Mostrando postagens com marcador Discurso de 18 de maio de 2011. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Discurso de 18 de maio de 2011. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Oriente Médio de Obama: retórica e realidade

David Bromwich

25/5/2011, David Bromwich, New York Review of Books
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ser presidente do mundo várias vezes pareceu a Barack Obama trabalho mais agradável que ser presidente dos EUA. O discurso do Cairo, em junho-2009, foi sua primeira performance nesse papel, e ele disse várias coisas surpreendentes, vindas de líder norte-americano – dentre outras, disse que “é hora de pararem os assentamentos [israelenses]”. Mas, como hoje já se sabe, o que viria depois do Cairo nunca chegou sequer a ser planejado. Apesar de Obama ter dito a Benjamin Netanyahu que parasse de construir “assentamentos”, jamais reforçou o dito com alguma específica sanção, nem com a ameaça de suspender algum favor. Jamais se viu qualquer contato entre Obama e líderes políticos árabes legítimos e pró-paz, e é perfeitamente claro para todos que a questão palestina jamais foi preocupação central da política exterior do atual governo dos EUA. Pouco depois do discurso do Cairo, a guerra do Afeganistão e os ataques com aviões-robôs tripulados à distância, contra regiões tribais em território do Paquistão, passaram a ocupar o centro do palco.

Obama sempre preferiu a autoridade simbólica das grandes frases à autoridade real de uma política construída e orientada – política em que se disputam os detalhes, política que tem de ser sustentável, política que deixe ver, muito mais do que só esconda, os objetivos em busca dos quais tenha sido construída. As ordens para matar ou capturar Osama bin Laden e para o atentado que deveria ter assassinado Anwar al-Awlaki num ataque de aviões-robôs, que foi dada imediatamente depois do sucesso bin Laden, são exceções que afirmam a regra: foram ações de momento, decididas e disparadas só pelo presidente, sem consultar ninguém. Nesse sentido pode-se dizer que o novo discurso sobre o Oriente Médio, dia 19 de maio, no Departamento de Estado, foi um retorno a um gênero preferido.

Presidente Barack Obama se reuniu com o primeiro-ministro 
Benjamin Netanyahu de Israel no Salão Oval na Casa Branca, 
sexta-feira, 20 de maio, 2011
Quando fala para público internacional, Obama tende a falar como se fosse os EUA falando ao mundo. E trata os EUA como o país mais ‘crescidinho’ do mundo. Essa postura gera o risco imediato de soar como pai autoritário, de dedo em riste no nariz... do mundo, risco que o presidente dos EUA, presidente jovem e pai jovem, ainda não aprendeu a evitar suficientemente. Tom muito errado ouviu-se, por exemplo, no discurso que fez numa sessão conjunta do Parlamento Indiano dia 8/11/2010, quando declarou apoio à indicação da Índia para o Conselho de Segurança da ONU, mas ‘avisou’: “Mais poder implica mais responsabilidade”. Aconteceu também no discurso no Departamento de Estado, semana passada, quando ‘repreendeu’ os países árabes por reações imaturas e por culparem o ocidente “como fonte de todos os males, meio século depois do fim do colonialismo”.

Em muitos de seus comentários públicos sobre a Primavera Árabe, durante fevereiro, março e abril, Obama sempre manobrou uma gramática do modo imperativo, de dar ordens, sem que se veja de onde viria a indispensável autoridade para mandar. Acabou por se encurralar, ele mesmo – e deu a impressão de estar trabalhando para tornar inevitável uma intervenção militar – de tanto que disse e repetiu que “Gaddafi tem de sair”. Sim, sim, disse coisa semelhante, mas muito mais vaga e mais gentil, quando falou sobre a “transição” a ser liderada por Hosni Mubarak no Egito, que “tem de ser pacífica” e “tem de começar já”. Parece acreditar que a simplicidade dessa ordem causou, adiante, a abdicação de Mubarak, ofendido.

Gramática e disposição semelhantes viram-se também no discurso de 19 de maio, na referência a Bashar al-Assad e a ordem para que a Síria iniciasse imediatamente uma transição: “O presidente Assad pode escolher: pode comandar uma transição, ou que saia do caminho.” Em resumo: Assad tem de sair, ou o modo como Assad entende o próprio governo tem de ser varrido do mundo. Seja como for, pelo menos, o presidente Assad foi tratado com a formalidade que se exige entre dois presidentes. Diferentes são os “Gaddafi” e “Saddam” pelos quais vários presidentes dos EUA têm indicado sempre o desprezo de hoje contra aliados de ontem, dos quais despem hoje o poder de que se serviram ontem e a dignidade ontem tão útil. 

A linguagem que Obama reservou para Ali Abdullah Saleh, presidente do Iêmen – aliado dos EUA na “guerra ao terror” – foi ainda mais linguagem de acomodação. Nesse caso, o presidente deslizou para a construção gramatical preferida dos editoriais não assinados dos jornais de Washington, em tom de observador distanciado que faz comentário simpático: “O presidente Saleh deve seguir a via de cumprir o que prometeu e transferir o poder.”

Até aqui, no que tenha a ver com Obama distribuir ordens. Deve-se dizer que essas ordens emanam de um modo específico de compreender a excepcionalidade do exemplo dos EUA. “Só protestos não violentos e reformas absolutamente pacíficas”, pareceu dizer Obama. Ele só aceitará esses meios de reforma, e a democracia constitucional é o único objetivo político que Obama apadrinhará. É demarcar padrões extremamente exigentes. E, no discurso de 19 de maio, Obama ofereceu três exemplos do sucesso americano: a rebelião contra o império britânico, a guerra civil para abolir a escravidão e o movimento pelos direitos civis dos anos 1950s e 1960s. Dois, desses três movimentos para alargar a democracia norte-americana, foram sangrentos. Essa é evidência que vale a pena destacar, exclusivamente porque a contradição – que, parece, nem Obama viu –  será vista, óbvia, instantaneamente, por todos os árabes. 

Como praticamente todos os políticos e governantes norte-americanos, Obama é prisioneiro de um determinado padrão de ver o que sejam os EUA e a história dos EUA, sempre oferecidos como pedra de toque e exemplos imorredouros de conduta internacional generosa e justa.

