Mostrando postagens com marcador NSA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NSA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de junho de 2015

Em meio às TORTURAS, dizem especialistas, há outro crime da CIA: “Experimentação Humana”


15/6/2015, [*] Jon Queally - Common Dreams
Traduzido por Emerx




Documentos desclassificados expõem como as tentativas da CIA de legitimar o programa de interrogatórios abusivos constituíram, elas mesmas, crimes de outro nível.


Participante de simulação de afogamento em frente ao prédio do Departamento de Justiça dos EUA em 2007. (Foto: Kevin Lamarque/Reuters)

É sabido que a CIA (Central Intelligence Agency) foi autorizada a torturar suspeitos de terrorismo depois do ataque de 11/9/2001.
Novos documentos publicados mostram outro programa de transgressões que constituiu brutal violação da ética médica. Autorizou a agência a conduzir atos análogos a “experimentação humana” sobre pessoas que se tornaram objetos de experiência sem seu consentimento.

A tortura foi o primeiro crime. O segundo crime foi a pesquisa sem consentimento para dizer que aquilo não era tortura — disse Nathaniel Raymond, Harvard University.

Reportadas exclusivamente por The Guardian na segunda-feira (15/6/2015), partes de um documento desclassificado da CIA —obtido em primeira mão pela ACLU (American Civil Liberties Union União Americana pelas Liberdades Civis) — revelam que uma política de longa data contra o uso sem consentimento das pessoas em pesquisas médicas ou científicas permaneceu em vigor e estava sob a alçada do diretor da agência na época em que a CIA começou a jogar pessoas contra paredes, espancá-las, expô-las a prolongados períodos de privação do sono, submetê-las a repetidas sessões de simulação de afogamento e a praticar outras formas de abuso físico e psicológico.
O documento detalha as diretrizes da agência – estabelecidas primeiramente na presidência de Ronald Reagan e subsequentemente atualizadas — as quais empoderam tanto o diretor da CIA quanto seu conselho consultivo a tomar decisões sobre programas de “pesquisas com seres humanos”.
Spencer Ackerman
Como reportou o jornalista Spencer Ackerman:
A parte relevante do documento da CIA, “Lei e Política na Governança da Conduta das Agências de Inteligência”, determina que a agência “não pode patrocinar, contratar ou conduzir pesquisas com seres humanos” fora das normas sobre práticas médicas e humanas responsáveis determinadas pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos para todos os órgãos do governo dos Estados Unidos. A pedra angular destas normas, como observa o documento, é o “consentimento informado da pessoa”.
Trata-se do eco de outra linguagem pública, ainda que obscura, aquela da Ordem Executiva 12333 – documento seminal da era Reagan – definindo os poderes e os limites das agências de inteligência, inclusive as regras de vigilância governamental pela NSA (National Security Agency – Agência Nacional de Segurança).
Mas o livre arbítrio concedido ao diretor da CIA para “aprovar, modificar ou desaprovar todas as propostas pertinentes à pesquisa com seres humanos” não foi tornado previamente público.
Toda a página 41 do documento da CIA se propõe a instruir a agência sobre o que a Ordem Executiva 12333 permite e proíbe, depois da ação legislativa dos anos 1970s, que restringiu os poderes das agências de inteligência em resposta a abusos de conhecimento público – inclusive a velha prática da CIA de fazer experimentos em seres humanos através de programas como o infame projeto MK-Ultra, o qual, entre outras coisas, administrou LSD a participantes sem conhecimento.
A previamente desconhecida sessão das tais diretrizes dá poderes ao diretor da CIA e a seu conselho consultivo para realizar “pesquisas com seres humanos” e para “avaliar toda documentação e certificação pertinentes à pesquisa com seres humanos patrocinada, contratada ou conduzida pela CIA.
Por muito tempo, críticos detonaram todos os membros da comunidade médica que participaram do programa de tortura como traidores de sua ética e de suas obrigações profissionais, mas, com observa The Guardian:
A CIA, que não admite formalmente ter torturado pessoas, insiste em que a presença de pessoal médico garantiu que suas técnicas de tortura fossem aplicadas segundo o rigor médico.
Steven Aftergood
Mas Steven Aftergood, estudioso das agências de inteligência da Federação de Cientistas Americanos, disse ao The Guardian que esses homens que foram torturados pela agência estavam sendo, na verdade, estudados por profissionais médicos para ver como eles responderiam a tais tratamentos.
Além do crime inerente a este abuso, as vítimas eram também sujeitos involuntários, que nunca deram seu consentimento para serem estudados daquela forma.
Há uma desconexão entre o requerimento dessa regulação [contida no documento] e a condução do programa de interrogatórios.
Segundo Aftergood, “eles não apresentam uma política consistente”.
E Nathaniel Raymond, ex-investigador de crimes de Guerra da associação Physicians for Human Rights (Médicos pelos Direitos Humanos) e hoje pesquisador da Harvard University’s Humanitarian Initiative (Iniciativa Humanitária da Universidade de Harvard), explica tudo isso nestes termos:
A tortura foi o primeiro crime. O segundo crime foi a pesquisa sem consentimento pra dizer que aquilo não era tortura.
__________________________________________
[*] Jon Queally é editor sênior e escritor; edita o sítio CommonDreams desde 2007 cobrindo política interna, externa, direitos humanos e de animais, alterações climáticas, e muito mais nos EUA. Além de seu papel como o editor de opinião, ele trabalha diariamente sobre a criação, seleção e gestão de conteúdo de notícias.
Facebook: https://www.facebook.com/jon.queally

