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domingo, 14 de agosto de 2011

Os indignados: “Sobre Toni Negri”


“Nós vamos rolar de rir” 

Toni Negri em Veneza
14/8/2011, Sobre Toni Negri, Ed Emery [1], Le Monde Diplomatique 
Mass outrage e em Counterpunch
Traduzido e ilustrado pelo pessoal da Vila Vudu

“Mas que malandro sou eu
Pra ficar dando colher de chá
Se eu não tiver colher, vou deitar e rolar.”
(Vou deitar e rolar, Baden Powell)

Quando Toni Negri, agora aos 78 anos, escreve e fala, há sempre algum latim na sua fala profunda, mas o discurso é claro, disciplinado, lúcido e prazeroso. É como um abraço viril, muscular e poderoso, como tudo que sua formidável inteligência produz. Precisamos muito desse tipo de pensamento, porque os modelos esquerdistas do passado já não funcionam e algo novo tinha, sim, de ser inventado.

Seu livro Empire não sai das listas de mais vendidos nos EUA, mas Negri não tem partido,nem organização, nem legiões de seguidores. Diz ele: “Sinto-me um pouco isolado, porque sou e sempre fui extremista. Quem queira fazer carreira, ou manter relacionamento ‘estável’ com o mundo da política ordinária, evita envolver-se comigo.” Seu trabalho é teorizar as práticas passadas e as possibilidades futuras da revolução. Já há mais de vinte anos, escreve que as “classes” deram lugar à “multidão” como conceito e termo analítico. Seus adversários e detratores dizem que as massas não estão nas ruas, nas barricadas, aos gritos de “Somos a multidão”.

A Primavera Árabe pareceu bom momento para visitar Negri, uma vez que o que se vê nas principais praças de várias capitais em torno do Mediterrâneo é bem semelhante a multidão em ação, o que Negri disse em inúmeros artigos para vários jornais. Conversar com Negri é diferente de ler o que ele escreve, sobretudo no meu caso, que traduzo seus escritos para o inglês. 

Num trem para Veneza, no trevo ferroviário de Mestre, esse espaço paradisíaco de terra, vento e água, dou-me conta de que já fazem 40 anos que traduzo o que o Negri escreve. Vejo-me outra vez em Londres, no início dos anos 1970s, ambos ativistas recém saídos da universidade, vivendo numa comuna frequentemente visitada pela polícia. Tínhamos uma sala de impressão montada no porão (ainda sinto saudades do chug-chug da impressora Multilith 1250 Offset e do cheiro acre dos panfletos recém impressos). Um grande mapa da Itália na parede, porque a Itália era o coração do território da revolução da classe trabalhadora, para todas as fábricas da Europa.

Acabaram por concluir que éramos parte de uma conspiração internacional, o que, em certo sentido, éramos. Mostraram especial interesse por um documento que encontraram na minha gaveta, os papéis da Conferência da organização Potere Operaio (Poder Operário), que revolucionou o modo como entendíamos a luta de classes, pela periodização histórica das lutas trabalhistas, dividindo-as em ciclos. Negri foi uma das vozes no Potere Operaio que teorizou o “trabalhador-massa” que levou às lutas dos anos 1970s. Foi a fonte inspiracional que me pôs a traduzir tudo que ele escrevesse, embora meus esforços iniciais tenham sido descartados pela polícia e por ‘patrulhas’ ideológicas.

Aquela paisagem política do “trabalhador-massa” empregado em sistemas de trabalho medido por dia, fora ocupada por trabalhadores da indústria automobilística, estivadores, mineiros, operários da construção civil e seus sindicatos: um ciclo internacional de lutras trabalhistas capazes de derrubar governos. Tudo aquilo mudara. O capitalismo industrial baseado em classes trabalhadoras fabris dera lugar a um novo capitalismo, baseado em serviços financeiros, na economia digital, na produção e no comércio do conhecimento: “capitalismo cognitivo”. No território capitalista, já não se veem bancadas de ferramentas, mas manipulam-se, criam-se e valorizam-se dados e redes digitais. Facebook e Google são maiores que a General Motors. As novas massas, de “trabalho imaterial”, são a “multidão” de Negri.

