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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Subcomandante Marcos: Más notícias e outras nem tão más

Novembro, 2013, [*] Subcomandante Marcos, ENLACE ZAPATISTA 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Subcomandante Marcos (mais alto) e Comandante Tacho numa festa em Chiapas
Aos estudantes e às estudantes que tomaram ou querem tomar parte no primeiro nível da Escuelita Zapatista:

A quem interesse:

Companheiros, companheiras e companheroas

Pois como já é hábito, designaram-me para dar-lhes as más notícias. Aí vão elas.

PRIMEIRO – As contas (e encarreguem-se de verificar as somas, restos e divisões, porque as matemáticas não são meu forte, quero dizer, não são também o meu forte):

A - Gastos do primeiro nível, em agosto de 2013, para 1.281 alunos:

  • Material de apoio (4 livros de texto e 2 DVDs) para 1.281 alunos: $100.000,00 (cem mil pesos).
  • Transporte e alimentação para 1.281 alunos do CIDECI (Universidad de la Tierra, San Cristobal, Chiapas) na comunidade em que fizeram o curso e de volta: $339.778,27 (trezentos e trinta e nove mil setecentos e setenta e oito pesos e vinte e sete centavos), repartidos da seguinte forma:

Gastos de cada Zona para levar alun@s do CIDECI e distribuição em cada cidade em carros e levá-los de volta ao CIDECI, além da alimentação de outras pessoas que trouxeram os alunos e as alunas.

Realidad                   $64.126,00
Oventik  -                $46.794,00
Garrucha               $122.184,77
Morelia                    $36.227,50
Roberto Barrios     $70.446,00
Total geral            $339.778,27

Nota: É, também me chamaram a atenção esses tais de “77 centavos”, mas recebi assim as contas. Quer dizer: não estamos na onda de arredondar nada.

  • Transporte de 200 guardiãs e guardiões no CIDECI onde dividiram o curso e a volta: $ 40.000,00 (quarenta mil pesos). Sua alimentação foi coberta pelos companheiros e companheiras da CIDECI-Unitierra. Obrigado ao Doc Raymundo e a todos e todas os e as compás CIDECI, especialmente aos e às da cozinha (atenção: me devem os tamales).

Total de gasto das comunidades zapatistas para o curso de primeiro nível em agosto de 2013 para 1.281 alunos: $ 479.778,27 (quatrocentos setenta e nove mil e setecentos e setenta e oito pesos e vinte e sete centavos).

Gasto médio por aluno: $ 374,53 (trezentos e setenta e quatro pesos e cinquenta e três centavos).

B – Entradas da Escuelita Zapatista:

Ingressos por registro (el bote que estava no CIDECI): $ 409.955,00 (quatrocentos e nove mil e novecentos e cinquenta e cinco pesos).

Moeda nacional:   $ 391.721,00
Dólares:                     $ 1.160,00
Euros:                            $ 175,00

Ingressos em média por pagamento pelo registro de cada aluno: $320,02 (trezentos e vinte pesos e dois centavos).

SEGUNDO – Resumo e consequências:

Em média, cada aluno foi apoiado com $54,51 (cinquenta e quatro pesos e cinquenta e um centavos), coberto graças a doações solidárias. Quer dizer, os alunos se apoiaram entre eles.

Significa que, quero dizer, não está dando p’ro gasto, compás. Foi graças a que alguns alunos e alunas deram mais do que os cem pesos obrigatórios (alguns e algumas nada puseram) e às doações de pessoas generosas, que conseguimos, no máximo, pagar as contas.

Aos e às que deram mais e que fizeram essas doações extras, agradecemos de todo o coração. E também deveriam agradecer-lhes os que não pagaram os cem pesos completos ou não deram absolutamente nada.

Mas sabemos bem que é difícil que isso se repita e que alguns assistentes paguem o curso dos outros, e assim estamos diante das seguintes opções:

a)     Fechamos a escolinha.
b)     Reduzimos a coisa ao que os zapatistas possamos cobrir. O subcomandante insurgente Moisés disse-me que seriam uns 100 por caracol, 500 no total.
c)      Aumentamos o preço e tornamos o pagamento obrigatório.