quarta-feira, 11 de março de 2015

China completa o novo sistema SWIFT Alternativo, “Eixo da des-dolarização” pode ser lançado em setembro

9/3/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ele está propondo um brinde (toast) ao dólar ou disse que o dólar está torrado (toast)?
Uma das ameaças recorrentemente repetidas pelas nações do ocidente em sua guerra (cada dia menos fria) contra a Rússia, é que o regime de Putin pode ser paralisado se for desligado de todas as transações monetárias internacionais e serviços prestados pelo serviço de distribuição de mensagens-moeda e câmbio que tem base na União Europeia conhecido como SWIFT [1] (desligamento que, vale relembrar, a SWIFT lamentou, como se revelou em outubro, quando foi noticiado que a organização “lamenta a pressão” para desconectar a Rússia).

Claro, depois que se soube, revelado em 2013, que ninguém menos que a Agência de Segurança Nacional dos EUA “monitora” secretamente os fluxos de pagamento feitos pela SWIFT, já ninguém pode ter certeza de que “ser desligado” da SWIFT seria castigo ou prêmio. Seja como for, a Rússia não precisou de muitos avisos, e, como noticiamos há menos de um mês, o país já lançou sua própria “SWIFT-alternativa”, conectando, para começar, 91 instituições de crédito.

Essa notícia, por sua vez, sugeriu que a des-dolarização está muito mais avançada do que muitos esperavam, o que, combinado com a venda recorde, pela Rússia de TSYs, mostra o quanto Putin está levando a sério a ameaça de ser isolado do sistema ocidental de pagamentos. Seria perfeitamente lógico e esperável que, sem tardar, Putin apareceria com seu próprio sistema.

Há duas implicações bem claras desse uso do dinheiro como meio para fazer guerra clandestina:

(I) a menos que outros países acompanhem a saída da Rússia da SWIFT, a ação de criar mecanismo alternativo será honrada e valente, mas dará em nada; afinal, se todo o resto do mundo continuar a usar o sistema SWIFT como padrão, nenhum sistema alternativo que a Rússia invente para processar pagamentos estrangeiros terá qualquer importância; e
(II) se o exemplo da Rússia, de sair de um sistema mediado pelo ocidente para pagamentos internacionais for bem-sucedido e copiado, o movimento russo acelerará o esvaziamento do status do dólar como moeda de reserva – que o dólar é, por definição, porque não há outra moeda de reserva. Se aparecerem alternativas, todo o sistema de reserva começa a ruir.

