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domingo, 5 de outubro de 2014

Noam Chomsky | Fatos em campo

2/10/2014, [*] Noam ChomskyTruthout
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza, após Israel "aparar a grama" (foto de 17/8/2014)
Dia 26 de agosto de 2014, Israel e a Autoridade Palestina aceitaram um acordo de cessar-fogo, depois de 50 dias de ataque de Israel contra Gaza que deixaram 2.100 palestinos mortos e imensas paisagens de total destruição.

O acordo determina o fim da ação militar de Israel e do Hamás e um alívio no cerco que Israel impõe à Faixa de Gaza e a estrangula já há vários anos.

Mas é só o mais recente de uma série de acordos de cessar-fogo assinados sempre imediatamente depois de mais uma das escaladas israelenses periódicas, no seu sempre inalterado e infindável ataque-assalto contra Gaza.

Desde novembro de 2005 os termos desses acordos permanecem essencialmente os mesmos. O padrão regular é Israel infringir qualquer acordo vigente, e o Hamás respeitar o acordo – como até Israel reconhece – até que, de repente, Israel aumenta desmesuradamente a violência, o que gera reação do Hamás, depois da qual a fúria e a brutalidade de Israel não conhecem limites.

Essas escaladas são chamadas “aparar o gramado”, no jargão israelense. A mais recente foi mais acuradamente descrita como “remover a camada superior do solo”, por alto oficial militar dos EUA, citado em Al-Jazeera America.

O primeiro dessa série foi o Acordo sobre Movimentação e Acesso entre Israel e a Autoridade Palestina em novembro de 2005.

Nos termos desse acordo, haveria um ponto de passagem entre Gaza e o Egito em Rafah para exportação de bens e passagem de pessoas; outras passagens entre Israel e Gaza para bens e pessoas; redução dos impedimentos à movimentação dentro da Cisjordânia; comboios de caminhões e ônibus entre a Cisjordânia e Gaza; seria construído um porto de mar em Gaza; e seria reaberto o aeroporto em Gaza, destruído por bombas israelenses.

Passagem de Rafah, fronteira Gaza-Egito
Aquele acordo foi firmado pouco depois de Israel retirou de Gaza, colonos e soldados israelenses. O motivo do desengajamento foi explicado por Dov Weisglass, confidente do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que estava encarregado de negociar e implementar o acordo.

O plano de desengajamento é significativo porque ele congela o processo de paz. E quando se congela aquele projeto, impede-se que se estabeleça qualquer estado palestindo, e também se impede qualquer discussão sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo esse pacote chamado estado palestino, com tudo que implica, fica indefinidamente afastado de nossa agenda. E isso com autoridade e permissão. E com as bênçãos presidenciais [dos EUA] e a ratificação nas duas casas do Congresso – disse Weisglass ao jornal Haaretz.

O desengajamento na verdade é formol, Weisglass acrescentou, fornece todo o formol necessário para que não haja processo político com os palestinos.

Esse padrão mantém-se até o presente: da Operação Chumbo Derretido em 2008-2009 à Operação Pilar da Defesa em 2012 até a Operação Bainha Protetora, esse verão, o mais extremo exercício de “aparar o gramado” – até agora.

Há mais de 20 anos Israel está dedicada a separar Gaza da Cisjordânia, violando claramente os Acordos de Oslo assinados em 1993, que declaram que Gaza e a Cisjordânia são unidade territorial indivisível.

Um exame no mapa explica o que há por trás disso. Separados de Gaza, qualquer enclave na Cisjordânia deixado aos palestinos não terá saída para o mundo externo. Ali, ficam contidos por duas potências hostis, Israel e Jordânia, ambas aliadas e muito estreitamente conectadas aos EUA. E, ao contrário da ilusão de tantos, os EUA não são e estão longe de ser “intermediário honesto” ou neutro.

Além do mais, Israel continua a avançar sistematicamente pelo vale do Jordão, expulsando palestinos, implantando colônias, fechando poços e, por inúmeras vias, garantindo que a região – cerca de 1/3 da Cisjordânia, com grande parte de sua terra arável – acabe integrada a Israel, como outras regiões que vão sendo invadidas.

Os cantões palestinos remanescentes serão completamente cercados. A unificação com Gaza interferiria nesses planos, que já estão traçados desde os primeiros dias da ocupação e recebem apoio monolítico de todos os principais blocos políticos israelenses.

Israel talvez sinta que a tomada de território palestino na Cisjordânia já avançou tanto, que pouco há a temer de alguma forma limitada de autonomia que os enclaves que permanecem palestinos venham a ter.

Palestina - Gaza e Cisjordânia (WEST BANK)
Há também alguma verdade no que disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu:

Muitos elementos na região já entendem hoje, na luta na qual são ameaçados, que Israel não é inimiga, mas parceira.

Presumivelmente aludia à Arábia Saudita e aos Emirados do Golfo.

Mas o principal correspondente diplomático de Israel, Akiva Eldar, acrescenta que:

(...) todos esses “muitos elementos na região” também compreendem que não há nenhum movimento diplomático audaz e amplo, no horizonte, sem um acordo sobre o estabelecimento de um estado palestino baseado nas fronteiras de 1967 e solução justa, aceita pelos dois lados, para o problema dos refugiados.

Nada disso está na agenda de Israel, diz ele; e, de fato, permanece em conflito direto com o programa eleitoral sobre o qual foi eleita a coalizão Likud, hoje no poder, jamais cancelado, e que:

(...) rejeita completamente o estabelecimento de qualquer tipo de estado árabe palestino a oeste do rio Jordão.