Pensamos que não devemos fechar a escolinha, porque ela nos permitiu conhecer gente e nos fez conhecidos de gente que antes não nos conhecia nem nós os conhecíamos.

Pensamos que se reduzirmos a coisa, muitos e muitas vão ficar tristes ou bravos, já que estão com tudo preparado para assistir, e assim ficarão de fora. Sobretudo agora que já sabem que a essência do curso está nas comunidades e nos guardiões e guardiãs. É. Coube-me dar a notícia, para que recebesse eu, os xingamentos.

Então, só resta pedir que paguem o próprio transporte e alimentação. Sabemos que isso, além de incomodar alguns e algumas, pode deixar de fora vários e várias. Por isso estamos avisando com tempo, para que vejam um modo de completar seu pagamento e/ou dos compás que querem e podem assistir, mas não podem pagar tudo.

O custo será agora de $ 380,00 (trezentos e oitenta pesos) por estudante e terá de ser coberto no momento de registrar-se no CIDECI nos dias marcados. Se também quiserem trazer um quilo de feijão ou de arroz, lhes agradeceria.

Por favor, suplicamos, rogamos, imploramos que vejam bem com quem cada um vem, quantos são e as idades, porque chegam cartas que dizem “vou com meus filhos” e, quando chegam parece o elenco de The Walking Dead. Todos e todas que assistem às aulas devem registrar-se antes, sejam crianças, adultos, mais velhos, mortos vivos.

E vejam bem as datas que virão. Agora há duas datas, uma no final de dezembro e outra no início de janeiro. É importante saber em que data se inscrevem, porque, como já sabem, há uma família indígena que se prepara para recebê-los e recebê-las, um guardião ou guardiã que se prepara para orientá-los, um ou uma motorista que oferece o carro para transportá-los e transportá-las, um povo inteiro que os e as recebe. E esclareçam também se vêm à comunidade ou se farão o curso no CIDECI de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas.

Ah, e venham escutar e aprender, porque há quem veio para distribuir cátedras de feminismo, vegetarianismo, marxismo e outros “ismos”. E agora estão desgostosos porque os zapatistas não obedecemos ao que vieram nos ensinar: que devemos mudar a lei revolucionária de mulheres, como elas dizem, não como decidam as zapatistas; que não entendemos as vantagens da marijuana, que não façamos casas de cimento, porque é melhor de adobe e de palha, que não calcemos sapatos porque, descalços estamos mais em contato com a mãe terra. Em fim, que obedeçamos ao que vêm nos ordenar, ou seja, que não sejamos zapatistas.

CASOS ESPECIAIS: os e as Anarquistas

Dada a campanha antianarquismo que estão fazendo as boas consciências e a esquerda bem comportada, unidas em santa cruzada à direita ancestral, para acusar jovens e velhos e velhas anarquistas de estarem desafiando o sistema (como se o anarquismo tivesse outra escolha), além de decompor suas cenografias (o negócio de apagar a luz é para não ver os anarquistas e as anarquistas?), e que é levada ao delírio, com qualificativos como “anarco-falcões”, “anarco-provocadores” “anarco-maconheiros”, “anarco-etcetera” (li até alguém que escreveu contra “anarco-anarquistas”, não é sublime?).

As zapatistas e os zapatistas não podemos ignorar o clima de histeria que, com tanta firmeza, demanda e exige que se respeitem os cristais (que não mostram, mas escondem o que se passa logo abaixo do mostrador: condiciones laborais escravistas, nenhuma higiene, má qualidade, baixo nível nutricional, lavagem de dinheiro, fraude fiscal, fuga de capitais).

Pois agora inventaram que todas as falcatruas mal dissimuladas, chamadas “reformas estruturais”, a exploração do trabalho do magistério, a venda em liquidação do patrimônio da Nação, o roubo que o governo perpetra contra os governados com os impostos, a asfixia fiscal – que só favorece os grandes monopólios – que tudo é culpa dos anarquistas.

