Mostrando postagens com marcador Spencer Ackerman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Spencer Ackerman. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de junho de 2015

Em meio às TORTURAS, dizem especialistas, há outro crime da CIA: “Experimentação Humana”


15/6/2015, [*] Jon Queally - Common Dreams
Traduzido por Emerx




Documentos desclassificados expõem como as tentativas da CIA de legitimar o programa de interrogatórios abusivos constituíram, elas mesmas, crimes de outro nível.


Participante de simulação de afogamento em frente ao prédio do Departamento de Justiça dos EUA em 2007. (Foto: Kevin Lamarque/Reuters)

É sabido que a CIA (Central Intelligence Agency) foi autorizada a torturar suspeitos de terrorismo depois do ataque de 11/9/2001.
Novos documentos publicados mostram outro programa de transgressões que constituiu brutal violação da ética médica. Autorizou a agência a conduzir atos análogos a “experimentação humana” sobre pessoas que se tornaram objetos de experiência sem seu consentimento.

A tortura foi o primeiro crime. O segundo crime foi a pesquisa sem consentimento para dizer que aquilo não era tortura — disse Nathaniel Raymond, Harvard University.

Reportadas exclusivamente por The Guardian na segunda-feira (15/6/2015), partes de um documento desclassificado da CIA —obtido em primeira mão pela ACLU (American Civil Liberties Union União Americana pelas Liberdades Civis) — revelam que uma política de longa data contra o uso sem consentimento das pessoas em pesquisas médicas ou científicas permaneceu em vigor e estava sob a alçada do diretor da agência na época em que a CIA começou a jogar pessoas contra paredes, espancá-las, expô-las a prolongados períodos de privação do sono, submetê-las a repetidas sessões de simulação de afogamento e a praticar outras formas de abuso físico e psicológico.
O documento detalha as diretrizes da agência – estabelecidas primeiramente na presidência de Ronald Reagan e subsequentemente atualizadas — as quais empoderam tanto o diretor da CIA quanto seu conselho consultivo a tomar decisões sobre programas de “pesquisas com seres humanos”.
Spencer Ackerman
Como reportou o jornalista Spencer Ackerman:
A parte relevante do documento da CIA, “Lei e Política na Governança da Conduta das Agências de Inteligência”, determina que a agência “não pode patrocinar, contratar ou conduzir pesquisas com seres humanos” fora das normas sobre práticas médicas e humanas responsáveis determinadas pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos para todos os órgãos do governo dos Estados Unidos. A pedra angular destas normas, como observa o documento, é o “consentimento informado da pessoa”.
Trata-se do eco de outra linguagem pública, ainda que obscura, aquela da Ordem Executiva 12333 – documento seminal da era Reagan – definindo os poderes e os limites das agências de inteligência, inclusive as regras de vigilância governamental pela NSA (National Security Agency – Agência Nacional de Segurança).
Mas o livre arbítrio concedido ao diretor da CIA para “aprovar, modificar ou desaprovar todas as propostas pertinentes à pesquisa com seres humanos” não foi tornado previamente público.
Toda a página 41 do documento da CIA se propõe a instruir a agência sobre o que a Ordem Executiva 12333 permite e proíbe, depois da ação legislativa dos anos 1970s, que restringiu os poderes das agências de inteligência em resposta a abusos de conhecimento público – inclusive a velha prática da CIA de fazer experimentos em seres humanos através de programas como o infame projeto MK-Ultra, o qual, entre outras coisas, administrou LSD a participantes sem conhecimento.
A previamente desconhecida sessão das tais diretrizes dá poderes ao diretor da CIA e a seu conselho consultivo para realizar “pesquisas com seres humanos” e para “avaliar toda documentação e certificação pertinentes à pesquisa com seres humanos patrocinada, contratada ou conduzida pela CIA.
Por muito tempo, críticos detonaram todos os membros da comunidade médica que participaram do programa de tortura como traidores de sua ética e de suas obrigações profissionais, mas, com observa The Guardian:
A CIA, que não admite formalmente ter torturado pessoas, insiste em que a presença de pessoal médico garantiu que suas técnicas de tortura fossem aplicadas segundo o rigor médico.
Steven Aftergood
Mas Steven Aftergood, estudioso das agências de inteligência da Federação de Cientistas Americanos, disse ao The Guardian que esses homens que foram torturados pela agência estavam sendo, na verdade, estudados por profissionais médicos para ver como eles responderiam a tais tratamentos.
Além do crime inerente a este abuso, as vítimas eram também sujeitos involuntários, que nunca deram seu consentimento para serem estudados daquela forma.
Há uma desconexão entre o requerimento dessa regulação [contida no documento] e a condução do programa de interrogatórios.
Segundo Aftergood, “eles não apresentam uma política consistente”.
E Nathaniel Raymond, ex-investigador de crimes de Guerra da associação Physicians for Human Rights (Médicos pelos Direitos Humanos) e hoje pesquisador da Harvard University’s Humanitarian Initiative (Iniciativa Humanitária da Universidade de Harvard), explica tudo isso nestes termos:
A tortura foi o primeiro crime. O segundo crime foi a pesquisa sem consentimento pra dizer que aquilo não era tortura.
__________________________________________
[*] Jon Queally é editor sênior e escritor; edita o sítio CommonDreams desde 2007 cobrindo política interna, externa, direitos humanos e de animais, alterações climáticas, e muito mais nos EUA. Além de seu papel como o editor de opinião, ele trabalha diariamente sobre a criação, seleção e gestão de conteúdo de notícias.
Facebook: https://www.facebook.com/jon.queally

