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domingo, 10 de maio de 2015

Novo livro de Jean-Luc Mélenchon e o Arenque de Bismark

7/5/2015, Editora Plon; Paris
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Comentários sobre o livro O Arenque de Bismark (O veneno alemão)

Primeiro, sobre o tal “Arenque de Bismarck”:


Arenque de Bismarck para François Hollande
17/4/2014, Brice Gruet, Géographies imaginaires/ Insolite (Comentário)

Na foto acima, François Hollande exibe sua barriquinha de arenques, visivelmente felicíssimo, ao lado de Angela Merkel (Foto Bundesregierung/ Bergmann).

Le Canard enchaîné dessa semana chamou atenção para uma incongruência cultural, em relação à qual se pode perguntar até que ponto foi desejada ou não... Conjecturas, essas, podem ir bem longe.

O que se sabe com certeza é que Angela Merkel recebeu em suas propriedades do Báltico, para uma visita “privada”, o presidente François Hollande. E a chanceler ofereceu uma barriquinha de arenques à Bismarck ao presidente da França. Hollande achou “maravilhoso” o presente.

Sem dúvida, o arenque bem preparado é ótimo, e o Báltico é farto desses peixes que são, em seguida, marinados em salmoura. O arenque foi produto importante durante todo o período medieval, notadamente nas Repúblicas Hanseáticas do norte da Europa. Durante a quaresma, e nos dias de jejum da cristandade, o consumo de arenque sempre foi considerável. Como o bacalhau nos países mais ao sul. Como se aprende de La Voix de la Russie, “a preparação tradicional alemã ‘arenques à Bismarck’ (em alemão Bismarckhering) parece ser a mais conhecida. O peixe é preparado em pequenos pedaços e marinado em sal, vinagre, cebola, grãos de mostarda e louro. Às vezes acrescenta-se cenoura cortada em cubinhos bem pequenos.

“Se o arenque fosse caro como caviar, o mundo inteiro preferiria o arenque” – dizia Bismarck, louco por arenque. Uma das versões reza que um vendedor de peixes de Stralsund, Johann Wihman, enviou em 1871 a Bismarck uma barriquinha de arenque especialmente preparado, e que o chanceler tanto apreciou, que autorizou que a preparação levasse seu nome, “arenque à Bismarck”. Segundo outras versões, um proprietário de restaurante de Flensburg foi quem enviou os arenques a Bismarck. Seja que tenha sido, a glória do arenque atravessou fronteiras nacionais. O autor de um livro de gastronomia publicado pela primeira vez em New York em 1913 escreveu: “provavelmente a glória de Bismarck estará já esquecida há mil anos, mas o arenque à Bismarck será servido até que esse peixe desapareça dos mares”.

Agora, em 2014, a Merkel oferece uma barriquinha de arenques à Bismarck a Hollande... Que sentido terá esse gesto que remete a episódios tão sombrios da história da França? Bismarck para os franceses está mais associado ao imperialismo e ao pangermanismo alemão, aos quais a Alsace Lorraine pagou alto preço. Ao mesmo tempo, todos os homens importantes (Bismarck é um desses) deixaram marcas na gastronomia de seu tempo. Se Hollande aceitou o presente foi, talvez, porque aquela época de guerras está suficientemente distante para que a carga negativa do personagem já esteja atenuada. Sobre a França, os alemães dizem Glücklich wie Gott im Frankreich, “Feliz como Deus na França”. Existe uma geopolítica culinária” (Geographica). (Da qual o sorrisinho zombeteiro da chanceler alemã naquela foto, parece fazer prova [NTs]).




Ontem, 5ª-feira, 7 de maio de 2015, a editora Plon lançou o novo livro de Jean-Luc Mélenchon, intitulado Le Hareng de Bismarck (Le Poison allemand) [O arenque de Bismarck (O veneno alemão)]. Eis o que o autor escreveu na quarta-da-capa:

Esse livro é um panfleto. Assumo para mim o direito de criticar a Alemanha. Por que não? Não viram como a Alemanha tratou a Grécia? Aperitivo para o que fará com a França? Nesse livro denuncio o grave perigo em que a Alemanha converteu-se para seus vizinhos e parceiros. Denuncio a arrogância dos banqueiros alemães e o dito “modelo” que a Alemanha quer impor à Europa para vantagem exclusiva da própria Alemanha. Mostro o quanto de atraso para nossa civilização implicará nos rendermos ao “modelo” alemão. É um alerta. Além-Reno nasceu um monstro: filho da finança completamente desregulada e de um país dedicado integralmente à finança, necrosado pelo envelhecimento acelerado da população. Essa aliança macabra está em campo, para remodelar a Europa à feição dela.

É fato que a Europa vai mal. O veneno alemão é o ópio dos ricos. Mudar nossa vida e fazer a Alemanha mudar é uma e a mesma coisa. Para Jean-Luc Mélanchon, da Frente de Esquerda (Front de Gauche), É preciso fazê-lo, antes que seja tarde demais

Atualização: Entrevista Jean Luc Mélenchon a Emmanuel Berretta do Le Point

Jean-Luc Mélenchon
Para a revista Le Point, o livro é mesmo um panfleto: “O líder da Frente de Esquerda ataca o modelo alemão, em livro que, simbolicamente, será lançado dia 7 de maio”. [1] Aqui, Mélenchon responde perguntas da revista Le Point, sobre seu livro.

Le Point: Em política é preciso ter sempre um inimigo. Nesse panfleto “O arenque de Bismark”, o senhor designa o seu novo inimigo: os alemães. Por que a mudança? Por que os alemães, não mais os EUA?

