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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Buracos negros financeiros: nutrição e cuidados básicos


30/6/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Sergey Glazyev

Há algum tempo, tive o prazer de ouvir Sergey Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências da Rússia e conselheiro do presidente Putin – dizer algo que confirmou muito bem o que sempre pensei. Glazyev disse que qualquer um que saiba matemática pode ver que os EUA estão à beira do colapso, porque a dívida interna norte-americana cresce exponencialmente. Não são palavras que político europeu ou norte-americano ande dizendo por aí em público, talvez nem sussurradamente na cama, porque nos EUA travesseiros têm ouvidos, e, se acontecer assim, o tal político receberá tratamento de Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, numa visita aos EUA, foi falsamente acusado de estupro, e preso). Por essas e outras nenhum político europeu (e dos norte-americanos, então, nem se fala), pode jamais declarar o óbvio, por mais óbvio que seja.
A essa altura, os russos já sabem muito bem disso. Sim, manter diálogo e relações cordiais com europeus é importante. Mas que fique bem entendido que europeus não passam de fantoches dos EUA sem vontade nem poder para tomar decisões próprias. Melhor talvez falar com os norte-americanos diretamente? Infelizmente, também são fantoches. Funcionários do governo e políticos norte-americanos são todos fantoches controlados por lobbyistas de grandes empresas e oligarcas sinistros. Mas, aqui, o choque: esses também são fantoches, controlados pelos simples imperativos do lucro e da preservação da riqueza respectivamente. De fato, são todos fantoches de cabo a rabo, de cima a baixo. E no fundo, por baixo deles, há um gigantesco, eternamente em expansão, buraco negro financeiro.
Você gosta de seu buraco negro? Se não tem muita certeza de que gosta, deixe-me fazer-lhe algumas perguntas: Você gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionem, ou de poder ainda deixar dinheiro no banco e até pegar dinheiro num caixa de atendimento automático, ou de já estar recebendo ou algum dia, sim, receber uma aposentadoria? Você gosta de poder obter coisas úteis – comida, combustível, passagens de avião – em troca de meros pedaços de papel impressos com retratos de homens brancos falecidos? Você gosta de ter acesso à internet, de ter lâmpadas acesas, água na pia? Bem, se você gosta dessas coisas, nesse caso você também tem de gostar do buraco negro financeiro, porque é ele que torna possíveis todas essas coisas, apesar de você viver num país quebrado, falido, em bancarrota. Talvez seja daquelas relações de amor-ódio: você ama conseguir fingir que está tudo ótimo, mesmo você sabendo que não está, e quer curtir mais um pouco do bussiness-como-sempre, antes que tudo vá prô inferno, seja só mais alguns dias, seja um, dois anos. Mas você odeia saber que é altamente possível que o buraco o sugue para o fundo, momento a partir do qual você estará sugado, digo, definitivamente ferrado.
Experimento do Buraco Negro dá dramaticamente ERRADO

