Mostrando postagens com marcador Gaza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gaza. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de maio de 2015

1º de maio de 2015: Vergonha para a inteligência dos EUA na Síria e no Iêmen


2/5/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Houthis fazem manifestação em Sanaa contra o bombardeios sauditas em 27/4/2015

Os militares e grupos de inteligência dos EUA envolvidos com o Comando Central no Oriente Médio celebraram o 1º de maio com uma disputa entre eles e duas inacreditáveis seleções de alvos:

Ataques aéreos comandados pelos EUA que lutam contra o grupo Estado Islâmico mataram hoje pelo menos 52 civis numa vila no norte da Síria, disse no sábado um grupo de monitoramento.

“Ataques aéreos da coalizão, no início da manhã da 6ª-feira contra a vila de Birmahle na província de Aleppo mataram 52 civis” – disse Rami Abdel Rahman, do Laboratório Sírio de Direitos Humanos.

“Sete crianças foram mortas e há 13 pessoas ainda presas nos escombros” – disse ele.

Abdel Rahman disse à AFP que milícias curdas e rebeldes sírios estavam combatendo contra o Estado Islâmico numa cidade a menos de dois quilômetros do ponto que foi atacado.

“Mas em Birmahle só há civis, nenhuma posição do EI nem qualquer luta” – disse Rahman.

Abdel Rahman disse que “nem um único terrorista do Estado Islâmico morreu no ataque dos EUA à vila”.

Bem feito!

O bombardeio saudita visa tão somente áreas civis
Mas ainda pior serviço apresentou o grupo de inteligência militar do CentCom que apoia a guerra dos sauditas contra o Iêmen:

Uma série de ataques aéreos sauditas atingiu um hospital e instalações de socorro médico no sul do Iêmen na 6ª-feira (1/5/2015), matando pelo menos 58 civis e ferindo pelo menos 67, informaram funcionários do governo no Iêmen no local.

A maioria dos mortos e feridos eram médicos e pacientes – informaram as mesmas fontes.

Hospital Raheda é um dos maiores e mais lotados que há na área. As instalações de socorro médico são parte do hospital.
...

Três funcionários do governo do Iêmen informaram que o hospital não é usado por rebeldes houthis e que não morreu nenhum rebelde no ataque saudita ao hospital.

Pelo que se vê, o grupo que define alvos no Iêmen venceu a disputa: 58 a 52 civis mortos.

O melhor balanço geral da guerra no Iêmen apareceu hoje no The Independent. O artigo especula um pouco em torno da motivação dos sauditas, e sugere que o rei Salman e o filho teriam visto a guerra contra o Iêmen “como modo de firmar o próprio poder e remover do poder facções rivais da família real”. É possível que esse seja um dos motivos colaterais, mas o motivo real é o sugerido por Hillary Mann Leverett:

O que estamos vendo é um produto da desorientação e do terror saudita, numa região que poderia vir a ser mais representativa em termos da própria governança, mais independente em termos da própria política exterior. Os sauditas estão tentando impedir que esse tipo de independência surja no Iêmen. E mais uma vez seguiram os EUA por essa trilha que leva a guerra sem fim.

Essa explicação está adequada ao fato de que os sauditas iniciaram o bombardeio exatamente quando a ONU já negociara um acordo de partilha de poder no Iêmen. Como se lê no Independent:

O início dos ataques aéreos pelos sauditas há cinco semanas, pôs fim às negociações que estavam próximas de resultar num acordo de partilha de poder na capital Sanaa, como informou o enviado especial da ONU, Jamal Benomar. Benomar disse ao The Wall Street Journal em entrevista que “quando essa campanha começou, detalhe significativo mas que não foi noticiado, era que os iemenitas estavam próximos de chegar a um acordo que institucionalizaria um poder partilhado com todos os grupos, inclusive os houthis”.

