14/6/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Barack Obama, presidente dos EUA |
De uma
perspectiva de longo prazo, não é possível discordar de que o presidente dos
EUA, Barack Obama, tomou a decisão certa, de não mandar tropas norte-americanas
contra o grupo afiliado da al-Qaeda “Estado Islâmico do Iraque e Síria”
[ing. ISIS] que atacou regiões do norte do Iraque no início dessa
semana. A declaração de Obama na 6ª-feira (13/6/2014) pode ser assim resumida,
em palavras
dele mesmo:
Quero ter certeza de que todos entendem essa
mensagem – os EUA simplesmente não se envolverão em ação militar na ausência de
plano dos próprios iraquianos, que nos dê alguma garantia de que os iraquianos
estão preparados para trabalhar em conjunto. Não vamos nos deixar arrastar de
volta para uma situação na qual enquanto lá estivermos seguramos algumas coisas
e com enormes sacrifícios para nós, mas, no instante em que saímos de lá, de
repente as pessoas começam a agir de modo que não conduz à estabilidade de
longo prazo e à prosperidade do país.
Bem
claramente, Obama recusa-se a se deixar acuar pelos críticos domésticos. O que
Obama pensou sobre o caso envolveu, com certeza:
(a) sim, o ISIS pode “eventualmente”
vir a ser ameaça a interesses dos EUA;
(b) as forças armadas iraquianas sim, precisam
apoio adicional para deter o avanço do ISIS;
(c) mas o desafio não é “só”, sequer
“primeiramente”, desafio militar;
(d) a questão central no Iraque são as
diferenças sectárias, que os líderes políticos têm de enfrentar e superar;
(e) os vizinhos do Iraque “também têm
responsabilidades” no apoio à acomodação política, que tem a ver com os
interesses legítimos de todas as comunidades no Iraque;
(f) o ISIS é “problema regional” e
“problema de longo prazo”.
Obama
referiu-se vagamente a que os EUA estão em contato com outros países para ver
“como podem apoiar um esforço para criar o tipo de unidade política que dê mais
peso às forças de segurança”. Presumivelmente, falava dos aliados regionais dos
EUA.
Hassan Rouhani, presidente do Irã |
Significativamente,
horas depois da declaração de Obama, o presidente Hassan Rouhani esclareceu a
posição de Teerã sobre a situação do Iraque. Deixou claro que Teerã está
apoiando total e completamente o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki
que fez bonito nas eleições parlamentares recentes e garantiu para si um novo
mandato.
Rouhani disse
que o Irã não aceitará os atentados da Arábia Saudita contra os xiitas que
chegaram ao poder no Iraque. Alertou que os países que têm dado apoio
financeiro e armas ao ISIS (leia-se Arábia Saudita e Qatar) mais cedo ou
mais tarde enfrentarão as consequências.
Rouhani
descartou absolutamente qualquer objetivo de trabalhar com os norte-americanos
na questão iraquiana. Por outro lado, destacou que Teerã está disposto a
garantir ajuda e assistência ao governo iraquiano, incluindo aconselhamento
militar, caso Bagdá solicite (solicitação que, até agora, ainda não foi feita).
Mas essa ajuda será consistente com a política iraniana de absolutamente em
nenhum caso enviar tropas para combater fora do país. Assim sendo, nada de
coturnos iranianos em solo não iraniano; mas Maliki pode contar com suprimentos
e aconselhamento militares e com a ajuda da inteligência iraniana.
De fato, os
iranianos avaliaram cautelosamente a situação e concluíram que o ISIS não
passa de pequena fagulha; que a queda de Mosul aconteceu por razões
específicas; e que o exercito iraquiano tem meios para recuperar o terreno
perdido.
Leia a seguir o que publicou a Agência FarsNews, sobre a fala de Rouhani
Presidente Rouhani: Não haverá tropas
iranianas no Iraque
14/6/2014,
FarsNews, Irã
Teerã (FarsNews) – O presidente
do Irã Hassan Rouhani desmentiu notícias de que estariam sendo enviadas tropas
iranianas ao Iraque, mas disse que Teerã está pronta para ajudar seu parceiro
ocidental em sua guerra aos terroristas, nos termos da lei internacional, se
Bagdá o solicitar.
Nós, como República Islâmica, somos amigos e vizinhos do Iraque e temos
boas relações com o governo do Iraque e a nação iraquiana – disse Rouhani
em conferência de imprensa em Teerã, no sábado (14/6/2014).
Se o governo iraquiano pedir ajuda, estudaremos o pedido. Até agora não
recebemos nenhum pedido, mas estamos prontos a ajudar, no quadro das leis
internacionais e do pedido da nação iraquiana – acrescentou.
Claro, temos de saber que ajuda e assistência é uma questão, e
interferência e intrusão (no campo de batalha) é outra. Se o governo do Iraque
nos pedir, ajudaremos, mas jamais se cogitou de pôr soldados iranianos em
combate no Iraque – disse o presidente.
