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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Internet, o novo “front” da resistência palestina


As páginas da bolsa de valores e do governo de Israel foram os alvos
18/01/2012

Baby Siqueira Abrão - Correspondente no Oriente Médio

Eram 10 horas da manhã de segunda-feira, 16 de janeiro, quando dois portais importantes de Israel saíram do ar: o da bolsa de valores de Tel Aviv (Tel Aviv Stock Exchange, TASE) funcionava apenas parcialmente, antes de fechar de vez, e o da companhia aérea El Al, israelense, estava inacessível. Não foi por falta de aviso. No domingo, um grupo de hackers autodenominado “Pesadelo” ameaçou atacar ambos os portais. Dito e feito.

Um porta-voz da bolsa de valores israelense declarou que as operações financeiras não foram afetadas, uma vez que não estão conectadas ao portal. Já a El Al disse que esse tipo de ataque “já era esperado” e anunciou a tomada de medidas de segurança nas operações do site, segundo informou o jornalista Oded Yaron, do diário israelense Haaretz.

O ataque ocorre um dia depois de o Hamas, partido palestino que governa Gaza, parabenizar os piratas que andam invadindo sites israelenses e incentivar a prática. Em comunicado oficial, o porta-voz Sami Abu Zuhri declarou, numa coletiva de imprensa na faixa costeira palestina, que as invasões são “a abertura de um novo campo de resistência, a eletrônica, e o início de uma guerra virtual contra a ocupação que Israel impõe à Palestina”.

Zuhri fez um apelo “aos povos palestino e árabe para que continuem com a guerra eletrônica, buscando maneiras de estimulá-la e desenvolvê-la”.

O comunicado foi feito três dias depois de um grupo de ativistas de Gaza ter conseguido entrar no sistema eletrônico do serviço de resgate e combate ao fogo de Israel. Eles substituíram a página oficial por uma foto de Danny Ayalon, vice-ministro israelense das Relações Exteriores, cobriram seu rosto com pegadas e acrescentaram a frase “Morte a Israel”.

Depois que o grupo Anonymous invadiu o site do exército israelense, no final de 2011 – notícia pouco divulgada e não confirmada por fontes oficiais, que alegaram “problemas técnicos” para justificar o fato de o portal ter saído do ar – outros hackers parecem ter se animado com a ideia. Desde o início de 2012, sites de bancos e instituições financeiras de Israel vêm sendo visitados por piratas eletrônicos que se identificam como moradores de países árabes.

No início do ano, hackers autodenominados Group XP invadiram um portal israelense de venda de produtos esportivos, capturando e divulgando os dados dos cartões de crédito de milhares de clientes. Nome, endereço, telefone e número da carteira de identidade dos titulares dos cartões foram publicados na internet, em dias intercalados, por dois hackers, que usam o codinome “Ox-Omar” e “X”, declaram-se sauditas e garantem ter informações pessoais de 1 milhão de usuários de cartões de crédito em Israel.

Enquanto bancos e operadoras procuravam minimizar o problema e suspender as operações com os cartões pirateados, o vice-ministro Danny Ayalon vinha a público dizer que os ataques constituíam “uma violação à soberania israelense”, que eram comparáveis a “atos terroristas” e que seriam tratados como tais.

A resposta veio de imediato: o Group XP tirou do ar a página eletrônica do vice-ministro e prometeu intensificar a ciberguerra contra Israel, “pelos crimes cometidos contra o povo palestino”. Os hackers X e Ox-Omar desafiaram Ayalon em público: “Vocês nunca vão nos encontrar”.

Danny Ayalon é o segundo homem do ministério comandado por Avigdor Lieberman, um dos líderes da extrema-direita israelense e fundador do partido ultranacionalista Yisrael Beitenu. Lieberman, cuja posição contra a constituição do Estado da Palestina é bem conhecida, mora numa colônia ilegal construída por Israel em terras confiscadas ao povo palestino.

E a força-tarefa?

Os ataques tornam patente uma verdade que o governo israelense não quer assumir: a força-tarefa contra ciberataques, anunciada em maio de 2011 pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e que devia ter começado a operar na primeira semana de 2012, não existe. Oficialmente, o governo declara que cuidar de cartões de crédito e de interesses privados não é o objetivo do grupo, e que Eviatar Matanya, o diretor de operações, já iniciou o trabalho de “criar e estruturar” a força-tarefa. Mas recusa-se, “por razões de segurança”, a revelar a verba destinada a estruturá-la.

Na verdade, de acordo com uma fonte não oficial ligada às forças de segurança israelenses, essa verba também não existe. A força-tarefa não conta com “verba, pessoal, jurisdição nem com seu diretor de operações predileto [o general da reserva Yair Cohen, ex-chefe da central militar de inteligência], que se recusou a aceitar o posto ao saber que não teria recursos para o trabalho”, escreveu Anshel Pfeffer, jornalista do Haaretz, em 4 de janeiro, dia em que o grupo deveria ter iniciado suas atividades.

No lançamento do programa, há oito meses, Netanyhau declarou, numa entrevista coletiva à mídia, que aceitara as recomendações de uma equipe de oito especialistas, capitaneados pelo general da reserva Isaac Ben-Israel, para formar um grupo de defesa contra ciberataques “que podem paralisar os sistemas que mantêm o país em funcionamento. Eletricidade, cartões de crédito, água, transportes, semáforos, tudo é computadorizado e, portanto, suscetível a ataques”. Repare o leitor que o primeiro-ministro incluiu os cartões de crédito na relação de sistemas a receber atenção da força-tarefa.