Alguns analistas israelenses que se devem considerar, por exemplo o colunista Danny Rubinstein, acredita que Israel está decidida a reverter esse curso e relaxar o cerco com o qual estrangula Gaza.

Veremos.

Os registros dos últimos anos sugerem coisa bem diferente, e os primeiros sinais não são auspiciosos. Ao final da Operação Bainha Protetora, Israel anunciou e fez a maior apropriação ilegal de terra da Cisjordânia em 30 anos, de quase 1.000 acres.

Há quem diga, dos dois lados, que, se a solução dos dois estados está morta, como resultado do roubo de terras palestinas por Israel, nesse caso o resultado será um só estado, a oeste do rio Jordão.

Alguns palestinos aceitam essa solução, antecipando que possam engajar-se em luta por direitos iguais, semelhante à luta anti-apartheid na África do Sul. Muitos comentaristas israelenses alertam que o “problema demográfico” que se cria por nascerem mais árabes que israelenses, e por estar diminuindo a imigração de judeus, acabará por minar qualquer esperança que Israel tenha de vir a ser “estado judeu democrático”. São crenças muito divulgadas, que não merecem nenhuma confiança.

A alternativa realista a uma solução de dois estados é Israel prosseguir na implementação do plano que vem implementando há anos: roubar tudo de valor que haja na Cisjordânia, evitar concentrações de população palestina; e remover os palestinos de áreas que vão sendo roubadas por Israel. Assim se resolve também o temido “problema demográfico”.

As áreas de terra que vão sendo roubadas e ocupadas incluem uma muito expandida Grande Jerusalém, a área interna do muro ilegal de separação, corredores que cortam as regiões para o leste e, provavelmente, o vale do rio Jordão.

Como Israel vem ROUBANDO terras da Palestina desde 1946 até 2013 (ROUBOU ainda mais em 2014)
Gaza provavelmente continuará sob o sítio terrível em que vive hoje, separada da Cisjordânia. E as colinas sírias do Golan – anexadas, como Jerusalém, em ato que violou ordens do Conselho de Segurança da ONU – tornar-se-ão aos poucos parte também da Israel Expandida. Enquanto isso, os palestinos da Cisjordânia ficarão contidos em cantões inviáveis, com acomodações especiais para as elites em estilo neocolonial clássico.

A colonização da Palestina pelos sionistas há um século vem sendo feita a partir do princípio pragmático de criar e fixar fatos em campo, o que, com o tempo, o mundo acabou por aceitar. É política muitíssimo bem-sucedida. Há todas as razões para prever que essa colonização persistirá, exatamente como é feita hoje, enquanto os EUA continuarem a providenciar todo o apoio militar, econômico, diplomático e ideológico necessário.

Para todos que se preocupem com os direitos dos palestinos diariamente brutalizados, não pode haver prioridade mais urgente ou mais alta do que trabalhar para mudar as políticas dos EUA – o que absolutamente não é delírio ou sonho inalcançável.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

sábado, 2 de agosto de 2014

As chances do Hamás

1/8/2014, [*] Nathan Thrall, LRB, vol. 36, n. 16. 21/8/2014, p. 10
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

Judaismo condena o terrorismo sionista de Israel

A guerra em curso em Gaza não foi guerra que Israel ou o Hamás tenham buscado. Mas os dois lados sabiam com certeza absoluta que um novo confronto viria. O cessar-fogo de 21/11/2012, que pôs fim a oito dias de fogo, foguetes de Gaza contra Israel e bombardeio aéreo de Israel contra Gaza, jamais foi implementado. Aquele acordo estipulava que todas as facções palestinas em Gaza suspenderiam as hostilidades contra Israel e que Israel suspenderia todos os ataques contra Gaza por terra, mar e ar – inclusive o “alvejamento de indivíduos” (assassinatos, quase sempre por mísseis disparados de drones manobrados à distância) – e que o cerco de Gaza acabaria, dado que Israel aceitou, por aquele acordo de 2012, “abrir as passagens e facilitar o deslocamento de pessoas e transferência de produtos, pondo fim a qualquer medida que restrinja a livre movimentação de residentes e ao alvejamento de residentes em áreas de fronteira”.

 

Uma cláusula adicional registrava que “outras questões que venham a exigir discussão serão discutidas” – que parece fazer referência ao envolvimento, acordado privadamente com Egito e EUA, para ajudarem a pôr fim ao contrabando de armas para Gaza, embora o Hamás sempre tenha negado essa interpretação para essa cláusula.

 

Durante os três meses depois daquele cessar-fogo, o Shin Bet só registrou um ataque: dois morteiros disparados de Gaza, em dezembro de 2012. Os funcionários israelenses ficaram impressionados. Mas convenceram-se rapidamente de que a calma na fronteira de Gaza seria, em primeiro lugar, efeito da contenção pelos israelenses e de os palestinos terem entendido qual seria o interesse deles. Israel, por isso, não viu motivo forte para aplicar a parte que lhe cabia aplicar daquele acordo. Nos três meses seguintes, depois do cessar-fogo, as forças israelenses atacaram Gaza com regularidade, atacaram agricultores palestinos e os que recolhiam lixo em áreas próximas à fronteira, e atiraram contra barcos de pesca, impedindo os pescadores de terem acessos à maioria dos pesqueiros no mar de Gaza.

