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sábado, 13 de dezembro de 2014

Pepe Escobar: O novo “arco de instabilidade” europeu

10/12/2014, [*] Pepe EscobarRT − Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Conselho Europeu de Relações Exteriores
(foto: Chris Hondros)

think-tank Friedrich Ebert Stiftung de Berlim e o Conselho Europeu de Relações Exteriores e acabam de chegar mais ou menos à mesma conclusão.

Se o perigoso impasse entre a União Europeia (UE) e a Rússia por causa da Ucrânia não for resolvido, a UE enfrentará, mais tardar até 2030, ameaçadora acumulação de tensão militar no leste europeu; uma nova corrida armamentista, com a OTAN como protagonista; e uma “zona de instabilidade” semipermanente do Báltico aos Bálcãs e o Mar Negro.

O que esses dois think-tanks não reconhecem – nem jamais reconhecerão – é que esse novo “arco de instabilidade” do Báltico ao Mar Negro – como eu e vários analistas independentes temos repetido – é exatamente o que o Império do Caos e a OTAN, seu braço armado, estão construindo para impedir qualquer integração mais firme na Eurásia.

O Pentágono, por falar dele, acumula notório saber na fabricação de “arcos de instabilidade”.Antes do mais recente, construiu – e ela lá permanece – uma grande área de instabilidade que vai do Maghreb a Xinjiang na China ocidental, atravessando o Oriente Médio e a Ásia Central.

Moscou já identificou e decifrou completamente o golpe. O Ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, mais uma vez explicou tudo com total clareza, em detalhes [entrevista (longa) está sendo traduzida (NTs)].

Sergey Lavrov na entrevista de 9/12/1024
Crucialmente importante: também alguns setores influentes na Alemanha já entenderam e estão explicando, com membros da elite cultural alemã já trabalhando para destruir qualquer ideia de nova guerra na Europa: Não no nosso nomeO mesmo se pode dizer de alguns que sempre pregaram maior cooperação transatlântica, que viviam a louvar o papel de “definição” que os EUA têm na Alemanha e muito repetiam que a Alemanha seria o “mais norte-americano” dos países europeus; é o caso do jornal Frankfurter Allgemeine – ativo no coração do establishment político e econômico na Alemanha.

A coisa ainda está em estágio embrionário, e a chanceler Angela Merkel ainda não viu a luz; mas não há dúvidas de que já está em andamento na Alemanha uma operação de reengenharia reversa das relações atlanticistas.


Enquanto isso, o proverbial grupo de senadores norte-americanos extremistas, mais os conhecidos poodles/vassalos britânicos e poloneses, não pararam de fazer lobby para expulsar a Rússia da Cooperativa para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais, criada e mantida pelo Acordo SWIFT – exatamente como fizeram com o Irã.

Seria, precisa e exatamente, mais uma declaração de guerra (econômica) – ou o contraponto econômico da histeria da OTAN. Verdade seja dita: grande parte da União Europeia – especialmente a Alemanha – sabe que essa coisa é loucura e nada mais.

O principal jornal alemão de finanças, Handelsblatt, publicou recentemente uma entrevista decisivamente importante, feita com o presidente do VTB-Bank, Andrei Kostin, que ainda não apareceu traduzida em nenhum grande jornal em inglês.

Taxa do rublo em Moscou em 9/12/2014
Kostin, naquela entrevista, vai diretamente ao ponto:

É claro que há um plano B [para o caso de a Rússia ser impedida de operar com o sistema bancário mundial pela rede SWIFT]. Mas em minha opinião pessoal, se tal tipo de sanção for introduzido, haverá guerra. Foi o que EUA e Europa fizeram contra o Irã, mas com o Irã naquele momento não havia relações diplomáticas, só “contenção” militar (...) Se o acesso à rede SWIFT foi negado aos bancos russos, no mesmo dia o embaixador dos EUA em Moscou terá de fazer as malas e deixar o país. As relações diplomáticas serão declaradas rompidas. O sistema de banking é a parte mais vulnerável da economia russa, porque todo ele é muito fortemente dependente do dólar e do euro.

No próximo mês de maio (2015), o Banco Central da Rússia deverá pôr em operação uma cooperativa de telecomunicações análoga à rede SWIFT – depois de concluídas as consultas e entendimentos chaves com a China. Sempre importante manter em mente que a China mantém já em operação uma rede paralela semelhante à SWIFT para os negócios que faz com o Irã, desde o início das sanções. Mas há aí uma “janela” de quatro meses, tempo bastante para toda uma longa enfiada de operações imundas, sobretudo depois que o Senado controlado pelos Republicanos tomar posse nos EUA em janeiro.

