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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conflicts Fórum, Comentário Semanal (3-10/1/2014)

17/1/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Milhões se enfrentam nas ruas das cidades egípcias. Imensa fratura social-religiosa
Egito: Mesmo antes do golpe militar que derrubou o presidente Mursi, já era claro que a sociedade egípcia estava em processo de fratura – e fratura profunda, de modo talvez irrecuperável. Uma reunião (da qual este Conflicts Fórum participou) dos principais grupos políticos do Egito (islamistas e liberais/seculares) naquele momento foi simplesmente incapaz sequer de comunicarem-se uns com os outros: muralhas de pesada artilharia verbal lançada de um lado para outro na mesma sala, de um setor da sociedade egípcia para outro, cada um desejando acertar golpe mais arrasador contra o outro. Ânimos exaltadíssimos, emoções à solda; estado psicológico cristalizado, pétreo, pouco do que uns diziam aos outros faziam qualquer sentido, e nem um grão de sabedoria.

O ânimo para qualquer tipo de concessão, completamente ausente, nenhuma possibilidade de negociação democrática naquele torvelinho de paixões. Naquele momento, eram os liberais/seculares e os cristãos que manifestavam o terrível medo existencial, temendo pela própria sobrevivência: estavam a ponto de serem politicamente e culturalmente detonados pelos islamistas, seu modo de vida posto na ilegalidade, a relevância política deles varrida para o nada, como sentiam, acreditavam e temiam.

É preocupante o número de assassinatos de cristãos no Egito
Os cristãos mostravam-se particularmente amargos. Reclamavam que o ocidente cristão cometera um erro histórico: obcecadamente focado na segurança de Israel, o ocidente aliara-se a grupos sunitas radicais, para enfraquecer o que via como ameaças a Israel (o Hezbollah e o Irã); mas os cristãos do Oriente Médio é que teriam de pagar a parte pior do preço desse estímulo tresloucado ao Islã sunita. Exibiram números da migração de cristãos para fora do Egito. E o que ardia como sal esfregado nas feridas era que cristãos e liberais/seculares não viam qualquer possibilidade de que surgisse qualquer tipo de forças que os resgatassem e os salvassem do sítio a eles imposto pelos islamistas.

Pela primeira vez em séculos, nem França, nem Grã-Bretanha, nem EUA apareceriam para salvá-los. Seriam deixados morrer lá – ou que emigrassem! – ante a avançada dos islâmicos.

Imagine-se, pois, como se sentiram, quando, no último segundo, depois de tudo parecer completamente perdido, surgiu um deus ex machina: os estados do Golfo armaram um golpe de estado para “limpar e destruir” (no jargão militar) a Fraternidade Muçulmana e varrê-la do Egito. Viraram a mesa! Militantes seculares/liberais flanavam metro e meio acima do chão, em êxtase. O general Sisi foi saudado (acriticamente) como novo Saladino/ Nasser/ Sadat.

Abdul Fattah al-Sisi
Imediatamente depois do golpe, o general Sisi fez todos os ruídos politicamente corretos: falou de “transição”, “democracia civil” e “inclusão social”. Falar é uma coisa, fazer é que são elas! E Sisi fez diferente do que falava.

Em vez de transição para a democracia, parece que agora “o povo” vai exigir que Sisi se torne presidente por aclamação popular, não por alguma “democracia civil”. Está a poucos passos de conseguir aprovar duas novas leis, a saber: uma lei que torna ilegais os protestos de rua; e outra que amplia o alcance da lei antiterrorismo.

Sisi conseguirá matar dois coelhos com uma cajadada: seu objetivo principal é eliminar a Fraternidade Muçulmana e criminalizar seus muitos apoiadores; mas, além disso, ele efetivamente dá novo corpo e nova carne às regras do (odiado) “estado de emergência”, para permitir que o establishment de segurança elimine qualquer resistência ao governo da Junta militar.

Outra vez, tudo isso está sendo feito “por mandato popular”: como o jornal nacionalista Al-Watan escreveu semana passada: “Do povo a El-Sisi [chefe das forças armadas]: Garantimos seu mandato. Agora, é degolar os terroristas!”. Outro jornal, Al-Youm Al-Sabaa, exibiu manchete semelhante: “Povo exige que a Fraternidade seja executada”.

Mas, embora essas leis visem primariamente à Fraternidade Muçulmana, o efeito combinado das duas é suficientemente amplo para enquadrar também os primeiros movimentos de mal-estar entre os seculares/liberais. Alguns seculares/liberais (poucos, se comparados aos Irmãos) foram detidos por criticar (por falta de objetivo revolucionário) o governo da junta militar. Deve-se prever que, aumentando a desilusão e o fim das esperanças que depositaram em Sisi, aumente também o número de seculares/liberais nas prisões egípcias.

Khalil Al-Anani
Em resumo, a contrarrevolução que o Golfo orquestrou no Egito contra os levantes árabes de 2011, agora sob o comando do General Sisi, está sendo empurrada na direção da mais ampla, total e irrestrita repressão.

Como Khalil Al-Anani comenta, a proscrição da Fraternidade Muçulmana fortalece “a ideia de um inimigo comum, de uma ameaça existencial ao estado e à sociedade”. “Outra razão para a proscrição”, continua ele, “é mobilizar o público para que vote “sim” no referendo da Constituição, que o governo provisório vê como meio para resolver a própria falta de legitimidade. Fechar o espaço público para qualquer tipo de ação de protesto, sob a alegação que o fechamento é ação de contraterrorismo (...) e declarar a Fraternidade “grupo terrorista”, fecha a porta para qualquer reaproximação futura entre a Fraternidade e os grupos revolucionários”.