Hoje já há provas de que a implicação (II) muito provavelmente prevalecerá, depois de matéria distribuída pela Reuters, de Pequim que dá notícia de que o sistema de pagamentos internacional da China, conhecido bem simplesmente como China International Payment System (CIPS), que processa transações em Yuan transfronteiras, está pronto e pode entrar em plena operação já em setembro ou outubro.

O Yuan como moeda de reserva
Segundo a Reuters, o lançamento do CIPS removerá uma das maiores barreiras à internacionalização do Yuan e deve aumentar muito o uso global da moeda chinesa, fazendo baixar os custos de transação e os tempos de processamento.

O sistema porá o Yuan em pés de melhor igualdade com outras grandes moedas globais como o dólar norte-americano, uma vez que a CIPS usará o mesmo formato de messaging de outros sistemas internacionais de pagamentos, tornando mais fáceis e rápidas as transações.

O CIPS, que será uma supertrilha mundial para pagamentos para o Yuan, substituirá a colcha de retalhos de redes hoje existente, que torna muito pesado e difícil o processamento de pagamentos com renminbi.

Em outras palavras: enquanto o ocidente usa cada provocação que envolva a guerra civil na Ucrânia como oportunidade para pressionar a Rússia a criar seu próprio sistema de pagamento transfronteiras, ele já conseguiu não só que a Rússia faça precisamente isso, mas, mais que isso, o ocidente também empurrou a China para que acelerasse o serviço de criar e implantar seu próprio sistema para pagamentos internacionais. Nesse processo, Rússia e China aproveitam para “avisar” ao planeta que o dólar norte-americano é substituível como moeda de reserva. Assim, dão a outros países (aos BRICS, por exemplo), luz verde para pensarem na SWIFT apenas como alternativa, depois dos sistemas de pagamento (a) russo e (b) chinês, coisa que, com o estímulo político e financeiro adequado, aqueles países gostarão muito, muito, de fazer).


Mas o mais perturbador é o quão rapidamente está chegando a mudança de regime operada pelos chineses:

Tudo saindo conforme o previsto, [o lançamento] acontecerá em setembro ou outubro. Se for preciso tempo um pouco mais longo, mesmo assim ainda esperamos que tudo estará em operação antes do final do ano”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada porque não tem autorização para falar com a imprensa-empresa.

Esperava-se que o sistema tivesse sido lançado em 2014, mas o lançamento foi adiado por problemas técnicos, com muitos participantes do mercado já prevendo que não entraria em operação antes de 2016.

Desnecessário dizer o quanto a China gostará de ter seu próprio sistema unificado de pagamentos, o sistema que internacionalizará ainda mais o renminbi, moeda a qual, em novembro de 2014, já se convertera em uma das cinco principais moedas de pagamento, deslocando os dólares canadense e australiano, segundo dados da SWIFT.

Até agora, o câmbio transfronteira de Yuan tinha de ser feito ou num dos bancos “offshore” de compensação de Yuan em Hong Kong, Cingapura e Londres, ou com a ajuda de um banco intermediário em território da China.

“Com muita frequência ocorrem erros sob o atual sistema de compensações, por causa de diferenças de linguagens e de codificação. O CIPS é uma abertura importante, porque oferecerá plataforma comum e aumentará a eficiência”, disse Raymond Yeung, analista da ANZ em Hong Kong.

O lançamento do CIPS permitirá que empresas fora da China façam negócios em Yuan diretamente com seus contrapartes chineses, reduzindo o número de etapas pelos quais tinha de passar cada pagamento.

Também tornará muito mais difícil para a Agência de Segurança Nacional dos EUA “rastrear” pagamentos que entram e saem da China, do que hoje, quando se usam intermediários cheios de furos, como a SWIFT.

