1/8/2014, [*] Nathan Thrall, LRB, vol. 36, n. 16. 21/8/2014, p. 10
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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| Judaismo condena o terrorismo sionista de Israel |
A guerra em curso em
Gaza não foi guerra que Israel ou o Hamás tenham buscado. Mas os dois lados
sabiam com certeza absoluta que um novo confronto viria. O cessar-fogo de
21/11/2012, que pôs fim a oito dias de fogo, foguetes de Gaza contra Israel e
bombardeio aéreo de Israel contra Gaza, jamais foi implementado. Aquele acordo
estipulava que todas as facções palestinas em Gaza suspenderiam as hostilidades
contra Israel e que Israel suspenderia todos os ataques contra Gaza por terra,
mar e ar – inclusive o “alvejamento de indivíduos” (assassinatos, quase sempre
por mísseis disparados de drones manobrados à distância) – e que o cerco
de Gaza acabaria, dado que Israel aceitou, por aquele acordo de 2012, “abrir as
passagens e facilitar o deslocamento de pessoas e transferência de produtos,
pondo fim a qualquer medida que restrinja a livre movimentação de residentes e
ao alvejamento de residentes em áreas de fronteira”.
Uma cláusula
adicional registrava que “outras questões que venham a exigir discussão serão
discutidas” – que parece fazer referência ao envolvimento, acordado
privadamente com Egito e EUA, para ajudarem a pôr fim ao contrabando de armas
para Gaza, embora o Hamás sempre tenha negado essa interpretação para essa
cláusula.
Durante os três meses
depois daquele cessar-fogo, o Shin Bet só registrou um ataque: dois morteiros
disparados de Gaza, em dezembro de 2012. Os funcionários israelenses ficaram
impressionados. Mas convenceram-se rapidamente de que a calma na fronteira de
Gaza seria, em primeiro lugar, efeito da contenção pelos israelenses e de os
palestinos terem entendido qual seria o interesse deles. Israel, por isso, não
viu motivo forte para aplicar a parte que lhe cabia aplicar daquele acordo. Nos
três meses seguintes, depois do cessar-fogo, as forças israelenses atacaram
Gaza com regularidade, atacaram agricultores palestinos e os que recolhiam lixo
em áreas próximas à fronteira, e atiraram contra barcos de pesca, impedindo os
pescadores de terem acessos à maioria dos pesqueiros no mar de Gaza.
A abertura do cerco
de Gaza jamais aconteceu. As passagens foram mantidas permanentemente fechadas.
As chamadas “áreas de transição” [orig. buffer zones] – terras
agricultáveis nas quais que os agricultores gazenses não poderiam pisar sob
risco de serem mortos a tiros – foram reinstituídas. As importações caíram, as
exportações foram bloqueadas e poucos gazenses obtiveram autorização para entrar
em Israel e na Cisjordânia.
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Bloqueio de Gaza desde 2012 (clique na imagem para aumentar) |
Israel
comprometera-se a manter negociações indiretas com o Hamás sobre a
implementação do acordo de cessar-fogo, mas sempre adiou as reuniões, primeiro
porque queria ver se o Hamás manteria sua parte do acordo; depois, porque
Netanyahu não podia fazer qualquer concessão ao Hamás nas semanas antes das
eleições de janeiro de 2013; depois, porque uma nova coalizão israelense estava
sendo formada e precisava de tempo para implantar-se. As conversações jamais
aconteceram. Para o Hamás, a conclusão foi clara: ainda que algum acordo fosse
negociado por EUA e Egito, nem assim Israel cumpriria qualquer acordo.
Mas o Hamás continuou
a manter o cessar-fogo, para grande satisfação de Israel. Implantou uma nova
força policial encarregada de prender palestinos que tentassem lançar foguetes.
