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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A briga da Arábia Saudita na ONU é contra Obama (2/2)


30/10/2013, [*] MK  BhadrakumarStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ler antes:
23/10/2013, redecastorphoto[*] MK BhadrakumarStrategic Culture, em: A briga da Arábia Saudita na ONU é contra Obama (1/2).

A Arábia Saudita e a ONU
A lista de questões nas quais Arábia Saudita e EUA estão em campos opostos na política do Oriente Médio não para de aumentar – Irã,  Egito,  Síria, Bahrain,  Iraque.

Algumas questões, como Irã ou Síria, vão-se convertendo em grandes pontos de discordância, enquanto em outros já há marcadas diferenças, como, por exemplo, nos tumultos no Bahrain ou na questão da democratização do Egito. Os sauditas sentem-se abandonados em mar alto e anteveem tempestades que se formam no horizonte...

Riad enfrenta hoje uma experiência absolutamente nova nas estratégias regionais dos EUA para o Oriente Médio. Há setenta anos, aquelas estratégias usaram como eixo os laços com a Arábia Saudita, sem parar, desde quando o então presidente dos EUA Franklin Roosevelt deixou a reunião histórica de Yalta, com Joseph Stalin e Winston Churchill, e partiu para um rendez-vous secreto, no cruzador USS Quincy, no Grande Lago Salgado do Canal de Suez em fevereiro de 1945, com o rei Abdul Aziz (lbn Saud). Ali, os dois firmaram acordo não escrito, pelo qual Washington daria segurança militar à Arábia Saudita e concordava com fixar uma base militar em Dhahran, em troca de acesso ao suprimento de petróleo.

O governo Obama está assumindo visão mais estratégica dos interesses dos EUA no Oriente Médio, que qualquer governo antes dele. Em termos amplos, pode-se dizer que os interesses dos EUA na segurança e estabilidade da região não mudaram, essas preocupações gêmeas ainda tem tudo a ver com o fluxo sustentado de petróleo e gás para o mercado mundial, e com a segurança de Israel. Mas os meios para alcançar o mesmo fim estão mudando. As forças que foram libertadas pela guerra do Iraque de 2003 transformaram a região; e a Primavera Árabe trouxe para a cena a realidade de que não se inclui entre os interesses de longo prazo dos EUA serem vistos como protetores de regimes autoritários decadentes.

O não superado poder militar dos EUA revelou-se sem efeito, na modelagem das tendências regionais. Assim sendo, a ênfase na presença militar direta, ou a propensão a intervir militarmente, está mudando. Ao mesmo tempo, vai-se fixando a percepção de que excessiva interferência, e a ênfase na presença militar, tornaram-se contraproducentes e implicam insustentáveis custos humanos e econômicos.

Barack Obama na AG da ONU em setembro de 2013
Essa linha de pensamento é ainda nascente e incoerente; a primeira tentativa de dar-lhe forma coerente pode ter sido a fala do presidente Barack Obama na Assembleia Geral da ONU, mês passado. Na verdade, talvez ainda seja prematuro prever como se desenvolverá, especialmente sob o próximo presidente dos EUA. Nem a situação está sequer próxima de os EUA abandonarem seus aliados regionais ou seus relacionamentos especiais no Oriente Médio ou de darem as costas a muito duradouros compromissos regionais, como o seu “colar” de bases militares. Mas a tendência já é discernível – e pode-se conceber que assim permanecerá nesses tempos finais do governo de Obama e que, talvez, ganhe força.

Seja como for, os sauditas foram gravemente abalados quando viram a tendência começar a surgir, há dois anos, no Egito, quando o governo Obama retirou-se da linha de frente, apesar dos clamores dos aliados regionais e recusou-se a garantir uma linha de salvação a Hosni Mubarak. Ainda mais enfurecedor para os sauditas, foi ver o governo dos EUA a estabelecer laços de comunicação com a Fraternidade Muçulmana. Isso, sim, causou terrível incômodo em Riad. Como o conhecido autor e professor Vali Nasr escreveu essa semana no New York Times Riad vê a Fraternidade como representando

Vali Nasr
(...) o mesmo grau de ameaça à inamovível monarquia saudita que foi o populismo secular de Nasser (...) [E] o islamismo populista da Fraternidade, que promete justiça e igualdade, e empoderamento do indivíduo na religião e na política, ressoa profundamente entre os muitos jovens sauditas desempregados e inquietos.

