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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

França bloqueia “pivô” dos EUA rumo à Pérsia

Mas há uma deriva histórica inevitável

10/11/2013, Blog Moon of Alabama  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Conversações P5+1 (França, Reino Unido, EUA, Russia , China  + Alemanha) e Irã
A França foi e é um dos maiores proliferadores nucleares no Oriente Médio. Ao mesmo tempo em que trabalhou e continua a trabalhar para que vários países construam bombas atômicas, trabalha também para negar todas e quaisquer capacidades nucleares civis a outros países. As razões básicas são ganância e certa nostalgia da passada grandeur que hoje já não dispõe dos necessários meios econômicos e militares.


Evolução do estoque de bombas nucleares por Israel
Dia 3/10/1957, França e Israel assinaram acordo revisto pelo qual a França compromete-se a construir um reator de 24 MWt (cujos sistemas de resfriamento e disposição de resíduos estão previstos com capacidade para três vezes essa potência) e, por protocolos não formalizados em acordo escrito, uma usina de reprocessamento químico. Esse complexo foi construído em segredo, sem qualquer inspeção pelo sistema da Agência Internacional de Energia Atômica, por técnicos franceses e israelenses em Dimona, no deserto de Negev sob o comando do coronel Manes Pratt do Ordinance Corps do Exército de Israel.


Foto da reunião França Sauditas em 2/10/2013 sobre o programa
nuclear da Arábia Saudita
Em entrevista à  Saudi Gazette, o embaixador francês ao Reino Saudita disse que: “o objetivo dessa reunião é muito claro. A França foi o primeiro país a assinar acordo governo-a-governo para energia nuclear, porque nós optamos por levar a sério o gigantesco programa que o governo saudita quer implantar no campo nuclear, e a França tem muito a oferecer em termos da melhor tecnologia nuclear que há no mundo”.


Hollande e Netanyahu - Paris 31/10/2013
Um dia depois que Benjamin Netanyahu pediu à França que endurecesse contra o Irã, o presidente francês François Hollande falou com o primeiro-ministro de Israel por telefone e prometeu o apoio francês.


Laurent Fabius, Ministro de RE da França, bloqueou o que chamou de "acordo tolo"
Três dias intensos de diplomacia de alto nível e altas apostas terminaram em Genebra sem acordo sobre o programa nuclear iraniano, depois que a França bloqueou um acordo conciliatório que visava a diluir as tensões e a ganhar mais tempo para mais negociações.
(...)
Os diplomatas reunidos para as conversações mostraram-se indignados com o que fez o ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, o qual acusam de ter rompido o pacto dos negociadores e ter revelado detalhes das negociações já ao chegar a Genebra no sábado pela manhã; Fabius outra vez quebrou o protocolo ao anunciar resultados à imprensa, antes que Ashton e Zarif tivessem chegado à conferência de imprensa final.

Um acordo temporário em Genebra teria sido um primeiro passo para acordo nuclear mais amplo que teria resgatado o Irã, “do frio”. Teria sido o início de um movimento de “Pivô para a Pérsia”, depois do qual os EUA poderiam contrabalançar suas difíceis relações com Israel e Arábia Saudita, com relações mais harmoniosas com o Irã. Sem esse realinhamento no Oriente Médio, os EUA ficarão militarmente e financeiramente incapazes de executar seus planos de movimento de “pivô para a Ásia”.

A França fez gorar o acordo histórico e, apesar de a França já ter dados sinais prévios, os demais países “ocidentais” envolvidos não estavam preparados para o golpe, nem seus ministros de Relações Exteriores encontraram meios para enfrentar a intransigência dos franceses. Essa divisão dentro do grupo P5+1 de negociações com o Irã compromete o futuro de quaisquer negociações: com quem o Irã negociará, se não há unidade na oposição?

Esse rompimento que se enfrenta hoje dá ao Congresso dos EUA e aos lacaios de Netanyahu uma chance para introduzir mais sanções contra o Irã, incluindo-as nas próximas semanas na Lei de Autorização da Defesa Nacional [orig. National Defense Authorization Act].