Em 2013, houve ainda menos foguetes lançados de Gaza, que em qualquer ano desde
2003, logo depois que os primeiros rojões primitivos começaram a ser lançados
para o outro lado da fronteira. O Hamás precisava de tempo para reconstituir
seu arsenal, fortificar suas defesas e preparar-se para a batalha seguinte,
quando usaria suas forças armadas para tentar pôr fim ao cerco de Gaza. Mas o
Hamás também contava com que o Egito se abriria para Gaza, pondo fim ao período
durante o qual Egito e Israel se dedicaram a escapar, os dois lados, à
responsabilidade pelo território e seus habitantes reduzidos à miséria, o que
tornaria menos decisivamente importante conseguir que Israel aliviasse o cerco.
Em julho de 2013, o
golpe no Cairo, que levou ao poder o general Sisi, acabou com as esperanças do
Hamás. O regime militar de Sisi culpou o deposto presidente Morsi, da
Fraternidade Muçulmana, e o Hamás, braço palestino do mesmo grupo, por todas as
desgraças do Egito. As duas organizações foram banidas do Egito. Morsi foi
formalmente acusado de conspirar com o Hamás para desestabilizar o Egito. O
líder da Fraternidade Muçulmana e centenas de apoiadores de Morsi foram condenados
à morte. Os militares egípcios usaram retórica cada vez mais ameaçadora contra
o Hamás, que passou a temer que o Egito, Israel e a Autoridade Palestina
liderada pelo Fatah se aproveitariam da fraqueza de Gaza para lançar campanha
militar coordenada contra a Faixa. Os líderes do Hamás foram proibidos de
deixar a Faixa, proibidos de viajar. O número de gazenses autorizados a entrar
no Egito foi reduzido a uma mínima fração do que fora antes do golpe. Quase
todos os túneis pelos quais chegavam bens do Egito para Gaza foram fechados. O
Hamás usava impostos cobrados sobre esses bens para pagar os salários dos mais
de 40 mil funcionários públicos em Gaza.
Irã e Síria,
ex-aliados e primeiros apoiadores do Hamás, não ajudariam dessa vez, a menos
que o Hamás deixasse de apoiar a Fraternidade Muçulmana e passasse a apoiar o
governo do alawita Bashar al-Assad, na guerra cada dia mais sectária na Síria
contra o que se convertera em oposição predominantemente sunita. Os aliados que
restavam ao Hamás tinham seus próprios problemas: a Turquia, preocupada com os
tumultos internos; o Qatar pressionado pelos vizinhos, para reduzir seu apoio à
Fraternidade, que as demais monarquias do Golfo veem como principal ameaça
contra elas. A Arábia Saudita declarou a Fraternidade “organização terrorista”;
outros estados do Golfo continuavam a reprimir os Irmãos. Na Cisjordânia, o
Hamás não podia hastear uma bandeira, fazer um discurso ou uma reunião, sem o
risco de ter seus membros presos por Israel ou pelas forças de segurança da
Autoridade Palestina.
Com a pressão
aumentando e sem aliado forte ao qual recorrer, a queda de Gaza foi rápida.
Embora Israel tenha “respondido” ao fechamento dos túneis pelo Egito e à
licença para que pedestres cruzassem a fronteira, com pequeno aumento na oferta
de bens e no número de licenças para sair da Faixa, nada mudara na política
fundamental dos israelenses. Os racionamentos de eletricidade foram ampliados,
os blecautes diários já estavam durante de 12 a 18 horas. Os necessitados de tratamento em
hospitais egípcios pagavam propinas de até US$ 3000 para cruzar a fronteira,
vez ou outra, quando era ocasionalmente aberta por um dia. Os racionamentos de
combustíveis faziam com que se formassem filas de vários quarteirões nos
postos, e brigas em torno das bombas. O lixo continuava empilhado nas ruas
porque o governo não tinha meios para comprar combustível para os caminhões de
coleta. Em dezembro, as usinas de tratamento de esgoto e água foram fechadas e
o esgoto passou a escorrer pelas ruas. A crise se agravou: mais de 90% do aquífero
de Gaza foi contaminado.
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| Passagem de Rafah entre Gaza e Egito |
Quando se tornou
evidente que os tumultos no Egito não resultariam em derrubada de Sisi e volta
da Fraternidade ao poder, o Hamás só viu quatro saídas possíveis:
1.
