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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Buracos negros financeiros: nutrição e cuidados básicos


30/6/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Sergey Glazyev

Há algum tempo, tive o prazer de ouvir Sergey Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências da Rússia e conselheiro do presidente Putin – dizer algo que confirmou muito bem o que sempre pensei. Glazyev disse que qualquer um que saiba matemática pode ver que os EUA estão à beira do colapso, porque a dívida interna norte-americana cresce exponencialmente. Não são palavras que político europeu ou norte-americano ande dizendo por aí em público, talvez nem sussurradamente na cama, porque nos EUA travesseiros têm ouvidos, e, se acontecer assim, o tal político receberá tratamento de Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, numa visita aos EUA, foi falsamente acusado de estupro, e preso). Por essas e outras nenhum político europeu (e dos norte-americanos, então, nem se fala), pode jamais declarar o óbvio, por mais óbvio que seja.
A essa altura, os russos já sabem muito bem disso. Sim, manter diálogo e relações cordiais com europeus é importante. Mas que fique bem entendido que europeus não passam de fantoches dos EUA sem vontade nem poder para tomar decisões próprias. Melhor talvez falar com os norte-americanos diretamente? Infelizmente, também são fantoches. Funcionários do governo e políticos norte-americanos são todos fantoches controlados por lobbyistas de grandes empresas e oligarcas sinistros. Mas, aqui, o choque: esses também são fantoches, controlados pelos simples imperativos do lucro e da preservação da riqueza respectivamente. De fato, são todos fantoches de cabo a rabo, de cima a baixo. E no fundo, por baixo deles, há um gigantesco, eternamente em expansão, buraco negro financeiro.
Você gosta de seu buraco negro? Se não tem muita certeza de que gosta, deixe-me fazer-lhe algumas perguntas: Você gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionem, ou de poder ainda deixar dinheiro no banco e até pegar dinheiro num caixa de atendimento automático, ou de já estar recebendo ou algum dia, sim, receber uma aposentadoria? Você gosta de poder obter coisas úteis – comida, combustível, passagens de avião – em troca de meros pedaços de papel impressos com retratos de homens brancos falecidos? Você gosta de ter acesso à internet, de ter lâmpadas acesas, água na pia? Bem, se você gosta dessas coisas, nesse caso você também tem de gostar do buraco negro financeiro, porque é ele que torna possíveis todas essas coisas, apesar de você viver num país quebrado, falido, em bancarrota. Talvez seja daquelas relações de amor-ódio: você ama conseguir fingir que está tudo ótimo, mesmo você sabendo que não está, e quer curtir mais um pouco do bussiness-como-sempre, antes que tudo vá prô inferno, seja só mais alguns dias, seja um, dois anos. Mas você odeia saber que é altamente possível que o buraco o sugue para o fundo, momento a partir do qual você estará sugado, digo, definitivamente ferrado.
Experimento do Buraco Negro dá dramaticamente ERRADO

Nos EUA, até agora, o buraco negro tem sugado famílias individualmente consideradas (embora às vezes sugue cidades inteiras, feito Detroit, Michigan ou Bakersfield, Califórnia ou Camden, New Jersey). Com a ajuda da gangue das hipotecas fraudulentas, ele suga casas e as cospe de volta, oneradas por dívidas podres. Com a ajuda da indústria médica, ele suga gente doente e cospe os doentes de volta, falidos. Com a ajuda da gangue das universidades privadas, suga gente jovem cheia de esperanças, e cospe formados nas “especializações” mais ridiculamente inúteis e com as pernas e o espírito quebrados pela mais obscena dívida “estudantil” que se possa imaginar. Com a ajuda do complexo industrial-militar, suga praticamente qualquer coisa e cospe cadáveres, tragédias ambientais, terroristas e instabilidade global. E assim vai.
Mas o buraco negro financeiro pode também sugar países. Nesse momento, está ocupadíssimo tentando devorar a Grécia, mas está difícil, porque a Grécia é – adivinhem! – estado democrático. Esse fato surpreendeu os fantoches do buraco negro, que já começaram a clamar por “mudança de regime” na Grécia, para que a Grécia possa ser obrigada a render-se, antes de o buraco negro morrer de fome.
O processo pelo qual o buraco negro financeiro suga países inteiros é o seguinte. Se o buraco negro não encontra coisas suficientes para sugar logo de início, ele então põe os mercados financeiros em queda livre. Instrumentos financeiros de países que estejam longe do buraco negro – lá, na periferia – caem mais depressa. Em busca de “paraíso seguro”, o dinheiro flui para fora desses países e diretamente para dentro dos países “núcleo” firmemente agarrados em torno do buraco negro financeiro – EUA, Alemanha, Japão e uns poucos outros. O buraco negro devora esse dinheiro, mas logo novamente já fica com fome e quer mais. E, porque os países da periferia já estão agora financeiramente fracos demais para resistirem, podem ser facilmente convertidos em ração para buraco negro financeiro. A devoração começa quando o país é sobrecarregado com dívida externa que jamais poderá pagar, o que força o país-comida a “amortizar” só parcelas da dívida, que não pode deixar de pagar completamente, porque os empréstimos para pagar dívidas são como uma linha vital de abastecimento pela qual o país recebe... mais dívidas. E assim os bancos podem ser mantidos em funcionamento, os caixas de autoatendimento abastecidos, as lâmpadas acesas e tal e tal.
O povo vai direto para Buraco Negro