Não se trata apenas de criminalizar parte muito substancial da população egípcia (pelo crime de enunciar apoio direto ou indireto à Fraternidade Muçulmana – crime que passa a receber pena de cinco anos de cadeia), mas os “vigilantes” já estão sendo encorajados por jornalistas e outras figuras “midiáticas”, pelos jornais e pelas televisões, a incendiar residências de Irmãos e depredar suas empresas e escritórios. Criaram-se linhas de disque-denúncia, para que todos possam facilmente denunciar nomes e endereços de pessoas suspeitas de simpatia com a Fraternidade Muçulmana. Empresas-imprensa, em toda a “mídia”, ecoam e repercutem o incitamento contra os “terroristas”. Pessoas suspeitas de contatos com os Irmãos estão sendo sequestradas, torturadas e mortas. A fratura na sociedade egípcia de que falamos no início, já se expande: agora se vê um cisma.

Líderes da Fraternidade Muçulmana discurso quando do golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito, Mohamed Mursi
Qual será a resposta? No Egito tudo anda devagar, mas já se veem alguns indicadores claros. A Fraternidade Muçulmana já mergulhou na clandestinidade. As lideranças (membros da Shura e o Gabinete de Orientação) já foram presas ou sumiram na clandestinidade. O movimento sobrevive reativando seu antigo sistema de “células”, de sete, oito pessoas, que se reúnem na cada do líder da célula. Mas também esse sistema, que manteve vivo o movimento em outros momentos de perseguição cerrada, está sob forte estresse, e os líderes de célula encontram grandes dificuldades para manter ativas as comunicações entre as células e para cima, na hierarquia, para quem quer que ainda esteja ativo na liderança.

A geração mais velha da Fraternidade Muçulmana não quer guerra aberta contra Sisi: sabem que não têm qualquer chance de vitória. Em vez disso, a estratégia é manter a liderança com manifestações “relâmpago” (“Não temos escolha: Sisi nos encurralou”) e esperar que a própria Junta se autodesmoralize, enquanto a economia despenca. A FM sabe que há tempos muitos difíceis adiante, para a economia egípcia; e acredita que nada tenham a fazer, além de esperar e capitalizar o inevitável (segundo os Irmãos) tombo da Junta, aos olhos da opinião pública. Simultaneamente, a FM está trabalhando com seus apoiadores dentro do Exército, para inflar o descontentamento, entre os militares, contra o alto comando. (Um quadro político russo de alto escalão diz que a Rússia estima que cerca de 70% dos quadros inferiores da hierarquia militar egípcia opõem-se ao rumo que o comando está dando ao exército).

Mas essa “opção segura” nem está funcionando, nem satisfaz os membros mais jovens da FM. A política de não violência da FM não está se implantando em todo o movimento como os líderes esperavam que se implantasse. O recente ataque à bomba em Mansour, no qual morreram 16 policiais, quase com certeza não foi obra da FM (um grupo salafista do Sinai já se apresentou como responsável, e é perfeitamente possível que sejam os autores), mas a FM já foi imediatamente acusada – e jornalistas e “especialistas” da imprensa-empresa governista já conseguiram persuadir significativa maioria dos egípcios de que a FM, sim, é o “grupo terrorista” responsável pelo atentado.

Os jovens  da Fraternidade Muçulmana lutam diuturnamente contra o golpe militar
Os Irmãos mais jovens, que perderam amigos e parentes nos confrontos à bala contra a polícia, não admitirão essa posição “contemplativa” da ala mais velha. Para esses jovens, a lição a aprender do Golpe é que os Irmãos foram ingênuos. Entendem que a FM deveria ter “destruído o sistema” no instante em que chegou ao poder. Teriam de ter promovido um expurgo no exército; e que todo o “estado profundo” teria de ter sido destruído. Essa, dizem eles, é a lição da Argélia, do Hamas em 2006, e, agora, também do presidente Mursi. Muitos desses – impossível avaliar quantos – tomarão o rumo dos movimentos islamistas revolucionários violentos que partilham e defendem a “ideia” da al-Qaeda. Essa não é tendência que exploda repentinamente, mas crescerá com o tempo – e contará com armas e combatentes vindos da Líbia, que já se disseminam por todo o norte da África.

O caso dos salafistas é mais complicado. Financiados por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, a liderança quase toda apoiou a Junta, exibindo notável “flexibilidade” nas questões constitucionais em respeito ao Islã. Mas eles também já perderam os membros jovens. Muitos desses salafistas veem o ataque das forças de segurança contra os Irmãos, e a deposição do presidente Mursi, não como ataque à Fraternidade Muçulmana per se; mas como ataque contra o próprio Islã. Esse grupo dos salafistas portanto virou-se contra a Arábia Saudita – tanto quanto também contra Sisi.

Por fim, partes do Egito (Sinai, partes de Alexandria e Suez) estão-se convertendo numa Idlib egípcia – sob o “controle” (não há palavra adequada para descrever a ambígua ‘'rede'’ de intimidação posta em ação) de grupos jihadistas de várias tendências – todos eles ferozmente hostis à Fraternidade Muçulmana, vendo os Irmãos como apóstatas.

Mapa ferroviário do norte do Egito e as distâncias entre as cidades envolvidas
A que tudo isso leva o Egito? O problema é que, por mais que Sisi tenha conseguido criar um culto que toma grandes fatias da população, para esmagar os chamados “terroristas” (a FM), ainda não se vê solução suficiente para os profundos problemas econômicos que o país enfrenta. Os estados do Golfo deram (embora nem tudo sejam doações) cerca de US$ 12 bilhões, mas a maioria dos especialistas estimam que o Egito precisa de mais de US$ 50 bilhões para manter-se à tona. Cerca de 43% da população vive em condições desesperadoras de miséria (com renda familiar de menos de US$ 2/dia, e muitos desses pobres são ex-beneficiários dos serviços caritativos da Fraternidade, apoio que agora foi cortado).