QUE ORELHAS GRANDES VOCÊ TEM!
Eis como o Mercator Institute for China Studies antecipou esse grande desenvolvimento:

O governo chinês caminha a passos largos para uma internacionalização controlada da moeda chinesa, mediante uma expansão passo a passo do uso do RMB no comércio internacional e investimento chineses. Para tal finalidade, foi construída uma rede mundial de acordos relacionados a swaps de moeda do Banco Central, câmbio direto do RMB com outras moedas e câmaras de compensação em RMB.

O estabelecimento de um sistema independente de pagamentos (CIPS) para transações em RMB e sistema alternativo ao existente, SWIFT, com certeza ampliará a autonomia da China em relação a estruturas do mercado financeiro centradas nos EUA.


Tabela de "Serviços ocidentais"que serão substituídos por Rússia/China/BRICS
(clique na imagem para aumentar)
Por fim, a maior facilidade nas transações em termos não-US$ acelerará a adoção do Yuan chinês como moeda primária do comércio global, ou do pouco que reste dele, oposta à moeda da engenharia financeira.

Os pagamentos em Yuan globais aumentaram 20,3% em valor, em dezembro, na comparação com o mesmo período do ano passado; e o crescimento para pagamentos em todas as demais moedas foi de 14,9% no mesmo período – informou a SWIFT.

China acelerou o passo da internacionalização do Yuan em anos recentes. O banco central credenciou 10 bancos para compensação oficial do Yuan ano passado, elevando o número total para 14 bancos, globalmente, que podem realizar transações em Yuan com a China.

A última observação a registrar aqui é que, se o objetivo planejado na brilhante operação urdida pelo governo Obama para expulsar a Rússia – e, por filiação geopolítica, também a China – para bem longe de um mecanismo de transação monetária que os EUA controlavam e supervisionavam; e para obrigar os dois mais fortes concorrentes que se opõem aos EUA na disputa pela hegemonia global a construírem, eles mesmos, o seu (deles!) próprio sistema de pagamentos... nesse caso... PARABÉNS! O “operação” deu certo!
_______________________________________________________

Nota dos tradutores
[1] Fundada em Bruxelas em 1973, a Sociedade para Telecomunicações Mundiais Interbancárias e Financeiras (Society for the Worldwide Interbank Financial Telecommunication – SWIFT) é uma organização cooperativa dedicada a promover o desenvolvimento de interatividade global padronizada para transações financeiras. Originalmente, a SWIFT tinha a seu cargo estabelecer um link de comunicações globais para processamento de dados e uma linguagem computacional comum para transações financeiras internacionais. A sociedade opera um serviço de messaging para mensagens financeiras, como cartas de crédito, pagamentos, transações protegidas, entre bancos membros em todo o mundo. A função essencial da SWIFT é distribuir essas mensagens de forma rápida e segura, duas exigências básicas em transações de natureza financeira. Organizações membros criam mensagens formatadas que são passadas adiante para a SWIFT para serem entregues à organização membro destinatária. A SWIFT opera em escritórios instalados em Bruxelas, e processa dados de centros de dados instalados na Bélgica e nos EUA.

Serviços prestados e clientes SWIFT

_______________________________________________________


[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Espionagem na Alemanha, neo-república-de-bananas

21/1/2015, [*] Vladimir PlatovNew Eastern Outlook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Angela Merkel espionada...
Espião alemão empregado da BundesnachrichtendienstBND [Serviço Federal Alemão de Inteligência] foi preso em Berlim no início de julho de 2014. Foi acusado de ter entregue documentos secretos a serviços estrangeiros, a saber, à CIA-EUA. Poucos dias depois foi noticiado que as agências alemãs estavam à caça de mais um espião norte-americano que estava roubando informações do Ministério alemão da Defesa.

A Secretária-Geral do Partido Social Democrata (SPD) alemão, Yasmin Fahimi exigiu que o país  fizesse uma lista de “contramedidas efetivas” que permitam à Alemanha proteger seus segredos nacionais e impedir que sejam roubados por Washington. Falando pela televisão em rede nacional, Yasmin Fahimi disse que:

A Alemanha ainda não é uma república de bananas. (?)