Para conseguir pagar parcelas da tal dívida, o país é forçado a desmantelar a própria sociedade e a própria economia. E lhe são impostos: o mais total ARROCHO e a privatização de tudo que haja à vista (e cada empresa privatizada é empresa a ser pescada para dentro do saco das dívidas impagáveis, ou só “amortizáveis” com mais dívidas); e o país é forçado a entregar a própria soberania, a qual, rendida, passa a pertencer a organizações transnacionais, como FMI ou BCE, todas diretamente envolvidas na alimentação e na prestação de serviços de atenção à saúde do buraco negro financeiro.
E quem comanda tudo isso? – você poderia perguntar. Se tudo é buraco negro, se não há outra coisa além de buraco negro financeiro, os fantoches encarregados de mantê-lo saudável e bem alimentado e as desgraçadas vítimas do buraco negro financeiro, nesse caso... quem toma as decisões? Bem, fato é que o buraco negro financeiro é racional. Embora também seja muito, muito estúpido. E o meio que conhece para fazer acontecer o que deseja que aconteça é destruir o cérebro e o coração dos seus fantoches – o que os torna incapazes de compreender certas coisas. Mas estupidez é faca de dois gumes, e ao servir-se dela para chegar mais rapidamente ao objetivo, o buraco negro financeiro distorce também o seu próprio objetivo.
Por exemplo, há pouco tempo, o buraco negro financeiro encontrou objeto grande demais, que quis sugar, mas não conseguiu. O objeto chama-se Federação Russa. Controla território imenso, farto em todos os tipos de recursos naturais que o buraco negro financeiro muito gostaria de privatizar e converter em empréstimos colaterais e sugar para dentro do bucho. Problema é que o lugar está cheio de russos, gente difícil, com a qual os fantoches do buraco negro não conseguem lidar bem. Os russos insistem que os fantoches se mantenham à distância, para lá daquela linha vermelha real bem ali, e, se se mexerem, eles engatilham a pistola e fim de conversa fiada.