Nos EUA, até agora, o buraco negro tem sugado famílias individualmente consideradas (embora às vezes sugue cidades inteiras, feito Detroit, Michigan ou Bakersfield, Califórnia ou Camden, New Jersey). Com a ajuda da gangue das hipotecas fraudulentas, ele suga casas e as cospe de volta, oneradas por dívidas podres. Com a ajuda da indústria médica, ele suga gente doente e cospe os doentes de volta, falidos. Com a ajuda da gangue das universidades privadas, suga gente jovem cheia de esperanças, e cospe formados nas “especializações” mais ridiculamente inúteis e com as pernas e o espírito quebrados pela mais obscena dívida “estudantil” que se possa imaginar. Com a ajuda do complexo industrial-militar, suga praticamente qualquer coisa e cospe cadáveres, tragédias ambientais, terroristas e instabilidade global. E assim vai.
Mas o buraco negro financeiro pode também sugar países. Nesse momento, está ocupadíssimo tentando devorar a Grécia, mas está difícil, porque a Grécia é – adivinhem! – estado democrático. Esse fato surpreendeu os fantoches do buraco negro, que já começaram a clamar por “mudança de regime” na Grécia, para que a Grécia possa ser obrigada a render-se, antes de o buraco negro morrer de fome.
O processo pelo qual o buraco negro financeiro suga países inteiros é o seguinte. Se o buraco negro não encontra coisas suficientes para sugar logo de início, ele então põe os mercados financeiros em queda livre. Instrumentos financeiros de países que estejam longe do buraco negro – lá, na periferia – caem mais depressa. Em busca de “paraíso seguro”, o dinheiro flui para fora desses países e diretamente para dentro dos países “núcleo” firmemente agarrados em torno do buraco negro financeiro – EUA, Alemanha, Japão e uns poucos outros. O buraco negro devora esse dinheiro, mas logo novamente já fica com fome e quer mais. E, porque os países da periferia já estão agora financeiramente fracos demais para resistirem, podem ser facilmente convertidos em ração para buraco negro financeiro. A devoração começa quando o país é sobrecarregado com dívida externa que jamais poderá pagar, o que força o país-comida a “amortizar” só parcelas da dívida, que não pode deixar de pagar completamente, porque os empréstimos para pagar dívidas são como uma linha vital de abastecimento pela qual o país recebe... mais dívidas. E assim os bancos podem ser mantidos em funcionamento, os caixas de autoatendimento abastecidos, as lâmpadas acesas e tal e tal.
O povo vai direto para Buraco Negro

Para conseguir pagar parcelas da tal dívida, o país é forçado a desmantelar a própria sociedade e a própria economia. E lhe são impostos: o mais total ARROCHO e a privatização de tudo que haja à vista (e cada empresa privatizada é empresa a ser pescada para dentro do saco das dívidas impagáveis, ou só “amortizáveis” com mais dívidas); e o país é forçado a entregar a própria soberania, a qual, rendida, passa a pertencer a organizações transnacionais, como FMI ou BCE, todas diretamente envolvidas na alimentação e na prestação de serviços de atenção à saúde do buraco negro financeiro.
E quem comanda tudo isso? – você poderia perguntar. Se tudo é buraco negro, se não há outra coisa além de buraco negro financeiro, os fantoches encarregados de mantê-lo saudável e bem alimentado e as desgraçadas vítimas do buraco negro financeiro, nesse caso... quem toma as decisões? Bem, fato é que o buraco negro financeiro é racional. Embora também seja muito, muito estúpido. E o meio que conhece para fazer acontecer o que deseja que aconteça é destruir o cérebro e o coração dos seus fantoches – o que os torna incapazes de compreender certas coisas. Mas estupidez é faca de dois gumes, e ao servir-se dela para chegar mais rapidamente ao objetivo, o buraco negro financeiro distorce também o seu próprio objetivo.
Por exemplo, há pouco tempo, o buraco negro financeiro encontrou objeto grande demais, que quis sugar, mas não conseguiu. O objeto chama-se Federação Russa. Controla território imenso, farto em todos os tipos de recursos naturais que o buraco negro financeiro muito gostaria de privatizar e converter em empréstimos colaterais e sugar para dentro do bucho. Problema é que o lugar está cheio de russos, gente difícil, com a qual os fantoches do buraco negro não conseguem lidar bem. Os russos insistem que os fantoches se mantenham à distância, para lá daquela linha vermelha real bem ali, e, se se mexerem, eles engatilham a pistola e fim de conversa fiada.


