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domingo, 5 de abril de 2015

Capitalismo e consciência de classe: as ideias de Georg Lukács


24/8/2010, [*] Chris NinehamCounterfire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Lukács oferece como exemplo dessa reificação máxima os jornalistas, cujos poderes de empatia, juízos, conhecimentos e expressão são artificialmente separados da personalidade; e que são postos num “isolamento” suposto “isento” antinatural, quando confrontados aos fatos ou eventos que têm de “noticiar”. A “isenção” de que os jornalistas fazem meio de vida, a prostituição das próprias experiências e crenças pessoais, só são compreensíveis como apogeu da reificação capitalista.


Georg Lukács foi o maior teórico da revolução no século XX. No processo de explicar os princípios da Revolução Russa, Lukács respondeu a algumas perguntas vitais: Como as ideias capitalistas tomam conta de nossa consciência? Em que circunstâncias as pessoas se tornam radicais? E como os socialistas podem construir genuínos movimentos revolucionários de massa?

As ideias revolucionárias de Lukács dos anos 1920s foram reprimidas por Stálin e marginalizadas pela Academia e até por muitos no campo da esquerda. Tiveram uma espécie de vida “clandestina”, mas reemergindo sempre que se discutia mudança fundamental. Esse livro é uma introdução às ideias de Lukács e argumenta que elas são crucialmente importantes para explicar e compreender nosso mundo contemporâneo de crises e guerra.



Georg Lukács 
por Liberati

Excerto de Capitalism and Class Consciousness (aqui traduzido)

Um filósofo ativista

Lukács tornou-se revolucionário e marxista durante a maior onda de luta da classe trabalhadora em toda a história, desencadeada pela Revolução Russa ao final da Iª Guerra Mundial. Já conhecido como intelectual na Hungria, meses antes de unir-se ao recém criado Partido Comunista da Hungria em dezembro de 1918, descobriu-se de repente como líder, nos eventos que levaram à breve república soviética da Hungria, em 1919. Foi Comissário do Povo para a Educação e por um curto período de tempo, comissário político no front de combate.

A República dos Trabalhadores Húngaros terminou em desastre. Aconteceu assim, como o próprio Lukács reconheceu adiante, porque a República era instável desde o início. O Partido Comunista da Hungria iniciou um insurreição, em fevereiro de 1919, muito antes de ter apoio da maioria dos conselhos de trabalhadores. O levante foi esmagado, quando ficou claro que radicalização de massa jamais seria substituto de preparação política. Ao mesmo tempo, a militância de camponeses e trabalhadores, e a anexação de partes do país por potências estrangeiras, levaram ao colapso do governo burguês, o que gerou um vácuo de poder.

A República Soviética Húngara nasceu em março de 1919, de uma fusão entre os comunistas e o Partido Social Democrático (PSD), partido reformista. A classe governante delegou poderes ao PSD, num derradeiro esforço para salvar o sistema. Lukács e a liderança do Partido Comunista interpretaram a nova aliança de reformistas e revolucionários como uma restauração espontânea da unidade proletária; de fato, como depois se constatou, não passou de receita para confusão e desastre.

Os líderes do Partido Comunista agiram como se estivessem num governo revolucionário, forçando a nacionalização da terra, sem qualquer preocupação com o que pensavam ou desejavam os camponeses; e a maioria dos operários permaneceu sob a liderança do partido reformista. Diante de novos ataques da aliança de poderes contrarrevolucionários, os líderes do PSD logo capitularam; e os comunistas ficaram isolados, sem qualquer apoio. Logo se constituiu um governo reacionário, que desencadeou campanha de terror contra a esquerda, executando mais de 5 mil e expulsando do país dezenas de milhares de militantes.

Lukács escreveu seus trabalhos chaves dos anos 1920s – Lênin: Estudo sobre a unidade de seu pensamento [em espanhol, em Rebelión], História e Consciência de Classe Em defesa de História e Consciência de Classe: o Seguidismo e a Dialética[em espanhol em Libro españollogo depois dessa experiência, enquanto viveu como exilado, em Viena. Hoje se vê com clareza que aquele foi momento decisivo para o movimento socialista. Antes da guerra, o movimento socialista mundial se organizara na IIª Internacional, cuja completa acomodação no sistema vê-se claramente no apoio que os partidos principais deram à Iª Guerra Mundial. Os russos bolcheviques puseram-se contra essa traição, e lideraram uma revolução bem-sucedida, que se tornou inspiração para milhões em todo o mundo.

