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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Grécia: Tsipras joga bem e bonito


9/6/2015, [*] Jean-Luc Mélenchon, Blog de Jean-Luc Mélenchon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
“Surpreende é que não estejais morto – com tantos medicamentos que vos fizeram tomar!”
(MOLIÈRE, O Doente Imaginário, ato III, cena III). [1]
 
Alexis Tsipras, atual PM da Grécia
Magnífica semana europeia. Tsipras joga bem e bonito. Os mata-mouros da União Europeia e os caras-de-pau da Troika acabaram presos na própria armadilha. Lá estão eles outra vez, à vista de todos, a triturar a patadas os absurdos tratados europeus e reunidos, alguns deles, com o Banco Central Europeu! Mas não há quem não saiba que essa concertação é formalmente proibida pelos tratados. Caíram na rede. A crise que eles mesmos provocaram com sua intransigência já ameaça explodir na cara deles!
De um lado recusam-se a afrouxar suas exigências bárbaras. Porque é isso o que são. Aumentar em 23% o imposto sobre valor agregado num país onde o consumo está em queda vertiginosa, de pobreza em massa, é exigência bárbara. Aumentar a idade mínima para a aposentadoria e o acesso às pensões complementares, num país onde praticamente todos os aposentados são arrimos de família, é exigência bárbara. E por aí vai.
São essas as violências bárbaras que a “Europa protetora” quer infligir aos gregos, além de todos os sofrimentos pelos quais estão passando! Mas Tsipras recusa-se a ceder. E então? De que lado está a dissuasão nuclear? Ah! Pois é! Está do lado de Tsipras, é claro.
Porque a União Europeia não tem os meios necessários para ejetar a Grécia para fora da Eurozona!
A bancarrota que resultaria dessa expulsão, obrigaria a acionar imediatamente os instrumentos do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).
O truque foi votado durante a presidencial de 2012 pelo PS e pela UMP no auge do debate social sobre a carne hallal (agradecimentos ao canal France 2, que realmente conseguiu operar o apagamento magistral de tudo que mais urgentemente interessava discutir!).
De qualquer modo, seria ruinoso para quem, façam-me o favor? Sim, seria ruinoso para quem? É de morrer de rir. E, de quebra, a moeda europeia seria totalmente abalada, a ponto de ameaçar o equilíbrio de toda a Eurozona. E a isso se acrescentaria uma gigantesca onda de choque sobre o mercado mundial. Quem ficaria arruinado? Claro que não seria a Grécia: a Grécia já está arruinada!
Aqui se comprova a hipótese que não me canso de relembrar a todos: na relação de força entre credor e devedor, a fraqueza do credor aumenta conforme aumente o montante do que lhe seja devido. Obama está começando a dar-se conta disso.
Barack Obama e Christine Lagarde
Obama pede aos europeus que não ajam levianamente, que não aumentem a volatilidade do mercado financeiro. É urgente, caro Barack, passar suas ordens ao FMI e a Mme. Lagarde. Voltarei a esse assunto.
Por enquanto, como já disse aqui, ao final, o povo grego continua mobilizado, porque seu governo não o traiu. Ao contrário, o campo adversário fragmenta-se e cada grupo tem ideias próprias sobre o que fazer. É preciso incorporar a evidência de que os durões nunca formaram frente homogênea, nem podem formá-la, porque os interesses particulares são diversos e divergentes, e ali não há avaliações, sem controvérsias entre eles mesmos. Se eles mesmos cedessem, um pouco cada um, a linha dura poderia facilmente se impor. Quando tudo funcionava, todos estavam de acordo. Mas depois, quando a coisa deixou de funcionar... passou a ser cada um por si, e abriu-se a discussão lá entre eles mesmos.