É situação que exige negociação, mas o buraco negro financeiro é exemplarmente estúpido, como já disse, e só conhece uma tática de negociação. Ele ordena e põe-se à espera que o outro lado se renda. Se não se rende, vêm as pressões: sanções, ataques contra a moeda, transações financeiras tornadas impossíveis, de tão complicadas, confisco de propriedade do país resistente e por aí vai – e outra vez, é só esperar pela rendição. Se nem isso tudo funcionar, então o país é bombardeado até ser convertido em montes de ruínas, pela OTAN. Ou, caso a OTAN não queira participar, o país é bombardeado exclusivamente pelos EUA, até ser convertido em montes de ruínas.
Em geral funciona, embora não tenha funcionado no caso da Federação Russa. Mas o buraco negro financeiro é muito, muito estúpido e fica lá, só repetindo, só repetindo, só repetindo. De tanto que só repete, só repete, só repete, a mente dos fantoches-agentes se atrapalha mesmo, de verdade, a ponto de eles já não entenderem nem a repetição, repetição, repetição deles mesmos.
Por exemplo, todo mundo sabe que pressionar a Rússia não funciona: segundo a 3ª Lei de Newton, toda a ação produz reação igual e oposta, e a Rússia é grande demais e não adianta empurrá-la, que ela não se move nem um passo – e é o empurrador que, de tanto que se esforça, acaba machucado. É feito tentar mudar a órbita da Terra, saltando de uma cadeira com os joelhos tensos (vídeo no fim do parágrafo), bom truque se você quiser atrair atenção médica. Os russos até agradeceram pelas sanções, porque afinal apareceu boa razão para investirem no desenvolvimento da própria economia doméstica e na autossuficiência. Mas os fantoches-agentes, cujos cérebros já foram sugados pelo buraco negro financeiro, nada vêem, nem compreendem e ficam lá, empurra e empurra, fazendo naufragar, no processo, as próprias economias.
Mas se as sanções não funcionam, é tempo de recorrer à opção militar. Para isso, é preciso inventar um casus belli – um motivo para ir à guerra. Foi quando o buraco negro financeiro enlouqueceu completamente: “A Rússia invadiu a Crimeia!” – sim, sim, talvez tenha invadido há algumas centenas de anos, mas já há séculos a Rússia está lá, recentemente já há até acordo internacional sobre o caso, mas... E que importa tudo isso?! (Ah! E não há o que comprove que a Crimeia foi algum dia dada à Ucrânia, porque Nikita Khrushchev alterou toda a papelada, antes de entregar o presente). Não interessa! Não interessa! A Rússia invadiu a Ucrânia e pronto! E sim, sim, sempre, é verdade todos os dias que se escrevam com “d”, mas foi muito safadinha e retirou as tropas antes que alguém pudesse fotografar, uma fotinho, que fosse, deles, por lá. OK, OK, mas isso também não interessa, porque a Rússia está prontinha para invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia e, pode ser, também a Polônia. Mas... vai invadir como? Você... Você acha que é fácil como tomar um ônibus para o festival de música de Jūrmala? Pode ser que seja, mas, o festival já acabou e até os fãs de música que invadiram o país vizinho já estão de volta, dormindo em casa. OK, OK, também não interessa. E os fantoches-agentes só fazem repetir “invasão russa!”, “invasão russa!” sem parar. É o dano cerebral típico de quem vive muito próximo do buraco negro financeiro. Como esse sujeito (foto abaixo), coitado, por exemplo. Bate que bate o maxilar inferior, sempre “agressão russa”, “agressão russa”, enquanto bolina uma imaginária vaca de estimação, tentando acalmar-se. Deus o ajude!

Robert Work, Secretário Adjunto de Defesa dos EUA

De volta ao mundo real: os infelizes fantoches-agentes do buraco negro financeiro não conseguem entender que, se se trata de Rússia, não há opção militar: o poder nuclear funciona aí como excelente argumento de contenção estratégica, é território muito bem defendido e não tem qualquer intenção agressiva contra seja quem for.
Mas os fantoches com a mente perturbada, nada veem, nem isso nem coisa alguma, e lá estão, empilhando os mais variados tipos de lixo militar obsoleto nas fronteiras da Rússia, e até já ameaçaram levar para a Europa os seus mísseis nucleares Pershing de alcance médio e obsoletos. São obsoletos, porque os russos têm agora o sistema S-300, com o qual podem neutralizar todos os Pershings. A opção militar tampouco funcionará, mas não conte aos fantoches-agentes – eles não suportarão informação dessa natureza, sem sofrerem novos danos neurológicos extensos.
De volta à Grécia: a pequena Grécia com certeza não é a poderosa Rússia, mas mesmo assim se recusou a capitular ante as exigências do buraco negro financeiro. Recebeu ordens para destruir completamente a própria sociedade e a própria economia, como condição para manter a linha de dinheiro de sobrevida que lhe enviariam o FMI e o BCE.
Muito inconvenientemente para o buraco negro financeiro e seus fantoches, a Grécia não é algum obscuro país “de 3º mundo”, povoado de gente de pele escura com quem o buraco negro financeiro não quer que a filha dele case: é país europeu e berço da civilização e da democracia europeias. A Grécia conseguiu eleger governo que bem que tentou negociar em boa fé, mas os fantoches-agentes não negociam – eles ordenam, ameaçam e machucam até que chegar onde querem, ou até que a cabeça deles exploda.
Vai ser interessante assistir ao que vem por aí.
Se o buraco negro financeiro conseguir sugar a Grécia, que país virá depois dela? Itália, Espanha ou Portugal? E, com o processo a continuar, quando chegará o momento em que gente em quantidade suficiente decida que basta?

