos? Inúmeras vozes argumentaram que as instituições estimularam os tumultos.

Hussein Moussaoui
A juventude não conhecia o programa de Moussaoui e ignorava completamente que ele promovia o capitalismo global e alinhava-se a ele. Erradamente, os jovens supunham que Moussaoui representasse a moral social liberal. Sem perceber, haviam sido persuadidos de que tinham de escolher entre “liberdades individuais” e “o regime”. E os jovens desapareceram das cerimônias nacionais.

Surpreendidas pela violência do protesto, as autoridades foram lentas em responder.

Primeiro, houve uma defesa pela mídia. Por exemplo: um grupo de especialistas analisou quadro a quadro o famoso vídeo do jovem Neda, apresentado como morto por forças de segurança durante uma manifestação antirregime. Concluíram que o vídeo havia sido forjado. Depois se organizaram grupos de discussão, mediados por instrutores adultos que iniciaram os jovens na compreensão do pensamento dos revolucionários iranianos mais velhos. Todos esses esforços deram fruto, e hoje se vê outra vez forte participação dos iranianos com menos de 30 anos nas recentes cerimônias nacionais oficiais.

Washington, por sua vez, não poupou esforços para semear a cizânia na sociedade iraniana e trabalhou para acentuar os conflitos generacionais.

Foram criadas mais de uma centena de estações de televisão por satélite, em farsi, para inundar o país com propaganda do “Sonho Norte-americano”. Conseguiram distrair a atenção dos iranianos e afastá-los de suas redes locais e nacionais, mas, no geral, não há sinais de que tenham seduzido a população que vota.

No momento em que tantos se preparavam para mais uma tentativa de “revolução colorida” e “mudança de regime”, a surpresa veio da coalizão governante.

A confrontação clássica entre as facções religiosa e nacionalista endureceu e, afinal, explodiu numa cena pública.

Aiatolá Ali Khamenei
O presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad, e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, puseram-se a acusar-se mutuamente de proteger assessores corruptos. As redes ocidentais em farsi exibiram imagens dos bate-bocas. Apesar das exortações à calma e ao bom-senso, o Supremo Líder, Aiatolá Ali Khamenei não consegue acalmar os protagonistas.

Além do mais, Ahmadinejad conta com apoio popular massivo em todo o país, exceto, paradoxalmente, em Teerã, cidade da qual foi prefeito. A rápida industrialização do país, programas recentes de redistribuição dos lucros do petróleo, pagos mensalmente a todos os cidadãos adultos, e a construção de moradias por todo o país vendidas a preços subsidiados, conquistaram os votos de trabalhadores urbanos e da agricultura.

Ahmadinejad, que sente que seu candidato será eleito por ampla margem de votos, não hesita em desafiar a oposição mais religiosa, e mostra que, se dependesse dele, as exigências dos jovens seriam atendidas. Permitiu-se inclusive celebrar uma “Miss hijab”, para poder criticar mais livremente a lei que torna obrigatório o uso do véu.

Sadeq Larijani
Ali Larijani e seu irmão Sadeq (presidente do Judiciário) estão forçados a constatar que o candidato rival está avançando no trabalho de promover a candidatura do chefe de gabinete de Ahmadinejad, Rahim Mashaei Esfendiar. Esfendiar dedica-se a reescrever discursos oficiais, trocando as referências religiosas por referências mais universais, não tão exclusivamente xiitas.

Os religiosos temem que essa flexibilização abra a porta para o declínio do Islã. Responderam espalhando boatos de que a família Ahmadinejad perdeu a cabeça; que se creem em contato direto com o Parlamento e, enquanto esperam, tenham garantir lugar, reservando para eles mesmos uma cadeira no Conselho de Ministros.

Para acalmar as coisas e preservar a unidade da Revolução, o Supremo Líder pode exigir que o grupo Ahmadinejad indique candidato menos divisionista e polarizador que Mashaei.

A imprensa-empresa ocidental está em surto de esquizofrenia.

Enquanto as redes em farsi só falam dessa confrontação, as redes europeias não publicam uma linha sobre o caso. Só fazem continuar a induzir os públicos a crerem que o Irã seria uma ditadura monolítica comandada por mulás.

Os jovens, que tomaram as ruas contra “o regime” em 2009, já são hoje aplicados apoiadores de Ahmadinejad e muito provavelmente votarão no candidato que Ahmadinejad indique, em junho.

Os jovens iranianos acreditam que, com Ahmadinejad (e seu candidato às próximas eleições), a Revolução Islâmica conseguirá conciliar a libertação nacional e o respeito pelas liberdades individuais.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Khamenei joga duro com Obama


E o Irã vai cozinhando a “única” potência...

8/2/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Irã cozinhando...
Foi semana excepcional para a política do Oriente Médio e acabou, adequadamente, com um choque de realidade: que as imaginações não saiam de curso.

