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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Quebrar o feitiço neoliberal: Europa, terreno de luta

2/1/2014, Euronomade, [*] Autores: Sandro Mezzadra e Toni Negri
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Países da Zona do Euro (moeda única da Europa)
(clique na imagem para aumentar)
Quem, como nós, não tem interesses eleitorais, está na melhor posição para reconhecer a grande importância que terão em 2014 as eleições ao Parlamento Europeu. É fácil prever que na maior parte dos países implicados haverá alta abstenção e significativa afirmação das forças “eurocéticas”, unindo à retórica da “soberania nacional”, a hostilidade contra o euro e contra os “tecnocratas de Bruxelas”. Para nós, não é nada bom.

Estamos convencidos há tempos de que por baixo do perfil normativo, como por baixo da ação governamental capitalista, há uma Europa cuja integração já ultrapassou o portal do irreversível. O realinhamento geral dos poderes na crise – em torno da centralidade do Banco Central Europeu e o que se define como “federalismo executivo” – modificou sem dúvida a direção do processo de integração, mas não pôs em discussão a continuidade daquele processo. A própria moeda única mostra-se hoje consolidada na perspectiva da união bancária: é necessário responder à violência com que essa união bancária manifesta o mando capitalista; mas volta às moedas nacionais significa não entender qual é o terreno no qual se disputa hoje a luta de classes.

É verdade que a Europa é hoje uma “Europa alemã”, cuja geografia econômica e política vai-se reorganizando em torno de relações concretas de força e de dependência, que se refletem até no nível monetário. Mas só o feitiço neoliberal explica que se confundam a irreversibilidade do processo de integração, de um lado; e de outro a impossibilidade de modificar os conteúdos e as direções; de fazer agitarem-se dentro do espaço europeu a força e a riqueza de uma nova hipótese constituinte.

Quebrar esse feitiço neoliberal significa redescobrir hoje o espaço europeu como espaço de luta, de experimentação e de invenção política. Como terreno sobre o qual a nova composição social dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos pobres abrirá talvez uma perspectiva de organização política. Lutando sobre o terreno europeu, uma organização assim terá a possibilidade de golpear diretamente a nova acumulação capitalista. E só no terreno europeu é possível propor tanto a questão do salário como da renda; redefinir os direitos como nova dimensão do Welfare; tanto as transformações constitucionais internas nos países individuais, como a questão constituinte europeia. Hoje, não há realismo político se não nesse terreno.

Parece-nos que as forças de direita compreenderam há tempo que a irreversibilidade da integração assinala hoje o perímetro do que resulta política e praticamente pensável na Europa.

Angela Merkel
Em torno da hipótese de aprofundamento substancial do neoliberalismo, já se organizou um bloco hegemônico que inclui variantes significativamente heterogêneas (das aberturas não só táticas na direção de uma hipótese socialdemocrata de Angela Merkel, à violenta constrição repressiva e conservadora de Mariano Rajoy). As mesmas forças de direita que se apresentam como “antieuropeias”, pelo menos nos seus componentes mais informados, jogam sua opção sobre o terreno europeu, com vistas a ampliar os espaços de autonomia nacional que estão bem presentes na Constituição Europeia, e recuperando, num plano meramente demagógico, o ressentimento e a fúria disseminados em amplos setores da população, depois de anos de crise.

A referência à nação mostra-se como o que é: transfiguração de um sentido de impotência em agressividade xenófoba; defesa de interesses particulares imaginados como arquitrave de uma “comunidade de destino”. Por outro lado, a esquerda socialista, embora não fazendo parte do bloco hegemônico neoliberal, não consegue diferençar-se eficazmente daquele bloco no momento de elaborar propostas programáticas de signo claramente inovador. A candidatura de Alexis Tsipras, líder do partido Syriza, à presidência da Comissão Europeia, tem importância indubitável nessa ordem de coisas; já determinou em muitos países uma positiva abertura do debate de esquerda. Em outros países, contudo, ainda parecem prevalecer os interesses de pequenos grupos ou “partidos”, incapazes de desenvolver discurso político plenamente europeu.

Com as coisas nesse pé, por que as eleições europeias de maio próximo nos parecem importantes?

Alexis Tsipras
Em primeiro lugar, porque tanto o relativo reforço dos poderes do Parlamento, como a designação pelos partidos de um candidato à Presidência da Comissão, fazem da campanha eleitoral, necessariamente, um momento de debate europeu, no qual as diversas forças ficarão obrigadas a definir e anunciar, pelo menos, algum esboço de programa político europeu. Parece-nos pois que aqui se apresenta a ocasião para uma intervenção política dos que se batem para quebrar tanto o feitiço neoliberal como seu corolário, segundo o qual a única oposição possível à atual forma da União Europeia seria o “populismo” antieuropeu.

Não se exclua, de início, que essa intervenção possa encontrar interlocutores entre as forças que se movem no terreno eleitoral. Mas estamos pensando, antes de tudo, numa intervenção de movimento, que consiga deitar raízes no interior das lutas que se desenvolveram nos últimos meses, embora de diferentes maneiras, em muitos países europeus – com intensidade significativa inclusive na Alemanha. É decisivamente importante voltar a habilitar um discurso programático – e isso não é possível exclusivamente dentro e contra o espaço europeu.

Mariano Rajoy
Não vemos como se poderia questionar sociologicamente, de modo adequado, a “composição técnica de classe” de um ponto de vista messiânico acima da “composição política” adequada. Do mesmo modo, não haverá movimentos de classe vitoriosos que não tenham interiorizado a dimensão europeia. Não seria a primeira vez, mesmo na história recente das lutas, que esses movimentos ver-se-iam forçados pelo marco político a se modificarem, voltando a experiências locais, até se verem asfixiadas em clausuras sectárias. Trata-se de reconstruir imediatamente um horizonte geral de transformação, de elaborar coletivamente uma nova gramática política e um conjunto de elementos de programa que possam agregar força e poder no interior das lutas. Aqui e agora – repetimos – a Europa nos parece ser o único espaço no qual isso é possível.