sábado, 10 de agosto de 2013

Espionagem generalizada já ameaça todo um importante setor da economia dos EUA

9/7/2013, [*]  Jon Queally, Commondreams 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Silent Circle, empresa provedora de serviços de e-mail encriptados seguiu o movimento de sua concorrente Lavabit que, na 5ª-feira anunciou que decidia deixar de operar, depois de receber ordens do governo dos EUA para entregar dados privados e mensagens de e-mails de seus clientes – um dos quais se acredita que seja Edward Snowden.

Edward Snowden
Apoiadores da liberdade para a Internet e que lutam por proteger a privacidade dos usuários estão chocados, mas já manifestaram seu agradecimento pela ação que veem como uma empresa provedora de serviços seguros que opta por defender os direitos de seus clientes, mesmo que ao preço de ter de fechar a empresa, acossada pela violência, que consideram inconstitucional, do governo dos EUA.

A Agência Reuters noticiou:

[O fundador do provedor Lavabit disse que] decidiu “suspender as operações”, mas que está proibido de discutir os eventos das seis últimas semanas que levaram àquela decisão.

O período corresponde ao da divulgação de informações secretas, por Edward Snowden, consideradas fontes de matérias jornalísticas que explicam em detalhes as operações de espionagem eletrônica, pela Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Kurt Opsahl
Dada a força impressionante que o governo está mobilizando para obter e-mails e registros dos provedores de serviços, força que se aplica por meios legais e ilegais, é estimulante constatar que empresas provedoras optam por agir na direção de conter a capacidade de o governo invadir a privacidade dos usuários – disse num postado Kurt Opsahl, da Electronic Frontier Foundation.

Na 5ª-feira à tarde, Lavar Levinson, fundador do provedor Lavabit, distribuiu declaração em que explica por que o servidor será fechado:

Companheiros usuários,

Fui forçado a tomar uma difícil decisão: tornar-me cúmplice de crimes contra o povo dos EUA, ou encerrar quase dez anos de trabalho duro e fechar minha empresa Lavabit. Depois de muito pensar, atenta e profundamente, decidi suspender as operações. Gostaria de poder partilhar com vocês todos os eventos que me levaram a ter de decidir como decidi. Não posso. Entendo que vocês merecem saber o que está acontecendo – a Primeira Emenda deveria garantir-me o direito e a liberdade de falar sobre situações como a que estou vivendo. Infelizmente, o Congresso já aprovou leis que decidem de outro modo.

Na situação em que estão as coisas hoje, não posso partilhar as experiências pelas quais passei durante as últimas seis semanas, embora já por duas vezes tenha pedido autorização para fazê-lo, como ordena a lei.