Bashar al-Assad
Três grandes acontecimentos, numa semana, têm de ser alinhados e considerados como inevitável confluência de desenvolvimentos e processos: a oposição síria ofereceu diálogo bilateral ao regime de Bashar al-Assad; o presidente do Irã fez visita histórica ao Egito; e os EUA ofereceram conversações diretas ao Irã – que o Irã aceitou prontamente.

Não há dúvida de que são eventos interconectados. Primeiro, o caleidoscópio sírio está mudando de configuração muito dramaticamente, embora continue o banho de sangue. A menos que os países europeus levantem o embargo de armas que impuseram à Síria (o qual, seja como for, expirará dia 1º de março) e decida armar os rebeldes, o impasse continuará.

O humor nas capitais ocidentais mudou, na direção de mais cautela e circunspecção, ante o fantasma de grupos afiliados à al-Qaeda que se estão beneficiando do caos reinante. Se mais não fosse, bastaria o furacão de islamistas militantes armados que varre o Mali, para aumentar as preocupações e a relutância.

Ahmed Moaz al-Khatib
O que levou o líder islamista da Coalizão Nacional Síria, Moaz al-Khatib, semana passada, a manifestar disposição para construir conversações diretas com representantes do regime sírio – e empurrou-o ao encontro dos Ministros de Relações Exteriores de Rússia e Irã – foi tanto a confusão reinante dentro da oposição síria e o fracasso na tentativa de formar algo semelhante a um verossímil “governo-no-exílio”, quanto a aguda certeza de que o humor ocidental já dá sinais de extrema cautela em relação à Síria.

Não há dúvidas de que o Irã, já há alguns meses, desempenha papel crucial na dura batalha de nervos em torno da Síria. Curiosamente, é o Irã quem, hoje, está “do lado certo da história”, ao clamar por diálogo e negociações urgentes e por eleições democráticas, como chaves indispensáveis para reformar e promover mudanças na Síria – e, também, no que tenha a ver com isso, no Bahrain.

A mudança que se vê na Síria realmente deu instrumentos ao Irã para derrubar as barreiras entre sunitas e xiitas, que tão tenazmente foram criadas e impostas para isolar o Irã. Por isso, a visita histórica do Presidente Mahmud Ahmedinejad ao Egito, essa semana, tem dimensão muito mais ampla em termos regionais para o Irã, que apenas a restauração de relações bilaterais entre Irã e Egito. O encontro trilateral que houve entre Ahmedinejad e os presidentes do Egito e da Turquia, Mohamed Mursi e Abdullah Gul mostra muito mais sobejamente a crescente relevância do Irã como interlocutor, que qualquer inimizade implacável que houvesse entre o Irã xiita e os dois grandes países sunitas.

Mohamed Mursi
Interessante o que acrescentou Mursi:

A revolução egípcia passa agora por condições similares às da Revolução Iraniana. Dado que o Egito não tem condições de progresso rápido, como o Irã teve, acreditamos que expandir os laços e a cooperação entre Egito e Irã é movimento crucialmente importante e necessário.

Desnecessário dizer que a diplomacia iraniana jogou magistralmente em tudo que teve a ver até agora com o regime da Fraternidade Muçulmana no Cairo: nem bajulou nem diminuiu, empurrou ou pressionou: apenas deixou que os Irmãos definissem o ritmo dos eventos. Fator básico nessa abordagem é a confiança, em Teerã, de que a avançada do islamismo no Oriente Médio por vias democráticas, sem especial preocupação com algum “islamismo sunita”, operará sempre, e ao final das contas, a favor dos interesses do Irã.

Ahmed al-Tayyeb
A recepção cordial que Sheikh Ahmed al-Tayyeb, líder da mesquita egícia Al-Azhar do Egito, ofereceu a Ahmedinejad e a alta probabilidade de que visite Teerã em futuro bem próximo manifestam muito claramente o desejo comum de estreitar laços e afinidades.

Dito em termos simples, a crise síria vai aos poucos saindo do espaço das questões difíceis entre Irã e Egito. É verdade que a Coalizão Nacional Síria (CNS), que tem base na Turquia, continua a rejeitar qualquer negociação com o regime sírio, e a Fraternidade Muçulmana controla a CNS. Mas aí pode estar também uma janela de oportunidades para que Turquia, Egito e Irã forcem-se mutuamente a melhor afinação.

De fato, a CNS não tem qualquer influência real sobre os rebeldes em luta; e Ancara irrita-se cada dia mais com o rumo geral da crise síria.

Foi afinal nesse contexto complexo, que o vice-presidente Joe Biden dos EUA disse em Munique, no último fim de semana, que Washington está pronta para iniciar conversações diretas com o Irã sobre o programa iraniano de energia nuclear. A resposta imediata do Irã foi otimista cautelosa. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi disse que:

Ali Akbar Salehi
Estou otimista. Sinto que o novo governo dos EUA, dessa vez, tenta, pelo menos, afastar-se do modo como vinha tratando o meu país.