O jornalismo é também responsável pelo Buraco Negro

Porque quando gente em quantidade suficiente decidir que basta, o buraco negro financeiro se encolherá. Não é buraco negro verdadeiro, feito de matéria tão densa que o seu campo gravitacional segura tudo, até a luz. O buraco negro financeiro é buraco negro fake, constituído da ganância combinada de todos.
No âmago dele só há ganância. Ganância envolta em medo por todos os lados e ele se autossustenta alimentando-se de medo, cada vez de mais medo.
Se puder continuar a sugar pessoas, famílias, países inteiros, pode manter viva a ganância que tem no âmago. Mas se não puder, nesse caso a ganância também se converterá em medo, tudo se autoconsumirá e o buraco negro financeiro se terá autodevorado.
Espero que quando acontecer, todos os seus fantoches ruins-da-cabeça livrem-se dele, percebam o quanto estavam errados e quem sabem acham algo útil para fazer – criar ovelhas, plantar hortaliças, desenterrar caranguejos...

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sobre o plano de ação da União Europeia “para responder à propaganda russa”

24/5/2015, Ministério de Relações Exteriores da Rússia 1269-24-06-2015  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
As propostas para traçar uma estratégia para “responder à propaganda do Kremlin”, preparadas por Federica Mogherini, Alta Representante da União Europeia para Assuntos Estrangeiros e Política de Segurança, e que foram apresentadas no Conselho de Assuntos Gerais da União Europeia ontem, dia 23/6/2015, visam obviamente a condenar a Rússia ao ostracismo, fora do palco da mídia internacional.
Ao mesmo tempo em que requenta o mito da propaganda russa, a União Europeia vive de censurar a liberdade dos veículos de mídia que deem cobertura jornalística profissional aos eventos europeus e mundiais, que atraem leitores, mas diferem da posição oficial da União Europeia.
A União Europeia já incluía jornalistas russos em suas listas de exclusão (sanções), e agora tenta criar condições para “discriminação no atacado” contra a imprensa russa.
Ao privar milhões de europeus do direito de acesso a diferentes fontes de informação, a União Europeia infringe o direito fundamental e universalmente reconhecido à liberdade de expressão, e todos os seus compromissos com a liberdade de informação e com a pluralidade no noticiário.
– FIM DO COMUNICADO –

sexta-feira, 5 de junho de 2015

China: duas abordagens sobre a cobertura “midiática” dos “Diálogos de Xangrilá”


Entreouvido no Quiosque do Chambão na Viva Vudu: Democracia “midiática” é isso! O resto é kamelismo & miriamleitonismo & sardenberguismos & friaszismos & civitismo & coisa e tal!:-D))))