Um ponto nos parece particularmente importante. A violência da crise fará sentir seus efeitos ainda por muito tempo. Não há “recuperação” à vista, se por recuperação se entender diminuição significativa do desemprego, diminuição do precarismo [1] e relativo reequilíbrio dos ganhos. Mesmo assim, parece que se possa descartar o aprofundamento da crise. O acordo sobre o salário mínimo, sobre o qual de fundamenta a nova coalizão na Alemanha, parece indicar, mais, um ponto de mediação no terreno do salário social que pode funcionar – em geometria e geografia variáveis – como critério de referência geral para a definição de um cenário de relativa estabilidade capitalista na Europa.

É um cenário, não a realidade atual, e é um cenário de relativa estabilidade capitalista. Para a força de trabalho e para as formas da cooperação social, esse cenário assume como dados de partida a extensão e a intensificação do precarismo, a mobilidade forçada dentro do espaço europeu e fora dele, o desclassamento de quotas relevantes do trabalho cognitivo e a formação de novas hierarquias dentro do trabalho cognitivo, determinados pela crise.

Mas em geral, o cenário de relativa estabilidade de que falamos constata a plena hegemonia de um capital cujas operações fundamentais têm natureza extrativa, quer dizer: combinam a persistência de uma exploração de tipo tradicional, com intervenções de “subtração” direta da riqueza social (mediante dispositivos financeiros, mas também porque assumem “bens comuns”, como, dentre outros, saúde e educação, como terreno privilegiado de valoração). Não por acaso, os movimentos compreenderam que nesse terreno travam-se as lutas que podem golpear o novo regime de acumulação.

Nesse cenário trata-se, obviamente, de saber perceber a especificidade das lutas que se desenvolvem, de analisar sua heterogeneidade; e de medir sua eficácia em contextos políticos, sociais e territoriais que podem ser muito diferentes.

Mas trata-se também de propor os problemas de tal modo que as lutas possam convergir, multiplicando sua própria potência “local”, mas dentro do marco europeu. Enquanto isso, delinear os novos elementos do programa pode ser feito mediante a escrita coletiva de uma série de princípios dos quais não se pode abrir mão, no terreno do Welfare e do trabalho; da fiscalidade e da mobilidade; das formas de vida e do precarismo, em todos os terrenos sobre os quais se expressaram os movimentos na Europa.

O que estamos pensando não seria uma carta de direitos redigida de baixo para cima que se apresentaria a alguma instância institucional: é, mais, um exercício de definição programática que, como começa a mostrar a “Carta de Lampeduza” essas semanas, no que tenha a ver com migração e asilo, possa converter-se em instrumento de organização no nível europeu. Sem esquecer que, nesse trabalho, podem aparecer impulsos decisivos, mesmo, imediatos, para construírem-se coalizões de forças locais e europeias, sindicais e cooperativas, em movimento.


[1] Há uma tendência no Brasil, a preferir-se “precariedade” a “precarismo”. Optamos por “precarismo” para evitar uma arapuca semântica: todos os substantivos construídos com o sufixo “-idade” (como “precariedade”) são, necessariamente, sempre, substantivos abstratos (de fato, em praticamente todas as línguas em que o sufixo ocorre). Não nos parece razoável acrescentar, a todas as dificuldades do precariato, mais essa dificuldade – terrível! – apresentar precariato mediante exclusivamente por um traço abstrato. Por piores que sejam os “-ismos”, entendemos que nenhum deles seria o que é sem a luta muito concreta dos que lutaram por eles, ou neles e, claro, também contra eles.
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[*] Autores: Sandro Mezzadra e Toni Negri

Sandro Mezzadra é professor na Universidade de Bolonha. Os seus estudos concentram-se na história das ideias políticas e na teoria política. Nos últimos anos, tem-se debruçado sobre a relação entre globalização, migração e cidadania. Esteve igualmente envolvido na luta pelo direitos dos migrantes, nomeadamente no âmbito do primeiro dia de acção contra a reunião do G-8 em Génova (Itália) em 2001, dedicado às questões da migração, bem como nos fóruns sociais italianos. Entre as suas publicações, destacamos Diritto di fuga. Migrazioni, cittadinanza, globalizzazione, Verona, Ombre corte, 2001.

Antonio Negri, também conhecido como Toni Negri é um filósofo político italiano, tradutor dos escritos de Filosofia do Direito de Hegel, especialista em Descartes, Kant, Espinosa, Leopardi, Marx e Dilthey, tornou-se conhecido no meio universitário sobretudo por seu trabalho sobre Espinosa, mas sua atividade acadêmica sempre foi intimamente ligada à atividade política. Negri ganhou notoriedade internacional nos primeiros anos do século XXI, após o lançamento do livro Império - que se tornou um manifesto do movimento anti-globalização - e de sua sequência, Multidão, ambos escritos em co-autoria com seu ex-aluno Michael Hardt.



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Toni Negri: “A abdicação do papa alemão”


16/2/2013, Toni Negri, Uninomade
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Antonio Negri
Há mais de 20 anos, aparecia a encíclica Centesimus Annus, do papa polonês, por ocasião do centenário da Rerum Novarum – que fora o manifesto reformista, fortemente inovador, de uma igreja que se desejava, dali em diante, representante exclusiva dos pobres depois da queda do império soviético. Meus camaradas parisienses da revista Futur Antérieur e eu, dedicáramos um comentário a esse documento que era, ao mesmo tempo, reconhecimento e desafio. Levava o título de “A 5ª Internacional de João Paulo II". [La Cinquième internationale de Jean-Paul II].

22 anos depois, o papa alemão abdica. Declara-se não apenas fatigado no corpo e incapaz de dar conta das confusões e da corrupção da Cúria Romana, como também impotente, na alma, para enfrentar o mundo. Mas essa abdicação só surpreenderá os cortesãos da Cúria – todos os que prestem atenção aos assuntos da Igreja romana sabem de outra abdicação, muito mais profunda, que aconteceu já há tempos, já sob João Paulo II, quando, com o ardente apoio de Ratzinger, aquele papa pos fim à abertura para os pobres e ao engajamento por Igreja renovada no empenho pela libertação dos homens da violência capitalista e da miséria. Aquela encíclica de 1991 teria sido pura mistificação? Hoje, é imperioso reconhecer que é possível que sim.