Que gente de bem já não sai às ruas para protestar (olhe aqui: aí estão as marchas, as manifestações, os acampamentos, os bloqueios, os cartazes, os panfletos). Sim, mas não são de professores/professoras-transportistas-ambulantes-estudantes-ou-seja-de-pobres-do-interior-da-província, digo, só gente bem do DF. – Ah, a mítica classe média, tão cortejada e ao mesmo tempo depreciada e roubada por todo o espectro mediático e político, que a esquerda institucional também despoja de todos os espaços de manifestação, que o “único opositor ao regime” foi outra vez encoberto pelos sem nome uma e outra vez, e que a imposição arbitrária chama-se agora “diálogo e negociação”, que o assassinato de migrantes, de mulheres, de jovens, de trabalhadores, de crianças, que tudo é culpa dos anarquistas.

Aos que militam e reivindicam-se como da bandeira “A” [de anarquistas], bandeira sem nação e sem fronteiras, e que são parte da SEXTA, mas que realmente militem e não sejam só uma moda de vestir ou de calendário, temos, além de um abraço companheiro, um pedido especial:

Compás Anarquistas: nós, os zapatistas, nós as zapatistas, não vamos culpar vocês das nossas deficiências (incluída a falta de imaginação), nem vamos fazê-los responsáveis pelos nossos erros e muito menos vamos persegui-los por serem quem são. E conto que vários convidados em agosto cancelaram a visita, porque, disseram, não podiam dividir a aula com “jovens anarquistas, vestidos de trapos, punks, descabelados e cobertos de tatuagens”, que esperavam (os que não são nem jovens, nem anarquistas, nem andrajosos, nem punks, nem descabelados nem cobertos de tatuagens) desculpas e que se depurassem os registros. Continuam esperando inutilmente.

O que queremos pedir a vocês é que, no momento em que se registrarem, entreguem um texto, máximo de um quarto de página de extensão, no qual respondam às críticas e acusações que lhes são feitas pelos jornais pagos. Esse texto será publicado numa sessão especial de nossa página eletrônica e numa revista-fanzine-como-se-diz que aparecerá proximamente no mundo mundialmente mundial, dirigida e escrita por indígenas zapatistas. Será uma honra para nós que, no nosso primeiro número, a palavra de vocês apareça junto à nossa.

Certo?

Sim, sim, podem encher o quarto de página com uma só palavra que cubra todo o espaço: algo como “MENTEM!” Ou algo mais extenso como “Lhes explicaria o que é o Anarquismo, se supusesse que entenderão”, ou “O Anarquismo é incompreensível para os anões de pensamento”, ou “As transformações reais aparecem primeiro em letra vermelha”, ou “Cago para a polícia do pensamento”, ou a seguinte citação do livro Golpes y Contragolpes de Miguel Amorós:

“Todo o mundo deveria saber que o Black Bloc não é uma organização, mas uma tática de luta de rua semelhante à kale borroka [“luta de rua”, em basco]”, que uma constelação de grupos libertários, “autônomos” ou alternativos vinha praticando desde as lutas dos squats (“okupaciones”) nos anos 80s em várias cidades alemãs”.

E agregar algo como “se vão criticar alguma coisa, primeiro estudem bem. A ignorância bem redigida é feito uma imbecilidade bem pronunciada: é igualmente inútil”.

Enfim, tenho certeza de que não lhes faltarão ideias.

TERCEIRO – Uma notícia não tão má: lembro a todos as datas e a forma de pedir seu convite e registro:

Data do segundo turno da escolinha:
Registro: 23 e 24 de dezembro de 2013.
Aulas de 25 de dezembro até 29 de dezembro desse ano. Saem dia 30.

E os que queiram ficar para a festa dos 20 anos do levante zapatista, para festejar e recordar o amanhecer do dia 1º de janeiro de 1994, com festa dia 31 de dezembro e dia 1º de janeiro.

Data do terceiro turno da escolinha:
Registro: dias 1º e 2 de janeiro de 2014.
Aulas de 3 de janeiro a 7 de janeiro de 2014.  Saem dia 8 de janeiro de 2014, voltando cada um aos seus rincões.