O incidente que envolve um espião da CIA exposto nas fileiras da mais alta segurança alemã foi interpretado pela maioria dos europeus como total nonsense: já se sabia que foram roubados 218 documentos mais top-top secret, de dentro dos “cofres” da segurança alemã, por um funcionário de 31 anos, Marcus R., ao longo dos dois anos durante os quais ele cooperou com a agência dos EUA, oficialmente, então, a “amigável CIA”. A Casa Branca pagava ao “agente leal” (como se dizia então na “república alemã de bananas”) “prêmios” de até 25 mil euros, sem contar os colarezinhos de vidro e as peninhas coloridas.

Yasmin Fahimi
Mas, segundo o jornal alemão Bild, a investigação descobriu, nesse janeiro/2015, que aquele mesmo agente duplo entregou à inteligência dos EUA uma lista de 3.500 nomes de funcionários da inteligência federal alemã, que trabalham atualmente pelo planeta. Não é coisa que se possa “noticiar” como expressão da lealdade e da amizade de Washington em relação à Alemanha.

Essas atividades agressivas da inteligência dos EUA dentro da Alemanha sempre foram rotina, mas nenhum político proeminente, nesse estado vassalo, manifestara publicamente qualquer preocupação por aquele tipo de ação da CIA em território alemão. De fato, ao longo dos últimos anos, segundo o jornal alemão Suddeutsche Zeitung, a inteligência federal alemã tem transferido dados pessoais de cidadãos alemães para a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), através do maior ponto centro neutro de troca de dados da Internet, DE-CIX em Frankfurt.

Segundo o jornal, a NSA está interceptando até 500 milhões de telefonemas e mensagens por Internet na Alemanha, mensalmente. E tudo isso foi e ainda é feito apesar de a informação privada ser protegida pela Constituição Alemã. O que parece é que o bem-estar do “big brother” é muito mais importante para a maioria dos políticos alemães que a própria Constituição alemã. Além do que, a NSA fez inúmeras tentativas para servir-se do DE-CIX para obter um perfil do grupo European Aerospace and Defense e seu administrador francês – informação que Edward Snowden “vazou” ano passado.

Segundo numerosas publicações em Bild e Sonntag, mais de uma dúzia de empregados de ministérios e departamentos alemães continuam a trabalhar como informantes da CIA.

Deve-se lembrar que se observou acentuado crescimento nas atividades da inteligência dos EUA contra a Alemanha no início de outubro de 2013, quando Edward Snowden anunciou que a CIA e a NSA gravavam TODOS os telefonemas de Angela Merkel [e também da Presidenta Dilma Rousseff, do Brasil (NTs)]. O escândalo foi objeto de uma conversa telefônica entre a chanceler alemã e o presidente dos EUA, em janeiro de 2014. Pouco depois, os EUA declararam uma política “de não espionar líderes de países amigos” (sic).

Dilma espionada até na casa da filha em Porto Alegre
(...)

Fato é que Washington continua a tratar a Alemanha como “república de bananas” normal. E pode-se talvez imaginar o que está fazendo com países menores dentro da Europa, no Oriente Médio e no Sudeste Asiático. E é possível que nenhum desses países esteja realmente informado sobre o que se passa, uma vez que seus cidadãos só são “informados” pelos veículos da imprensa-empresa de propaganda da Casa Branca, que jamais sequer tocaram, algum dia, em qualquer informação sobre as atividades ilegais das agências de inteligência dos EUA, por aí, pelo mundo!

[*] Vladimir Platov é repórter internacional do New Eastern Outlook

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A saga Snowden anuncia mudança radical no capitalismo

26/12/2013, [*] Evgeny Morozov, Financial Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

USA Spy & Co.
Depois das revelações, esse ano, sobre os excessos de Washington na espionagem, Edward Snowden enfrenta agora onda crescente de “fadiga da novidade” da vigilância, entre o grande público – e, isso, porque o empregado terceirizado da Agência de Segurança Nacional que se autoconverteu em “apitador-alertador” revelou quantidade imensíssima de verdades desconfortáveis sobre como funciona o mundo nos nossos dias. 