Quando a onda de lutas fabris recuou, derrotada, a Itália entrou nos “anos de chumbo” (anni di piombo), o terrorismo político dos anos 1970-80s. Negri foi preso, com centenas de outros da esquerda autonomista (autonomia operaia) no primeiro dos movimentos de massa que começaram dia 7 de abril de 1979. Passou quatro anos na prisão, a partir de 1979, depois em exílio na França e depois novamente a prisão, na Itália. Negri conta a história desses anos em Diario di un’evasione (1985, Hachette) e Pipe-line. Lettere da Rebibbia (2009, Feltrinelli). Com o fim do sistema soviético, havia carência absoluta de reflexão forte que explicasse o novo estado do mundo. Negri embarcou em seu maior trabalho, com Michael Hardt na Duke University, e publicaram Império (2000), Multidão (2004) e Commonwealth (2009).

A ideia do “comum” 

Escapando ao bloqueio histórico a que a experiência soviética condenara o comunismo, Negri voltou à ideia do “comum” que sempre esteve na raiz daquele pensamento. Discute uma realidade gêmea de “commons”. Identificando a raiz da atual crise econômica, vê um “comum” capitalista, uma unificação e comunalidade (comunanza) dos interesses capitalistas, sobretudo nas finanças. “Às vezes, usando as palavras com excessiva imprecisão, há quem veja nisso ‘o comunismo do capital’. Aí está um ‘comum’ do qual temos de dar conta. E que temos de expropriar.” 

O conceito fundamental da tradição do operaísmo italiano é que o capitalismo sempre mapeia seus desenvolvimentos segundo as lutas e a resistência dos trabalhadores. Hoje, como efeito das lutas do trabalho nos anos 1970-80s, há uma comunalidade no trabalho, caracterizada pela imaterialidade, pelos conteúdos cognitivos e pela comunicação implícita em todas as áreas do trabalho em mundo capitalista. Nesse quadro, é indispensável modificar o modo como pensamos a organização da mudança social. Nas palavras de Negri: “A revolução já não visa a ocupar o Palácio de Inverno, como no tempo dos bolcheviques. Em vez disso, temos hoje essas formas de comum, essas formas de interação, a potência das redes, a pluralidade, a policontextualidade, que se vão expandindo cada vez mais amplamente”.

Mas como se pode organizar a fúria, a urgência e a agressividade que se viu no norte da África e na Espanha, Portugal e Grécia? Em Commonwealth Negri discute essa questão. 

Chama à fúria indignação e encontra raízes em Spinoza, que diz que na indignação descobrimos nossa força para agir contra a opressão. Mas o problema é como transformar esses momentos de fúria popular em instituições duráveis do poder do povo? Para Negri e seus companheiros, nessa fase do capitalismo todas as metrópoles tornaram-se arenas de produção e de resistência. Vivemos sob um sistema “biopolítico” (toda o campo da vida é político). A teoria revolucionária tem de ser desenvolvida no contexto biopolítico: inserir Marx no pensamento de Foucault. Assim sendo, qual a tarefa dos revolucionários? “Nossa tarefa é investigar o quadro organizacional das subjetividades antagonistas que nascem de baixo, baseados na indignação manifestada pelos sujeitos ante a opressão (...) a exploração (...) e a expropriação” (Michael Hardt e Toni Negri, Commonwealth).

Indignação talvez pareça conceito vago, mas, no instante em que escrevo, vejo pela televisão imagens da praça Sintagma, em Atenas, com milhares de manifestantes cercando o Parlamento grego, em protesto contra novas leis de ‘austeridade’. Numa enorme faixa, lê-se a palavra que simboliza o movimento: Aganaktismeni. Os indignados. Como, antes dos gregos, os espanhóis, Los indignados. Negri lá estava, de pleno direito.

Negri é sempre muito acessível. Nos anos 1980s, traduzi e publiquei um volume dos escritos de Negri, Revolution Retrieved (Toni Negri, Revolution Retrieved: Writings on Marx, Keynes, capitalist crisis and new social subjects (1967-83), ed. e trad. Ed Emery e John Merrington, Londres: Red Notes, 1983), em colaboração com John Merrington. Ainda tenho algumas cópias; da venda, recolho dinheiro que azeita as engrenagens da revolução. 

Semana passada, descobri que o livro foi escaneado por “Libertarian Communists” e distribuído pela rede gratuitamente, o que explica que minhas vendas, de repente, tenham caído a zero. Pedi que tirassem de lá o meu livro, mas não tiraram. Portanto, como presentinho meu aos leitores, aqui vão as instruções para baixar e imprimir, gratuitamente: basta clicar em Revolution Retrieved e imprimir. O livro leva o título de “Negri — Revolt at Trani Prison”. Aproveitem. 