Jean-Luc Mélenchon: Calma lá! Devagar com o andor... Nada disso. Meu estado de espírito não é esse. Não me oponho a algum ‘genoma’ alemão que os empurraria a sempre querer dominar. Quanto a inimigos, tenho inúmeros! O que não me falta é inimigo. Meus inimigos são os mesmos de antes: a finança e o produtivismo. A questão é que a Alemanha tornou-se a ‘vanguarda’ da finança e do produtivismo! Para começar, não apenas a Europa não é mais o grande projeto social com o qual sonhávamos: a Europa já não é sequer garantia de paz. 


Isso, porque, no concerto das nações, uma delas, a Alemanha, toma a frente dos demais e impõe um modelo econômico, o ordoliberalismo.

O ordoliberalismo serve aos interesses da Alemanha, mas conduz inelutavelmente à catástrofe. Meu livro é um grito de alerta. A Europa vai afogar-se na violência dentro de cada país e também entre os países. O suplício da Grécia está aí, como prova.

Le Point: E o que é o ordoliberalismo?

Jean-Luc Mélenchon: Os alemães inventaram essa velha teoria. Segundo ela, a política é frivolidade, e a economia é sagrada. São consagradas portanto, como intocáveis, as regras econômicas; são consideradas como leis da natureza. Assim sendo, as leis econômicas são postas fora do alcance das decisões políticas. Na realidade, é uma espécie de embalagem para um egoísmo bem preciso de classe média. Mme Merkel governa um país que está em pane demográfica. A maioria dos eleitores dela são aposentados! A aposentadoria por capitalização, dos idosos alemães, exige a cada dia mais dividendos. Quer dizer: menos salários e menos investimentos. Reina a finança! A finança domina o capitalismo alemão, graças à desregulação total organizada pelo Partido Socialista alemão: é desregulação plena, total, o cúmulo.

Le Point: Daí a regra de ouro dos déficits?

Jean-Luc Mélenchon: De manter os níveis determinados para os déficits, sim, é isso. Mas além disso, o dinheiro é fetichizado, a inflação e a dívida são demonizadas. É uma visão dogmática muito enviesada. Os líderes alemães a assumem sem se darem conta do que estão fazendo. Por isso aquele odioso ministro alemão da Economia, M. Schäuble, declara que “a França gostaria muito de que alguém mandasse no Parlamento...” e, na sequência, lastima: “mas não será possível. É a democracia”.

Essa frase é como um manifesto do ordoliberalismo: a democracia é um problema para eles, porque a democracia permite que o político desminta e renegue o dogma econômico. A França, sua história, a cultura francesa são o contrário do ordoliberalismo: todas as nossas constituições republicanas “intrometem-se” na economia. Por que a França deveria renunciar ao nosso modelo?

Aos meus olhos, o modelo francês é superior ao modelo alemão, no que tenha a ver com organizar a vida humana em sociedade. O ordoliberalismo é antirrepublicano. Ele destrói os laços sociais e a vida cívica.

Le Point: Pierre Moscovici diz que o senhor comete um contrassenso. Para ele, Schäuble não falava a sério, era brincadeira...

Jean-Luc Mélenchon: O servilismo de Pierre Moscovici dá vergonha.

Le Point: Desculpe, mas os alemães não nos impõem coisa nenhuma. Já há nove anos nós respeitamos a regra dos 3% de déficit. Quer dizer: os franceses damos alegremente as costas ao ordoliberalismo.

Jean-Luc Mélenchon: É incrível isso que você está dizendo. Quer dizer que tratados inaplicáveis deveriam ser considerados santificados? Tratados são assuntos humanos. É preciso discutir o conteúdo dos tratados em relação aos resultados deles. A Europa estamos nadando em felicidade? Não, não estamos. O desemprego e a miséria martirizam massas humanas consideráveis. Por todos os lados a extrema direita está em ascensão. E a Alemanha acumula os excedentes comerciais. E o que faz com eles? Ela põe os excedentes nos mercados financeiros, porque a Alemanha sufocou, em toda a Europa, a atividade econômica. Ao fazê-lo, a Alemanha alimenta ela mesma a bolha financeira que logo, logo, explodirá. Aí está: bom-dia, modelão.

Le Point: Passa pela sua cabeça realmente que François Hollande possa vender aos alemães o modelo francês?

Jean-Luc Mélenchon: Não. François Hollande mudou de lado. Ele governa para o ordoliberalismo. Os franceses não sabiam que, votando em Hollande estavam elegendo Merkel. Ele até já confessou: “A França quer ser o melhor aluno na sala de aula europeia”. Para mim, a França não é aluna de ninguém e muito pode ensinar a outros. E, em vários assuntos, melhor que seja a mestra.

Le Point: Quem lê o que o senhor escreveu, deduz que os alemães reivindicam uma reputação de seriedade a que não fazem jus.

Jean-Luc Mélenchon: Os franceses adoram modas, ondas sucessivas de “modelos”. Já tivemos a moda dos “dragões asiáticos”, depois dos “tigres europeus”, como Irlanda ou Espanha. Todos tigres de papel, isso sim, que naufragaram na explosão da bolha financeira em 2008. E agora aí está o “modelo alemão”, eficaz, disciplinado. Que ilusão!

A economia alemã está dilapidada. Infraestrutura e equipamentos públicos em ruínas, 12 milhões de pobres, cada vez menos crianças, jovens que se mudam do país, velhos que ficam para trás e expectativa de vida cada dia menor, quem quer ser alemão? Meu livro retoma o debate europeu.

