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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pepe Escobar: Por que a OTAN treme de medo da Rússia

1/5/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sede da OTAN
O ataque por duas frentes – guerra ao preço do petróleo/raid contra o rublo – que visava a destruir a economia russa e metê-la no formato de vassalagem, como um recurso natural a ser usado pelo ocidente, falhou.

Os recursos naturais também foram essencialmente a razão para a tentativa de reduzir o Irã à posição de vassalo do ocidente. Nada jamais teve a ver com Teerã desenvolver alguma arma nuclear – hipótese já banida pelos dois líderes da Revolução Islâmica, o Aiatolá Khomeini e o Supremo Líder Aiatolá Khamenei.

O “Novo Grande Jogo” na Eurásia sempre só teve a ver com controlar a massa de terra eurasiana. Mas pequenos reveses que sofra o projeto da elite norte-americana não significam que o jogo ficará limitado a alguma mera guerra de atrito. Antes, o contrário disso.

Tudo sobre o Prompt Global Strike (PGS) [Ataque Global Imediato]

Na Ucrânia, o Kremlin tem dito mais que explicitamente que há duas linhas vermelhas absolutas. A Ucrânia não será integrada à OTAN. E Moscou não permitirá que as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk sejam esmagadas.

Estamos nos aproximando de um esgotamento de prazo potencialmente explosivo – em julho – quando expiram as sanções que a União Europeia impôs à Rússia. Uma União Europeia em tumulto – mas ainda escravizada à OTAN – vê passar o patético comboio “Cavalgada do Dragão” [orig. Dragoon Ride] dos Bálticos para a Polônia, ou o exercício-show “Determinação Atlântica” [orig. Atlantic Resolve] da OTAN – pode decidir expandir as sanções, ou até tentar excluir a Rússia da Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais [orig. Society for Worldwide Interbank Financial TelecommunicationSWIFT].

China e Rússia substituem o  SWIFT 
Só tolos ainda creem que Washington venha a arriscar vidas de norte-americanos por causa da Ucrânia ou mesmo, da Polônia. Examinemos então alguns passos adiante.

Se algum dia as coisas chegarem ao impensável – guerra entre OTAN e Rússia na Ucrânia – os círculos russos de Defesa não têm dúvida alguma quanto à sua superioridade convencional e nuclear, no mar e em terra. E o Pentágono também sabe disso. A Rússia pode reduzir a farelo as forças da OTAN, em poucas horas. E então Washington estaria diante da terrível escolha: ou aceitar derrota vergonhosa, ou escalar para as armas táticas nucleares.

O Pentágono sabe que a Rússia tem capacidades aéreas e mísseis de defesa suficientes para contra-atacar qualquer coisa que exista dentro do Prompt Global Strike (PGS) [Ataque Global Imediato] dos EUA. Mas, simultaneamente, Moscou tem dito que prefere não usar essas suas capacidades.

O major-general Kirill Makarov, vice-comandante das Forças de Defesa Aeroespaciais da Rússia, foi bem claro sobre a ameaça do PGS. A nova doutrina militar de Moscou, de dezembro de 2014, declara que:  

(I) esse projeto norte-americano de Ataque Global Imediato e
(II) o atual crescimento militar da OTAN são as duas principais ameaças de segurança que há contra a Rússia.

Diferentes da incansável provocação/demonização de que o Pentágono/OTAN faz meio de vida, os círculos de defesa russos não precisam anunciar aos gritos o modo pelo qual estão hoje algumas gerações à frente dos EUA em tudo que tenha a ver com armamento avançado.

Jens Stoltenberg, Secretário-Geral da OTAN
Em resumo: enquanto o Pentágono metia pés e mãos na lama das guerras no Afeganistão e Iraque, ninguém prestava atenção ao salto tecnológico à frente, que os russos estavam dando. E o mesmo se aplica à capacidade da China para atingir os satélites norte-americanos, sem os quais todos os sistemas dos mísseis balísticos intercontinentais (MBIs) guiados por satélites, dos EUA, estarão inutilizados.