O problema hoje é inteiramente político. Exclusivamente político. No plano técnico não há qualquer dificuldade para cancelar a dívida grega por meios contábeis legais. Por exemplo: distribuir a dívida grega por 100 anos! A 1% de inflação por ano, é pagável. Em relação às datas de pagamento, a coisa pode ser ainda mais facilitada. Durante esse tempo, os títulos permanecem inscritos no orçamento com o valor de face, e tudo permanece em ordem, porque ninguém perde coisa alguma. Sobretudo, porque 80% da dívida grega estaria em mãos de organismos públicos. É apenas um exemplo, só isso.
Mas ajuda a mostrar que a questão não é, de modo algum, técnica. A questão é política. Se se faz o que se faz com a Grécia, por que não se faria com outros? Dito de outro modo: todo o sistema do ordoliberalismo está afundando. Os tratados orçamentários viraram letra morta, o bla-bla-blá austeritário cai de podre. E por aí vai.
A meu ver, o mais impressionante é a crescente incoerência no campo dos credores. O FMI conduz o baile dos abutres. Não esqueçamos que foi Mme. Merkel quem pediu e obteve que o FMI fosse integrado à Troika onde, normalmente, nada tem a fazer. Como parte da confusão crescente, o FMI está em processo de superdistensão. Os últimos dias confirmaram o que escrevi na nota anterior, sobre o papel do FMI no caso grego. Com a Alemanha de Mme Merkel, o FMI de Christine Lagarde é o principal obstáculo a um honesto acordo entre o governo grego e seus credores. Agora que os credores terminaram por entrar num acordo entre eles mesmos, na 3ª-feira passada (9/6/2015), o FMI ameaçou unilateralmente não assumir sua parte de responsabilidade no caso de acordo com o governo grego. Ameaçou não depositar sua parte da ajuda! Mais um endurecimento na intransigência geral.
Primeira intransigência: recusarem-se a renegociar a dívida grega. Leitores desse blog chamaram-me a atenção para o fato de que o FMI se disse, há alguns meses, favorável a uma reestruturação da dívida grega. É verdade. Mas isso não deve enganar ninguém. Primeiro, porque o FMI como os outros credores, recusa-se categoricamente a abrir a discussão sobre a restruturação, ante o fracasso do programa atual. É promessa só para quem acredite em FMI. Nesse domínio, a experiência é muito instrutiva. Os credores já fizeram promessas desse tipo, que não cumpriram. Juraram, por exemplo que se a Grécia equilibrasse seu orçamento a ponto de extrair excedente antes do pagamento anual da dívida (chama-se “excedente primário”), eles aceitariam renegociá-la. O Ministro de direita, Sâmaras, fez o que o mandaram fazer. Nem por isso houve qualquer renegociação de dívida alguma.
Antonis Samaras, ex-Primeiro Ministro da Grécia
Em segundo lugar, o FMI evocou muito vagamente a possibilidade de uma extensão na duração da dívida. Mas nunca, é claro, falou de anulação, é claro. Mas tampouco falou, sobretudo, da única medida reformista razoável: uma indexação dos desembolsos sobre o crescimento, como exige o governo grego.
A provocação, nessa história, é que o FMI considera reestruturar a dívida do Banco Central Europeu e dos estados europeus! Mas não a dívida que de que o próprio FMI é proprietário! Cada um por si! Faça o que eu digo, não faça o que eu faço! Ora, desde a eleição, em janeiro passado, a esmagadora maioria dos pagamentos que o governo Tsipras fez foram pagamentos ao FMI. Quase 3 bilhões de euros. E esse mês de junho a Grécia tem a pagar mais 1,6 bilhões de euros. Ora, a Grécia não pode pagar essa quantia imensa de dinheiro. Não bastará renegociar o próximos pagamentos ao Banco Central Europeu: é preciso que o FMI aceite a reestruturação imediata da dívida grega. Pois o mais recente episódio indica o contrário. O FMI acabou por aceitar que a Grécia reagrupasse seus quatro pagamentos devidos em junho em um só pagamento, no final do mês. Seja como for, já é uma micro-reestruturação. Mas Mme. Lagarde fingiu que não era com ela: foi posta diante de um fato consumado, pela criatividade do governo grego.