E que visão Sisi oferecerá: reformas econômicas “liberais” à moda do FMI – com metade da população sobrevivendo com menos de US$ 2/dia? O nacionalismo árabe (estilo neonasserista) é hoje viável? Difícil supor que sim. Não há dinheiro para isso. E o nacionalismo árabe entrou em fase de longo declínio depois da Guerra de 1973, da qual não se recuperou.

E que visão a Fraternidade Muçulmana pode oferecer? Um retorno à Da’wa e aos serviços sociais caritativos? Nisso, tampouco, já quase ninguém acredita. Nem a FM poderá esperar passivamente que o colapso econômico do Egito mate a fome dos que esperam qualquer “solução” para suas muitas misérias e alguma visão de futuro promissor.

A única visão que parece ressoar na rua é a récita salafista de simples “certezas” às quais as pessoas possam pendurar-se, em desespero, num momento de tumulto e ordem em liquefação. Paradoxalmente, nesse nível, vê-se convergirem os salafistas e Irmãos mais jovens, que se vão aproximando entre eles em torno de uma visão de mundo salafista, e emergindo, talvez, como únicos reais beneficiários do atual estado de coisas.

O ocidente adotou visão de curto prazo:

Todos temos pequena influência; tratamos a questão como assunto interno do país (como os eventos na Síria) e apoiamos Sisi, porque tem o único instrumento (o exército e as forças de segurança) capazes de prover (a palavra é péssima) “segurança”.

Mas a brutal repressão garantirá a tal “segurança” de que fala o ocidente, no longo prazo. A lição do colapso de Sykes-Picot a que assistimos em toda a região não é prova, precisamente, de que não?

O sinal de aviso e alarme é cuidado para não criarem novas al-Qaedas.

O Egito parece a caminho de mais e mais fraturas, e de tornar-se mais violento no confronto com a ressurreição do “sistema árabe”, sob a forma do general (e provável presidente) Sisi.


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Robert Fisk: Julgamento de Mursi, Egito – “Quando um tribunal encarna as divisões de uma nação”

4/11/2013, [*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Apoiadores de Mursi em frente ao Tribunal Militar do Cairo em 3/11/2013

Todos sabíamos o que o presidente Mohamed Mursi diria ontem (3/11/2013), quando pela primeira vez enfrentou os juízes. E ele gritou: “Sou o presidente da República”.

A Corte pôs-se a uivar, dickensiana, e jornalistas egípcios – que jamais deixam de participar das próprias histórias – berravam contra Mursi e os seis co-acusados, repetidas vezes: “Executem todos! Executem todos!” em coro, e os policiais, alguns à paisana, outros uniformizados, uns fumando cigarro após cigarro, outros usando coletes à prova de bala, nada fizeram para pôr fim àquele circo monstruoso.

Talvez os policiais concordassem com seus próprios jornalistas, mas, a certa altura, os advogados de defesa da Fraternidade Muçulmana lutavam sobre os bancos da corte com jornalistas e policiais egípcios, enquanto Mursi e seus ex-camaradas – que se viam ali pela primeira vez, desde o golpe militar em julho – a tudo assistiam placidamente, de dentro da jaula com barras de ferro.

Seria fácil zombar desse tribunal-carnaval, os guardas judiciários pedindo silêncio à multidão de jornalistas e advogados, que parassem de se esmurrar e berrar, enquanto o ex-presidente do Egito – porque é o que ele é – lá ficava, num terno de trabalho, barbas grisalhas, vez ou outra abraçando um ou outro dos prisioneiros enjaulados, todos por trás das barras de ferro negro, num canto da sala de julgamento de paredes revestidas de madeira. Mas era só parte da tragédia egípcia pós-revolucionária, um presidente eleito julgado por crime de incitamento ao assassinato, acusação que – se for suficientemente provada ante o tribunal – pode custar-lhe a vida.

Ninguém acredita que chegue a tanto. Os jornalistas não estariam exigindo a cabeça do réu se supusessem que possa ser, mesmo, condenado à morte. Exatamente como o próprio Mursi não se teria declarado presidente do Egito se realmente acreditasse que seja.

Mas disso, desnecessário dizer, é do que trata essa audiência absolutamente sem precedentes – na mesma academia de polícia na qual Hosni Mubarak, o ditador que precedeu Mursi no governo do Egito, foi julgado: de se o Egito pós-revolucionário pode vir a ser democracia funcional, de se governos árabes podem representar as próprias nações inteiras – de se suas administrações podem ser “inclusivas” - como os ocidentais arrogantes os mandam ser – ou se o povo que lutou tão bravamente pela própria dignidade e liberdade tem, mesmo, de bater palmas em desiludido uníssono, ante mais um general.

Os augúrios, ontem, não foram bons. Os policiais do lado de fora estavam ótimos, comportamento exemplar. Apertavam mãos, sorriam muito, tomavam nossos passaportes e nossos celulares, nos devolviam cartões plásticos com números de identificação, nos levavam, em ônibus, até o Tribunal, respeitosamente reviravam pastas, livros, bolsas e sacolas. Só quando se chegava ao prédio do tribunal é que se via o que nos esperava: mais policiais. Centenas, ocupando todas as cadeiras das primeiras filas, das laterais, os assentos junto aos corredores de passagem e mais três dúzias deles apertados numa outra jaula de barras de ferro adjacente à do acusado, para o caso de Mohamed Mursi abrir asas de anjo e tentar voar dali.