Nesse cenário privilegiado, a Rússia joga para ganhar tempo, até que tenha vedado completamente todo o espaço aéreo russo com o sistema S-500, tornando-o inexpugnável para os MBIs, as aeronaves stealth [indetectáveis por radar] e os mísseis cruzadores norte-americanos.

Nada disso escapou à atenção da Comissão Conjunta de Inteligência [orig. Joint Intelligence Committee (JIC)] britânica – quando avaliou, há algum tempo, se Washington poderia lançar um primeiro ataque contra a Rússia.

Segundo a JIC, Washington pode enlouquecer completamente se:

(a) um governo extremista tomar o poder nos EUA;
(b) se diminuir a confiança que os EUA depositam em alguns, se não em todos, seus aliados ocidentais, devido a desenvolvimentos políticos nos respectivos países;
(c) e se acontecer algum repentino avanço nos EUA na esfera das armas, etc.. Nesse caso, os conselhos da impaciência podem dominar toda a estrutura.

Os boatos que a Think-tank-elândia norte-americana tem distribuído, segundo os quais os planejadores militares russos provavelmente se aproveitariam de sua superioridade, para lançar um primeiro ataque nuclear contra os EUA, são pura bobagem; a doutrina russa é eminentemente defensiva.

Mesmo assim, não se pode excluir a possibilidade de Washington fazer o impensável, na próxima vez que o Pentágono supuser que esteja na posição em que a Rússia está hoje.

Modifica-se a Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais [ing. SWIFT]

Antes, todo o jogo se travava em torno de quem reinava sobre as ondas – dom geopolítico que os EUA herdaram da Grã-Bretanha. O controle sobre os mares significava que os EUA herdavam cinco impérios: Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Países Baixos.

Dólar dos EUA - desmascarado
Todas aquelas gigantescas forças tarefas dos porta-aviões norte-americanos patrulhando os oceanos para garantir o “livre comércio” – como reza a máquina hegemônica de propaganda – podiam virar-se contra a China num piscar de olhos. É mecanismo semelhante ao cuidadosamente coreografado “liderar pela retaguarda”, operação financeira para, simultaneamente, derrubar o rublo/lançar uma guerra do petróleo e, assim, obrigar a Rússia a submeter-se.

O plano máster de Washington falsamente muito simples prossegue: “neutralizar” a China com o Japão, e a Rússia com a Alemanha; com os EUA garantindo apoio às suas duas âncoras, Alemanha e Japão. A Rússia é de fato o único país BRICS que bloqueia o andamento do plano máster.

As coisas estavam nesse ponto, até que Pequim lançou sua(s) Nova(s) Rota(s) da Seda(s), que essencialmente significa(m) unir toda a Eurásia numa bonança comercial/de negócios “ganha-ganha” sobre trilhos de alta velocidade, com o processo trazendo para terra firme o dinheiro dos fretes da tonelagem transportada; tirando-o dos mares.

Por tudo isso, a demonização non-stop da Rússia pela OTAN é, de fato, negócio bizarro, desatualizado. Imaginem a OTAN arranjando briga contra a complexa parceria estratégica em constante evolução Rússia-China. E, num futuro nem tão distante, como já sugeri, Alemanha, Rússia e China têm tudo que se exige para serem pilares essenciais de uma Eurásia plenamente integrada.

Yuan, a nova moeda de reserva
Como as coisas estão hoje, o jogo chave que se desenrola por trás das cortinas é Moscou e Pequim construindo silenciosamente a sua própria Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (um sistema SWIFT, mas distante do controle pelos EUA), ao mesmo tempo em que a Rússia prepara-se para blindar seu espaço aéreo, com os S-500s.

O oeste da Ucrânia está destruído; que fique lá com a União Europeia corroída de tanta “austeridade” – a qual, por falar dela, não quer a Ucrânia. E tudo isso enquanto a mesma União Europeia vai minando comercialmente os EUA, com seu euro fraudado que ainda a impede de entrar mais nos mercados norte-americanos.