 Bombardeio saudita no Iêmen nos recorda o genocídio praticado por Israel em Gaza
Os EUA apoiaram o bombardeio desde o primeiro momento, fornecendo aos sauditas a inteligência necessária. Com os ataques, acabaram-se as negociações que poderiam levar a solução pacífica para a disputa política no Iêmen. Não surpreende que o enviado da ONU tenha renunciado, em sinal de protesto. De 26 de março/2015:

A Arábia Saudita disse ao governo Obama e aliados no Golfo Pérsico no início da semana, que estava preparando operação militar no vizinho Iêmen e que confiava fortemente nas imagens da vigilância e informações sobre alvos a serem fornecidas pelos EUA para o prosseguimento da operação, segundo altos funcionários norte-americanos e do Golfo Pérsico.

Daí em diante, o apoio que a inteligência dos EUA dá aos sauditas aumentou. De 10 de abril/2015:

Os EUA estão expandindo a partilha de informação de inteligência com os sauditas, para garantir-lhes mais dados sobre alvos potenciais na campanha aérea que o reino move contra as milícias houthis no Iêmen – informaram à Reuters funcionários dos EUA.

...

Os mesmos funcionários norte-americanos disseram que a assistência ampliada inclui dados sensíveis de inteligência, que permitirão que os sauditas definam melhor os seus alvos na luta que já matou centenas e destruiu moradias de dezenas de milhares desde março.

O que pensarão os iemenitas cujos parentes foram mortos no hospital atacado ontem, dos serviços de inteligência dos EUA e o apoio para seleção de alvos que os EUA dão aos sauditas?


O artigo em The Independent citado acima também traz a seguinte frase, que eu creio que esteja surgindo pela primeira vez na empresa-imprensa dominante:

[O rei Salman] não apenas começou uma guerra aérea no Iêmen como, além disso, deu forte apoio à Frente al-Nusra, afiliada da al-Qa’eda, e a outros grupos jihadistas na Síria. Esses terroristas obtiveram recentemente várias vitórias na província de Idlib, contra o exército sírio e forças leais ao presidente Bashar al-Assad.

Os sauditas também estão apoiando a Al-Qaeda no Iêmen, e até pressionando para que outros se unam eles:

Haykal Bafana @BaFana3
Jornalistas têm de acordar & escrever sobre a pressão que os sauditas estão aplicando contra tribos e líderes em Hadhramaut para que aceitem que a Al Qaeda os comande.


Os sauditas exigem mais apoio à Al-Qaeda, e a inteligência dos EUA está selecionando alvos civis para serem bombardeados. 

Alguém aí acredita que isso possa acabar bem?


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Barou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Netanyahu nas cordas? Palestinos derrubam mais um governo israelense

3/12/2014, [*] Gilad AtzmonCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Por Karras

Vez ou outra, líderes políticos e militares israelenses são derrotados pelas próprias guerras israelenses. A Primeira-Ministra Golda Meir e seu comandante do exército (David “Dado” Elazar) foram mandados de volta para casa depois dos erros estúpidos de 1973 (Guerra do Yom Kippur). O Primeiro-Ministro Menachem Begin perdeu a sanidade depois da primeira guerra no Líbano (1982). O Ministro da Defesa, Amir Peretz e seu comandante do exército Dan Halutz’ foram tratados com dureza pela mídia israelense depois da derrota de Israel no Líbano, em 2006. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu paga agora o preço do mais recente desastre israelense em Gaza e do levante de palestinos que veio imediatamente depois.

Nações fortes tendem a unir-se em torno dos comandantes em tempos de crise. Os israelenses não, são como crianças mimadas. Preferem virar-se contra os comandantes em tempos de conflito, mas não porque anseiem por paz. É exatamente o contrário: querem vitória conclusiva; rios de sangue árabe pelas ruas. Bibi não lhes deu o que queriam. Aos olhos de muitos patriotas israelenses, Bibi é mole.

Israel não se saiu bem na mais recente rodada de violência. O exército de Israel não conquistou um, que fosse, objetivo militar importante. Depois de poucos dias, o exército israelense teve de retirar-se, humilhado e exaurido. Os militares israelenses já admitiram que não souberam dar resposta militar à balística palestina, aos tuneis e a coragem sem fim dos palestinos. Além do mais, o conflito em Gaza respingou sobre a Cisjordânia e cidades israelenses. Na verdade, o gabinete de Netanyahu demorou a reagir. Parecia colhido de surpresa pelos eventos. Agora, muitos israelenses já admitem abertamente que o futuro do Estado Judeu é mais sombrio a cada dia.