É situação que exige negociação, mas o buraco negro financeiro é exemplarmente estúpido, como já disse, e só conhece uma tática de negociação. Ele ordena e põe-se à espera que o outro lado se renda. Se não se rende, vêm as pressões: sanções, ataques contra a moeda, transações financeiras tornadas impossíveis, de tão complicadas, confisco de propriedade do país resistente e por aí vai – e outra vez, é só esperar pela rendição. Se nem isso tudo funcionar, então o país é bombardeado até ser convertido em montes de ruínas, pela OTAN. Ou, caso a OTAN não queira participar, o país é bombardeado exclusivamente pelos EUA, até ser convertido em montes de ruínas.
Em geral funciona, embora não tenha funcionado no caso da Federação Russa. Mas o buraco negro financeiro é muito, muito estúpido e fica lá, só repetindo, só repetindo, só repetindo. De tanto que só repete, só repete, só repete, a mente dos fantoches-agentes se atrapalha mesmo, de verdade, a ponto de eles já não entenderem nem a repetição, repetição, repetição deles mesmos.
Por exemplo, todo mundo sabe que pressionar a Rússia não funciona: segundo a 3ª Lei de Newton, toda a ação produz reação igual e oposta, e a Rússia é grande demais e não adianta empurrá-la, que ela não se move nem um passo – e é o empurrador que, de tanto que se esforça, acaba machucado. É feito tentar mudar a órbita da Terra, saltando de uma cadeira com os joelhos tensos (vídeo no fim do parágrafo), bom truque se você quiser atrair atenção médica. Os russos até agradeceram pelas sanções, porque afinal apareceu boa razão para investirem no desenvolvimento da própria economia doméstica e na autossuficiência. Mas os fantoches-agentes, cujos cérebros já foram sugados pelo buraco negro financeiro, nada vêem, nem compreendem e ficam lá, empurra e empurra, fazendo naufragar, no processo, as próprias economias.
Mas se as sanções não funcionam, é tempo de recorrer à opção militar. Para isso, é preciso inventar um casus belli – um motivo para ir à guerra. Foi quando o buraco negro financeiro enlouqueceu completamente: “A Rússia invadiu a Crimeia!” – sim, sim, talvez tenha invadido há algumas centenas de anos, mas já há séculos a Rússia está lá, recentemente já há até acordo internacional sobre o caso, mas... E que importa tudo isso?! (Ah! E não há o que comprove que a Crimeia foi algum dia dada à Ucrânia, porque Nikita Khrushchev alterou toda a papelada, antes de entregar o presente). Não interessa! Não interessa! A Rússia invadiu a Ucrânia e pronto! E sim, sim, sempre, é verdade todos os dias que se escrevam com “d”, mas foi muito safadinha e retirou as tropas antes que alguém pudesse fotografar, uma fotinho, que fosse, deles, por lá. OK, OK, mas isso também não interessa, porque a Rússia está prontinha para invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia e, pode ser, também a Polônia. Mas... vai invadir como? Você... Você acha que é fácil como tomar um ônibus para o festival de música de Jūrmala? Pode ser que seja, mas, o festival já acabou e até os fãs de música que invadiram o país vizinho já estão de volta, dormindo em casa. OK, OK, também não interessa. E os fantoches-agentes só fazem repetir “invasão russa!”, “invasão russa!” sem parar. É o dano cerebral típico de quem vive muito próximo do buraco negro financeiro. Como esse sujeito (foto abaixo), coitado, por exemplo. Bate que bate o maxilar inferior, sempre “agressão russa”, “agressão russa”, enquanto bolina uma imaginária vaca de estimação, tentando acalmar-se. Deus o ajude!

Robert Work, Secretário Adjunto de Defesa dos EUA

De volta ao mundo real: os infelizes fantoches-agentes do buraco negro financeiro não conseguem entender que, se se trata de Rússia, não há opção militar: o poder nuclear funciona aí como excelente argumento de contenção estratégica, é território muito bem defendido e não tem qualquer intenção agressiva contra seja quem for.
Mas os fantoches com a mente perturbada, nada veem, nem isso nem coisa alguma, e lá estão, empilhando os mais variados tipos de lixo militar obsoleto nas fronteiras da Rússia, e até já ameaçaram levar para a Europa os seus mísseis nucleares Pershing de alcance médio e obsoletos. São obsoletos, porque os russos têm agora o sistema S-300, com o qual podem neutralizar todos os Pershings. A opção militar tampouco funcionará, mas não conte aos fantoches-agentes – eles não suportarão informação dessa natureza, sem sofrerem novos danos neurológicos extensos.
De volta à Grécia: a pequena Grécia com certeza não é a poderosa Rússia, mas mesmo assim se recusou a capitular ante as exigências do buraco negro financeiro. Recebeu ordens para destruir completamente a própria sociedade e a própria economia, como condição para manter a linha de dinheiro de sobrevida que lhe enviariam o FMI e o BCE.
Muito inconvenientemente para o buraco negro financeiro e seus fantoches, a Grécia não é algum obscuro país “de 3º mundo”, povoado de gente de pele escura com quem o buraco negro financeiro não quer que a filha dele case: é país europeu e berço da civilização e da democracia europeias. A Grécia conseguiu eleger governo que bem que tentou negociar em boa fé, mas os fantoches-agentes não negociam – eles ordenam, ameaçam e machucam até que chegar onde querem, ou até que a cabeça deles exploda.
Vai ser interessante assistir ao que vem por aí.
Se o buraco negro financeiro conseguir sugar a Grécia, que país virá depois dela? Itália, Espanha ou Portugal? E, com o processo a continuar, quando chegará o momento em que gente em quantidade suficiente decida que basta?