Nasr concluiu que:

(...) nos anos vindouros, o maior desafio estratégico para a Arábia Saudita pode não ser o Irã, como foi, mas a Fraternidade.

O nó egípcio

Por outro lado, os EUA não podem deixar de considerar que a Fraternidade tornou-se uma força regional já no Maghreb e por todo o Oriente Médio cujo momento pode ter chegado. Isso interessou Washington, e negociar com a Fraternidade como entidade legítima na paisagem política do Oriente Médio é provavelmente a melhor garantia contra o movimento tornar-se mais extremado e vir a ameaçar a “legitimidade islâmica de todas as monarquias árabes”. Isso posto, os sauditas, por sua parte, estão furiosos, porque Washington até agora continua a recusar-se a aceitar o golpe militar no Egito, que eles apoiaram, nem apóia a repressão militar à Fraternidade.

Vai-se tornando difícil desfazer esse “nó egípcio” nas relações EUA-sauditas. Os sauditas desafiaram os EUA e estão bancando o governo provisório no Cairo, mas não impressionaram o governo Obama, o qual, ao contrário, suspendeu a ajuda militar que dava ao Egito e insiste na exigência de que o Egito volte a uma democracia “inclusiva” que admita a participação da Fraternidade. Os sauditas supuseram que o medo de levar os militares egípcios a diversificar suas fontes de armamentos forçaria Washington a voltar atrás, mas o governo Obama não parece intimidado – pelo menos até agora – e parece avaliar que, no longo prazo, estabelecer progresso econômico e estabilidade política na região será o melhor modo de assegurar segurança e estabilidade regionais, e que isso será bom também para os interesses estratégicos dos EUA.

Além de tudo mais, o atrito que surgiu nas relações da Arábia Saudita com o governo Obama tem tudo a ver com a situação interna no reino saudita. Em resumo, a paranoia em Riad está relacionada ao fantasma de o torvelinho regional chegar, em algum momento, a respingar na própria Arábia Saudita. É aflição que tem caráter existencial. Christopher Davidson, autor, professor e arabista britânico, escreveu recentemente que o “contrato social [da monarquia saudita] com seu povo está agora se rompendo publicamente, em escala significativa”. Seus dois argumentos chaves são que, em primeiro lugar, o tempo está acabando para a estratégia de subornar os manifestantes com petrodólares; e, em segundo lugar, que o nível atual de subsídios sociais – impressionante recorde de $500 bilhões – é insustentável, porque já é alto demais até para as economias do Golfo do petróleo árabe, inclusive a da Arábia Saudita.

Christopher Davidson
Davidson lembra que o break-even price [1] do petróleo é agora de mais de $115 no Bahrain, enquanto está chegando a $102 em Omã. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou o Kuwait para que contenha os gastos em bem-estar e nos salários do setor público. Assim, Davidson concluiu, as medidas longamente testadas de dividir para governar, como estimular tensões sectárias e culpar a interferência externa, já não estão funcionando; e estão tendo “impacto demonstrável” na legitimidade do regime saudita, que “pode ruir antes do que muitos creem”.

De fato, documento recente do Carnegie Endowment for International Peace destaca que o governo dos EUA bem fará se previr tumulto social e político na Arábia Saudita. Os sauditas sentem-se amargurados ao constatar que a disposição do governo Obama para manter-se “do lado certo da história” no novo Oriente Médio que emerge só tem feito estimular populações inquietas em todo o mundo árabe, o que, por sua vez, incitará à agitação na vizinhança.