O que acontecerá agora? Já começamos a preparar a papelada necessária para continuar a lutar a favor da Constituição dos EUA, numa Corte de Apelação. Decisão favorável dessa Corte de Justiça pode permitir-nos ressuscitar Lavabit como empresa norte-americana.

Essa experiência ensinou-me lição muito importante: se o Congresso não agir, ou se não se criar logo um forte precedente jurídico, recomendo MUITO SERIAMENTE que ninguém confie seus dados privados a nenhuma empresa que tenha qualquer tipo de laços com os EUA.

Atenciosamente,
Ladar Levison
Proprietário e Operador, Lavabit LLC
_________________

Spencer Ackerman
É raro ver um provedor de serviços de e-mail optar por fechar sua empresa e sair dos negócios, para não ceder no campo dos próprios valores – disse Opsahl. – Deve ter sido decisão duríssima para Ladar Levison, mas ele se manteve fiel ao próprio negócio, que oferecia sobretudo privacidade, acima até dos lucros. E também é decisão que afeta terrivelmente os usuários, alguns dos quais perderam um tipo de acesso a e-mail que já não encontrarão em lugar algum.

Como escreveu Spencer Ackerman, do The Guardian,

[Edward] Snowden seria usuário do provedor Lavabit. Uma mensagem de e-mail distribuída por esse provedor e que se acredita que tenha sido enviada por Snowden convidava vários jornalistas para uma conferência de imprensa, em meados de julho, no aeroporto Sheremetyevo em Moscou.

E Glenn Greenwald, também do The Guardian, escreveu:

Glenn Greenwald
O mais assustador, sobre o fechamento do provedor Lavabit que os proprietários acabam de anunciar é que a empresa está proibida por ordem judicial, até de discutir as ordens judiciais que recebeu, o processo judicial que está construindo para defender-se e os procedimentos judiciais a que foi submetida. Em outras palavras, o proprietário da empresa, cidadão norte-americano, entende que seus direitos constitucionais e os direitos constitucionais de seus clientes estão sendo violados pelo governo dos EUA, mas foi proibido de falar sobre isso.

A decisão que Levison tomou em relação à própria empresa foi imediatamente tomada também por outra empresa provedora de serviços protegidos, sua concorrente, Silent Circle, a qual, ontem, 6ª-feira, divulgou a seguinte nota a seus usuários:

Desenhamos nossos serviços de telefonia, vídeo e texto (Silent Phone e Silent Text) para que fossem completamente protegidos de ponta a ponta, com total criptografia para os clientes, de modo a que a exposição dos dados a nós confiados fosse nenhuma. A razão é óbvia – nada arquivamos, porque, quanto menos informação arquivarmos, melhor para vocês e para nós.

Silent Mail, por isso, foi uma espécie de guardião para nós todos. E-mails que usem os protocolos padrão de internet de modo algum oferecem as mesmas garantias de seguranças que as comunicações em tempo real. Há muitos pontos de vazamento de informação e de metadados intrínsecos nos próprios protocolos de e-mail. Mensagens de e-mails, como as conhecemos, com SMTP, POP3 e IMAP não são nem podem ser seguras.

Por isso, sempre tivemos muitos clientes interessados e usuários. Silent Mail oferece garantias semelhantes de segurança também oferecidas por outros sistemas de e-mail, e sempre entendemos que seria serviço útil e valioso.

Mas nos vemos obrigados a reconsiderar essa posição. Já pensávamos há algum tempo sobre isso, se seria boa ideia. Hoje, outro provedor de serviços seguros de e-mail, Lavabit, anunciou que está deixando de operar, “para não ser cúmplice de crimes contra o povo norte-americano.” 

Entendemos a mensagem e decidimos que o melhor para nós e fechar também nossa empresa Silent Mail, agora. Não fomos intimados, não recebemos mandados judiciais, mensagens ‘da segurança dos EUA’ nem nada semelhante, de nenhum governo. Por isso decidimos agir agora.