O que se anunciava é que faríamos a Europa, sem desfazer a França. O que se vê hoje é que se desfaz a França, sem fazer a Europa dos seres humanos. A Alemanha nos domina, nos corrige, nos separa de nossas bases mediterrâneas. O que resta? Só um grande mercado que nega nosso modelo colbertista, que é nosso patrimônio. Na França, o empresário vive à frente do pelotão posto ali pelo Estado. Quando se tentam as fusões, é o estado que toma as rédeas do processo. E hoje temos 50% do mercado mundial. Não há uma única medida europeia bem sucedida que, na origem, não seja francesa. Nenhuma. A Alemanha nos faz afundar.

Le Point: O senhor dá a impressão que a França nada mais tem a fazer com a Alemanha...

Jean-Luc Mélenchon: Não, não digo isso, nem nesses termos. Seja como for, a Alemanha está aí. Mas não podemos aceitar que nos domine. Meu livro mostra os abusos de poder. E a mania de impor aos demais o que a Alemanha ache bom para ela. A saída razoável não é entrar em luta, mas pôr a Alemanha no lugar dela. E fazer ouvir, sem complexos, nossa mensagem francesa universalista.

O aposentado alemão não é o único do mundo; e é preciso levar em conta a sorte dos jovens franceses, dos jovens de todo o planeta. A Europa é a primeira potência econômica do mundo. Isso nos impõe responsabilidades. O ordoliberalismo alemão não permite que assumamos as nossas responsabilidades. Nenhuma delas.
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Nota dos tradutores

[1] Dia 7 de maio de 1945 o exército alemão assinou a rendição militar. Dia seguinte, na noite de 8 para 9 de maio de 1945, à 0h16 na Rússia (23h16 no ocidente), na vila de Karlshorst, quartel-general do marechal Georgi Joukov, nos arredores de Berlim, onde é hoje o museu germano-russo Berlin-Karlshorst, foi assinada a rendição incondicional do 3º Reich às forças aliadas). O ato de capitulação entrou em vigor às 23h1, hora local (na Europa Central), dia 9 de maio, 1h1, hora de Moscou. Por essa razão, toda a Europa Oriental comemora o fim da guerra no dia 9/5 

terça-feira, 8 de julho de 2014

FMI empurra Ucrânia para “suicídio voluntário”

7/7/2014, [*] Michael Hudson (entrevistado), “Truthseeker”, RT TV
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu



Os alfarrábios pós-bolha assumem que chegamos ao “fim da história”, no que tenha a ver com grandes problemas. Mas ainda falta desmascarar e criticar o grande quadro: o modo pelo qual Wall Street financeirizou o domínio público para inaugurar uma economia neofeudal de pagar pedágio [orig. toll-booth] aos rentistas, ao mesmo tempo em que privatizou o próprio governo que, nos EUA, passou a ser governado pelo Tesouro e pelo Federal Reserve.

A história em que ninguém toca é a história de como o [vaidoso, presunçoso, “ético”, moralista, metido a besta] capitalismo industrial [liberal] sucumbiu a um capitalismo financeiro insaciável e insustentável, o qual – perfeito neo “estágio final”! – é jogo de soma zero (só um ganha e, esse, leva tudo) jogado pelo capitalismo - de - cassino baseado em trocas de papéis “derivativos” e fundos hedge, as mais novas “inovações” da jogatina e da agiotagem.

Michael Hudson, 20/5/2009, Counterpunch, em: The Toll Booth Economy trecho aqui traduzido e acrescentado [NTs].



Michael Hudson no "Truthseeker" da RT
O “apoio” ocidental permitirá novos empréstimos pelo FMI e pelos europeus para segurar a moeda ucraniana, até que os oligarcas ucranianos possam transferir com segurança o dinheiro deles para bancos britânicos e norte-americanos – explica o economista Michael Hudson a RT.

RT: O senhor pode resumir para nós as etapas tentadas e testadas que resultarão dos empréstimos pelo FMI à Ucrânia, com o melhor do patrimônio público da Ucrânia sendo transferido para proprietários privados ocidentais – a função “quebra-joelho” do FMI, como o senhor a definiu memoravelmente?

Michael Hudson: O princípio básico a ter em mente é que a finança hoje é guerra, por meios não militares. O objetivo de empurrar o país até que se perca no endividamento, é conseguir arrancar dele o superávit econômico, apossando-se, logo depois, da propriedade nacional. A principal propriedade nacional a ser “obtida” é aquela que gere exportações e divisas (moeda estrangeira). No caso da Ucrânia, significa a manufatura concentrada no leste e as empresas de mineração – itens que, hoje, estão em mãos dos oligarcas. Para os investidores estrangeiros, o problema é como transferir para mãos estrangeiras esses bens e a renda que eles geram – numa economia cujos pagamentos internacionais estão presos em déficit crônico, resultado da fracassada “restruturação” pós-1991. É onde o FMI entra.

O FMI não foi criado para “consertar” déficits domésticos de governos. Os empréstimos que o FMI faz têm destino definido: têm de ser usados para pagar credores externos, sobretudo para manter a taxa de câmbio do país. O efeito, quase sempre, é subsidiar capital especulativo que voa para fora do país – com juros cambiais maiores; para os depositantes e credores sobram menos dólares ou euros. No caso da Ucrânia, entre os credores estrangeiros estaria a Gazprom, que já recebeu alguma coisa. O FMI transfere um crédito para sua “conta Ucrânia”, a qual então paga credores estrangeiros. O dinheiro realmente jamais chega à Ucrânia ou a outros países que tomam empréstimos do FMI. É depositado em contas de estrangeiros, inclusive governos estrangeiros tomadores, como no caso dos empréstimos do FMI à Grécia. Esses empréstimos vêm com “condicionalidades”, condições impostas para obter o empréstimo. Uma dessas “condicionalidades” é a que impõe a “austeridade”.  Esse processo de novos empréstimos aumenta o endividamento – o que força o governo a apertar cada vez mais o orçamento, trabalhar com déficits orçamentários menores e vender patrimônio público. 