Porém, o corte mais doloroso de todos é a crescente evidência de que, com o governo Obama sem comprar a tese saudita na Síria e no Bahrain, Riad está lutando contra aliados de um Irã expansionista. Assim como na jogada com o Irã é importante para Israel manter o processo de paz no Oriente Médio em fogo lento, também é importante para o regime saudita insistir no ataque contra os xiitas no Bahrain e leste da Arábia Saudita – os quais são as reais vítimas de uma estratégia sectária viciosa fundamentada no wahhabismo.

A liderança saudita lastimou que o governo Obama não tenha lançado ataque militar contra a Síria mês passado; que tenha dado as costas à promessa de armar os rebeldes sírios com armamento pesado para derrubar o governo de Assad; e que, em vez disso, esteja trabalhando com a Rússia, para abrir a trilha diplomática via Genebra-2. Os sauditas estão fazendo horas extras para garantir que Genebra-2 não decole, e estão empenhados em nova tentativa para arregimentar os aliados árabes regionais, como se viu no mais recente movimento para organizar uma nova reunião em nível de ministros de Relações Exteriores da Liga Árabe, no Cairo, na próxima 2ª-feira (4/12/2013).

E tudo isso, enquanto melhora no ocidente a percepção sobre o regime sírio, graças à excelente cooperação que tem dado à ONU para a destruição das armas químicas e graças também à evidência, mais clara a cada dia, de que as forças do governo sírio são o único obstáculo importante que há contra o crescimento da al-Qaeda naquela parte da região.

Águas desconhecidas

Tudo isso considerado, as relações EUA-sauditas estão entrando em águas desconhecidas. Houve relatos de que a liderança saudita considera uma “ampla mudança” que a afastará da cooperação de décadas com os EUA. E de que a decisão de “desistir” do assento no Conselho de Segurança da ONU marcaria o tom de uma política externa saudita radicalmente diferente. Esses relatos dizem que Riad tem intenção de afastar-se dos EUA, explorando, dentre outras coisas, relações militares que dariam mais alta prioridade à defesa e a outros interesses sauditas. A mudança de que se fala aconteceria na direção de uma política externa mais proativa.

Pode-se dizer que tal política proativa já está em andamento há algum tempo, como se viu na intervenção saudita no Iêmen e no Bahrain e nos movimentos unilaterais para manter em andamento o projeto de mudança de regime na Síria, apesar dos crescentes sinais de desagrado ocidental. Se se considera o sucesso relativo dos planos sauditas no Bahrain e Iêmen, é perfeitamente concebível que os sauditas deixem de lado a proposta de Genebra-2 e trabalhem a favor de uma iniciativa regional contra a Síria, dando cobertura econômica, política e militar e arregimentando seus aliados do Conselho de Cooperação do Golfo e a Jordânia e o Egito, no quadro de alguma espécie de acordo de segurança coletiva.

Poderia ser uma iniciativa na direção de intervencionismo local, mediante uma aliança árabe revitalizada, o que significará afastamento da dependência histórica da presença militar dos EUA. A raison d’êtrenesse caso, seria que só mediante tal aliança regional o regime saudita e os regimes do Golfo poderão priorizar a própria sobrevivência – tornando-se assertivos, menos dependentes do apoio ocidental e isolando-se dos efeitos da reaproximação EUA-Irã.

Mas, na essência, não passará de um gambito, de cercar a caravana em vez de entrar em desafio estratégico contra os EUA. Os sauditas certamente sabem que um quadro de segurança árabe coletiva não é realista e sempre será artificial, e que o continuado apoio dos EUA sempre será fator criticamente decisivo.

Enquanto isso, as perguntas não param de brotar.

Por um lado, ainda não se viu até que ponto a intervenção do CCG no Iêmen ou Bahrain será sucesso duradouro. No Bahrain, a repressão é ordem do dia; e no Iêmen os sauditas apenas trocaram um governante impopular pelo respectivo vice. Todos esses são paliativos, temporários, que os sauditas impuseram sem ouvir o povo desses países. Mais uma vez, a abordagem saudita implicará militarizar os conflitos (como no Bahrain ou na Síria); essa abordagem com certeza atrairá o opróbrio internacional e talvez se comprove inadequada para empurrar a maré mudancista.