Os dois livros de Luckács, História e Consciência de Classe e Lênin: Estudo sobre a Unidade de seu Pensamento, manifestam o potencial revolucionário do momento, e o medo de que ninguém estivesse cuidando de extrair as lições daquela experiência. Em 1925, quando Lukács escreveu O Seguidismo e a Dialética, havia sinais de que o isolamento da revolução russa estava estimulando uma nova modalidade de fatalismo.

A vida sob o capitalismo

Em História e Consciência de Classe, Lukács discute o papel das instituições do capitalismo, como elementos de mediação. Mas expõe – como resultado da experiência vivida do capitalismo –, a capacidade que essas instituições têm para assegurarem-se a aquiescência dos trabalhadores. Explica também como e por quê essa mesma experiência vivida do capitalismo pode criar oposições.

O ponto de partida de Lukács é o fato de que o capitalismo converte tudo em mercadoria, uma unidade de produto cujo objetivo é gerar lucros para os capitalistas. Lukács argumenta que não é acaso que a mercadoria tenha sido também o ponto do qual Marx partiu, em seus trabalhos principais, quando decidiu “expor a nu a natureza fundamental da sociedade capitalista”:

O problema das mercadorias não deve ser considerado isoladamente nem considerado problema central da economia, mas como problema central, estrutural da sociedade capitalista em todos os seus aspectos. Só assim se consegue ver como a estrutura das relações de mercadoria é um modelo para todas as formas objetivas da sociedade burguesa, com todas as formas subjetivas que lhes correspondem. 
[Luckács, História e Consciência de Classe].

A produção da mercadoria modela o modo como experienciamos e compreendemos o mundo. Ela reduz qualidade a quantidade e esconde o processo generalizado de exploração num mundo imediato de comprar e vender. Ecoando as palavras de Marx em Capital, Lukács descreveu como a mercadorização tem o efeito de dar às relações entre as pessoas o caráter de coisas: a conversão em mercadoria [a mercadorização] reifica [transforma em coisa] todas as relações.

Nesse processo, as relações adquirem uma “objetividade fantasma” e uma autonomia “que parece tão estritamente racional e extensiva a tudo, a ponto de ocultar todo e qualquer traço da natureza fundamental daquelas relações”. Por isso as mercadorias têm o que Marx chamou de “caráter de um fetiche”. Como os fetiches primitivos que os homens criaram e imediatamente passaram a adorar como se fossem deuses, as mercadorias vieram para nos comandar e comandar nossa vida, apesar de serem criadas por nós.

Só se consegue perceber o total impacto desse processo de reificação quando entendemos que a condição essencial para a vitória da forma mercadoria é a transformação do próprio trabalho, em mercadoria. Se o valor dos bens será determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzi-lo, a força de trabalho tem de ser totalmente integrada nesse sistema racional universalmente quantificado. O trabalhador tem de vender sua força de trabalho, como qualquer outra mercadoria, no mercado.

Nem objetivamente nem em relação com seu trabalho, o homem aparece como autêntico senhor do processo; ao contrário, ele é uma parte mecânica incorporada num sistema mecânico. O homem descobre que o sistema é pré-existente e autossuficiente, que funciona independente dele, e o homem tem de se conformar às suas leis, goste ou não goste.  
[Luckács, História e Consciência de Classe].

A mercadorização modela o próprio processo físico do trabalho e também a compreensão que temos dele. O trabalho torna-se dominado pela racionalização, uma alta divisão do trabalho, repetição e obsessão com a quantidade, não com a qualidade. O artigo acabado já não parece ser objeto de processo algum. O processo fragmentado de produção do objeto acaba por produzir um sujeito fragmentado:

À personalidade nada resta a fazer, além de olhar desconsoladamente, enquanto sua própria existência é reduzida a uma partícula isolada inserida num sistema alienado. 
[Luckács, História e Consciência de  Classe].

A reificação então tem três efeitos que se reforçam mutuamente sobre a consciência. Ela oculta, esconde, as reais relações humanas do capitalismo; faz o sistema parecer como se fosse comandado por uma lógica pré-ordenada, inumana; e faz os trabalhadores sentirem-se sem forças para fazer coisa alguma.

Muito já observaram que Lukács, pela leitura que faz de Capital, chegou a um conceito quase idêntico à ideia de alienação que aparece em Manuscritos Econômico-filosóficos de Marx, escritos em 1844, mas só publicados em 1932.