A primeira seria
reaproximar-se do Irã, ao preço inaceitável de trair a Fraternidade na Síria e
enfraquecer o apoio ao Hamás entre os próprios palestinos e a maioria dos
muçulmanos sunitas em todo o mundo.
2.
A segunda seria criar
novos impostos em Gaza, mas nenhum novo imposto compensaria a perda da renda
dos túneis; e qualquer novo imposto contribuiria a favor da oposição ao Hamás.
3.
A terceira seria
lançar foguetes contra Israel, na esperança de que um novo cessar-fogo
trouxesse alguma melhoria nas condições em Gaza. Essa possibilidade horrorizou
os funcionários dos EUA: minaria a cordata liderança palestina em Ramallah e
poria fim às conversações de paz que John Kerry lançou no mesmo mês do golpe do
general Sisi. Mas o Hamás sentiu-se vulnerável demais, especialmente por causa
do papel potencial de Sisi em qualquer novo conflito entre Gaza e Israel, para
adotar essa terceira possibilidade. Quanto às conversações de paz, não cabia
dúvida alguma de que também fracassariam.
4.
A opção final, que o
Hamás acabou por escolher, foi entregar qualquer responsabilidade pelo governo
de Gaza a prepostos do Fatah, da liderança em Ramallah, apesar de eles terem
sido derrotados nas eleições de 2006.
O Hamás pagou preço
alto, aceitando quase todas as demandas do Fatah. O novo governo da Autoridade
Palestina não incluiu nenhum membro do Hamás ou aliado do Hamás, e todas as
principais figuras do governo da Autoridade Palestina permaneceram em seus
postos. O Hamás concordou com que a Autoridade Palestina deslocasse de volta
para Gaza vários milhares de seus guardas de segurança; que pusesse seus
guardas nas fronteiras e postos de passagem, sem posição recíproca para o Hamás
no aparelho de segurança na Cisjordânia. Mais importante, o governo anunciou
que aceitava as três condições impostas pelos EUA e aliados em troca de uma
ajuda ocidental longamente esperada: não violência, cumprimento de acordos
passados e o reconhecimento de Israel. Embora o acordo estipulasse que o
governo da Autoridade Palestina se absteria de fazer política, Abbas anunciou
que manteria seu programa político. O Hamás praticamente nem protestou.
O acordo foi assinado
dia 23 de abril, depois que as conversas de paz de Kerry fracassaram; se as
conversações tivessem feito algum progresso, os EUA teriam feito o máximo que
pudessem para impedir que o acordo fosse assinado. Mas o governo Obama estava
desapontado com as posições que Israel assumiu durante as conversações e
declarou Israel culpada por parte do fracasso. A frustação ajudou a empurrar os
EUA a reconhecer o novo governo palestino, apesar das objeções de Israel. Mas
isso era o mais longe até onde iriam os EUA. Por trás das cortinas, os EUA
pressionavam Abbas para que evitasse qualquer verdadeira reconciliação entre
Hamás e Fatah. O Hamás buscou reativar o conselho legislativo palestino deixado
esquecido há muito tempo, para que fiscalizasse o novo governo. Mas a
assembleia tem maioria de membros do Hamás, e os EUA alertaram Abbas de que
suspenderiam qualquer apoio financeiro e político ao novo governo, caso a assembleia
voltasse a reunir-se.
O acordo de
reconciliação foi impopular dentro do Hamás. Dos movimentos de base ao segundo
escalão da liderança, todos entendiam que o acordo geraria problemas terríveis.
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Moussa Abu Marzouk
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Moussa Abu Marzouk,
alto dirigente do gabinete político, passou semanas em Gaza em reuniões com
quadros do Hamás, ouvindo suas preocupações e tentando convencê-los da
sabedoria do acordo. Os militantes temiam que o pessoal de segurança do Fatah
tentasse vingar as mortes resultantes da luta entre Hamás e Fatah em 2006 e
2007, e iniciassem nova guerra civil. Comandantes do Hamás queriam garantias de
que a Autoridade Palestina não estenderia sua colaboração com Israel e contra o
Hamás, da Cisjordânia para dentro da Faixa de Gaza. Funcionários públicos,
milhares dos quais não são membros do Hamás, temiam ser despedidos, dispensados
ou ficar sem salários. Outros diziam que o Hamás cedera tudo, sem qualquer
garantia de que o Fatah cumpriria o que prometera. Um dos argumentos que os
líderes do Hamás apresentavam para ter assinado o acordo foi que o acordo
permitiria que o movimento se focasse na sua própria missão original: a resistência
militar contra Israel.