5-6/6/2015, South China Morning Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Almirante Sun Jianguo nos "Diálogos de Xangrilá"
Pequim impôs à imprensa estatal uma estratégia de propaganda em duas vias, para a cobertura do Fórum de Segurança em Cingapura semana passada: proibiu a cobertura midiática das tensões no Mar do Sul da China aos veículos editados em idioma chinês; e liberou os veículos publicados em idiomas estrangeiros.
Enquanto a mídia internacional dedicava-se às questões do Mar do Sul da China durante o Diálogo de Xangrilá, que se realiza de sexta-feira até domingo (5-7/6/2015), a mídia estatal publicada em idioma chinês recebeu ordem para nada discutir sobre tensões políticas, para não exacerbar o nacionalismo.
Foi ordem da mais alta cúpula, provavelmente do Comitê de Publicidade do Partido Comunista, não foi coisa interna, de nossa editoria – um jornalista disse à reportagem do South China Morning Post.
Mas jornalistas empregados de veículos da mídia estatal que publicam em idiomas estrangeiros não receberam qualquer instrução especial. Correspondentes estrangeiros e âncora de canais de televisão que transmitem em inglês puderam entrevistar delegados e especialistas de outros países.
Por muitos anos, jornalistas que publicam em língua estrangeira, a serviço dos veículos da mídia estatal, tiveram vários privilégios em relação aos colegas que publicam em idioma chinês, porque os públicos são diferentes.
Quiao Mu
Os coordenadores de publicidade e propaganda entendem que os chineses civis comuns, que assistem a canais de TV e leem jornais em chinês, podem ser facilmente manipuláveis e incitados ao nacionalismo. Por isso é que frequentemente os pontos principais da versão em inglês do Global Times podem ser muito diferentes dos da edição em chinês – disse Qiao Mu, decano do Centro para Estudos de Comunicação Internacional, da Universidade de Estudos Estrangeiros em Pequim
Tensões no Mar do Sul da China e tensões entre China e EUA subiram de tom em semanas recentes, desde que a CNN dos EUA noticiou que navios chineses haviam enviado sinal de alerta a um avião de reconhecimento dos EUA que sobrevoava o mar.
No primeiro dia do diálogo de Cingapura, Washington acusou a China de ter alocado peças móveis de artilharia numa ilha; e “exigiu” de Pequim “um alto imediato e duradouro” naquelas práticas. A “exigência” recebeu resposta dura do Ministro de Relações Exteriores da China.
Mas especialistas em relações sino-norte-americana disseram que, apesar da resposta dura, a delegação chinesa evitou tópicos mais sensíveis, como a resposta que a China pode decidir dar, se os EUA insistirem nos atos de provocação e nas ameaças de postar naves e aviões de guerra a 12 milhas náuticas das ilhas artificiais chinesas. Disseram que esses também são tópicos que podem elevar a temperatura do nacionalismo entre os chineses.
Um Cinturão, Uma Estrada (clique na legenda para aumentar)
A delegação chinesa foi instruída a promover a estratégia chinesa para desenvolvimento de toda a região, “Um Cinturão, uma Estrada”, o que implica que agora interessa mais à China evitar temas conflitantes no Fórum – disse um especialista.
Huang Jing
Huang Jing, professor de Relações EUA-China na Universidade Nacional de Cingapura, disse que Pequim lidou com extremo cuidado e muita habilidade com as questões sensíveis, sobretudo as que envolvem relações China-EUA e China-Japão, que são temas que muito facilmente podem despertar emoções nacionalistas.
Pequim entende que o nacionalismo pode ser efetivo para promover o governo do Partido Comunista, enfatizando o fim do “século de humilhações” pelo qual a China passou. Mas nenhum nacionalismo pode conflitar com o espírito de integração regional que inspira a estratégia “Um Cinturão, uma Estrada” – disse o professor Huang Jing.