 

A abertura do cerco de Gaza jamais aconteceu. As passagens foram mantidas permanentemente fechadas. As chamadas “áreas de transição” [orig. buffer zones] – terras agricultáveis nas quais que os agricultores gazenses não poderiam pisar sob risco de serem mortos a tiros – foram reinstituídas. As importações caíram, as exportações foram bloqueadas e poucos gazenses obtiveram autorização para entrar em Israel e na Cisjordânia.

 

Bloqueio de Gaza desde 2012
(clique na imagem para aumentar)

Israel comprometera-se a manter negociações indiretas com o Hamás sobre a implementação do acordo de cessar-fogo, mas sempre adiou as reuniões, primeiro porque queria ver se o Hamás manteria sua parte do acordo; depois, porque Netanyahu não podia fazer qualquer concessão ao Hamás nas semanas antes das eleições de janeiro de 2013; depois, porque uma nova coalizão israelense estava sendo formada e precisava de tempo para implantar-se. As conversações jamais aconteceram. Para o Hamás, a conclusão foi clara: ainda que algum acordo fosse negociado por EUA e Egito, nem assim Israel cumpriria qualquer acordo.

 

Mas o Hamás continuou a manter o cessar-fogo, para grande satisfação de Israel. Implantou uma nova força policial encarregada de prender palestinos que tentassem lançar foguetes. Em 2013, houve ainda menos foguetes lançados de Gaza, que em qualquer ano desde 2003, logo depois que os primeiros rojões primitivos começaram a ser lançados para o outro lado da fronteira. O Hamás precisava de tempo para reconstituir seu arsenal, fortificar suas defesas e preparar-se para a batalha seguinte, quando usaria suas forças armadas para tentar pôr fim ao cerco de Gaza. Mas o Hamás também contava com que o Egito se abriria para Gaza, pondo fim ao período durante o qual Egito e Israel se dedicaram a escapar, os dois lados, à responsabilidade pelo território e seus habitantes reduzidos à miséria, o que tornaria menos decisivamente importante conseguir que Israel aliviasse o cerco.

 

Em julho de 2013, o golpe no Cairo, que levou ao poder o general Sisi, acabou com as esperanças do Hamás. O regime militar de Sisi culpou o deposto presidente Morsi, da Fraternidade Muçulmana, e o Hamás, braço palestino do mesmo grupo, por todas as desgraças do Egito. As duas organizações foram banidas do Egito. Morsi foi formalmente acusado de conspirar com o Hamás para desestabilizar o Egito. O líder da Fraternidade Muçulmana e centenas de apoiadores de Morsi foram condenados à morte. Os militares egípcios usaram retórica cada vez mais ameaçadora contra o Hamás, que passou a temer que o Egito, Israel e a Autoridade Palestina liderada pelo Fatah se aproveitariam da fraqueza de Gaza para lançar campanha militar coordenada contra a Faixa. Os líderes do Hamás foram proibidos de deixar a Faixa, proibidos de viajar. O número de gazenses autorizados a entrar no Egito foi reduzido a uma mínima fração do que fora antes do golpe. Quase todos os túneis pelos quais chegavam bens do Egito para Gaza foram fechados. O Hamás usava impostos cobrados sobre esses bens para pagar os salários dos mais de 40 mil funcionários públicos em Gaza.

 

Irã e Síria, ex-aliados e primeiros apoiadores do Hamás, não ajudariam dessa vez, a menos que o Hamás deixasse de apoiar a Fraternidade Muçulmana e passasse a apoiar o governo do alawita Bashar al-Assad, na guerra cada dia mais sectária na Síria contra o que se convertera em oposição predominantemente sunita. Os aliados que restavam ao Hamás tinham seus próprios problemas: a Turquia, preocupada com os tumultos internos; o Qatar pressionado pelos vizinhos, para reduzir seu apoio à Fraternidade, que as demais monarquias do Golfo veem como principal ameaça contra elas. A Arábia Saudita declarou a Fraternidade “organização terrorista”; outros estados do Golfo continuavam a reprimir os Irmãos. Na Cisjordânia, o Hamás não podia hastear uma bandeira, fazer um discurso ou uma reunião, sem o risco de ter seus membros presos por Israel ou pelas forças de segurança da Autoridade Palestina.

 

Com a pressão aumentando e sem aliado forte ao qual recorrer, a queda de Gaza foi rápida. Embora Israel tenha “respondido” ao fechamento dos túneis pelo Egito e à licença para que pedestres cruzassem a fronteira, com pequeno aumento na oferta de bens e no número de licenças para sair da Faixa, nada mudara na política fundamental dos israelenses. Os racionamentos de eletricidade foram ampliados, os blecautes diários já estavam durante de 12 a 18 horas. Os necessitados de tratamento em hospitais egípcios pagavam propinas de até US$ 3000 para cruzar a fronteira, vez ou outra, quando era ocasionalmente aberta por um dia. Os racionamentos de combustíveis faziam com que se formassem filas de vários quarteirões nos postos, e brigas em torno das bombas. O lixo continuava empilhado nas ruas porque o governo não tinha meios para comprar combustível para os caminhões de coleta. Em dezembro, as usinas de tratamento de esgoto e água foram fechadas e o esgoto passou a escorrer pelas ruas. A crise se agravou: mais de 90% do aquífero de Gaza foi contaminado.