Mas a desunião interna no P5+1 é, pelo menos no curto prazo, positiva para o Irã. Já ninguém pode acusar a República Islâmica de não querer negociar e de não estar buscando ativamente algum tipo de composição.

As sanções que o Congresso dos EUA está para aprovar são sanções contra terceiros, pelas quais serão “punidos” outros países que negociem com o Irã. Dado que obviamente não se trata apenas do interesse do Irã em negociar com outros países, mas de outros países negociarem com o Irã, nada assegura que esses terceiros países disponham-se a obedecer a algum diktat do Congresso dos EUA.

Não há dúvidas de que o regime de sanções está ruindo. De início, está ruindo em ritmo lento; mas adiante ruirá cada vez mais rapidamente.

É muito improvável que França, Arábia Saudita e Israel consigam bloquear por mais de um ano, um ano e pouco, um acordo para o Irã.

Mas há uma lógica histórica em os EUA e, em geral, o “ocidente” mudarem de rumo na direção da Pérsia, porque esse movimento “de pivô”, em nova direção, os livra dos “aliados” muito caprichosos aos quais estão ligados atualmente no Oriente Médio.

A reação hostil da opinião pública dos EUA contra a ideia de o país fazer guerra à Síria foi sinal de que várias mudanças (históricas) nas atuais alianças já são inevitáveis.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar: “Será que Obama quer mesmo acertar-se com o Irã?”


21/2/2013, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Almaty, Cazaquistão, estará no olho do furacão na 3ª-feira próxima, quando o grupo P5+1 – os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, mais a Alemanha – reúnem-se novamente com uma delegação iraniana para discutir o programa nuclear do Irã.

O noticiário informa que todas as 16 agências de inteligência dos EUA sabem que Teerã não está trabalhando na produção de arma atômica. Em negociação real, haveria sobre a mesa proposta crível dos EUA. Não há. Isso sugere que o que Washington realmente quer é manter – e super turbinar – seu duro pacote de sanções.

Revisemos o mecanismo dessa ‘'negociação'’. Há apenas algumas semanas, dia 6/2, uma nova leva de sanções impostas pelos EUA apertaram o parafuso do que se conhece até agora como negócio de “ouro por gás”.

Ankara vem pagando o gás que importa de Teerã em liras turcas; o Irã então usava o dinheiro – mantido no Halkbank turco – para comprar ouro. As sanções agora impostas limitam duramente o que o Irã passa a ser autorizado a comprar com  suas liras turcas: só comida, remédios e produtos industriais.

Em sequência imediata, a imprensa-empresa ocidental pôs-se a repetir que o Irã foi “congelado do lado de fora do sistema bancário global”. De fato, não há absolutamente qualquer garantia de que as recentes sanções funcionem.

O ouro permanece como parte do quadro. Um banco turco até pode ser ameaçado com o exílio, fora do sistema bancário que o ocidente controla. Mas os bancos russos – e chineses – encontrarão meio cuidadoso de escapar a essa restrição e preencher o vazio. Quanto ao Irã, o país tem décadas de experiência em viver sob sanções mortais – e adaptar-se à realidade.

Recep Endorgan
A Turquia continuará a ter de importar gás natural do Irã – 40% do que consome; o Irã é seu principal fornecedor. O outro grande fornecedor é a Rússia; nem com todo o comportamento errático do Primeiro-Ministro Erdogan da Turquia, Ancara algum dia cometerá o suicídio estratégico de pôr-se em situação em que passe a depender de qualquer outro fornecedor de energia.

Portanto, o único a perder, no atual cenário, será a Turquia. Por quê? Porque Washington decidiu que assim seja.

Considere-se, agora, o que Washington tem a oferecer a Teerã: suspenderemos as sanções contra o negócio gás-por-ouro, se vocês fecharem completamente a usina subterrânea Fordow de enriquecimento de urânio. Não por acaso, Fordow é e sempre será a instalação mais difícil de destruir dentre as instalações iranianas, no caso de alguém tentar pôr em ação a tal ameaça perene (“todas as opções estão sobre a mesa”) de EUA/Israel atacarem o Irã.