Mas Luckács fez mais que isso. Luckács abriu novos caminhos, ao mostrar como a reificação permeia toda a sociedade capitalista e lançou as bases para a primeira “estrutura unificada de consciência na história”. Explorou, inclusive, as implicações disso tudo para a política radical.

Para Lukács, o estado mental gerado pela experiência do trabalho na ponta final da produção capitalista aparece difundido por todas as instituições da sociedade capitalista.

A atomização dos indivíduos é, então, só o reflexo na consciência do fato de que as ‘leis naturais’ da produção capitalista foram estendidas para cobrir toda e qualquer manifestação de vida em sociedade; que, pela primeira vez na história toda a sociedade é submetida ou tende a ser submetica a um processo econômico unificado, e o destino de cada membro da sociedade é determinado por leis econômicas unificadas
[Luckács, História e Consciência de Classe].

Para Lukács, por exemplo, as burocracias são corolários do sistema das fábricas:

Burocracia implica ajustamento ao modo de vida de alguém, ao seu modo de trabalhar e, pois, à sua consciência, às premissas socioeconômicas gerais da economia capitalista, semelhante à que se viu no caso do empregado que trabalha para patrão privado. A padronização formal da justiça, do estado, do funcionalismo público etc. significa objetivamente e factualmente uma redução comparável de todas as funções sociais aos seus elementos, uma busca comparável pelas leis racionais formais desses sistemas parciais cuidadosamente segregados. 
[Luckács, História e Consciência de Classe].

Assim, muito mais que nos locais de trabalho que visa ao lucro, também nas instituições de toda a sociedade as tarefas são reduzidas a funções quantificáveis, à taxa de transferência efetiva de um sistema, em processos que ganham autonomia em relação à pessoa, à personalidade e, portanto, em relação à razão/juízo humano. Mesmo para os que lidam diretamente com outros seres humanos, perdeu-se o senso de objetivo mais amplo, e todo o sentido de causa e efeito foi apagado.

Lukács oferece como exemplo dessa reificação máxima os jornalistas cujos poderes de empatia, juízos, conhecimentos e expressão são artificialmente separados da personalidade, e que são postos num “isolamento” suposto “isento” antinatural, quando confrontados aos fatos ou eventos que têm de “noticiar”.

A “isenção” de que os jornalistas fazem meio de vida, a prostituição das próprias experiências e crenças pessoais, só são compreensíveis como apogeu da reificação capitalista.
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[*] Chris Nineham é um dos fundadores e um dos Diretores Nacionais da Stop the War Coalition no Reino Unido. Foi um dos principais organizadores do protesto anti-guerra 15 Fevereiro 2003 contra a invasão ao Iraque. Foi um dos principais membros Globalise Resistence, a rede anti-globalização, que mobilizou milhares de protestos em Gênova e em outros lugares; desempenhou um papel importante nos Fóruns Sociais Europeus e Mundiais. Foi membro do Partido Socialista dos Trabalhadores até que renunciar em 2010. É autor de The People Versus Tony Blair e Capitalism and Class Consciousness: the ideas of Georg Lukacs
Escreve extensamente sobre o movimento antiguerra e do movimento antineoliberal, bem como sobre os meios de comunicação, modernismo e teoria cultural.

terça-feira, 4 de março de 2014

Como avaliar Nietzsche?

 A.P.Santos
 
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Começo com uma reflexão: livro é bom, televisão é ruim. Se num programa de televisão sobre Nietzsche uma fala, um pensamento, me chama a atenção, eu não posso me deter em considerações sobre o que foi dito porque a história continua se passando na tela e eu tenho que acompanhá-la. É claro que, em se tratando de um vídeo, eu posso interromper a exibição e continuar vendo depois. Mas nem sempre isso é possível. O fato é que a televisão não respeita os nossos ritmos. Numa palestra a que eu esteja presente, posso pedir ao palestrante que explique melhor um determinado ponto. Num programa de televisão jamais.

Relia eu hoje “O AntiCristo”, de Nietzsche, porque não o entendi direito na primeira leitura. De repente, me dei conta de algo que eu não havia percebido antes. Parei a leitura e fiquei imaginando que tanto Freud quanto Marx devem ter lido Nietzsche. Obviamente que Marx, que morreu em 1883 (tinha o Nietzsche então 39 anos), não poderia ter lido o livro, que é de 1888, mas a impressão que eu tenho é que o ateísmo de Nietzsche influenciou tanto Marx quanto Freud.

