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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Buracos negros financeiros: nutrição e cuidados básicos


30/6/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Sergey Glazyev

Há algum tempo, tive o prazer de ouvir Sergey Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências da Rússia e conselheiro do presidente Putin – dizer algo que confirmou muito bem o que sempre pensei. Glazyev disse que qualquer um que saiba matemática pode ver que os EUA estão à beira do colapso, porque a dívida interna norte-americana cresce exponencialmente. Não são palavras que político europeu ou norte-americano ande dizendo por aí em público, talvez nem sussurradamente na cama, porque nos EUA travesseiros têm ouvidos, e, se acontecer assim, o tal político receberá tratamento de Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, numa visita aos EUA, foi falsamente acusado de estupro, e preso). Por essas e outras nenhum político europeu (e dos norte-americanos, então, nem se fala), pode jamais declarar o óbvio, por mais óbvio que seja.
A essa altura, os russos já sabem muito bem disso. Sim, manter diálogo e relações cordiais com europeus é importante. Mas que fique bem entendido que europeus não passam de fantoches dos EUA sem vontade nem poder para tomar decisões próprias. Melhor talvez falar com os norte-americanos diretamente? Infelizmente, também são fantoches. Funcionários do governo e políticos norte-americanos são todos fantoches controlados por lobbyistas de grandes empresas e oligarcas sinistros. Mas, aqui, o choque: esses também são fantoches, controlados pelos simples imperativos do lucro e da preservação da riqueza respectivamente. De fato, são todos fantoches de cabo a rabo, de cima a baixo. E no fundo, por baixo deles, há um gigantesco, eternamente em expansão, buraco negro financeiro.
Você gosta de seu buraco negro? Se não tem muita certeza de que gosta, deixe-me fazer-lhe algumas perguntas: Você gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionem, ou de poder ainda deixar dinheiro no banco e até pegar dinheiro num caixa de atendimento automático, ou de já estar recebendo ou algum dia, sim, receber uma aposentadoria? Você gosta de poder obter coisas úteis – comida, combustível, passagens de avião – em troca de meros pedaços de papel impressos com retratos de homens brancos falecidos? Você gosta de ter acesso à internet, de ter lâmpadas acesas, água na pia? Bem, se você gosta dessas coisas, nesse caso você também tem de gostar do buraco negro financeiro, porque é ele que torna possíveis todas essas coisas, apesar de você viver num país quebrado, falido, em bancarrota. Talvez seja daquelas relações de amor-ódio: você ama conseguir fingir que está tudo ótimo, mesmo você sabendo que não está, e quer curtir mais um pouco do bussiness-como-sempre, antes que tudo vá prô inferno, seja só mais alguns dias, seja um, dois anos. Mas você odeia saber que é altamente possível que o buraco o sugue para o fundo, momento a partir do qual você estará sugado, digo, definitivamente ferrado.
Experimento do Buraco Negro dá dramaticamente ERRADO