O jornalismo é também responsável pelo Buraco Negro

Porque quando gente em quantidade suficiente decidir que basta, o buraco negro financeiro se encolherá. Não é buraco negro verdadeiro, feito de matéria tão densa que o seu campo gravitacional segura tudo, até a luz. O buraco negro financeiro é buraco negro fake, constituído da ganância combinada de todos.
No âmago dele só há ganância. Ganância envolta em medo por todos os lados e ele se autossustenta alimentando-se de medo, cada vez de mais medo.
Se puder continuar a sugar pessoas, famílias, países inteiros, pode manter viva a ganância que tem no âmago. Mas se não puder, nesse caso a ganância também se converterá em medo, tudo se autoconsumirá e o buraco negro financeiro se terá autodevorado.
Espero que quando acontecer, todos os seus fantoches ruins-da-cabeça livrem-se dele, percebam o quanto estavam errados e quem sabem acham algo útil para fazer – criar ovelhas, plantar hortaliças, desenterrar caranguejos...

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Não, não dá para voltar para URSS!


19/5/2015, [*] Dmitri Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin joga com o ocidente
Uma das fantasias inventadas e mantidas vivas por certos políticos norte-americanos, com a ajuda da empresa-mídia ocidental, é que Vladimir Putin (que os mesmos insistem tolamente em apresentar como ditador e tirano) quereria reconstituir a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, e até já teria começado, pela “anexação” da Crimeia.
Em vez de discutir bobagens, vamos determinar e expor alguns fatos.
A URSS foi oficialmente autodesconstitiuída dia 26 de dezembro de 1991, pela declaração n. 142-H do Soviete Supremo. Ali se reconheceu a independência das 15 repúblicas soviéticas, e em lugar da URSS criou-se uma Comunidade de Estados Independentes, que nunca foi grande coisa.
No “ocidente” houve grande júbilo, e todos assumiram que no “oriente” também haveria festa. Francamente, é até engraçado, porque um referendo organizado em toda a União, poucos meses depois, dia 17/3/1991, mostrou impressionante resultado: com comparecimento de mais de 80% dos cidadãos às urnas, das 185.647.355 pessoas que votaram, 113.512.812 votaram a favor de se preservar a URSS. Dá 77,85%, o que ninguém pode dizer que seja maioria magra. Ninguém deu bola alguma para esse desejo, manifesto por tantos milhões de pessoas.
Teria sido um sentimento público temporário, nascido do medo ante futuro incerto? E se devesse persistir, com certeza persistiria como coisa puramente russa, porque as populações desses Estados Independentes, tendo saboreado a liberdade, com certeza jamais considerariam a ideia de se re-unir à Rússia. Aí está, mais uma coisa engraçada: em setembro de 2011, duas décadas inteiras depois do referendo, sociólogos ucranianos descobriram que 30% da população queria a volta da economia planejada de estilo soviético (espantosamente, 17% desses eram jovens que evidentemente não conheceram a vida na URSS); e só 22% preferiam viver em alguma espécie de democracia de estilo europeu.
A vontade de voltar ao planejamento central de estilo soviético é eloquente: mostra a extensão do fracasso em que se tornara a experiência ucraniana, de instituir ali uma economia de mercado à moda ocidental. Mais uma vez, ninguém deu bola alguma para esse desejo, manifesto por tantos milhões de pessoas.
Até aí, as coisas parecem indicar que, se Putin introduzisse um projeto de reconstituir a URSS teria muito apoio popular, não é? Mas o que Putin disse, quando diretamente perguntado (em dezembro de 2010) foi:
Quem não lamenta o colapso da URSS não tem coração; quem quer vê-lo renascido não tem cérebro.
Da última vez que examinei, Putin ainda tinha cérebro; ergo, não há à vista nenhuma URSS 2.0.
Interessante, Putin estendeu-se e disse mais algumas palavras sobre o tema. Disse que a URSS tivera uma vantagem competitiva como mercado unificado e zona de livre comércio. Esse elemento que houve na URSS está hoje incorporado na União Aduaneira, da qual são membros Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e vários outros países menores, e que parece ser um sucesso.
União Econômica Eurasiana
A Ucrânia – com mais de 40 milhões de habitantes, grande fatia – recusou a unir-se, embora tenha continuado a comerciar principalmente com países membros da União Aduaneira. Essa estratégia revelou-se, para dizê-lo com gentileza, desvantajosa, e a economia ucraniana, que está hoje em rápido colapso, declinou mais de 17% só no primeiro trimestre desse ano. Assim, se a teoria da vantagem competitiva pode ser ou não ser válida, a desvantagem de NÃO se unir à União Aduaneira aí está, clara, para todos verem.
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Na verdade, vários aspectos da velha URSS foram esquecidos, uns para o bem, outros, nem tanto. Por exemplo:
●– A ideologia comunista: o Partido Comunista já não é partido único no poder.
●– A mentalidade de bloco: o Pacto de Varsóvia evaporou-se, deixando para trás a OTAN, feito sua única mão que tenta bater palmas. O novo sistema é multipolar.
●– O planejamento central: substituído por economia de mercado
●– O isolacionismo econômico: substituído por uma economia orientada para a exportação baseada em acordos comerciais com muitas nações pelo mundo.
●– A governança autoritária: substituída por governança autorizada, na qual a autoridade dos governantes deriva da popularidade de que gozem, a qual é baseada no desempenho que tenham na vida pública ou no governo [o que até poderia ser verdade, se não existisse a empresa-mídia-comercial-privada (NTs)], enquanto, antes, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) era mais ou menos como o Papa – infalível por definição [Dmitri Orlov é anticomunista, o que é uma pena (NTs).]
São mudanças que há quem considere positivas e há quem lamente ou sonhe com voltar ao status quo ante.
Mas há vários outros aspectos da velha URSS que não há dúvida de que foram degradados, alguns muito severamente degradados, mas ainda assim permanecem vivos. Dentre eles, a saúde pública e a educação pública.
A URSS tinha um sistema de medicina socializada, magnífico em alguns aspectos, noutros nem tanto. A mudança para a medicina privatizada só é considerada um sucesso por poucos, e é muito violentamente fracassada para todos os que não podem pagar pelo atendimento médico ou pelos remédios. O sistema educacional ainda é excelente em vários níveis, mas também já se vê degradação considerável, muito lastimada por muitos observadores.
A URSS investiu pesadamente em ciência e cultura, e muito disso se perdeu nos difíceis anos da década dos 1990s – o que muitos lastimam muito. A URSS foi líder mundial em pesquisa científica básica, com pesquisa em campos sem qualquer aplicação comercial, simplesmente porque eram cientificamente interessantes e geravam resultados publicáveis. Os EUA lideravam o mundo em desenho de produto, coisa que os engenheiros soviéticos podiam facilmente copiar, com o que economizam tempo e trabalho. Dado que não estavam interessados em exportar para o mercado consumidor ocidental, pequeno atraso na oferta ao mercado nada significava para os soviéticos.