Por Latuff
establishment político israelense seguiu rapidamente a maré de opinião pública – com total radicalização. Os falcões querem que o estado admita que é um “lar judeu”, em vez de uma “democracia judaica” (expressão que, só ela, já é uma contradição entre os termos). Os centristas e a esquerda israelense insiste que Israel tem de manter a mentira “democrática”. Soa bem e os Goyim acreditam, como argumentaram.

Hoje (3/12/2014) cedo, o Primeiro-Ministro Netanyahu anunciou novas eleições, depois de demitir dois ministros chaves de seu governo – Yair Lapid, líder do partido Yesh Atid e Ministro das Finanças; e Tzipi Livni, líder do Hatnua e Ministra da Justiça.

Livni e Lapid opuseram-se à Lei Nacional de Israel e deram a Netanyahu oportunidade de ouro para se reafirmar como devotado judeu nacionalista patriótico. Acho que Netanyahu sobreviverá a esse round político.

Mas há um ponto, nessa história, pequeno, mas significativo. Há sete meses, era Netanyahu que pressionava cada vez mais a Autoridade Palestina, o Hamás e a população palestina, num esforço para quebrar o governo de unidade dos palestinos. Seis meses de violência depois, uma guerra em Gaza e uma 3ª Intifada em produção, os palestinos mostram-se mais unidos que nunca. E o governo de Netanyahu está caindo aos pedaços.
____________________

[*] Gilad Atzmon (músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista, toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos. Seu álbum Exile foi o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis noThe Guardian como “o mais hardest-gigging homem do jazz britânico”. Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem como rock e jazz. Anima seu blog com vários artigos políticos.

domingo, 5 de outubro de 2014

Noam Chomsky | Fatos em campo

2/10/2014, [*] Noam ChomskyTruthout
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza, após Israel "aparar a grama" (foto de 17/8/2014)
Dia 26 de agosto de 2014, Israel e a Autoridade Palestina aceitaram um acordo de cessar-fogo, depois de 50 dias de ataque de Israel contra Gaza que deixaram 2.100 palestinos mortos e imensas paisagens de total destruição.

O acordo determina o fim da ação militar de Israel e do Hamás e um alívio no cerco que Israel impõe à Faixa de Gaza e a estrangula já há vários anos.

Mas é só o mais recente de uma série de acordos de cessar-fogo assinados sempre imediatamente depois de mais uma das escaladas israelenses periódicas, no seu sempre inalterado e infindável ataque-assalto contra Gaza.

Desde novembro de 2005 os termos desses acordos permanecem essencialmente os mesmos. O padrão regular é Israel infringir qualquer acordo vigente, e o Hamás respeitar o acordo – como até Israel reconhece – até que, de repente, Israel aumenta desmesuradamente a violência, o que gera reação do Hamás, depois da qual a fúria e a brutalidade de Israel não conhecem limites.

Essas escaladas são chamadas “aparar o gramado”, no jargão israelense. A mais recente foi mais acuradamente descrita como “remover a camada superior do solo”, por alto oficial militar dos EUA, citado em Al-Jazeera America.

O primeiro dessa série foi o Acordo sobre Movimentação e Acesso entre Israel e a Autoridade Palestina em novembro de 2005.

Nos termos desse acordo, haveria um ponto de passagem entre Gaza e o Egito em Rafah para exportação de bens e passagem de pessoas; outras passagens entre Israel e Gaza para bens e pessoas; redução dos impedimentos à movimentação dentro da Cisjordânia; comboios de caminhões e ônibus entre a Cisjordânia e Gaza; seria construído um porto de mar em Gaza; e seria reaberto o aeroporto em Gaza, destruído por bombas israelenses.

Passagem de Rafah, fronteira Gaza-Egito
Aquele acordo foi firmado pouco depois de Israel retirou de Gaza, colonos e soldados israelenses. O motivo do desengajamento foi explicado por Dov Weisglass, confidente do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que estava encarregado de negociar e implementar o acordo.