Para pedir seu convite e registro, envie mensagem para:


QUARTO – Outra notícia não tão má é que se supunha que eu abrisse essa etapa com texto muito diferente, saudando nossos mortos e nossas mortas, o Subcomandante Pedro, a Tata Juan Chávez, a Chapis, os infantes da guardería ABC, aos professores em resistência, e com um conto de Durito y el Gato-Perro. [Assista a seguir]


Mas como me disseram que urgia o assunto das contas e a ratificação das datas, fica para outra hora. Como sempre: o urgente não deixa tempo para o importante. Assim, todos se livraram de ler sobre coisas que não são “transcendentes-para-a-presente-conjuntura”... Por enquanto.

Valeu. Saúde e, criando-o ou não, o mundo é maior que a manchete mais escandalosa. Questão de abrir o passo, o olhar, o ouvido... e o abraço.

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Marcos.
Conselheiro da Escolinha e encarregado de dar más notícias.
México, novembro de 2013.

_________________________

P.S. - Escute e veja os vídeos que acompanham este texto:

Kenny Arkana com esse RAP intitulado “V pour Verités” (“V de Verdades”). Numa parte diz: “benditos sejam os que se interpõem, os que constroem outra coisa”.



Fragmento do filme “V de Vingança” sobre a relação entre o medo e a obediência, e outra forma de entender as palavras “justiça” e “liberdade”.



Pedro Infante com a canção “Yo soy quien soy” [Sou quem sou], de Manuel Esperón e Felipe Bermejo, no filme La Tercera Palabra com Marga López, Sara García e Prudencia Grifell, 1955, dirigida por Julián Soler. Meto-os aí só para chatear os que nos querem fazer a seu modo e à sua moda.


____________________________

[*] Subcomandante Marcos (Tampico, Tamaulipas, 19 de junho de 1957) é o porta-voz do movimento zapatista no sudeste mexicano. O “Subcomandante Marcos”, é o principal porta-voz do comando militar do grupo indígena mexicano chamado Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que fez a sua aparição pública em 1º de Janeiro/1994, quando os militares lançaram uma ofensiva na qual conquistou seis municípios, no sulino estado mexicano de Chiapas, exigindo democracia, liberdade, terra, pão e justiça para os índios.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Eles e nós VII – Os menores de todos


21/2/2013, Enlace Zapatista,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Leia também: 24/2/2013, redecastorphoto, EZLN – Exército Zapatista de Libertação Nacional: ELES E NÓS: As (des) razões de cima. (1)


Subcomandante Marcos

Introdução

Agora já há vários anos, enquanto na política de cima eles disputavam o butim de uma nação esfacelada, enquanto a imprensa-empresa ou calava ou mentia sobre o que estava acontecendo, enquanto os povos originais dessa terra saíam de moda e voltavam a um canto do esquecimento, suas terras saqueadas, e seus habitantes explorados, reprimidos, expulsos, deslocados, desrespeitados...

Os povos indígenas Zapatistas,

Cercados pelo exército federal, perseguidos pela polícia do estado e municipal, atacados por grupos paramilitares formados e equipados por governos de todos os partidos do espectro político mexicano (PRI, PAN, PRD, PT, PVEM, MC e outros nomes que a classe política parasita mexicana assume), caçados por agentes de diferentes agências de espiões mexicanas e estrangeiras, vendo suas bases de apoio, homens e mulheres, espancados, expulsos, deslocados, encarcerados...

Os povos indígenas Zapatistas,

sem espetáculo,
sem qualquer imperativo, além do dever,
sem manual de instrução,
sem líderes, além de nós mesmos,
sem qualquer referente, além do sonho dos nossos mortos,
só com as armas de nossa história e de nossa memória,
olhando perto e longe nos calendários e nas geografias,

com nosso mote-guia: Servir aos outros, não a si mesmo Representar, não suplantar
Construir, não destruir
Obedecer, não Comandar
Propor, não impor
Convencer, não derrotar
Andar para baixo, não para cima.