O FUTURO ADIADO
Porque o Declínio dos Investimentos em Pesquisa Básica Provoca um Déficit de Inovação
Por outro lado, os EUA sempre deram muitos tratos à bola em torno da ideia de como financiar pesquisa científica que não tivesse qualquer aplicação comercial imaginável. Além disso, o anti-intelectualismo que prevalecia na cultura norte-americana levava à proliferação de outros tipos de “cientistas”: cientistas sociais, cientistas políticos, cientistas de alimentos... faltava pouco para oferecerem diploma em “ciência de pequenos consertos domésticos” [orig. “janitorial science”].
A ciência básica é a primeira missão intelectual transnacional da espécie humana nos tempos modernos, e o dano causado à ciência soviética causou dano significativo à busca por conhecimento científico em todo o mundo, e um rebaixamento na estatura da missão da ciência. Hoje, até na Rússia os cientistas são obrigados a caçar bolsas e financiamentos, seguindo vias já demarcadas de pesquisa, que levem a engenhocas e “equipamentos” patenteáveis.
Uma das coisas que não mudou é o modo de vida. Durante os 70 anos de existência da URSS, aconteceu transformação total, de uma população agrária dispersa pelo interior do país, para uma população industrializada concentrada nas grandes cidades. As pessoas passaram, de residentes em cabanas de toras de madeira, a residentes em apartamentos. Depois da dissolução da URSS, o estoque de moradias foi privatizado, e hoje muitas famílias são donas das próprias casas, sem nada dever a ninguém. A capacidade para viver sem renda garante àquelas famílias uma vasta vantagem competitiva, se comparadas às famílias em países de alta renda, sufocados por dívidas, como os EUA.
Ao mesmo tempo em que se construíram prédios de apartamentos em pontos densos e transitáveis, construiu-se também um sistema de transporte público. Esse, também, lá está, praticamente intacto, e em muitas cidades foi expandido e modernizado. Isso, mais uma vez, garante muitos benefícios à população, e da a eles/elas importante vantagem competitiva, em relação aos habitantes de países dependentes do automóvel, onde todos consomem a maior parte do tempo de vida presos em engarrafamentos, e onde os idosos, sem condições para dirigir com segurança, são forçados a escolher entre viver fechados dentro de casa (sua ou alheia) ou pôr em risco a vida (sua ou alheia), sempre que se sentam ao volante.
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Quando se fala em “colapso” de alguma coisa, as pessoas quase sempre assumem que aquilo simplesmente deixou de existir. Mas os efeitos do colapso dependem da natureza da coisa que colapsa. Quando uma barragem hidrelétrica colapsa, deixa de produzir eletricidade, mais destrói tudo que haja ladeira abaixo, mas pode interromper o fornecimento e o acesso à água. Quando uma escola colapsa, pode matar alunos e também professores, mas nem por isso o colapso destrói o conhecimento que se disseminava a partir daquela escola. E quando um mausoléu colapsa, só muda o nome: passa a chamar-se “ruína”.
Colapso do World Trade Center
Alguns colapsos são comuns, outros não. Economias, principalmente economias de bolha, estão sempre colapsando, sem mais nem menos. Impérios colapsam com alta regularidade. Há quem diga que civilizações também colapsam, mas... será que colapsam mesmo?
Uma civilização pode ser vista como aparelho em funcionamento, mas nesse caso confundem-se
(I) vários princípios e
(II) a entidade que lhes dá corpo.
Os princípios civilizacionais são muito duradouros: o Império Romano já se fora há mil anos, quando a Europa tornou-se outra vez capaz de organização em larga escala, mas, não há dúvidas, os europeus logo tiraram a poeira que se acumulara sobre os velhos códigos legais romanos e recomeçaram a aplicá-los.
Entrementes, nas escolas e universidades, o latim permaneceu como idioma dos discursos eruditos, na ausência de latinos sobreviventes para dar aulas em Linden Second Life (LSL). O que parece é que civilizações não colapsam; apenas se tornam quiescentes. Novos desenvolvimentos as trazem de volta à vida, ou pode acontecer de elas serem eventualmente suplantadas – por outra civilização.