Freud tinha 32 anos de idade quando “O AntiCristo” foi lançado. O que ele teria achado desse trecho?

Que ninguém se deixe induzir em erro: grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético. A força, a liberdade que vem da força e sobreforça do espírito prova-se pela skepsis. Homens de convicção, em tudo o que é fundamental quanto a valor e desvalor, nem entram em consideração. Convicções são prisões. É algo que não vê longe o bastante, que não vê abaixo de si: mas para poder tornar a palavra sobre valor e desvalor, é preciso ver quinhentas convicções abaixo de si - atrás de si... Um espírito que quer algo grande, que quer também os meios para isso, é necessariamente cético. A liberdade diante de toda espécie de convicções pertence à força, o poder-olhar-livremente ... 

A grande paixão, fundamento e potência de seu ser, ainda mais esclarecida, ainda mais despótica do que ele mesmo, torna seu intelecto inteiro a seu serviço; torna-o inescrupuloso; encoraja-o até mesmo a meios sacrílegos; concede-lhe, em certas circunstâncias, convicções. A convicção como meio: muito só se alcança por meio de uma convicção. A grande paixão usa, consome convicções, não se submete a elas − sabe-se soberana − ao inverso, a necessidade de crença, de um incondicionado de sim e não, de carlylismo, se me permitem essa palavra, é uma necessidade da fraqueza. O homem da crença, o “crente” de toda espécie, é necessariamente um homem dependente - um homem que não é capaz de se propor como fim, que em geral não é capaz de propor fins a partir de si.

O “crente” não se pertence, só pode ser meio, tem de ser consumido, necessita de quem o consuma. Seu instinto dá a mais alta honra a uma moral da privação de si: a esta o persuade tudo, sua esperteza, sua experiência, sua vaidade. Toda espécie de crença é em si mesma uma expressão de privação de si, de estranhamento de si...

Sigmund Freud
por Carlín
Que se pondere quão necessário é, para a maioria, um regulativo que a ligue e firme de fora, o quanto a coação ou, em um sentido superior, a escravidão, é a única e última condição, sob a qual o ser humano fraco de vontade, sobretudo a mulher, prospera: assim se entende também a convicção, a “crença”.

O homem da convicção tem nela sua espinha dorsal. Muitas coisas não ver, em nenhum ponto ser imparcial, ser partidário de ponta a ponta, ter uma ótica rigorosa e necessária em todos os valores − somente isso condiciona que uma tal espécie de homem subsista em geral. Mas com isso ela é o oposto, o antagonista do verídico − da verdade ...

O crente não está livre para ter em geral uma consciência para a questão “verdadeiro” e “não-verdadeiro”: ser honesto nesse ponto seria desde logo sua ruína.

O condicionamento patológico de sua ótica faz do convicto o fanático − Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint-Simon − o tipo oposto ao espírito forte, tornado livre. Mas a grande atitude desses espíritos doentes, desses epiléticos do conceito, faz efeito sobre a grande massa − os fanáticos são pitorescos, a humanidade prefere ver gestos do que ouvir razões ...

De fato, faz uma grande diferença, com que finalidade se mente: se com isso se conserva ou destrói. Pode-se estabelecer entre cristão e anarquista uma perfeita equação: sua finalidade, seu instinto, visa somente à destruição. A prova desta proposição, basta lê-Ia na história: esta a contém com assustadora clareza.

Se acabamos de travar conhecimento com uma legislação religiosa cuja finalidade era “eternizar” a suprema condição para que a vida prospere, uma grande organização da sociedade − o cristianismo encontrou sua missão em dar fim a uma tal organização, justamente porque nela a vida prospera. Ali, o rendimento em razão de longos anos de experimento e de insegurança deveria ser aplicado em utilidades mais distantes, e ser tão grande a colheita, tão rica, tão completa quanto possível: aqui, ao contrário, da noite para o dia, a colheita foi envenenada ... Aquilo que se erguia aere perennius, o imperium Romanum, a mais grandiosa forma de organização sob condições difíceis que até agora foi alcançada, em comparação à qual todo o antes, todo o depois, é fragmento, remendo, diletantismo - aqueles santos anarquistas se fizeram uma “devoção”, de destruir “o mundo”, isto é, o Imperium Romanum, até que não restasse pedra sobre pedra − até que mesmo os germanos e outros rústicos puderam tornar-se senhores sobre ele ...