O plano de desengajamento é significativo porque ele congela o processo de paz. E quando se congela aquele projeto, impede-se que se estabeleça qualquer estado palestindo, e também se impede qualquer discussão sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo esse pacote chamado estado palestino, com tudo que implica, fica indefinidamente afastado de nossa agenda. E isso com autoridade e permissão. E com as bênçãos presidenciais [dos EUA] e a ratificação nas duas casas do Congresso – disse Weisglass ao jornal Haaretz.

O desengajamento na verdade é formol, Weisglass acrescentou, fornece todo o formol necessário para que não haja processo político com os palestinos.

Esse padrão mantém-se até o presente: da Operação Chumbo Derretido em 2008-2009 à Operação Pilar da Defesa em 2012 até a Operação Bainha Protetora, esse verão, o mais extremo exercício de “aparar o gramado” – até agora.

Há mais de 20 anos Israel está dedicada a separar Gaza da Cisjordânia, violando claramente os Acordos de Oslo assinados em 1993, que declaram que Gaza e a Cisjordânia são unidade territorial indivisível.

Um exame no mapa explica o que há por trás disso. Separados de Gaza, qualquer enclave na Cisjordânia deixado aos palestinos não terá saída para o mundo externo. Ali, ficam contidos por duas potências hostis, Israel e Jordânia, ambas aliadas e muito estreitamente conectadas aos EUA. E, ao contrário da ilusão de tantos, os EUA não são e estão longe de ser “intermediário honesto” ou neutro.

Além do mais, Israel continua a avançar sistematicamente pelo vale do Jordão, expulsando palestinos, implantando colônias, fechando poços e, por inúmeras vias, garantindo que a região – cerca de 1/3 da Cisjordânia, com grande parte de sua terra arável – acabe integrada a Israel, como outras regiões que vão sendo invadidas.

Os cantões palestinos remanescentes serão completamente cercados. A unificação com Gaza interferiria nesses planos, que já estão traçados desde os primeiros dias da ocupação e recebem apoio monolítico de todos os principais blocos políticos israelenses.

Israel talvez sinta que a tomada de território palestino na Cisjordânia já avançou tanto, que pouco há a temer de alguma forma limitada de autonomia que os enclaves que permanecem palestinos venham a ter.

Palestina - Gaza e Cisjordânia (WEST BANK)
Há também alguma verdade no que disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu:

Muitos elementos na região já entendem hoje, na luta na qual são ameaçados, que Israel não é inimiga, mas parceira.

Presumivelmente aludia à Arábia Saudita e aos Emirados do Golfo.

Mas o principal correspondente diplomático de Israel, Akiva Eldar, acrescenta que:

(...) todos esses “muitos elementos na região” também compreendem que não há nenhum movimento diplomático audaz e amplo, no horizonte, sem um acordo sobre o estabelecimento de um estado palestino baseado nas fronteiras de 1967 e solução justa, aceita pelos dois lados, para o problema dos refugiados.

Nada disso está na agenda de Israel, diz ele; e, de fato, permanece em conflito direto com o programa eleitoral sobre o qual foi eleita a coalizão Likud, hoje no poder, jamais cancelado, e que:

(...) rejeita completamente o estabelecimento de qualquer tipo de estado árabe palestino a oeste do rio Jordão.

Alguns analistas israelenses que se devem considerar, por exemplo o colunista Danny Rubinstein, acredita que Israel está decidida a reverter esse curso e relaxar o cerco com o qual estrangula Gaza.

Veremos.

Os registros dos últimos anos sugerem coisa bem diferente, e os primeiros sinais não são auspiciosos. Ao final da Operação Bainha Protetora, Israel anunciou e fez a maior apropriação ilegal de terra da Cisjordânia em 30 anos, de quase 1.000 acres.

Há quem diga, dos dois lados, que, se a solução dos dois estados está morta, como resultado do roubo de terras palestinas por Israel, nesse caso o resultado será um só estado, a oeste do rio Jordão.