A verdade é que Tsipras e seus ministros encontraram e exploraram uma frase do regulamento do FMI que prevê precisamente essa ação. Mas li que Mme. Lagarde só soube do que os gregos haviam solicitado, e que a concessão, naqueles termos era automática, uns poucos minutos antes de os dirigentes do FMI serem obrigados a agir. A página boursorama.fr noticiou:
Na manhã da 5ª-feira (4/6/2015), a diretora geral do FMI Christine Lagarde afirmava não ser “informada desse tipo de coisa” (...) apenas alguns minutos depois de o Fundo já ter recebido o pedido dos gregos. O FMI foi obrigado a informar que aquele tipo de requerimento não precisa ser aprovado. A verdade é que o estatuto do FMI diz bem claramente que o país requerente só é obrigado a “informar” ao FMI.
A segunda intransigência do FMI tem a ver com exigir mais uma redução nas aposentadorias e pensões. Mme. Lagarde só faz repetir que seria “indispensável” uma nova reforma nas aposentadorias, incluindo reduções nas pensões e mais um aumento na idade mínima para aposentadoria. (...)
Pelo canal France 2, o jornalista François Beaudonnet chegou a dizer no noticiário das 20h do dia 3/6/2015, que:
(...) o FMI é intratável. E continuou: Há relatos de que a cada abertura de nova reunião com a Grécia, o FMI diz: “Então, sobre aquela reforma das aposentadoria...” – como provocação.
Diz-se mesmo que o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Junker estaria disposto a desistir da redução nas aposentadorias. Mas o FMI impõe a linha mais dura, impedindo qualquer discussão construtiva. Le Monde do dia 4/6/2015, escreveu que:
(...) a instituição internacional contribuiu para bloquear as negociações de uma lista de reformas, sempre contra empréstimos suplementares a Atenas. Ainda no fim-de-semana passado, exigia uma reforma das aposentadorias, com novas reduções no nível das pensões.
O quê?! As negociações foram bloqueadas pelo FMI?! Nesse caso... por que acusar incessantemente o governo grego?!
Angela Merkel, Chanceler da Alemanha
Tsipras e os gregos não podem aceitar qualquer nova redução nas aposentadorias. O jornalista de Latribune.fr, Romaric Godin, demonstrou muito bem por quê, num de seus artigos recentes. Há razões econômicas e sociais evidentemente, e razões políticas. Os aposentados gregos já foram sacrificados em sucessivas reduções. Agora, com o desemprego massivo, sobretudo entre os jovens, os aposentados tornaram-se apoio financeiro indispensável à vida diária de grande parte das famílias gregas. Cortar nas aposentadorias seria agredir novamente toda a sociedade grega!
Politicamente, Tsipras sempre combateu as medidas de arrocho em geral e, especificamente, as reduções nas aposentadorias. Até o governo anterior, de direita, recusou cortar aposentadorias. O que o FMI exige hoje é o que não conseguiu obter do governo da direita! Aceitar esses cortes seria suicídio econômico para a Grécia e retrocesso suicidário, para Tsipras.
O FMI sabe disso tudo. Mas insiste. Por sadismo? Por dogmatismo ideológico? Ou por pânico? De fato, o FMI tem todos os motivos para se manter discreto e de cabeça baixa. A Grécia seria mais um novo fiasco para esses doutores Diafoirus do FMI [1].