O cristão e o anarquista: ambos décadents, ambos ineptos a atuar de outro modo, a não ser dissolvendo, envenenando, enfezando, sugando sangue, ambos o instinto do ódio mortal contra tudo o que está em pé, tem estatura, tem duração, promete futuro à vida ...

O cristianismo foi o vampiro do Imperium Romanum − o descomunal feito dos romanos, conquistar o chão para uma grande civilização, que tem tempo, ele o desfez da noite para o dia − ainda não se entende isso? O Imperium Romanum que conhecemos, que a história da província romana nos ensina a conhecer cada vez melhor, essa admirável obra de arte do grande estilo, foi um início, seu edifício estava calculado para se comprovar com os milênios − até hoje nunca se edificou assim, nunca sequer se sonhou edificar em tal medida sub specie aeterni!  

Essa organização era firme o bastante para suportar maus césares: o acaso das pessoas não pode fazer nada em tais coisas − primeiro princípio de toda grande arquitetura. Mas não era firme o bastante contra a mais corrupta espécie de corrupção, contra o cristão ...

Esse verme secreto que à noite, na neblina e na ambiguidade, se aproximava sorrateiro de todos os indivíduos e sugava de cada indivíduo a seriedade para coisas verdadeiras e, em geral, o instinto para realidades, esse bando covarde, feminino e açucarado, passo a passo afastou as “almas” desse descomunal edifício − aquelas valiosas, aquelas virilmente nobres naturezas, que sentiam na causa de Roma sua própria causa, sua própria seriedade, seu próprio orgulho.

A tortuosidade de carolas, a clandestinidade de conventículos, conceitos sombrios como inferno, como sacrifício dos inocentes, como unio mystica no beber sangue, antes de tudo o fogo lentamente atiçado da vingança de chandala − isso se tornou senhor sobre Roma, a mesma espécie de religião a cuja forma preexistente já Epicuro havia feito guerra. Leia-se Lucrécio para compreender o que Epicuro combateu, não o paganismo, mas “o cristianismo”, quer dizer, a corrupção das almas pelo conceito de culpa, pelo conceito de castigo e de imortalidade.

Combateu os cultos subterrâneos, o escorregadio cristianismo latente e negar a imortalidade era, já naquele tempo, uma efetiva redenção − e Epicuro teria vencido, todo espírito respeitável no império romano era epicurista: então apareceu Paulo ...

Paulo, o ódio-de-chandala feito carne, feito gênio, contra Roma, contra “o mundo”, o judeu, o judeu eterno par excellence... O que ele adivinhou, foi como, com o auxílio do pequeno e sectário movimento cristão, à margem do judaísmo, se pode acender um “incêndio do mundo”, como, com o símbolo “Deus na cruz”, se pode somar tudo o que está por baixo, tudo o que é secretamente sedicioso, a inteira herança de agitações anarquistas dentro do império, em uma potência descomunal. “A salvação vem dos judeus”.

Karl Marx
O cristianismo como fórmula para suplantar os cultos subterrâneos de toda espécie − o de Osíris, da Grande Mãe, de Mithra, por exemplo − e somá-los: nessa intuição consiste o gênio de Paulo. Seu instinto estava tão seguro nisso, que as representações, com as quais aquelas religiões de chandala fascinavam, ele as pôs, com impiedosa violência contra a verdade, na boca daquele “salvador”, de sua invenção − e não somente na boca − que; deste, ele fez algo que também um padre de Mithra podia entender ...

Esse foi seu instante de Damasco: ele compreendeu que tinha necessidade da crença na imortalidade para desvalorar “o mundo”, que o conceito “inferno” ainda se tornaria senhor sobre Roma − que com o “além” se mata a vida ...

Nihilist und Christ, niilista e cristão: isso rima, isso não rima apenas ...

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Eu não sei o que Freud pensou do “O AntiCristo”, mas eu pensei que se o cristianismo destruiu um império como o romano é bem capaz de estar destruindo o império de hoje, que é o “Império Estadunidense”. Desde o lançamento, pelos soviéticos, do Sputnik I, que os norte-americanos estão desconfiados de que existe algo errado com o sistema educacional deles.