Ramin Mehmanparast
Também em sequência imediata, na 2ª-feira o Ministro de Relações Exteriores do Irã, através do porta-voz Ramin Mehmanparast, foi diretamente ao ponto: “Eles têm repetido ultimamente que “fechem Fordow, parem o enriquecimento [de urânio], e permitiremos que comprem ouro”... Querem tirar direitos de um país soberano, em troca de “autorizar” que o país compre ouro”.

Teerã também observou, corretamente, que Washington não oferece o fim das sanções da ONU; nem das sanções unilaterais impostas por EUA e União Europeia; nem o fim do que, em resumo, é guerra econômica contra o Irã – um dos temas chaves que discuti detalhadamente em entrevista ao jovem jornalista iraniano Kourosh Ziabari.

Em seguida, a iraquização

Tentar proibir que o Irã negocie “gás-por-ouro” é, para todas as finalidades práticas, tentativa para reviver a horrenda política do “petróleo-por-comida” posta em prática no Iraque até a invasão/ocupação pelos EUA, em 2003.

Mas, apesar de um bloqueio comercial ocidental de fato, a liderança em Teerã continuará sempre conectada aos mercados asiáticos – com o incentivo extra, do ponto de vista de vastas porções do mundo em desenvolvimento, de continuar a avançar cada vez mais profundamente e mais rapidamente na direção de abandonar o petrodólar.

Consideremos agora a liderança em Teerã. São os mesmos que combateram durante oito amargos anos na guerra Irã-Iraque nos anos 1980s. Politicamente, a guerra os constituiu. Tendem a favorecer a “opção japonesa”, ou “período de latência”, em termos nucleares – adquirir a tecnologia e o know-how para construir uma arma atômica rapidamente, como último recurso de contenção. De fato, 30 nações – além do Japão – seguem idêntica opção.

Aiatolá Khamenei
No sábado passado, em Tabriz, o Supremo Líder do Irã, aiatolá Khamenei, repetiu:

Não queremos construir armas atômicas. Não porque os EUA lastimariam que o fizéssemos. Simplesmente, porque decidimos não construir armas atômicas. Acreditamos que armas atômicas são crime contra a humanidade e não devem existir. Todas as armas atômicas que há pelo mundo devem ser destruídas. Essa é nossa posição. E nossa posição nada tem a ver com vocês [norte-americanos].

Disse também que “se o Irã decidisse possuir armas atômicas, nenhuma potência nos impediria de tê-las”. Com isso, Khamenei estava, de fato, elaborando sobre a “opção japonesa”: ainda que o Irã não tenha bombas atômicas e não esteja trabalhando para construir armas atômicas, o país mantém abertas todas as opções, para o caso de ser encurralado e depender de uma bomba atômica como arma de dissuasão.

Parece que as potências, quaisquer delas, não captaram a mensagem em Washington, nem em Paris ou Londres. A arrogância ocidental, como mostram os registros, é sem limites. Assumindo que saberiam algo que só eles saberiam, “especialistas” e diplomatas ocidentais, os suspeitos de sempre, andam apostando que pacote ainda mais duro de sanções forçará o Irã a abaixar a crista.

Que bando de perfeitas inutilidades! Metam-se num avião. Desembarquem em Teerã. Conversem com os iranianos. Tentem aprender alguma coisa que se aproveite.

Fizessem isso, aprenderiam que, para os iranianos, grande potência tem de estar na vanguarda mais avançada da ciência – hoje, a tecnologia nuclear. Rápida revisão da mídia e da blogosfera iranianas mostra que todos, dos ultra conservadores aos reformistas, todos, concordam em que o Irã tem direito à tecnologia nuclear, como signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP).

O Irã precisa de energia nuclear para gerar eletricidade, porque importa muito óleo refinado. No momento, o Irã pode estar vendendo menos petróleo, por causa das sanções. Mas isso, por outro lado, faz subir o preço global do petróleo (e nesse caso, os perdedores são, mais uma vez, os europeus); e o petróleo iraniano fica preservado para o futuro – quando os preços estarão ainda muito mais altos.