A única real vantagem do regime saudita é que possui inigualável capacidade financeira, mas, por outro lado, não se vê a Arábia Saudita aceita em papel de liderança na região. Há ressentimentos entre os estados do CCG sobre o intervencionismo saudita no Bahrain. Na verdade, o regime saudita nem é modelo que inspire nações árabes – os sauditas tem péssima imagem na região – nem anda ao ritmo do espírito do tempo. O regime faz papel ridículo, sempre que grupos de mulheres educadas zombam dele e insistem no direito de dirigir seus próprios carros.

Em última análise, o grande trunfo da Arábia Saudita é sua capacidade para patrocinar uma “jihad” em outros países. Tem capacidade comprovada para produzir quadros militantes para suas intervenções clandestinas em outros países. Até agora, os sauditas têm-se dado bem na estratégia de empurrar o islamismo militante para além das próprias fronteiras. A estratégia tem funcionado, mas, a cada dia mais, a comunidade internacional vai-se fartando disso. É onde a Síria torna-se caso-teste.

Seja como for, o que finalmente fez entornar a taça foi, provavelmente, a visão do contato direto entre EUA e Irã, especialmente a conversa telefônica entre Obama e o presidente Hassan Rouhani do Irã. Um ministro saudita de Relações Exteriores em estado de choque, o príncipe Saud Al Faisal, saiu às pressas de New York, sem sequer fazer o discurso programado e rotineiro à Assembleia Geral da ONU. Desde então, o secretário de Estado dos EUA John Kerry não parou de telefonar-lhe, para sua Villa privada em Paris, tentando amolecê-lo e pedindo que Riad reconsidere a atitude da ONU. Kerry, na sequência armou cara de valente, sobre a briga EUA-sauditas, e disse que tem “grande confiança” de que os dois países “continuarão a ser os amigos e aliados próximos e importantes que nós sempre fomos”.

Conselho de Segurança da ONU
De fato, até aqui, a vantagem de Kerry está em que há posições conflitantes entre os próprios sauditas, que refletem profundas divisões internas no interior do regime. E absolutamente não se entende que, até agora, Riad ainda não tenha notificado formalmente a ONU sobre sua decisão de recusar o assento ao qual foi eleito, para o Conselho de Segurança. Mas há tempo. Só em janeiro, afinal de contas, será necessário aparecer fisicamente, para tomar posse (ou não) da cadeira na famosa mesa em formato de ferradura do Conselho de Segurança. Ainda não se ouviu a palavra final desse surto temperamental dos sauditas.

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Nota dos tradutores
[1] Break-Even Price“A quantidade de dinheiro pela qual um produto ou serviço tem de ser vendido, para cobrir os custos de produzi-lo ou provê-lo”.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar: “Será que Obama quer mesmo acertar-se com o Irã?”


21/2/2013, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Almaty, Cazaquistão, estará no olho do furacão na 3ª-feira próxima, quando o grupo P5+1 – os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, mais a Alemanha – reúnem-se novamente com uma delegação iraniana para discutir o programa nuclear do Irã.

O noticiário informa que todas as 16 agências de inteligência dos EUA sabem que Teerã não está trabalhando na produção de arma atômica. Em negociação real, haveria sobre a mesa proposta crível dos EUA. Não há. Isso sugere que o que Washington realmente quer é manter – e super turbinar – seu duro pacote de sanções.

Revisemos o mecanismo dessa ‘'negociação'’. Há apenas algumas semanas, dia 6/2, uma nova leva de sanções impostas pelos EUA apertaram o parafuso do que se conhece até agora como negócio de “ouro por gás”.