Tudo que reluz...

E há a tal “proporção áurea”. Por que a Rússia está comprando tanto ouro? Com o dólar norte-americano forçado para cima e o ouro forçado para baixo, faz perfeito sentido comercial vender gás a gordos preços em dólares inflados e comprar ouro a preços deprimidos; é o que os chineses chamam de “ganha-ganha”. Claro também que o ocidente perde (nas duas pontas).

As elites de Washington/Wall Street sabem perfeitamente que Moscou e Pequim não estão acumulando e nunca mais acumularão reservas em dólares norte-americanos. Dado que os plutocratas Mestres do Universo que manipulam/controlam o valor do dólar norte-americano não jogam para perder dinheiro, é bem razoável supor que um dos objetivos deles seja hoje arruinar a base industrial e as classes médias nos EUA.

Moscou acumula reservas em ouro
Moscou, por sua vez, já se ajustou à nova “instabilidade”. O fraco rublo teve efeito positivo – como o presidente Putin já observou – porque forçou a Rússia a diversificar a manufatura e tornar-se mais autossuficiente.

Claro: o problema persiste, para a Rússia, de pagar os juros da dívida externa em dólares norte-americanos. Moscou sempre pode declarar-se em moratória e não pagar. O rublo cairia ainda mais. Mas, uma vez que qualquer um, de Lukoil a Rosneft converte mais dólares em rublos, o processo faria o rublo voltar a subir. O resumo disso tudo é que Moscou já aprendeu mais uma lição útil para o futuro imediato: nada dever ao ocidente.

Certo é que o Império do Caos não aliviará em sua estratégia de aquecer o mais possível o novo arco de instabilidade – dentro da Europa, atravessando o espectro econômico/ financeiro – e instrumentalizando sua Neo-Cortina de Ferro pré-fabricada, do Báltico ao Mar Negro.

Saker
O Kremlin parece saber exatamente a que ponto as apostas subiram. Como me escreveu o Saker, por e-mail:

Putin está dizendo a russos e a ocidentais que está em curso uma longa guerra e que o povo russo tem de estar moralmente preparado para aceitar sacrifícios pela sobrevivência da Rússia. É mais um passo na ‘'saída do armário'’ dos que eu chamo de Soberanistas Eurasianos, processo no qual os EUA já foram abertamente declarados inimigos russofóbicos da Rússia (odeiam a Rússia e têm medo da Rússia); e os europeus já foram desmascarados como colônia impotente. O poder militar não é, nisso, fator diretamente decisivo; o fator diretamente decisivo é o equilíbrio interno de poder, em Moscou, entre os “Atlanticistas Integracionistas” pró-ocidente e os “Soberanistas Eurasianos”.

Está tudo brilhantemente explicado por Mikhail Khazinda débâcle do regime de Bretton Woods, até a crise atual, crise provocada. Rússia rocks. E o ocidente?


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.

domingo, 13 de julho de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP), 11/7/2014

Importante desenvolvimento para a Resistência

11/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Além do que parece ter sido ataque devastador contra uma coluna de blindados Ukies, há vários importantes desenvolvimentos que aconteceram recentemente e que acho que têm de ser reportados aqui:



79ª Brigada Ukie quase destruída

1) Com o retorno de Strelkov a Donetsk, a ordem e a unidade de comando nas forças da Resistência parecem tem sido restauradas, e resolvidos os desacordos entre Strelkov e Alexander Khodakovskii (ex-comandante da unidade “Alpha” de Donetsk).

2) Em conferência conjunta de imprensa, Igor Strelkov , Alexander Borodai e Vladimir Antiufeev (encarregados respectivamente de assuntos militares, políticos e segurança do estado) anunciaram a formação de um conselho de comandantes militares que será encarregado de todos as unidades militares na Novorrússia. Na mesma conferência de imprensa, anunciaram também ampla evacuação (voluntária) de civis dos subúrbios de Donetsk. A cidade, claramente, está preparando-se para um grande ataque, seguido de sítio.