Nos EUA, até agora, o buraco negro tem sugado famílias individualmente consideradas (embora às vezes sugue cidades inteiras, feito Detroit, Michigan ou Bakersfield, Califórnia ou Camden, New Jersey). Com a ajuda da gangue das hipotecas fraudulentas, ele suga casas e as cospe de volta, oneradas por dívidas podres. Com a ajuda da indústria médica, ele suga gente doente e cospe os doentes de volta, falidos. Com a ajuda da gangue das universidades privadas, suga gente jovem cheia de esperanças, e cospe formados nas “especializações” mais ridiculamente inúteis e com as pernas e o espírito quebrados pela mais obscena dívida “estudantil” que se possa imaginar. Com a ajuda do complexo industrial-militar, suga praticamente qualquer coisa e cospe cadáveres, tragédias ambientais, terroristas e instabilidade global. E assim vai.
Mas o buraco negro financeiro pode também sugar países. Nesse momento, está ocupadíssimo tentando devorar a Grécia, mas está difícil, porque a Grécia é – adivinhem! – estado democrático. Esse fato surpreendeu os fantoches do buraco negro, que já começaram a clamar por “mudança de regime” na Grécia, para que a Grécia possa ser obrigada a render-se, antes de o buraco negro morrer de fome.
O processo pelo qual o buraco negro financeiro suga países inteiros é o seguinte. Se o buraco negro não encontra coisas suficientes para sugar logo de início, ele então põe os mercados financeiros em queda livre. Instrumentos financeiros de países que estejam longe do buraco negro – lá, na periferia – caem mais depressa. Em busca de “paraíso seguro”, o dinheiro flui para fora desses países e diretamente para dentro dos países “núcleo” firmemente agarrados em torno do buraco negro financeiro – EUA, Alemanha, Japão e uns poucos outros. O buraco negro devora esse dinheiro, mas logo novamente já fica com fome e quer mais. E, porque os países da periferia já estão agora financeiramente fracos demais para resistirem, podem ser facilmente convertidos em ração para buraco negro financeiro. A devoração começa quando o país é sobrecarregado com dívida externa que jamais poderá pagar, o que força o país-comida a “amortizar” só parcelas da dívida, que não pode deixar de pagar completamente, porque os empréstimos para pagar dívidas são como uma linha vital de abastecimento pela qual o país recebe... mais dívidas. E assim os bancos podem ser mantidos em funcionamento, os caixas de autoatendimento abastecidos, as lâmpadas acesas e tal e tal.
O povo vai direto para Buraco Negro

Para conseguir pagar parcelas da tal dívida, o país é forçado a desmantelar a própria sociedade e a própria economia. E lhe são impostos: o mais total ARROCHO e a privatização de tudo que haja à vista (e cada empresa privatizada é empresa a ser pescada para dentro do saco das dívidas impagáveis, ou só “amortizáveis” com mais dívidas); e o país é forçado a entregar a própria soberania, a qual, rendida, passa a pertencer a organizações transnacionais, como FMI ou BCE, todas diretamente envolvidas na alimentação e na prestação de serviços de atenção à saúde do buraco negro financeiro.
E quem comanda tudo isso? – você poderia perguntar. Se tudo é buraco negro, se não há outra coisa além de buraco negro financeiro, os fantoches encarregados de mantê-lo saudável e bem alimentado e as desgraçadas vítimas do buraco negro financeiro, nesse caso... quem toma as decisões? Bem, fato é que o buraco negro financeiro é racional. Embora também seja muito, muito estúpido. E o meio que conhece para fazer acontecer o que deseja que aconteça é destruir o cérebro e o coração dos seus fantoches – o que os torna incapazes de compreender certas coisas. Mas estupidez é faca de dois gumes, e ao servir-se dela para chegar mais rapidamente ao objetivo, o buraco negro financeiro distorce também o seu próprio objetivo.
Por exemplo, há pouco tempo, o buraco negro financeiro encontrou objeto grande demais, que quis sugar, mas não conseguiu. O objeto chama-se Federação Russa. Controla território imenso, farto em todos os tipos de recursos naturais que o buraco negro financeiro muito gostaria de privatizar e converter em empréstimos colaterais e sugar para dentro do bucho. Problema é que o lugar está cheio de russos, gente difícil, com a qual os fantoches do buraco negro não conseguem lidar bem. Os russos insistem que os fantoches se mantenham à distância, para lá daquela linha vermelha real bem ali, e, se se mexerem, eles engatilham a pistola e fim de conversa fiada.