Os povos Zapatistas, os índios zapatistas, as bases Zapatistas locais de apoio ao EZLN, com um novo modo de fazer política,

Nós fizemos
 Nós fazemos
Nós faremos
Liberdade.
LIBERDADE
NOSSA LIBERDADE!
-*-
Nota de esclarecimento:

Os textos que aparecerão nessa parte sétima e final de “Eles e nós” são excertos do “Livro de anotações do primeiro grau do curso: Liberdade segundo os Zapatistas. Governo Autônomo I” e do “Livro de anotações do primeiro grau do curso: Liberdade segundo os Zapatistas. Governo Autônomo II”.

A versão em espanhol é SÓ para compás que formam a Sexta (esperamos que haja traduções para as línguas originais, como determinou o Congresso Nacional Indígena, e para inglês, italiano, francês, português, grego, alemão, euskera, catalão, árabe, hebraico, curdo, aragonês, holandês, sueco, finlandês, japonês e outros idiomas, confore o apoio dos compás à Sexta por todo o mundo e que entendem da tarefa de traduzir).

Essas anotações são parte do material de apoio do curso que as bases de apoio Zapatistas darão aos compás da Sexta no México e em todo o mundo.

Todos os textos são de autoria das bases Zapatistas de apoio, homens e mulheres, e incluem não só o processo de luta por liberdade, mas também suas reflexões críticas e autocríticas sobre nosso caminho. Ou seja: mostram como nós Zapatistas vemos a liberdade, a nossa luta para alcançá-la e a defendemos.

Como nosso compañero Subcomandante Insurgente Moisés já explicou, nossos compás das bases Zapatistas de apoio partilharão o pouco que aprendemos sobre as lutas por liberdade; e os compás da Sexta podem ver o que lhes é útil ou não lhes serve, para suas lutas.


Essa aula, na escolinha Zapatista, como vocês sabem, chama-se “Liberdade segundo os Zapatistas” e será dada diretamente pelos compañeros e compañeras das bases de apoio ao EZLN, que desempenharam as várias funções de governo, vigilância e outras diversas responsabilidades, na construção da autonomia Zapatista.

Para ser admitido na escolinha, além do convite, os compás da Sexta e convidados especiais terão de assistir a uns poucos cursos preparatórios, prévios ou propedêuticos (ou seja qual for o nome que você dê aos cursos anteriores ao jardim de infância), antes de serem admitidos no “1º grau”. Esses cursos serão dados por compás das equipes de apoio à Sexta Comissão do Exército Zapatista de Libertação Nacional, EZLN e têm, como único objetico, oferecer-lhes os elementos da história neozapatista e de nossa luta por democracia, liberdade e justiça.

Nas geografias onde não haja compás de equipes de apoio, distribuiremos textos, de modo a que todos os convidados possam preparar-se.

Datas e horários, quer dizer, os calendários e cronologias dos cursos dados pelas bases de apoio Zapatistas, serão anunciados oportunamente, sempre levando em conta atentamente a situação de cada indivíduo, grupo ou coletivo convidado.

Todos os convidados ao curso receberão esses materiais, possam ou não possam viajar até o território Zapatista. Estamos estudando meios possíveis para alcançar seus corações, sejam quais forem seus calendários e geografias. Portanto, não se preocupem.

Assim sendo, OK. Viva! Agora, cuidem só de preparar o coração e, claro, os lápis e cadernos de anotação e notebooks.

Das montanhas do Sudeste do México.

Subcomandante Marcos.
Mexico, fevereiro de 2013.

P.S.  Vai aqui, também, uma lição de boas maneiras. Essa parte sétima e final da série “Eles e nós” consiste de várias partes e é SÓ para os compás da Sexta. Com a parte V (a qual, como essa numeração indica, é chamada “a Sexta”) e o final da parte VI. O olhar 6: Nós somos Ele”, é parte da correspondência privada que o EZLN, mediante seus porta-vozes, dirige aos compás da Sexta. Em cada parte, como fazemos aqui, indicamos claramente a quem os textos se dirigem.