Nesse discurso, Obama não se referiu aos “rebeldes” líbios. Em vez disso, destacou a proteção assegurada pelos “aliados” (Grã-Bretanha, França e EUA) contra “a perspectiva de massacre imenso” dos habitantes de Benghazi. Não havia então, nem há hoje, qualquer prova de que houvesse alguma iminência do tal massacre. A ação militar na qual os EUA estão hoje envolvidos, de fato, foi buscar o motivo que lhe faltava no palavreado irado de Gaddafi, num único discurso, dia 22 de fevereiro, quando jurou que seus soldados iriam “de porta em porta”, para caçar e matar os manifestantes. Seja como for, não a Líbia, mas a Tunísia e o Egito, nessa ordem, foram eleitos por Obama como modelo para todas as reformas no mundo árabe.

E que ações concretas Obama propõe, em resposta aos levantes da Primavera Árabe e à repressão sempre violenta que os movimentos receberam dos governos árabes? Em praticamente todos os casos, a resposta é dinheiro. Obama providenciará para preservar a estabilidade financeira, promover reformas e integrar, na economia internacional, as democracias árabes emergentes. Um primeiro empurrão virá de sua decisão de perdoar o 1 bilhão de dólares que o Egito deve aos EUA e de oferecer novo empréstimo de novo 1 bilhão de dólares. Os EUA também apoiarão os esforços do Egito para recuperar “bens que foram roubados” – detalhe que Obama deixou sem explicar  – e ofereceu estímulos a projetos empresariais. E o presidente recomenda “diálogo” entre o governo do Bahrain e os manifestantes pacíficos que estão sendo mortos pelo mesmo governo: “Não se pode manter diálogo real, quando parte da oposição pacífica está na cadeia.”

Muitos participantes de manifestações não violentas estão na cadeia também em Israel – apesar de o padrão israelense não ser o de mantê-los lá, mas deixá-los sair, para novamente, quando novamente for útil a Israel, voltar a prendê-los. Esses atos de repressão contra manifestantes pacíficos ocorrem regularmente junto ao muro de separação em Bil’in. Um dos fatos que Obama não mencionou, sobre o modo como Israel trata os palestinos: várias restrições compatíveis com o discurso do Cairo, e só um ponto menos restritivo (antes, Obama dissera que a expansão das colônias exclusivas para judeus em território palestino é obstáculo à paz), com Obama mudando o próprio foco (agora, a base para a independência dos palestinos estaria nas fronteiras de Israel em 1967).

É ideia aceita e amplamente reconhecida que os dois partidos – Fatah e Hamás -- têm de ser incluídos em qualquer negociação séria para criar um estado palestino independente. Mas políticos israelenses inventaram e repetem, há muito tempo, que seria possível, sabe-se lá como, excluir o Hamás. A formação recente de um governo palestino de unidade, no qual se reúnem os dois partidos, torna absurdo o argumento israelense. Obama de fato admite que é assim, ao enunciar os dois nomes, sem parênteses ou exclamação. Mas em seguida, disse ele, o Hamás deve renunciar à via “do terror e da rejeição”. 

Ao apostar nesse ponto controverso, Obama consagra como fato a ficção de que a violência teria sido constante na vida dos israelenses nos dois últimos anos e que o Hamás seria fonte de parte significativa dessa violência. Houve número maior de ataques com foguetes, mas há boas indicações de que os ataques não são orquestrados pelo Hamás. A verdade é que a expansão das colônias israelenses, o suplício diário de passar pelos pontos de controle na Cisjordânia, o assalto continuado a sitiantes e pastores palestinos, a destruição de casas e a expulsão de palestinos das terras onde vivem geraram várias novas facções mais violentas e declaradamente extremistas que o Hamás.

A estratégia de Obama parece ter sido fortemente influenciada por ideias de políticos de centro conectados com Israel, como Thomas Friedman. A ocupação é ruim, dizem a Obama esses seus conselheiros informais, mas é problema que cabe aos palestinos e israelenses resolverem. Não insista, não mande, nada de “termos impostos”. Friedman gosta de acrescentar que israelenses e palestinos têm de “querer paz” mais do que os norte-americanos querem. Tudo como se fossem dois garotos aos murros num jardim de infância, ou duas gangues de rua, que têm de cansar-se de brigar, para conseguirem ‘fazer as pazes’. A analogia fracassa, porém, quando os brigadores sejam absolutamente diferentes em tamanho, força e armamento. Também deixa de ser pertinente quando o império já esteja sofrendo perdas graves, como efeito colateral da briga. E segundo opiniões tão diversas quanto as de Hillary Clinton e de David Petraeus, o conflito sem solução entre Israel e palestinos é a principal e maior “causa-raiz” do terrorismo dirigido contra os EUA.

Ao limitar-se no discurso de 19 de maio a dar conselhos genéricos aos dois lados que tentara reunir em 2009, Obama despedia-se de qualquer engajamento pessoal ou institucional – como os dois anos de cerrada diplomacia que terminaram dia 13 de maio, com a renúncia de George Mitchell – para promover novas discussões ou insistir em acordar condições para criar-se um estado palestino. Fez um vago alerta contra a serventia de os palestinos insistirem em recorrer à ONU em busca de reconhecimento. E não deixou qualquer porta aberta ou entreaberta para futuros contatos, além do lento trabalho do tempo, com meditações sobre o exemplo dos EUA.

A menção explícita às fronteiras de 1967 talvez seja mais relevante do que pareceu à primeira leitura do discurso de Obama. Porque esse é o único ponto, extraído da longa história das negociações, que Netanyahu e sua coalizão de direita muito trabalharam para afastar das manchetes. “O sonho de um estado judeu e democrático não pode basear-se em ocupação permanente”. Se se combinam essa frase, dita por Obama na 5ª-feira, e a ideia de tomar as linhas de 1967 como base para trocas de terras (“a serem mutuamente acordadas”), a frase implica que os EUA não reconhecem nem um fiapo de legitimidade ao movimento dos colonos judeus. (Netanyahu respondeu imediatamente a essa linha do discurso, em declaração que fez em Jerusalém, em que disse que as fronteiras de 1967 são “inadmissíveis.”)