 

Passagem de Rafah entre Gaza e Egito

Quando se tornou evidente que os tumultos no Egito não resultariam em derrubada de Sisi e volta da Fraternidade ao poder, o Hamás só viu quatro saídas possíveis:

 

1.      A primeira seria reaproximar-se do Irã, ao preço inaceitável de trair a Fraternidade na Síria e enfraquecer o apoio ao Hamás entre os próprios palestinos e a maioria dos muçulmanos sunitas em todo o mundo.

 

2.     A segunda seria criar novos impostos em Gaza, mas nenhum novo imposto compensaria a perda da renda dos túneis; e qualquer novo imposto contribuiria a favor da oposição ao Hamás.

 

3.     A terceira seria lançar foguetes contra Israel, na esperança de que um novo cessar-fogo trouxesse alguma melhoria nas condições em Gaza. Essa possibilidade horrorizou os funcionários dos EUA: minaria a cordata liderança palestina em Ramallah e poria fim às conversações de paz que John Kerry lançou no mesmo mês do golpe do general Sisi. Mas o Hamás sentiu-se vulnerável demais, especialmente por causa do papel potencial de Sisi em qualquer novo conflito entre Gaza e Israel, para adotar essa terceira possibilidade. Quanto às conversações de paz, não cabia dúvida alguma de que também fracassariam.

 

4.     A opção final, que o Hamás acabou por escolher, foi entregar qualquer responsabilidade pelo governo de Gaza a prepostos do Fatah, da liderança em Ramallah, apesar de eles terem sido derrotados nas eleições de 2006.

 

O Hamás pagou preço alto, aceitando quase todas as demandas do Fatah. O novo governo da Autoridade Palestina não incluiu nenhum membro do Hamás ou aliado do Hamás, e todas as principais figuras do governo da Autoridade Palestina permaneceram em seus postos. O Hamás concordou com que a Autoridade Palestina deslocasse de volta para Gaza vários milhares de seus guardas de segurança; que pusesse seus guardas nas fronteiras e postos de passagem, sem posição recíproca para o Hamás no aparelho de segurança na Cisjordânia. Mais importante, o governo anunciou que aceitava as três condições impostas pelos EUA e aliados em troca de uma ajuda ocidental longamente esperada: não violência, cumprimento de acordos passados e o reconhecimento de Israel. Embora o acordo estipulasse que o governo da Autoridade Palestina se absteria de fazer política, Abbas anunciou que manteria seu programa político. O Hamás praticamente nem protestou.

 

O acordo foi assinado dia 23 de abril, depois que as conversas de paz de Kerry fracassaram; se as conversações tivessem feito algum progresso, os EUA teriam feito o máximo que pudessem para impedir que o acordo fosse assinado. Mas o governo Obama estava desapontado com as posições que Israel assumiu durante as conversações e declarou Israel culpada por parte do fracasso. A frustação ajudou a empurrar os EUA a reconhecer o novo governo palestino, apesar das objeções de Israel. Mas isso era o mais longe até onde iriam os EUA. Por trás das cortinas, os EUA pressionavam Abbas para que evitasse qualquer verdadeira reconciliação entre Hamás e Fatah. O Hamás buscou reativar o conselho legislativo palestino deixado esquecido há muito tempo, para que fiscalizasse o novo governo. Mas a assembleia tem maioria de membros do Hamás, e os EUA alertaram Abbas de que suspenderiam qualquer apoio financeiro e político ao novo governo, caso a assembleia voltasse a reunir-se.

 

O acordo de reconciliação foi impopular dentro do Hamás. Dos movimentos de base ao segundo escalão da liderança, todos entendiam que o acordo geraria problemas terríveis.

 

Moussa Abu Marzouk

Moussa Abu Marzouk, alto dirigente do gabinete político, passou semanas em Gaza em reuniões com quadros do Hamás, ouvindo suas preocupações e tentando convencê-los da sabedoria do acordo. Os militantes temiam que o pessoal de segurança do Fatah tentasse vingar as mortes resultantes da luta entre Hamás e Fatah em 2006 e 2007, e iniciassem nova guerra civil. Comandantes do Hamás queriam garantias de que a Autoridade Palestina não estenderia sua colaboração com Israel e contra o Hamás, da Cisjordânia para dentro da Faixa de Gaza. Funcionários públicos, milhares dos quais não são membros do Hamás, temiam ser despedidos, dispensados ou ficar sem salários. Outros diziam que o Hamás cedera tudo, sem qualquer garantia de que o Fatah cumpriria o que prometera. Um dos argumentos que os líderes do Hamás apresentavam para ter assinado o acordo foi que o acordo permitiria que o movimento se focasse na sua própria missão original: a resistência militar contra Israel.

 

Tão logo o governo foi formado, todos os medos dos ativistas do Hamás começaram a confirmar-se. Os termos do acordo não apenas eram desfavoráveis: eles tampouco foram postos em prática. A condição mais básica do acordo – que o governo pagaria os funcionários públicos que fazem Gaza funcionar e que seria aberta a passagem com o Egito – ficaram no papel. Ao longo de anos, os gazenses ouviram dizer e repetir que todos os seus sofrimentos eram culpa do governo do Hamás. Já não havia governo do Hamás, e as condições de vida na Faixa de Gaza haviam piorado muito.


*****

Dia 12 de junho, dez dias depois de formado o novo governo, um evento inesperado mudou radicalmente o destino do Hamás. Três estudantes israelenses foram sequestrados e mortos quando voltavam da escola religiosa na Cisjordânia. Quando os cadáveres foram encontrados, um grupo de judeus israelenses capturaram um palestino de 16 anos perto de sua casa em Jerusalém Leste, jogaram-lhe gasolina sobre o corpo e o queimaram vivo. Irromperam protestos entre os palestinos em Jerusalém, Negev e Galileia, e a Cisjordânia permaneceu relativamente calma. Israel culpou o Hamás pelo assassinato dos estudantes que saíam da escola religiosa, apesar de vários funcionários da segurança de Israel terem declarado que acreditavam que os criminosos tivessem agido por conta própria, sem ordens superiores.