Viajando para entrevistar Negri, também tinha planos de capturar algumas das histórias engraçadas que ele conta, de uma longa e profícua vida como filósofo, teórico, ativista, exilado e prisioneiro. O resultado são 13 curta-metragens que se encontram em YouTube; o primeiro é “The Revolt at Trani Prison” (1980) (Racconti curiosi no 13: “The Revolt at Trani Prison”.


A tragédia e as gargalhadas contêm um segredinho para a decifração do último parágrafo da trilogia. O coração e a alma da revolução, diz Negri, serão o riso. “Nossa risada é, afinal, a risada da destruição, a risada de anjos armados que acompanha o último combate contra o mal. Na luta contra a exploração capitalista (...) todos sofreremos terrivelmente, mas, seja como for, haverá risos de alegria. Nós os enterraremos por rir deles.” Ou, mais poeticamente, em italiano, Sarà una risata che vi seppellirà.



Nota dos tradutores
[1] Ed Emery é um dos animadores da Free University, Universitas adversitatis, “Universidade da Adversidade”.

domingo, 8 de maio de 2011

Vida e morte do bêbado equilibrista

*Otto Filgueiras (enviado por Vanderley Caixe)
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!...
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...
 (O bêbado e o equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc)


O operário aposentado Antonio Norival Soave, ex-militante da Ação Popular (AP), morreu na madrugada de 5 de abril de 2011 no Hospital das Clínicas de Porto Alegre e foi finalmente jogado para fora da ponte da vida.

Seu corpo foi cremado. Mas os sonhos desse operário que viveu rebelde, bêbado e equilibrista não serão queimados pelos antigos companheiros que continuam acreditando na esperança, vermelha, socialista.

Ele estava com a vida por um fio, lutando e tentando ludibriar a morte. Nos últimos sete meses, por conta de um tumor cancerígeno em um dos pulmões, ele emagrecera mais de dez quilos e perdera toda a massa muscular do lado esquerdo do corpo, pois o tumor inflamou, cresceu e pressionava algumas vértebras junto à coluna cervical.

A biópsia comprovou que se tratava do tumor maligno; carcinoma. E os médicos que o atenderam disseram não ser recomendável cirurgia e sim tratamento com rádio e quimioterapia, mas sem possibilidade de cura.

Quando ele ainda estava morando no ABC paulista falava com Soave por telefone todos os dias e num domingo de setembro do ano passado fui até Santo André, onde ele residia sozinho numa velha casa na rua Guadalupe 490, no bairro Parque das Nações, e constatei sua magreza esquelética, sentindo muitas dores e com o braço esquerdo praticamente paralisado. Vi um homem de 63 anos, mas que aparentava ter mais de 75, fragilizado pela doença.

Na visita encontrei sua filha Semíramis e a neta Camile, de um ano e meio de idade, que vieram de Porto Alegre dispostas a levar o pai e o nono para a capital do Rio Grande do Sul e assim tentar tratá-lo da terrível moléstia no Hospital das Clínicas gaúcho.

Por conta da sua aparência envelhecida, doente e pelas informações que obtive com a filha e irmãs de Soave, fiquei com a certeza de que o operário estava sem força física para prolongar o tempo que lhe foi concedido nesta terra.

No Hospital das Clínicas de Porto Alegre ele foi tratado com quimioterapia e radioterapia, até que os médicos identificaram que o câncer se ramificara para o cérebro, onde surgiram outros dois tumores malignos.

Um dos muitos personagens do livro que estou terminando de escrever sobre a organização de esquerda Ação Popular, Antonio Norival Soave nasceu em família operária, em Santo André, na região metropolitana paulista, em 24 de agosto de 1947. É o único varão entre quatro irmãs – Iracema, Aparecida, Tereza e Hilda -, filhos de José Soave e Roma Carolina Fantanesi, já falecidos e descendentes de migrantes do norte da Itália que vieram para o Brasil no final do século 19.

Em Santo André, a família Soave construiu os seus sonhos, primeiro vendendo frutas, verduras e legumes em feiras livres, e depois com macacões nas fábricas do ABC paulista, onde José Soave e Roma Carolina tornaram-se operários e trabalharam quase quarenta anos nas caldeiras e tecelagens de indústrias têxteis.

Da mesma forma que os pais operários, e morando em Santo André, no ABC paulista, desde que nasceu, Antonio Norival Soave começou a trabalhar ainda menino. Com apenas 11 anos já levantava às 3 horas da madrugada para trabalhar na feira. Depois, já com 14 anos tornou-se operário na linha de montagem da Pirelli, onde fazia moldes de colchões de espuma látex. A empresa também produzia pneus, cabos, fios, entre outros produtos.