A mesma fonte não oficial afirma que, embora a necessidade da criação do cibergrupo exista, “há órgãos que não desejam ajudá-lo, e ninguém realmente apoiou o projeto ou se esforçou para viabilizá-lo”.

O pessoal do exército treinado para lidar com o cibermundo dedica-se somente à inteligência militar. “A segurança das redes de infraestrutura vital, como eletricidade e água, está nas mãos da Autoridade Nacional de Informação em Segurança [NISA], uma unidade do Shin Bet”, informa Pfeffer. “O Conselho Nacional de Segurança decide quais sistemas de companhias civis devem ser protegidos pela NISA, mas como algumas delas, incluindo bancos, operadoras de telefone celular e de internet se opõem a isso, a legislação concernente à segurança dessas empresas foi posta de lado.”

Enviado por Baby Siqueira Abrão - direto de Ramallah (Palestina roubada)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O novo plano de Defesa de Obama: “Drones”, Operações Especiais e Ciberguerra


Spencer Ackerman

5/12/2012, Spencer Ackerman, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O presidente Obama anunciou hoje sua visão para o futuro militar dos EUA. Deem adeus às grandes guerras de contraguerrilha. Todos a postos para mais guerra clandestina, ataques de drones e combates online, com os militares de olhos postos no Pacífico, não mais no Afeganistão. 

Em rara visita ao Pentágono, o presidente Obama declarou que os EUA estarão “fortalecendo nossa presença no Pacífico Asiático” e “virando a página de uma década de guerra.” Na prática, significa cortar nos “sistemas retrógrados da Guerra Fria” (não especificou quais) e no Exército e na Marinha, como parte de amplo esforço para cortar o que o Pentágono calcula hoje em $487 bilhões em seu orçamento, ao longo de dez anos.

Obama discursa em sua visita ao Pentágono
Mas também significa que os EUA investirão pesado em outras especialidades militares, de agora até 2020. Obama identificou-as como “inteligência, vigilância, contraterrorismo, prevenção da construção e uso de armas de destruição em massa e a capacidade para operar em ambientes nos quais o inimigo tente nos negar acesso.”

Traduzido do jargão secreto da Defesa: toneladas de ferramentas de espionagem, inclusivedrones; forças letais para operações especiais; armas de ciberataque; ferramentas para despistar rastreamento e bloqueios (orig. jammers); e presença para deter e confrontar o Irã – talvez também a China, que insiste em manter a Marinha e a Força Aérea dos EUA bem longe de suas praias[1].

A coisa soa como versão requentada do projeto do Pentágono dez anos passados, e talvez seja isso mesmo. Os militares serão “menores e mais magros, mas igualmente ágeis, flexíveis e tecnologicamente avançados”, nos termos do recém-lançado documento do Pentágono, no qual se delineia a mudança de estratégia; e preservando “capacidades de ponta, explorando nossa vantagem tecnológica, ampla e unida em rede”. Em algum lugar, Donald Rumsfeld sorriu[2]. 

Mas o documento de fato não diz o que tudo isso realmente significa – por exemplo, que armas, navios, tanques, aviões e soldados estão com a cabeça sobre o cepo. Essa é a tarefa do orçamento da defesa para o próximo ano, que o Pentágono está finalizando e divulgará no início de fevereiro. Mas como o Blog “Danger Room” noticiou na 4ª-feira, a Força Aérea perderá 200 aviões e a Marinha dispensará cerca de 100 mil soldados, porque o Pentágono terá de cortar $450 bilhões do orçamento, em dez anos[3]. E o documento já divulgado pelo Pentágono também faz vaga referência a cortes no arsenal nuclear dos EUA.

As linhas de ataque da estratégia de defesa de Obama já estavam claras, antes até de a tinta secar. O Republicano Buck McKeon (R-Calif.), presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, chamou a coisa de “retirada do mundo”, marcada por “pesados cortes nas nossas forças militares”. E se a estratégia parece dieta para fazer o orçamento da defesa emagrecer $487 bilhões em dez anos, como está programado, o Pentágono perderá outros $600 bilhões, no mesmo período, que começa a contar ano que vem, a menos que o Congresso aprove acordo gigante para reduzir o déficit. Há tempo de sobra para que os militares consigam reverter o tal acordo. Mas o secretário de Defesa Leon Panetta já avisou que novos cortes “nos forçarão a cortar missões, compromissos e capacidades indispensáveis para proteger interesses vitais da segurança nacional”.

Ao longo do ano passado, o Pentágono discutiu modos para reafirmar a postura da defesa dos EUA – nem tanto porque quisesse, mas porque a iminência dos cortes obrigou o Pentágono a repensar o que fazer para defender o país por preço mais em conta. Críticos acusam o processo de ser retrógrado, estratégia movida a dinheiro, em vez de estratégia militar que orientasse o modo como o Pentágono gasta dinheiro. Afinal, na última vez que o Pentágono pensou sobre as próprias prioridades em muitos anos, a primeira resposta que apareceu foi “vencer as guerras de hoje” (.pdf[4]) Era fevereiro de 2010.

Pois a prioridade mudou. A nova estratégia “transiciona (sic) a empreitada de nossa Defesa, da ênfase nas guerras de hoje, para a preparação para desafios futuros” – diz o documento. Esses desafios “são inextricavelmente ligados aos desenvolvimentos no arco que se estende do Pacífico Ocidental e Leste da Ásia, até a região do Oceano Índico e sul da Ásia”. 

Mas o Pentágono não está pondo fim às “Guerras na Sombra” – ataques não declarados contra alvos terroristas, por drones e comandos clandestinos, no Paquistão, Iêmen, Somália e além. Mas, sutilmente, o Pentágono muda de objetivo. “No futuro que se pode antever”, diz o documento, os EUA caçarão terroristas – “monitorando atividades de ameaças que venham de entidades não estatais em todo o mundo, trabalhando com seus aliados e parceiros para estabelecer controle sobre territórios sem governo, atacando diretamente os grupos e indivíduos mais perigosos, quando necessário.”