Alguns palestinos aceitam essa solução, antecipando que possam engajar-se em luta por direitos iguais, semelhante à luta anti-apartheid na África do Sul. Muitos comentaristas israelenses alertam que o “problema demográfico” que se cria por nascerem mais árabes que israelenses, e por estar diminuindo a imigração de judeus, acabará por minar qualquer esperança que Israel tenha de vir a ser “estado judeu democrático”. São crenças muito divulgadas, que não merecem nenhuma confiança.

A alternativa realista a uma solução de dois estados é Israel prosseguir na implementação do plano que vem implementando há anos: roubar tudo de valor que haja na Cisjordânia, evitar concentrações de população palestina; e remover os palestinos de áreas que vão sendo roubadas por Israel. Assim se resolve também o temido “problema demográfico”.

As áreas de terra que vão sendo roubadas e ocupadas incluem uma muito expandida Grande Jerusalém, a área interna do muro ilegal de separação, corredores que cortam as regiões para o leste e, provavelmente, o vale do rio Jordão.

Como Israel vem ROUBANDO terras da Palestina desde 1946 até 2013 (ROUBOU ainda mais em 2014)
Gaza provavelmente continuará sob o sítio terrível em que vive hoje, separada da Cisjordânia. E as colinas sírias do Golan – anexadas, como Jerusalém, em ato que violou ordens do Conselho de Segurança da ONU – tornar-se-ão aos poucos parte também da Israel Expandida. Enquanto isso, os palestinos da Cisjordânia ficarão contidos em cantões inviáveis, com acomodações especiais para as elites em estilo neocolonial clássico.

A colonização da Palestina pelos sionistas há um século vem sendo feita a partir do princípio pragmático de criar e fixar fatos em campo, o que, com o tempo, o mundo acabou por aceitar. É política muitíssimo bem-sucedida. Há todas as razões para prever que essa colonização persistirá, exatamente como é feita hoje, enquanto os EUA continuarem a providenciar todo o apoio militar, econômico, diplomático e ideológico necessário.

Para todos que se preocupem com os direitos dos palestinos diariamente brutalizados, não pode haver prioridade mais urgente ou mais alta do que trabalhar para mudar as políticas dos EUA – o que absolutamente não é delírio ou sonho inalcançável.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 8−15/8/2014

25/8/2014, [*] Conflicts Forum de 8-15/8/2014
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário da Maria Boa, Cuscuzeira da Vila Vudu, sobre a frase-chave: “O maior risco que o sistema financeiro global corre não é a recessão, mas a exposição ao risco político; TAÍ! TAÍÍÍÍ! Isso explica o interesse direto, diretíssimo, que George Soros, Banco Itaú et caterva adjunta têm nas eleições no Brasil; por isso também, eles PRECISAM ELEGER candidato DELES; por isso estão INVENTANDO a tal de Marina Silva, só porque não há ninguém melhor que isso, depois que cerras & aécins se autodetonaram pela própria exposição deles mesmos ao que eles chamam de “risco político”, mas é, de fato, para eles, um “risco democrático” ou “perigo democrático” ou “ameaça democrática”.

Estátua de Sócrates
(em frente à Academia - Atenas, Grécia)
Para os filósofos antigos, matar – e o pólo oposto, viver em paz – eram coisas curiosamente inter-relacionadas. Esses dois polos aparentemente opostos mantinham-se sobre um fio de navalha: a qualquer instante, um dos polos sempre podia deslizar na direção do outro. Em outras palavras, implica que cada um desses lados (o mecanismo para matar e o mecanismo para fazer-viver) é de algum modo constituído pelo outro e é inerente ao outro.

Quando as energias humanas são distorcidas, diziam os antigos, emerge um ciclo vicioso: a temperatura (o temperamento!) se aquece, produz-se volatilidade, que produz arbitrariedade e intenções flutuantes, intenções frustradas produzem emoções, e emoções inflamadas geram o impulso irresistível para agir (eventualmente, para matar).