Quanto àquela OTAN irrelevante, só lhe resta chorar, chorar, chorar.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 11 de março de 2015

China completa o novo sistema SWIFT Alternativo, “Eixo da des-dolarização” pode ser lançado em setembro

9/3/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ele está propondo um brinde (toast) ao dólar ou disse que o dólar está torrado (toast)?
Uma das ameaças recorrentemente repetidas pelas nações do ocidente em sua guerra (cada dia menos fria) contra a Rússia, é que o regime de Putin pode ser paralisado se for desligado de todas as transações monetárias internacionais e serviços prestados pelo serviço de distribuição de mensagens-moeda e câmbio que tem base na União Europeia conhecido como SWIFT [1] (desligamento que, vale relembrar, a SWIFT lamentou, como se revelou em outubro, quando foi noticiado que a organização “lamenta a pressão” para desconectar a Rússia).

Claro, depois que se soube, revelado em 2013, que ninguém menos que a Agência de Segurança Nacional dos EUA “monitora” secretamente os fluxos de pagamento feitos pela SWIFT, já ninguém pode ter certeza de que “ser desligado” da SWIFT seria castigo ou prêmio. Seja como for, a Rússia não precisou de muitos avisos, e, como noticiamos há menos de um mês, o país já lançou sua própria “SWIFT-alternativa”, conectando, para começar, 91 instituições de crédito.

Essa notícia, por sua vez, sugeriu que a des-dolarização está muito mais avançada do que muitos esperavam, o que, combinado com a venda recorde, pela Rússia de TSYs, mostra o quanto Putin está levando a sério a ameaça de ser isolado do sistema ocidental de pagamentos. Seria perfeitamente lógico e esperável que, sem tardar, Putin apareceria com seu próprio sistema.

Há duas implicações bem claras desse uso do dinheiro como meio para fazer guerra clandestina:

(I) a menos que outros países acompanhem a saída da Rússia da SWIFT, a ação de criar mecanismo alternativo será honrada e valente, mas dará em nada; afinal, se todo o resto do mundo continuar a usar o sistema SWIFT como padrão, nenhum sistema alternativo que a Rússia invente para processar pagamentos estrangeiros terá qualquer importância; e
(II) se o exemplo da Rússia, de sair de um sistema mediado pelo ocidente para pagamentos internacionais for bem-sucedido e copiado, o movimento russo acelerará o esvaziamento do status do dólar como moeda de reserva – que o dólar é, por definição, porque não há outra moeda de reserva. Se aparecerem alternativas, todo o sistema de reserva começa a ruir.

Hoje já há provas de que a implicação (II) muito provavelmente prevalecerá, depois de matéria distribuída pela Reuters, de Pequim que dá notícia de que o sistema de pagamentos internacional da China, conhecido bem simplesmente como China International Payment System (CIPS), que processa transações em Yuan transfronteiras, está pronto e pode entrar em plena operação já em setembro ou outubro.

O Yuan como moeda de reserva
Segundo a Reuters, o lançamento do CIPS removerá uma das maiores barreiras à internacionalização do Yuan e deve aumentar muito o uso global da moeda chinesa, fazendo baixar os custos de transação e os tempos de processamento.

O sistema porá o Yuan em pés de melhor igualdade com outras grandes moedas globais como o dólar norte-americano, uma vez que a CIPS usará o mesmo formato de messaging de outros sistemas internacionais de pagamentos, tornando mais fáceis e rápidas as transações.

O CIPS, que será uma supertrilha mundial para pagamentos para o Yuan, substituirá a colcha de retalhos de redes hoje existente, que torna muito pesado e difícil o processamento de pagamentos com renminbi.

Em outras palavras: enquanto o ocidente usa cada provocação que envolva a guerra civil na Ucrânia como oportunidade para pressionar a Rússia a criar seu próprio sistema de pagamento transfronteiras, ele já conseguiu não só que a Rússia faça precisamente isso, mas, mais que isso, o ocidente também empurrou a China para que acelerasse o serviço de criar e implantar seu próprio sistema para pagamentos internacionais. Nesse processo, Rússia e China aproveitam para “avisar” ao planeta que o dólar norte-americano é substituível como moeda de reserva. Assim, dão a outros países (aos BRICS, por exemplo), luz verde para pensarem na SWIFT apenas como alternativa, depois dos sistemas de pagamento (a) russo e (b) chinês, coisa que, com o estímulo político e financeiro adequado, aqueles países gostarão muito, muito, de fazer).