Desde que foi criada, a República Islâmica jamais tomou medida desse
tipo e nunca enviamos soldados iranianos para combates em outros países. Claro
que, se solicitados, garantiremos aos países nossos saberes e nossas opiniões de
especialistas consultados. – disse o presidente Rouhani.
Rouhani disse que: a nação iraquiana é perfeitamente capaz de
exterminar o terrorismo.
O presidente do Irã também
alertou sobre a possibilidade de o Irã vir a ter de enfrentar o ISIL ou
qualquer outro grupo terrorista que se aproxime das fronteiras iranianas, e
disse: Se um grupo terrorista se
aproximar de nossas fronteiras, sem dúvida o confrontaremos, porque é nosso
dever defender nossa integridade territorial e interesses nacionais.
O presidente também se dirigiu
aos estados que estão fornecendo ajuda financeira e armas aos terroristas do ISIL,
alertando que o terror voltará para incendiar também aqueles países.
Rouhani desmentiu matéria
publicada pela imprensa-empresa ocidental, segundo a qual funcionário iraniano
não identificado teria informado sobre o início de cooperação entre Irã e EUA
contra os terroristas no Iraque. O presidente disse: Os norte-americanos talvez queiram fazer alguma coisa, mas não estou
informado de coisa alguma.
Falou do terrorismo como questão
importante na região, e disse que eventos recentes no Iraque aconteceram porque
grupos terroristas estão furiosos ante os resultados das eleições, que
mantiveram no poder os xiitas e o primeiro-ministro Nouri al-Maliki por vias
integralmente democráticas. Disse que não é aceitável a intenção de alguns
grupos, de compensar, com terrorismo,
suas perdas e fracassos eleitorais.
Rouhani também se referiu à baixa
potência militar dos terroristas do ISIL; disse que o colapso de Mosul foi
resultado de vários elementos e de alguma coordenação (com traidores dentro da
cidade).
Repetiu que o Irã preocupa-se
ativamente sobre a disseminação do terrorismo na região, e lembrou a proposta
que o país apresentou à ONU dia 25/9/2013 (dia 18/12/2013, a Assembleia Geral
da ONU aprovou por expressiva maioria a proposta do presidente Rouhani, World Against Violence and Extremism
(WAVE) [O Mundo contra a Violência e o Extremismo]), de combater o extremismo e
a violência, e que foi bem recebida pelos estados regionais e de todo o mundo
(...).
Na 6ª-feira (13/6/2014), o Wall Street Journal publicou matéria em
que se liz que Teerã teria enviado duas unidades de elite do seu Corpo de
Guardas da Revolução Islâmica [orig. Islamic
Revolution Guards Corps (IRGC)] ao Iraque, para combaterem conta os
terroristas do ISIS.
Hossein Amir Abdollahian |
Poucas horas depois, o
vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir Abdollahian,
desmentiu categoricamente a matéria, e disse à Agência Farsi de Notícias que: é falsa a informação sobre envio de forças
militares iranianas ao Iraque.
O vice-ministro iraniano de
Relações Exteriores também disse que o Iraque tem consideráveis capacidades
militares, perfeitamente suficientes para dar combate a militantes do ISIL. O
ministro de Relações Exteriores do Iraque Hoshyar Zebari também não confirmou a
matéria do WSJ, quando perguntado se guardas do IRGC estariam entrando na luta
no Iraque: Sinceramente, nada sei sobre
isso. Estou em Londres... – disse ele ao repórter do WSJ que lhe telefonou.
Em Teerã, a porta-voz do
Ministério de Relações Exteriores Marzieh Afgham já dissera que o Irã não está
envolvido nos conflitos no Iraque. Até
agora não recebemos nenhum pedido de ajuda, do Iraque. O exército iraquiano é
perfeitamente capaz de lidar com essa dificuldade.
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Teerã
concluiu que todo o drama dos ataques do ISIS foi operação clandestina
montada pelas potências regionais que promovem a agenda da “mudança de regime”
na Síria apoiadas pelos EUA. Rouhani teve a elegância de não citar os EUA
nominalmente. A próxima rodada de conversações sobre o programa nuclear
iraniano deve começar na próxima 2ª-feira (16/6/2014), em Genebra.
Ali Larijani
põe a boca no mundo
Mas o líder
do Parlamento, Ali Larijani, não se sentiu preso a nenhuma regra de polidez
diplomática. Larijani tirou as luvas durante discurso público em Teerã ontem e
literalmente desmascarou todo o papel dos EUA na Síria ao lado de Arábia
Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Turquia, etc..