Alertamos os que não são compás, e tentem zombar, criar polêmicas, discutir ou responder a esses textos, de que ler ou comentar correspondência alheia é coisa de fofoqueiros e/ou policiais. Observem bem, pois, o grupo em que se inscrevem. Além disso, esse tipo de comentário só reflete um racismo vulgar (vocês criticam tanto a televisão e, de fato, só sabem repetir clichês de televisão) e reitera a falta de imaginação de vocês (que é consequência da falta de inteligência e da preguiça de ler). Claro que terão de ampliar os limites da cantoriazinha de vocês, de “marcos não, EZLN sim”, para “marcos e moisés não, EZLN sim” e, em seguida, para “CCRI-CG não, EZLN sim”. Adiante, se ouvirem a palavra direta das bases de apoio Zapatistas (o que duvido que aconteça), terão de dizer “EZLN não, EZLN tampouco”), mas já será tarde demais.

Ora, mas não fiquem tristes. Rodaremos vídeos de Ricardo Arjona, Luis Miguel, Yustin Bibier ou Ricky Martin, e vocês se sentirão incluídos e interpelados. Até lá, fiquem sentados, olhos no calendário de cima (esses 3 ou seis anos passam depressa), andem um pouco para a direita (como estão acostumados a fazer), deem licença aí, que não queremos atropelar ninguém...

Dáááá-le, pessoal! Que venha o baile! Mexam-se!

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Assistam aos vídeos que acompanham esse texto:

“La Estrella del Desello” com Eulalio González El Piporro.
A trilha aparece também em versão reduzida, no filme La Nave de los Monstruos (1959, by Rogelio A. González). Nada têm a ver com o EZLN, mas meto-o aqui só prá chatear e saudar os compás do norte: não desistam! Vocês estão distantes, mas, mesmo assim, os alcançaremos com nosso olhar. Viva! ¡Ajúa!


“La Despedida”, com Manu Chao e Radio Bemba, numa comunidade indígena Zapatista:


“Brigadistak” com Fermín Muguruza


Na luta contra o Poder, não há fronteiras.

¡Marichiweu!
(“Venceremos! Cem vezes venceremos!” [em mapuche])



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Zapatistas rompem o silêncio: contra a elite mexicana


15/2/2013, Chris Arsenault, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chris Arsenault
Após anos de silêncio, confinados em suas comunidades de base na região sul, empobrecida, do México, os rebeldes zapatistas reemergiram, com uma série de declarações nas semanas recentes, tentando reinflamar as paixões em torno de suas demandas por “terra, liberdade, trabalho e paz”.


Em dezembro passado, 40 mil apoiadores dos zapatistas marcharam pelas ruas de várias cidades e vilas na província de Chiapas, reafirmando a própria presença. Em janeiro e fevereiro, o subcomandante Marcos – porta-voz dos zapatistas, com os indefectíveis cachimbo, balaclava e boné, branco e não indígena, personagem muito fortemente “midiático” – lançou uma série de comunicados em que vergasta o presidente do México, Enrique Peña Nieto, membro do Partido Revolucionário Institucional, PRI, que assumiu o poder em dezembro.

Marcha Zapatista silenciosa em Chiapas, México

“Nossas dores não diminuirão por nos abrirmos aos que fazem sofrer o mundo” – escreveu Marcos em janeiro passado, convocando os apoiadores. “Resistiremos. Lutaremos. Morrer? É possível. Mas, uma, dez, cem vezes, nós sempre venceremos”.

O grupo surgiu pela primeira vez nas manchetes da mídia internacional dia 1/1/1994, quando tomaram seis cidades no estado de Chiapas, estado do sul do México e uma das regiões mais pobres do país.

Para a Rand Corporation grupo de pesquisa com laços íntimos com o establishment militar norte-americano, Chiapas é “caracterizado por profundas diferenças, muito antigas, entre ricos e pobres – reproduzidas por proprietários de terra que mantêm seus feudos medievais protegidos por exércitos privados”.

Durante já quase duas décadas, os Zapatistas trabalham para construir um sistema de governo autônomo, com destaque para a dignidade dos indígenas e agricultura coletiva. Al-Jazeera tentou, sem sucesso, em parte porque não há acesso fácil por telefone, estabelecer contato com membros do grupo.