Mas o que nós (humanos) enfrentamos nessa “luta” – quando somos tomados por aquela volatilidade – não é algo “real”. No Hades, Hércules, quando tenta degolar o Cérbero e demais demônios do “outro-mundo”, é admoestado firmemente por Hermes, que o faz lembrar-se de que aqueles monstros apavorantes que ele tenta matar não são reais. Não podem portanto ser mortos pela espada. Aqueles monstros são imagens: os “demônios” que Hércules tenta “matar” brotaram do fundo de sua própria psique

Hércules e Cérbero
(De Zubaran)
A chave aí é “virar tudo”: mudar do niilismo do fazer-morrer, para o fazer-viver. Não é mudança fácil (os antigos sempre alertam), mas um ciclo virtuoso está à distância de um fio de navalha; ideia crucial para conseguir essa virada é capacidade para compreender polaridades aparentemente opostas inerentes a todas as coisas: ver com “dois olhos”.

Aí parece estar o significado da luta recente em Gaza. Israel simplesmente não pode, não consegue, considerar a possibilidade de dar a virada: sair do fazer-morrer (matar) para o fazer-viver. Está condenada, como Hércules, ao impulso de continuar a ferir com sua espada impotente os “demônios” do , “outro-mundo”.  Mas não tem quem a oriente (um Hermes!), exceto uns poucos, raros homens e mulheres de coragem, e diga aos israelenses que aqueles demônios tornaram-se tão assustadores para os israelenses precisamente porque estão enterrados no fundo da psique coletiva deles mesmos. Não se cogita de ver o outro lado; nenhuma virada parece possível. O temperamento (a temperatura!) dos muçulmanos, em resposta ao massacre sem fim, só se aquece cada vez mais; e sentimentos – já inflamados – exigem ação. A crise sempre se agrava.

E na esfera sunita, o mecanismo niilista está-se abrindo em vários fronts: o ISIL estabeleceu uma cabeça de praia no Líbano, na cidade de Arsal, e a dinâmica adversa desse conflito com o exército libanês já se alastra até Trípoli, a segunda maior cidade do Líbano; até Accra; e até o campo de refugiados Ain el Helewei. O ISIL abriu uma frente contra os curdos da Síria e de Barzani no Iraque (dando a Maliki a oportunidade para oferecer apoio aéreo à guerrilhaPeshmerga que combate contra o ISIL); o ISIL continua a consolidar seu “estado”(tomando mais campos de petróleo, executando dissidentes e ocasionalmente crucificando um ou outro) no Iraque e na Síria; e já está em luta contra a frente Zarqawi na Líbia.


O reino tem procurado ajuda do Egito e do Paquistão. Ninguém sabe exatamente o que o ISIL teria planejado, mas é claro que grupo desse tipo atacará Meca, se puder. Esperamos que eles [ISIL] percam impulso; mas não vamos correr riscos – disse um conselheiro do governo saudita.

Meca e a peregrinação do Islã
O que estamos vendo aqui – na esfera sunita – é a inversão, de cabeça para baixo, de uma estratégia que foi a pedra de toque do pensado dos EUA e do ocidente em geral para o Oriente Médio por pelo menos 60 anos: a ideia de que a Arábia Saudita poderia “administrar” o Islã sunita e levá-lo a promover seus interesses, de ter um “Islã” atenuado, de “uma voz” (salafista), uma autoridade (o Rei) e uma única leitura do Corão (o que implica controlar também a mesquita) – ao mesmo tempo em que vai facilitando os objetivos políticos dos EUA no Oriente Médio e além.

O Islã sunita foi “administrado” para conter a influência soviética no Oriente Médio; para minar o ba’athismo e o nasserismo; para derrotar a União Soviética no Afeganistão; para conter o Irã; para minar o presidente Assad na Síria e para lançar um golpe de estado contra o governo do primeiro-ministro Maliki no Iraque.  Esse relacionamento íntimo efetivamente ligou o Ocidente intimamente à segurança do Golfo e, mediantes suas diversas intersecções (SandhurstWest PointWall Street e a City), os governos ocidentais acabaram por assimilar profundamente a “narrativa” do Golfo.

Passar à Europa e aos EUA o bastão da “narrativa” saudita facilitou pintar o rival regional dos sauditas (Irã) como o “outro” ameaçador, perigoso, aos olhos ocidentais.