Nas três principais questões – (1) fronteiras, território e segurança; (2) o status de Jerusalém; e (3) a clara compreensão do que seja um “direito de retorno” dos palestinos –, Obama recomendou “às partes” que comecem pela primeira, que é a mais fácil. E que só depois ataquem os problemas mais difíceis: como se admitirá a grande expansão de propriedades exclusivas para judeus numa Jerusalém Leste árabe; sob que tipo de soberania, una ou partilhada, a cidade existirá; e como se partilhará o direito de retorno, de modo que não prejudique ainda mais os palestinos, com o devido respeito aos medos que os israelenses exageram.

Exceto pela decisão consciente de pronunciar a palavra “1967” – a qual, como soubemos depois, Netanyahu havia claramente pedido a Obama que omitisse –, o discurso de Obama para o Oriente Médio não ousou muito. Limitou-se a uma segura e irrepreensível generalidade. Foi cuidadoso nas promessas (prometeu principalmente dinheiro), que ele próprio poderá cumprir. 

A abstração etérea tão frequente nos discursos de Obama apareceu na expressão “território contínuo”, necessário para a independência palestina. Em discurso no dia 10/12/2010, no Saban Forum da Brookings Institution, Hillary Clinton disse a mesma coisa de modo muito mais claro: “A terra entre o rio Jordão e o Mediterrâneo é limitada, e os dois lados devem saber exatamente que parte pertence a cada um. Devem definir uma linha contínua traçada num mapa, que separará Israel da Palestina.” 

Todos sabem que uma linha contínua não pode ser linha descontínua. Será que todos sabem também que “estado contínuo” (termo consagrado na diplomacia do Oriente Médio) não pode ser estado descontínuo? Obama retrocedeu muito, de volta à imprecisão, exatamente nos pontos em que a precisão mais importa.

No discurso de 19 de maio, Obama nem tentou disfarçar o desagrado com a conduta do governo de Netanyahu. Mas no momento Obama não tem meios para pressionar Netanyahu, que não firam mais o próprio Obama que Netanyahu e que o firam nos EUA – sobretudo no campo dos doadores judeus confiáveis, que os Republicanos vêm tentando afastar do partido Democrata, cada vez com mais empenho, ao longo das três últimas campanhas eleitorais presidenciais. Peregrinações a Israel de Republicanos conhecidos, como Sarah Palin e Mike Huckabee, e o convite a Netanyahu para falar ao Congresso dos EUA, feito por Eric Cantor, líder da maioria, sugerem que aí houve plano secreto executado à vista de todos.

Na década passada, a palavra “ocupação” apareceu ocasionalmente em discursos de presidentes dos EUA ao criticar a expansão colonial israelense na Cisjordânia. Mas a palavra “1967,” apesar de todos saberem que teria de ser a base para quaisquer negociações, apareceu ainda muito menos vezes. Essa decisão discursiva (uma palavra sim, outra não) agradava a Netanyahu e aos seus aliados do movimento dos colonos judeus, os quais evidentemente esperavam que se mantivesse e que, com o tempo, a mudança das palavras levaria a uma mudança de substância. 

Até que a imprensa noticiou depois do discurso de Obama que, antes do discurso, Netanyahu pedira a Obama que não pronunciasse a palavra “1967”, ninguém sabia nem poderia ter descoberto que Netanyahu estava obcecadamente empenhado em impedir qualquer menção a 1967. 1967 era tabu. 

Mas Ethan Bronner, em artigo no New York Times, explicou que, embora nenhuma das partes jamais tivesse esperado que se demarcasse uma precisa linha reta (daí a importância de algumas trocas de territórios), Netanyahu hoje se opõe firmemente à ideia de que (como Bronner escreve, parafraseando expressão de Netanyahu) “qualquer terra que seja preservada para Israel deva ser compensada por outra terra”. O que significa isso? Significará que Netanyahu só aceitará negociações que levem a alguma espécie de ‘aquisição’ de terras, por Israel, a partir das terras que ocupou em 1967? Netanyahu reiterou sua objeção, no comentário do dia 20 de maio, depois de encontrar-se com o presidente Obama na Casa Branca. Israel, disse ele, “não pode retroceder para as linhas de 1967” – por dois motivos: porque aquelas antigas fronteiras deixariam o país exposto a ataques; e, também, por causa de “algumas mudanças que aconteceram em campo”.

Na próxima semana, o próprio Netanyahu já tem ingressos garantidos para mais duas ocasiões nas quais poderá trabalhar para seduzir outros corpos norte-americanos e ganhar simpatias para as “algumas mudanças”, simpatia que não conseguiu obter de Obama: a Conferência Anual do AIPAC, dia 22 de maio, e o Congresso dos EUA, onde discursará dia 24 de maio.

A reação de extrema hostilidade de Netanyahu contra um único ponto, pode ter obscurecido a importância do muito que ele obteve, de muito substantivo, de Obama. Porque, sim, há mensagem claríssima na evidência de que Obama declarou, por omissão, no discurso do Departamento de Estado, que o governo dos EUA não tem qualquer plano para promover ou intermediar novas negociações de paz entre Israel e o governo de unidade palestina. Nem uma palavra sobre Gaza e só um rápido conselho, de espectador distanciado, sobre a Cisjordânia. 

Em termos bem práticos, portanto, mais um presidente dos EUA deu as costas a qualquer ativo engajamento na luta contra o desafio da ocupação israelense na Palestina. Antes das eleições presidenciais de 2012, os EUA não farão qualquer pressão a favor de um estado palestino. 

Quanto ao movimento de massas que já está crescendo dos dois lados das fronteiras de Israel, Obama parece ter calculado com seus botões que, em breve, em alguns poucos anos, os israelenses já terão aprendido a entender como profecia benevolente o que ele disse no discurso de 19 maio.

terça-feira, 24 de maio de 2011

EUA: a força contrademocrática mais poderosa no mundo árabe

Joseph Massad


21/5/2011, Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Joseph Andoni Massad (1963) é palestino nascido na Jordânia. PhD em Ciência Política (1998) e Professor Associado de Política Árabe Moderna e História do Pensamento no Departamento de Oriente Médio, Sudeste Asiático e África, na Columbia University.