RT: A Ucrânia deve esperar o chamado “efeito-FMI”, com 1/5 da população empurrada para emigrar. Quais as consequências de o país ver partir a parte de melhor formação educacional e profissional da população?

MH: A Ucrânia já depende do dinheiro que os emigrados mandam para casa, que já chega a 4% do PIB (cerca de US$ 10 bilhões/ano.) A maior parte desse dinheiro vem da Rússia, o restante da Europa Ocidental. O efeito dos planos de austeridade do FMI é forçar maior número de ucranianos a emigrar à procura de emprego. E eles terão de mandar para as famílias parte do dinheiro que ganhem fora da Ucrânia, o que fortalecerá a moeda ucraniana na relação com o rublo e com o euro.

RT: Em que sentido as ferramentas do FMI são, na realidade, “armas de destruição em massa”, como o senhor escreveu? [1]

MH: Déficits mais baixos de orçamento provocam “austeridade” e desemprego ainda mais profundos. O resultado é uma espiral econômica para baixo. Menos renda, menos arrecadação de impostos. Então os governos são mandados equilibrar os orçamentos... com a venda de patrimônio público – principalmente monopólios existentes, cujos compradores podem aumentar os preços, para fazer aumentar os lucros e o saque econômico. O efeito disso é converter a economia numa economia de “pagar pedágio” aos rentistas. As estradas públicas recebem “postos de [pagar] pedágio”, outros sistemas de transporte, água, esgotos, são privatizados. Isso faz aumentar o custo de vida, e, portanto, o custo do trabalho – mas os salários são reduzidos e reduzidos, sangrados pela austeridade financeira que faz encolher os mercados e eleva o desemprego.

RT: Pode-se dizer que o FMI é “arma de destruição em massa” também em sentido mais literal. A organização ameaçou publicamente e chantageou a Ucrânia; disse que teria de “redesenhar” o pacote de ajuda, a menos que Kiev fizesse guerra contra os ucranianos no leste do país e impedisse os protestos. Essa atitude não converte o FMI em criminoso, literalmente, no mínimo cúmplice ou instigador de guerra e assassinato?

MH: A “condicionalidade” do FMI prevê que assim estaria “pacificando” o leste da Ucrânia. Nessa retórica orwelliana, pode-se pacificar a ferro e fogo; pacificação à bala é a paz dos cemitérios.

O único meio pelo qual se pode alcançar paz econômica e política real é uma federalização da Ucrânia, com unidades independentes, mas coligadas, de modo que cada região consiga ser independente dos cleptocratas em Kiev – a maioria dos quais “nomeados” pelo ocidente.

Quanto às acusações de práticas criminosas, sempre dependem do acusador, do procurador e da corte! Até hoje, nenhum país acusou o FMI por crimes de guerra ou por crime econômico. O máximo que os eleitores podem fazer é rejeitar governos que se rendam às condições que o FMI imponha. Muitos eleitores que podem votarão “com os pés” e andarão para bem longe das urnas eleitorais, simplesmente abandonarão a economia que naufraga. Portanto, o que se deve reconhecer a favor do FMI é que a Ucrânia e outros dos seus “clientes” estão cometendo suicídio voluntariamente. Não se pode dizer que estejam sendo assassinados. A austeridade é uma política. Só raramente os neoliberais armam-se e assassinam governantes que se oponham à austeridade.

Mas, sim, foi exatamente o que aconteceu no Chile, em 1974, no governo de Pinochet. O governo dos EUA estava, então, sim, por trás dos assassinatos. Nesse sentido, pode-se dizer que a Ucrânia é replay do Chile (e do Brasil/1964 [Nrc]) há quarenta anos.

RT: Todos conhecem os efeitos da austeridade na Grécia e em outros países; pesquisas mostram que muitos ucranianos rejeitam a austeridade; hoje, até o FMI já admite que a austeridade não funciona. Por que os governantes da Ucrânia insistem nisso? Será que receberam “garantias” e já têm emprego prometido no ocidente, depois que forem expulsos de seus países, talvez, pelas urnas?

MH: Os líderes ucranianos são, praticamente todos, cleptocratas. O objetivo deles não é ajudar o país, mas ajudar a consolidar o próprio poder. O objetivo deles não é ajudar o país, mas ajudar a consolidar o próprio poder deles. George Soros escreveu que o melhor modo de eles fazerem isso é encontrar sócios ocidentais. Assim os EUA e a Europa terão meios para apoiar os cleptocratas, no processo de fecharem o cerco à economia. Apoio ocidental garantirá mais empréstimo à moda FMI para reforçar a moeda ucraniana, de modo que os ucranianos possam levar seu dinheiro em segurança para o ocidente, para bancos britânicos e norte-americanos.

RT: O senhor entende que a União Europeia chegará a acolher a Ucrânia como membro pleno, para que, nos termos do acordo de associação, os estados-membros possam arrancar do país a melhor parte de seu patrimônio e usar seus trabalhadores como algo bem próximo de mão de obra escrava, pagando-lhes o salário mínimo ucraniano de 91 centavos de dólar por hora de trabalho?