Se isso significa alguma coisa, significa mandar a espionagem global, antes das missões para capturar e matar terroristas. Essas missões sempre exigiram inteligência, mas tudo faz pensar em programas de vigilância e espionagem de longo alcance, como os clusters de vigilância da Força Aérea do tipo “Gorgon Stare”, e a espionagem militar massiva parece estar crescendo em importância.

Nem os EUA estão dizendo que estão caindo fora do Oriente Médio. “A segurança do Golfo” será enfatizada – o que é o mesmo que dizer que a nova prioridade dos militares é conter o Irã. O que por sua vez exige “priorizar” a “presença” dos EUA e forças aliadas “na e em torno da região”. Tradução: a Força Aérea manterá a base-gigante em Al-Udeid no Qatar; e a V Frota da Marinha continuará a patrulhar o Golfo.

Mas a guerra de contraguerrilha, foco da ação do Exército dos EUA na última década, nem por isso será abolida. Oficialmente, é a nona entrada na lista de prioridades da Defesa. E mesmo aí, o documento fala, no máximo, sobre “guerra limitada de contraguerrilha”, e sabe-se lá o que isso significa, porque “as forças dos EUA não mais serão planejadas para operações de larga escala, prolongada, de estabilização”. 

Apesar de os militares estarem-se mudando para o Pacífico – o que significa mais trabalho para Marinha e Força Aérea – além de espionagem com drones; forças letais para operações especiais; despistamento e bloqueios cyber e ataques cirúrgicos, o general Martin Dempsey, chefe do Comando do Estado-maior, não quer que se esqueça o Exército. Dempsey lembrou que “o documento não diz, em lugar algum, que nunca mais combateremos guerras no solo”.



Notas dos tradutores




[4]  “Quadrennial Defense Review Report (February 2010)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A guerra do capital contra a WikiLeaks

Poderá o fenômeno da fuga de informação sustentar o assalto contínuo feito pelo setor empresarial para triunfar na primeira ciber-guerra de sempre?

Por Mark LeVine, Al Jazira
Artigo | 12 Janeiro, 2011 - 16:30
  
Quando o banqueiro suíço nos atira ao mar, sabe-se que se fez alguns inimigos muito poderosos.

Afamado desde há muito por ocultar dinheiro para toda o mundo desde os nazis e barões da droga aos espiões e ditadores, o ramo bancário do governo suíço decidiu que a WikiLeaks e Julian Assange eram realmente demasiado quentes de pegar mesmo para ele.

Cyberwar
E, assim, o PostFinance, que dirige os bancos do país, declarou no início de Dezembro que tinha “terminado a sua relação comercial com o fundador da WikiLeaks, Julian Paul Assange” depois de acusar o Sr. Assange de – falta de ar! – fornecer informação falsa sobre o seu lugar de residência.

Esta jogada seguiu-se a jogadas semelhantes das companhias de cartões de crédito MasterCard e Visa, bem como da PayPal e da Amazon.com, de deixarem de processar pagamentos à WikiLeaks e, no caso da Amazon.com, de deixarem de alojar os seus dados.

No momento em que escrevo isto, o Bank of America juntou-se à onda crescente de corporações que fazem da WikiLeaks alvo, recusando continuar a processar-lhe pagamentos por causa "da crença razoável de que a WikiLeaks pode estar comprometida com actividades que são, entre outras coisas, inconsistentes com a nossa política interna de processamento de pagamentos".
E pouco depois a própria Apple se juntou ao coro, pondo um ponto final a uma aplicação WikiLeaks dias depois apenas de ter posta à venda no seu Sítio Web iTunes. Todos os sectores da economia corporativa, parece, estão a lançar-se na perseguição à WikiLeaks.

Concentrando-se no “neocorporativismo”

Os agentes da CIA, os patrões da máfia e outros clientes bancários suíços desse tipo, os quais foram provavelmente bem menos francos nas suas representações pessoais do que Assange alegadamente é, ter-se-iam também preocupado com a lealdade e a discrição dos seus banqueiros suíços?

Provavelmente não. É que os criminosos do mundo, os autocratas e os espiões fazem bem parte do sistema econômico político global, mesmo se às vezes estão em lados opostos.

Mas a WikiLeaks opera também fora do sistema, procurando ao estilo “Matrix” usar a tecnologia – a Internet – para o “destruir”, metendo o nariz e trazendo ao escrutínio público, expondo as conspirações constantes dos poderosos contra o resto da sociedade.

Esta tarefa, argumenta Assange, é a maneira mais importante de ajudar a libertar milhões de vítimas do sistema muitas vezes cúmplices – ainda que não propriamente de boa vontade – e, ao fazê-lo, “mudar ou anular... o comportamento do governo e dos neocorporativistas”.

Como teórico político, Assange deixa um pouco a desejar. O “Neocorporativismo” descreve um sistema no qual capital e trabalho se enredam numa relação integrada mas, ao fim e ao cabo, dependente dum aparelho de estado poderoso e autónomo – uma atualização da relação triangular que permitiu o crescimento econômico e os ganhos sem precedentes para a classe trabalhadora no Ocidente nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial.

Ideologicamente, esta espécie de relação de trabalho de proximidade entre governo, grandes empresas e trabalho organizado é a antítese do sistema neoliberal que a WikiLeaks procura combater.