Já há semanas estávamos discutindo esse assunto, e as mudanças planejadas começarão na próxima 2ª-feira. Consideramos desligar o serviço, mantê-lo só para os atuais clientes e inúmeras outras possibilidades, até hoje. Melhor prevenir que remediar, e decidimos que, em matéria da segurança da empresa, a pior solução seria nada fazer.

Silent Phone e Silent Text, com a prima Silent Eyes são empresas que oferecem serviços seguros de ponta-a-ponta. Não temos dados encriptados e não arquivamos metadados das conversações dos clientes. Essas empresas continuarão como até agora. Ainda trabalhamos para encontrar vias inovadoras para efetivamente proteger as comunicações. 

Silent Mail foi excelente ideia quando surgiu. Mas aquele tempo passou.

Pedimos desculpas por qualquer transtorno ou inconveniência que venhamos a provocar, e esperamos que todos entendam que, se insistíssemos, as inconveniências poderiam vir a ser ainda mais inconvenientes.

David Meyer
David Meyer, blogueiro tech e especialista em alta tecnologia e negócios, manifestou afinal publicamente, o pensamento que está em todas as conversas, ante o que os jornais continuam a publicar: sugeriu que o programa de vigilância total do governo dos EUA terá impacto terrível sobre toda a economia digital nos EUA, com clientes preocupados com a própria privacidade, os quais afinal começam a ver que não há como resistir contra a ação das agências de espionagem dos EUA.

O fechamento de várias empresas sugere que serviços de provedores de e-mails seguros absolutamente não podem ser mantidos em território dos EUA, sem serem ameaçados de terem de trair a confiança dos clientes, em qualquer caso que lhes seja ordenado pela autoridades norte-americanasescreveu Meyer em Gigaom. 


Josh Constine
O movimento agitou os críticos que estão, cada vez mais, se fazendo ouvir sobre como os esforços de vigilância do governo dos EUA põem sob risco todos os negócios norte-americanos de alta tecnologia. As empresas já temem o movimento de fuga de clientes internacionais que tratarão de levar seus negócios para outros países, no esforço para escapar da vigilância da Agência de Segurança Nacional. Jennifer Granick, diretora de Liberdades Civis do Centro Stanford Center para Internet e Sociedade, escreveu que “o governo dos EUA, em seu frenesi de espionar tudo e todos, pode acabar por matar nossa indústria mais produtiva. Lavabit talvez seja só o canário, na mina de carvão”.

O que agora se vê é que o impacto negativo da ação de espionagem da Agência de Segurança Nacional, contra cidadãos e empresas norte-americanas, não se manifestará apenas na perda de clientes ou em empresas que fecharão suas operações, antes de serem intimadas a entregar dados que receberam em confiança, como parte do próprio negócio.

A destruição já começa a alcançar todo um vasto setor da economia dos EUA. Hoje, a última esperança que resta, para que os EUA reformem suas práticas de espionagem interna, é que o país se dê conta de que a espionagem ilimitada fere já, gravemente, a própria economia dos EUA.
__________________________

[*] Jon Queally é editor senior do sítio Common Dreams desde 2007. Cobre vários assuntos como Política interna e externa dos EUA, Direitos Humanos e dos Animais, Mudança Climática, e outros. É também editor de opinião e trabalha diariamente na criação, seleção e gerenciamento de novos conteúdos.
Twitter: @jonqueally

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quatro contradições no Novo Plano de Defesa de Obama


Spencer Ackerman

8/1/2012, Spencer Ackerman, Danger Room (Blog de Wired)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Ver também

Muitos dos pontos chaves do novo plano do presidente Obama para a próxima década, para a Defesa dos EUA são claros: mais espionagem, mais Forças Especiais, menos guerras em terra, e Ásia, Ásia, Ásia. Pense você o que você pensar dos méritos desses pontos, eles, pelo menos, têm consistência interna.

Outros pontos... nem tanto.

Às vezes, a análise da nova estratégia sugere uma decisão política, que a estratégia, de fato, contradiz. Às vezes, o plano volta a pontos controversos. Às vezes diz coisas que parecem razoáveis à primeira vista, mas, quanto mais se pensa, menos fazem sentido. Aqui, quatro das mais visíveis contradições na nova estratégia.