MH: A União Europeia, de fato, nem tem interesse em admitir a Ucrânia como membro. Há uma Política Agrícola Comum [orig.Common Agricultural Policy (CAP)], subjacente à criação entre França e Alemanha, do Mercado Comum em 1957, que define o oeste da Ucrânia como rica terra ocidental; e aquela área ainda é, até hoje, área predominantemente rural. O que os investidores estrangeiros querem é comprar a Ucrânia e “refeudalizar” o país, criando grandes estabelecimentos comerciais rurais, grandes fazendas. Mas a UE dificilmente fornecerá os subsídios necessários para financiar a mecanização e investimentos em capital, para a agricultura na Europa Ocidental.

A União Europeia não precisa integrar formalmente a Ucrânia, para beneficiar-se do trabalho barato. Basta arruinar a economia ucraniana, como arruinaram a economia grega, da Irlanda, da Letônia, para que os trabalhadores ucranianos tenham de partir para o ocidente. E os trabalhadores de maior mobilidade são, tradicionalmente, a geração que está hoje na casa dos 20 anos, a mais bem formada que o país produziu, que fala vários idiomas e tem as competências que mais fazem falta no ocidente.

RT: O senhor escreveu que a Ucrânia “deve ter consultado os EUA”, para explodir aquele gasoduto. O senhor acha que a OTAN apoiará qualquer coisa, até o terrorismo, para tornar o gás russo menos “confiável”, sobretudo num momento em que as gigantes norte-americanas do fracking estão empenhadas em campanha gigante de propaganda & publicidade (“Relações Públicas”) na Europa?

MH: Os EUA pressionaram a Europa para que tornasse ainda mais custosa a economia europeia e dependente das exportações de gás dos EUA. O objetivo principal foi privar a Rússia de divisas. O que a OTAN pensa é, essencialmente, o que o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk tuitou na 2ª-feira, 16/6/2014: a Ucrânia “não continuará a subsidiar a Gazprom [ao ritmo de] US$5 bilhões/ano, para que a Rússia [com esse dinheiro] consiga armar-se outra vez contra nós”.

A posição dos EUA hoje é a mesma de 1991: sem manufatura a Rússia não pode ser potência militar séria capaz de se autodefender. E sem comprar tecnologia estrangeira e sem vastos subsídios estatais – como os governos de EUA e europeus asseguram às suas respectivas economias nacionais – a Rússia não conseguirá criar manufatura. Assim sendo, a OTAN está hoje dedicada a tentar impedir que a Rússia ganhe dinheiro suficiente para modernizar sua economia, sob o pressuposto de que

(1) qualquer potência industrial sempre é potencialmente potência militar; e de que
(2) qualquer potência militar pode ser usada para construir a própria independência política, que afastará qualquer país da esfera de influência dos EUA.

RT: Algo mais que o senhor queira acrescentar?

MH: O que está em questão é se as economias, em todo o mundo deixarão o poder da finança continuar a desmontar e minar o poder de governos eleitos e, portanto, a minar o poder da própria democracia. Governos são soberanos. Nenhum governo precisa, de fato, pagar sua “dívida externa” ou submeter-se a políticas que minam os três pilares que definem um estado: a capacidade para criar a própria moeda; para impor impostos e para declarar guerra.

O que está em disputa é quem manda no mundo: o 1% que existe como oligarquia financeira, ou os governos progressistas eleitos. Os conjuntos de objetivos de um lado e do outro são antitéticos: melhorar os padrões de vida da população e ampliar a independência nacional; ou render-se a uma economia rentista, à austeridade e a dependência.
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Nota dos tradutores
[1] 13/5/2014, Michael Hudson, The New Cold War’s Ukraine Gambit, cap. do livro Flashpoint in Ukraine (Stephen Lendman, Ed.).
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[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é professor e pesquisador de economia na Universidade de Missouri–Kansas City (UMKC) e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street;  presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e um membro-fundador da "Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo" (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE).

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Tirania financeira


*Adriano Benayon  - 14 de janeiro de 2013

Michael Hudson
Michael Hudson, professor da Universidade Misouri-Kansas, escreveu excelente artigo, O enganoso abismo fiscal dos EUA em 2012. A enganação diz respeito a que o déficit orçamentário não precisaria existir (mas existe) e às suas reais causas.

2. Ele está em US$ 14 trilhões, o equivalente a quase um PIB anual dos EUA e menos que seu governo gastou para salvar os bancos. Nouriel Roubini aponta que o recente acordo entre Obama e parlamentares do partido “republicano” prenuncia novo colapso, pois prevê reduções fiscais, e não há como abrir mão de receitas tendo que cobrir um déficit dessa magnitude.

3. Os economistas do sistema clamam que, para reduzir os déficits públicos, há que:

1) cortar despesas sociais, obrigando os trabalhadores a financiarem seus planos de saúde e aposentadorias;
2) fazer que o Estado deixe de investir nas infra-estruturas econômicas e sociais;
3) demitir servidores;
4) privatizar as propriedades e os serviços públicos.

4. O Brasil seguiu, mais de uma vez, esse caminho, o que intensificou os malefícios da desnacionalização, encetada em 1954, e causa primordial de o País estar muito atrás de países, antes, muito mais pobres. O serviço da dívida e as privatizações acabaram de inviabilizar o desenvolvimento, de modo irreversível até que sejam substituídas as atuais estruturas econômicas e políticas.

5. Europa - desprovida de soberania - pois o Banco Central não emite moeda para financiar os países membros, arruína-se através das políticas de “austeridade”, que agravam a depressão a pretexto de reduzir os déficits públicos gerados pelo colapso dos derivativos. 