A URSS deixou de existir como entidade política, mas parece que se mantém como entidade civilizacional, embora ainda sem nome. O nome, de duas palavras Soyuz [“União”] Soviet [“Soviética”] quebrou ao meio. O adjetivo “Soviético” [relativo aos sovietes] só se aplica ao passado. Como substantivo [soviete], a palavra significa “órgão consultivo”, “Conselho”, e se originou nos conselhos revolucionários de operários, e ainda é usado no sentido de “dar conselho” e com a cautela necessária (“Se conselho fosse bom, seria vendido, não dado, mas EU acho que...”). E o substantivo Soyuz sobrevive, por exemplo, na nova União Aduaneira, que é uma Soyuz Aduaneira, além de ser o nome do veículo que conduz passageiros para visitarem a cápsula espacial Soyuz . E as crianças russas ainda crescem assistindo a filmes do estúdio Soyuzmultfilm, estúdio da era soviética que produziu excelentes filmes infantis de animação, que são até hoje muito populares e hoje estão disponíveis em Youtube.
Consideremos a Soyuz – como dado de civilização, mais do que como a URSS que foi um império político. Fez-se esforço gigantesco para superá-la com a civilização ocidental, mediante a introdução de economia de mercado e uma inundação de importações do ocidente, tanto materiais como culturais.
Satélite geoestacionário Soyuz
Os princípios civilizacionais ocidentais dominaram por algum tempo, dentre os quais novidades ocidentais, como garantir status de igualdade a práticas homossexuais, sem considerar o papel da etnicidade na organização política; e a rendição total da soberania econômica e política da Rússia ao centro imperial, em Washington, DC. São coisas que, por algum tempo foram mastigadas. Até que afinal foram cuspidas longe em praticamente todo o território da URSS, que então já se havia autodissolvido, exceto em alguns poucos bolsões, dentre os quais se destaca a Ucrânia.
Mas em todo o território restante, tão logo o fiasco dos valores ocidentais tornou-se claro para todos, os valores civilizacionais da civilização que ali prevalecera antes voltaram com estardalhaço à vida.
Talvez o primeiro, à frente de todos os demais, o conservadorismo social. Há duas grandes religiões na Federação Russa: a Cristã Ortodoxa e o Islã, e muito esforço se empenha para mantê-las em mútua compatibilidade, para que a religião não se converta em fator de divisão. Querer introduzir nesse mundo construtos cerebrinos alheios àquelas duas religiões, como o casamento gay, é empreitada com baixas chances de sucesso. Mas os russos se interessariam pela poligamia. Recentemente um velho funcionário checheno tomou uma jovem como sua segunda esposa. Houve algum tumulto, mas nada impediu que o casamento se realizasse, na Chechênia muçulmana.
Em segundo lugar vem o princípio que reza que as etnias são relevantes para a organização social e política. A Rússia não é um país: é uma federação multinacional. Há mais de 190 diferentes nações que a constituem, sendo que os russos étnicos são pouco mais de ¾ da população. Essa percentagem tende a decrescer com o tempo: a Rússia só perde para os EUA no número de imigrantes que absorve, vindos dos seguintes países, pela ordem numérica de imigrantes: Ucrânia, Uzbequistão, Tadjiquistão, Azerbaijão, Moldávia, Cazaquistão, Quirguistão, Armênia, Bielorrússia, China, Alemanha e EUA.
Durante a existência da URSS, a composição multiétnica do país for tratada com muita atenção. Numerosas pequenas nações tiveram seus idiomas registrados pela primeira vez, escritos com o alfabeto cirílico sempre em expansão, e, com isso, ganharam sua literatura nacional. Os idiomas nacionais foram incluídos nos currículos escolares e várias nações os mantiveram nos governos locais, para ampliar sua autonomia e facilitar a coesão social.
Na essência a Federação Russa assegurou a todas as etnias soberania étnica – cada nação federada pode exigir para si quantidade considerável de soberania; pode se autogovernar; e pode criar suas próprias leis, desde que não conflitem com leis da federação. Exemplo disso é a moderna Chechênia: Moscou deixa-a livre para pôr em prática sua própria campanha local de antiterrorismo, para dar cabo ali mesmo dos jihadistas financiados com dinheiro que vem de fora da Rússia.
Imaginem esse princípio de soberania étnica aplicado aos EUA, onde a etnia de cada um não faz diferença alguma, desde que o sujeito tenha pele, cabelo, linguajar e modos à mesa que o façam parecer suficientemente branco-europeu. Nos EUA a etnicidade foi reduzida a questões musicais e gastronômicas, com um festival aqui, outro acolá, mas sempre sob o entendimento tácito de que “étnico” significa “outro diferente de mim”: não há nos EUA a expressão “anglo étnico”.