É situação que exige negociação, mas o buraco negro financeiro é exemplarmente estúpido, como já disse, e só conhece uma tática de negociação. Ele ordena e põe-se à espera que o outro lado se renda. Se não se rende, vêm as pressões: sanções, ataques contra a moeda, transações financeiras tornadas impossíveis, de tão complicadas, confisco de propriedade do país resistente e por aí vai – e outra vez, é só esperar pela rendição. Se nem isso tudo funcionar, então o país é bombardeado até ser convertido em montes de ruínas, pela OTAN. Ou, caso a OTAN não queira participar, o país é bombardeado exclusivamente pelos EUA, até ser convertido em montes de ruínas.
Em geral funciona, embora não tenha funcionado no caso da Federação Russa. Mas o buraco negro financeiro é muito, muito estúpido e fica lá, só repetindo, só repetindo, só repetindo. De tanto que só repete, só repete, só repete, a mente dos fantoches-agentes se atrapalha mesmo, de verdade, a ponto de eles já não entenderem nem a repetição, repetição, repetição deles mesmos.
Por exemplo, todo mundo sabe que pressionar a Rússia não funciona: segundo a 3ª Lei de Newton, toda a ação produz reação igual e oposta, e a Rússia é grande demais e não adianta empurrá-la, que ela não se move nem um passo – e é o empurrador que, de tanto que se esforça, acaba machucado. É feito tentar mudar a órbita da Terra, saltando de uma cadeira com os joelhos tensos (vídeo no fim do parágrafo), bom truque se você quiser atrair atenção médica. Os russos até agradeceram pelas sanções, porque afinal apareceu boa razão para investirem no desenvolvimento da própria economia doméstica e na autossuficiência. Mas os fantoches-agentes, cujos cérebros já foram sugados pelo buraco negro financeiro, nada vêem, nem compreendem e ficam lá, empurra e empurra, fazendo naufragar, no processo, as próprias economias.
Mas se as sanções não funcionam, é tempo de recorrer à opção militar. Para isso, é preciso inventar um casus belli – um motivo para ir à guerra. Foi quando o buraco negro financeiro enlouqueceu completamente: “A Rússia invadiu a Crimeia!” – sim, sim, talvez tenha invadido há algumas centenas de anos, mas já há séculos a Rússia está lá, recentemente já há até acordo internacional sobre o caso, mas... E que importa tudo isso?! (Ah! E não há o que comprove que a Crimeia foi algum dia dada à Ucrânia, porque Nikita Khrushchev alterou toda a papelada, antes de entregar o presente). Não interessa! Não interessa! A Rússia invadiu a Ucrânia e pronto! E sim, sim, sempre, é verdade todos os dias que se escrevam com “d”, mas foi muito safadinha e retirou as tropas antes que alguém pudesse fotografar, uma fotinho, que fosse, deles, por lá. OK, OK, mas isso também não interessa, porque a Rússia está prontinha para invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia e, pode ser, também a Polônia. Mas... vai invadir como? Você... Você acha que é fácil como tomar um ônibus para o festival de música de Jūrmala? Pode ser que seja, mas, o festival já acabou e até os fãs de música que invadiram o país vizinho já estão de volta, dormindo em casa. OK, OK, também não interessa. E os fantoches-agentes só fazem repetir “invasão russa!”, “invasão russa!” sem parar. É o dano cerebral típico de quem vive muito próximo do buraco negro financeiro. Como esse sujeito (foto abaixo), coitado, por exemplo. Bate que bate o maxilar inferior, sempre “agressão russa”, “agressão russa”, enquanto bolina uma imaginária vaca de estimação, tentando acalmar-se. Deus o ajude!

Robert Work, Secretário Adjunto de Defesa dos EUA

De volta ao mundo real: os infelizes fantoches-agentes do buraco negro financeiro não conseguem entender que, se se trata de Rússia, não há opção militar: o poder nuclear funciona aí como excelente argumento de contenção estratégica, é território muito bem defendido e não tem qualquer intenção agressiva contra seja quem for.
Mas os fantoches com a mente perturbada, nada veem, nem isso nem coisa alguma, e lá estão, empilhando os mais variados tipos de lixo militar obsoleto nas fronteiras da Rússia, e até já ameaçaram levar para a Europa os seus mísseis nucleares Pershing de alcance médio e obsoletos. São obsoletos, porque os russos têm agora o sistema S-300, com o qual podem neutralizar todos os Pershings. A opção militar tampouco funcionará, mas não conte aos fantoches-agentes – eles não suportarão informação dessa natureza, sem sofrerem novos danos neurológicos extensos.
De volta à Grécia: a pequena Grécia com certeza não é a poderosa Rússia, mas mesmo assim se recusou a capitular ante as exigências do buraco negro financeiro. Recebeu ordens para destruir completamente a própria sociedade e a própria economia, como condição para manter a linha de dinheiro de sobrevida que lhe enviariam o FMI e o BCE.
Muito inconvenientemente para o buraco negro financeiro e seus fantoches, a Grécia não é algum obscuro país “de 3º mundo”, povoado de gente de pele escura com quem o buraco negro financeiro não quer que a filha dele case: é país europeu e berço da civilização e da democracia europeias. A Grécia conseguiu eleger governo que bem que tentou negociar em boa fé, mas os fantoches-agentes não negociam – eles ordenam, ameaçam e machucam até que chegar onde querem, ou até que a cabeça deles exploda.
Vai ser interessante assistir ao que vem por aí.
Se o buraco negro financeiro conseguir sugar a Grécia, que país virá depois dela? Itália, Espanha ou Portugal? E, com o processo a continuar, quando chegará o momento em que gente em quantidade suficiente decida que basta?