Com roupa branca de prisioneiro, Mohamed El-Beltagy
Ninguém vira Mursi desde o golpe – ninguém; nunca mais fora visto em público – mas parecia em boa forma, talvez um pouco mais gordo, conversando animadamente com os colegas, vestidos em uniformes brancos de prisioneiros. Seu correligionário, Mohamed El-Beltagy, lá estava e via-se também Essam el-Arian, líder da Fraternidade, o qual, acho que foi ele – a aglomeração na sala tornava difícil identificar as pessoas – gritou que nenhuma corte criminal poderia julgá-lo, que a aquela audiência era “ilegal, injusta, ilícita, inconstitucional”. Seis dos prisioneiros permaneciam na academia de polícia desde a madrugada – Mursi chegou às 7h20 – e el-Arian repetia que haviam sido “torturados” e impedidos de ver seus advogados desde que foram presos.

Os próprios advogados reclamaram que não lhes deram tempo para preparar a defesa. Perguntaram por que policiais à paisana apareciam por trás do juiz com câmeras e por que tantos policiais só faziam fotografar os advogados que trabalhavam na defesa de Mursi e dos demais prisioneiros. O juiz Ahmed Sabri Youssef optou por não explicar quem seriam aquelas estranhas criaturas. Num dado momento, Mursi e seus colegas ergueram a mão fazendo o sinal de quatro dedos, da “Rabaa”, símbolo da Fraternidade na oposição, e exibiram retratos desenhados de um jornalista pró-Fraternidade que foi morto na Praça Tahrir. Foram vaiados por jornalistas egípcios e por alguns dos policiais. Em Nuremberg não teve disso.

O juiz leu o nome de Mohamed Mohamed Mursi – o nome do meio mostra que seu pai também se chamava Mohamed – e, claro, todos assistíamos àquele estranho julgamento, por causa dele. Ahmed Abdul-Ati, outro dos acusados, disse a repórteres, falando de dentro da jaula, que desde julho Mursi não falara com nenhum de seus advogados – motivo pelo qual o juiz Youssef saiu com espalhafato da sala, pela primeira vez, logo aos dez minutos. Via-se Mursi em ativa conversa com seus ex-colegas, provavelmente a primeira verdadeira reunião do banido Partido Liberdade e Justiça, desde o golpe. Mursi beijou as duas bochechas de um dos prisioneiros.

Quando interrompeu o juiz Youssef, a voz era forte e confiante. “Sou o Presidente da República”, declarou. “O golpe é um crime. Essa corte é responsável por esse crime. Tudo que está acontecendo aqui visa a dar cobertura ao golpe. É uma tragédia que o grande judiciário do Egito tenha de dar cobertura ao golpe”. E quando a plateia respondeu com berros – ainda se ouvia a voz de Mursi dizendo que “não se deixem enganar. Isso aqui só serve aos interesses do inimigo externo...”

Chegada de Mursi para o 1o. dia de julgamento
Mursi disse outras coisas, difíceis de entender, porque sua voz era frequentemente encoberta por gritos. Disse que respeitava os membros da corte, mas que a corte não tinha direito constitucional de julgar um chefe de Estado. “Sou o presidente do Estado, e estou detido contra minha vontade”. Essa é a razão pela qual insistia que ainda é o presidente; porque, se não fosse, então a corte teria perfeito direito de julgá-lo.

Que Mursi lutou, lutou. Quando subiram o volume do microfone do juiz, para encobrir as palavras de Mursi, ainda se ouvia a voz dele: “Deem-me algo (um microfone) para que eu possa falar a vocês”. “Agora, não!”, o juiz respondeu sem pausa.

Se alguma corte pode expor as divisões de uma nação, aquela expôs. Mursi pode até ter razão para opor-se à realização daquela audiência, mas, infelizmente, muita gente acredita piamente que não poderia jamais ter sido eleito, que jamais agiu como presidente e que foi deposto quando já estava em desgraça, em julho passado, porque planejava um golpe próprio, só dele.

Do lado de fora da academia de polícia, uma vasta cidade de policiais onde antes havia o deserto em torno de Maadi, a tropa de choque carregava as armas com granadas de gás, à frente de centenas de manifestantes apoiadores de Mursi. Uma gangue de militantes armados – apoiadores da junta militar – começou a perseguir homens que corriam para todos os lados, no estacionamento. Julgamento adiado, como se diz. Até dia 8 de janeiro. Feitas as contas, foi dia dos mais desgraçados.

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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial, Robert Fisk estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabahou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times para substituir o correspondente do jornal no Oriente Médio. Fisk trabalhou para The Times até 1988, quando se mudou para The Independent - após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Fisk cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982), a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda (em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão). 
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro britânico mais premiado. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio à Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

domingo, 27 de outubro de 2013

O que o ministro do Qatar disse ao ministro saudita?

Confusão (muita!) na Liga Árabe (e na “oposição” síria)

26/3/2013, [*] Jean Aziz, Al-Akhbar, Beirute [Ed. em inglês - orig. em árabe]

What Did the Qatari Minister Tell His Saudi Counterpart?

Traduzido da edição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu


Ahmed Moaz al-Khatib, chefe da delegação da "oposição" síria, em discurso na abertura da
reunião de cúpula da Liga Árabe em Doha, dia 26/3/2013. (Foto Karim Sahib, AFP)
Funcionário do governo libanês, familiarizado com os desenvolvimentos regionais, contou que aconteceu uma discussão – que, para ele, ficou entre briga e reprimenda –entre os ministros do Exterior da Arábia Saudita e do Qatar, numa das reuniões que estão acontecendo paralelas à uma conferência internacional para arregimentar apoio armado a grupos da oposição síria.

A discussão focou-se nas causas do fracasso na Síria; teve de tudo: de procurar desculpas a recusar qualquer culpa pelo que aconteceu. O funcionário libanês disse que o ministro saudita vinha adotando tom acusatório, até que ouviu pesada resposta do ministro do Qatar.