Tão logo o governo
foi formado, todos os medos dos ativistas do Hamás começaram a confirmar-se. Os
termos do acordo não apenas eram desfavoráveis: eles tampouco foram postos em
prática. A condição mais básica do acordo – que o governo pagaria os
funcionários públicos que fazem Gaza funcionar e que seria aberta a passagem
com o Egito – ficaram no papel. Ao longo de anos, os gazenses ouviram dizer e
repetir que todos os seus sofrimentos eram culpa do governo do Hamás. Já não
havia governo do Hamás, e as condições de vida na Faixa de Gaza haviam piorado
muito.
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Dia 12 de
junho, dez dias depois de formado o novo governo, um evento inesperado mudou
radicalmente o destino do Hamás. Três estudantes israelenses foram sequestrados
e mortos quando voltavam da escola religiosa na Cisjordânia. Quando os
cadáveres foram encontrados, um grupo de judeus israelenses capturaram um
palestino de 16 anos perto de sua casa em Jerusalém Leste, jogaram-lhe gasolina
sobre o corpo e o queimaram vivo. Irromperam protestos entre os palestinos em
Jerusalém, Negev e Galileia, e a Cisjordânia permaneceu relativamente calma.
Israel culpou o Hamás pelo assassinato dos estudantes que saíam da escola
religiosa, apesar de vários funcionários da segurança de Israel terem declarado
que acreditavam que os criminosos tivessem agido por conta própria, sem ordens
superiores.
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| Os 3 israelenses assassinados |
Na caçada aos
suspeitos pelo assassinato, Israel fez sua maior campanha na Cisjordânia contra
o Hamás desde a Segunda Intifada: fechou escritórios do Hamás e prendeu
centenas de membros de todos os níveis. O Hamás negou responsabilidade pelas
capturas e disse que as acusações de Israel eram pretexto para iniciar uma
ofensiva contra o grupo. Dentre os presos estavam mais de 50 dos 1.027
prisioneiros que haviam sido libertados em 2011, na troca pelo soldado
israelense Gilad Shalit, capturado em combate pelo Hamás. O Hamás viu essas
prisões como mais uma violação do acordo Shalit, que especifica as condições
sob as quais os prisioneiros libertados poderiam voltar a ser presos, e contém
outros dispositivos que Israel jamais cumpriu, sobre melhoria de condições dos
demais prisioneiros palestinos e direitos a receber visitas.
A liderança
palestina em Ramallah trabalhou em íntima coordenação com Israel para prender
militantes, e raramente resultou tão desprestigiada entre seus próprios
eleitores, muitos dos quais creem que sequestrar israelenses é o único meio
efetivo para obter a liberdade de prisioneiros que a ampla maioria do país vê
como heróis nacionais. Em inúmeras cidades da Cisjordânia, os moradores
protestaram contra a colaboração entre a segurança da Autoridade Palestina e
Israel. Um ex-ministro de Assuntos Religiosos, muito próximo de Abbas, foi com
seus guarda-costas à Mesquita al-Aqsa; pessoas que lá rezavam os atacaram e
todos tiveram de ser hospitalizados. O emissário que Abbas enviou para visita
de condolências à família do adolescente palestino assassinado foi expulso da
casa.