Nos anos 1990s o Bill Clinton pediu à comunidade científica que estudasse o assunto de forma mais aprofundada, o que era um sinal claro, de que o problema continuava. E quando ouço falar no avanço das igrejas pentecostais nos Estados Unidos, com pastores eletrônicos ganhando fortunas e com imensas audiências, ao mesmo tempo em que vejo professor norte-americano escrevendo livro dizendo que “nunca viu geração tão idiota quanto a dos Estados Unidos de hoje”, eu começo a pensar que o Nietzsche descobriu a fórmula infalível para a destruição de impérios.

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Quanto ao “Como Avaliar Nietzsche”, tendo em vista que todos devemos ter um consultor ou um conselheiro para nos orientar, embora nem sempre compreendamos o que eles dizem (o Roosevelt, depois de conversar com Keynes, disse para um assessor, que queria saber o que o presidente tinha achado do famoso economista: “Ele é, certamente, um grande homem, mas eu não entendi nada do que ele falou”.

Bertrand Russel
O Roosevelt é a prova cabal de que um presidente não precisa entender das coisas, desde que saiba ouvir as pessoas certas), eu recorri ao meu “consultor filosófico”, o Bertrand Russell.

Mas o Nietzsche é uma figura complexa demais para que eu possa resumir, em poucas palavras o que o Russell disse dele.

Limitar-me-ei a dizer que, segundo Russell, “a crítica nietzschiana das religiões e da filosofia é dominada inteiramente por motivos éticos” e que “A moral de Nietzsche não é de indulgência consigo mesmo em nenhum sentido comum: acredita na disciplina espartana e na capacidade de suportar a dor, como também de infligi-la, para fins importantes. Admira acima de tudo a força de vontade”.

Isso é muito pouco mas eu espero que possa motivar algumas pessoas a estudar a obra desse importante filósofo.
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[*] Alfredo Pereira dos Santos (7 de abril de 1943). Nascido e criado no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Foi Salva-Vidas durante algum tempo e formou-se em Engenharia, Estatística e Matemática, mas  fixou-se na Informática, que se tornou sua profissão. Criança e adolescente, jamais assistiu TV. Lia muito. Tem um casal de filhos formados (ele, História, ela, pedagogia). Deixou de escrever poesia depois de receber demolidora crítica do silêncio de dois poetas, um consagrado e o outro nem tanto. Enxadrista e colunista de Xadrez tendo escrito um livro sobre o assunto: Cartilha de Xadrez.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Quebrar o feitiço neoliberal: Europa, terreno de luta

2/1/2014, Euronomade, [*] Autores: Sandro Mezzadra e Toni Negri
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Países da Zona do Euro (moeda única da Europa)
(clique na imagem para aumentar)
Quem, como nós, não tem interesses eleitorais, está na melhor posição para reconhecer a grande importância que terão em 2014 as eleições ao Parlamento Europeu. É fácil prever que na maior parte dos países implicados haverá alta abstenção e significativa afirmação das forças “eurocéticas”, unindo à retórica da “soberania nacional”, a hostilidade contra o euro e contra os “tecnocratas de Bruxelas”. Para nós, não é nada bom.

Estamos convencidos há tempos de que por baixo do perfil normativo, como por baixo da ação governamental capitalista, há uma Europa cuja integração já ultrapassou o portal do irreversível. O realinhamento geral dos poderes na crise – em torno da centralidade do Banco Central Europeu e o que se define como “federalismo executivo” – modificou sem dúvida a direção do processo de integração, mas não pôs em discussão a continuidade daquele processo. A própria moeda única mostra-se hoje consolidada na perspectiva da união bancária: é necessário responder à violência com que essa união bancária manifesta o mando capitalista; mas volta às moedas nacionais significa não entender qual é o terreno no qual se disputa hoje a luta de classes.

É verdade que a Europa é hoje uma “Europa alemã”, cuja geografia econômica e política vai-se reorganizando em torno de relações concretas de força e de dependência, que se refletem até no nível monetário. Mas só o feitiço neoliberal explica que se confundam a irreversibilidade do processo de integração, de um lado; e de outro a impossibilidade de modificar os conteúdos e as direções; de fazer agitarem-se dentro do espaço europeu a força e a riqueza de uma nova hipótese constituinte.

Quebrar esse feitiço neoliberal significa redescobrir hoje o espaço europeu como espaço de luta, de experimentação e de invenção política. Como terreno sobre o qual a nova composição social dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos pobres abrirá talvez uma perspectiva de organização política. Lutando sobre o terreno europeu, uma organização assim terá a possibilidade de golpear diretamente a nova acumulação capitalista. E só no terreno europeu é possível propor tanto a questão do salário como da renda; redefinir os direitos como nova dimensão do Welfare; tanto as transformações constitucionais internas nos países individuais, como a questão constituinte europeia. Hoje, não há realismo político se não nesse terreno.