Hamad bin Jassim bin Jabr Al Thani,
1º Ministro e Chanceler do Qata
r
Em resumo, o ministro qatari disse que

Nós fizemos tudo na Síria durante dois anos e conseguimos que todo o planeta abraçasse a causa da oposição síria. Você [príncipe Bandar] assumiu, e bastaram dois meses para que todo o planeta se transferisse para o lado de Bashar al-Assad.

Esse parágrafo pode resumir todos os desenvolvimentos na Síria e no Oriente Médio nas últimas semanas ou, mais especificamente, desde que Moscou e Washington firmaram um acordo para destruir as armas químicas da Síria, e começaram a surgir sinais de reaproximação entre os EUA e o Irã.

Mas o curso de todos esses eventos começou, de fato, há uma década, quando os EUA decidiram derrubar Saddam Hussein. Os sauditas apoiaram, mas a Síria opôs-se.

Bandar bin Sultan
Pouco depois da queda de Bagdá, em abril de 2003, começou a tornar-se cada vez mais claro que os sauditas, aliados do vencedor da guerra do Iraque, estavam perdendo no campo político o que tinham suposto, erradamente, que teriam ganho graças à força militar de outros. Simultaneamente, os sírios, que se mantiveram aliados da parte derrotada, começaram a colher benefícios políticos, paralelos aos ganhos geoestratégicos de seus aliados iranianos.

As primeiras semanas do ataque contra a síria podem ser identificadas nesse paradoxo observado naquele momento, sobretudo quando a coalizão dos derrotados começou a aumentar, incluindo George W. Bush, Jacques Chirac e a Casa de Saud e seus aliados no Líbano, os quais tinham muito a ganhar e muito a perder, tanto em Damasco quanto em Beirute.

Assim aconteceu a decisão de tirar do Líbano as forças de Assad – para destruir seus ganhos em Bagdá. Mais uma vez, os sauditas foram convencidos pelo comportamento de seus “delegados” norte-americanos. Mas a coisa durou pouco. Apenas alguns meses depois que o exército sírio saiu do Líbano, dia 26/4/2005, começou a ficar visível que os norte-americanos estavam também se recolhendo aos limites demarcados pelo próprio pragmatismo.

Os sauditas exigiam que os EUA apontassem a pistola para a cabeça da Síria, mas, em vez disso, Bush preferiu seguir uma abordagem de “porrete-e-cenoura”. Os sauditas queriam a “des-Baath-ificação” na Síria, mas os norte-americanos queriam mudar o comportamento do regime, não mudar o próprio regime.

Saud al-Faisal
A violenta resposta dos sauditas a Washington não demorou a aparecer. Como aconteceu outra vez recentemente, dia 20/9/2005 o ministro de Relações Exteriores saudita, Saud al-Faisal, criticou furiosamente o governo dos EUA, em discurso no Conselho de Relações Exteriores em New York City.

Faisal disse então que a política dos EUA no Iraque estava aprofundando divisões sectárias, preparando a balcanização do país, o que poderia levar o Iraque a cair nas mãos do Irã.

A briga entre Riad e Washington por causa do Iraque continuou durante anos, até que surgiu uma ocasião para que os dois países novamente convergissem. O primeiro ponto de convergência entre ambos acontecera no momento de expulsar do Líbano as forças sírias de Assad; o segundo foi o acordo para restaurar o equilíbrio no Iraque, apoiando Iyad Allawi nas eleições de 2010.

Saad al-Hariri
Quando Assad aceitou o projeto Allawi em Bagdá, a coordenação Síria-sauditas começou em Beirute. Todas as questões que envolviam os sauditas no Líbano foram postas na gaveta, inclusive o cargo de primeiro-ministro para Saad al-Hariri, o Tribunal Especial para o Líbano, as armas do Hezbollah e a presença síria – como se dispôs num famoso “documento de concessões” do movimento “14 de Março”, que Walid Jumblatt divulgou dia 21/1/2011, poucas semanas depois de o projeto Allawi estatelar-se contra o muro, em Bagdá.

O timing não foi simples coincidência. De fato, nas últimas semanas de 2010, o eixo Síria-Irã conseguiu, mais uma vez, abortar o sonho saudita. Allawi venceu as eleições no Iraque, mas foi Nouri al-Maliki quem, afinal, constituiu o governo. O eixo Síria-sauditas teve morte súbita em Beirute. E pouco depois começou o “levante” em Damasco. 

Esses são os elementos de uma equação bem ampla que afinal se pôde ver: em 2003, os sauditas perderam o Iraque; os EUA então decidiram garantir-lhes compensação no Líbano e na Síria, pelas perdas sauditas no Iraque. Em 2005, os EUA recuaram em Damasco. Pela terceira vez, sauditas e EUA perdiam: no Líbano, na Síria e no Iraque. Então decidiram virar a mesa toda, de vez, na cadeia central, e derrubar o governo de Assad em Damasco.

Os EUA são lacaios do Reino Saudita, ou é exatamente o contrário?

Mas os cálculos no Oriente são seguidamente muito complexos e, talvez, difíceis demais para que os compreendam um cowboy distante ou um beduíno próximo. Os EUA então voltaram à região, com um projeto inspirado, agora, na Primavera Árabe.

Recep Tayyip Erdogan
O projeto, de fato, era ideia bem simples, com roteiro assinado por Recep Tayyip Erdogan da Turquia e dirigido pelos arquitetos dos “levantes coloridos”: entregamos o poder em toda a Região à Fraternidade Muçulmana, e os Irmãos, em troca, atendem três demandas – garantem a segurança de Israel, os interesses dos EUA e a estabilidade dos governos, sem que Washington tenha de pagar a conta.