E por acaso o remédio do FMI, a “austeridade” (mas de fato é ARROCHO), pôs em pé o doente? Era a fórmula de Strauss-Kahn! E só fez agravar a crise, explodir o desemprego, a miséria e também a dívida! Fracasso total! Os próprios economistas do FMI tiveram de reconhecer, desconsolados, o fracasso. Tiveram de confessar que subestimaram o impacto negativo das medidas de “austeridade” (é ARROCHO) sobre a economia.
Vale dizer que ninguém precisaria de olhos de lince para ver. A história dos anos 1930 na Europa, e mais recentemente na América Latina, demonstram contundentemente a nulidades dessas teorias econômicas. Principalmente a América Latina. O efeito dessas imbecilidades “austeras” já estava escrito desde o começo.
Mas o FMI não recua. Assume seu papel de guardião das exigências da finança e dos defensores do ordoliberalismo. Esse papel foi confiado ao FMI por Angela Merkel, no início da crise grega. Em 2010, foi Merkel que impôs que outros países europeus recorressem ao FMI. Consta que Nicolas Sarkozy, então Presidente da França, e Jean-Claude Junker, então Presidente do Eurogrupo, eram contra. Mas acabaram por ceder à Merkel.
Por que Merkel tanto precisava da presença do FMI? Para começar, com certeza para integrar os EUA à discussão. Porque dentro do FMI, os EUA – e só os EUA – têm poder de veto. E ninguém precisa de novas evidências para saber que o alinhamento de Merkel aos EUA é total. Os escândalos de espionagem da França, por serviços secretos alemães, a serviço dos serviços de inteligência dos EUA talvez tenham desviado a atenção de alguns poucos olhos.
O bloqueio em curso é, de certo modo, a aplicação estendida para um pouco além, do ordoliberalismo alemão: povos e políticas não se metem em questões de economia. O FMI, pelo próprio estatuto, escapa a qualquer influência do voto popular democrático. O FMI, pois, é o aliado perfeito. Foi o que Le Monde escreveu claramente:
O FMI é regularmente criticado em Bruxelas por sua abordagem julgada insuficientemente política e pouco adaptada à realidade da Grécia. A Comissão Europeia também não engoliu, mais recentemente, o fato de que o FMI, ao final de 2014, já contribuíra para emperrar as negociações em curso entre [o então primeiro-ministro, de direita] Samaras e os credores do país, com vistas ao segundo plano de ajuda à Grécia. De fato, se algum acordo tivesse sido construído naquele momento, o psicodrama que vivemos ao longo de toda primavera não teria acontecido.
Em 2010, o arrogante Ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble era contra, parece, a intrusão do FMI. Preferia que o governo alemão, só ele, tivesse a última palavra. Mas a experiência o fez mudar de ideia. Recentemente, elogiou o golpe de mestre de sua patroa, Merkel. Aconteceu em sua recente e espantosa entrevista a Echos. Disse ele:
Minha opinião era que os europeus podiam acertar-se entre eles. A Chanceler tinha outra opinião. No final, os fatos deram razão a ela.
Wolfgang Schäuble, Ministro das Finanças da Alemanha
O FMI atendeu as esperanças até desse ultradireitista! Dado que não há acordo sobre o fim do programa, não se discute a reestruturação da dívida grega. Nessa etapa, o FMI foi o melhor aliado de Schäuble. Não resta dúvida de que, se se tratasse de discutir uma reestruturação da dívida grega como é indispensável que aconteça, Schäuble voltaria à sua posição anterior. Então, ele preparou o terreno, sabendo que Christine Lagarde, quando foi Ministra da França, também era contra a intervenção do FMI. Caso o FMI abandone a linha dura de Berlim... a Alemanha de Merkel e Schäuble retomam a direção dos acontecimentos.