Em 1960, o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan fez importante discurso, intitulado “Wind of Change” [Vento de Mudança], primeiro em Accra e depois em Cape Town, sinalizando a descolonização britânica dos territórios africanos e alertando o regime da África do Sul, para que pusesse fim às políticas do apartheid. Em 2011, o presidente dos EUA Barack Obama fez diferente. 

Embora tenha batizado o discurso de “Ventos de Mudança”, em referência aos levantes que varrem o mundo árabe, disse, bem claramente, que os tais ventos ainda não sopram em Washington DC e talvez jamais soprem. O segundo discurso do presidente Obama sobre o mundo árabe, feito dia 19 de maio, mostrou a mesma regularidade e a mesma total ausência de qualquer mudança na política dos EUA, que o primeiro, no Cairo, dia 4/6/2009. Não que tenham faltado imponência e hubris imperiais nos dois discursos, mas nem um nem outro trouxe seja substância seja novidade, para nem dizer que a verbosidade gratuita, floreada, demonstra que o controle do clima imperial em Washington não pode ser jamais “mudado”, nem, sequer, pelo vendaval dos levantes árabes.

O problema das políticas dos EUA para o mundo árabe não está só na insistência com que se ouvem sempre as mesmas ideias, na repetição crédula da propaganda norte-americana – que os norte-americanos tão facilmente aceitam, como alguns outros, em todo o mundo. O problema de fato está em que aquelas políticas insistentemente manifestam completa ignorância e nenhuma intimidade com a cultura política dos árabes e insistem em insultar a inteligência dos cidadãos destinatários pressupostos de discursos como os do presidente Obama.

Descaminhos dos EUA 

Nos últimos 30 anos, líderes árabes aliados dos EUA (e alguns não aliados) insistem em dizer aos seus cidadãos que o Irã, os islâmicos xiitas e sunitas, o povo palestino e sua ambição sem limites seriam, dentre outros, os motivos das dificuldades em que vivem os árabes. Essa ‘seleção’ de inimigos apareceu pela primeira vez no plano de EUA-sauditas-Kwait, para construir uma guerra de vida ou morte contra o Irã revolucionário, apresentado como inimigo dos árabes; esse plano foi lançado por Saddam Hussein em 1981, para defender os poços de petróleo dos EUA. A guerra Irã-Iraque que daí resultou, causou, até 1988, a morte de um milhão de iranianos e de 400 mil iraquianos.

Simultaneamente, e desde o final dos anos 1960s, Jordânia, Síria e Líbano viveram em guerra contra guerrilheiros e civis palestinos, que identificavam como principais inimigos. O Egito declarou guerra à Líbia quando Sadat estava no poder e, depois, já sob Mubarak, contra seus próprios islâmicos e contra os palestinos. E no último ano do reinado de Mubarak, até a Argélia foi definida e combatida como inimiga dos egípcios.

A Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que reprime a própria população em nome do wahabismo, jamais deixou de arquitetar planos (e complôs), desde 1982, para atrair Israel para o ninho árabe. 

Quando o presidente Obama repete a mentira que interessa aos israelenses, que seus assessores pró-Israel na Casa Branca – e nenhum outro tipo de assessor para assuntos do mundo árabe jamais pisou a Casa Branca desde o governo Clinton – lhe impingem, a saber, que “muitos líderes na região tentaram dirigir seus protestos noutra direção. O ocidente foi acusado de ser fonte de todos os problemas, meio século depois do fim do colonialismo. O antagonismo contra Israel converteu-se em única via aceitável para a expressão política”... a que líderes, afinal, Obama refere-se? A Sadat, Mubarak, Ben Ali, reis Hussein e Abdullah II da Jordânia, reis Hasan II e Muhammad VI do Marrocos, presidente Bouteflika, todos os monarcas do Golfo, os dois primeiros-ministros Hariri do Líbano, Rafiq e Saad? Quem?

Essas mentiras são absolutamente inacreditáveis para o resto do mundo. Até para que conseguisse crer nas próprias mentiras, para a partir delas tentar explicar os fracassos de suas políticas externas num mundo que os EUA insistem em dominar, seria preciso que o governo dos EUA se dedicasse a aprender o muito que não sabe sobre o mundo árabe.

Oposição popular e suporte à liderança 

A oposição aos EUA e a Israel é, de fato, atitude das multidões no mundo árabe, não dos líderes. Os líderes árabes, por décadas, só fizeram repetir que EUA e Israel são amigos dos árabes. É o povo árabe, só o povo, não os dirigentes, que insiste que as políticas dos EUA e a dominação e constantes agressões israelenses na região são a causa de esses dois países serem vistos hoje como inimigos dos árabes. Os líderes árabes, esses, e suas respectivas máquinas de propaganda, sempre fizeram o possível para encaminhar a fúria da rua árabe para outras direções, para inimigos imaginários, enquanto só cuidam de entender-se com Israel.

A tentativa de Obama de negar o ódio que EUA e Israel inspiram à rua árabe pelo que fazem na região, é equivalente à atitude sempre repetida, de EUA e Israel (nunca dos árabes) de fugir e negar a responsabilidade pelo que fazem. EUA e Israel jamais assumiram a responsabilidade pela violência horrível que sempre infligiram aos árabes. Em vez disso, sempre se dedicaram a transferir a responsabilidade por seus atos, para as vítimas. Quando Obama e Israel conclamam os árabes a assumir responsabilidades sobre a região, e não veem as culpas de EUA e Israel, o que fazem, mais uma vez é recusar-se a reconhecer os fatos.

Os árabes sempre assumiram claramente a responsabilidade e têm-se dedicado a tentar derrubar os ditadores que EUA e Israel apoiam há décadas – e continuam a apoiar. Quem sempre se recusa a assumir a responsabilidade são os EUA e Israel. O discurso de Obama, infelizmente, continua essa tradição de cegueira. 