Os 3 israelenses assassinados
Na caçada aos suspeitos pelo assassinato, Israel fez sua maior campanha na Cisjordânia contra o Hamás desde a Segunda Intifada: fechou escritórios do Hamás e prendeu centenas de membros de todos os níveis. O Hamás negou responsabilidade pelas capturas e disse que as acusações de Israel eram pretexto para iniciar uma ofensiva contra o grupo. Dentre os presos estavam mais de 50 dos 1.027 prisioneiros que haviam sido libertados em 2011, na troca pelo soldado israelense Gilad Shalit, capturado em combate pelo Hamás. O Hamás viu essas prisões como mais uma violação do acordo Shalit, que especifica as condições sob as quais os prisioneiros libertados poderiam voltar a ser presos, e contém outros dispositivos que Israel jamais cumpriu, sobre melhoria de condições dos demais prisioneiros palestinos e direitos a receber visitas.

A liderança palestina em Ramallah trabalhou em íntima coordenação com Israel para prender militantes, e raramente resultou tão desprestigiada entre seus próprios eleitores, muitos dos quais creem que sequestrar israelenses é o único meio efetivo para obter a liberdade de prisioneiros que a ampla maioria do país vê como heróis nacionais. Em inúmeras cidades da Cisjordânia, os moradores protestaram contra a colaboração entre a segurança da Autoridade Palestina e Israel. Um ex-ministro de Assuntos Religiosos, muito próximo de Abbas, foi com seus guarda-costas à Mesquita al-Aqsa; pessoas que lá rezavam os atacaram e todos tiveram de ser hospitalizados. O emissário que Abbas enviou para visita de condolências à família do adolescente palestino assassinado foi expulso da casa.

Com os protestos espalhando-se por Israel e Jerusalém, militante em Gaza, de grupos não ligados ao Hamás, começaram a lançar foguetes e morteiros em movimento de solidariedade. Sentindo a vulnerabilidade de Israel e a fragilidade da liderança em Ramallah, líderes do Hamás ordenaram que os protestos fossem ampliados até converterem-se numa terceira intifada. Quando o fogo dos foguetes aumentou, viram-se arrastados para um novo dilema: não podiam ser vistos proibindo os ataques e, ao mesmo tempo, conclamando para um levante em massa. A retaliação de Israel culminou no bombardeio de 6 de julho, que matou vários militantes do Hamás, o maior número de baixas que o grupo sofreu em vários meses. Dia seguinte, o Hamás começou a chamar para si toda a responsabilidade pelos foguetes. E Israel então anunciou a “Operação Linha Protetora”.

Para o Hamás, a escolha não foi tanto entre paz e guerra, quanto entre morrer por estrangulamento lento e uma guerra que tinha uma chance, embora pequena, de afrouxar o nó. O Hamás vê-se numa batalha pela própria sobrevivência. Seu futuro em Gaza depende do desenlace. Como Israel, o Hamás definiu limites bem definidos, objetivos com os quais simpatiza grande parte da comunidade internacional.

O principal objetivo é conseguir que Israel honre os três acordos passados: o acordo da troca do prisioneiro Shalit, inclusive com a libertação dos antigos prisioneiros soltos e agora novamente presos; o acordo do cessar-fogo de novembro de 2012, que determina o fim do cerco da Faixa de Gaza; e o acordo de reconciliação de abril de 2014, que permite que o governo palestino pague salários em Gaza, mantenha funcionários seus nas fronteiras, receba o material de construção desesperadamente necessário e reabra a passagem de pedestres entre Gaza e o Egito.

Barack Obama e John Kerry
Não são objetivos irrealistas e há crescentes sinais de que o Hamás tem boa chance de obter pelo menos alguns desses objetivos. Obama e Kerry disseram que acreditam que o cessar-fogo deva basear-se no acordo de novembro de 2012. Os EUA também mudaram sua posição sobre o pagamento de salários em Gaza, e propuseram, num rascunho de acordo apresentado a Israel dia 25/7, que os fundos sejam transferidos para os funcionários em Gaza. Durante a guerra, Israel decidiu que poderia resolver seu problema de Gaza com a ajuda do novo governo de Ramallah que, antes, Israel havia formalmente boicotado. O ministro da Defesa de Israel disse que esperava que um cessar-fogo serviria para implantar forças de segurança do novo governo de Ramallah nas passagens de fronteira em Gaza. Netanyahu também já começou a baixar o tom de voz sobre Abbas. 

Perto do fim da terceira semana de combates, Israel e os EUA discretamente fingiram que não viram que o governo palestino pagou todos os funcionários que trabalham em Gaza, pela primeira vez. Funcionários israelenses em todo o espectro político já começam a admitir privadamente que sua política anterior para Gaza foi errada. Todas as partes envolvidas em mediar um cessar-fogo já cogitam arranjos pós-guerra que efetivamente fortalecerão o novo governo palestino e seu papel em Gaza – e, por extensão, fortalecerão Gaza em si.