Mas Assange tem razão em que há algo “neo”, se não exactamente novo, na maneira como o setor corporativo está se comportando hoje e na sua relação com o governo. Repousa em abraçar – ou melhor, voltar a abraçar – o capitalismo financeiro, o império militarista e o complexo industrial militar que o sustenta.

Alimentando-se ora de consumidores inconscientes no meio da América, ora de revoltosos suspeitos no Oriente Médio, estes são dois dos setores mais secretos da economia americana. Dependem de o público saber tão pouco quanto possível sobre os seus feitos mais esconsos para garantir a maior liberdade de ação, os maiores poder e lucros possíveis.

O poder do segredo

O abandono de Assange pelo sistema bancário suíço e pelos seus primos corporativos americanos não é portanto surpreendente. Poucos sectores econômicos usaram o segredo e a falta de clareza mais eficazmente do que a banca, os serviços financeiros e as empresas de cartões de crédito.

De fato, as suas práticas de negócios secretas são centrais para a sua capacidade constante de esgadanhar lucros enormes à custa dos americanos trabalhadores e de classe média através da monopolização dos sistemas comerciais, da cobrança de taxas de juros e comissões usurárias, e entregando-se a outras práticas que fariam corar até o mais insensível tubarão solitário.

Se a grande contratualização entre trabalhadores, capitalistas e governos permitiu que as duas primeiras gerações do pós-segunda-guerra-mundial saíssem do limbo diretamente para a classe média, este caminho foi irremediavelmente danificado nos anos 80, quando a direita neoliberal subiu ao poder pela primeira vez.

À medida que os Estados Unidos entraram na sua longa e dolorosa era de desindustrialização a política externa americana tornou-se mais agressivamente militarista; e assim juntar-se aos militares contra a GM ou a Ford tornou-se uma das poucas vias para garantir qualquer espécie do futuro económico estável (desde que se ficasse no exército).

Sem surpresa, os lucros do setor financeiro ultrapassaram os do setor industrial no início dos anos 90 e não caíram desde então. Mas esses lucros e o crescimento econômico que geraram confiaram desmesuradamente na dívida do governo e dos consumidores e num esvaziamento do sector industrial, o que no seu conjunto ajudou a tornar os EUA "o doente do globo", como disse um economista corporativo sénior.

Pelo seu lado, a GM, a Ford e a Chrysler focaram simultaneamente a maior parte das suas energias na produção de esponjas-de-combustíveis comparativamente lucrativas como os veículos todo-o-terreno, enquanto estabeleciam ramos de serviços financeiros que rapidamente ficaram responsáveis por uma parte substancial dos seus lucros (em alguns anos mais de 90 por cento dos lucros são conseguidos assim).

As suas práticas de empréstimo, vale a pena notar, incluem aquele tipo de empréstimos à habitação “mentirosos”, atribuídos com pouca preocupação quanto à capacidade dos tomadores de empréstimo de os pagar e que precipitaram a crise econômica global de 2007 até hoje.

Financeirização e história

Nenhuma dessas práticas teria resistido à luz do escrutínio público, e foi apenas a corporatização – em boa medida a financeirização – da política americana que permitiu que eles florescessem nos últimos trinta anos. Poucas empresas ameaçam tanto aquele segredo como a WikiLeaks e o seu foco tipo laser numa abertura, razão pela qual as suas ações são examinadas em Washington como “atingindo o próprio coração da economia global”.

A “financeirização” da economia representa a dominação crescente da economia no seu conjunto pelas indústrias financeiras, assumindo “o papel econômico, cultural e político dominante numa economia nacional”.

Crucialmente, este processo não é único nos Estados Unidos; também aconteceu a impérios anteriores, como os impérios dos Habsburgo, holandês e britânico, precisamente nas eras em que eles perderam a sua posição global dominante. Em todos os casos, o financeirismo e o militarismo andaram de mãos dadas, como apontou em primeiro lugar o famoso livro de 1902 do historiador britânico John Hobson “Imperialism: A Study”.

Nele Hobson argumentou que a monopolização do setor financeiro criou uma nova oligarquia que uniu os grandes bancos e as firmas industriais juntamente com os “promotores da guerra e especuladores” que encorajaram o imperialismo a garantir mercados para os produtos excedentes das corporações.

A elevação da América à dominação global veio depois do fim da era imperial e, portanto, não pôde conquistar descaradamente território para criar novos mercados. Mas no momento da sua elevação, os decisores políticos apelaram ao governo para que usasse elevadas despesas militares para garantir um crescimento econômico geral robusto.

Isto coincidiu com a expansão rápida do crédito facilmente obtível, criando dois “buracos negros gigantescos” (nas palavras dos economistas israelitas Shimshon Bichler e Jonathan Nitzan) cujo potencial de expansão foi limitado apenas pela disponibilidade dos cidadãos para apoiar a política que lhes deu aquelas oportunidades, apesar do dano a longo prazo ao bem-estar económico e político das suas sociedades.

Durante os trinta primeiros anos da era da Guerra Fria a propensão para o militarismo foi equilibrada por uma economia de fabricação robusta e pela relação tripartida governo-trabalho-empresas que a garantiu.

Isto começou a mudar nos anos 70 quando a guerra enormemente cara e lucrativa do Vietnã começou a abrandar.

Como Nitzan e Bichler descrevem no seu livro extremamente importante “The Global Political Economy of Israel”, começou neste período a “haver uma convergência crescente de interesses entre as principais corporações do petróleo e de armamento do mundo. O politização do petróleo, a par da comercialização das exportações de armas, ajudou a formar uma difícil coligação armamentodólar-petrodólar entre estas companhias”.