NOTÍCIA DE ATUALIZAÇÃO: 11/6/2015, “FMI deixa a mesa de discussão da dívida grega”, Latribune.fr, Romaric Godin
Alguém pode entender que dou demasiada importância a fatos simples. Pois ouçam essa.
Depois de muitos meses, por iniciativa da Argentina, foi constituída uma comissão técnica da ONU para preparar propostas com vistas a uma lei internacional sobre “falências legítimas” de estados. Finalmente! Mas... Quem se opõe? Onze países da União Europeia, entre os quais França e Alemanha! Ah, como são valentes, bravos homens e mulheres! E não é só isso.
A comissão em questão já começou a discutir oficialmente a atitude de desprezo da UE, que se mantém à distância de toda e qualquer discussão ou concertação sobre a questão das dívidas soberanas na Europa! Adiante, a mesma UE gargarejará sobre a globalização infelizmente “inescapável” e bla-bla-blá para enganar os ingênuos!
A globalização nada tem de novidade na história humana! A novidade é a globalização financeira e seus cães de guarda, que impedem que eleitores e política aproximem-se deles, para pôr ordem naquele galinheiro!
Concluo com um ponto de memória ativa e política. Mme. Lagarde mostrou-se bem menos exigente com os bancos, que com a Grécia. Em 2010, quando era Ministra das Finanças da França, ela não hesitou ao desbloquear dezenas de bilhões de euros de fundos públicos para reinflar bancos atingidos pela crise das hipotecas podres. Mme. Lagarde também se mostrou muito fácil e conciliadora com os bancos quando, em 2010 e 2011, os estados europeus, o FMI e o Banco Central Europeu recompraram títulos de dívidas públicas gregas.
Toda a crise de hoje advém daí. Se a Grécia parar de pagar o que deve, aqueles estados, o FMI e o Banco Central Europeu perdem seus créditos. Mas não acontecerá por culpa de Tsipras. Acontecerá por culpa de Lagarde, Merkel, Sarkozy e os demais que decidiram socializar as dívidas privadas dos bancos, em vez de deixar que os acionistas privados arcassem com o custo de “riscos” que eles mesmos assumiram.
Se a Grécia fosse um BANCO... Ela já estaria SALVA
Essa é a lógica sobre a qual o Partido de Esquerda [orig. Parti de Gauche] construiu a nova campanha de cartazes que está na rua, com o slogan “Se a Grécia fosse um banco, já estaria salva!”. Mme. Lagarde teria dado à Grécia toda a sua atenção, desde o primeiro instante. Porque ela nada fez, a conta é descomunal.
O que nós, os “sonhadores”, os “irresponsáveis” sempre anunciamos que aconteceria aconteceu aí, diante dos olhos de todos. Até do ponto de vista capitalistas, as soluções daquela gente são absurdas e temerárias. Isso tudo acabará como já é evidente: ninguém pagará a dívida!
Como acertar essa situação inescapável: pela crise aberta, ou por soluções que propomos desde o começo? Nesse ponto da situação, poderíamos ganhar em todos os quadrantes. Quem chorará a morte da União Europeia que há hoje, se ela for para o inferno? Não há quem faça beber o burro, se o burro não está com sede.
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Nota dos tradutores
[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores, por inspiração de Mélenchon, que adiante fala do “novo fiasco para os doutores Diafoirus (um dos médicos dessa peça de Molière) do FMI”. Doutor Diafoirus é um dos tresloucados médicos de O doente imaginário de Molière.
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[*] Jean-Luc Mélenchon − nasceu em 19 de agosto de 1951 (63 anos) − é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França, Front de Gauche, e co-presidente do Partido de Esquerda. Foi senador na França com mandatos nos períodos de 1986–1995 e 2004–2010.