O trem até que andou bem por esses trilhos nos primeiros tempos, na Tunísia, no Egito e na Líbia, mas a hostilidade dos sauditas contra a Fraternidade Muçulmana os levava a temer que os Irmãos, mais dia menos dia, tomassem o poder nas “cidades de sal” no Golfo.

Os sauditas, contudo, mantiveram-se em silêncio por quase um ano e meio. Opor-se a projeto bem-sucedido é sempre tática não recomendável, e eles se mantiveram recolhidos, até que, afinal, amadureceram as condições para o fracasso do projeto dos EUA.

Dia 11/9/2012, a promessa de proteger os interesses de Washington entrou em colapso em Benghazi, com o assassinato do embaixador dos EUA. Em novembro, a demanda de que a segurança de Israel seria preservada também fracassou, quando irromperam confrontos em Gaza, e o Hamás não conseguiu fazer valer o compromisso firmado entre a Fraternidade Muçulmana e Israel. E, no início de 2013, já era absolutamente evidente que a promessa de estabilidade nos países da Primavera Árabe estava reduzida a simples piada.

Tudo estava maduro para que os sauditas retomassem a iniciativa. Tinham tudo preparado para um contra-ataque, pelo menos desde meados de julho de 2012, quando o príncipe Bandar foi nomeado espião-chefe do reino.

Mohamed Mursi
Por muitos meses, os sauditas haviam feito todo tipo de pressão contra os EUA e os países árabes, persuadindo Washington pela quarta, ou centésima-milionésima vez, a fazer o jogo: Mohamed Mursi fora derrubado. O Qatar fora pacificado. A Turquia fora marginalizada. E Riad assumiu para ela todos os dossiês.

Até aí, parecia que os sauditas teriam triunfado completamente, e só eles, pela primeira vez em décadas. Mas naquele momento, surgiu o acordo das armas químicas, construído por Moscou. O sorriso nuclear de Hassan Rouhani surgiu em New York. E tudo veio abaixo.

É esperável e normal que Riad perca completamente a compostura, a sobriedade e até a razão. Todas as arenas converteram-se em caixas de mensagens a transmitir as objeções e rejeições dos sauditas, de Maaloula a Trípoli; e do Tribunal Especial para o Líbano ao Conselho de Segurança da ONU, com Bandar a esbravejar e berrar, e todos confusos, sem entender o relacionamento com os sauditas: os EUA são lacaios do Reino Saudita, ou é exatamente o contrário?

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[*] Jean Aziz é jornalista do Al-Monitor e colunista do jornal Al-Akhbar em Beirute; apresentador de um talk show semanal político na OTV, estação de TV libanesa; professor de comunicação social na American University of Technology e na Université Saint-Esprit em Kaslik no Líbano


sábado, 24 de agosto de 2013

Quem é o terrorista? Violência e poder no Egito depois de Mursi

22/8/2013, [*] Mark LeVine, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

François-Noël Babeuf
(...) Vi em Paris que a multidão simples e sem estudo havia sido levada pelos inimigos do povo a um cordial desprezo pela República. Disse para mim mesmo: a República está perdida, a menos que algum golpe de gênio a salve. O monarquismo com certeza não hesitará em retomar o controle sobre nós. Não vi ninguém disposto a reviver o ímpeto corajoso dos primeiros dias. Mesmo assim, disse a mim mesmo, o mesmo fermento de cuidado e amor por todos os homens ainda existe. Manifesto dos Iguais, 1796, (em português).

Palavras de François-Noël Babeuf, [epígrafe] o grande agitador político e jornalista do período da Revolução Francesa e advogado seminal do comunismo. Babeuf disse essas palavras quando estava sendo julgado por tentar derrubar o Diretório, então governo Republicano, para levar a situação que os revolucionários enfrentavam oito anos antes na direção de algo que se pode descrever como uma revolução ainda inacabada. Por eloquentes que fossem suas palavras, Babeuf foi mesmo assim considerado culpado e guilhotinado em maio de 1797.

Mohamed Mursi
Apesar do destino de Babeuf, essas palavras devem reconfortar os revolucionários no Egito, tomados por crescente senso de futilidade nas semanas que se seguiram ao golpe que afastou Mohamed Mursi do governo. Muitas revoluções passam por momentos de total remissão, e caem até muito mais abaixo que a atual situação no Egito. E em poucas há a dinâmica social política e econômica para retornar a um consenso revolucionário que tenha permanecido tão favorável quanto o que ainda há no Egito.

Mas muito mais interessantes que o exemplo inspirador de Babeuf e o que possa haver nele de inspirador para o Egito, são suas ideias sobre a violência. O pensamento de Babeuf para a França está entre os mais progressistas e igualitários de seu tempo, mas Babeuf não era pacifista. De fato, como muitos dos que militavam nos vários lados e facções da Revolução Francesa, ele via o uso da violência em grande escala, violência de massa, como prática necessária e estrategicamente valiosa. Por trás d’O Terror houve muitos revolucionários comuns que sentiam que a violência – e igualmente importante, o medo – que o definiram não eram apenas preço aceitável a pagar, mas, também, ferramentas crucialmente importantes para garantir a sobrevivência da Revolução e impedir o nível muitíssimo maior de violência que, diziam eles, seria desencadeada se a contrarrevolução vencesse.

As muitas verdades d’O Terror

Não consigo parar de pensar nas palavras de Babeuf e em suas ideias sobre o terrorismo, enquanto tento decifrar as acusações que voam de lado a lado entre os militares, o governo e a imprensa-empresa egípcios, e a Fraternidade Muçulmana e seus apoiadores, de que o outro lado cometeu violência ilegal e até atos de terrorismo contra o povo egípcio.