Com os
protestos espalhando-se por Israel e Jerusalém, militante em Gaza, de grupos
não ligados ao Hamás, começaram a lançar foguetes e morteiros em movimento de
solidariedade. Sentindo a vulnerabilidade de Israel e a fragilidade da
liderança em Ramallah, líderes do Hamás ordenaram que os protestos fossem
ampliados até converterem-se numa terceira intifada. Quando o fogo dos
foguetes aumentou, viram-se arrastados para um novo dilema: não podiam ser
vistos proibindo os ataques e, ao mesmo tempo, conclamando para um levante em
massa. A retaliação de Israel culminou no bombardeio de 6 de julho, que matou
vários militantes do Hamás, o maior número de baixas que o grupo sofreu em
vários meses. Dia seguinte, o Hamás começou a chamar para si toda a
responsabilidade pelos foguetes. E Israel então anunciou a “Operação Linha
Protetora”.
Para o Hamás,
a escolha não foi tanto entre paz e guerra, quanto entre morrer por
estrangulamento lento e uma guerra que tinha uma chance, embora pequena, de afrouxar
o nó. O Hamás vê-se numa batalha pela própria sobrevivência. Seu futuro em Gaza
depende do desenlace. Como Israel, o Hamás definiu limites bem definidos,
objetivos com os quais simpatiza grande parte da comunidade internacional.
O principal
objetivo é conseguir que Israel honre os três acordos passados: o acordo
da troca do prisioneiro Shalit, inclusive com a libertação dos antigos
prisioneiros soltos e agora novamente presos; o acordo do cessar-fogo de
novembro de 2012, que determina o fim do cerco da Faixa de Gaza; e o acordo de
reconciliação de abril de 2014, que permite que o governo palestino pague
salários em Gaza, mantenha funcionários seus nas fronteiras, receba o material
de construção desesperadamente necessário e reabra a passagem de pedestres
entre Gaza e o Egito.
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| Barack Obama e John Kerry |
Não são
objetivos irrealistas e há crescentes sinais de que o Hamás tem boa chance de
obter pelo menos alguns desses objetivos. Obama e Kerry disseram que acreditam
que o cessar-fogo deva basear-se no acordo de novembro de 2012. Os EUA também
mudaram sua posição sobre o pagamento de salários em Gaza, e propuseram, num
rascunho de acordo apresentado a Israel dia 25/7, que os fundos sejam
transferidos para os funcionários em Gaza. Durante a guerra, Israel decidiu que
poderia resolver seu problema de Gaza com a ajuda do novo governo de Ramallah
que, antes, Israel havia formalmente boicotado. O ministro da Defesa de Israel
disse que esperava que um cessar-fogo serviria para implantar forças de
segurança do novo governo de Ramallah nas passagens de fronteira em Gaza.
Netanyahu também já começou a baixar o tom de voz sobre Abbas.
Perto do fim
da terceira semana de combates, Israel e os EUA discretamente fingiram que não
viram que o governo palestino pagou todos os funcionários que trabalham em
Gaza, pela primeira vez. Funcionários israelenses em todo o espectro político
já começam a admitir privadamente que sua política anterior para Gaza foi
errada. Todas as partes envolvidas em mediar um cessar-fogo já cogitam arranjos
pós-guerra que efetivamente fortalecerão o novo governo palestino e seu papel
em Gaza – e, por extensão, fortalecerão Gaza em si.
Muito mais
difícil será conseguir a libertação dos ex-prisioneiros agora reaprisionados.
Mas se a guerra prossegue, e uma incursão por terra torna-se mais provável, as
chances de o Hamás capturar um soldado israelense aumentam. O Hamás já tentou
pelo menos quatro vezes capturar um soldado israelense até agora e pode ter
tido sucesso em duas delas (já há hoje,
1/8/2014, pelo menos um soldado israelense capturado em combate – embora os
jornalistas brasileiros só falem em “soldado sequestrado”, como se tivesse sido
sequestrado no supermercado. Não. Foi
capturado em combate [NTs]). Israel nega que a primeira tenha
sido bem sucedida e, no momento em que redijo esse artigo, Israel ainda procura
pelo segundo soldado não localizado. Poucas coisas desmoralizariam mais
completamente o governo de Ramallah que um novo acordo de troca de prisioneiros
com o Hamás, mesmo que em escala menor que o acordo Shalit.