Os militares devem sair da Europa (mas não sairão) – A ideia geral é que o novo plano visa a construir “a força conjunta para 2020, uma força quantificada e modelada de modo diferente do que foram os militares da Guerra Fria” – como vociferou o secretário da Defesa, Leon Panetta, na 5ª-feira. Mas os EUA não podem simplesmente abandonar o campo de batalha primário da Guerra Fria: a Europa. De fato, o plano defende empenhadamente que o Exército traga os soldados de volta para casa. “Muitos países europeus são hoje mais produtores que consumidores de segurança”, lê-se no Plano, confiado no sucesso da OTAN na Líbia.

Mas o Pentágono não seguirá seu próprio conselho. O mais perto que o Pentágono chega disso é a promessa de que a estrutura da força dos EUA na Europa “evoluirá”. Perguntado se isso significaria que os EUA sairiam da Europa depois de 20 anos do colapso da URSS, Panetta respondeu: “Não apenas manteremos nossos compromissos lá, mas também manteremos o tipo de presença inovadora que acreditamos que deixará bem claro, para a Europa e para todos que foram nossos fortes aliados no passado, que continuamos comprometidos.” 

Tradução: talvez se faça outra operação barba-e-cabelo na força militar dos EUA que está na Europa há 70 anos, mas não passará muito disso. Ainda que a Europa esteja unida, segura, sem guerras, e que os reais interesses da segurança dos EUA estejam do outro lado do mundo.

“Contraguerrilha limitada” – Aspecto no qual concordam os críticos e os defensores da Contraguerrilha [ing.Counter Insurgency, COIN]: exige muito tempo, muito dinheiro e, sobretudo, muita gente. Não faz sentido algum, pois, na nova estratégia do Pentágono, dizer que os EUA continuarão preparados para “conduzir operações limitadas de contraguerrilha”. O que são “operações limitadas de contraguerrilha”? [e nada garante que não se esteja falando de “operações de contraguerrilha limitada” (NTs)]. 

Dando ao Pentágono o benefício de uma interpretação generosa, “operações limitadas de contraguerrilha” pode significar treinar militares de exércitos aliados para que façam, eles mesmo, a contraguerrilha contra seus próprios guerrilheiros. O nome certo, então, seria “força de assistência à segurança”, mas... OK. Em interpretação menos generosa, o que se vê é que o governo Obama tenta tirar o corpo da contraguerrilha, sem se expor a ser criticado por não ter aprendido as lições do Iraque e do Afeganistão. Seja como for, na conferência de imprensa da 5ª-feira, no Pentágono, os jornalistas que tentaram descobrir o que significaria, de fato, a “contraguerrilha limitada”, saíram de lá sem resposta clara. E vários, quanto mais discutíamos entre nós, menos entendíamos.

O Exército está sendo cortado (até a próxima “avançada” [orig. surge]) – Aí se tem mais uma operação de adoçar o amargo, que, propriamente, uma contradição. Mas uma das principais decisões, pelo novo Plano, é que os EUA passam a ter “menores forças convencionais em terra”, nas palavras do presidente Obama. (Panetta não falou em números, mas ouve-se falar de 480 mil soldados, o que significa corte de cerca de 100 mil, considerados os números atuais.) Nem bem o Pentágono anunciou o corte, porém, o Exército já acrescentava “quer dizer... por enquanto”.

Panetta prometeu que os cortes no Exército (e na Marinha) terão “reversibilidade”. Caso apareçam guerras em terra não previstas – como, por exemplo, as duas guerras pós 11/9, que o Exército não previa – o Exército poderá “avançar, regenerar-se e mobilizar-se... rapidamente”. Claro. É muito mais fácil iniciar o recrutamento de soldados do que, digamos, iniciar a construção de mais navios e mais aviões. Mas soa como se a equipe de Obama temesse mais as críticas por cortar o Exército, do que por não conseguir defender, com firmeza, esse aspecto central da nova estratégia.