Em 1 de abril de 1964 ele tinha 16 anos, quando o então presidente da República, João Goulart, foi deposto pelo golpe civil-militar e trabalhava na Cooperativa da Rhodia. Um ano depois foi demitido por participar de greve por melhores salários, mas em seguida conseguiu trabalho como preparador de máquinas na metalúrgica Cima (Companhia Industrial de Materiais Automobilísticos) e se filiou no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.

A partir de 1966, além de atuar no movimento sindical, ele começou a militar na organização política de esquerda Ação Popular, que também atuava entre os operários no ABC paulista, com origem principalmente na JUC (Juventude Universitária Católica), e tinha sido fundada em Salvador (BA), em 1963.

A partir de 1966 é que ele foi entender melhor as coisas da política e a mecânica da vida, suas leis e contradições. Ele viveu aquele momento do Brasil da resistência ao golpe militar e em 1968 já estava trabalhando como inspetor de qualidade na Chrysler do Brasil, em São Bernardo do Campo, quando explodiram greves, manifestações estudantis e populares contra a ditadura pelo país. Na Chrysler ele participou da organização de paredes por melhores salários e melhores condições de trabalho. E teve atuação destacada no Primeiro de Maio de 1968, na Praça da Sé.

Em Santo André, ele e seus camaradas começaram a organizar o primeiro de maio de 1968 com uma passeata de 20 mil pessoas pelas ruas da cidade. E depois alugaram vários ônibus para trazer os trabalhadores de São Bernardo e de Santo André até a Praça da Sé, onde já estavam operários de Osasco, de São Paulo e do interior paulista, além de muitos estudantes.

Soave estava à frente dos operários da Mercedes Benz que romperam o cerco dos agentes do DEOPS, na Praça da Sé, e ocuparam o palanque onde estavam os representantes da ditadura, entre os quais o então governador Abreu Sodré, seu Secretário de Finanças, Delfim Neto, e os pelegos das diretorias do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e da Federação dos Metalúrgicos, que tinham preparado uma comemoração oficial e festiva para o regime militar.

No momento em que os operários ocuparam o palanque, pelegos e representantes da ditadura saíram correndo, o microfone foi entregue ao líder sindical da oposição e militante da AP José Nanci, que discursou e denunciou o regime militar, conclamando o povo a enfrentá-lo, exigindo democracia e liberdades democráticas, liberdade de atuação sindical e o fim do arrocho salarial.

Depois os operários saíram em passeata, com milhares de pessoas, até a Praça da República, onde o líder metalúrgico de São Bernardo do Campo, José Barbosa, militante da AP e recentemente falecido, também discursou, denunciando a ditadura.

A partir de então José Nanci, o operário José Barbosa, além de outros sindicalistas de oposição e muitos de militantes da AP passaram a ser perseguidos pela polícia política da ditadura. Ainda assim eles conseguiram realizar greves na Chrysler, na Mercedes Benz, na Volkswagen, na Wyllis Overland do Brasil que hoje é Ford, e em algumas outras indústrias menores do ABC, onde a AP tinha atuação.

A repressão não tardou a chegar. No final daquele ano de 1968, quando a ditadura baixou o Ato Institucional número 5, centenas de operários foram sendo demitidos e perseguidos no ABC, a exemplo do que aconteceu com Antonio Norival Soave, em janeiro de 1969, quando foi dispensado da Chrysler por causa das lutas que ele e outros operários estavam levando adiante.

O cerco da ditadura aos movimentos sindical e popular ficou ainda pior com a nova Lei de Segurança Nacional que entrou em vigor em setembro de 1969, e depois que Emílio Garrastazu Médici foi escolhido para ser o novo general-presidente da ditadura desde dezembro daquele ano. Além disso, em maio de 1970, a famigerada Operação Bandeirantes, de São Paulo, foi legalizada e passou a se chamar DOI-CODI.

Organizados em várias capitais brasileiras, os DOI-CODI se tornaram uma espécie de campos de concentração, de tortura e assassinatos praticados pelo regime militar e, junto com o Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), Centro Nacional de Informações da Marinha (CENIMAR) e Serviço de Informação do Exército (CIEX) e os DEEOPS, estabelecem um regime ainda mais sanguinário contra os brasileiros, contra as organizações políticas de esquerda e os movimentos de oposição à ditadura.