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domingo, 31 de maio de 2015

“Jornalismo indispensável”, lá como cá, tudo a lesma lerda

“Mídia” tenta afogar campanha de
Sanders num maremoto de silêncio
28/5/2015, [*] Gaius Publius, Down with Tyranny
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Bernie Sanders
por DonkeyHotey
Todos sabíamos que “os falastrões” – palavra que Steve Hendricks usa para designar jornalistas-empregados e “especialistas” midiáticos também empregados – fariam de tudo para afundar a campanha presidencial de (Bernie) Sanders. Como Hendricks diz no artigo adiante citado, os patrões daqueles jornalistas e “especialistas” empregados querem exatamente isso, e empregado não chia, empregado obedece.
Na Columbia Journalism Review, Hendricks escreve que:
Na véspera da eleição presidencial de 1948 Newsweek perguntou aos 50 repórteres que acompanhavam o trem de campanha do presidente Truman quem venceria. Numa só voz responderam o que o jornal Chicago Tribune repetiria, para sua grande vergonha, em manchete, na noite da eleição: “Dewey derrota Truman. Historiadores relembrarão para sempre que Truman não apenas derrotou Dewey, como lhe aplicou verdadeira surra de votos.
Tentando descobrir por que a imprensa errara tão espetacularmente, James Reston, do The New York Times concluiu que ele e seus colegas de profissão e de trem presidencial haviam acabado por ficar parecidos com o governador Dewey, o mais consumado “pavão” de todos os tempos. Dewey dava-se bem com plutocratas e diretores de redação. “Assim como ele estava isolado demais, só convivendo com outros políticos”, Reston escreveu, “assim nós também só convivíamos com outros jornalistas; e nos deixamos impressionar demais pelo que diziam as pesquisas eleitorais”.
Até aí, tudo verdade, mas foi A. J. Liebling, da revista The New Yorker, quem detectou o vício crucial que, nem Reston, nem os jornalistas de cabeça semelhante à de Reston conseguiram ver. Uma grande onda de contrição inundou o mundo dos jornalistas de Washington nos dias imediatamente posteriores àquela catástrofe engraçadíssima.
(...) e o pessoal das redações jurou que nunca mais, até o dia do Juízo Final, deixariam de sair à procura de fatos confirmados, vale dizer, de fatos investigados que realmente refletissem as verdades do dia, como jamais antes haviam procurado.
Mas poucos editores e chefes de redação os estimularam nessas tão boas intenções, e praticamente todos os repórteres voltaram às ruas, mas para só procurar “fatos” que confirmassem a opinião, a fé ou as novas ilusões daquele mês, dos seus patrões.
Como Hendricks escreveu, a mais importante constatação de Liebling é também sua frase mais memorável:

A lei só reconhece a liberdade
de imprensa do dono do jornal

As “ilusões dos jornalistas-empresários e patrões” sobre a campanha de Sanders determinam que Sanders não tem chances de ser eleito e portanto não precisa de chances para ser eleito. Assim sendo, estão fazendo de tudo, os falastrões e seus patrões, para não lhe dar nenhuma chance. Hendricks, sobre o maremoto de silêncio da imprensa-empresa comercial:
Muito mais próximo da verdade é que [Sanders] realmente até “poderia” vencer. Mas tendo já decidido a favor da própria profecia, a imprensa-empresa pôs-se a fazer a cobertura de Sanders & sua candidatura de modo a empurrar a profecia da “própria imprensa-empresa” para que se cumpra completamente.
O NYTimes, por exemplo, enterrou a matéria sobre o lançamento da candidatura de Sanders para o fundo da página A21, apesar de todos os demais que se anunciaram candidatos antes terem sido postos na metade superior da primeira página. A notícia sobre o lançamento da candidatura de Sanders mal chegou a 700 palavras, comparadas às entre 1.100 e 1.500 que mereceram Marco Rubio, Rand Paul, Ted Cruz e Hillary Clinton. Em matéria de conteúdo, os “repórteres” do NYTimes noticiaram os fatos sobejamente investigados e já comprovados de que Sanders é cachorro morto e nunca receberá a indicação dos Democratas porque “Hillary já-ganhou”. Nenhum dos aspirantes à indicação dos Republicanos recebeu tratamento equivalente de morte preventiva por tiro de longa distância, apesar de Paul, Rubio e Cruz aparecerem em 5º, 7º e 8º lugares entre os Republicanos antes de se apresentarem como pré-candidatos.
Há mais no artigo, inclusive as semelhanças entre isso e a cobertura dada também aos que Hendricks chama, não eufemisticamente, de “admiradores” de Sanders.