Esse é o Novo Plano de Defesa do Pentágono, até que deixe de ser – Nem o objetivo da nova estratégia é claro, livre de contradições. A culpa é do Comandante do Estado Maior das Forças Conjuntas. Cabe a ele definir a linha geral dos militares de 2020, na explicação de  Panetta. Mas o general Martin Dempsey, comandante dos comandantes militares, acha que não: a estratégia é apenas “um roteiro” para “um processo contínuo de deliberação” para a construção dessa força futura.

Talvez seja conversa de caserna no exército de Dempsey, mas o general falou bem do documento: “Não é perfeito”, disse aos jornalistas, está aberto a críticas por cortar fundo demais no Exército ou por não oferecer orientação clara para que os EUA consigam enfrentar novas ameaças. “Mas pode-se dizer que está bom” – Dempsey concluiu – “por enquanto”.

Caso sobrevenham mudanças, os militares simplesmente “ajustarão” a estratégia, o que poderá ser feito anualmente, quando se discutir o orçamento, disse Dempsey. Talvez seja preciso mudar pouco; talvez seja preciso algo mais drástico. Afinal, a estratégia está corrigindo o plano de quatro anos, do Pentágono, passados apenas dois anos. O plano do Pentágono para o futuro está sendo construído para não durar.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O novo plano de Defesa de Obama: “Drones”, Operações Especiais e Ciberguerra


Spencer Ackerman

5/12/2012, Spencer Ackerman, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O presidente Obama anunciou hoje sua visão para o futuro militar dos EUA. Deem adeus às grandes guerras de contraguerrilha. Todos a postos para mais guerra clandestina, ataques de drones e combates online, com os militares de olhos postos no Pacífico, não mais no Afeganistão. 

Em rara visita ao Pentágono, o presidente Obama declarou que os EUA estarão “fortalecendo nossa presença no Pacífico Asiático” e “virando a página de uma década de guerra.” Na prática, significa cortar nos “sistemas retrógrados da Guerra Fria” (não especificou quais) e no Exército e na Marinha, como parte de amplo esforço para cortar o que o Pentágono calcula hoje em $487 bilhões em seu orçamento, ao longo de dez anos.

Obama discursa em sua visita ao Pentágono
Mas também significa que os EUA investirão pesado em outras especialidades militares, de agora até 2020. Obama identificou-as como “inteligência, vigilância, contraterrorismo, prevenção da construção e uso de armas de destruição em massa e a capacidade para operar em ambientes nos quais o inimigo tente nos negar acesso.”

Traduzido do jargão secreto da Defesa: toneladas de ferramentas de espionagem, inclusivedrones; forças letais para operações especiais; armas de ciberataque; ferramentas para despistar rastreamento e bloqueios (orig. jammers); e presença para deter e confrontar o Irã – talvez também a China, que insiste em manter a Marinha e a Força Aérea dos EUA bem longe de suas praias[1].

A coisa soa como versão requentada do projeto do Pentágono dez anos passados, e talvez seja isso mesmo. Os militares serão “menores e mais magros, mas igualmente ágeis, flexíveis e tecnologicamente avançados”, nos termos do recém-lançado documento do Pentágono, no qual se delineia a mudança de estratégia; e preservando “capacidades de ponta, explorando nossa vantagem tecnológica, ampla e unida em rede”. Em algum lugar, Donald Rumsfeld sorriu[2]. 

Mas o documento de fato não diz o que tudo isso realmente significa – por exemplo, que armas, navios, tanques, aviões e soldados estão com a cabeça sobre o cepo. Essa é a tarefa do orçamento da defesa para o próximo ano, que o Pentágono está finalizando e divulgará no início de fevereiro. Mas como o Blog “Danger Room” noticiou na 4ª-feira, a Força Aérea perderá 200 aviões e a Marinha dispensará cerca de 100 mil soldados, porque o Pentágono terá de cortar $450 bilhões do orçamento, em dez anos[3]. E o documento já divulgado pelo Pentágono também faz vaga referência a cortes no arsenal nuclear dos EUA.