Incidência de racismo nos EUA
(clique na legenda para aumentar)
Dado que a etnicidade é essencialmente tabu, em vez dele é usado o construto completamente artificial de “raça”, com rótulos discriminatórios atachados a todos os indivíduos de algumas categorias. O rótulo “latino” é especialmente estranho, porque há bem pouca coisa comum entre, digamos, um cubano e um boliviano, exceto que ambos são igualmente discriminados, porque são igualmente vistos como insuficientemente “brancos”, quer dizer, “anglos”. Mas e se mexicanos e afro-americanos tivessem dentro dos EUA esse mesmo status “misto” de autonomia?! O país explodiria em milhões de cacos!
País condenado a proteger o “privilégio branco” dificilmente sobreviveria à corrupção desses seus princípios fundadores. Os EUA fizeram uma revolução, para manter legal a escravidão (que os ingleses estavam prontos para abolir); depois, fizeram uma guerra civil para transferir a escravidão, de uma metade do país, para a outra (há mais afro-americanos nas prisões dos EUA hoje, do que escravos no Sul Confederado antes da Guerra Civil).
Não se sabe que guerras o futuro nos guarda, ou o que as provocará, mas essa específica linha fraturada intercivilizacional sempre será muito importante. Para que serve uma nação? É a sua tribo? Ou é um bando de mercenários fingindo que são anglos, para que os deixem entrar no Country Club? Só o tempo dirá qual dessas duas civilizações em confronto se comprovará a mais resistente.
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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net.

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