domingo, 10 de maio de 2015

Novo livro de Jean-Luc Mélenchon e o Arenque de Bismark

7/5/2015, Editora Plon; Paris
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Comentários sobre o livro O Arenque de Bismark (O veneno alemão)

Primeiro, sobre o tal “Arenque de Bismarck”:


Arenque de Bismarck para François Hollande
17/4/2014, Brice Gruet, Géographies imaginaires/ Insolite (Comentário)

Na foto acima, François Hollande exibe sua barriquinha de arenques, visivelmente felicíssimo, ao lado de Angela Merkel (Foto Bundesregierung/ Bergmann).

Le Canard enchaîné dessa semana chamou atenção para uma incongruência cultural, em relação à qual se pode perguntar até que ponto foi desejada ou não... Conjecturas, essas, podem ir bem longe.

O que se sabe com certeza é que Angela Merkel recebeu em suas propriedades do Báltico, para uma visita “privada”, o presidente François Hollande. E a chanceler ofereceu uma barriquinha de arenques à Bismarck ao presidente da França. Hollande achou “maravilhoso” o presente.

Sem dúvida, o arenque bem preparado é ótimo, e o Báltico é farto desses peixes que são, em seguida, marinados em salmoura. O arenque foi produto importante durante todo o período medieval, notadamente nas Repúblicas Hanseáticas do norte da Europa. Durante a quaresma, e nos dias de jejum da cristandade, o consumo de arenque sempre foi considerável. Como o bacalhau nos países mais ao sul. Como se aprende de La Voix de la Russie, “a preparação tradicional alemã ‘arenques à Bismarck’ (em alemão Bismarckhering) parece ser a mais conhecida. O peixe é preparado em pequenos pedaços e marinado em sal, vinagre, cebola, grãos de mostarda e louro. Às vezes acrescenta-se cenoura cortada em cubinhos bem pequenos.

“Se o arenque fosse caro como caviar, o mundo inteiro preferiria o arenque” – dizia Bismarck, louco por arenque. Uma das versões reza que um vendedor de peixes de Stralsund, Johann Wihman, enviou em 1871 a Bismarck uma barriquinha de arenque especialmente preparado, e que o chanceler tanto apreciou, que autorizou que a preparação levasse seu nome, “arenque à Bismarck”. Segundo outras versões, um proprietário de restaurante de Flensburg foi quem enviou os arenques a Bismarck. Seja que tenha sido, a glória do arenque atravessou fronteiras nacionais. O autor de um livro de gastronomia publicado pela primeira vez em New York em 1913 escreveu: “provavelmente a glória de Bismarck estará já esquecida há mil anos, mas o arenque à Bismarck será servido até que esse peixe desapareça dos mares”.

Agora, em 2014, a Merkel oferece uma barriquinha de arenques à Bismarck a Hollande... Que sentido terá esse gesto que remete a episódios tão sombrios da história da França? Bismarck para os franceses está mais associado ao imperialismo e ao pangermanismo alemão, aos quais a Alsace Lorraine pagou alto preço. Ao mesmo tempo, todos os homens importantes (Bismarck é um desses) deixaram marcas na gastronomia de seu tempo. Se Hollande aceitou o presente foi, talvez, porque aquela época de guerras está suficientemente distante para que a carga negativa do personagem já esteja atenuada. Sobre a França, os alemães dizem Glücklich wie Gott im Frankreich, “Feliz como Deus na França”. Existe uma geopolítica culinária” (Geographica). (Da qual o sorrisinho zombeteiro da chanceler alemã naquela foto, parece fazer prova [NTs]).




Ontem, 5ª-feira, 7 de maio de 2015, a editora Plon lançou o novo livro de Jean-Luc Mélenchon, intitulado Le Hareng de Bismarck (Le Poison allemand) [O arenque de Bismarck (O veneno alemão)]. Eis o que o autor escreveu na quarta-da-capa:

Esse livro é um panfleto. Assumo para mim o direito de criticar a Alemanha. Por que não? Não viram como a Alemanha tratou a Grécia? Aperitivo para o que fará com a França? Nesse livro denuncio o grave perigo em que a Alemanha converteu-se para seus vizinhos e parceiros. Denuncio a arrogância dos banqueiros alemães e o dito “modelo” que a Alemanha quer impor à Europa para vantagem exclusiva da própria Alemanha. Mostro o quanto de atraso para nossa civilização implicará nos rendermos ao “modelo” alemão. É um alerta. Além-Reno nasceu um monstro: filho da finança completamente desregulada e de um país dedicado integralmente à finança, necrosado pelo envelhecimento acelerado da população. Essa aliança macabra está em campo, para remodelar a Europa à feição dela.

É fato que a Europa vai mal. O veneno alemão é o ópio dos ricos. Mudar nossa vida e fazer a Alemanha mudar é uma e a mesma coisa. Para Jean-Luc Mélanchon, da Frente de Esquerda (Front de Gauche), É preciso fazê-lo, antes que seja tarde demais

Atualização: Entrevista Jean Luc Mélenchon a Emmanuel Berretta do Le Point

Jean-Luc Mélenchon
Para a revista Le Point, o livro é mesmo um panfleto: “O líder da Frente de Esquerda ataca o modelo alemão, em livro que, simbolicamente, será lançado dia 7 de maio”. [1] Aqui, Mélenchon responde perguntas da revista Le Point, sobre seu livro.