“Construir comunidades”

Antes das ações de dezembro e comunicados recentes, o grupo manteve-se em silêncio por vários anos. “Estavam ocupados, construindo a base social do movimento no nível comunitário, mesmo que não tenham aparecido na imprensa” – disse a Al-Jazeera, Mark Berger, professor visitante de Análise de Defesa na Academia Naval de Pós-graduação dos EUA –. “Hoje, entre 100 mil e 200 mil pessoas vivem em comunidades que apoiam os zapatistas”.

Subcomandante Marcos
Nos recentes comunicados, Marcos descreveu o governo do México como “estado zumbi controlado pela elite – declaração que ressoou entre alguns setores da população, num país em que a corrupção e a mais aguda desigualdade atacam como pragas.

Outras tentativas de unificar os movimentos sociais no México, de sindicalistas independentes a feministas, estudantes, punks e outros povos indígenas levaram sempre a resultados confusos. E, em 2006, os Zapatistas lançaram sua A Outra Campanha – que, embora não tenha obtido qualquer resultado na unificação do movimento social, mantém-se ativa, como se vê.

A Outra Campanha sempre foi crítica ativa da política eleitoral e provocou uma fratura na esquerda mexicana” – disse Alán Arias Marín, cientista político da Universidade Autônoma do México. “O movimento ainda tem apoio local [em Chiapas]”.

A volta do PRI

Enquanto isso, o México continua a debater-se com seus muitos outros problemas, a maioria dos quais associados à violência associada ao tráfico de drogas. Nos últimos 12 anos, o México foi governado pelos conservadores do Partido de Ação Nacional (PAN), liderado por Vicente Fox e Felipe Calderón. O PAN jamais teve qualquer interesse em enfrentar, nem os zapatistas, nem as graves questões, mais amplas, dos indígenas mexicanos. Hoje, o PAN está fora do governo, desenvolvimento que talvez altere a dinâmica política no que tenha a ver com os Zapatistas.
Marcha de protesto Zapatista

O PRI, que governou o México por 71 anos sem interrupções antes de 2000, estava no poder quando os Zapatistas rebelaram-se. A volta ao poder, ano passado, em eleições cercadas de acusações de fraude, do que o autor peruano Mario Vargas Llosa chamou de “a ditadura perfeita”, pode beneficiar os Zapatistas, agora que parecem interessados em reconstruir algumas alianças com movimentos sociais fora de Chiapas e renovar sua presença nacional.

“As forças sociais que ocuparam o Zocalo [praça central na Cidade do México] para impedir que o governo atacasse com força militar os rebeldes zapatistas [em 1994] continuam ativas” – diz Richard Stahler-Sholk, autor do livro Latin American Social Movements in the Twenty-First Century. “O governo mexicano promoveu a militarização do país, estimulado pelo governo dos EUA, para tentar responder à violência da droga”.

A guerra da droga já fez mais de 70 mil mortos no México desde 2006, e os EUA deram mais de $1,4 bilhão em ajuda militar ao México, sob a rubrica de combater os cartéis do crime.

Com a carnificina generalizada que varre grandes porções do território mexicano, ativistas clamam por uma nova abordagem na guerra às drogas. Com um movimento estudantil cada dia mais potente, que também faz oposição ao PRI, os Zapatistas têm, hoje, inúmeros possíveis novos aliados.

“Acho possível que os Zapatistas e o movimento estudantil ganhem muito mais tração agora, sob sistema político dominado pelo PRI” – diz Berger.

Enrique Peña Nieto
Peña Nieto pode converter-se em chamariz para novos protestos, repondo em cena o PRI, tradicional inimigo, histórico, dos Zapatistas. Durante seu mandado como governador [do estado do México], Nieto foi responsável pela violenta resposta policial contra manifestantes na cidade de San Salvador Atenco em 2006. Dois manifestantes foram assassinados, e um grupo de mulheres denunciou que foram sexualmente aterrorizadas pelas forças de segurança em manifestações contra a ampliação de um aeroporto.