Bento XVI
De fato, na América Latina, a Igreja católica cancelou todo o apoio à teologia da libertação; na Europa, voltou a reivindicar a ordo-liberalismus; na Rússia e na Ásia logo se viu incapaz de desenvolver o proselitismo que a nova ordem mundial permitia-lhe; e nos países árabes e iranianos, a Igreja católica viu os muçulmanos, em suas diversas seitas e frações, tomarem o lugar do socialismo árabe (e frequentemente cristão) e do comunismo xiita, na defesa dos pobres e do prosseguimento das lutas de libertação. Nem a aproximação com Israel aconteceu em nome do antifascismo e da denúncia dos crimes dos nazistas, mas em nome de defender o Ocidente.

O paradoxo mais significativo apareceu no fato de que o grande élan missionário (que se desenvolvera de modo autônomo depois do Vaticano II) foi transferido para ONGs, rigidamente especializadas e desprovidas de qualquer traço genericamente “franciscano”. Essas ONGs terminaram engajadas na prática desses “direitos humanos” que a Igreja (e os dois papas, o polonês e o alemão) recusou-se a reconhecer nos países da Europa ou da América do Norte, onde esses direitos ainda manifestavam, com uma ressonância anticlerical e republicana, as instâncias (residuais, mas eficazes) do laicismo humanista e das Luzes. Em vez de ficar à esquerda da social-democracia, como propunha a encíclica Centesimus Annus, o papado curvou-se à direita do quadro social e, politicamente, na direção de uma direita que tentava seduzir os militantes dos Tea Parties (também os europeus).

E eis que, agora, o papa alemão abdica. É quase cômico ouvir o que diz a imprensa-empresa em toda essa parte do mundo que ainda se interessa pelo evento (bem limitada, é verdade, se se considera o espaço mundial). Pede que o novo papa reconheça o ministério eclesiástico às mulheres; que torne a gestão da Igreja burguesmente colegiada; que lhe garanta posição independente em relação à política... Demandas banais, que, claro, passam longe do essencial. O que falta à Igreja é a pobreza.

Seria afinal hora de compreender que o papa não é uma espécie de rei, mas que tem de ser pobre; só pode ser pobre. Tentarão mascarar esse problema, dessa vez, promovendo ao papado um africano ou um filipino? Que terrível gesto racista, se o Vaticano e seus ouros e bancos e dogmas políticos a favor da propriedade privada e do capitalismo continuarem brancos e ocidentais! E pedem que as mulheres ganhem o direito ao sacerdócio. É pura hipocrisia, de gente a quem não ocorre sequer a ideia de que Deus também se declina no feminino. Querem gestão colegiada da Igreja? Mas já Francisco de Assis ensinava, nos seus dias, que só há colegiado, na caridade. Etc., etc..

Cardeal Carlo Martini
A Igreja do papa polonês e do papa alemão concluíram o processo de aniquilar o Concílio Vaticano II, mas essa liquidação jamais foi uma “guerra civil” no seio da Igreja de Roma. Não passou de disputa com florete entre prelados – até quando se viu sangue, como no caso da neutralização do cardeal Martini, mas nem assim jamais passou de esgrima. Pondo uma pedra sobre o Concílio, os dois últimos papas bloquearam um impetuoso movimento e renovação religiosa. Acima de tudo, confundiram Igreja e Ocidente; cristianismo e capitalismo: precisamente o que a encíclica Centesimus Annus prometera nunca mais fazer, saídos nós todos da histeria antissoviética.

Mas não bastaria vaiar o estandarte da pobreza, para subordinar o cristianismo às formas de vida do ocidente capitalista: seria necessário praticar a pobreza, alimentá-la, como uma revolução. Face às crises monetárias, da produção e da sociedade, os cristãos esperariam da Igreja nova definição adequada para “caridade”, “amor ao próximo”, para “a potência da pobreza”. Não conseguiram. E muitos militantes cristãos ainda se recusam a ver o declínio paralelo que o Vaticano e o Ocidente parecem viver hoje, lado a lado.

Há quem pense que “a renúncia de Bento poderá eventualmente conduzir a Igreja para fora do século 19”; outros, que produzirá reflexão profunda e o reconhecimento de que é necessária uma reforma. Mas os que entendem que estamos ante “a agonia de um império doente” não terão muito mais razão? E que esse ato de Bento nada é além de álibi oportunista, tentativa desesperada para arrancar-se da crise?

A única coisa que se sabe é que qualquer reforma da doutrina, seja qual for, será completamente inútil se não vier precedida, acompanhada e realizada numa reforma radical da presença social da Igreja, de seus homens e suas mulheres. Só se conseguirem conectar a esperança celeste e a esperança terrestre. Em outras palavras, se voltar a falar da “ressurreição dos mortos” com atenção aos corpos, ao alimento, às paixões dos homens vivos. Isso implica romper com a função que o ocidente capitalista confiou à Igreja – a função de pacificar, com esperanças ocas, o espírito dos que sofrem; de culpabilizar a alma dos que se rebelam.

A descontinuidade produzida pela abdicação de Bento suscitará efeitos de renovação, se vier acompanhada da recusa a representar “a Igreja do Ocidente”.

É tempo, mesmo, de destruir essa identidade, na trilha do que propunha a encíclica Centesimus Annus há mais de 20 anos. É tempo de reconhecer aos trabalhadores a identidade de explorados, no ocidente, pelo ocidente. Mas, se o papa polonês de então não conseguiu, difícil crer que alguns de seus discípulos, sem qualquer carisma, consiga. O trabalho, então, está entregue aos cristãos. E a todos nós.


sábado, 10 de novembro de 2012

Toni Negri: “É necessário voltar às palavras que significam”


2/11/2012, entrevista de Toni Negri concedida aos jornalistas Ariel Pennisi e Adrián Cangi do jornal La Nación, Buenos Aires, Ar.
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Toni Negri
Antonio Negri é filósofo que atravessa as transformações e os debates do século 20 a partir de uma relação especial entre consistência conceitual e militância política. É pensador que rejeita a imagem do intelectual como “profeta” e que, ao mesmo tempo, valoriza a capacidade da multidão heterogênea e dinâmica.

Sua leitura de Marx vai além do Estado como figura organizadora e reatualiza a ideia de trabalho como capacidade para criar, estabelecer vínculos e organizar novos modos de institucionalidade. Essas novas instituições não se baseiam no pressuposto de que o homem seja “o lobo do homem”, mas numa concepção afirmativa e igualitária das capacidades. Na prisão, encontrou em Spinoza seu principal aliado; ali refletiu sobre a solidão e a comunidade. Chegou a dizer que “é possível, talvez, construir o futuro de dentro do cárcere”.