Washington, por sua vez, tende a agir como cego que guia cegos. É como se nenhum “analista” se desse o trabalho de estudar os últimos 150 anos da história do Irã – mas não, claro, na versão de Argo, candidato ao Oscar, que nada ensina que preste; a questão tema é a luta anti-imperial.

Mohamed Mossadegh 
Os britânicos não se cansam de dar ultimatos ao Irã. À maneira persa, quem se submete trai a nação; quem se recusa a submeter-se é herói, mesmo que perca a guerra, como Mossadegh em 1953.

O drama nuclear em curso é replay/remix do drama da nacionalização do petróleo de 1951-1953, quando o Irã também padeceu muito para ganhar a autossuficiência e passar a controlar seus próprios recursos naturais. Washington/Londres, daquela vez, não se limitaram aos muitos ultimatos: também promoveram um golpe infame.

O Xá foi derrubado no início de 1979. Desnecessário dizer que, desde então, o ocidente vive a ameaçar o Irã, sem parar.

Fim da “opção japonesa”?

Otimistas profissionais talvez digam que se deveriam suspender todos os julgamentos – pelo menos por algum tempo – quanto às intenções do governo Obama 2.0 relacionadas ao Irã.

Mesmo assim, vale relembrar que durante os dois mandatos do Presidente Khatami, reformista, Washington jamais apresentou qualquer proposta séria ao Irã – a obsessão por mudança, do governo Obama, parecia ter sido absolutamente suspensa, para tudo que tivesse a ver com o fim das sanções; ou com permitir que a Europa investisse livremente no Irã (o que beneficiaria a Europa). Esses movimentos, jamais feitos, teriam operado maravilhas para ajudar o movimento reformista no Irã.

Ban Ki-moon
O que se vê hoje é o retorno a um dos pontos mais baixos dessa história, quando até o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon faz declarações gravemente daninhas: “Não devemos dar muito mais tempo aos iranianos e não podemos perder tempo (...) Já vimos o que aconteceu na Coréia do Norte”.

Agora, é como se a própria ONU – não algum George “Eixo do Mal” Bush – já clamasse por guerra contra o Irã, servindo-se, como pretexto, de inexistentes armas de destruição em massa.

Esse tipo de pronunciamento sabota as conversações em Almaty, já antes de acontecerem. Ou, então, Ban Ki-moon está complementando o salário que a ONU lhe paga, com servicinhos de tempo parcial prestados a Bibi Netanyahu: reduz o tempo da ação diplomática e ajuda Israel a convencer Washington a bombardear o Irã.

Bruxelas pode até repetir que o Irã perdeu espantosos $46 bilhões em petróleo não vendido desde as sanções turbinadas do ano passado – com o rial perdendo 40% do valor. A população iraniana pode ter sido quem mais perdeu. Mas a liderança em Teerã está mais firme que nunca. Hoje, mais claramente do que jamais antes, Teerã não encontra qualquer oposição sempre que culpa o ocidente pelos sofrimentos dos iranianos.

Trabalhar na direção de reais negociações entre EUA e Irã implicaria nenhuma mudança de regime; o Irã reconhecido como potência no sudoeste da Ásia; nada de mais sanções; nada de impedir que outros países invistam no Irã; e aceitar as garantias que o Irã tem dado, de que seu programa nuclear é exclusivamente civil.

Assim se pavimentaria o caminho para que o Irã se firmasse como maior e mais dinâmica economia no Oriente Médio e sudoeste da Ásia.

Vali Nasr
Nada sugere que estejamos andando nesse rumo. Em livro a ser lançado em breve, Vali Nasr, deão da Escola John Hopkins de Estudos Avançados e Internacionais – e, o que é crucialmente importante, ex conselheiro do governo Obama – admite que a famosa “trilha de duas mãos” [orig. dual track], de sanções combinadas com diplomacia, “não teve, sequer, duas mãos. Foi trilha de mão única, só de sanções, sem diplomacia alguma, só pressão e pressão (...). Aparente engajamento, usado para acobertar uma campanha de coerção, de sabotagem, pressão econômica e ciberguerra”.