Muito mais difícil será conseguir a libertação dos ex-prisioneiros agora reaprisionados. Mas se a guerra prossegue, e uma incursão por terra torna-se mais provável, as chances de o Hamás capturar um soldado israelense aumentam. O Hamás já tentou pelo menos quatro vezes capturar um soldado israelense até agora e pode ter tido sucesso em duas delas (já há hoje, 1/8/2014, pelo menos um soldado israelense capturado em combate – embora os jornalistas brasileiros só falem em “soldado sequestrado”, como se tivesse sido sequestrado no supermercado. Não. Foi capturado em combate [NTs]). Israel nega que a primeira tenha sido bem sucedida e, no momento em que redijo esse artigo, Israel ainda procura pelo segundo soldado não localizado. Poucas coisas desmoralizariam mais completamente o governo de Ramallah que um novo acordo de troca de prisioneiros com o Hamás, mesmo que em escala menor que o acordo Shalit.

Quando o Hamás anunciou que capturara um soldado israelense dia 20/7/2014, multidões acorreram para as ruas de Gaza, Jerusalém e na Cisjordânia, soltando fogos de artifício e distribuindo doces e balas pelas ruas, com renovada esperança de voltar a ver amigos e parentes presos nas prisões israelenses.

Manifestações de palestinos em solidariedade com Gaza espalharam-se. Já se viam mais bandeiras do Hamás que do Fatah em recente protesto em Nablus. A liderança em Ramallah, embora não muito convincentemente, adotou parte da retórica do Hamás, usando com frequência a palavra “resistência” e elogiando a luta do Hamás. Tem havido confrontos em pontos da Cisjordânia e em Jerusalém Leste quase todas as noites. Dia 24/7/2014, na noite de Laylat al-Qadr, dia santificado para os muçulmanos, o ponto de controle de Qalandiya, no norte de Jerusalém, foi cenário da maior manifestação popular em toda a Cisjordânia desde a Segunda Intifada.

O Hamás sabe que não pode derrotar militarmente Israel, mas a guerra de Gaza guarda a possibilidade de uma recompensa distante, mas não menos importante: agitar a Cisjordânia, minar a liderança de Ramallah e todo o programa de negociação perpétua e perpétua concessão e perpétua dependência dos EUA, que o governo de Ramallah encarna.

Fatah-Hamas, governo de unidade na Palestina
Para muitos palestinos, o Hamás demonstrou, mais uma vez, a efetividade comparativa da militância.

Os túneis, que foram fator decisivo para os sucessos do Hamás na atual guerra são motivo dos ataques dos israelenses contra Gaza desde bem antes da retirada de Israel em 2005. O Hamás destaca sempre uma série de ataques baseados nos túneis, inclusive a explosão de dezembro de 2004, no subsolo de um posto do exército de Israel no sul de Gaza, que ajudou a precipitar a retirada israelense.

Desde que os combates em Gaza recomeçaram, esse verão, Israel não anunciou sequer uma única nova colônia e já manifestou disposição para fazer algumas concessões em demandas palestinas – conquistas que o governo de Ramallah nunca sequer se aproximou de alcançar apesar dos muitos anos de negociações. O resultado da luta ajudará a determinar o caminho futuro do movimento nacional palestino.

O real obstáculo que impede um levante na Cisjordânia jamais foi, como o Hamás tem dito, a colaboração de Abbas com Israel. Obstáculo real é a fragmentação social e política, e a ideia que se vai implantando entre os palestinos, sem encontrar qualquer oposição, de que a libertação nacional deva ser o segundo objetivo, superado de longe, em importância, por projetos apolíticos e tecnocráticos de construção do estado e de desenvolvimento econômico. Esses são os maiores obstáculos que o Hamás enfrenta.

Se a guerra mais recente conseguiu instilar algum orgulho nas multidões palestinas, que dizem que já se acostumaram a sentir vergonha do modo como seus líderes rastejam aos pés de norte-americanos e israelenses, a vitória do Hamás não foi pequena.

Mas o Hamás também arriscou muito. Pode perder tudo, no caso de Israel reavaliar a posição, mantida há muito tempo, de que o Hamás pode ser deixado com a tarefa de policiar Gaza, estratégia que tem mantido o Hamás suficientemente forte em Gaza para exercer algo bem perto de monopólio do uso da força. Ironia das semanas recentes de combate em campo é que a demonstração de poder do Hamás está pondo em risco a própria posição deles, em Gaza. Israel pode decidir que o Hamás está forte demais e é ameaça grande demais.

Militantes do Hamas  (29/7/2014)
O Hamás conseguiu deter (no sentido de ter tornado extremamente lenta) a incursão dos israelenses por terra e infligiu dúzias de baixas aos soldados de Israel, muito mais do que os israelenses previam. Duas semanas depois de iniciada a ação dos “coturnos em solo”, o exército de Israel ainda não avançou além da primeira linda de território urbano densamente povoado.

Graças à vasta rede subterrânea de túneis que levam não só para dentro de Israel, mas espalha-se também sob Gaza, se Israel decidir entrar nas áreas centrais das cidades, o número de baixas certamente aumentará. Durante a Operação Chumbo Derretido em 2008-09, Israel entrou muito mais fundo dentro de Gaza e perdeu só dez soldados, quatro deles em fogo amigo; em 2014, só até agora, o exército de Israel já perdeu mais de 60 soldados. As baixas de militantes do Hamás parecem ser suportáveis.