O movimento de estudantes #yosoy132 foi constituído depois que um grupo de alunos de cursos secundários questionaram Nieto sobre esses ataques, durante a campanha presidencial em 2012. Indignados com as denúncias de fraude eleitoral e com a longa história de corrupção associada ao PRI, vários outros grupos estudantis também já se manifestaram na oposição ao novo governo.

“Rede de guerra” [orig. Net war] [1] 

Os jovens mexicanos não estão sós, na oposição ao status quo.

“O que começou como insurgência armada numa região isolada, converteu-se em pensamento não violento, em uma rede de guerra não armada, que atrái a atenção de muitos ativistas, alguns de bem longe do epicentro” – lê-se em relatório da Rand Corporation, sobre a operação por internet.

Em meados de janeiro, os Anonymous, movimento difuso de ativistas da internet, lançou, como se suspeita, um ciberataque que derrubou a página do Ministério da Defesa do México, declarando que a ação manifestaria solidariedade com os Zapatistas.

Marcha indígena Zapatista em Chiapas
Segundo alguns analistas, os Zapatistas – os quais, desde o primeiro dia serviram-se da Internet para buscar apoio – foram os precursores de um novo tipo de movimento social difuso, em tudo semelhante a movimentos como Occupy Wall Street, #yosoy132 e os protestos planetários contra a globalização.

Mas os benefícios tangíveis do ativismo por internet e o apoio que pode gerar são instáveis. “Os zapatistas fizeram história e muitas iniciativas internacionais logo os apoiaram” – diz Marín, professor na Cidade do México. Mas adiante, com a invasão dos EUA ao Iraque, muitas da ONGs que operam também por internet passaram a ter outras preocupações mais imediatas, diz o professor, para quem as ONGs são “confusas, sem foco ou coerência”.

Nos comunicados recentes, o subcomandante Marcos disse que os Zapatistas estão reavaliando seu relacionamento com inúmeros parceiros estrangeiros e domésticos. Grupos de ajuda humanitária, em especial serviços caritativos, têm sido criticados pelos revolucionários sem rosto.

Ideias revolucionárias

Se a guerra às drogas e a trilha que deixa, de milhares de cadáveres, contribuíram para afastar os Zapatistas da agenda internacional, a volta do PRI ao poder pode facilitar, para eles, o trabalho de se reposicionarem na grande arena dos debates internacionais.

No passado, sempre se acreditou que o PRI mantivesse acordos com os grandes cartéis de droga, para assim preservar a estabilidade no país. “O novo governo do PRI provavelmente abandonará a tática de guerra infinita contra o crime organizado” –prevê Berger. “Sem tanta guerra, será mais fácil para todos observar outras formas de fazer política”.  

Ainda não se pode afirmar que os Zapatistas conseguirão capitalizar a favor deles todas essas mudanças possíveis, mas o reaparecimento dos rebeldes ante a opinião pública está sendo acompanhado com muito interesse no México e em outras partes do mundo.

“Os comunicados recentes são especificamente orientados para reativar a base nacional e internacional de apoio” – disse, de Chiapas, um apoiador histórico dos Zapatistas, que, por motivos de segurança, pediu para não ser identificado. “Entendo que os Zapatistas esperam que as pessoas criem condições de autonomia e autossuficiência em seus diferentes contextos e áreas locais. Querem que os apoiadores carreguem a revolução com eles, p’ra casa”.



Nota dos tradutores
[1] A expressão aparece no relatório da Rand Corporation: “(...) o que está levando a uma nova modalidade de conflito – netwar [guerra em rede ou rede de guerra] – na qual os protagonistas dependem de organização em rede, com doutrinação em rede, estratégia em rede e tecnologia de rede. Muitos atores, em todo o espectro do conflito – de terroristas, guerrilheiros e criminosos que implicam ameaças de segurança, a ativistas sociais que podem não implicar qualquer ameaça de segurança – estão desenvolvendo projetos e capacidades para operar em rede. O movimento Zapatista no México é caso exemplar de netwar”.