Ecos que chegam de Teerã sugerem que, para o Supremo Líder, toda a conversa, fortemente promovida na mídia ocidental, sobre o governo Obama 2.0 estar interessado em conversações diretas com Teerã, é uma armadilha. Para Khamenei, Almaty só indicaria alguma intenção séria, se Washington levantasse todo o pacote de sanções; bem mais que autorizar gás-por-óleo, em troca do fechamento de Fordow.

Ahmadinejad visita instalações de enriquecimento de urânio em Fordow
Obama poderia fazer... alguma coisa – ainda que, para isso, tivesse de passar por cima do cadáver coletivo de, virtualmente, todo o Congresso, gente para a qual o Irã seria pior que mal absoluto.

Preparando-se para uma grande barganha em futuro não muito distante, Obama poderia, por exemplo, liberar os fundos iranianos congelados desde a crise dos reféns em 1979 (não, não: o heróico Argo nada diz sobre isso); poderia liberar a venda de peças de reposição para a frota de Boeings iranianos; poderia mandar o Departamento do Tesouro e o Departamento de Estado isentarem de impostos empresas ocidentais que queiram comerciar com o Irã.

Mas, de fato, o que se vê é que as táticas do governo Obama 2.0 não passam de extensão da política exterior da era Bush-Cheney: ameaças, diversionismo, “linhas vermelhas” que sempre mudam de lugar, “todas as opções” sempre sobre a mesa; e sanções, sanções e mais sanções.

Almaty, Cazaquistão; local da próxima reunião entre Irã e P5+1
Não surpreende que Almaty esteja cercada de expectativas muito, muito baixas. E, seja como for, nada será decidido, de substancial, antes das eleições presidenciais no Irã, em junho. Mas se o P5+1 não se compenetrar – se não conseguirem começar a atuar como adultos – pode acontecer, mais cedo ou mais tarde, que Teerã sinta-se fortemente tentada a desistir da “opção japonesa”. Porque sim.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Khamenei joga duro com Obama


E o Irã vai cozinhando a “única” potência...

8/2/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Irã cozinhando...
Foi semana excepcional para a política do Oriente Médio e acabou, adequadamente, com um choque de realidade: que as imaginações não saiam de curso.

Bashar al-Assad
Três grandes acontecimentos, numa semana, têm de ser alinhados e considerados como inevitável confluência de desenvolvimentos e processos: a oposição síria ofereceu diálogo bilateral ao regime de Bashar al-Assad; o presidente do Irã fez visita histórica ao Egito; e os EUA ofereceram conversações diretas ao Irã – que o Irã aceitou prontamente.

Não há dúvida de que são eventos interconectados. Primeiro, o caleidoscópio sírio está mudando de configuração muito dramaticamente, embora continue o banho de sangue. A menos que os países europeus levantem o embargo de armas que impuseram à Síria (o qual, seja como for, expirará dia 1º de março) e decida armar os rebeldes, o impasse continuará.

O humor nas capitais ocidentais mudou, na direção de mais cautela e circunspecção, ante o fantasma de grupos afiliados à al-Qaeda que se estão beneficiando do caos reinante. Se mais não fosse, bastaria o furacão de islamistas militantes armados que varre o Mali, para aumentar as preocupações e a relutância.

Ahmed Moaz al-Khatib
O que levou o líder islamista da Coalizão Nacional Síria, Moaz al-Khatib, semana passada, a manifestar disposição para construir conversações diretas com representantes do regime sírio – e empurrou-o ao encontro dos Ministros de Relações Exteriores de Rússia e Irã – foi tanto a confusão reinante dentro da oposição síria e o fracasso na tentativa de formar algo semelhante a um verossímil “governo-no-exílio”, quanto a aguda certeza de que o humor ocidental já dá sinais de extrema cautela em relação à Síria.