O jornalismo é também responsável pelo Buraco Negro

Porque quando gente em quantidade suficiente decidir que basta, o buraco negro financeiro se encolherá. Não é buraco negro verdadeiro, feito de matéria tão densa que o seu campo gravitacional segura tudo, até a luz. O buraco negro financeiro é buraco negro fake, constituído da ganância combinada de todos.
No âmago dele só há ganância. Ganância envolta em medo por todos os lados e ele se autossustenta alimentando-se de medo, cada vez de mais medo.
Se puder continuar a sugar pessoas, famílias, países inteiros, pode manter viva a ganância que tem no âmago. Mas se não puder, nesse caso a ganância também se converterá em medo, tudo se autoconsumirá e o buraco negro financeiro se terá autodevorado.
Espero que quando acontecer, todos os seus fantoches ruins-da-cabeça livrem-se dele, percebam o quanto estavam errados e quem sabem acham algo útil para fazer – criar ovelhas, plantar hortaliças, desenterrar caranguejos...

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

sábado, 13 de dezembro de 2014

Pepe Escobar: O novo “arco de instabilidade” europeu

10/12/2014, [*] Pepe EscobarRT − Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Conselho Europeu de Relações Exteriores
(foto: Chris Hondros)

think-tank Friedrich Ebert Stiftung de Berlim e o Conselho Europeu de Relações Exteriores e acabam de chegar mais ou menos à mesma conclusão.

Se o perigoso impasse entre a União Europeia (UE) e a Rússia por causa da Ucrânia não for resolvido, a UE enfrentará, mais tardar até 2030, ameaçadora acumulação de tensão militar no leste europeu; uma nova corrida armamentista, com a OTAN como protagonista; e uma “zona de instabilidade” semipermanente do Báltico aos Bálcãs e o Mar Negro.

O que esses dois think-tanks não reconhecem – nem jamais reconhecerão – é que esse novo “arco de instabilidade” do Báltico ao Mar Negro – como eu e vários analistas independentes temos repetido – é exatamente o que o Império do Caos e a OTAN, seu braço armado, estão construindo para impedir qualquer integração mais firme na Eurásia.

O Pentágono, por falar dele, acumula notório saber na fabricação de “arcos de instabilidade”.Antes do mais recente, construiu – e ela lá permanece – uma grande área de instabilidade que vai do Maghreb a Xinjiang na China ocidental, atravessando o Oriente Médio e a Ásia Central.

Moscou já identificou e decifrou completamente o golpe. O Ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, mais uma vez explicou tudo com total clareza, em detalhes [entrevista (longa) está sendo traduzida (NTs)].

Sergey Lavrov na entrevista de 9/12/1024
Crucialmente importante: também alguns setores influentes na Alemanha já entenderam e estão explicando, com membros da elite cultural alemã já trabalhando para destruir qualquer ideia de nova guerra na Europa: Não no nosso nomeO mesmo se pode dizer de alguns que sempre pregaram maior cooperação transatlântica, que viviam a louvar o papel de “definição” que os EUA têm na Alemanha e muito repetiam que a Alemanha seria o “mais norte-americano” dos países europeus; é o caso do jornal Frankfurter Allgemeine – ativo no coração do establishment político e econômico na Alemanha.