O mais crucial na análise de Nitzan e Bichler é que uma das formas mais importantes para as indústrias do armamento e do petróleo conseguirem ganhar um desproporcional nível de lucros (“diferencial” como eles o descrevem) foi através da erupção regular de conflitos energéticos no Médio Oriente, que asseguraram tanto preços altos relativos de petróleo como compra de armas.

McDonald's e McDonnell Douglas

À medida que este processo se desenvolveu, os autores explicam que “as linhas que separam o estado do capital, a política externa da estratégia corporativa e a conquista territorial do lucro diferencial, já não parecem muito sólidas”.

O colunista do New York Times Thomas Friedman, diz de forma mais colorida: “a mão oculta do mercado nunca funcionará sem o punho oculto. A McDonald's não pode florescer sem McDonnell Douglas – e o punho oculto que mantém o mundo seguro para as tecnologias de Silicon Valley florescerem chama-se Exército, Força Aérea, Marinha, e Corpo de Marines dos Estados Unidos”.

Isto é o “neocorporativismo” em que Assange e os seus camaradas da WikiLeaks se concentraram, embora hoje, mais de uma década depois de Friedman ter escrito as palavras acima mencionadas, o Master Card seja mais relevante do que a McDonald's.

O problema é que a WikiLeaks não pode, sozinha, virar o jogo neste conflito.

Assange bem poderia ser “um terrorista de alta tecnologia”, como o Vice-Presidente dos Estados Unidos Joseph Biden recentemente lhe chamou, dado o terror com que as suas ações atingiram o coração do sistema político americano.

Mas os EUA são, no fim de contas, um só num grupo de países e corporações poderosos cujos líderes partilham um compromisso fundamental em garantir para eles mesmos tanto lucro e poder quanto possível, por muito que os seus métodos e a política se diferenciem.

De fato, um olhar sóbrio sobre os dados relevantes revela que a quota dos lucros dos setores financeiros fora dos EUA foi quase sempre significativamente mais alta do que nos EUA, o que significa que o resto do mundo está há muito tempo mais “financeirizado” do que a economia dos Estados Unidos.

Como sempre, o capitalismo e poder nunca estiveram tão convenientemente centrados num país ou região como as pessoas imaginam.

Para ter realmente impacto, a WikiLeaks tem de inspirar uma geração inteira de pessoas que produzam fugas de informação noutros países e culturas, que estejam igualmente dispostos a arriscar a sua liberdade, tal como Assange e outra gente por trás da WikiLeaks. A cultura das fugas de informação começou a ganhar raízes, contudo só o tempo dirá se resiste às forças que agem contra o seu desenvolvimento.

Se tal não acontecer – se os seus inimigos corporativos e políticos conseguirem fazer de Assange e dos seus camaradas um exemplo que assuste os que poderiam ser inspirados por ele – o Capital ganhará provavelmente a primeira “ciber-guerra” do mundo, da mesma forma que ganhou a maior parte das guerras antes dela durante a história longa, sangrenta e inimaginavelmente lucrativa da modernidade.

Mark Levine é músico profissional e professor de História do Médio Oriente na Universidade da Califórnia, Irvine. É autor de meia dúzia de livros, incluindo “Heavy Metal Islam: Rock, Religion and the Struggle for the Soul of Islam” (no prelo, Random House/Verso, CD análogo a ser lançado por MI Records).
As visões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a política editorial da Al Jazira.
Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

Extraído do Esquerda.net

sábado, 1 de janeiro de 2011

A Ciber-guerra da Wikileaks

A ciberguerra começou. Não uma ciberguerra entre Estados como se esperava, mas sim entre Estados e a sociedade civil internauta. Nunca mais os governos poderão ter a certeza de manter os seus cidadãos na ignorância das suas manobras.
Por Manuel Castells

ARTIGO | 1 JANEIRO, 2011 - 15:52

 Como documentei no meu livro “Comunicação e Poder”, o poder reside no controlo da comunicação. A reação histérica dos EUA e outros governos contra o WikiLeaks confirma-o. Entramos numa nova fase da comunicação política. Não tanto por se revelar segredos ou fofocas, mas porque se difundem por um meio que escapa ao aparelho do poder. A fuga de confidências é a fonte do jornalismo de investigação com que sonha qualquer meio de comunicação em busca de novidades (scoops no original). Desde Bob Woodward e o seu “Garganta Funda” no Washington Post até às campanhas de Pedro J. na política espanhola, a difusão de informação supostamente secreta é prática habitual protegida pela liberdade de imprensa.

A diferença é que os meios de comunicação estão inseridos num contexto empresarial e político susceptível a pressões quando as informações são comprometedoras. Daí que a discussão acadêmica sobre se a comunicação pela Internet é um meio de comunicação, tem consequências práticas. Se o é (algo estabelecido na investigação) está protegida pelo princípio constitucional da liberdade de expressão, e os meios e os jornalistas deveriam defender o WikiLeaks porque um dia pode tocar-lhes a eles. E ninguém questiona a autenticidade dos documentos filtrados. De fato, jornais mundiais importantes estão a publicar e comentar esses documentos para regozijo e educação dos cidadãos que recebem um curso acelerado sobre as misérias da política nos corredores do poder (pois, por que é que Zapatero está tão preocupado?).

O problema, diz-se, é a revelação de comunicações secretas que poderiam dificultas as relações entre Estados (aquilo sobre o perigo para as vidas humanas é uma patranha). Na realidade, deveria medir-se esse risco em relação à ocultação da verdade sobre as guerras aos cidadãos que as pagam e sofrem. Em qualquer caso, ninguém duvida de que se essas informações chegaram aos meios de comunicação, estes também as quiseram publicar (outra coisa é poder). Mais, uma vez difundidas na rede, estão publicadas. O que põe em causa é a o controlo dos governos direta ou indiretamente. Uma questão tão fundamental, que motivou uma reação sem precedentes nos EUA, com apelos ao assassinato de Assange por líderes republicanos e até colunistas do Washington Post, e um alarme mundial generalizado desde Chávez até Berlusconi, com a honrosa exceção de Lula e a reação significativa de Putin.