6. Os EUA só não estão de todo afundados, por empregarem a força para obrigar produtores de petróleo a vendê-lo em dólares e por emitirem-nos à vontade para pagar importações e o serviço da dívida.

7. Os analistas não submissos mostram que os déficits não provêm das despesas sociais nem dos investimentos públicos nas infra-estruturas. Na verdade, os orçamentos do Estado foram onerados pelas operações de socorro aos grandes bancos, que ficaram em dificuldades quando os derivativos se revelaram títulos podres, após terem gerado lucros fantásticos para seus controladores.

8. Em suma, a oligarquia financeira, dona desses bancos e de outras indústrias dominantes, comanda, através de títeres políticos, os governos das “democracias”, bem como os formadores de opinião em cátedras e nos meios de comunicação.

9. Ela subordina a todos, por meio das políticas fiscal e monetária. Os 0,01% da oligarquia (incluindo executivos) são privilegiados por isenções fiscais e como credores, com o endividamento do Estado e de mais de 90% da população.

10. Por isso não admitem que os Tesouros nacionais emitam moeda para financiar o de que precisa a economia. Criou-se a mentira – aceita como verdade – que isso seria inflacionário. O sistema exige que o próprio o Estado, endividado por ter socorrido os bancos, dependa do crédito deles.

11. O cartel dos bancos, nos EUA, recebe dinheiro emitido pela Reserva “Federal” a juros de 0,25% aa, muito abaixo da taxa da inflação, e aplica em títulos especulativos e nos de países, como o Brasil e a Austrália, que se deixam tosquiar pagando juros elevados nos títulos públicos.

12. Como assinalei em artigo, No Limiar de 2013, não interessa à oligarquia acabar com a depressão, que dela se serve para quebrar o poder e a resistência de quantos pretendam equilibrar a sociedade e promover seu bem-estar.

13. O orçamento equilibrado é um dos instrumentos ideológicos para arranjar depressões. Falam da economia como se esta devesse ser gerida por quitandeiros ou políticos demagogos, na linha de Cícero (século I AC): “não gaste mais do que arrecada”.

14. Michael Hudson recorda que as depressões coincidiram com períodos de superávit orçamentário. Este precedeu e/ou acompanhou as seis depressões iniciadas em 1819, 1837, 1857, 1873, 1893 e 1929. A atual, iniciada em 2007, é efeito retardado dos superávits de Clinton (1998/2001), postergada em consequência das bolhas da internet e dos imóveis residenciais, com inusitada explosão do crédito.

15. Quanto mais obtém maior concentração de riqueza – reduzindo assim o poder relativo inclusive dos ricos fora do topo da pirâmide – mais a oligarquia se converte em tirania.

16. Discordo de Hudson quando conclui que isso é não é capitalismo, mas sim feudalismo. Na verdade, o capitalismo converte-se em algo pior que o feudalismo, porque nele não há limites à concentração.

17.Quanto ao Brasil, lembrou, há pouco, Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES: “Não estamos sequer reproduzindo a República Velha. Esta República atual praticamente universalizou a desnacionalização”.

18. Enquanto isso, o sugado povo brasileiro é distraído pelo “combate à corrupção”, como se essa não fosse sistêmica. Milhões indignaram-se com o mensalão e aplaudem o STF.

19. Entretanto, até hoje, dormem, engavetados nos tribunais superiores, os processos em foi provada a colossal roubalheira das privatizações (Vale Rio Doce, elétricas, telecomunicações, siderúrgicas, bancos estaduais), após terem esses tribunais cassado as liminares concedidas para sustá-las. Elas já completaram, impunes e consolidadas, quinze anos em média.

20. Mais tragicômico: os atuais “governantes”, além de nada terem feito para mudar a triste estrutura formada conforme o Consenso de Washington, usam o BNDES e a política fiscal para cevar ainda mais os concentradores, principalmente transnacionais, que desviam renda nacional, em quantias crescentes, para o exterior.

21. Isso é pouco para a mídia e demais alienados - antinacionais, desde antes do primeiro golpe contra Getúlio Vargas, 1945. Trabalham pela volta dos perpetradores do desastre em mega-doses. Mais: mesmo fora dos dois partidos ocupantes do Planalto nos últimos 18 anos, falta espaço, sob as instituições presentes, para lideranças capazes de oferecer alternativa real. 

*Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A guerra do capital contra a WikiLeaks

Poderá o fenômeno da fuga de informação sustentar o assalto contínuo feito pelo setor empresarial para triunfar na primeira ciber-guerra de sempre?

Por Mark LeVine, Al Jazira
Artigo | 12 Janeiro, 2011 - 16:30
  
Quando o banqueiro suíço nos atira ao mar, sabe-se que se fez alguns inimigos muito poderosos.

Afamado desde há muito por ocultar dinheiro para toda o mundo desde os nazis e barões da droga aos espiões e ditadores, o ramo bancário do governo suíço decidiu que a WikiLeaks e Julian Assange eram realmente demasiado quentes de pegar mesmo para ele.

Cyberwar
E, assim, o PostFinance, que dirige os bancos do país, declarou no início de Dezembro que tinha “terminado a sua relação comercial com o fundador da WikiLeaks, Julian Paul Assange” depois de acusar o Sr. Assange de – falta de ar! – fornecer informação falsa sobre o seu lugar de residência.

Esta jogada seguiu-se a jogadas semelhantes das companhias de cartões de crédito MasterCard e Visa, bem como da PayPal e da Amazon.com, de deixarem de processar pagamentos à WikiLeaks e, no caso da Amazon.com, de deixarem de alojar os seus dados.