Durante a maior parte desse período, a Arábia Saudita, sim, administrou e financiou o “gênio” do radicalismo sunita incendiário, na direção do que interessava à Arábia Saudita e aos EUA. Até a própria al-Qaeda realmente se enquadrou e ali permanece, dentro do paradigma wahhabista. Mas o ISIL, não. O ISIL é diferente.  

Tanque T62 capturado do exército iraquiano pelo ISIL  desfila em Al-Raqqah-Iraque
O ISIL está realmente em guerra contra o Reino Saudita, diferente do falso conflito que “havia” entre sauditas e o bin-ladenismo. O ISIL acintosamente descarta os três pilares da legitimidade e da autoridade dos sauditas, e reinterpretou a história islâmica para fazer-lhes guerra e tomar-lhes o poder: os estados do Golfo estão exatamente na linha de tiro do ISIL. O “gênio” converteu-se no senhor que, originalmente, o libertara da lanterna onde vivia preso.

O que todos esses conflitos disparatados no Oriente Médio têm em comum? Todos eles são conflitos profundamente antissistema, cada um a seu diferente modo. Todos eles visam a pôr abaixo a velha ordem. Em Gaza, as pessoas já não suportam viver sob sufocamento. Querem romper o cerco – mesmo que lhes custe preço altíssimo, em sofrimento pessoal. A posição do Hamás (ala militar que está comandando a ação) é clara: nada mais de “remendos” distribuídos pelo Egito ou mediadores ocidentais: “ponham fim à prisão de Gaza”. Israel talvez até deseje, de certo modo, fazer exatamente isso, mas não pode.

O ISIL também está tentando pôr abaixo a velha ordem (a Ordem Árabe) e tomar o poder pela violência, usando os métodos horrendos dos dois primeiros Califas, Abu Bakr e Omar (ou táticas de Ghengis Khan, de usar o medo absoluto para avançar sobre as fortalezas do poder, sem muito trabalho). Irã e Síria desafiam a ordem global – e sentem em Rússia e China parceiros poderosos para essa empreitada.

A “velha ordem” está visivelmente ruindo – e como um dos convidados de recente seminário deste Conflict Fórum observou acuradamente, a “nova ordem” será forjada por aqueles estados cujos populações mostrem-se cheias de vida e vitalidade; que conservaram a própria soberania ou que a reconquistaram – e que comandem fontes de energia e outros recursos.

Não surpreende que Washington não saiba o que fazer sobre Gaza, ISIL, Síria, Líbia, Egito, etc., etc.. Os EUA estão em declínio, a ordem global faliu; e Arábia Saudita e Israel (os dois “escritórios de negócios” dos EUA na região) estão ambas em confronto com o atual governo dos EUA, e estão totalmente incapacitadas para qualquer “virada” que lhes permitissem emergir da crise. Para ser justo: há bem pouco que os EUA possam fazer.

Qual então a importância de todo esse tumulto no Oriente Médio bizantino, para os americanos ou europeus médios? Por que ele/ela não pode simplesmente ignorar aquele tumulto?

A resposta é que o maior risco que o sistema financeiro global corre não é a recessão, mas sua exposição ao risco político.

O pool de dinheiro líquido real dos Estados do Golfo é parte absolutamente indissociável de um sistema financeiro alavancado e endividado até os olhos. O Golfo é essencialmente o único grande pool de “dinheiro livre” que restou no mundo. O resto não passa de um hiperpesado edifício “Ponzi” de crédito alavancado globalizado, que se equilibra sobre uma base mínima de “dinheiro (europeu e norte-americano) hipotecado”. O sistema global simplesmente não suportará uma quebradeira do Golfo ou regional [orig. a Gulf or regional meltdown]. Agora, sim, esse é risco real: em Gaza, no ISIL, numa grande confrontação no Iraque que arraste para lá a Arábia Saudita e o Irã – tudo isso, agora, é possível.

Petrodólar, o risco da crise no Oriente Médio

E é essa “ameaça” de risco político e a natureza de nosso sistema financeiro global que aproxima e ata um ao outro os dois riscos de conflito: no Oriente Médio e na Ucrânia – como uma única categoria de “exposição política”.