Infraestrutura técnica e poder geopolítico; consumismo rampante e vigilância absoluta, total; a retórica sublime-delirante da “liberdade da internet” e a dura realidade do controle sempre crescente sobre a internet – todas essas são vias interligadas que a maioria de nós nem perceberá ou considerará com atenção. Em vez disso, nos focamos num único elemento dessa longa cadeia – o estado que nos espiona – e ignoramos todos os demais.

Mas o debate sobre a espionagem foi rapidamente circunscrito, estreitado, e convertido em debate insuportavelmente técnico; questões como a consistência da política externa dos EUA; o futuro ambivalente do capitalismo digital; a relocação do poder, de Washington e Bruxelas, para o Vale do Silício – nenhuma dessas questões recebeu a devida atenção. 

"Os EUA nos espionam e nos roubam"
Fato é, contudo, que não só a Agência de Segurança Nacional dos EUA está quebrada: o modo como fazemos – e pelo qual pagamos – as nossas comunicações também está quebrado. 

E foi quebrado por razões políticas e econômicas, não só por razões “de lei” e tecnológicas: muitos estados, desesperados por dinheiro e carentes de imaginação infraestrutural, entregaram as suas redes de comunicação, rendidas, um pouco cedo demais, a empresas de tecnologia.

Snowden criou uma abertura para um muito necessário debate global que poderia ter iluminado várias dessas questões. Infelizmente, esse debate nunca começou. 

As revelações de que os EUA são viciados em vigilância só receberam resposta desbotada, unidimensional. Grande parte dessa retórica superaquecida – não raras vezes com tintas de antiamericanismo e canalizada para modalidades improdutivas de reformas – foi até agora inútil. Muitos governantes estrangeiros ainda se agarram à fantasia de que basta(ria) que os EUA lhes garantam um acordo de não espionagem, ou, pelo menos, a promessa de que pararão de monitorar os seus equipamentos e sistemas, para fazer sumir as perversões que Snowden revelou. 

Nesse ponto, os políticos estão cometendo o mesmo erro que o próprio Snowden comete: em suas raras, mas sempre consistentes manifestações públicas, Snowden sempre atribui os erros e vícios ao alcance desmesurado das agências de inteligência. Parece que, ironicamente, nem o próprio Snowden tem consciência clara do que encontrou e revelou. 

Complexo de Espionagem e instalações da ASN em Fort Meade, Maryland
Não se trata de abuso por instâncias isoladas de poder, que se possa corrigir com novas leis, mais controle sobre os espiões, novas ferramentas que zelem pela privacidade, e com súplicas, pelo estado, às empresas de tecnologia, para que se façam “mais transparentes”. 

É claro que tudo isso tem de ser feito: são os frutos políticos mais acessíveis, que todos sabemos como alcançar e colher. No mínimo, essas medidas criarão a impressão de que algo está sendo feito. 

Mas de que servirão essas medidas, para conter a tendência muitíssimo mais perturbadora, que já mostra que informações pessoais sobre nós mesmos – muito mais que o dinheiro – estão já convertidas em “moeda” que paga por serviços e em breve, talvez, também, pelos bens indispensáveis à vida diária? 

Não há lei nem ferramenta que proteja os cidadãos que, inspirados pelos contos de fadas do empoderamento do Vale do Silício, correm a converter-se em empresários “de dados”, sempre à procura do meio mais novo, mais rápido, mais lucrativo para monetarizar os próprios dados – seja informação sobre os próprios hábitos de compra, ou cópias do próprio genoma. Esses cidadãos querem ferramentas que os capacitem para abrir cada vez mais os próprios dados, não para escondê-los. 