Era o tempo do "milagre econômico" dos militares, que precisavam de um Brasil sem resistência à nova etapa de brutal acumulação capitalista no país. Um "milagre" baseado no arrocho dos salários dos operários, com o aviltamento de suas condições de vida, com a retenção ao máximo da mais-valia do trabalho produzido.

Depois de demitido da Chrysler, Antonio Norival Soave fez testes de inspetor de qualidade na Volkswagen, passou com as notas mais altas, passou nos testes da Wyllis Overland do Brasil, mas não foi admitido em nenhuma delas porque havia uma lista negra entre as indústrias, que perseguiam os operários que ousavam lutar. Muitas vezes ele chegou a entrar na fila de emprego da Mercedes Benz, mas o chefe do departamento de pessoal já o tinha identificado e sempre o mandava sair.

Apesar de toda a repressão, o operário e seus companheiros continuaram a lutar e o preço disso foi a perseguição e prisão de centenas e centenas de pessoas pela polícia política da ditadura.

Antonio Norival Soave estava entre elas e a sua prisão ocorreu em 20 de outubro de 1973, quando foi seqüestrado por agentes do DOI-CODI, sob armas, por volta das 19 horas, na rua Oratório, no bairro Parque das Nações, em Santo André, próximo à casa dos seus pais. Naquele dia tinha passado na casa da família, que estava sendo vigiada e não sabia.

Depois de imobilizado pelos agentes do Exército, foi colocado num carro e levado para a rua Tutóia, onde funcionava uma delegacia de polícia do estado de São Paulo e utilizado pelo DOI-CODI, também chamado de OBAN - Operação Bandeirantes -, que aplicava os meios mais hediondos de tortura para obter informações e liquidar a oposição ao regime militar.

Lá chegando, ele foi colocado em um compartimento debaixo de uma escada que servia de depósito dos cavaletes usados na tortura do pau-de-arara. Pouco tempo depois, foi retirado desse compartimento por dois torturadores com tapas e socos e levado até a sala de torturas.

Sob o comando do "Capitão Ubirajara", chefe da equipe B da OBAN, e com a permissão do então major do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI e conhecido como "o carniceiro da rua Tutóia", ele foi colocado na "cadeira do dragão", onde ficou levando choques elétricos nos dedos e braços. Em seguida, foi despido e colocado no pau-de-arara onde por toda a noite os torturadores intercalavam socos e pontapés, batiam com palmatória nas nádegas e aplicavam choques elétricos nos testículos, pênis, anus, dedos das mãos e dos pés, na garganta, língua, orelhas e no interior dos ouvidos, quando perfuraram seus tímpanos.

No início da manhã, após dois desmaios, ele foi medicado por um médico do Exército e levado para uma sala totalmente vedada e com iluminação por 24 horas, lá ficando completamente isolado durante uns 40 dias, e saindo somente para a sala de torturas.

Depois desse período, foi levado para a cela X 1, onde estavam outros presos, e os interrogatórios e tortura psicológica continuaram. Em 29 de novembro de 1973, conduziram-no para prestar o depoimento formal no DEOPS e no mesmo dia trazido de volta para o DOI CODI, onde continuou incomunicável até os dez primeiros dias do mês de dezembro daquele ano, quando a sua prisão foi finalmente admitida e os torturadores permitiram que sua família o visitasse.

Na segunda quinzena de dezembro de 1973, foi transferido com outros companheiros para o presídio do Hipódromo, onde continuou preso sem assistência médica, o que agravou o problema nos ouvidos perfurados durante as torturas.

Somente em março de 1974 é que a ditadura encaminhou para a 1ª Auditoria da 2ª Circunscrição Judiciária Militar a denúncia contra ele e outros presos, acusados e processados por militância na organização política de esquerda Ação Popular Marxista Leninista do Brasil.

Em 9 de abril daquele ano foi qualificado e interrogado na Auditoria Militar, quando denunciou as torturas a que foi submetido, denunciou o desaparecimento e assassinatos dos seus companheiros Paulo Stuart Wright, José Carlos da Mata Machado e Gildo Macedo Lacerda, militantes da Ação Popular, mortos pela ditadura de Emílio Garrastazu Médici.

Em agosto de 1974, no julgamento do tribunal militar, ele foi condenado a dois anos de prisão e, portanto, reconduzido ao presídio do Hipódromo para cumprir a pena, de onde foi transferido depois para a Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru), e mais adiante para o Presídio da Justiça Militar Federal (Romão Gomes), que funcionava no interior do Quartel da Polícia Militar do Estado de São Paulo, no bairro Barro Branco.