As linhas de ataque da estratégia de defesa de Obama já estavam claras, antes até de a tinta secar. O Republicano Buck McKeon (R-Calif.), presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, chamou a coisa de “retirada do mundo”, marcada por “pesados cortes nas nossas forças militares”. E se a estratégia parece dieta para fazer o orçamento da defesa emagrecer $487 bilhões em dez anos, como está programado, o Pentágono perderá outros $600 bilhões, no mesmo período, que começa a contar ano que vem, a menos que o Congresso aprove acordo gigante para reduzir o déficit. Há tempo de sobra para que os militares consigam reverter o tal acordo. Mas o secretário de Defesa Leon Panetta já avisou que novos cortes “nos forçarão a cortar missões, compromissos e capacidades indispensáveis para proteger interesses vitais da segurança nacional”.

Ao longo do ano passado, o Pentágono discutiu modos para reafirmar a postura da defesa dos EUA – nem tanto porque quisesse, mas porque a iminência dos cortes obrigou o Pentágono a repensar o que fazer para defender o país por preço mais em conta. Críticos acusam o processo de ser retrógrado, estratégia movida a dinheiro, em vez de estratégia militar que orientasse o modo como o Pentágono gasta dinheiro. Afinal, na última vez que o Pentágono pensou sobre as próprias prioridades em muitos anos, a primeira resposta que apareceu foi “vencer as guerras de hoje” (.pdf[4]) Era fevereiro de 2010.

Pois a prioridade mudou. A nova estratégia “transiciona (sic) a empreitada de nossa Defesa, da ênfase nas guerras de hoje, para a preparação para desafios futuros” – diz o documento. Esses desafios “são inextricavelmente ligados aos desenvolvimentos no arco que se estende do Pacífico Ocidental e Leste da Ásia, até a região do Oceano Índico e sul da Ásia”. 

Mas o Pentágono não está pondo fim às “Guerras na Sombra” – ataques não declarados contra alvos terroristas, por drones e comandos clandestinos, no Paquistão, Iêmen, Somália e além. Mas, sutilmente, o Pentágono muda de objetivo. “No futuro que se pode antever”, diz o documento, os EUA caçarão terroristas – “monitorando atividades de ameaças que venham de entidades não estatais em todo o mundo, trabalhando com seus aliados e parceiros para estabelecer controle sobre territórios sem governo, atacando diretamente os grupos e indivíduos mais perigosos, quando necessário.”

Se isso significa alguma coisa, significa mandar a espionagem global, antes das missões para capturar e matar terroristas. Essas missões sempre exigiram inteligência, mas tudo faz pensar em programas de vigilância e espionagem de longo alcance, como os clusters de vigilância da Força Aérea do tipo “Gorgon Stare”, e a espionagem militar massiva parece estar crescendo em importância.

Nem os EUA estão dizendo que estão caindo fora do Oriente Médio. “A segurança do Golfo” será enfatizada – o que é o mesmo que dizer que a nova prioridade dos militares é conter o Irã. O que por sua vez exige “priorizar” a “presença” dos EUA e forças aliadas “na e em torno da região”. Tradução: a Força Aérea manterá a base-gigante em Al-Udeid no Qatar; e a V Frota da Marinha continuará a patrulhar o Golfo.

Mas a guerra de contraguerrilha, foco da ação do Exército dos EUA na última década, nem por isso será abolida. Oficialmente, é a nona entrada na lista de prioridades da Defesa. E mesmo aí, o documento fala, no máximo, sobre “guerra limitada de contraguerrilha”, e sabe-se lá o que isso significa, porque “as forças dos EUA não mais serão planejadas para operações de larga escala, prolongada, de estabilização”. 

Apesar de os militares estarem-se mudando para o Pacífico – o que significa mais trabalho para Marinha e Força Aérea – além de espionagem com drones; forças letais para operações especiais; despistamento e bloqueios cyber e ataques cirúrgicos, o general Martin Dempsey, chefe do Comando do Estado-maior, não quer que se esqueça o Exército. Dempsey lembrou que “o documento não diz, em lugar algum, que nunca mais combateremos guerras no solo”.



Notas dos tradutores




[4]  “Quadrennial Defense Review Report (February 2010)