Não há dúvidas de que o Irã, já há alguns meses, desempenha papel crucial na dura batalha de nervos em torno da Síria. Curiosamente, é o Irã quem, hoje, está “do lado certo da história”, ao clamar por diálogo e negociações urgentes e por eleições democráticas, como chaves indispensáveis para reformar e promover mudanças na Síria – e, também, no que tenha a ver com isso, no Bahrain.

A mudança que se vê na Síria realmente deu instrumentos ao Irã para derrubar as barreiras entre sunitas e xiitas, que tão tenazmente foram criadas e impostas para isolar o Irã. Por isso, a visita histórica do Presidente Mahmud Ahmedinejad ao Egito, essa semana, tem dimensão muito mais ampla em termos regionais para o Irã, que apenas a restauração de relações bilaterais entre Irã e Egito. O encontro trilateral que houve entre Ahmedinejad e os presidentes do Egito e da Turquia, Mohamed Mursi e Abdullah Gul mostra muito mais sobejamente a crescente relevância do Irã como interlocutor, que qualquer inimizade implacável que houvesse entre o Irã xiita e os dois grandes países sunitas.

Mohamed Mursi
Interessante o que acrescentou Mursi:

A revolução egípcia passa agora por condições similares às da Revolução Iraniana. Dado que o Egito não tem condições de progresso rápido, como o Irã teve, acreditamos que expandir os laços e a cooperação entre Egito e Irã é movimento crucialmente importante e necessário.

Desnecessário dizer que a diplomacia iraniana jogou magistralmente em tudo que teve a ver até agora com o regime da Fraternidade Muçulmana no Cairo: nem bajulou nem diminuiu, empurrou ou pressionou: apenas deixou que os Irmãos definissem o ritmo dos eventos. Fator básico nessa abordagem é a confiança, em Teerã, de que a avançada do islamismo no Oriente Médio por vias democráticas, sem especial preocupação com algum “islamismo sunita”, operará sempre, e ao final das contas, a favor dos interesses do Irã.

Ahmed al-Tayyeb
A recepção cordial que Sheikh Ahmed al-Tayyeb, líder da mesquita egícia Al-Azhar do Egito, ofereceu a Ahmedinejad e a alta probabilidade de que visite Teerã em futuro bem próximo manifestam muito claramente o desejo comum de estreitar laços e afinidades.

Dito em termos simples, a crise síria vai aos poucos saindo do espaço das questões difíceis entre Irã e Egito. É verdade que a Coalizão Nacional Síria (CNS), que tem base na Turquia, continua a rejeitar qualquer negociação com o regime sírio, e a Fraternidade Muçulmana controla a CNS. Mas aí pode estar também uma janela de oportunidades para que Turquia, Egito e Irã forcem-se mutuamente a melhor afinação.

De fato, a CNS não tem qualquer influência real sobre os rebeldes em luta; e Ancara irrita-se cada dia mais com o rumo geral da crise síria.

Foi afinal nesse contexto complexo, que o vice-presidente Joe Biden dos EUA disse em Munique, no último fim de semana, que Washington está pronta para iniciar conversações diretas com o Irã sobre o programa iraniano de energia nuclear. A resposta imediata do Irã foi otimista cautelosa. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi disse que:

Ali Akbar Salehi
Estou otimista. Sinto que o novo governo dos EUA, dessa vez, tenta, pelo menos, afastar-se do modo como vinha tratando o meu país.

Mas já no dia seguinte, começou a modular o entusiasmo:

Vemos positivamente esse movimento. Parece-me uma boa abertura... Mas temos de esperar um pouco mais, para ver se, dessa vez, o gesto deles é gesto real... E tomaremos nossas decisões de acordo com a real configuração.

Adiante, Salehi explicou que:

A análise do passado mostra que sempre que mantivemos conversações com os norte-americanos, inclusive com esforços para estabilizar o Afeganistão, o outro lado, infelizmente, jamais cumpriu plenamente as obrigações que assumiu. Não se negocia em tom de ameaça, dizendo que todas as opções estão sobre a mesa [porque] vê-s aí, bem aparente, uma contradição (...) Pressionar e convidar para conversar são atitudes incompatíveis. Se as intenções se comprovarem honestas, podemos, sim, incluir negociações sérias em nossa agenda.