No momento em que escrevo isto, o Bank of America juntou-se à onda crescente de corporações que fazem da WikiLeaks alvo, recusando continuar a processar-lhe pagamentos por causa "da crença razoável de que a WikiLeaks pode estar comprometida com actividades que são, entre outras coisas, inconsistentes com a nossa política interna de processamento de pagamentos".
E pouco depois a própria Apple se juntou ao coro, pondo um ponto final a uma aplicação WikiLeaks dias depois apenas de ter posta à venda no seu Sítio Web iTunes. Todos os sectores da economia corporativa, parece, estão a lançar-se na perseguição à WikiLeaks.

Concentrando-se no “neocorporativismo”

Os agentes da CIA, os patrões da máfia e outros clientes bancários suíços desse tipo, os quais foram provavelmente bem menos francos nas suas representações pessoais do que Assange alegadamente é, ter-se-iam também preocupado com a lealdade e a discrição dos seus banqueiros suíços?

Provavelmente não. É que os criminosos do mundo, os autocratas e os espiões fazem bem parte do sistema econômico político global, mesmo se às vezes estão em lados opostos.

Mas a WikiLeaks opera também fora do sistema, procurando ao estilo “Matrix” usar a tecnologia – a Internet – para o “destruir”, metendo o nariz e trazendo ao escrutínio público, expondo as conspirações constantes dos poderosos contra o resto da sociedade.

Esta tarefa, argumenta Assange, é a maneira mais importante de ajudar a libertar milhões de vítimas do sistema muitas vezes cúmplices – ainda que não propriamente de boa vontade – e, ao fazê-lo, “mudar ou anular... o comportamento do governo e dos neocorporativistas”.

Como teórico político, Assange deixa um pouco a desejar. O “Neocorporativismo” descreve um sistema no qual capital e trabalho se enredam numa relação integrada mas, ao fim e ao cabo, dependente dum aparelho de estado poderoso e autónomo – uma atualização da relação triangular que permitiu o crescimento econômico e os ganhos sem precedentes para a classe trabalhadora no Ocidente nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial.

Ideologicamente, esta espécie de relação de trabalho de proximidade entre governo, grandes empresas e trabalho organizado é a antítese do sistema neoliberal que a WikiLeaks procura combater.

Mas Assange tem razão em que há algo “neo”, se não exactamente novo, na maneira como o setor corporativo está se comportando hoje e na sua relação com o governo. Repousa em abraçar – ou melhor, voltar a abraçar – o capitalismo financeiro, o império militarista e o complexo industrial militar que o sustenta.

Alimentando-se ora de consumidores inconscientes no meio da América, ora de revoltosos suspeitos no Oriente Médio, estes são dois dos setores mais secretos da economia americana. Dependem de o público saber tão pouco quanto possível sobre os seus feitos mais esconsos para garantir a maior liberdade de ação, os maiores poder e lucros possíveis.

O poder do segredo

O abandono de Assange pelo sistema bancário suíço e pelos seus primos corporativos americanos não é portanto surpreendente. Poucos sectores econômicos usaram o segredo e a falta de clareza mais eficazmente do que a banca, os serviços financeiros e as empresas de cartões de crédito.

De fato, as suas práticas de negócios secretas são centrais para a sua capacidade constante de esgadanhar lucros enormes à custa dos americanos trabalhadores e de classe média através da monopolização dos sistemas comerciais, da cobrança de taxas de juros e comissões usurárias, e entregando-se a outras práticas que fariam corar até o mais insensível tubarão solitário.

Se a grande contratualização entre trabalhadores, capitalistas e governos permitiu que as duas primeiras gerações do pós-segunda-guerra-mundial saíssem do limbo diretamente para a classe média, este caminho foi irremediavelmente danificado nos anos 80, quando a direita neoliberal subiu ao poder pela primeira vez.

À medida que os Estados Unidos entraram na sua longa e dolorosa era de desindustrialização a política externa americana tornou-se mais agressivamente militarista; e assim juntar-se aos militares contra a GM ou a Ford tornou-se uma das poucas vias para garantir qualquer espécie do futuro económico estável (desde que se ficasse no exército).

Sem surpresa, os lucros do setor financeiro ultrapassaram os do setor industrial no início dos anos 90 e não caíram desde então. Mas esses lucros e o crescimento econômico que geraram confiaram desmesuradamente na dívida do governo e dos consumidores e num esvaziamento do sector industrial, o que no seu conjunto ajudou a tornar os EUA "o doente do globo", como disse um economista corporativo sénior.

Pelo seu lado, a GM, a Ford e a Chrysler focaram simultaneamente a maior parte das suas energias na produção de esponjas-de-combustíveis comparativamente lucrativas como os veículos todo-o-terreno, enquanto estabeleciam ramos de serviços financeiros que rapidamente ficaram responsáveis por uma parte substancial dos seus lucros (em alguns anos mais de 90 por cento dos lucros são conseguidos assim).

As suas práticas de empréstimo, vale a pena notar, incluem aquele tipo de empréstimos à habitação “mentirosos”, atribuídos com pouca preocupação quanto à capacidade dos tomadores de empréstimo de os pagar e que precipitaram a crise econômica global de 2007 até hoje.

Financeirização e história

Nenhuma dessas práticas teria resistido à luz do escrutínio público, e foi apenas a corporatização – em boa medida a financeirização – da política americana que permitiu que eles florescessem nos últimos trinta anos. Poucas empresas ameaçam tanto aquele segredo como a WikiLeaks e o seu foco tipo laser numa abertura, razão pela qual as suas ações são examinadas em Washington como “atingindo o próprio coração da economia global”.