Parece-nos que as forças de direita compreenderam há tempo que a irreversibilidade da integração assinala hoje o perímetro do que resulta política e praticamente pensável na Europa.

Angela Merkel
Em torno da hipótese de aprofundamento substancial do neoliberalismo, já se organizou um bloco hegemônico que inclui variantes significativamente heterogêneas (das aberturas não só táticas na direção de uma hipótese socialdemocrata de Angela Merkel, à violenta constrição repressiva e conservadora de Mariano Rajoy). As mesmas forças de direita que se apresentam como “antieuropeias”, pelo menos nos seus componentes mais informados, jogam sua opção sobre o terreno europeu, com vistas a ampliar os espaços de autonomia nacional que estão bem presentes na Constituição Europeia, e recuperando, num plano meramente demagógico, o ressentimento e a fúria disseminados em amplos setores da população, depois de anos de crise.

A referência à nação mostra-se como o que é: transfiguração de um sentido de impotência em agressividade xenófoba; defesa de interesses particulares imaginados como arquitrave de uma “comunidade de destino”. Por outro lado, a esquerda socialista, embora não fazendo parte do bloco hegemônico neoliberal, não consegue diferençar-se eficazmente daquele bloco no momento de elaborar propostas programáticas de signo claramente inovador. A candidatura de Alexis Tsipras, líder do partido Syriza, à presidência da Comissão Europeia, tem importância indubitável nessa ordem de coisas; já determinou em muitos países uma positiva abertura do debate de esquerda. Em outros países, contudo, ainda parecem prevalecer os interesses de pequenos grupos ou “partidos”, incapazes de desenvolver discurso político plenamente europeu.

Com as coisas nesse pé, por que as eleições europeias de maio próximo nos parecem importantes?

Alexis Tsipras
Em primeiro lugar, porque tanto o relativo reforço dos poderes do Parlamento, como a designação pelos partidos de um candidato à Presidência da Comissão, fazem da campanha eleitoral, necessariamente, um momento de debate europeu, no qual as diversas forças ficarão obrigadas a definir e anunciar, pelo menos, algum esboço de programa político europeu. Parece-nos pois que aqui se apresenta a ocasião para uma intervenção política dos que se batem para quebrar tanto o feitiço neoliberal como seu corolário, segundo o qual a única oposição possível à atual forma da União Europeia seria o “populismo” antieuropeu.

Não se exclua, de início, que essa intervenção possa encontrar interlocutores entre as forças que se movem no terreno eleitoral. Mas estamos pensando, antes de tudo, numa intervenção de movimento, que consiga deitar raízes no interior das lutas que se desenvolveram nos últimos meses, embora de diferentes maneiras, em muitos países europeus – com intensidade significativa inclusive na Alemanha. É decisivamente importante voltar a habilitar um discurso programático – e isso não é possível exclusivamente dentro e contra o espaço europeu.

Mariano Rajoy
Não vemos como se poderia questionar sociologicamente, de modo adequado, a “composição técnica de classe” de um ponto de vista messiânico acima da “composição política” adequada. Do mesmo modo, não haverá movimentos de classe vitoriosos que não tenham interiorizado a dimensão europeia. Não seria a primeira vez, mesmo na história recente das lutas, que esses movimentos ver-se-iam forçados pelo marco político a se modificarem, voltando a experiências locais, até se verem asfixiadas em clausuras sectárias. Trata-se de reconstruir imediatamente um horizonte geral de transformação, de elaborar coletivamente uma nova gramática política e um conjunto de elementos de programa que possam agregar força e poder no interior das lutas. Aqui e agora – repetimos – a Europa nos parece ser o único espaço no qual isso é possível.

Um ponto nos parece particularmente importante. A violência da crise fará sentir seus efeitos ainda por muito tempo. Não há “recuperação” à vista, se por recuperação se entender diminuição significativa do desemprego, diminuição do precarismo [1] e relativo reequilíbrio dos ganhos. Mesmo assim, parece que se possa descartar o aprofundamento da crise. O acordo sobre o salário mínimo, sobre o qual de fundamenta a nova coalizão na Alemanha, parece indicar, mais, um ponto de mediação no terreno do salário social que pode funcionar – em geometria e geografia variáveis – como critério de referência geral para a definição de um cenário de relativa estabilidade capitalista na Europa.