Strelkov, Borodai, Antiufeev

3) Houve disputa feroz entre Igor Strelkov e Sergei Kurginian, que acusou Strelkov de ter abandonado Slaviansk e que disse que os novorrussos estão agora recebendo mais e melhor ajuda da Rússia, que antes. Embora Borodai tenha acusado Kurginian de espalhar propaganda pró Ukie ou EUA, eu pessoalmente acredito que o papel de Kurginian é tranquilizar o público russo, de que a sociedade civil russa, sim, está fazendo todo o possível para ajudar a Resistência (ninguém jamais fala de qualquer ajuda oferecida pelo governo russo).

Sergei Kurginian
Seja qual for o caso, Alexander Borodai acertou tudo quando relatou que suas consultas e encontros em Moscou foram

(...) muito bem-sucedidas e conto muito com o amparo da Federação Russa em futuro o mais próximo possível. No momento, o povo russo já nós está dando ajuda colossal, seja em termos de voluntários seja em termos de ajuda humanitária. Espero que essa assistência continue a crescer.

 Não há dúvidas de que alguma espécie de “acordo” foi firmado entre os líderes de Novorrússia e o Kremlin, embora, claro, os detalhes vão permanecer secretos e a assistência será apresentada como vinda do “povo russo”, o que é muito diferente de vir do governo russo, apesar de haver aí a interessante questão de entender por que Borodai teria de ter longas reuniões em Moscou, para obter ajuda do povo russo [riso].

4) Aparentemente, os Ukies estiveram reforçando sua artilharia na fronteira com a Crimeia, mas o consenso é que, embora aqueles sistemas tenham alcance para atingir cidades crimeanas, a resposta russa seria de tal ordem, que qualquer ataque dos Ukies ali sempre será movimento suicida. Os russos já reforçaram rapidamente e firmemente suas capacidades na Crimeia, as quais hoje incluem total cobertura do espaço aéreo (usaram ali a versão atualizada do sistema de defesa S-300 - vídeo no fim do parágrafo - com um redeslocamento dos bombardeiros russos de combate). Até o ministro Sergei Lavrov, sempre suave e contido, disse com todas as letras, sem nenhuma suavidade, que não aconselha ninguém a atacar a Crimeia, porque a Rússia retaliará.


5) A Força Aérea Ucraniana continua a perder aeronaves regularmente. Hoje, outro Su-25 Ukie foi derrubado perto de Lugansk.

Su-25 da Ucrânia
6) Em outro interessante desenvolvimento recente, Igor Strelkov anunciou que os soldados que lutam com os militares novorrussos passarão a receber salário, em valor mais que adequado, pelas normas ucranianas. Claramente, mais um sinal de que “alguém” está agora financiando a Resistência.

Meu palpite é que Poroshenko dirá que o Grad MLRS que hoje destruiu quase toda a 79ª Brigada Ukie teria sido disparado da Rússia. A primeira razão pela qual acho que dirá isso é que, assim, terão meios, ele, mas, sobretudo, seus patrões nos EUA, para reacender a histeria russofóbica. A segunda razão é que se esses Grads tiverem saído Rússia, nesse caso as unidades Ukies que estejam em pontos distantes da fronteira russa estariam em relativa segurança; mas, se os Grads foram disparados pela Resistência, de dentro da Novorrússia, nesse caso todas as unidades Ukies na Novorrússia são agora alvos potenciais desses ataques.

Grad MLRS  com alcance de 200 km
Seja como for, temos aqui duas opções: ou os russos finalmente decidiram fazer os Ukies experimentarem um pouco do próprio remédio, nesse caso, fazendo-os pagar pelos inúmeros ataques contra postos de fronteira russos, ou a Resistência realmente pôs as mãos em Grads suficientes para um ataque desse tipo. Nesse caso é bem óbvia a origem desses Grads, embora, claro, ninguém admita coisa alguma.

A fronteira russa com a Ucrânia é porosa? Sim, claro. Mas não a ponto de comboios de MLRS andarem de um lado para o outro sem serem vistos e sem o acordo do governo russo. Strelkov e suas forças poderiam ter “nacionalizado” algum dinheiro confiscado dos bancos de Kolomoiskii. Claro que sim. Mas não o suficiente para bancar uma guerra. É possível que voluntários russos (inclusive oligarcas russos) tenham mandado dinheiro para ajudar os novorrussos? Claro que sim, mas não sem que o serviço secreto russo (FSB) soubesse e permitisse.

Portanto, o que estamos vendo é claramente o seguinte: o *governo* russo não está mandando nenhuma ajuda militar “oficial” à Novorrússia; mas a *sociedade* russa, com pleno conhecimento e as bênçãos do governo russo, está fazendo exatamente isso. Daí o sorriso de felicidade no rosto de Borodai quando falou sobre suas “consultas” em Moscou.