Mas o mais perturbador é o quão rapidamente está chegando a mudança de regime operada pelos chineses:

Tudo saindo conforme o previsto, [o lançamento] acontecerá em setembro ou outubro. Se for preciso tempo um pouco mais longo, mesmo assim ainda esperamos que tudo estará em operação antes do final do ano”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada porque não tem autorização para falar com a imprensa-empresa.

Esperava-se que o sistema tivesse sido lançado em 2014, mas o lançamento foi adiado por problemas técnicos, com muitos participantes do mercado já prevendo que não entraria em operação antes de 2016.

Desnecessário dizer o quanto a China gostará de ter seu próprio sistema unificado de pagamentos, o sistema que internacionalizará ainda mais o renminbi, moeda a qual, em novembro de 2014, já se convertera em uma das cinco principais moedas de pagamento, deslocando os dólares canadense e australiano, segundo dados da SWIFT.

Até agora, o câmbio transfronteira de Yuan tinha de ser feito ou num dos bancos “offshore” de compensação de Yuan em Hong Kong, Cingapura e Londres, ou com a ajuda de um banco intermediário em território da China.

“Com muita frequência ocorrem erros sob o atual sistema de compensações, por causa de diferenças de linguagens e de codificação. O CIPS é uma abertura importante, porque oferecerá plataforma comum e aumentará a eficiência”, disse Raymond Yeung, analista da ANZ em Hong Kong.

O lançamento do CIPS permitirá que empresas fora da China façam negócios em Yuan diretamente com seus contrapartes chineses, reduzindo o número de etapas pelos quais tinha de passar cada pagamento.

Também tornará muito mais difícil para a Agência de Segurança Nacional dos EUA “rastrear” pagamentos que entram e saem da China, do que hoje, quando se usam intermediários cheios de furos, como a SWIFT.

QUE ORELHAS GRANDES VOCÊ TEM!
Eis como o Mercator Institute for China Studies antecipou esse grande desenvolvimento:

O governo chinês caminha a passos largos para uma internacionalização controlada da moeda chinesa, mediante uma expansão passo a passo do uso do RMB no comércio internacional e investimento chineses. Para tal finalidade, foi construída uma rede mundial de acordos relacionados a swaps de moeda do Banco Central, câmbio direto do RMB com outras moedas e câmaras de compensação em RMB.

O estabelecimento de um sistema independente de pagamentos (CIPS) para transações em RMB e sistema alternativo ao existente, SWIFT, com certeza ampliará a autonomia da China em relação a estruturas do mercado financeiro centradas nos EUA.


Tabela de "Serviços ocidentais"que serão substituídos por Rússia/China/BRICS
(clique na imagem para aumentar)
Por fim, a maior facilidade nas transações em termos não-US$ acelerará a adoção do Yuan chinês como moeda primária do comércio global, ou do pouco que reste dele, oposta à moeda da engenharia financeira.

Os pagamentos em Yuan globais aumentaram 20,3% em valor, em dezembro, na comparação com o mesmo período do ano passado; e o crescimento para pagamentos em todas as demais moedas foi de 14,9% no mesmo período – informou a SWIFT.

China acelerou o passo da internacionalização do Yuan em anos recentes. O banco central credenciou 10 bancos para compensação oficial do Yuan ano passado, elevando o número total para 14 bancos, globalmente, que podem realizar transações em Yuan com a China.

A última observação a registrar aqui é que, se o objetivo planejado na brilhante operação urdida pelo governo Obama para expulsar a Rússia – e, por filiação geopolítica, também a China – para bem longe de um mecanismo de transação monetária que os EUA controlavam e supervisionavam; e para obrigar os dois mais fortes concorrentes que se opõem aos EUA na disputa pela hegemonia global a construírem, eles mesmos, o seu (deles!) próprio sistema de pagamentos... nesse caso... PARABÉNS! O “operação” deu certo!
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Nota dos tradutores
[1] Fundada em Bruxelas em 1973, a Sociedade para Telecomunicações Mundiais Interbancárias e Financeiras (Society for the Worldwide Interbank Financial Telecommunication – SWIFT) é uma organização cooperativa dedicada a promover o desenvolvimento de interatividade global padronizada para transações financeiras. Originalmente, a SWIFT tinha a seu cargo estabelecer um link de comunicações globais para processamento de dados e uma linguagem computacional comum para transações financeiras internacionais. A sociedade opera um serviço de messaging para mensagens financeiras, como cartas de crédito, pagamentos, transações protegidas, entre bancos membros em todo o mundo. A função essencial da SWIFT é distribuir essas mensagens de forma rápida e segura, duas exigências básicas em transações de natureza financeira. Organizações membros criam mensagens formatadas que são passadas adiante para a SWIFT para serem entregues à organização membro destinatária. A SWIFT opera em escritórios instalados em Bruxelas, e processa dados de centros de dados instalados na Bélgica e nos EUA.