Em tempos em que a política como potência da multidão é o único antídoto aos fundamentalismos – entendidos como imposição de valores transcendentes em todas as ordens – Negri defende que “a resistência dos corpos produz a subjetividade não numa condição isolada e individualista, mas num complexo dinâmico no qual se concatenam as resistências dos outros corpos”. Assim, liga a resistência contra novas formas de exploração à produtividade dos corpos coletivos e singulares (experiências populares, organizações sociais e diversos modos de associação entre pessoas). O trabalho não pode ser parcializado, nem dividido como em outros tempos; por isso, Negri recorre a uma noção ampliada de corpo como capacidade de compor-se para aumentar a potência; e a um novo olhar sobre a inteligência como ferramenta fundamental.

O Comum supõe tanto as riquezas do mundo material como o conjunto da produção social, os chamados bens naturais (conhecimentos, linguagens, códigos, informação, afetos e suas consequências).

Se o Comum é condição de toda produção de liberdade e de inovação material, são imprescindíveis novas formas de organização, novas instituições emergentes da multidão, que possibilitem que todos tenham acesso e usem o que seja produzido, além de liberdade de expressão e interação. O controle privado, como o controle público, limitam as possibilidades da esfera comum, na medida que separam capacidades, dirigem os movimentos e distribuem funções a partir de lógicas pré-estabelecidas, que foram transformadas em credos durante a história da modernidade.

Negri entende que Spinoza é o subsolo da modernidade, porque ali há uma fonte permanente e contínua de ruptura contra a vontade de dominação e suas modalidades do medo e da esperança. Na fonte de ruptura vive a sabedoria de um poder constituinte, como princípio de mudança e transformação do mundo material. Seu caminho operarista, político e filosófico, o qual, dentre outras coisas levou-o ao cárcere e ao exílio, une Maquiavel, Spinoza, Marx e Deleuze, para insistir em que só a potência comum é ponto de partida de alegrias imediatamente compartilhadas, a partir da autonomia das redes afetivas, sociais e produtivas. Afirma que o essencial para transformar o próprio em comum é o amor que não cessa de abrir-se a comunidades mais vastas que “cada um” e seus mais próximos.
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La Nación: Qual a importância do conceito de multidão, para pensar as condições políticas do presente e como o senhor avalia a pertinência da noção ampliada de “multidão dos pobres”, segundo seu mais recente livro, em colaboração com Michael Hardt, Comun. Más allá de lo privado y lo público [1]?

Toni Negri: Quando se fala de “multidão dos pobres”, a primeira referência tem a ver com o nascimento do termo “multidão”. É uma distinção que se deu no marco da Revolução Inglesa, na discussão entre os revolucionários que se manifestam contra a propriedade privada, e os partidários do exército republicano. Os primeiros dizem que representam a “multidão” dos que não têm propriedade; o outro lado diz que representa o “povo”, os que têm como objetivo ter propriedade e a têm. A revolução, claro, decidiu-se a favor da República, quer dizer, dos que têm a propriedade. O “outro lado”, os sem propriedade, convertem-se no proletariado que logo ultrapassa o processo de acumulação primitiva e converte-se em classe operária. Desse ponto de vista, há uma dimensão de pobreza, no fato de o vivente viver sem propriedade.

La Nación: Em que medida a transformação pela qual passou o trabalho nas últimas décadas afeta o conceito de “multidão”?

Toni Negri: O conceito de multidão tem sua genealogia nesse processo histórico. Atualmente, o processo acontece com a desagregação da classe operária, a qual está ligada à desintegração do trabalho. O trabalho, na medida em que se transforma em trabalho social, resulta num tipo de atividade que se arranca de uma determinada espacialidade específica dos modos tradicionais de produção. Quer dizer, de um lugar ou uma determinação local e, inclusive, de uma determinação temporal, entendidas como lugar da jornada laboral. A medida do trabalho, antes, estava normalmente dada em relação ao espaço de trabalho e à jornada laboral, os quais contribuíam, por um lado, para reproduzir o capital e fazê-lo frutificar; e, por outro lado, para reproduzir o próprio trabalhador. Hoje, essas medidas clássicas explodiram, tanto espacial como temporalmente. Deste ponto de vista, a multidão deveio multidão de trabalhadores precários.

Mas há outro aspecto relacionado a essa precariedade: a potência social e cooperativa do trabalho. A multidão desagrega-se em singularidades que são, antes de tudo, trabalho vivo: trabalho singular e capacidade de produção que se apresenta como cooperação virtual.

O problema político atravessa tudo isso e inclui revelar como essa multidão virtual, na qual se contém o Comum, consegue expressar-se.

La Nación: O senhor fala então de uma dimensão potente do precário?

Toni Negri: Sim, exatamente. Há uma dimensão potente no precário. Dá-se de um ponto de vista político: a multidão contém a cooperação virtual. Para a cooperação, é importante ver o problema da transição como verdadeiro dilema político. Na Argentina, é problema que foi tratado em sentido forte. Mas onde a transição, como em várias latitudes, não foi problematizada seriamente, ainda se tenta falar de transição, sem considerar a força do fascismo. O sistema capitalista tem absoluta necessidade de manter, seja como for, uma continuidade. Aconteceu no Chile.

Mas esse é problema filosófico de primeira ordem: entender o que é a transição e como afeta a potência social produtiva.

Na Espanha, essa transição está acontecendo agora pela primeira vez, desde a derrota da República: aparece hoje no movimento dos “Indignados”, como reação que redescobre a velha República e entrevê a possibilidade crítica de continuidades potentes.

Raciocinar sobre a potência não é racionar sobre alguma ideia, não é uma ontologia abstrata. Raciocinar sobre a potência é necessidade de uma ontologia concreta, que sempre se apresenta como histórica, que tem natureza plenamente produtiva, nunca vazia.

La Nación: O que significa, por onde passa, então, a potência dessa “multidão dos pobres”?