Quando o
Hamás anunciou que capturara um soldado israelense dia 20/7/2014, multidões
acorreram para as ruas de Gaza, Jerusalém e na Cisjordânia, soltando fogos de
artifício e distribuindo doces e balas pelas ruas, com renovada esperança de
voltar a ver amigos e parentes presos nas prisões israelenses.
Manifestações
de palestinos em solidariedade com Gaza espalharam-se. Já se viam mais
bandeiras do Hamás que do Fatah em recente protesto em Nablus. A liderança em
Ramallah, embora não muito convincentemente, adotou parte da retórica do Hamás,
usando com frequência a palavra “resistência” e elogiando a luta do Hamás. Tem
havido confrontos em pontos da Cisjordânia e em Jerusalém Leste quase todas as
noites. Dia 24/7/2014, na noite de Laylat al-Qadr, dia santificado para os
muçulmanos, o ponto de controle de Qalandiya, no norte de Jerusalém, foi
cenário da maior manifestação popular em toda a Cisjordânia desde a Segunda Intifada.
O Hamás sabe
que não pode derrotar militarmente Israel, mas a guerra de Gaza guarda a
possibilidade de uma recompensa distante, mas não menos importante: agitar a
Cisjordânia, minar a liderança de Ramallah e todo o programa de negociação
perpétua e perpétua concessão e perpétua dependência dos EUA, que o governo de
Ramallah encarna.
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| Fatah-Hamas, governo de unidade na Palestina |
Para muitos
palestinos, o Hamás demonstrou, mais uma vez, a efetividade comparativa da
militância.
Os túneis,
que foram fator decisivo para os sucessos do Hamás na atual guerra são motivo
dos ataques dos israelenses contra Gaza desde bem antes da retirada de Israel
em 2005. O Hamás destaca sempre uma série de ataques baseados nos túneis,
inclusive a explosão de dezembro de 2004, no subsolo de um posto do exército de
Israel no sul de Gaza, que ajudou a precipitar a retirada israelense.
Desde que os
combates em Gaza recomeçaram, esse verão, Israel não anunciou sequer uma única
nova colônia e já manifestou disposição para fazer algumas concessões em
demandas palestinas – conquistas que o governo de Ramallah nunca sequer se
aproximou de alcançar apesar dos muitos anos de negociações. O resultado da
luta ajudará a determinar o caminho futuro do movimento nacional palestino.
O real
obstáculo que impede um levante na Cisjordânia jamais foi, como o Hamás tem
dito, a colaboração de Abbas com Israel. Obstáculo real é a fragmentação social
e política, e a ideia que se vai implantando entre os palestinos, sem encontrar
qualquer oposição, de que a libertação nacional deva ser o segundo objetivo,
superado de longe, em importância, por projetos apolíticos e tecnocráticos de
construção do estado e de desenvolvimento econômico. Esses são os maiores
obstáculos que o Hamás enfrenta.
Se a guerra
mais recente conseguiu instilar algum orgulho nas multidões palestinas, que
dizem que já se acostumaram a sentir vergonha do modo como seus líderes
rastejam aos pés de norte-americanos e israelenses, a vitória do Hamás não foi
pequena.
Mas o Hamás
também arriscou muito. Pode perder tudo, no caso de Israel reavaliar a posição,
mantida há muito tempo, de que o Hamás pode ser deixado com a tarefa de
policiar Gaza, estratégia que tem mantido o Hamás suficientemente forte em Gaza
para exercer algo bem perto de monopólio do uso da força. Ironia das semanas
recentes de combate em campo é que a demonstração de poder do Hamás está pondo
em risco a própria posição deles, em Gaza. Israel pode decidir que o Hamás está
forte demais e é ameaça grande demais.
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| Militantes do Hamas (29/7/2014) |
O Hamás
conseguiu deter (no sentido de ter tornado extremamente lenta) a incursão dos
israelenses por terra e infligiu dúzias de baixas aos soldados de Israel, muito
mais do que os israelenses previam. Duas semanas depois de iniciada a ação dos “coturnos
em solo”, o exército de Israel ainda não avançou além da primeira linda de
território urbano densamente povoado.