Serviços prestados e clientes SWIFT

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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

sábado, 13 de dezembro de 2014

Pepe Escobar: O novo “arco de instabilidade” europeu

10/12/2014, [*] Pepe EscobarRT − Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Conselho Europeu de Relações Exteriores
(foto: Chris Hondros)

think-tank Friedrich Ebert Stiftung de Berlim e o Conselho Europeu de Relações Exteriores e acabam de chegar mais ou menos à mesma conclusão.

Se o perigoso impasse entre a União Europeia (UE) e a Rússia por causa da Ucrânia não for resolvido, a UE enfrentará, mais tardar até 2030, ameaçadora acumulação de tensão militar no leste europeu; uma nova corrida armamentista, com a OTAN como protagonista; e uma “zona de instabilidade” semipermanente do Báltico aos Bálcãs e o Mar Negro.

O que esses dois think-tanks não reconhecem – nem jamais reconhecerão – é que esse novo “arco de instabilidade” do Báltico ao Mar Negro – como eu e vários analistas independentes temos repetido – é exatamente o que o Império do Caos e a OTAN, seu braço armado, estão construindo para impedir qualquer integração mais firme na Eurásia.

O Pentágono, por falar dele, acumula notório saber na fabricação de “arcos de instabilidade”.Antes do mais recente, construiu – e ela lá permanece – uma grande área de instabilidade que vai do Maghreb a Xinjiang na China ocidental, atravessando o Oriente Médio e a Ásia Central.

Moscou já identificou e decifrou completamente o golpe. O Ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, mais uma vez explicou tudo com total clareza, em detalhes [entrevista (longa) está sendo traduzida (NTs)].

Sergey Lavrov na entrevista de 9/12/1024
Crucialmente importante: também alguns setores influentes na Alemanha já entenderam e estão explicando, com membros da elite cultural alemã já trabalhando para destruir qualquer ideia de nova guerra na Europa: Não no nosso nomeO mesmo se pode dizer de alguns que sempre pregaram maior cooperação transatlântica, que viviam a louvar o papel de “definição” que os EUA têm na Alemanha e muito repetiam que a Alemanha seria o “mais norte-americano” dos países europeus; é o caso do jornal Frankfurter Allgemeine – ativo no coração do establishment político e econômico na Alemanha.

A coisa ainda está em estágio embrionário, e a chanceler Angela Merkel ainda não viu a luz; mas não há dúvidas de que já está em andamento na Alemanha uma operação de reengenharia reversa das relações atlanticistas.


Enquanto isso, o proverbial grupo de senadores norte-americanos extremistas, mais os conhecidos poodles/vassalos britânicos e poloneses, não pararam de fazer lobby para expulsar a Rússia da Cooperativa para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais, criada e mantida pelo Acordo SWIFT – exatamente como fizeram com o Irã.

Seria, precisa e exatamente, mais uma declaração de guerra (econômica) – ou o contraponto econômico da histeria da OTAN. Verdade seja dita: grande parte da União Europeia – especialmente a Alemanha – sabe que essa coisa é loucura e nada mais.

O principal jornal alemão de finanças, Handelsblatt, publicou recentemente uma entrevista decisivamente importante, feita com o presidente do VTB-Bank, Andrei Kostin, que ainda não apareceu traduzida em nenhum grande jornal em inglês.