Ankara vem pagando o gás que importa de Teerã em liras turcas; o Irã então usava o dinheiro – mantido no Halkbank turco – para comprar ouro. As sanções agora impostas limitam duramente o que o Irã passa a ser autorizado a comprar com  suas liras turcas: só comida, remédios e produtos industriais.

Em sequência imediata, a imprensa-empresa ocidental pôs-se a repetir que o Irã foi “congelado do lado de fora do sistema bancário global”. De fato, não há absolutamente qualquer garantia de que as recentes sanções funcionem.

O ouro permanece como parte do quadro. Um banco turco até pode ser ameaçado com o exílio, fora do sistema bancário que o ocidente controla. Mas os bancos russos – e chineses – encontrarão meio cuidadoso de escapar a essa restrição e preencher o vazio. Quanto ao Irã, o país tem décadas de experiência em viver sob sanções mortais – e adaptar-se à realidade.

Recep Endorgan
A Turquia continuará a ter de importar gás natural do Irã – 40% do que consome; o Irã é seu principal fornecedor. O outro grande fornecedor é a Rússia; nem com todo o comportamento errático do Primeiro-Ministro Erdogan da Turquia, Ancara algum dia cometerá o suicídio estratégico de pôr-se em situação em que passe a depender de qualquer outro fornecedor de energia.

Portanto, o único a perder, no atual cenário, será a Turquia. Por quê? Porque Washington decidiu que assim seja.

Considere-se, agora, o que Washington tem a oferecer a Teerã: suspenderemos as sanções contra o negócio gás-por-ouro, se vocês fecharem completamente a usina subterrânea Fordow de enriquecimento de urânio. Não por acaso, Fordow é e sempre será a instalação mais difícil de destruir dentre as instalações iranianas, no caso de alguém tentar pôr em ação a tal ameaça perene (“todas as opções estão sobre a mesa”) de EUA/Israel atacarem o Irã.

Ramin Mehmanparast
Também em sequência imediata, na 2ª-feira o Ministro de Relações Exteriores do Irã, através do porta-voz Ramin Mehmanparast, foi diretamente ao ponto: “Eles têm repetido ultimamente que “fechem Fordow, parem o enriquecimento [de urânio], e permitiremos que comprem ouro”... Querem tirar direitos de um país soberano, em troca de “autorizar” que o país compre ouro”.

Teerã também observou, corretamente, que Washington não oferece o fim das sanções da ONU; nem das sanções unilaterais impostas por EUA e União Europeia; nem o fim do que, em resumo, é guerra econômica contra o Irã – um dos temas chaves que discuti detalhadamente em entrevista ao jovem jornalista iraniano Kourosh Ziabari.

Em seguida, a iraquização

Tentar proibir que o Irã negocie “gás-por-ouro” é, para todas as finalidades práticas, tentativa para reviver a horrenda política do “petróleo-por-comida” posta em prática no Iraque até a invasão/ocupação pelos EUA, em 2003.

Mas, apesar de um bloqueio comercial ocidental de fato, a liderança em Teerã continuará sempre conectada aos mercados asiáticos – com o incentivo extra, do ponto de vista de vastas porções do mundo em desenvolvimento, de continuar a avançar cada vez mais profundamente e mais rapidamente na direção de abandonar o petrodólar.

Consideremos agora a liderança em Teerã. São os mesmos que combateram durante oito amargos anos na guerra Irã-Iraque nos anos 1980s. Politicamente, a guerra os constituiu. Tendem a favorecer a “opção japonesa”, ou “período de latência”, em termos nucleares – adquirir a tecnologia e o know-how para construir uma arma atômica rapidamente, como último recurso de contenção. De fato, 30 nações – além do Japão – seguem idêntica opção.

Aiatolá Khamenei
No sábado passado, em Tabriz, o Supremo Líder do Irã, aiatolá Khamenei, repetiu:

Não queremos construir armas atômicas. Não porque os EUA lastimariam que o fizéssemos. Simplesmente, porque decidimos não construir armas atômicas. Acreditamos que armas atômicas são crime contra a humanidade e não devem existir. Todas as armas atômicas que há pelo mundo devem ser destruídas. Essa é nossa posição. E nossa posição nada tem a ver com vocês [norte-americanos].