Na mesma linha, Obama castiga a Síria por seguir “seu aliado iraniano, buscando assistência em Teerã, nas táticas de supressão. E isso diz muito sobre a hipocrisia do regime iraniano”. Melhor faria se acusasse França, Grã-Bretanha e os próprios EUA, onde os governos de Ben Ali e Mubarak buscaram assistência e conselhos até o último momento. O escândalo da colaboração entre a França e os governos de Ben Ali e Mubarak até o último dia, sobretudo em temas “de segurança”, encheu os jornais em todo o mundo nos últimos meses; como as notícias de que tanto o ministro da Defesa egípcio Muhammad Tantawi (agora encarregado do conselho militar de governo no Egito pós-Mubarak) como o chefe do estado-maior do exército Sami Anan passaram boa parte do levante egípcio em Washington DC, em consultas com os norte-americanos, sobre como melhor “lidar” com o levante. E, isso, além da outra linha direta até Mubarak e Omar Suleiman, que muitos órgãos do governo e da segurança dos EUA mantiveram ativa até o último dia do governo de Mubarak – e que continua ativa.

Obama pressupõe que os árabes sejam estúpidos. Ou que os árabes não saibam que são os EUA e alguns países europeus que treinam e garantem os fundos que mantêm quase todas as agências de segurança no mundo árabe. A ajuda do Irã à Síria talvez exponha a hipocrisia iraniana. Mas a hipocrisia de EUA, Grã-Bretanha e França, essa, como se vê, permanece bem escondida. 

Liberdade – para uns sim, para outros nunca 

Obama afirmou que “não deve haver qualquer dúvida de que os EUA consideram bem-vinda a mudança que faz avançar a autodeterminação e a oportunidade”, mas, se se considera a insistência com que essa mudança é empurrada goela abaixo da Síria e da Líbia, mas nunca toma o rumo de Omã, Jordânia, Marrocos, Arábia Saudita, Bahrain (dentre outros), logo surgem dúvidas. O silêncio sobre as manifestações populares contra a ditadura nas monarquias (Arábia Saudita, Omã, Jordânia, Marrocos) e a crítica sempre superficial e rápida contra o Iêmen, cujos levantes populares aconteceram antes que na Líbia, fazem espantoso contraste com a veemência com que Obama critica a Síria e a Líbia.

A nenhuma referência ao Bahrain é claro sinal de covardia, agora que o levante no Bahrain foi esmagado, por ação de forças mercenárias do Golfo que recebem armas e fundos dos EUA, coordenadas pela Arábia Saudita. Obama não teve coragem de falar sobre os muitos prisioneiros, nem sobre a destruição de mesquitas xiitas.

No caso da Síria, contudo, as críticas lá estavam, desde o primeiro dia. De fato, se se justapõem aquelas críticas e a declaração de que “manteremos nossos compromissos assumidos com amigos e parceiros”, vê-se mais claramente que tipo de mudança os EUA apreciam e que tipo absolutamente não admitem. Obama chegou, até, a enumerar as cidades onde se aplicam os princípios “fundantes” dos EUA: Bagdá, Damasco, Sana e Teerã, além de Benghazi, Cairo e Túnis; mas não se aplicam em Riad, Manama, Muscat, Amã, Argel ou Rabat.

Também o sempre referido princípio “fundante” dos EUA, de igualdade e tolerância religiosa é sempre muito fortemente específico para uns; para outros, nunca. Além do Iraque – país que os EUA destruíram e onde implantaram a mais viciosa forma de sectarismo religioso e de ódio étnico que há hoje em todo o Oriente Médio – e que Obama descreveu como “democracia multiétnica e multirreligiosa, de todas as seitas”, a preocupação com a tolerância religiosa de Obama só se aplica ao Egito e – com críticas mínimas–, ao Bahrain. 

Mas quando o assunto é Israel, todos os compromissos são esquecidos. Obama declara que os árabes “devem reconhecer Israel como estado judeu”, e mais uma vez ameaça os palestinos (como já havia ameaçado também no discurso do Cairo). Os palestinos que desistam de “deslegitimizar” o direito de Israel ser estado que mantém leis de discriminação contra cidadãos não-judeus, discriminação por religião e por etnia.


A tolerância religiosa, poder-se-ia pensar, seria princípio “fundante” geral, de aplicação uniforme, não seletiva. Mas é tal a miopia de Obama, que ainda supõe que os árabes engolirão facilmente essa sua descarada retórica antiárabe e pró-Israel. 

O mesmo se aplica a outro dos interesses “essenciais” dos EUA, a saber, o combate à proliferação nuclear. Obama teve a desfaçatez de dizer que os EUA “há anos implementam” uma política “contra a disseminação de armas nucleares” na região. Mas... todo o mundo sempre soube, há pelo menos 40 anos, que Israel é o único estado, em toda a região, que tem armas nucleares em seu arsenal – e que pelo menos numa ocasião ameaçou usá-las. E que, até hoje, se recusa a assinar o Tratado de Não-proliferação de armas nucleares. Que os EUA apoiaram Israel quando se tratou de construir e abastecer seu arsenal nuclear e, hoje, os EUA vetam qualquer decisão da ONU que cogite de penalizar Israel por não respeitar normas internacionais. 

Nada disso parece criar qualquer problema para os “interesses essenciais” dos EUA. Iraque, Síria e Irã não podem ter reatores nucleares nem para finalidades médicas. Mas Israel pode e deve ter tantas bombas atômicas quantas deseje. 

Simpatia pelos colonizadores

Afinal, Obama chega à questão palestina, mas outra vez nada acrescenta – por mais que os sionistas hoje finjam grave indignação e ultraje. Para começar, os árabes são convocados – como já fomos convocados no discurso do Cairo – a compreender e amar os infelizes judeus israelenses que conhecem “a dor de saber que tantas crianças na região são ensinadas a odiá-los”. Que Israel e grandes associações de judeus norte-americanos sejam, há décadas, divulgadoras das formas mais virulentas de preconceitos contra os árabes; que sejam odiadores de muçulmanos; que gerem e financiem a mais longa e mais pervertida campanha de propaganda de ódio racial que o mundo jamais viu... Não, não. Obama, seus assessores e conselheiros jamais ouviram falar dessas monstruosidades.

Que tipo de credibilidade Obama supõe que tenha entre os árabes que, há décadas, são alvo de discursos e de preconceitos desse tipo, para recomendar que os árabes se compadeçam com o sofrimento de seus carrascos que, desde 1948, sem parar um dia, matam crianças árabes?