Taxa do rublo em Moscou em 9/12/2014
Kostin, naquela entrevista, vai diretamente ao ponto:

É claro que há um plano B [para o caso de a Rússia ser impedida de operar com o sistema bancário mundial pela rede SWIFT]. Mas em minha opinião pessoal, se tal tipo de sanção for introduzido, haverá guerra. Foi o que EUA e Europa fizeram contra o Irã, mas com o Irã naquele momento não havia relações diplomáticas, só “contenção” militar (...) Se o acesso à rede SWIFT foi negado aos bancos russos, no mesmo dia o embaixador dos EUA em Moscou terá de fazer as malas e deixar o país. As relações diplomáticas serão declaradas rompidas. O sistema de banking é a parte mais vulnerável da economia russa, porque todo ele é muito fortemente dependente do dólar e do euro.

No próximo mês de maio (2015), o Banco Central da Rússia deverá pôr em operação uma cooperativa de telecomunicações análoga à rede SWIFT – depois de concluídas as consultas e entendimentos chaves com a China. Sempre importante manter em mente que a China mantém já em operação uma rede paralela semelhante à SWIFT para os negócios que faz com o Irã, desde o início das sanções. Mas há aí uma “janela” de quatro meses, tempo bastante para toda uma longa enfiada de operações imundas, sobretudo depois que o Senado controlado pelos Republicanos tomar posse nos EUA em janeiro.

Tudo que reluz...

E há a tal “proporção áurea”. Por que a Rússia está comprando tanto ouro? Com o dólar norte-americano forçado para cima e o ouro forçado para baixo, faz perfeito sentido comercial vender gás a gordos preços em dólares inflados e comprar ouro a preços deprimidos; é o que os chineses chamam de “ganha-ganha”. Claro também que o ocidente perde (nas duas pontas).

As elites de Washington/Wall Street sabem perfeitamente que Moscou e Pequim não estão acumulando e nunca mais acumularão reservas em dólares norte-americanos. Dado que os plutocratas Mestres do Universo que manipulam/controlam o valor do dólar norte-americano não jogam para perder dinheiro, é bem razoável supor que um dos objetivos deles seja hoje arruinar a base industrial e as classes médias nos EUA.

Moscou acumula reservas em ouro
Moscou, por sua vez, já se ajustou à nova “instabilidade”. O fraco rublo teve efeito positivo – como o presidente Putin já observou – porque forçou a Rússia a diversificar a manufatura e tornar-se mais autossuficiente.

Claro: o problema persiste, para a Rússia, de pagar os juros da dívida externa em dólares norte-americanos. Moscou sempre pode declarar-se em moratória e não pagar. O rublo cairia ainda mais. Mas, uma vez que qualquer um, de Lukoil a Rosneft converte mais dólares em rublos, o processo faria o rublo voltar a subir. O resumo disso tudo é que Moscou já aprendeu mais uma lição útil para o futuro imediato: nada dever ao ocidente.

Certo é que o Império do Caos não aliviará em sua estratégia de aquecer o mais possível o novo arco de instabilidade – dentro da Europa, atravessando o espectro econômico/ financeiro – e instrumentalizando sua Neo-Cortina de Ferro pré-fabricada, do Báltico ao Mar Negro.

Saker
O Kremlin parece saber exatamente a que ponto as apostas subiram. Como me escreveu o Saker, por e-mail:

Putin está dizendo a russos e a ocidentais que está em curso uma longa guerra e que o povo russo tem de estar moralmente preparado para aceitar sacrifícios pela sobrevivência da Rússia. É mais um passo na ‘'saída do armário'’ dos que eu chamo de Soberanistas Eurasianos, processo no qual os EUA já foram abertamente declarados inimigos russofóbicos da Rússia (odeiam a Rússia e têm medo da Rússia); e os europeus já foram desmascarados como colônia impotente. O poder militar não é, nisso, fator diretamente decisivo; o fator diretamente decisivo é o equilíbrio interno de poder, em Moscou, entre os “Atlanticistas Integracionistas” pró-ocidente e os “Soberanistas Eurasianos”.

Está tudo brilhantemente explicado por Mikhail Khazinda débâcle do regime de Bretton Woods, até a crise atual, crise provocada. Rússia rocks. E o ocidente?


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.