Candidatos à presidencia dos EUA-2016
Onde está Sanders?
“Mas é eleição tãããããão difícil...”
Hendricks acredita firmemente que Sanders “pode” vencer, afinal de contas (partilho, eu também, dessa crença). Além da sempre possível ocorrência de eventos como os da quase eleição de Eugene McCarthy em 1968, da qual Hendricks não fala, há vários argumentos de peso dos quais Hendricks fala:
Primeiro, há aqueles eventos absolutamente evitáveis, mas que alguém não evitou. Não quero me aprofundar, mas é fato que qualquer cavalo já disparado para a marca de chegada pode ter um evento de Chappaquiddick, uma gritaria filmada e gravada intencionalmente amplificada ou uma queda de avião. Em vez de falar disso, consideremos o simples fato de que nos últimos 40 anos, das sete eleições nas quais o indicado dos Democratas estava “já eleito” – casos em que um presidente Democrata não era candidato à reeleição – os “azarões” venceram a indicação do Partido em três ou quatro casos (dependendo de como você defina “azarão”) e acabaram por chegar à presidência mais vezes que os candidatos favoritos.
Alguns desses aspirantes eram possibilidade muito remota, mesmo. Jimmy Carter era governador apenas mediano de um estado insignificante além de cujas fronteiras poucos o conheciam e menos o queriam eleito presidente. Poucas semanas antes das eleições, Harris Poll [instituto de pesquisas] perguntou aos eleitores o que pensavam de 35 candidatos potenciais. Carter nem foi incluído na lista. Depois de um ano de campanha, apenas poucos meses antes da primeira primária, Carter aparecia invariavelmente com 1 por cento das preferências dos eleitores Democratas; e era o 8º dentre oito Democratas candidatos à indicação do Partido. Pois mesmo assim venceu, porque todos os demais candidatos eram “gente de Washington”, e depois de Watergate e do Vietnã, os eleitores Democratas (e, muito possivelmente, a maioria de todo o eleitorado norte-americano) não queriam eleger mais “daquela gente”, por mais que os jornalistas lhes dissessem que, se não queriam, tinham de querer.
Se você não está vendo a semelhança com o momento atual – tempo de descontentamentos amplos, de Occupy, Black Lives Matter, Moral Monday, Fight for $15, o People’s Climate March, Move to Amend, e mais agitação anti-establishmentista – das duas, uma: ou você está dormindo, ou você é proprietário de jornal/rede de televisão e de chefes-de-redação.  
Michael Dukakis também aparecia com 1 por cento nas pesquisas bem poucos meses antes de lançar-se candidato (por falar nisso, em idêntico momento, Sanders tinha 5-8 por cento das preferências dos eleitores), que desapareciam ante os avassaladores 40- 50% que tinha Gary Hart. Quando a campanha de Hart desceu pelo ralo, como bote carregado de bonecas infláveis e outras de carne e osso, Dukakis foi beneficiado, embora nem aí tenha chegado a ser o favorito. Pouco antes da primeira primária, ainda mal chegava aos 10%, e estava correndo cabeça a cabeça com o inesquecível Paul Simon, 15 pontos atrás de Jesse Jackson e de um Hart renascido das cinzas, porque Dukakis e os demais pareciam tão impotentes, que Hart voltava a sentir-se com boas chances.
Para alguns observadores, Bill Clinton não seria “azarão”, sobretudo porque teve curtíssimo período como tal, depois que saltou para a pista e pôs-se a correr. Mas sua projeção nacional era tão invisível, que nove meses antes das primárias nenhum instituto de pesquisa sequer o consultava como possível concorrente. Até o próprio Bill achava que não tinha chances (Mario Cuomo era candidato previsto, invencível, se concorresse), e não se anunciou aspirante à indicação dos Democratas até cinco meses da data limite. Só a partir dali suas chances aumentaram.
O quixotesco Barack Obama entrou na liça contra um(a) mamute cujos apoios eram tão gigantescos que muitos supuseram que o jovem senador “desafiante” lá estava apenas para se fazer conhecer, pensando em futuras campanhas. Depois de ter feito campanha durante todo o ano de 2007, Barack não apenas não avançara um palmo sobre o campo de Hillary, como se sentia ainda um pouco mais para trás, do que no início (caiu de 24 a 22 por cento, enquanto Clinton avançava de 39 a 45 por cento. Houve rumores até de que ele desistiria de concorrer e sairia da disputa para não enfraquecer aquela candidata “invencível”.
É lista muito decente de casos precedentes. Desses quatro casos, três mudaram-se para a Casa Branca e lá viveram muitos anos.
Já a grana da Hillary Clinton...