Quando declara que “o sonho de um estado judeu e democrático não pode ser realizado por ocupação permanente” – Obama diz, simultaneamente, que o tal sonho se poderá realizar, sim, sem tolerância. Em outras palavras: os cidadãos palestinos de Israel continuarão a ser discriminados por religião e por etnia... no tal “estado judeu e democrático”. Mas nem esse duvidoso e precário “direito” é assegurado igualmente aos palestinos dos Territórios Ocupados. E fica-se sem saber que tipo de morte lenta Obama recomenda aos palestinos que vivem Jerusalém.

O direito de existir

Obama propõe que se adiem as negociações sobre Jerusalém ocupada pelos israelenses. Mas, ao mesmo tempo, propõe que Israel aceite as fronteiras de 1967. Aqui, ou não sabe do que está falando, e o problema é só ignorância; ou há aí ocultada uma grave má intenção. 

As fronteiras de 1967 de que Obama fala incluem Jerusalém Leste. Obama parece ter “preventivamente” extraído a cidade do mapa; como se não fosse parte do território. E, isso, apesar de a lei internacional e a ONU reconhecerem Jerusalém como parte integrante dos territórios que Israel ocupou, por ação militar, em 1967.

Além disso, Israel expandiu ilegalmente a área de Jerusalém Leste, mediante roubo de terras na Cisjordânia. Há quem estime que, hoje, a área sob controle de Israel já equivalha a 10% da Cisjordânia (em 1967, eram só 6 quilômetros quadrados). 

As chamadas “trocas mutuamente aceitas” de terras que Obama propõe, tampouco são viáveis. Israel já tomou outros 10% do território da Cisjordânia, terras hoje ocupadas pelo muro do apartheid. Acrescentem-se as colônias construídas e o vale do Jordão e praticamente já não há terras palestinas a serem trocadas pelas terras que Israel ocupou.

O que resta aos palestinos, de fato, é menos de 60% da Cisjordânia – terreno que algum dia talvez se possa batizar de “um estado palestino” e “não-militarizado”, mas que só por milagre algum dia seria “soberano” – conforme a fórmula de Obama. 

Obama continua preocupadíssimo com o direito de Israel existir, mas não perde o sono por causa do direito de os palestinos existirem. Disse, sem ironia, falando do Hamás: “Como você pode negociar com um partido que se mostrou pouco disposto a reconhecer seu direito de existir?” Ora essa! Os palestinos negociamos há duas décadas com Israel, que nunca reconheceu o direito de os palestinos existirmos! 

O discurso de Harold Macmillan em 1960 alertava os sul-africanos para que desistissem das políticas de apartheid. O discurso de Obama em 2011 repete insistentemente que os palestinos devem reconhecer o direito de Israel de continuar a ser estado racista.

Quando Obama diz que “os interesses de curto prazo dos EUA” às vezes “não se alinham perfeitamente com nossa visão de longo prazo para a região”, aí, prega a maior de todas as mentiras imperiais. Os interesses de curto prazo e também os interesses de longo prazo dos EUA na região sempre se alinharam perfeitamente: controlar os recursos de petróleo, assegurando ganhos para empresas norte-americanas; e defender Israel. 

Até que verdadeiros “ventos de mudança” varram para longe esses interesses, os EUA continuarão a ser, como sempre foram, a força contrademocrática mais poderosa no mundo árabe. E discurse o imperador Obama o quanto queira.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Missão impossível: satisfazer Netanyahu

MJ Rosenberg


 23/5/2011, MJ Rosenberg, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Protestos dos sionistas durante o discurso de Obama no Oriente Médio deixa pouca esperança para a paz com os palestinos.

Muitos ativistas “Israel-first” judeus reuniram-se em 
indignação para denunciar o discurso de Obama 
sobre o Oriente Médio e a questão Israel-Palestina.
Nada há absolutamente no discurso do presidente Obama para o Oriente Médio, que inflame ou excite os espíritos. Menos ainda, na declaração que Obama fez depois de reunir-se com o primeiro-ministro de Israel Binyamin Netanyahu. O presidente sequer se atreveu a apresentar algum plano de ação: só falou de princípios, sempre em termos gerais, e nada disse de novidade, que os cinco últimos presidentes dos EUA já não tivessem dito.

O discurso de Obama foi tentativa de conter Netanyahu, que estava nos EUA para falar no Congresso dos EUA e na Conferência Anual do AIPAC. O objetivo de Bibi é mobilizar seus seguidores contra qualquer esforço que os EUA façam para promover algum acordo entre israelenses e palestinos. Netanyahu, que foi criado nos EUA é, de fato, Republicano dos pés à cabeça; desde 1998, no governo de Clinton, Bibi trabalha para fortalecer os Republicanos nas disputas contra os Democratas. O discurso de Obama foi, ao que tudo indica, um erro. Mas Obama deve ter sentido que tinha de falar e falou.

Apoio dos judeus e pacificação 

Por razões óbvias de segurança nacional, os EUA não podem aceitar que uma nova geração de árabes democratas assumam o poder em nações tão significativas como o Egito, no qual a população ‘odeia americanos’ porque vê os EUA como ‘comprados’ por Israel. Obama deve ter suposto que alguma promoção retórica de alguma paz ajudaria a neutralizar a demagogia de Netanyahu e, consequentemente, diluiria a oposição que há contra EUA e Israel no mundo muçulmano. E supôs simultaneamente que algumas frases fortemente pró-Israel agradariam aos seguidores de Netanyahu.

Mas nada saiu conforme o previsto. Como o Wall Street Journal noticiou em artigo intitulado “Doadores alertam Obama sobre Israel” (19/5/2011, em inglês ), um pequeno (mas rico e incrivelmente homogêneo) grupo de doadores de dinheiro para campanhas eleitorais já havia dito a Obama, antecipadamente, que qualquer pequeno desvio da linha traçada por Netanyahu custar-lhe-ia muito caro. O artigo cita um punhado de gatos gordíssimos, dos quais a maioria dos judeus norte-americanos nunca ouviram falar, e que, hoje, declaradamente ameaçam Obama.

A loucura é completa. Em 2008, 78% dos judeus votaram em Obama. Segundo a última e definitiva pesquisa do Comitê Judeu-norte-americano [ing. American Jewish Committee], Israel é a 7ª questão, na lista de questões que preocupam os judeus norte-americanos; só 3% dos entrevistados citaram Israel como sua preocupação principal. 54% dos entrevistados declararam que votam mobilizados pelo estado da economia, e muitos mais citaram a saúde pública, questões de energia e inúmeras outras questões.