É um cenário, não a realidade atual, e é um cenário de relativa estabilidade capitalista. Para a força de trabalho e para as formas da cooperação social, esse cenário assume como dados de partida a extensão e a intensificação do precarismo, a mobilidade forçada dentro do espaço europeu e fora dele, o desclassamento de quotas relevantes do trabalho cognitivo e a formação de novas hierarquias dentro do trabalho cognitivo, determinados pela crise.

Mas em geral, o cenário de relativa estabilidade de que falamos constata a plena hegemonia de um capital cujas operações fundamentais têm natureza extrativa, quer dizer: combinam a persistência de uma exploração de tipo tradicional, com intervenções de “subtração” direta da riqueza social (mediante dispositivos financeiros, mas também porque assumem “bens comuns”, como, dentre outros, saúde e educação, como terreno privilegiado de valoração). Não por acaso, os movimentos compreenderam que nesse terreno travam-se as lutas que podem golpear o novo regime de acumulação.

Nesse cenário trata-se, obviamente, de saber perceber a especificidade das lutas que se desenvolvem, de analisar sua heterogeneidade; e de medir sua eficácia em contextos políticos, sociais e territoriais que podem ser muito diferentes.

Mas trata-se também de propor os problemas de tal modo que as lutas possam convergir, multiplicando sua própria potência “local”, mas dentro do marco europeu. Enquanto isso, delinear os novos elementos do programa pode ser feito mediante a escrita coletiva de uma série de princípios dos quais não se pode abrir mão, no terreno do Welfare e do trabalho; da fiscalidade e da mobilidade; das formas de vida e do precarismo, em todos os terrenos sobre os quais se expressaram os movimentos na Europa.

O que estamos pensando não seria uma carta de direitos redigida de baixo para cima que se apresentaria a alguma instância institucional: é, mais, um exercício de definição programática que, como começa a mostrar a “Carta de Lampeduza” essas semanas, no que tenha a ver com migração e asilo, possa converter-se em instrumento de organização no nível europeu. Sem esquecer que, nesse trabalho, podem aparecer impulsos decisivos, mesmo, imediatos, para construírem-se coalizões de forças locais e europeias, sindicais e cooperativas, em movimento.


[1] Há uma tendência no Brasil, a preferir-se “precariedade” a “precarismo”. Optamos por “precarismo” para evitar uma arapuca semântica: todos os substantivos construídos com o sufixo “-idade” (como “precariedade”) são, necessariamente, sempre, substantivos abstratos (de fato, em praticamente todas as línguas em que o sufixo ocorre). Não nos parece razoável acrescentar, a todas as dificuldades do precariato, mais essa dificuldade – terrível! – apresentar precariato mediante exclusivamente por um traço abstrato. Por piores que sejam os “-ismos”, entendemos que nenhum deles seria o que é sem a luta muito concreta dos que lutaram por eles, ou neles e, claro, também contra eles.
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[*] Autores: Sandro Mezzadra e Toni Negri

Sandro Mezzadra é professor na Universidade de Bolonha. Os seus estudos concentram-se na história das ideias políticas e na teoria política. Nos últimos anos, tem-se debruçado sobre a relação entre globalização, migração e cidadania. Esteve igualmente envolvido na luta pelo direitos dos migrantes, nomeadamente no âmbito do primeiro dia de acção contra a reunião do G-8 em Génova (Itália) em 2001, dedicado às questões da migração, bem como nos fóruns sociais italianos. Entre as suas publicações, destacamos Diritto di fuga. Migrazioni, cittadinanza, globalizzazione, Verona, Ombre corte, 2001.

Antonio Negri, também conhecido como Toni Negri é um filósofo político italiano, tradutor dos escritos de Filosofia do Direito de Hegel, especialista em Descartes, Kant, Espinosa, Leopardi, Marx e Dilthey, tornou-se conhecido no meio universitário sobretudo por seu trabalho sobre Espinosa, mas sua atividade acadêmica sempre foi intimamente ligada à atividade política. Negri ganhou notoriedade internacional nos primeiros anos do século XXI, após o lançamento do livro Império - que se tornou um manifesto do movimento anti-globalização - e de sua sequência, Multidão, ambos escritos em co-autoria com seu ex-aluno Michael Hardt.