Agora, quando cada dado ou fragmento de dado, por trivial que seja, também é capital disfarçado, só falta encontrar o comprador certo. Ou é o comprador que encontra o dado certo – e o respectivo proprietário – e oferece-se para criar um serviço convenientemente pago, a ser pago com aqueles dados. Esse, aliás, parece ser o modelo Google combinado ao g-mail, o serviço de correio eletrônico da mesma empresa.

Edward Snowden
O que Snowden parece não ver – nem ele nem seus detratores e apoiadores – é que é possível que estejamos passando por uma transformação no modo como o capitalismo opera: dados pessoais aparecem aí como um regime alternativo de pagamento. 

Os benefícios para o consumidor já são óbvios; os custos potenciais para os cidadãos, esses, absolutamente não são claros. Ao mesmo tempo em que proliferam os mercados de compra e venda de informações pessoais, também proliferam as externalidades. E a democracia é a principal vítima.

Nada sugere que a transição em curso, de dinheiro para dados, venha a enfraquecer o poder & mando da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Ao contrário! É possível que se criem intermediários mais fortes e em maior número, todos unidos para manter e ampliar o mesmo vício, a mesma obsessão por mais e mais dados. 

Por isso, se quiser escapar da obscuridade do gueto legalista do debate sobre a privacidade; e para que continue relevante e ganhe pegada (e dentes) políticos, é indispensável que o debate sobre vigilância seja linkado ao debate sobre o capitalismo.

O CUSTO da espionagem e da NSA é ESCONDIDO do povo dos EUA
Há outras dimensões nisso tudo, também esquecidas ou subestimadas, e também cruciais. Não teríamos, nós, de criticar muito mais os argumentos trazidos à baila pela Agência de Segurança Nacional e outras agências, segundo os quais precisa(ria)m daqueles dados que coletam, para agir preventivamente sobre os problemas? 

Não devemos deixar passar sem criticar a ideia de que a prevenção (só porque parece ser hoje a ideia mais barata), substitui(ria) completamente todas as tentativas mais sistemáticas para identificar as origens do problema que temos de resolver, muito mais do que apenas impedir que aconteça hoje. 

Só porque as agências de inteligência dos EUA tanto se empenham para um dia ter mapeadas todas as crianças do Iêmen, porque entendem que elas manifestem tendência inata para explodir aviões, não implica que os EUA estejamos dando a devida atenção à fonte da insatisfação infantil iemenita: uma das quais pode ser o uso alucinado de drones para matar os pais e mães daquelas crianças. 

Infelizmente, essas questões não estão na agenda atual, em parte porque muitos de nós compramos a narrativa simplória – conveniente para Washington e para o Vale do Silício – de que só nos faltam mais leis, mais ferramentas, mais ‘transparência’. 

O que Snowden revelou ao mundo é a nova tensão nos pilares que dão/davam sustentação ao capitalismo e a vida democrática como os conhecemos. Para resolver os novos problemas é preciso um pouco mais de imaginação.
__________________

[*] Evgeny Morozov nasceu em 1984 na Soligorsk, Bielorrússia. Frequentou a American University na Bulgária e mais tarde viveu em Berlim antes de se mudar para os Estados Unidos onde foi aluno-visitante na Stanford University. Atualmente é associado da New America Foundation e editor colaborador-blogueiro (blog New Effect) da revista Foreign Policy. Colabora com o noticiário do Yahoo!; é professor visitante na Georgetown University’s Walsh School of Foreign Service; associado do Open Society Institute; diretor de novas mídias da ONG Transitions Online e colunista do jornal russo Akzia.
Artigos de Morozov têm sido publicados em vários jornais e revistas em todo o mundo, incluindo The New York Times, The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, The Guardian, New Scientist, The New Republic, Corriere Della Sera, Times Literary Supplement, Newsweek International, International Herald Tribune, Boston Review, Slate e San Francisco Chronicle. 
Neste ano de 2013 está obtendo o título de Ph.D. em História da Ciência em Harvard.