Disse também que “se o Irã decidisse possuir armas atômicas, nenhuma potência nos impediria de tê-las”. Com isso, Khamenei estava, de fato, elaborando sobre a “opção japonesa”: ainda que o Irã não tenha bombas atômicas e não esteja trabalhando para construir armas atômicas, o país mantém abertas todas as opções, para o caso de ser encurralado e depender de uma bomba atômica como arma de dissuasão.

Parece que as potências, quaisquer delas, não captaram a mensagem em Washington, nem em Paris ou Londres. A arrogância ocidental, como mostram os registros, é sem limites. Assumindo que saberiam algo que só eles saberiam, “especialistas” e diplomatas ocidentais, os suspeitos de sempre, andam apostando que pacote ainda mais duro de sanções forçará o Irã a abaixar a crista.

Que bando de perfeitas inutilidades! Metam-se num avião. Desembarquem em Teerã. Conversem com os iranianos. Tentem aprender alguma coisa que se aproveite.

Fizessem isso, aprenderiam que, para os iranianos, grande potência tem de estar na vanguarda mais avançada da ciência – hoje, a tecnologia nuclear. Rápida revisão da mídia e da blogosfera iranianas mostra que todos, dos ultra conservadores aos reformistas, todos, concordam em que o Irã tem direito à tecnologia nuclear, como signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP).

O Irã precisa de energia nuclear para gerar eletricidade, porque importa muito óleo refinado. No momento, o Irã pode estar vendendo menos petróleo, por causa das sanções. Mas isso, por outro lado, faz subir o preço global do petróleo (e nesse caso, os perdedores são, mais uma vez, os europeus); e o petróleo iraniano fica preservado para o futuro – quando os preços estarão ainda muito mais altos.

Washington, por sua vez, tende a agir como cego que guia cegos. É como se nenhum “analista” se desse o trabalho de estudar os últimos 150 anos da história do Irã – mas não, claro, na versão de Argo, candidato ao Oscar, que nada ensina que preste; a questão tema é a luta anti-imperial.

Mohamed Mossadegh 
Os britânicos não se cansam de dar ultimatos ao Irã. À maneira persa, quem se submete trai a nação; quem se recusa a submeter-se é herói, mesmo que perca a guerra, como Mossadegh em 1953.

O drama nuclear em curso é replay/remix do drama da nacionalização do petróleo de 1951-1953, quando o Irã também padeceu muito para ganhar a autossuficiência e passar a controlar seus próprios recursos naturais. Washington/Londres, daquela vez, não se limitaram aos muitos ultimatos: também promoveram um golpe infame.

O Xá foi derrubado no início de 1979. Desnecessário dizer que, desde então, o ocidente vive a ameaçar o Irã, sem parar.

Fim da “opção japonesa”?

Otimistas profissionais talvez digam que se deveriam suspender todos os julgamentos – pelo menos por algum tempo – quanto às intenções do governo Obama 2.0 relacionadas ao Irã.

Mesmo assim, vale relembrar que durante os dois mandatos do Presidente Khatami, reformista, Washington jamais apresentou qualquer proposta séria ao Irã – a obsessão por mudança, do governo Obama, parecia ter sido absolutamente suspensa, para tudo que tivesse a ver com o fim das sanções; ou com permitir que a Europa investisse livremente no Irã (o que beneficiaria a Europa). Esses movimentos, jamais feitos, teriam operado maravilhas para ajudar o movimento reformista no Irã.

Ban Ki-moon
O que se vê hoje é o retorno a um dos pontos mais baixos dessa história, quando até o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon faz declarações gravemente daninhas: “Não devemos dar muito mais tempo aos iranianos e não podemos perder tempo (...) Já vimos o que aconteceu na Coréia do Norte”.