A “financeirização” da economia representa a dominação crescente da economia no seu conjunto pelas indústrias financeiras, assumindo “o papel econômico, cultural e político dominante numa economia nacional”.

Crucialmente, este processo não é único nos Estados Unidos; também aconteceu a impérios anteriores, como os impérios dos Habsburgo, holandês e britânico, precisamente nas eras em que eles perderam a sua posição global dominante. Em todos os casos, o financeirismo e o militarismo andaram de mãos dadas, como apontou em primeiro lugar o famoso livro de 1902 do historiador britânico John Hobson “Imperialism: A Study”.

Nele Hobson argumentou que a monopolização do setor financeiro criou uma nova oligarquia que uniu os grandes bancos e as firmas industriais juntamente com os “promotores da guerra e especuladores” que encorajaram o imperialismo a garantir mercados para os produtos excedentes das corporações.

A elevação da América à dominação global veio depois do fim da era imperial e, portanto, não pôde conquistar descaradamente território para criar novos mercados. Mas no momento da sua elevação, os decisores políticos apelaram ao governo para que usasse elevadas despesas militares para garantir um crescimento econômico geral robusto.

Isto coincidiu com a expansão rápida do crédito facilmente obtível, criando dois “buracos negros gigantescos” (nas palavras dos economistas israelitas Shimshon Bichler e Jonathan Nitzan) cujo potencial de expansão foi limitado apenas pela disponibilidade dos cidadãos para apoiar a política que lhes deu aquelas oportunidades, apesar do dano a longo prazo ao bem-estar económico e político das suas sociedades.

Durante os trinta primeiros anos da era da Guerra Fria a propensão para o militarismo foi equilibrada por uma economia de fabricação robusta e pela relação tripartida governo-trabalho-empresas que a garantiu.

Isto começou a mudar nos anos 70 quando a guerra enormemente cara e lucrativa do Vietnã começou a abrandar.

Como Nitzan e Bichler descrevem no seu livro extremamente importante “The Global Political Economy of Israel”, começou neste período a “haver uma convergência crescente de interesses entre as principais corporações do petróleo e de armamento do mundo. O politização do petróleo, a par da comercialização das exportações de armas, ajudou a formar uma difícil coligação armamentodólar-petrodólar entre estas companhias”.

O mais crucial na análise de Nitzan e Bichler é que uma das formas mais importantes para as indústrias do armamento e do petróleo conseguirem ganhar um desproporcional nível de lucros (“diferencial” como eles o descrevem) foi através da erupção regular de conflitos energéticos no Médio Oriente, que asseguraram tanto preços altos relativos de petróleo como compra de armas.

McDonald's e McDonnell Douglas

À medida que este processo se desenvolveu, os autores explicam que “as linhas que separam o estado do capital, a política externa da estratégia corporativa e a conquista territorial do lucro diferencial, já não parecem muito sólidas”.

O colunista do New York Times Thomas Friedman, diz de forma mais colorida: “a mão oculta do mercado nunca funcionará sem o punho oculto. A McDonald's não pode florescer sem McDonnell Douglas – e o punho oculto que mantém o mundo seguro para as tecnologias de Silicon Valley florescerem chama-se Exército, Força Aérea, Marinha, e Corpo de Marines dos Estados Unidos”.

Isto é o “neocorporativismo” em que Assange e os seus camaradas da WikiLeaks se concentraram, embora hoje, mais de uma década depois de Friedman ter escrito as palavras acima mencionadas, o Master Card seja mais relevante do que a McDonald's.

O problema é que a WikiLeaks não pode, sozinha, virar o jogo neste conflito.

Assange bem poderia ser “um terrorista de alta tecnologia”, como o Vice-Presidente dos Estados Unidos Joseph Biden recentemente lhe chamou, dado o terror com que as suas ações atingiram o coração do sistema político americano.

Mas os EUA são, no fim de contas, um só num grupo de países e corporações poderosos cujos líderes partilham um compromisso fundamental em garantir para eles mesmos tanto lucro e poder quanto possível, por muito que os seus métodos e a política se diferenciem.

De fato, um olhar sóbrio sobre os dados relevantes revela que a quota dos lucros dos setores financeiros fora dos EUA foi quase sempre significativamente mais alta do que nos EUA, o que significa que o resto do mundo está há muito tempo mais “financeirizado” do que a economia dos Estados Unidos.

Como sempre, o capitalismo e poder nunca estiveram tão convenientemente centrados num país ou região como as pessoas imaginam.

Para ter realmente impacto, a WikiLeaks tem de inspirar uma geração inteira de pessoas que produzam fugas de informação noutros países e culturas, que estejam igualmente dispostos a arriscar a sua liberdade, tal como Assange e outra gente por trás da WikiLeaks. A cultura das fugas de informação começou a ganhar raízes, contudo só o tempo dirá se resiste às forças que agem contra o seu desenvolvimento.

Se tal não acontecer – se os seus inimigos corporativos e políticos conseguirem fazer de Assange e dos seus camaradas um exemplo que assuste os que poderiam ser inspirados por ele – o Capital ganhará provavelmente a primeira “ciber-guerra” do mundo, da mesma forma que ganhou a maior parte das guerras antes dela durante a história longa, sangrenta e inimaginavelmente lucrativa da modernidade.

Mark Levine é músico profissional e professor de História do Médio Oriente na Universidade da Califórnia, Irvine. É autor de meia dúzia de livros, incluindo “Heavy Metal Islam: Rock, Religion and the Struggle for the Soul of Islam” (no prelo, Random House/Verso, CD análogo a ser lançado por MI Records).
As visões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a política editorial da Al Jazira.
Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

Extraído do Esquerda.net