Um sistema financeiro global pode dar aos EUA poderes não controláveis para “disciplinar” outros estados; mas precisamente porque é global, o sistema se torna altamente vulnerável a crises do Oriente Médio que ameaçam aquele seu pool de dinheiro no Golfo – ou causam torvelinho mediante o medo na mesma região. Esse pool tornou-se inerente, indissociável deWall Street, da City de Londres e da estabilidade financeira do ocidente.

É o sistema financeiro global também – por causa da atual centralidade nos EUA e no dólar – que conecta diretamente a Ucrânia aos conflitos centrais no Oriente Médio. Impuseram-se sanções à Rússia; mas ao sancionar a Rússia, a Europa e os EUA geraram o ímpeto para que Rússia e China desenvolvessem um comércio multimonetário paralelo ao dólar, e para empurrar o renminbi na direção de tornar-se moeda paralela de reserva. O quanto e com quanta determinação Rússia e China meterem o pé por essa trilha terão implicações profundas para o Oriente Médio.

O conflito na Ucrânia ressoa fortemente pelo Oriente Médio

Síria e Irã (e outros) facilmente leem a intervenção ocidental na Ucrânia como repetição de outras intervenções comandadas pelo ocidente e atentadas contra seus países. Depois que sanções relacionadas à Ucrânia foram impostas à Rússia, a Rússia, em movimento de retaliação, moveu-se para estrategicamente mais perto de Irã, Síria, Iraque e Egito.

Sistema financeiro global baseado no US dólar
A criação e o início de qualquer sistema financeiro paralelo permitirá ao Irã livrar-se dos tentáculos do Tesouro dos EUA e passar ao largo do sistema financeiro baseado no dólar; o mesmo vale para a Síria. E não há mudança no sistema financeiro global que não afete os Estados do Golfo. A fatia em dólares das reservas globais já encolheram para 61%, dos mais de 72% em 2001. Se Rússia e China começam a negociar energia fora do sistema baseado no dólar, a OPEP não conseguirá ignorar esse desenvolvimento.

Em resumo: as ondas geradas pelas sanções contra a Rússia terão forte influência para definir a região: o quanto a Rússia estiver à frente, quando reemergir depois desse conflito, será o quanto os sauditas e os Estados do Golfo estarão enfraquecidos. O grau em que a Rússia reorientar sua política energética em consequência das sanções, será o grau em que se redefinirá a direção dos futuros oleodutos da bacia Iraque-Irã e a orientação da energia de toda a região. (o Iraque não esquecerá a rápida ajuda que a Rússia garantiu-lhe, depois do assalto do ISIL  ao Iraque).

Dessa ampla categoria de risco político dentro do sistema financeiro global, o efeito do potencial para escalada que se constata no conflito da Ucrânia (e seu impacto no Oriente Médio) é o mais perigoso.

[A análise de situação de Conflicts Forum, datada da 1ª quinzena de agosto, desatualizou-se e foi aqui omitida. Atualizaçoes são encontradas  e no blog redecastorphoto (NTs)].

Destroços do MH17 na Ucrânia
Putin parece estar jogando no longo prazo: a Rússia anunciou contramedidas muito cuidadosamente construídas. Interessante, concentram-se em produtos agrícolas, muito mais do que em produtos de alto valor tecnológico (o que é um modo de preservar a força das exportações da Alemanha para a Rússia). (...).

O “cisne negro” no contexto europeu parece ainda ser o ataque ao voo MH17 (sic). Ainda não se viram provas que expliquem o destino do avião. Aconteça o que acontecer, nada alterará o curso da narrativa dos EUA (como o professor Stephen Walt escreveu recentemente,“os neoconservadores são sempre lépidos ao espancar a verdade, para promover seus objetivos políticos”), mas muita coisa pode acontecer que afete a opinião pública alemã. Depois do escândalo da Agência de Segurança Nacional dos EUA, os alemães mantêm-se com um pé atrás, em tudo que envolva a veracidade de informes sobre a economia dos EUA.
_____________________

[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.