Toni Negri: A multidão proletária é livre, mas, ao mesmo tempo, reúne-se, une-se, porque a solidão é problema real. A pobreza não é déficit de ser; o verdadeiro déficit de ser é a solidão. É imperioso superar a solidão. A pobreza tem a enorme força de ser trabalho vivo. O pobre é um ser-aí, vivo e efetivo, que se apresenta como índice de associação, de cooperação, de construção. E de construção de ser, porque o ser pode ser construído; o ser não preexiste como fundo. O ser não está sempre por trás; o ser, em cada momento, encontra-se “aí”, existente no momento oportuno em que se rompe a repetição monótona do tempo. É a composição dos afetos, que Marx recupera de Spinoza.

La Nación: Depois da crise argentina de 2001, apareceu uma tensão crescente entre o Estado e os movimentos sociais, os espaços sensíveis ligados aos modos de fazer e de ser, que reclamaram uma certa autonomia. Como o senhor vê essa relação? Em que sentido se pode pensar a emancipação?

Toni Negri: Quando falo de emancipação, não falo num sentido iluminista, nem do modo que me parece que seja a mistificação atual da palavra, ou seu sentido escatológico. Benjamin foi pensador radical, mas foi usado de modo muito ambíguo. Toda essa “escatologia” hebraica e paulina que nos foi oferecida e nos domina no campo teórico, na tentativa de definir a emancipação é o prelúdio transcendente de uma libertação utópica. É preciso recuperar a emancipação em território material.

Com isso, abre-se uma série de perguntas: Como faz o homem endividado, para emancipar-se? Como faz o homem mediatizado, para emancipar-se? O que é representação política emancipada? Que significa a luta de classes? Esses são os grandes problemas da emancipação de nosso tempo. Não há emancipação como conceito derivado da hegemonia, ou simplesmente como proposta simbólica. A emancipação é prática política efetiva de resistência e criação cooperativa.

La Nación: Como, então, o senhor vê o movimento das singularidades e a continuidade do sistema de representação?

Toni Negri: O problema é que a Constituição permaneceu igual. No presente, é imprescindível perguntar: o que significa modificar a Constituição? O que quer dizer introduzir na Constituição, além do privado e do público, também o Comum? O que quer dizer introduzir a participação no lugar da representação? O que significa a gestão comum das empresas, dos bens comuns, do saber, do trabalho?

Essas são as coisas concretas que interessam. São as coisas que se apresentam à multidão dos pobres e dos indignados – de fato, apresentam-se a todos – como coisas fundamentais, embora às vezes os problemas sejam tratados como se fossem caricaturas.

Não se pode falar de singularidades, se não se fala dos novos modos de constituir o saber em relação com as tecnologias, com as finanças, com as forças de trabalho em transformação. Vale para Deleuze, para Virno, como para nós. Falamos de uma produção de mais-valia que atravessa a inovação dos processos de linguagem. É o que temos de problematizar. Em torno disso se devem construir as estruturas políticas.

La Nación: Que relação o senhor encontra entre o conceito mais contemporâneo de “biopolítica” e o conceito mais clássico de “força de trabalho”?

Toni Negri: Força de trabalho é conceito que, evidentemente, vive no interior da noção de capital. Ao mesmo tempo, constitui um problema político que atravessa a vida. Seu movimento é, por um lado, o capital variável; e, por outro, o trabalho vivo. O próprio conceito de força de trabalho deve romper-se de dentro para fora, para devir trabalho vivo independente. Esse conceito de trabalho vivo independente é fundamental, porque removeu toda a temática operária, quando aconteceu na Europa, há 30 ou 40 anos. Vale a pena, então, perguntar-se o que é a independência do trabalho vivo.

Esse é o problema que está no coração do pensamento de Gilles Deleuze e de Paolo Virno, que, adiante, nas obras deles, adquire forma filosófica. Sim, o pensamento de Giorgio Agamben aborda esse tipo de problemas, mas em termos negativos. Em vez de “trabalho vivo”, Agamben fala de “absoluta pobreza”; em vez de força de trabalho organizada, fala de “regra”. Assim recorre à abstração de nível máximo, embora o problema permaneça onde estava.

Em nosso caso, “libertar” não é mais um problema místico ou escatológico: é problema de reforma constitucional, um problema de definir os regimes de propriedade, de tratamento dos regimes monetários, bancários, financeiros. A filosofia crítica contemporânea tem de abandonar a filosofia ocidental, nos seus níveis máximos de abstração. A filosofia pode ser dada por morta, se pretende pensar os problemas das formas de resistência e de liberdade, de modo negativo e abstrato.

Para a ética e para a política, é necessário voltar às palavras que significam e que afetam as práticas em processos históricos de longa duração.

La Nación: Falávamos antes de “emancipação”. Como o senhor vê a obra de Jacques Rancière?

Toni Negri: Mantenho ótima relação com o pensamento de Rancière, tanto de um ponto de vista filosófico, como de um ponto de vista pessoal. Rancière é a pessoa mais contraditória do mundo. Por um lado, chega a uma definição da política, para pensar a distribuição do sensível, a qual, simultaneamente supõe um regime da Police e um regime da pólis. É exatamente o que eu teorizo como poder constituinte e poder constituído (na linguagem da tradição, podem ser pensados como potentia e potestas). Rancière também faz uma história que é extremamente plena, cheia de conteúdos históricos determinados: a dos primeiros socialistas que construíram uma relação política intensa, como, por exemplo, em seu livro A noite dos proletários ([1988] Lisboa: Antígona, 2012). Mas, por outro lado, parece, ao meu ver, negar a história, quando teoriza em forma abstrata modelos políticos muito gerais, a partir de problemas sensíveis. Quando alguém se encontra com as duas partes, a coisa aparece como completamente contraditória, mas Racière a resolve, à sua maneira, nas abordagens estéticas.

Minha impressão é que, na estética, ele junta esses problemas numa dupla completamente separada: por uma parte, exalta o momento da política; pela outra, o momento da genealogia, ou da história desconstrutiva. Mas entendo que não consegue juntar uma à outra. Digamos queA noite dos proletários é a solução para seu problema teórico.

La Nación: Como o senhor pensa, na atual conjuntura global, os problemas que se veem na Europa e na América Latina?