A coisa ainda está em estágio embrionário, e a chanceler Angela Merkel ainda não viu a luz; mas não há dúvidas de que já está em andamento na Alemanha uma operação de reengenharia reversa das relações atlanticistas.


Enquanto isso, o proverbial grupo de senadores norte-americanos extremistas, mais os conhecidos poodles/vassalos britânicos e poloneses, não pararam de fazer lobby para expulsar a Rússia da Cooperativa para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais, criada e mantida pelo Acordo SWIFT – exatamente como fizeram com o Irã.

Seria, precisa e exatamente, mais uma declaração de guerra (econômica) – ou o contraponto econômico da histeria da OTAN. Verdade seja dita: grande parte da União Europeia – especialmente a Alemanha – sabe que essa coisa é loucura e nada mais.

O principal jornal alemão de finanças, Handelsblatt, publicou recentemente uma entrevista decisivamente importante, feita com o presidente do VTB-Bank, Andrei Kostin, que ainda não apareceu traduzida em nenhum grande jornal em inglês.

Taxa do rublo em Moscou em 9/12/2014
Kostin, naquela entrevista, vai diretamente ao ponto:

É claro que há um plano B [para o caso de a Rússia ser impedida de operar com o sistema bancário mundial pela rede SWIFT]. Mas em minha opinião pessoal, se tal tipo de sanção for introduzido, haverá guerra. Foi o que EUA e Europa fizeram contra o Irã, mas com o Irã naquele momento não havia relações diplomáticas, só “contenção” militar (...) Se o acesso à rede SWIFT foi negado aos bancos russos, no mesmo dia o embaixador dos EUA em Moscou terá de fazer as malas e deixar o país. As relações diplomáticas serão declaradas rompidas. O sistema de banking é a parte mais vulnerável da economia russa, porque todo ele é muito fortemente dependente do dólar e do euro.

No próximo mês de maio (2015), o Banco Central da Rússia deverá pôr em operação uma cooperativa de telecomunicações análoga à rede SWIFT – depois de concluídas as consultas e entendimentos chaves com a China. Sempre importante manter em mente que a China mantém já em operação uma rede paralela semelhante à SWIFT para os negócios que faz com o Irã, desde o início das sanções. Mas há aí uma “janela” de quatro meses, tempo bastante para toda uma longa enfiada de operações imundas, sobretudo depois que o Senado controlado pelos Republicanos tomar posse nos EUA em janeiro.

Tudo que reluz...

E há a tal “proporção áurea”. Por que a Rússia está comprando tanto ouro? Com o dólar norte-americano forçado para cima e o ouro forçado para baixo, faz perfeito sentido comercial vender gás a gordos preços em dólares inflados e comprar ouro a preços deprimidos; é o que os chineses chamam de “ganha-ganha”. Claro também que o ocidente perde (nas duas pontas).

As elites de Washington/Wall Street sabem perfeitamente que Moscou e Pequim não estão acumulando e nunca mais acumularão reservas em dólares norte-americanos. Dado que os plutocratas Mestres do Universo que manipulam/controlam o valor do dólar norte-americano não jogam para perder dinheiro, é bem razoável supor que um dos objetivos deles seja hoje arruinar a base industrial e as classes médias nos EUA.

Moscou acumula reservas em ouro
Moscou, por sua vez, já se ajustou à nova “instabilidade”. O fraco rublo teve efeito positivo – como o presidente Putin já observou – porque forçou a Rússia a diversificar a manufatura e tornar-se mais autossuficiente.

Claro: o problema persiste, para a Rússia, de pagar os juros da dívida externa em dólares norte-americanos. Moscou sempre pode declarar-se em moratória e não pagar. O rublo cairia ainda mais. Mas, uma vez que qualquer um, de Lukoil a Rosneft converte mais dólares em rublos, o processo faria o rublo voltar a subir. O resumo disso tudo é que Moscou já aprendeu mais uma lição útil para o futuro imediato: nada dever ao ocidente.

Certo é que o Império do Caos não aliviará em sua estratégia de aquecer o mais possível o novo arco de instabilidade – dentro da Europa, atravessando o espectro econômico/ financeiro – e instrumentalizando sua Neo-Cortina de Ferro pré-fabricada, do Báltico ao Mar Negro.