Ali Larijani culpa EUA e estados da região pelas
crises na Síria e no Iraque
14/6/2014,
FarsNews, Irã
Ali Larijani, presidente do Parlamento do Irã |
Teerã (FNA) – O presidente do
Parlamento iraniano, Ali Larijani acusou as potências mundiais de estarem
usando terrorismo como ferramenta para promover seus objetivos de propaganda e
responsabilizou diretamente os EUA e estados da região pelas crises no Iraque e
na Síria – nos dois casos, resultantes do apoio que EUA deram a grupos
terroristas Takfiri e Baathi.
Os Baathistas e Takfiris devem ser responsabilidades pelos recentes
eventos no Iraque. Quando aconteceu na Síria, muitos países em torno do Irã
vieram até nós para dizer que se a Síria fosse democrática, os Takfiris já não
estariam lá. Hoje pergunto: se houvesse democracia no Iraque, veríamos os Takfiris,
hoje, fazendo o que fazem – disse Larijani num fórum em Teerã, na 6ª-feira
(13/6/2014) à tarde.
É perfeitamente óbvio que os norte-americanos e demais países aqui à
nossa volta são responsáveis pelo que hoje se vê no Iraque. Não têm sequer um
Parlamento adequado. E só fazem discursar sobre democracia no Iraque e na Síria
– acrescentou.
Larijani falou longamente sobre
como os eventos de hoje mostram o quanto o terrorismo cresceu como instrumento
das grandes potências para promover seus interesses: o terrorismo é uma espécie
de pretexto que, quando não está já à mão, sempre pode ser “acionado”...
Comandante da Força Iraniana Basij, Mohammad Reza Naqdi |
Noutra fala importante, na
4ª-feira (11/6/2014), o Comandante da Força Iraniana Basij [de voluntários],
general-brigadeiro Mohammad Reza Naqdi, condenou os crimes cometidos pelos
terroristas Takfiri e salafistas na região, e disse que são crimes apoiados por
estados ocidentais e países árabes ricos em petróleo.
Essas correntes (Takfiri) que
falam dos xiitas como infiéis, decretam o assassinato de xiitas, cometem crimes
e massacram inocentes sob a falsa noção de que assim ordenaria o Islã, e que
inventam diferenças entre xiitas e sunitas até em suas fatwas só dizem mentiras
– disse Naqdi na província Sistão e
Balouquestão, no sudoeste.
Disse que os grupos Takfiri cometem crimes que se alinham aos interesses mais
sórdidos das potências arrogantes, e obededem ao que lhes ordenam think-tanks ocidentais e israelenses, todos apoiados
por petrodólares de alguns países árabes.
A Síria tornou-se alvo e lócus de
violência mortal desde março de 2011. Há inúmeros relatórios que comprovam que
as potências ocidentais e seus aliados na região – especialmente o Qatar, a
Arábia Saudita e a Turquia – garantem apoio aos terroristas que operam dentro
da Síria.
Também no Iraque, as forças
iraquianas continuam a combater contra terroristas Takfiri cujos militantes
avançam no Iraque.
Dia 10/6/2014, a província de
Nineveh no norte do Iraque caiu em mãos de militantes de um chamado Islamic State of Iraque and the Levant
(ISIL). Os ataques dos Takfiri forçaram mais de meio milhão de habitantes de
Mosul, capital da província Nineveh, e dos arredores da cidade, a deixar as
próprias casas.
Ao mesmo tempo em que os
terroristas tentam controlar duas áreas na província Diyala na 5ª-feira
(12/6/2014), as forças iraquianas já retomavam o controle do centro de Tikrit e
de partes de Mosul. Os terroristas Takfiri ameaçaram marchar contra a capital,
Bagdá.
Sabe-se que há grupos Takfiri entrando
no Iraque vindos da Síria e da Arábia Saudita, com o objetivo deliberado de comprometer
a segurança no país
_________________________________________
Se se
aproximam, como acima, as falas de Obama e Rouhani sobre os desenvolvimentos no
Iraque, vê-se claramente que Washington caiu presa numa ratoeira. Dito
claramente, Obama está sendo convocado para defender a “democracia” contra os
terroristas do ISIS – os quais, muito evidentemente, sim, implicam grave
ameaça a interesses dos EUA na região. Mas... os terroristas do ISIS são,
na essência, criação dos EUA e de seus aliados regionais – “são os nossos
[deles!] filhos-da-puta” no Oriente Médio (para usar a famosa fórmula cunhada
por FDRoosevelt para descrever Anastasio Somoza brutal ditador nicaraguense).
A melhor
aposta, para Obama, é que Maliki não procure ajuda externa e consiga fazer
escafederem-se os ISIS usando o próprio exército do Iraque e os
guerrilheiros curdos da Peshmerga e seu aliado iraniano. E o Irã, por sua
vez, confia que Maliki derrotará os tais terroristas.
[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira
do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do
Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É
especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de
energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al
Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. É o filho
mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e
militante de Kerala.
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