E o dinheiro da Clinton?
E há também o caso do dinheiro, especificamente dinheiro da Clinton, que tem a ver com o caso de Sanders. Deixarei que você mesmo leia os contra-argumentos de Hendrick (comece no parágrafo que abre com: “Pesquisas” muito precoces podem ser noticiário espúrio). Mas destaco aqui alguns daqueles contra-argumentos:
A última indicação partidária disputada, em 2008, foi, ela própria, assunto de muito, muito dinheiro, e Obama venceu, apesar de ter começado em posição ainda pior, em termos de finanças, que a de Sanders hoje (Clinton tinha arrecadado US$ 10 milhões no início de 2007, Obama virtualmente zero) e durante todo o ano de 2007 ele perdeu para a Clinton, em arrecadação de fundos para campanha.
Apenas um dado, colhido dentre muitos.
Sanders é candidato demasiadamente distante do “Centro”?
O que leva Hendricks ao argumento final contra a “viabilidade” de Sanders – a distância que o separa do “centro político”. Hendricks, observando várias eleições passadas, observa o quanto essa distância pode ser valiosa. Concordo. O primeiro exemplo que ele oferece é Michael Dukakis – realmente muito distante do centro – e poderia ter acrescentado Jimmy Carter (lá da Geórgia), ou Bill Clinton de Arkansas.
Mas, pensem bem: o que significa o “centro político” nos EUA de hoje? Significa um espaço no qual os desejos dos “Um-porcentistas” – desejos de David Koch e de Jamie Dimon, por exemplo – coincidem perfeitamente. O centro político do povo norte-americano está muitíssimo à esquerda disso.
A seguir assista o vídeo: “Nos EUA, a corrupção é legal”
Por exemplo, 87% dos Republicanos querem que a “tramitação de urgência” e a Parceria Trans-Pacífico de Obama não sejam aprovadas. Republicanos, leiam bem. E aí está, sim, o verdadeiro perigo que tantos veem na campanha de Sanders: porque ela realmente, sim, realmente representa o povo, a imensa maioria do povo norte-americano e, portanto, sim pode ser bem-sucedida, se receber qualquer ventinho de popa. Diz Hendricks:
Estará chegando o dia do socialista IKEA? [1] Os falastrões não conhecem a resposta. O que eles sabem é como fazer absolutamente o d-i-a-b-o para garantir que tal dia jamais chegue.
Eles podem tentar, os falastrões e seus patrões, afogar a campanha de Sanders num maremoto de silêncio. Mas há gente que está falando impressionantemente a favor dele, como Elizabeth Warren. A plataforma do senador Sanders tem megafone potentíssimo. Assista discurso da Sen. Elizabeth Warren a seguir:
Estou tentado a apostar que o megafone de Warren, seja qual for o candidato que ela venha a apoiar no final, não será em vão. Os falastrões terão de falar da senadora, falar mal, que seja! Tudo isso ajuda a campanha de Sanders.
 
Quem quiser ajudar na campanha, clique aqui. Faça como achar melhor. O arquivo do meu trabalho de apoio à campanha de Bernie Sanders está aqui. (Assina: Gaius Publius)

Nota dos tradutores
[1] Parece que IKEA é um tipo de supermercado inventado na Suécia, organizado de um tal modo que o comprador tem trilhas demarcadas pelas quais pode andar, mas das quais não pode sair. O tal supermercado está chegando aos EUA, ou já existe há mais tempo, e essas trilhas demarcadas e regras rígidas têm gerado inúmeros protestos e críticas furiosas, porque seriam “socialistas”. Foi o que conseguimos descobrir.
  • Encontra-se alguma informação sobre essa conversa de alguém ter chamado o candidato Sanders de “socialista IKEA”, mas não aprofundamos a pesquisa.
  • Nosso pesquisador informa que, desafiado por esse conceito de socialismo à moda Tea Party, sentiu-se como Obelix, de “Asterix, o Gaulês”, quando tropeçava em ideias, práticas e conceitos absurdos (todos) dos romanos: São doidos, esses romanos!, a seguir:

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[*] Gaius Publius é escritor profissional e reside na costa oeste dos EUA. É articulista frequente de blogs e sites tais como: DownWithTyranny, digby, Truthout, Americablog, e Naked Capitalism.
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