Fronteira Ucrânia-Rússia
 (Análise da OTAN de imagens via satélite)
Está o Kremlin expondo-se a grande risco, com essa estratégia? Não me parece que esteja. A ajuda é suficientemente pequena para ter o que a CIA chama de “negabilidade plausível”; mas, uma vez que seja contínua, pode, sim, fazer diferença crucial. Além disso, tudo que o Kremlin está *realmente* fazendo não é propriamente ajuda; apenas se pôs numa posição passiva que pode ser facilmente explicada com “tentamos”, “não é fácil”, “vocês conhecem os nossos problemas de corrupção”, etc..

Para finalizar, arrisco uma ideia. Estou sentindo que os Integracionistas Atlanticistas no Kremlin e à volta dele não estão absolutamente contentes com a ajuda que a Rússia está dando, e há boa chance de que Putin esteja usando seus antigos contatos com o serviço secreto para fazer acontecerem as coisas. Examinando as recentes ações de Strelkov, Borodai e Antiufeev, tenho a forte sensação de que essa recente “consolidação do poder” traz consigo um típico “toque KGB”. E não atrapalha, é claro, nas atuais circunstâncias.

Há uma palavra em russo, difícil de traduzir, que significa, mais ou menos, “perto/em torno dos círculos do Kremlin” (околокремлевские круги). Refere-se, basicamente, à base “silenciosa” de poder pró-Putin, que tem grande influência política, mas não é parte formal da estrutura do governo.

Esses círculos – que são o suplício dos liberais russos – têm acesso ao Kremlin e apoiam o presidente, mas não integram formalmente a administração, nem o governo nem o gabinete do presidente nem qualquer outra entidade do estado e, por isso, não podem ser controlados por ninguém, exceto, claro, o serviço secreto federal, FSB. Estou sentindo que esses círculos, que são furiosamente antinazistas e antinorte-americanos, já se organizaram informalmente para criar uma rede de assistência à Novorrússia. Que ninguém jamais subestime o poder e as capacidades desses círculos.

Por exemplo, durante o regime pró-EUA de Yeltsin, aqueles círculos não apenas organizaram assistência secreta à Transdniestria; tiveram até meios para conseguir que seus próprios aviões militares voassem para lá, sem que ninguém a bordo precisasse se identificar a nenhuma autoridade, em nenhuma escala da viagem. Sei disso, porque me ofereceram lugar num desses voos e me disseram: Damos um uniforme a você, você veste e ninguém fará perguntas. Foi em 1993. Ninguém nem imagina o que esses sujeitos podem fazer hoje, com acesso ao Kremlin...

Que tipo de gente reúne-se nesses ‘círculos’? Militares, claro, sobretudo aposentados dos serviços especiais, oficiais do FSB que não se incomodam de negar sempre, oficiais das unidades especiais GRU que negam sempre, sempre; mas também empresários, jornalistas e alguns “inovadores”, muitos deles conectados às máfias russas. É uma mistura eclética de gente, de idealistas a gente que apenas sabe que o “poder-na-sombra” [orig. “shadow power”] desses círculos também pode ser muito útil para promover seus próprios interesses.

Vladimir Putin
Para concluir, digo que enquanto tudo aqui dito, até aqui, são, sem dúvida alguma, excelentes notícias, a coisa toda está longe de estar resolvida. Os Integracionistas Atlanticistas continuam muito poderosos. Putin falou abertamente sobre uma “5ª coluna”, e eles resistirão com todas as suas forças. Quanto a Putin, está engajado num ato de equilibrismo difícil e perigoso, no qual qualquer coisa que saia errado lhe será atribuído, como culpa exclusiva e pessoal dele. Putin sabe disso e faz o que pode para mostrar-se o mais distante possível do dia-a-dia dos combates na Novorrússia. Seus adversários também veem claramente que, com essa guerra na Novorrússia, têm oportunidade perfeita para enfraquecê-lo e até desacreditá-lo, mas, dessa vez, de uma posição aparentemente “patriótica” (porque a posição pró-EUA, agora, basicamente, é fracasso garantido).

Supersimplificando muito, eu diria que essa luta envolveu “big Money x serviços secretos” e que, até aqui, os serviços secretos parecem estar no controle da situação, o que é bom para a Novorrússia. Mas tudo pode mudar muito, dependendo de como a situação evolua.


The Saker