Pela primeira vez em décadas, Israel defende-se contra um exército que conseguiu entrar fundo nas fronteiras de 1967 – usando túneis e em incursões navais. Os foguetes produzidos pelo Hamás já alcançam agora todas as grandes cidades de Israel, inclusive Haifa, e o Hamás já tem drones armados com foguetes. O Hamás conseguiu manter fechado o principal aeroporto de Israel durante dois dias. Israelenses que vivem perto de Gaza já abandonaram suas casas e temem retornar, porque o exército de Israel diz que é possível que ainda haja túneis não localizados. Os foguetes de Gaza obrigam os israelenses a dormir nos abrigos, noite após noite – o que mostra que o exército de Israel não está conseguindo neutralizar a ação do Hamás. Estima-se que a guerra já custou a Israel bilhões de dólares.

Os maiores custos, claro, ficaram sobre os civis gazenses, que são a maioria dos mais de 1.600 mortos até o momento do cessar-fogo anunciado e imediatamente quebrado, dia 1º de agosto/2014. A guerra matou famílias inteiras, devastou bairros inteiros, destruiu residências, cortou a eletricidade e quase todo o acesso à água. Gaza precisará de anos para se recuperar, se algum dia recuperar-se.

E tudo sugere que, em pouco tempo, o Hamás estará novamente pronto para outra luta. Assim, teve todos os incentivos para tentar alcançar seus objetivos centrais, principalmente o de pôr fim ao cerco de Gaza. Os mediadores estão tentando ajudar o povo de Gaza sem dar a impressão de que reconhecem uma vitória do Hamás e registram a derrota de Israel.

Do ponto de vista de Israel e do Egito, o que está em jogo é o que essa já bem visível – ou claramente possível – vitória do Hamás diz sobre o futuro da Fraternidade Muçulmana na região. O que está em jogo para os aliados da Fraternidade, Qatar e Turquia, é o que pode significar uma derrota. O simbolismo do conflito, que todos perceberam com clareza, ajudou a prolongá-lo.

A solução óbvia é deixar o novo governo palestino voltar a Gaza e reconstruí-la. Israel poderá dizer que enfraquece o Hamás ao fortalecer seus inimigos. O Hamás pode dizer que conseguiu reconhecimento para o novo governo e alívio considerável no bloqueio. É solução, claro, que Israel, EUA, Egito e a Autoridade Palestina poderiam ter facilmente organizado nas semanas e meses de “conversações” que tiveram antes de a guerra começar, antes de haver tantos mortos.



[*] Nathan Thrall é um escritor americano, jornalista e analista de Oriente Médio. Atualmente é Analista Sênior com sede em Jerusalém com o Programa do Oriente Médio e Norte da África do International Crisis Group cobrindo Gaza, Israel, Jordânia e a Cisjordânia. Seus atigos  tem sido publicados em inglês no The New York Times, The New Republic, GQ, Slate e The New York Review of Books, e em árabe no Al-Hayat, Asharq al-Awsat e Al-Quds al-Arabi. Foi editor contribuinte da revista Tablet e um ex-membro da equipe editorial do The New York Review of Books. Foi entrevistado por The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, BBC, NPR e CNN. Thrall recebeu o bacharelado na University of Califórnia, Santa Barbara's College of Creative Studies e o Mestrado em Políticade na Columbia University. Atualmente  vive em Jerusalém.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Discurso do Aiatolá Sayed Ali Khamenei, Guia Supremo da República Islâmica do Irã: SOBRE GAZA

Aiatolá Ali Khamenei - SOBRE GAZA


29/7/2014, Solenidade de Aïd-el-Fitr − Fim do Ramadã (excerto sobre Gaza)
Íntegra do discurso em inglês em: Supreme Leader's Sermons at Eid ul-Fitr Prayers
Transcrição, tradução e legendas para francês por Sayed Hasan
Traduzido para português pelo pessoal da Vila Vudu



Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Glória a Deus, Senhor dos Mundos, e que a paz paire sobre nosso Mestre e Profeta, Abu-al Qasem al-Mostafa (pai de Qasim e o Eleito) Maomé, e sobre sua imaculada família, pura e escolhida, e sobre o que está presente sobre a Terra (o Imã Al-Mahdi). E saudamos também o Comandante dos Crentes (Imã Ali b. Abi Talib), a Verdadeira e Pura (Fatima al-Zahra) – senhora das Senhoras dos Mundos –, e que a paz paire sobre Hassan e Hussein – filhos da Misericórdia – e sobre os Imãs da Orientação e Guia –Ali b. Hussein, Muhammad b. Ali, Ja'far b. Muhammad, Musa b. Ja'far, Ali b. Musa, Muhammad b. Ali, Ali b. Muhammad, Hasan b. Ali e o Argumento de Deus sobre a Terra (o Imã ocultado, Al-Mahdi Al-Montadhar – o Esperado).

Recomendo aos amados irmãos e irmãs, a todo o povo do Irã e também a mim mesmo, a piedade e o temor a Deus. Essa piedade é fonte de influência benéfica em todos os domínios, inclusive nos julgamentos, tomadas de decisão e ações em todas as grandes questões sociais e internacionais, assim como nas questões relacionadas ao Islã e à humanidade.

Hoje, a principal questão do mundo islâmico é a questão de Gaza. E talvez se possa dizer que Gaza é a principal questão hoje do mundo e da humanidade.

Um cão hidrófobo, um lobo selvagem atracou-se à carne de seres humanos inocentes e oprimidos. Quem seria mais inocente e mais oprimido que essas crianças que morrem nos ataques a Gaza? Quem seria mais inocente e mais oprimido que aquelas mães que têm os filhos nos braços num instante e, no outro, os veem morrer, sentem seus últimos estertores no colo delas, sob os olhos delas?