Toni Negri: Entre 2004 e 2005 escrevi, com Guiseppe Cocco, um livro intitulado Glob(AL): Biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Rio de Janeiro: Record, 2005), no qual fazíamos uma previsão, com exemplos provavelmente não muito adequados, mas bastante precisa, porque víamos que a América Latina estava saindo da dependência. Estava superando a dependência e entrando na ordem global. Você nem imagina as coisas que nos disseram! “Você nega o imperialismo, quer destruir os movimentos subversivos”. Respondo que “o problema é reconhecer que estão, sim, saindo da dependência. Organizem-se para mobilizar os movimentos sociais para dentro do Estado e contra o Estado”.

La Nación: Mobilizá-los para dentro e contra o Estado?

Toni Negri: Sim, para dentro e contra. O problema da liberdade política dos movimentos sociais que aspiram a uma democracia radical é sempre esse. Mas é preciso estar muito atento, porque essa é também a regra dos oportunistas: “metem-se dentro, para depois fazer outra coisa”. Para dentro e contra não são dois movimentos: é um só movimento simultâneo.

Tenho tido contatos com quase todos os países da América Latina, nos últimos anos, e a cada dia é mais evidente uma transformação radical. No Chile, por exemplo, era inimaginável uma revolta de estudantes como a que se viu ano passado e que permanece muito presente nas linhas que abriu. É a lucidez de rapazes e moças de 18 anos? São de uma maturidade política surpreendente. Houve uma transformação antropológica na América Latina nos últimos 10, 15 anos, que afetou o exercício político. A vitória de Lula, ou o ano 2001 argentino são dados fundamentais para avaliar uma irrupção transformadora. E, por outro lado, havia toda uma linha da esquerda que olhava na direção de Chávez.

Sempre fui muito realista sobre os processos que considero importantes. O Brasil, por exemplo, começa a reconhecer-se, não na dependência, mas na interdependência global, e, nesse contexto, está resolvendo seu imenso problema racial que, contudo, ainda existe. A favela começa a ser um lugar que não está fora da cidade, fora da pólis. Começa a haver um Welfare: uma situação de assistência generalizada, uma “escola” que começa a se abrir. Esses são os grandes problemas que a América Latina está enfrentando.

Há companheiros que dizem que o grande momento já foi superado e que, agora, estamos entrando num momento de estabilização, que a crise mundial opera de tal modo, que consegue meter paus na engrenagem, bloquear a imaginação que se tem de aplicar à política. Não sinto que se possa esgrimir juízo definitivo.

Acredito que a América Latina deu um grande passo e foi, inclusive, mestra de trajetórias revolucionárias. Penso nisso, nem tanto pelos Zapatistas, mas, mais, pelos movimentos sociais argentinos e brasileiros. Essa é a conjuntura em que se dá a novidade da relação movimentos sociais-governos, que corresponde a uma situação geral de uma crise do Direito. Hoje já não é possível buscar um Direito que funcione de modo dedutivo: ius publicum europaeum. É preciso inventar jurisprudência a partir do poder constituinte da multidão.

La Nación: O Direito parece funcionar só sobre questões particulares?

Toni Negri: É. Só funciona sobre questões que têm a ver com elementos de contratos, de consenso, de conflito. Se se vê o fato de que alguns movimentos sociais entram no campo da ação governamental, isso não significa que os movimentos venceram; significa que os governos sentiram a necessidade de abrir-se. Quanto a isso, também, é preciso atenção máxima, porque, ao exaltar um aspecto, pode acontecer de descuidarmos do outro lado do problema. Seja como for, tem havido sucessos muito importantes na América Latina que seria necessário ampliar.

A Europa, por sua vez, está em situação completamente diferente. A Europa está completamente bloqueada, fixada numa série de rigidezes físicas e intelectuais que tornam extremamente difícil o movimento de unir-se em torno da União Europeia; e, nesse contexto, retoma-se o desenvolvimento da luta de classes. O problema aí pode ser resumido em algumas perguntas: quais são as condições da luta de classes? Quais são as condições pelas quais nos libertamos desses patrões?

Insuportável é ver que tomam o dinheiro de cada trabalhador e o metem no bolso, e você, o trabalhador, vira mendigo. Todos temos de fazer essa revolução. Algum dia teremos de fazê-la. Toda a inteligência tem de ser mobilizada para resolver esse problema; o resto são estupidezes.

La Nación: Apesar da miséria europeia e, sobretudo, da miséria italiana, vê-se um momento muito prolífico no pensamento italiano. Talvez se possa dizer que o pensamento italiano é mais potente hoje, na América Latina, que na própria Europa... 
Toni Negri: Hardt e Virno editaram, em meados dos anos 1990, um livro formidável, com contribuições fundamentais: Radical Thought in Italy: A Potential Politics (1996 
[2]). Incluía um capítulo de Virno, com o título de “Do You Remember Counterrevolution?” [Lembram-se da contrarrevolução?]. Nesse capítulo, ele joga com o fato de que, depois de 1848, fazia-se revolução na França e pensamento na Alemanha; e diz que, então, se fazia pensamento na França e revolução na Itália. É ideia bem bonita, não? Quando se puder dizer que se faz pensamento na Itália e revolução na América Latina, talvez tenhamos completado o movimento.



Notas dos tradutores
[1] 22/6/2010, Outras Palavras, Bruno Cava, da coluna Crítica Nômade resenha de: Commonwealth: amor e pós-capitalismo.
[2] VIRNO, Paolo; HARDT, Michael (eds.), “Radical Thought in Italy: A Potential Politics”, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1996. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Reflexões amistosas sobre a crise atual. Texto pedagógico


12/5/2012, Toni Negri, Uninomade em aula proferida na Universidade de Oxford, Museu Ashmolean  
5/6/2012, Uninomade, Toni Negri em: Riflessioni amichevoli nella crisi attuale. Testo pedagógico (italiano)
5/6/2012, Uninomade, Toni Negri em: Reflexiones amistosas sobre la crisis actual. Texto pedagógico (em espanhol traduzido por nemoniente)
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

Toni Negri
1. Os homens pelos quais sinto certa simpatia bateram-se, na Europa, no século 20, em torno de três objetivos: pelo socialismo, contra o fascismo; por uma Europa unida contra o estado-nação; pela paz, contra a guerra. Os dois primeiros objetivos parecem estar sendo fortemente ensombrecidos na crise atual, e as lutas que se desenvolvem em torno deles têm resultado incerto – e os resultados das lutas travadas, estão esquecidos, ou em crise. Ainda há paz, mas tão ameaçada!