A esta cruzada para matar o mensageiro uniu-se a justiça sueca numa história rocambolesca na qual o pseudo feminismo se aliou à repressão geopolítica. Acontece que as relações suecas de Julian Assange (alguém investiga a sua ligação aos serviços secretos?) denunciaram-nos porque em pleno ato (consentido) o preservativo rompeu-se, ela disse que não queria continuar e Assange não pode ou não quis interromper o coito e isto, segundo a lei sueca, poderia ser violação. O que não impediu que a violada organizasse, no dia seguinte, uma festa de despedida para Assange. Perante tamanho ato de terrorismo sexual, a Interpol emitiu o mandato de detenção europeu com o máximo nível de alerta, desmentindo que fosse por pressão dos EUA. E quando Assange se entregou em Londres, o juiz não aceitou o pagamento de fiança, talvez para enviá-lo para os EUA via Suécia.

Com o mensageiro sob rédeas, há que ir pela mensagem. Aqui começam as pressões que motivam a PayPal, a Visa, a Mastercard e o banco suíço do WikiLeaks a fechar o cerco, que eliminam o domínio virtual e que a Amazon retire o servidor (o que não a impede de vender o conjunto completo dos documentos por 7 dólares). A contra ofensiva internauticaa não se fez esperar. Os ataques de serviços secretos contra ao site do WikiLeaks fracassaram porque os servidores espelho proliferaram, ou seja, cópias imediatas dos sites existentes, mas com outro endereço. Por esta altura, existem mais de mil em funcionamento (se quiser ver a lista, pesquise no Google “WikiLeaks.mirror”). Em represália à tentativa de silenciar o WikiLeaks, Anonymous, uma conhecida rede hacker, coordenou os ataques contra as empresas e instituições que o fizeram. Milhares de anônimos juntaram-se à festa utilizando o Facebook e o Twitter, ainda que com crescentes restrições. Os amigos do WikiLeaks no Facebook ultrapassaram o milhão e aumentam em uma pessoa por segundo. O WikiLeaks distribuiu a 100 mil usuários um documento encriptado com segredos falsamente mais perigosos para os poderosos cuja chave se difundiria se a perseguição se intensificar.

A segurança dos Estados não está em jogo (nada do que foi revelado coloca um perigo à paz mundial nem era ignorado nos círculos do poder). O que se debate é o direito de o cidadão saber o que fazem e pensam os seus governantes. E a liberdade de informação nas novas condições da era da Internet. Como dizia Hillary Clinton na sua declaração em Janeiro de 2010: “A Internet é a infra-estrutura icônica da nossa era... Como ocorria nas ditaduras do passado, existem governos que apontam contra os que pensam de forma independente utilizando estes instrumentos”. Esta mesma reflexão aplica-se agora?

O tema chave está em que os governos podem espiar, legal ou ilegalmente, os seus cidadãos. Mas estes não têm direitos à informação sobre quem atua em seu nome, excetuando a versão mais censurada que os governos constroem. Neste grande debate, as empresas da Internet auto proclamadas plataformas de livre comunicação e os médios tradicionais tão ciosos da sua própria liberdade, vão contradizer-se. A ciberguerra começou. Não uma ciberguerra entre Estados como se esperava, mas sim entre Estados e a sociedade civil internáutica. Nunca mais os governos poderão ter a certeza de manter os seus cidadãos na ignorância das suas manobras. Embora haja pessoas dispostas a fazer leaks numa Internet povoada de wikis, surgirão novas gerações de wikileaks.

Publicado originalmente - en español - no La Vanguardia
Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

EUA: O espelho cego do Estado de Controle

20/12/2010, Glenn Greenwald, Salon
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
  
Uma das marcas registradas dos governos autoritários é a obsessão por ocultar todos os seus atos atrás de barreiras de sigilo e, ao mesmo tempo, monitorar, vigiar, controlar, invadir e preparar ‘dossiês’ sobre tudo que os cidadãos façam. Baseado no aforismo de Francis Bacon segundo o qual “conhecimento é poder”, é esse total desequilíbrio que dá à classe dominante a sensação de onipotência e aos cidadãos a sensação de impotência.

Hoje, no Washington Post, Dana Priest e William Arkin continuam a série Top Secret America, em que descrevem o gigantesco e sempre crescente Estado de Controle dos EUA que hoje já inclui agências estaduais e locais para pesquisar e armazenar quantidades sempre crescentes de informações sobre as mais inocentes atividades praticadas por cidadãos pressupostos ‘perigosos’. Como nos primeiros capítulos da matéria, também agora não há revelações nem qualquer verdadeira novidade para os que prestem atenção a esses temas, mas o quadro pintado – e o fato de aparecer publicado por jornal do establishment, como o Washington Post – sim, é informação que tem algum valor.

Hoje, os jornalistas do Post mostram como os métodos de controle e repressão dos quais os EUA são pioneiros em suas guerras e ocupações em terra estrangeira estão sendo rapidamente incorporados pela vigilância doméstica (scanners de impressões digitais, câmeras sensíveis a infravermelho de uso militar,scanners biométricos de rosto, aviões-robôs além fronteiras). Em resumo:

Unidades de operações especiais usadas além-mar para matar líderes da al-Qaeda geraram avanços tecnológicos cujo uso começa a ser expandido para todos os EUA. Nas linhas de frente da guerra, esses avanços permitiram os progressos na identificação biométrica, na captura de dados armazenados em computador e números de telefones celulares, de modo que os soldados possam sempre atacar de surpresa. Cá em casa, há o DHS [Departamento de Segurança Interna] que se dedica a recolher fotos, imagens de vídeo e outras informações pessoais sobre residentes nos EUA, na esperança de, assim, espantar terroristas.