Saker
O Kremlin parece saber exatamente a que ponto as apostas subiram. Como me escreveu o Saker, por e-mail:

Putin está dizendo a russos e a ocidentais que está em curso uma longa guerra e que o povo russo tem de estar moralmente preparado para aceitar sacrifícios pela sobrevivência da Rússia. É mais um passo na ‘'saída do armário'’ dos que eu chamo de Soberanistas Eurasianos, processo no qual os EUA já foram abertamente declarados inimigos russofóbicos da Rússia (odeiam a Rússia e têm medo da Rússia); e os europeus já foram desmascarados como colônia impotente. O poder militar não é, nisso, fator diretamente decisivo; o fator diretamente decisivo é o equilíbrio interno de poder, em Moscou, entre os “Atlanticistas Integracionistas” pró-ocidente e os “Soberanistas Eurasianos”.

Está tudo brilhantemente explicado por Mikhail Khazinda débâcle do regime de Bretton Woods, até a crise atual, crise provocada. Rússia rocks. E o ocidente?


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Finança mundial


Adriano Benayon* – 29.01.2013
Texto enviado pelo autor


Novos dados informam que somente cinco bancos têm ativos de 8,5 trilhões de dólares, o equivalente a 56% do PIB dos Estados Unidos: JP Morgan Chase, Goldman Sachs Group, Citigroup, Bank of America e Wells Fargo.

02. Os dez maiores bancos do mundo teriam US$ 6,4 trilhões dos mais de US$ 30 trilhões aplicados nos paraísos fiscais (offshore). Somente 92 mil pessoas (0,001% da população mundial) possuem US$ 10 trilhões nessas localidades. Nos EUA só 400 indivíduos teriam riqueza igual à de 50% da população do país.

03. Aí estão ilustrações do que tenho exposto: os concentradores aumentam seu poder durante a depressão econômica e não têm interesse em que ela acabe.

04. Durante as fases de crescimento real da economia, após certo tempo, a finança começa a crescer mais que a produção de bens e serviços, inclusive porque os lucros crescem mais rápido que os salários.

05.  Além disso, no setor produtivo as fusões e aquisições de empresas levam a aumento da concentração. Após um tempo, os salários, exceto o de muito poucas categorias, começam a decrescer em termos reais, perdendo para a inflação dos preços.

06. Paralelamente, como é natural, a demanda por bens e serviços só aumenta através do crédito, formando-se as bolhas, como foi o caso da imobiliária nos EUA, apontada como desencadeadora do colapso financeiro iniciado em 2007/2008.

07.Entretanto, essa não é a única nem a principal bolha. As principais decorrem de manipulações nos mercados financeiros, como foi a das ações de empresas de informática (1997/2001) e a imensa que a ela se seguiu, a dos derivativos. 

08. Nesta foram gerados mais de 600 trilhões de dólares, nos computadores do sistema financeiro: títulos montados em cima de outros títulos e de coisas irreais, como: apostas em inadimplência de títulos (credit default swaps) e em índices de taxas de juro, de taxas de câmbio; operações de hedge, ou seja, jogando, ao mesmo tempo, na alta e na baixa dos mesmos títulos. Até emprestando a um país e apostando na elevação dos juros dessa dívida, como fez o Goldman Sachs com a Grécia, entre outros. 

09. Assim, a par da concentração e maior oligopolização dos setores produtivos, a financeirização da economia foi assumindo dimensões gigantescas. Ela se pode definir como a formação de ativos financeiros em proporção exponencialmente maior que a dos ativos reais e produtivos.

10. Após anos nessa escalada, é natural que os preços desses ativos também aumentem exponencialmente e que, em determinado ponto, se verifique sua irrealidade, o que dá início ao estouro das bolhas.

11. Esse ponto foi atingido em 2007/2008, e a partir daí os preços dos ativos começam a cair. Os devedores viram-se presos numa armadilha, pois continuaram tendo que pagar as dívidas, e muitos deles não mais o puderam fazer, tendo suas casas sido tomadas pelos bancos.