Hoje, o regime sionista usurpador e incréu comete tais crimes, crimes odiosos, ante os olhos do mundo e de toda a humanidade. Por isso a humanidade tem de reagir.

Há três pontos a destacar sobre a questão de Gaza:

O primeiro é que o que hoje fazem os dirigentes sionistas é genocídio. Uma imensa tragédia histórica. Os que perpetram esses crimes e os que os apoiam têm de ser julgados no plano internacional e têm de ser punidos.

O castigo deles deve ser o que decidirem e exigirem os representantes dos povos, os justos e os que têm consciência, em todo o mundo.

Nem todo o correr do tempo lhes permitirá escapar ao castigo. É indispensável que sejam punidos. E isso enquanto ainda estão no poder e depois de já estarem descartados e derrubados do poder. Ao mesmo tempo também devem ser castigados os responsáveis por esse massacre e os que os apoiam abertamente – os mesmos que vocês veem e ouvem na ‘mídia’ – todos esses têm de ser punidos. Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto é que é preciso ver o quanto é grande a resistência e a capacidade para resistir de um povo que defende o próprio direito. É um povo cercado por todos os lados, que vive num pequeno território limitado e isolado. O mar os cerca, a terra os cerca, todas as fronteiras lhes estão fechadas. Nada garante que terão água para matar a sede, que terão eletricidade, meios de sobrevivência. Todos esses desastres lhes foram infligidos como efeito de ações hostis e ataques que lhes move o inimigo. E ninguém no mundo move-se para vir ao socorro deles.

E esse povo tem de fazer frente a inimigo super armado, vicioso, pervertido e sem piedade como são o regime sionista e seus dirigentes, de baixeza impossível de qualificar, demoníacos, impuros, que batem e destroem sem parar, dia e noite, sem alívio, sem nenhuma contenção. Mas apesar de todos esses crimes, aquele povo resiste. Mantém-se em pé e resiste! Essa é a grande lição! Prestem muita atenção, porque aí está a grande lição.

Aquele povo nos mostra a capacidade de resistir do ser humano – a força e a tenacidade de uma mãe que vê seus filhos mortos diante dela; a força e a tenacidade de uma mãe que vê o marido, o irmão, o pai serem oprimidos. Essa força é muito maior do que podíamos concebê-la.

Deveríamos conhecer, todos nós, nossa força interior. Os seres humanos podem ser fortes e fazem prova de resistência gigante. Esse povo – uma população de cerca de 1,8 milhão de indivíduos – resiste e mantém-se de pé, apesar de viverem numa terra isolada e atacada por todos os lados, numa superfície de 400, 500 quilômetros quadrados. Resistem, apesar de suas casas, suas lojas, seus locais de trabalho terem sido convertidos em alvos do inimigo. Mais que isso, tampouco podem negociar com outros países. E nessa situação, nem por isso os ataques diminuem. Mas eles resistem.

Assim se vê o nível e a capacidade de resistência de um povo. E lhes digo: no final, se Deus quiser e pela graça de Deus, esse povo vencerá o inimigo!

Já hoje o inimigo agressor lamenta a ação que empreendeu, como um cachorro que também é capaz de ver o que fez mal feito. Então endurece, sem saber o que fazer: se retrocede, passa vergonha; se continua, a matança vai-se tornando mais difícil, para ele, dia a dia. 

Por isso vocês veem hoje os EUA, a Europa, todos os criminosos do mundo, que se dão as mãos para impor à força um cessar fogo à população de Gaza, para salvar aquele regime. Mas até hoje nem isso funcionou, nem jamais funcionará. Esse é o segundo ponto.

Em terceiro lugar, os dirigentes políticos da arrogância mundial dizem que têm de desarmar o Hamás e a Jihad islâmica. Mas o que significa desarmar esses grupos? É verdade que têm certa quantidade de foguetes, que lhes permitem, de algum modo, defenderem-se, um mínimo que seja, dos ataques incessantes do inimigo. E dizem que ainda seria o caso de tirar deles esses poucos foguetes?!

Para o inimigo, o ideal seria que a Palestina e Gaza, especialmente, fossem postas em situação tal que, quando os sionistas decidam atacar, não importa onde ou quando, a qualquer momento, os sionistas possam fazer como bem entendam, e os palestinos não tenham nenhum meio para se defenderem! O que desejam é isso!

O presidente dos EUA lançou uma fatwa: “É preciso desarmar a Resistência”. É?! É mesmo?! Claro! Vocês querem a Resistência desarmada para que a Resistência não tenha instrumento algum para fazê-los responder pelos muitos crimes que vocês cometem contra os palestinos.

Pois nossa proposta é exatamente contrária à deles. Nossa proposta é que todo o mundo, e sobretudo, mais que todos os demais, o mundo islâmico, temos o dever de fazer  tudo que esteja ao nosso alcance para fornecer à Palestina a maior quantidade possível de armas.

Oh, meu Deus, vem em ajuda ao Islã e aos muçulmanos, assiste os exércitos dos muçulmanos, humilha os incréus, os opressores e os hipócritas. Que Deus me ilumine e ilumine todos nós.

(O Aiatolá Sayed Khamenei recita a surata do Corão O Culto Puro (n. 112). Que a Paz de Deus esteja sobre vocês, e Sua Misericórdia e Sua Graça.


(Na sequência, o Aiatolá Khamenei dirige a prece do Aïd.).