2. O socialismo afirmou-se na Rússia em 1917. A vitória local e a expansão ideológica do socialismo deram origem ao cerco contra a URSS pelas potências ocidentais provocaram, primeiro, os fascismos (na Itália, na Alemanha, na Espanha, etc.) e, depois, a Guerra Fria, para manter a URSS isolada, fora do mundo. Nem  a grande crise de 1929 conseguiu abalar essa política das elites capitalistas e liberais. Mas aceitaram o keynesismo como política de contenção “reformista” das lutas e da expansão política do socialismo.

Já nos finais dos anos 1930s e, outra vez, depois dos 70s, cada vez que o “reformismo” afirmava-se e alcançava objetivos importantes, as elites capitalistas repetiam experimentos reacionários, às vezes escolhendo a repressão, às vezes preferindo a guerra (seja quente seja fria).  Depois da II Guerra Mundial, os governos, obrigados a abandonar os impérios coloniais e a transferir a soberania imperial aos Estados, passam a articular de outro modo as suas políticas internas, sempre em sentido reacionário ou reformista: o objetivo é sempre ganhar a Guerra Fria. O ódio antissocialista impunha-se acima de qualquer outro objetivo. Como a Igreja do Baixo Renascimento contra as revoltas camponesas e anabatistas, assim também agiram os estados capitalistas contra os trabalhadores e o socialismo: cedendo seu poder ao império norte-americano, todos os estados capitalistas ao mesmo tempo.

3. Sabemos que o socialismo soviético não perdeu sua batalha por causa dos golpes do adversário, mas porque, desde o início, não conseguiu suscitar um movimento triunfante na Europa; nem foi capaz de, afinal, produzir qualquer transformação social e política continuada, na medida em que se foi expressando a potência produtiva do próprio socialismo. Não é a primeira vez que um Hércules menino é afogado no berço pela serpente. Depois do 1917, soviéticos e liberais europeus compreenderam que a batalha pelo êxito do socialismo se trava na Europa. Então, nos anos 1920s e 30s, o fascismo e as expressões mais extremadas dos diferentes nacionalismos opuseram-se ao socialismo. Depois da IIa. Guerra Mundial, a burguesia europeia finge içar as bandeiras da paz e da União sobre as quais até agora sempre tripudiaram. O ideal de uma Europa unida traz, como bandeira, a oposição à URSS. O império norte-americano exige que a Europa se unifique, em pauta antissoviética. 

Mas quando, depois de 1989, a Europa começa a constituir-se independentemente, desenvolvendo economia potente e modelo social autônomo, impondo sua própria moeda e apresentando-se como concorrente e como alternativa aos EUA no mercado mundial... Então os EUA manifestam-se contra a unidade europeia. E abre-se sobre o terreno europeu a luta de classes: entre a classe capitalista recomposta no plano global e as multidões europeias: luta fria, mas decisiva, suficiente para originar a profundíssima crise econômica e social de hoje.

Esta crise, que surge da fracassada solução encaminhada para a crise que a precedeu, em 2008-2009, constrói-se e atira-se contra a união política da Europa.

Castigada por essa crise, a Europa não encontra nem pode encontrar soluções ou alternativas na ordem neoliberal.

Os EUA – que veem perdida sua hegemonia – pressionam a Europa, para não se verem, os próprios EUA envolvidos em novos antagonismos imperiais.

4. Para além dos estados-nação, a classe capitalista se recompôs no plano mundial, graças à crise. E é nesse plano mundial que, explorando as novas tecnologias, a classe capitalista pôs em funcionamento um novo processo de “acumulação primitiva” sobre a base da transformação pós-industrial do trabalho, que se torna, cada vez mais, “trabalho de conhecimento” [dito também, erradamente, “trabalho cognitivo”]. 

Portanto, essa acumulação produz-se a partir da privatização e da organização produtiva do General Intellect [inteligência geral]. Entendo por General Intellect [inteligência geral] o conjunto da força de trabalho de/para o conhecimento, que substituiu, na geração de mais-valia, a classe operária industrial; e que é hoje explorada em todo o terreno social.

O próprio capitalismo modifica-se de modo fundamental: agora, são as finanças que recompõem, no plano mundial, o mando do capital. A banca e as finanças dominam hoje, acima de empresários e inovadores, nas indústrias: a renda substitui o lucro. Os processos produtivos são assim transformados. Sobre a produção fordista, na fábrica, sobrepõe-se a organização pós-fordista da exploração de toda a sociedade e a captação, mediante mecanismos financeiros, da mais-valia (socialmente produzida). 

Com essa profunda transformação da acumulação capitalista, forma-se também uma nova prática política: a governança neoliberal.

Com essa prática, as elites capitalistas pretendem, por um lado, destruir o Estado de Bem-estar da classe operária industrial, que veem como corpo estranho, como o vestígio de um soviete dentro de sua própria casa de elite capitalista; e, por outro lado, o capital tenta organizar a exploração da sociedade inteira, submetendo ao seu domínio toda a vida das pessoas; o capital, agora, como “biopoder”, quer dominar todo o movimento biopolítico.

Assim, mediante sucessivas crises fiscais, são destruídas as relações de força entre as classes sociais que ainda caracterizavam a sociedade fordista; atacando-se qualquer relativo progresso econômico e as estruturas constitucionais que, dentro de cada Estado-nação, haviam garantido, depois da IIa. Guerra Mundial, a paz social e certo “reformaísmo” político.

Nessas condições de crise, a unidade europeia – cujo ideal e cujas primeiras realizações haviam gerado bem-estar e certo equilíbrio continental – não só está sendo violentamente atacada como, também, está completamente sobredeterminada por uma vontade de poder capitalista reorganizada no plano global, que já não apoia as resistências que ainda se organizam nos antigos estados soberanos.

5. É oportuno reconhecer que não há resistência possível senão no plano global, mundial. E,precisamente nesse ponto, a paz está sob grave ameaça.

O interesse capitalista tenta impedir o fluxo de iniciativas subversivas para, seja como for, conseguir ampliar seus grandes espaços geográficos continentais. O interesse dos oprimidos, portanto, é organizar resistências e antagonismos também no plano global.