Tanto os militares como a Irmandade Muçulmana julgam-se "protetores do povo egípcio"
Enquanto os EUA e outros governos várias vezes tentaram limitar a definição legal de terrorismo a atos cometidos por entidades não estatais (exceto os “estados bandidos” [orig. rogue states]), praticamente toda a legislação internacional ainda considera como terrorismo todos os atos de ataque deliberado contra civis praticados seja por governos seja por grupos não estatais.

No Egito hoje, a prova de assassinato deliberado e de ataque terrorista, tanto por forças do governo como por forças e membros da Fraternidade Muçulmana e (alegadamente) por forças religiosas radicais é evidente e abundante demais para ser negada. Mas os estados têm maior responsabilidade para impor o império da lei e os padrões internacionais de respeito aos direitos humanos, mesmo – e sobretudo – quando os cidadãos não o façam. Quanto a isso, como Patrick Kingsley argumenta, acusatório:


Cercados pela retórica sobre o terrorismo islamista, poucos parecem dar-se contra que a maior parte do terrorismo veio, de fato, do estado.

Os "protetores" perseguem o povo nas ruas
Se algum dia houve situação que clama pela criação de uma Comissão da Verdade da ONU, é a violência dos dois últimos meses no Egito. Mas contar cadáveres e estabelecer que lado agiu mais “terroristamente” não é absolutamente a tarefa mais importante que espera os que buscam reduzir a violência atual. Cabe a esses, isso sim, compreender e explicar por que várias forças concorrentes recorreram a tamanha violência, mesmo sabendo que a violência sempre será claramente contraproducente com vistas à legitimidade e à sobrevivência de longo prazo.

Se autocolonizar, outra vez, outra vez...

Os militares, seus clientes e aliados, a Fraternidade Muçulmana, todos tentaram definir-se eles mesmos como protetores, garantidores e até como vanguardas da revolução de 25 de janeiro. São argumentos que há muito tempo são usados para justificar todas as formas de violência pelos Estados, contra forças que se oponham a eles. Se soam ridículo ante os eventos dos últimos dois meses, nem por isso seria adequado assumir que representariam elementos que competem entre eles num mesmo bloco contrarrevolucionário.

Antonio Negri
Em vez de meramente fazer oposição ao impulso revolucionário que varreu o Egito no início de 2011, o pós-25 de janeiro – liderado pelo Comando Supremo das Forças Armadas ou pela Fraternidade – centrou-se em como conduzir uma revolução passiva que absorvesse a incrível energia – ou a “potência”, como diz o filósofo italiano Antonio Negri – das massas de egípcios, garantindo mudança e desenvolvimento suficiente para diluir ou redirecionar o ímpeto e as esperanças revolucionárias da maioria da população, marginalizando e afinal privando as vozes revolucionárias remanescentes, de qualquer fatia significativa de poder.

Por algum tempo, a Fraternidade, com sua visão de mundo hierárquica, patriarcal, autoritária, embora tecno-moderna, e raízes sociais ostensivamente profundas, pareceu ser o grupo perfeito para administrar a revolução passiva, sem ameaçar o poder e os privilégio das elites da era Mubarak. É difícil dizer se foi a resistência dos elementos do antigo regime dentro do Estado, ou a arrogância, a incompetência e/ou a ganância da Fraternidade, ou algum tipo de combinação de todos esses fatores, o principal responsável pelo retumbante fracasso da Fraternidade na gestão do período de transição.

Fato é que, à altura da primavera desse ano, uma nova onda revolucionário já acumulava energia, e baseada na mesma energia bruta –Tamarod, Rebele-se! – que motivara a explosão revolucionária original de janeiro de 2011 (Fora!/Irhal!) ou na Tunísia, pouco antes (Saiam!/Degage!). Mas, então, mais facilmente redirecionada e cooptada que sua encarnação original.

Manifestante do grupo Tamarod
Essa dinâmica obriga a enfrentar a questão de por que as forças revolucionárias cujas ações precipitaram essas lutas pelo poder foram tão amplamente excluídas das próprias lutas, e tão significativamente incapazes de modelar o sistema político pós-Mubarak, até que o Tamarod apareceu em cena, essa primavera. A resposta terá de considerar o fato de que o campo de batalha no Egito pós-Mubarak – controle sobre as instituições e ideologia do estado egípcio – é campo no qual as forças revolucionárias sempre estão em terrível desvantagem, depois de consumido o ímpeto inicial de energia revolucionária.

O problema não é o estado egípcio. A própria instituição e os discursos do moderno estado-nação são inextrincavelmente atados a uma matriz de discursos – o capitalismo, o impacto ainda vivo de séculos de imperialismo e de colonialismo, os nacionalismos e o impulso destrutivo da modernidade em geral – que tantas vezes produz estados formatados para operar e funcionar como organizações-empresas criminosas e veículos (ou, pelo menos, conduítes) para o terror, mas apresentados como instituições de governança. Em particular, o tipo de ideologia nacionalista militarizada que está de repente dominando o Egito sempre justificou, dirigiu e muitas vezes pregou e defendeu o balanço manipulado de poder e a violência no coração da maioria das sociedades.

Michel Foucault
Na era colonial, pela qual passaram muitos países árabes, os mais negativos efeitos dessa dinâmica foram deslocados para as colônias. Dentro dos territórios colonizados, foram deslocados localmente, conforme as hierarquias sociais, econômicas e políticas existentes ou impostas. Como Michel Foucault mostrou em suas conferências de 1976 no College de France, os modelos e técnicas de mando que emergiram e foram tão brutalmente aplicados nas colônias, pela Europa, ricochetaram como bumerangues de volta sobre os mecanismos, instituições e técnicas de poder da Europa, permitindo que estados europeus “praticassem algo semelhante à colonização, ou uma colonização interna, neles próprios”.