Simultaneamente, o Departamento de Segurança Interna do governo Obama rapidamente expandiu a abrangência e a penetração (invasiva) dos programas de vigilância doméstica – tudo sempre justificado, nem seria preciso repetir, em nome do combate ao Terrorismo:

[Secretária Janet DSI] Napolitano levou sua campanha de “Ver alguma coisa, Dizer alguma coisa” muito além dos sinais de trânsito que pedem aos motoristas que chegam à capital do país que notifiquem o que lhes pareça útil no combate aos terroristas ["Terror Tips"] e que “Relatem qualquer atividade Suspeita”. 
Recentemente, obteve o apoio das empresas Wal-Mart, Amtrak, principais ligas de esportes, cadeias de hotel e usuários do Metrô. Em seus discursos, ela compara essa à luta da Guerra Fria contra os comunistas.
"Há aí uma mudança para nosso país”, disse ela a policiais e bombeiros  de New York, à véspera do aniversário do 11/9. "Em certo sentido, voltamos ao ponto no qual nos separamos da tradição de defesa e prontidão civil, separação que levou às preocupações de hoje.”

Os resultados são previsíveis. Quantidades imensas de dinheiro do antiterrorismo pós-9/11 acorreram para as agências estaduais e locais que virtualmente não enfrentam ameaças terroristas, e esses fundos são usados para comprar tecnologias – compradas sempre do setor privado que controla e opera os programas de Controle e repressão do governo – para ampliar o monitoramento e arquivamento de informes sobre cidadãos comuns sobre os quais não pesa nenhuma suspeita. A sempre crescente cooperação entre agências federais, estaduais e locais – e entre as grandes agências federais – disseminou gigantescas bases de dados que contêm informação sobre atividades de milhões de cidadãos norte-americanos. “Há 96 milhões de conjuntos de impressões digitais” na base de dados do FBI, informa o Post hoje. Além disso, o FBI usa seu programa de registro de atividades suspeitas [ing. "suspicious activities record" program (SAR)] para coletar e arquivar quantidades infindáveis de informações sobre norte-americanos inocentes:

Ao mesmo tempo em que o FBI está expandindo a base de dados de West Virginia, está também construindo um vasto repositório controlado pro pessoas que trabalham num nicho top-secret no 4º andar do Edifício J. Edgar Hoover, do FBI, em Washington. Nesse nicho arquivam-se os perfis de dezenas de milhares de norte-americanos e residentes legais que não são acusados de crime algum. São cidadãos que ‘parece’ que agiram de modo suspeito, na avaliação de um xerife municipal, um guarda de trânsito ou, mesmo, um vizinho.

Para termos ideia do tipo de informação que acaba por ser armazenada – a partir das mais inocentes condutas – basta ler um trecho da matéria, que comenta o Relatório n. 3.821 de Atividade Suspeita [ing. Suspicious Activity Report No 3821 O próprio FBI admite que há muito desperdício – “90% nada significa e leva a nada”, disse Richard Lambert Jr., agente especial encarregado do escritório do FBI em Knoxville” –, mas, como a história comprova conclusivamente, dados coletados sobre cidadãos sempre acabam por se comprovar úteis, mesmo que não revelem traço de criminalidade.  

Para entender o alcance do Estado de Controle, relembremos uma sentença do artigo original de Priest/Arkin:  “Todos os dias, os sistemas de coleta na Agência de Segurança Nacional interceptam e armazenam 1,7 bilhões de e-mails, chamadas telefônicas e outros tipos de comunicações.” Como Arkin e Priest noticiam hoje, há poucas salvaguardas relacionadas ao modo como esses dados são usados e abusados. Departamentos de polícia locais rotineiramente fazem reuniões com grupos de neoconservadores e insistem que todas as comunidades muçulmanas nos EUA são ameaça potencial, devem ser submetidas a controle intensivo e devem ser infiltradas. Grupos dissidentes, cujas práticas são perfeitamente legais , têm recebido atenta atenção desses programas governamentais de controle. Temos, em resumo, um vasto Estado de Controle, absolutamente sem qualquer limite ou fiscalização e cada vez mais invasivo, que tem e continua a reunir cada vez mais e mais informações sobre atividades de cada vez mais e mais cidadãos.

Mas o que torna tudo isso particularmente obsceno é que – como o comprova o conflito com WikiLeaks – tudo acontece ao lado de um muro de sigilo e segredo, atrás dos qual a própria conduta do próprio governo é mantida cuidadosamente ocultada dos olhos dos cidadãos. Basta considerar a reação do governo contra a publicação de documentos por WikiLeaks, publicação a qual o próprio governo – em momentos de transparência e honestidade – reconhece que não causou nenhum dano real a ninguém: informação divulgada que, de fato, estava protegida apenas por restrições de baixo nível de segurança, nenhuma das quais (e, nisso, diferentes dos “Documentos do Pentágono”) levava o selo “Top Secret”.

É absolutamente certo e claro que o Departamento de Justiça está empenhado em cruzada vale-tudo para encontrar um meio de calar WikiLeaks e meter Julian Assange na cadeia. Está hoje impondo tratamento inacreditavelmente desumano a Bradley Manning, para tentar forçá-lo a depor contra Assange, de tal modo que passe a ser possível processá-lo. 