Obviamente, Salehi falou por duas bocas; a retração final é a “autêntica” voz de Teerã.

Aiatolá Ali Khamenei
Na 5ª-feira, quando o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei afinal quebrou seu silêncio, rejeitou a possibilidade de conversações diretas com os EUA. Disse ele:

Vocês [norte-americanos] apontam a pistola contra o Irã e dizem que é “ou negociação ou bala”. A nação iraniana não se deixará intimidar por essas ameaças (...) Alguns ingênuos gostam da ideia de negociar com os EUA, [mas] nenhuma negociação resolverá os problemas. Quem tente estabelecer novamente o poder da América no Irã, verá que a nação se erguerá contra eles.

Um modo de interpretar a dura declaração de Khamenei na 5ª-feira é pô-la no contexto do anúncio de novas sanções contra o Irã, anunciadas na véspera, em Washington, as quais foram explicadas pelo governo dos EUA como “mais um aperto significativo no parafuso” que “aumentará significativamente a pressão econômica contra o Irã”.

Mahmud Ahmadinejad
Mas nem assim se explica o manifesto endurecimento e a total rejeição que se vê nas palavras de Khamenei. Três outros fatores têm de ser considerados. Primeiro, a política doméstica está esquentando no Irã; a dramática irrupção pública de discordância e desarmonia entre Ahmedinejad e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, semana passada, é prova de que há tempos difíceis à frente, quando Khamenei, como o grande timoneiro, estará mergulhado em problemas.

Verdade é que terá muito a joquear, à medida que se aproximarem as eleições presidenciais marcadas para maio. Khamenei pode bem entender que conversações com os EUA serão mais oportunas depois das eleições. (Diga-se de passagem, essa pode ser também a preferência de Obama).

Em segundo lugar, Khamenei disse, nas entrelinhas, que Teerã espera algum sério gesto de boa vontade, dos EUA, antes de iniciar quaisquer conversações. Lembrou que os EUA já várias vezes no passado não agiram de boa fé – como quando o Irã ajudou os EUA a derrubar o regime dos Talibã no Afeganistão.

Ali Larijani
Um terceiro fator é que Khamenei vê, profunda e genuinamente, que o Irã está, sim, “do lado certo da história”, no que tenha a ver com os levantes regionais no Oriente Médio; ao mesmo tempo em que as estratégias regionais dos EUA mostram-se cada dia mais sem rumo e sem sentido.

Em resumo, por mais que a propaganda norte-americana repita que as sanções “mordem fundo na carne do Irã” e que o regime no Irã estaria sitiado, o que se tem é uma bizarra situação, na qual só Washington acredita na própria propaganda, por mais que as realidades em campo sejam amplamente diferentes do que diga a propaganda.

Por mais que a propaganda nos faça crer que o regime em Teerã viva temeroso de que irrompa em Teerã um levante como o da Praça Tahrir, as palavras de Khamenei não mostram qualquer vestígio de medo ou timidez. Simultaneamente, Khamenei avalia atentamente a capacidade (ou a falta de capacidade) de Obama para controlar os cães do lobby israelense e iniciar processo genuíno de normalização das relações com o Irã.

Barack Obama e o tamanho do "pepino"
Quando Richard Nixon trabalhou com a China, no início dos anos 1970s, beneficiou-se de um amplo consenso favorável de opiniões dentro do establishment político nos EUA. Ao contrário, no que tenha a ver com o Irã, o pensamento e os discursos de muitos norte-americanos influentes ainda são regidos por orgulho e preconceito.

A mensagem de Khamenei a Obama é que trabalhe com seriedade e decida com clareza o que deseja, em vez de mandar recado por Biden, sem qualquer elo de conexão e sem se comprometer a coisa alguma.

Khamenei já enfrentou vários presidentes dos EUA ao longo de 22 anos; dessa vez, apenas devolveu a bola para a quadra adversária. Agora, Khamenei esperará a próxima jogada de Obama, que visitará Israel, mês que vem. 
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistãoe Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e o Blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.