Mas já no dia seguinte, começou a modular o entusiasmo:

Vemos positivamente esse movimento. Parece-me uma boa abertura... Mas temos de esperar um pouco mais, para ver se, dessa vez, o gesto deles é gesto real... E tomaremos nossas decisões de acordo com a real configuração.

Adiante, Salehi explicou que:

A análise do passado mostra que sempre que mantivemos conversações com os norte-americanos, inclusive com esforços para estabilizar o Afeganistão, o outro lado, infelizmente, jamais cumpriu plenamente as obrigações que assumiu. Não se negocia em tom de ameaça, dizendo que todas as opções estão sobre a mesa [porque] vê-s aí, bem aparente, uma contradição (...) Pressionar e convidar para conversar são atitudes incompatíveis. Se as intenções se comprovarem honestas, podemos, sim, incluir negociações sérias em nossa agenda.

Obviamente, Salehi falou por duas bocas; a retração final é a “autêntica” voz de Teerã.

Aiatolá Ali Khamenei
Na 5ª-feira, quando o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei afinal quebrou seu silêncio, rejeitou a possibilidade de conversações diretas com os EUA. Disse ele:

Vocês [norte-americanos] apontam a pistola contra o Irã e dizem que é “ou negociação ou bala”. A nação iraniana não se deixará intimidar por essas ameaças (...) Alguns ingênuos gostam da ideia de negociar com os EUA, [mas] nenhuma negociação resolverá os problemas. Quem tente estabelecer novamente o poder da América no Irã, verá que a nação se erguerá contra eles.

Um modo de interpretar a dura declaração de Khamenei na 5ª-feira é pô-la no contexto do anúncio de novas sanções contra o Irã, anunciadas na véspera, em Washington, as quais foram explicadas pelo governo dos EUA como “mais um aperto significativo no parafuso” que “aumentará significativamente a pressão econômica contra o Irã”.

Mahmud Ahmadinejad
Mas nem assim se explica o manifesto endurecimento e a total rejeição que se vê nas palavras de Khamenei. Três outros fatores têm de ser considerados. Primeiro, a política doméstica está esquentando no Irã; a dramática irrupção pública de discordância e desarmonia entre Ahmedinejad e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, semana passada, é prova de que há tempos difíceis à frente, quando Khamenei, como o grande timoneiro, estará mergulhado em problemas.

Verdade é que terá muito a joquear, à medida que se aproximarem as eleições presidenciais marcadas para maio. Khamenei pode bem entender que conversações com os EUA serão mais oportunas depois das eleições. (Diga-se de passagem, essa pode ser também a preferência de Obama).

Em segundo lugar, Khamenei disse, nas entrelinhas, que Teerã espera algum sério gesto de boa vontade, dos EUA, antes de iniciar quaisquer conversações. Lembrou que os EUA já várias vezes no passado não agiram de boa fé – como quando o Irã ajudou os EUA a derrubar o regime dos Talibã no Afeganistão.

Ali Larijani
Um terceiro fator é que Khamenei vê, profunda e genuinamente, que o Irã está, sim, “do lado certo da história”, no que tenha a ver com os levantes regionais no Oriente Médio; ao mesmo tempo em que as estratégias regionais dos EUA mostram-se cada dia mais sem rumo e sem sentido.

Em resumo, por mais que a propaganda norte-americana repita que as sanções “mordem fundo na carne do Irã” e que o regime no Irã estaria sitiado, o que se tem é uma bizarra situação, na qual só Washington acredita na própria propaganda, por mais que as realidades em campo sejam amplamente diferentes do que diga a propaganda.

Por mais que a propaganda nos faça crer que o regime em Teerã viva temeroso de que irrompa em Teerã um levante como o da Praça Tahrir, as palavras de Khamenei não mostram qualquer vestígio de medo ou timidez. Simultaneamente, Khamenei avalia atentamente a capacidade (ou a falta de capacidade) de Obama para controlar os cães do lobby israelense e iniciar processo genuíno de normalização das relações com o Irã.

Barack Obama e o tamanho do "pepino"
Quando Richard Nixon trabalhou com a China, no início dos anos 1970s, beneficiou-se de um amplo consenso favorável de opiniões dentro do establishment político nos EUA. Ao contrário, no que tenha a ver com o Irã, o pensamento e os discursos de muitos norte-americanos influentes ainda são regidos por orgulho e preconceito.

A mensagem de Khamenei a Obama é que trabalhe com seriedade e decida com clareza o que deseja, em vez de mandar recado por Biden, sem qualquer elo de conexão e sem se comprometer a coisa alguma.

Khamenei já enfrentou vários presidentes dos EUA ao longo de 22 anos; dessa vez, apenas devolveu a bola para a quadra adversária. Agora, Khamenei esperará a próxima jogada de Obama, que visitará Israel, mês que vem. 
____________________

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistãoe Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e o Blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.