Quanto aos países que a Europa colonizou, o bumerangue atingiu cada vez com mais força, cada vez que ricocheteou de volta à região, desde os governos ainda dependentes imediatamente pós-coloniais, durante décadas de mando militar “revolucionário”, até os anos neoliberais que começaram nos anos 1970s e incorporaram segmentos chaves das elites dos países, à altura dos anos 1990s. Fossem estados “liberais”, “socialistas” ou islamistas, a participação na nação sempre foi limitada e vedada por um quase permanente “estado de exceção”, ou distanciamento do corpo político, no qual nenhum cidadão poderia ser inserido a qualquer momento, e sobre o qual se teciam as redes étnicas e sectárias que sempre houve por baixo de todas as identidades oficiais nação-cêntricas.

Exercito invade a mesquita Al-Fath no Cairo
A ameaça e a realidade de morte física e social sempre estiveram no coração do modo como o poder, em suas várias modalidades – pastoral, soberano e disciplinar, como Foucault os categorizou – funcionou no mundo árabe, onde a família patriarcal e estruturas políticas patrimoniais ainda reinam. No Ocidente, essas formas emergiram uma depois da outra, embora com significativa sobreposição. No mundo árabe sempre foram, desde o início, e assim permanecem até hoje, rigidamente entretecidas, uma forma reforçando nas outras a capacidade de modelar os contornos das identidades e ações dos povos, de tal modo que qualquer mudança progressista sistemática é sempre difícil de imaginar e de buscar.

Dado o poder de sinergia do capitalismo moderno, do colonialismo e do nacionalismo, é fácil compreender o quanto é limitada a possibilidade de um movimento revolucionário gerar grande mudança na estrutura de governança de um país. Se não é bem-sucedido rapidamente, em assalto direto ao estado, assalto revolucionário que derrube as estruturas políticas existentes e redirecione a miríade de conduítes de poder que as atravessam, é mínima a chance de que a revolução consiga transformar por dentro o estado. (E, como a experiência do Iraque e agora da Líbia nos obriga a lembrar, é muito mais fácil desmantelar um estado, que construir um novo, não importa quantos recursos haja à disposição.) Assim acontece que muitas revoluções tornam-se passivas muito rapidamente depois do que parece ser o auge de seu poder.

Mudar o equilíbrio do poder?

A rápida disseminação da educação e a revolução tecnológica da última geração realmente abriram novos espaços para que jovens árabes desenvolvessem novas formas de resistência contra estados autoritários. Quando as condições econômicas amadureceram suficientemente, as ferramentas à disposição de uma nova geração de ativistas permitiram que se erguesse ali a primeira grande maré revolucionária do século 21.

Em 1/jul/2013 o povo egípcio reviveu a Praça Tahrir de jan/fev de 2011
A “juventude revolucionária” que comandou a revolução de 18 dias centrada na Praça Tahrir em janeiro-fevereiro 2011 tinha as ferramentas, o discurso e a ausência de medo para sacudir e até para parcialmente desalojar o sistema. Mas não teve capacidade para criar uma nova estrutura de estado para pôr naquele lugar, uma nova estrutura baseada em modalidades muito diferentes de poder, que não fosse dominada pelas elites de poder existentes. Tampouco conseguiram fazê-lo os liberais tão execrados, os quais, como todos os liberais em todo o mundo, são absolutamente incapazes de pressionar por mudança socioeconômica e política revolucionária, precisamente porque seus interesses estão sempre muito mais perto dos interesses das elites, que dos interesses das massas amargamente pobres, “analfabetos” (como ElBaradei e outros líderes liberais os chamam, arrogantemente) e compatriotas conservadores que seriam os maiores beneficiários de qualquer revolução por “pão, liberdade, justiça social e dignidade” que mereça o nome.

Hosni Mubarak
Hoje parece que o Egito voltou à era Mubarak, com repressão, propaganda e violência patrocinada pelo estado, em níveis ainda mais altos que antes de 25/1/2011. Mas embora as coisas pareçam desesperadoras da perspectiva dos que buscam mudança revolucionária, de fato a posição dos militares não é, nem de longe, tão firme como parecem crer os que estão distribuindo memes Mubarak 2014 pelo Facebook (e ainda não se sabe sequer se como piada ou seriamente).

Mediante qualquer mecanismo possível – ajuda, estímulo fiscal, aumento na produção e no comércio – o Egito precisa acrescentar dezenas de bilhões de dólares ao seu PIB, e imediatamente. Não em cinco ou dez anos, mas já, se quiser sobreviver aos problemas incapacitantes que enfrenta hoje, no plano social, econômico e de infraestrutura. Mesmo com massiva injeção de dinheiro saudita e dos Emirados, o Estado e o sistema de poder atualmente existente estão simplesmente corrompidos demais para levar desenvolvimento e riqueza à maioria da população, e não importa quanto de ajuda ou investimento estrangeiro jorre sobre o país.

Só a total transformação da economia política do país, que ninguém, além dos revolucionários, tem interesse em fazer pode alcançar aquele resultado. Os egípcios já sabiam disso, motivo pelo qual a Revolução de 25 de janeiro exigiu não apenas a substituição de Mubarak, mas o fim do governo militar e de todo o sistema.
A menos que os militares consigam operar um milagre econômico sem precedentes nos próximos meses, não será surpresa se se voltar a ouvir os cantos revolucionários da Praça Tahrir, mais uma vez. Quando acontecer, os militares e o estado profundo já não encontrarão, para culpar, nem a Fraternidade Muçulmana.
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[*] Mark LeVine é professor de história do Oriente Médio na Universidade de Irvine e professor visitante ilustre no Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Lund, na Suécia. Atualmente está escrevendo um livro sobre as revoluções no mundo árabe: The Five Year Old Who Toppled a Pharaoh.