Apesar disso, alguns autoproclamados representantes da comunidade judaica dizem à Casa Branca que a principal preocupação de todos nós, judeus norte-americanos, seria Israel. Mas Israel só preocupa, no máximo, os doadores de dinheiro para campanhas eleitorais que seguem a bíblia do AIPAC. 

E por isso o presidente Obama, na 5ª-feira, fez discurso absolutamente inócuo. Nada do que ali se ouviu foi novidade: todos os presidentes anteriores só fizeram repetir exatamente o que Obama mais uma vez repetiu. Toda a simpatia do presidente dirigiu-se quase exclusivamente a Israel; para os palestinos, simpatia zero. Obama tentava fazer o que lhe pareceu que devesse fazer: acalmar o AIPAC e Netanyahu, ao mesmo tempo que agradava aos democratas árabes.

Mas nem isso conseguiu. Aos ouvidos dos árabes, o discurso soou como um amontoado de palavras ocas. E os israelenses e judeus fanáticos ficaram furiosos. Por quê? Exclusivamente por causa de um parágrafo. O presidente Obama disse: 

“Os EUA creem que as negociações devem resultar em dois estados, com fronteiras palestinas estáveis e permanentes com Israel, Jordânia e Egito e fronteiras israelenses permanentes com a Palestina. As fronteiras entre Israel e Palestina devem basear-se nas linhas de 1967, com trocas [de território] a serem acordadas, de modo que se estabeleçam fronteiras reconhecidas e seguras para os dois estados. O povo palestino deve ter o direito de se autogovernar e expandir seu potencial, em estado contínuo e soberano” [em português, emDiscurso ridículo! Obama sobre a questão israelense (NTs)]. 

Foi o apocalipse. Mas não começou imediatamente depois do discurso. No primeiro momento, a ala direita da claque “pró-Israel” elogiou Obama por não ter dito coisa alguma que incomodasse Netanyahu. Mas, então, Netanyahu declarou que se sentira gravemente ofendido pela referência às linhas de 1967.

A questão das fronteiras

Os robôs do partido “Israel antes de tudo” mudaram de discurso com a mesma rapidez com que cantores vermelhos, em 1930, mudavam letras de canções, sempre que Moscou os acusava de desvio (“Parem de criticar os alemães nazistas: acabamos de assinar um pacto com eles!”). A reação de Israel foi ridícula. Obama não disse que Israel teria de voltar para as fronteiras de 1967; disse apenas que “as fronteiras entre Israel e Palestina devem basear-se nas linhas de 1967”. 

Significa que israelenses e palestinos devem sentar-se à frente de um mapa das coisas como eram em 1967 e decidir o que será Israel e o que será Palestina. Em que outras “linhas” poder-se-ia basear qualquer acordo, a qualquer tempo? Nas “linhas” da fronteira entre China e Rússia?!

Em 1967, pela Resolução n. 242 da ONU, que Israel assinou, toda a comunidade internacional (inclusive Israel) decidiu que Israel voltaria às fronteiras de 1967, com trocas pontuais de território, como fossem necessárias para preservar a segurança de Israel. Todos os presidentes dos EUA só fazem repetir, e todos os governos israelenses sempre aceitaram exatamente isso. Até o AIPAC apoia a “solução dos Dois Estados”, que significa que haverá um estado palestino nos territórios que Israel invadiu em 1967.

Então? Quem são esses personagens que de repente decidem encenar ‘manifestações’ de ultraje, quando Obama diz o que todos têm dito e repetido sem parar, há tanto tempo?

A resposta é simples. Os fanáticos de “Israel em primeiro lugar” tomaram duas decisões:

(1) não querem saber de paz entre Israel e palestinos, e ponto final. Querem que Israel ocupe toda a terra palestina. E

(2) querem derrotar o presidente Obama nas próximas eleições e supõem que comandam o voto dos judeus norte-americanos e, sobretudo, que farão encolher as doações eleitorais para patamares bem inferiores aos de 2008. Os judeus israelenses fanáticos não confiam em Obama. Desconfiam (esperemos que estejam certos) que Obama, no fundo, não acredita no amontoado de sandices que Dennis Ross vive a repetir.

Obama está errado 

O erro de Obama é supor que conseguirá acalmar essa gente discursando no AIPAC (como discursou domingo à note) ou visitando Israel (como provavelmente visitará ainda esse ano) e tentando fazer-se entender. A menos que esteja preparado para dizer ao AIPAC que apoia as colônias ilegais construídas em territórios ocupados e que é favorável à limpeza étnica, com expulsão de todos os palestinos, Obama jamais dirá o que o AIPAC quer ouvir. Eles não são parceiros potenciais, nem do próprio Obama nem dos legítimos interesses dos EUA. De fato, não são parceiros sequer de Israel. Para todos os efeitos, é como se preferissem ver a Cisjordânia prosperar e Israel definhar.

Em vez de tentar conquistar aquela gente, Obama deveria mobilizar os norte-americanos que apoiam Israel, a solução de dois estados e o respeito às fronteiras que israelenses e palestinos negociem – judeus e não judeus, todos juntos. 

Obama deveria também buscar parceiros entre os palestinos que têm interesse em viver em paz com Israel – inclusive o Hamás, é claro, desde que desista do recurso às armas. E deveria declarar apoio aos israelenses moderados – que ainda são maioria na população de Israel – que se envergonham por Israel ocupar territórios palestinos e querem desesperadamente fazer a paz com o palestinos.

Tentar satisfazer Netanyahu e o AIPAC só resultará em desastre, com a direita cada dia mais fortalecida e os moderados cada dia mais fracos e mais sem meios. É mais que hora de Obama dar aos judeus israelenses fanáticos e racistas o tratamento que merecem. Aqueles fanáticos são inimigos de tudo que Obama quer fazer e ser. 

Por que o presidente Obama meteu-se na cabeça que poderia, de algum modo, encontrar parceiros na extrema direita israelense (parceira da extrema direita nos EUA)? Não pode. Nunca poderá.