Graças à
vasta rede subterrânea de túneis que levam não só para dentro de Israel, mas
espalha-se também sob Gaza, se Israel decidir entrar nas áreas centrais das
cidades, o número de baixas certamente aumentará. Durante a Operação Chumbo
Derretido em 2008-09, Israel entrou muito mais fundo dentro de Gaza e perdeu só
dez soldados, quatro deles em fogo amigo; em 2014, só até agora, o exército de
Israel já perdeu mais de 60 soldados. As baixas de militantes do Hamás parecem
ser suportáveis.
Pela primeira
vez em décadas, Israel defende-se contra um exército que conseguiu entrar fundo
nas fronteiras de 1967 – usando túneis e em incursões navais. Os foguetes
produzidos pelo Hamás já alcançam agora todas as grandes cidades de Israel,
inclusive Haifa, e o Hamás já tem drones armados com foguetes. O Hamás
conseguiu manter fechado o principal aeroporto de Israel durante dois dias.
Israelenses que vivem perto de Gaza já abandonaram suas casas e temem retornar,
porque o exército de Israel diz que é possível que ainda haja túneis não
localizados. Os foguetes de Gaza obrigam os israelenses a dormir nos abrigos,
noite após noite – o que mostra que o exército de Israel não está conseguindo
neutralizar a ação do Hamás. Estima-se que a guerra já custou a Israel bilhões
de dólares.
Os maiores
custos, claro, ficaram sobre os civis gazenses, que são a maioria dos mais de
1.600 mortos até o momento do cessar-fogo anunciado e imediatamente quebrado,
dia 1º de agosto/2014. A guerra matou famílias inteiras, devastou bairros
inteiros, destruiu residências, cortou a eletricidade e quase todo o acesso à
água. Gaza precisará de anos para se recuperar, se algum dia recuperar-se.
E tudo sugere
que, em pouco tempo, o Hamás estará novamente pronto para outra luta. Assim,
teve todos os incentivos para tentar alcançar seus objetivos centrais,
principalmente o de pôr fim ao cerco de Gaza. Os mediadores estão tentando
ajudar o povo de Gaza sem dar a impressão de que reconhecem uma vitória do
Hamás e registram a derrota de Israel.
Do ponto de
vista de Israel e do Egito, o que está em jogo é o que essa já bem visível – ou
claramente possível – vitória do Hamás diz sobre o futuro da Fraternidade
Muçulmana na região. O que está em jogo para os aliados da Fraternidade, Qatar
e Turquia, é o que pode significar uma derrota. O simbolismo do conflito, que
todos perceberam com clareza, ajudou a prolongá-lo.
A solução
óbvia é deixar o novo governo palestino voltar a Gaza e reconstruí-la. Israel
poderá dizer que enfraquece o Hamás ao fortalecer seus inimigos. O Hamás pode dizer
que conseguiu reconhecimento para o novo governo e alívio considerável no
bloqueio. É solução, claro, que Israel, EUA, Egito e a Autoridade Palestina
poderiam ter facilmente organizado nas semanas e meses de “conversações” que
tiveram antes de a guerra começar, antes de haver tantos mortos.

[*] Nathan Thrall é um escritor americano, jornalista e analista de Oriente Médio. Atualmente
é Analista Sênior com sede em Jerusalém com o Programa do Oriente Médio e Norte
da África do International Crisis Group
cobrindo Gaza, Israel, Jordânia e a Cisjordânia. Seus atigos tem sido publicados em inglês no The New York Times, The New Republic, GQ, Slate e The New York Review of Books, e em árabe no Al-Hayat, Asharq al-Awsat
e Al-Quds al-Arabi. Foi editor
contribuinte da revista Tablet e um
ex-membro da equipe editorial do The New
York Review of Books. Foi entrevistado por The New York Times, The Wall
Street Journal, The Washington Post,
BBC, NPR e CNN. Thrall recebeu o bacharelado na University of Califórnia, Santa
Barbara's College of Creative Studies e o Mestrado em Políticade na Columbia University. Atualmente vive em Jerusalém.