Finalmente, na segunda quinzena de maio de 1975, após julgamento no Superior Tribunal Militar (STM), que em sessão realizada em 16 de maio de 1975 decidiu reduzir sua pena para 16 meses de reclusão, Soave foi libertado depois de passar 19 meses na prisão, incluindo o período em que esteve encarcerado e torturado no DOI-CODI.

Quando saiu da cadeia Antonio Norival Soave estava com uma perda acentuada de audição, problema que foi relatado por mim na época em carta dirigida ao advogado Hélio Navarro, em 13 de maio de 1975, que denunciou o fato no STM e entregou a carta ao Congresso Nacional. Posteriormente, em 1978, trecho da carta foi publicado pela revista IstoÉ.

Depois de sair da prisão, Soave se apaixonou e casou com Nilce Azevedo Cardoso, também ex-militante da AP, e mudou para Porto Alegre (RS), onde tiveram dois filhos, Semíramis e Paulo.

Nesse período, Soave combateu com o povo brasileiro na luta da anistia, pela volta do irmão do Henfil com tanta gente que saiu... Ainda atuou na organização e fundação do Partido dos Trabalhadores e trabalhou no jornal O Companheiro.

Mas o seu casamento com Nilce fracassou e, embora continuassem amigos e solidários, eles se separaram. Morando sozinho em Porto Alegre, com problemas de saúde, incluindo a perda de muitos dentes, deprimido e praticamente sem amigos, Soave voltou para Santo André em 1997, foi morar com seu pai José, que estava muito doente e com o mal de Alzheimer.

Em junho de 1998, o operário sofreu um acidente quando pintava a casa, teve o globo ocular esquerdo perfurado por uma faca e desde então estava completamente cego de um olho e enxergando apenas 40% com o olho direito, assim mesmo com ajuda de óculos e lente de contato.

De lá para cá o pai José terminou morrendo, velhinho, mas sempre amparado e bem cuidado pelo filho e filhas até o instante final.

Mais uma vez morando sozinho, embora sempre visitado por suas irmãs, pelos filhos Semíramis, Paulo e a ex-mulher Nilce, Antonio Norival Soave ou Ernesto e Bento (nomes pelos quais seus amigos da AP o conheceram) teve pneumonia e outros graves problemas de saúde.

Ernesto Soave sobrevivia materialmente com muitas dificuldades e contava apenas com aposentadoria de pouco mais de um salário mínimo. Seu plano de saúde era o SUS, a exemplo do que acontece com os brasileiros pobres, a imensa maioria da população do Brasil privatizado.

Na verdade, Ernesto Soave vivia igual ao Bêbado e o Equilibrista, da canção de João Bosco, Aldir Blanc e eternizada na voz de Elis Regina.

Mas o homem não desistia da caminhada, solitária, embora aos tropeços, desequilibrando-se e lutando para não ser jogado fora da ponte da vida.

Retraído e solitário, política, pessoal e socialmente, ele sentia falta dos velhos amigos, antigos camaradas e não conseguiu fazer novas amizades para compartilhar alegrias, tristezas e dores inerentes à vida.

Mas esse bêbado equilibrista permanecia embriagado pelos sonhos socialistas e teimava com teimosia vermelha no direito de sonhar.

E continuou sonhando até o dia em que tombou, seu sangue coalhou, ele dormiu para sempre e nunca mais vai acordar.

Viverá na eternidade e despertará apenas no derradeiro sonho, quando estará mais uma vez com o macacão sujo de graxa, caminhando pelas fábricas do ABC paulista e lutando com a sua gente contra a espoliação capitalista, pela revolução socialista e libertação da sua classe.

Nesse derradeiro sonho, com certeza, Ernesto Soave lembrará aos seus antigos camaradas, e aos que virão depois de nós, que os revolucionários socialistas não podem perder a ternura jamais. Mas ainda assim esse operário, que lutou e viveu com a mesma brandura e suavidade que carregava no sobrenome, dizia que os revolucionários de ontem e de hoje não podem se esquecer de que a vida dos pobres na sociedade capitalista é dura, pesada.

Por isso mesmo, homens e mulheres precisam sonhar. Mas com a condição de acreditar nos seus sonhos, de examinar atentamente a vida real e de confrontar seus sonhos com a realidade. Aí, então, dizia o operário rebelde, bêbado e equilibrista, mulheres e homens conseguirão finalmente realizar as suas fantasias.

*Otto Filgueiras é jornalista.