Agora, é como se a própria ONU – não algum George “Eixo do Mal” Bush – já clamasse por guerra contra o Irã, servindo-se, como pretexto, de inexistentes armas de destruição em massa.

Esse tipo de pronunciamento sabota as conversações em Almaty, já antes de acontecerem. Ou, então, Ban Ki-moon está complementando o salário que a ONU lhe paga, com servicinhos de tempo parcial prestados a Bibi Netanyahu: reduz o tempo da ação diplomática e ajuda Israel a convencer Washington a bombardear o Irã.

Bruxelas pode até repetir que o Irã perdeu espantosos $46 bilhões em petróleo não vendido desde as sanções turbinadas do ano passado – com o rial perdendo 40% do valor. A população iraniana pode ter sido quem mais perdeu. Mas a liderança em Teerã está mais firme que nunca. Hoje, mais claramente do que jamais antes, Teerã não encontra qualquer oposição sempre que culpa o ocidente pelos sofrimentos dos iranianos.

Trabalhar na direção de reais negociações entre EUA e Irã implicaria nenhuma mudança de regime; o Irã reconhecido como potência no sudoeste da Ásia; nada de mais sanções; nada de impedir que outros países invistam no Irã; e aceitar as garantias que o Irã tem dado, de que seu programa nuclear é exclusivamente civil.

Assim se pavimentaria o caminho para que o Irã se firmasse como maior e mais dinâmica economia no Oriente Médio e sudoeste da Ásia.

Vali Nasr
Nada sugere que estejamos andando nesse rumo. Em livro a ser lançado em breve, Vali Nasr, deão da Escola John Hopkins de Estudos Avançados e Internacionais – e, o que é crucialmente importante, ex conselheiro do governo Obama – admite que a famosa “trilha de duas mãos” [orig. dual track], de sanções combinadas com diplomacia, “não teve, sequer, duas mãos. Foi trilha de mão única, só de sanções, sem diplomacia alguma, só pressão e pressão (...). Aparente engajamento, usado para acobertar uma campanha de coerção, de sabotagem, pressão econômica e ciberguerra”.

Ecos que chegam de Teerã sugerem que, para o Supremo Líder, toda a conversa, fortemente promovida na mídia ocidental, sobre o governo Obama 2.0 estar interessado em conversações diretas com Teerã, é uma armadilha. Para Khamenei, Almaty só indicaria alguma intenção séria, se Washington levantasse todo o pacote de sanções; bem mais que autorizar gás-por-óleo, em troca do fechamento de Fordow.

Ahmadinejad visita instalações de enriquecimento de urânio em Fordow
Obama poderia fazer... alguma coisa – ainda que, para isso, tivesse de passar por cima do cadáver coletivo de, virtualmente, todo o Congresso, gente para a qual o Irã seria pior que mal absoluto.

Preparando-se para uma grande barganha em futuro não muito distante, Obama poderia, por exemplo, liberar os fundos iranianos congelados desde a crise dos reféns em 1979 (não, não: o heróico Argo nada diz sobre isso); poderia liberar a venda de peças de reposição para a frota de Boeings iranianos; poderia mandar o Departamento do Tesouro e o Departamento de Estado isentarem de impostos empresas ocidentais que queiram comerciar com o Irã.

Mas, de fato, o que se vê é que as táticas do governo Obama 2.0 não passam de extensão da política exterior da era Bush-Cheney: ameaças, diversionismo, “linhas vermelhas” que sempre mudam de lugar, “todas as opções” sempre sobre a mesa; e sanções, sanções e mais sanções.

Almaty, Cazaquistão; local da próxima reunião entre Irã e P5+1
Não surpreende que Almaty esteja cercada de expectativas muito, muito baixas. E, seja como for, nada será decidido, de substancial, antes das eleições presidenciais no Irã, em junho. Mas se o P5+1 não se compenetrar – se não conseguirem começar a atuar como adultos – pode acontecer, mais cedo ou mais tarde, que Teerã sinta-se fortemente tentada a desistir da “opção japonesa”. Porque sim.