A inesperada derrota dos EUA na América Latina revelou-se importante, mas não decisiva. Na Ásia e no Extremo Oriente, as tensões sociais e políticas parecem por hora contidas – nos vastos atrasos de desenvolvimento e nos desequilíbrios econômicos. A África ainda está nos primeiros movimentos de uma nova grande luta que se iniciará a qualquer momento, não se sabe quando, na qual se disputará a exploração da riqueza das terras da África.

Por sua vez, na grande zona em crise – que vai do Atlântico aos países árabes, atravessando o Mediterrâneo – é, exatamente, onde a paz corre maior perigo. Aí, a especificidade da cultura e do desenvolvimento europeus entrou em crise, muito provavelmente, terminal. A sucessão de esforços e as derrotas militares nas guerras globais; a extensão inútil dos chamamentos à Cruzada que tanto se ouviram nos anos 90s e depois deles mostraram, simplesmente, a miséria e a impotências das políticas implantadas pela classe política capitalista euro-norte-americana.

Só uma radical transformação das elites, só a generalização e a adesão ao projeto de unidade europeia das multidões permitiria modificar esta situação, e dar, talvez, às classes trabalhadoras europeias a possibilidade de renovar um projeto socialista potente – na Europa, onde o socialismo nasceu. Até agora, não teve sucesso: o capital tem conseguido sufocar todos os movimentos.

Mas, nesses últimos anos, as novas gerações começaram a mover-se, a lutar contra as novas formas de miséria, de precariedade, de pobreza a que foram submetidas. Indignadas, as novas gerações levantam-se, praticando novas figuras de insubordinação e de luta. Desta vez, o jovem Hércules pode matar a serpente.

6. Relançando o projeto europeu pela esquerda, insistimos no fato de que, para manter a paz, é necessário outra vez criar e assegurar o bem-estar. Nos perguntamos se o capital ainda pode fazer isto. A resposta é necessariamente negativa. Efetivamente, o empreendedor foi substituído, nos tempos recentes, pelo capitalista financeiro; o lucro foi substituído pela renda; o banco substituiu a fábrica: multiplicam-se as funções e comportamentos parasitários. 

As crises sucedem-se, porque já não há qualquer medida de valorização. E porque, como consequência disso, a especulação é a única forma restante de acumulação. Mas se o capitalista é hoje alheio à organização da sociedade, se perdeu a dignidade que lhe permitia organizar o trabalho, antecipar o capital constante e tornar os mercados inteligentes e criativos, sob seu comando... como poderá o capitalista criar e assegurar bem-estar e progresso?

Parece-nos que essa síntese de bem-estar e progresso só pode ser hoje construída pela “nova” força de trabalho, por aquela força de trabalho que, porque é força de conhecimento [“capitalismo cognitivo”], pode tomar autonomamente em suas mãos a própria produção. É a força de trabalho que opera mediante as linguagens, os conhecimentos, os afetos – que produz ao distribuir em comum o saber - agregando elementos singulares de comunicação. Assim a nova força de trabalho produz o excedente, a riqueza, que se chamava “mais-valia”.

Mas perguntemo-nos se esse produzir-junto (conhecimentos, códigos, informações, afetos) não será mais bem designado se o chamarmos pelo nome “o comum”? Se se fala do “comum”, não se fala só da riqueza já disponível na natureza (como o ar, a água, os frutos da terra e todos os demais dons da própria natureza); falamos, isso sim, especialmente, das novas formas de produção de riqueza, da atual composição social e política das forças imateriais do trabalho e da potência vinda da subjetividade. E é contra essa potência que, hoje, o capital aplica seu instinto vampírico: contra as potências do comum, sem as quais, na nossa época, a riqueza não é possível.

7. O que significaria hoje construir um soviete, quer dizer, levar a luta, a força subversiva, a multidão, o “comum” para dentro e contra a nova realidade das novas organizações totalitárias do dinheiro e das finanças?  

Para responder essa pergunta, é preciso ter presente que o capital não é um Moloch; o capital é uma “relação de força” entre quem comanda e quem resiste, entre quem explora e quem produz. A multidão não é simplesmente explorada: ela propõe no plano social a sua autonomia e a sua resistência. Sobre essa relação, determina-se a crise, quer dizer, o debilitamento e/ou a ruptura da relação capitalista.

A crise atual deve-se à necessidade capitalista de impedir que a pressão sobre a renda rompa as relações de domínio, para manter a ordem, primeiro multiplicando sem limites a quantidade de dinheiro a gastar com o único propósito de manter contentes os proletários do conhecimento, depois (quando a situação piorar e a concorrência já seja insuportável) exigindo a restituição do que tenham conseguido, exigindo “o pagamento da dívida” – sob a ameaça da miséria e da vergonha.

Vê-se assim que a financeirização não é um desvio improdutivo e parasitário de cotas cada vez maiores de mais-valia e poupança coletiva; ela é a própria forma da acumulação, quer dizer, da exploração operada pelo capital no interior dos novos processos de produção de conhecimento e de modalidades sociais do valor. Sobre esse terreno os custos da reprodução da força de trabalho, o trabalho necessário (quer dizer, de sua instrução, de suas formas de vida, da nova organização social) e, também, as lutas operárias, fizeram fracassar a acumulação de capital e, portanto, levaram à ruptura da relação de exploração no plano social.

Isso aconteceu, porque as condições de valorização do trabalho sobre a base do conhecimento e da biopolítica são hoje, como dissemos, “comuns”; enquanto a acumulação é, não só “privada”, mas, também baseada em tecnologias e políticas de administração que, ao não conseguir destruir a “potência comum” da produção, a escravizam – fazendo pouco caso de seus direitos e de seu poder. Como sair de uma crise desse tipo?

Só se sai de crises desse tipo mediante uma revolução social. Qualquer New Deal que se proponha terá de construir novos direitos de “propriedade social” dos “bens comuns”. Esse direito evidentemente se contrapõe ao direito da propriedade privada e às suas garantias públicas.

Em outras palavras, se até hoje o acesso a um “bem comum” tomou a forma da “débito privado”, de hoje em diante é legítimo reivindicar o mesmo direito, em forma de “renda social” – do “comum”. A única via para sair da crise é reconhecer esses direitos comuns.

Para reconstruir – mediante o trabalho de toda a sociedade – o progresso e, portanto, a esperança de paz. A revolução na Europa é o passo necessário para afirmar a hegemonia do comum e construir a unidade do país mais diverso, mais belo e mais inteligente que a história humana conheceu.