Robert Fisk: “É pouco provável que Obama enfrente as questões reais do Oriente Médio”


Robert Fisk

19/5/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

OK, então lá vai o que o presidente Barack Obama deveria dizer em discurso sobre o Oriente Médio: Vamos sair amanhã do Afeganistão. Vamos sair amanhã do Iraque. Vamos parar de dar apoio covarde incondicional a Israel. Os EUA forçarão os israelenses – e a União Europeia – a pôr fim ao sítio de Gaza. Suspenderemos todos os fundos que Israel espera receber de nós, até que acabe, completamente, sem condições, a construção de colônias em terras roubadas aos árabes que nunca pertenceram a Israel. Poremos fim a todos os negócios e cooperação com os ditadores viciosos do mundo árabe – seja saudita, sírio ou líbio – e apoiaremos a democracia também nos países nos quais os EUA têm interesses comerciais massivos. Ah! E, sim, conversaremos com o Hamás, claro.

Evidentemente o presidente Obama não dirá nada disso. Arrogante e covardemente, só falará sobre os “amigos” que o ocidente teria no Oriente Médio, sobre a segurança de Israel – e “segurança” é palavra que Obama jamais usou ao falar da Palestina – e enrolará e enrolará sobre a Primavera Árabe, como se, algum dia, tivesse dado algum apoio a alguma democracia no Oriente Médio (antes, claro, de os ditadores já estarem em fuga); como se – quando mais precisaram do apoio de Obama – Obama tivesse oferecido a ajuda moral de sua autoridade ao povo do Egito. E que ninguém duvide: Obama falará também muito sobre um grande Islã religioso (mas nunca muito grande, ou os Republicanos recomeçam a exigir a certidão de nascimento de Barack Hussein Obama). Temo que ouçamos também – ah, sim, temo! – um convite-comando para que viremos a página de Bin Laden, para “dar o assunto por encerrado” e “seguir avante” (convite-comando que, também temo, o Talibã não aceitará).

Mr. Obama e sua igualmente desfribrada secretária de Estado não têm ideia do que enfrentam no Oriente Médio. Os árabes perderam o medo. Estão fartos de nossos “amigos” e enojados de nossos inimigos. Breve, os palestinos de Gaza marcharão sobre as fronteiras de Israel e exigirão o direito de “voltar para casa”.

No domingo, já se viram sinais disso nas fronteiras da Síria e do Líbano. O que farão os israelenses? Matarão palestinos aos milhares? E o que dirá então Mr. Obama? (Claro, exigirá “contenção dos dois lados”, frase que aprendeu do seu torturante predecessor).

Penso que os norte-americanos sofrem do mesmo mal que os israelenses: acreditam cegamente nos seus próprios argumentos de autoengano. Os norte-americanos continuam a falar da bondade do Islã; os israelenses, de como entendem “a mente árabe”. Mas não entendem coisa alguma. 

O Islã, como religião, nada tem a ver com isso, como tampouco o Cristianismo (palavra que não tenho ouvido nos últimos tempos) tem algo a ver com isso, ou o Judaísmo. Trata-se agora de dignidade, honra, coragem, direitos humanos – qualidades que, noutras circunstâncias, os EUA sempre elogiam –, que os árabes entendem agora que também lhes cabem. E estão certos. 

É hora de os norte-americanos livrarem-se do medo que lhes inspiram os lobbyistas pró-Israel – de fato, são lobbyistas pró-Likud – e a repugnante acusação de antissemitismo que repetem contra qualquer um que se atreva a criticar Israel. É hora de os norte-americanos aprenderem a ter coragem, como a valente comunidade de judeus norte-americanos que protestam contra as injustiças cometidas por Israel e líderes árabes.

Mas nosso presidente favorito jamais dirá em seu discurso qualquer dessas verdades. Podem esquecer. Não passa de presidente bico-doce, que diz qualquer coisa, e que deveria ter devolvido – esquecemos? – seu Prêmio Nobel, porque nem Guantánamo conseguiu fechar; imaginem se conseguirá construir alguma paz! 

E o que disse ele no discurso do Nobel? Que ele, Barack Obama, tinha de viver no mundo real; que não é Gandhi... Como se – e honra ao The Irish Times, por ter sabido ler – Gandhi não tivesse combatido contra o império britânico! Assim sendo, seremos como sempre ensaboados pelas análises de sempre nos EUA, que elogiarão a fala do presidente, essa conversa fiada miserável.

Depois, virá o fim de semana em que Mr. Obama falará à conferência anual do AIPAC, o mais poderoso “amigo” de Israel nos EUA. E começará tudo outra vez, segurança, segurança, segurança; rápida – se acontecer – referência às colônias israelenses na Cisjordânia; e, isso eu garanto, muitas e muitas referências a terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo. E, sim, mencionará o assassinato (para não usar a palavra execução) de Osama bin Laden.

Mas o que Mr. Obama não entende – e Mrs. Clinton, essa, então, não faz nem ideia – é que, no novo mundo árabe, já não se trata de confiar em ditadorezinhos e seus asseclas. Que basta de bajulação. A CIA deve andar carregando malas cheias de dinheiro para distribuir, mas suspeito que poucos árabes se animarão a tocar nesse dinheiro. 

Os egípcios não mais tolerarão o sítio de Gaza. Nem, creio, os palestinos. Nem, tampouco, os libaneses, e nem os sírios, depois que se livrarem dos chefetes que os governam. Os europeus perceberão antes que os norte-americanos – estamos, afinal de contas, mais próximos do mundo árabe –, e duvido que continuem a admitir que a vida de todos continue a ser guiada pela indiferença acovardada com que os norte-americanos insistem em não ver o roubo de terras de que os israelenses fizeram meio de vida.

Tudo isso, claro, será como deslocamento vertiginoso de placas tectônicas para os israelenses – que deveriam estar elogiando e congratulando-se com os vizinhos árabes e com os palestinos, por se terem reunificado e unificado a causa; e que deveriam estar demonstrando solidariedade e amizade aos vizinhos árabes, em vez de medo. 

Faz tempo que minha bola de cristal partiu-se. Mas lembro bem do que Winston Churchill disse em 1940: “o que o general Weygand chamou de batalha pela França, acabou. Começa agora a batalha pela Grã-Bretanha”.