Lembremos que em 2008 – muito antes de alguém ter ouvido falar de WikiLeaks – o Pentágono já maquinava para destruir a organização. No programa Meet the Press [NBC News] de ontem, Joe Biden foi perguntado se concordava mais com o que disse Mitch McConnell (que Assange seria “terrorista high-tech”) ou com os que compararam WikiLeaks a Daniel Ellsberg. O vice-presidente respondeu: “Eu diria que está mais perto de terroristahigh-tech” (...) “Um terrorista high-tech”. 

E considerem esse pernicioso pequeno ensaio assinado por Eric Fiterman – ex-agente especial do FBI e fundador de Methodvue, “empresa de consultoria que fornece serviços de cibersegurança e investigação criminal ao governo e a empresas privadas” – que claramente reflete o pensamento do governo sobre WikiLeaks (Cyberwar: Enemy Needn’t Be a Nation State):

No caso de WikiLeaks, grupo marginal liderado basicamente por estrangeiros, que opera no exterior e está ilegalmente obtendo, revisando e disseminando informação da inteligência dos EUA com a declarada intenção de agredir os EUA (o fundador de WikiLeaks Julian Assange é pessoalmente o autor dessa declaração). É declaração não só agressiva e hostil, e belicosa. É declaração de agressão frontal às posições diplomáticas e aos interesses da inteligência dos EUA, que inflige danos colaterais às nossas instituições financeiras e a provedores de serviços que já romperam relações com WikiLeaks. Isso, meus amigos, é guerra.

Esse é o pensamento do governo dos EUA – os feitos do governo que tenham alguma relevância podem e devem ser mantidos longe dos olhos dos cidadãos; quem tente lançar alguma luz sobre feitos do governo é inimigo e tem de ser destruído; mas nada do que você faça estará jamais suficientemente salvaguardado do monitoramento e será imediatamente gravado e arquivado. E, o mais extraordinário de tudo – embora, dado absoluto e total consenso entre os dois partidos sobre a questão, não surpreenda – é o quando os cidadãos estão submetidos, rendidos à violência daquele desequilíbrio.  Muitos norte-americanos, de fato, já reivindicam dos governantes: exigimos que o governo saiba tudo sobre nós mesmos, e que o governo nos mantenha absolutamente ignorantes sobre o que o governo faz, e que castigue todos os que insistam em nos informar sobre o que faz o governo. Seguidamente, esse tipo de opressivo Estado de Controle tem de ser imposto a cidadãos que resistem. Mas os assustados cidadãos dos EUA – conduzido por jornalistas e personagens ‘da mídia’ que, mais que tudo, odeiam qualquer transparência – está sendo treinado como uma fila interminável de homens e mulheres medrosos, assustadiços, a pedir que lhes enfiem goela abaixo quantidades cada vez maiores de medo, medo, sempre mais medo.

Obviamente, qualquer Estado tem necessariamente poder legítimo para exercer poderes aos quais os cidadãos privados não têm acesso (o Estado pode meter pessoas na cadeia, mas cidadão que prenda cidadão comete crime: sequestro, privação de liberdade).  

O problema é que, nos EUA, o desequilíbrio entre esses poderes tornou-se tão extremo – o governo vigia os cidadãos por um espelho cego, completamente opaco numa das direções –, que os perigos do desequilíbrio de poderes entre governo e governados aparece de modo óbvio e assustador. As coisas deveriam ser o contrário do que são hoje: os funcionários públicos, eles, sim, deveriam ser obrigados a atuar sempre às claras; e os cidadãos, eles, sim, teriam pleno direito à privacidade. 

Pois nos EUA essa dinâmica está quase completamente invertida. E apesar de o 11/9 já ser velho de nove anos, as tendências só se aprofundam numa direção. 

WikiLeaks é uma das raríssimas entidades que está conseguindo furar esse bloqueio e inverter o esquema, motivo pelo qual – do ponto de vista do governo e de seus cúmplices e aliados – WikiLeaks tem de ser calada a qualquer custo.

ATUALIZAÇÃO: Dois pontos relacionados

(1)   Joe Biden não apenas votou a favor da guerra do Iraque, como, também, era presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado em 2002 quando o Senado autorizou o ataque ao Iraque que resultou na morte de bem mais de 100 mil inocentes, operação que ficou conhecida pela expressão “Choque e Horror” [ing. Shock and Awe], slogan propagandístico de criado explicitamente para aterrorizar os iraquianos e posto em prática mediante devastação urbana massiva. Julian Assange jamais votou a favor de tamanha violência – nem de qualquer tipo de violência, jamais matou alguém, jamais pregou que se mate gente aos milhares e nunca sequer ameaçou alguém de morte. Apesar disso Biden diz que Assange seria “terrorista high-tech” e poucos se manifestam indignados contra Biden – mais um sinal, aliás, de que a palavra “terrorista”, de tão manipulada que foi e é, já nada significa. Hoje a palavra “terrorista” significa qualquer um que atrapalhe qualquer projeto dos EUA, por menos que atrapalhe. 
(2)  De todos os abusos do estado de controle, um dos mais horrendos sempre será a apreensão, sem mandado ou qualquer justificativa, de laptops e outros equipamentos eletrônicos de cidadãos dos EUA nas fronteiras, onde os equipamentos são confiscados, muitas vezes indefinidamente. É prática que se vem tornando cada vez mais frequente, e visa pessoas que nada fizeram além de discordar da política do governo; pretendo voltar em breve a esse tema. Se os cidadãos dos EUA não protestarem contra o confisco e a copiagem do conteúdo de seus laptops e telefones celulares sem qualquer tipo de justificativa e sem mandato judicial, contra o quê, algum dia, protestarão?