12. Hoje nos EUA as dívidas dos estudantes ultrapassaram US$ 1 trilhão, e os saldos devedores dos cartões de crédito chegam a U$ 800 bilhões.

13. Em 2007/2008, as empresas de muitos manipuladores financeiros entraram em dificuldades, embora não os seus donos e executivos, que haviam transferido, para si mesmos em outras destinações. a maior parte dos lucros com a especulação, movida através de alta alavancagem (uso de margem mínima de capital próprio nas operações financeiras). 

14. Os grandes bancos ficaram praticamente falidos quando a bolha levou a perceber que o valor real dos derivativos não correspondia senão a pequena fração, próxima a zero, do valor nominal desses títulos.

15. Então, por que não foram liquidados, o que teria permitido aos Tesouros nacionais dos EUA, e de vários países europeus, por exemplo, sanear as finanças e a economia?

16. Porque os Tesouros e os bancos centrais os salvaram, com dezenas de trilhões de dólares e de euros dos contribuintes e principalmente com emissões de dinheiro (especialmente nos EUA) e de títulos públicos, inclusive adquirindo pelo valor nominal os títulos podres dos bancos e empresas financeiras.

17. Os pseudo-governos desses países têm o desplante de dizer que são democráticos. Os grandes bancos os controlam, como controlam os “mercados financeiros”.

18. Tal é a manipulação nesses mercados, que, apesar das dezenas de trilhões de dólares criados do nada , o preço do ouro permanece no patamar em que terminou o ano de 2011 (US$ 1.650 por onça), depois de haver atingido naquele ano o pico de quase US$ 2.000.

19. O jornalista financeiro Evans-Pritchard publicou artigo no The Telegraph, de Londres (15.01.2013), em que diz estar o mundo caminhando para um padrão-ouro de fato, no qual o metal teria peso comparável ao do dólar e do euro. Não cogita da moeda chinesa e de outras com potencial de solidez.

20. Ele se baseia no relatório GFMS Gold Survey for 2012, segundo o qual os bancos centrais compraram mais ouro em 2012 do que em qualquer tempo, por quase meio século, aumentando suas reservas em 536 toneladas.

21. Como ele recorda, os bancos centrais de países da órbita anglo-americana (Reino Unido, Espanha, Holanda, Suíça e outros) firmaram, há anos, o acordo de Wahington, comprometendo-se a regularmente fazer vendas de ouro, sustentando as moedas inflacionadas (dólares principalmente).

22. Nessas operações – especialmente o Banco da Inglaterra - tiveram enorme prejuízo, pois o preço do ouro aumentou de US$ 300 em 2003 para o atual nível, superior a US$ 1.600.

23. Outro sinal foi a decisão do parlamento da Alemanha de trazer ao país seus estoques de ouro guardados nos EUA e na França, havendo dúvidas sobre se os EUA ainda têm o que oficialmente consta.

24.Há enorme potencial para as compras principalmente pela China, que teria o projeto de elevar suas reservas de ouro para 2% de suas reservas totais. 

25. Isso ainda é muito pouco já que o dólar e o euro não têm condições de justificar o otimismo, do ponto de vista do cartel dos bancos, de que essas duas moedas permaneçam como as principais divisas mundiais.

26.dívida pública e o déficit federal dos EUA, depois de ultrapassarem o PIB desse país, com montantes acima de US$ 16 trilhões, continuarão sendo financiados com emissões de moeda e de títulos públicos, os quais estão perdendo adquirentes, salvo o Federal Reserve.

27.China detém algo próximo a 1,2 trilhões desses títulos, mas há um ano esse montante era maior, e ele só representa um terço das reservas totais, enquanto o Japão chegou a quase aquele valor, que, no caso dele, representa mais de 90% de suas reservas. A meta da Rússia é aumentar a reserva de ouro para 10% das totais, hoje da ordem de US$ 560 bilhões.

28. Próximo artigo: a situação do Estado no Brasil e na Argentina.


Adriano Benayon* é doutor em economia e autor do livro “Globalização versus Desenvolvimento”.