Le Point: Em política é preciso ter sempre um inimigo. Nesse panfleto “O arenque de Bismark”, o senhor designa o seu novo inimigo: os alemães. Por que a mudança? Por que os alemães, não mais os EUA?

Jean-Luc Mélenchon: Calma lá! Devagar com o andor... Nada disso. Meu estado de espírito não é esse. Não me oponho a algum ‘genoma’ alemão que os empurraria a sempre querer dominar. Quanto a inimigos, tenho inúmeros! O que não me falta é inimigo. Meus inimigos são os mesmos de antes: a finança e o produtivismo. A questão é que a Alemanha tornou-se a ‘vanguarda’ da finança e do produtivismo! Para começar, não apenas a Europa não é mais o grande projeto social com o qual sonhávamos: a Europa já não é sequer garantia de paz. 


Isso, porque, no concerto das nações, uma delas, a Alemanha, toma a frente dos demais e impõe um modelo econômico, o ordoliberalismo.

O ordoliberalismo serve aos interesses da Alemanha, mas conduz inelutavelmente à catástrofe. Meu livro é um grito de alerta. A Europa vai afogar-se na violência dentro de cada país e também entre os países. O suplício da Grécia está aí, como prova.

Le Point: E o que é o ordoliberalismo?

Jean-Luc Mélenchon: Os alemães inventaram essa velha teoria. Segundo ela, a política é frivolidade, e a economia é sagrada. São consagradas portanto, como intocáveis, as regras econômicas; são consideradas como leis da natureza. Assim sendo, as leis econômicas são postas fora do alcance das decisões políticas. Na realidade, é uma espécie de embalagem para um egoísmo bem preciso de classe média. Mme Merkel governa um país que está em pane demográfica. A maioria dos eleitores dela são aposentados! A aposentadoria por capitalização, dos idosos alemães, exige a cada dia mais dividendos. Quer dizer: menos salários e menos investimentos. Reina a finança! A finança domina o capitalismo alemão, graças à desregulação total organizada pelo Partido Socialista alemão: é desregulação plena, total, o cúmulo.

Le Point: Daí a regra de ouro dos déficits?

Jean-Luc Mélenchon: De manter os níveis determinados para os déficits, sim, é isso. Mas além disso, o dinheiro é fetichizado, a inflação e a dívida são demonizadas. É uma visão dogmática muito enviesada. Os líderes alemães a assumem sem se darem conta do que estão fazendo. Por isso aquele odioso ministro alemão da Economia, M. Schäuble, declara que “a França gostaria muito de que alguém mandasse no Parlamento...” e, na sequência, lastima: “mas não será possível. É a democracia”.

Essa frase é como um manifesto do ordoliberalismo: a democracia é um problema para eles, porque a democracia permite que o político desminta e renegue o dogma econômico. A França, sua história, a cultura francesa são o contrário do ordoliberalismo: todas as nossas constituições republicanas “intrometem-se” na economia. Por que a França deveria renunciar ao nosso modelo?

Aos meus olhos, o modelo francês é superior ao modelo alemão, no que tenha a ver com organizar a vida humana em sociedade. O ordoliberalismo é antirrepublicano. Ele destrói os laços sociais e a vida cívica.

Le Point: Pierre Moscovici diz que o senhor comete um contrassenso. Para ele, Schäuble não falava a sério, era brincadeira...

Jean-Luc Mélenchon: O servilismo de Pierre Moscovici dá vergonha.

Le Point: Desculpe, mas os alemães não nos impõem coisa nenhuma. Já há nove anos nós respeitamos a regra dos 3% de déficit. Quer dizer: os franceses damos alegremente as costas ao ordoliberalismo.

Jean-Luc Mélenchon: É incrível isso que você está dizendo. Quer dizer que tratados inaplicáveis deveriam ser considerados santificados? Tratados são assuntos humanos. É preciso discutir o conteúdo dos tratados em relação aos resultados deles. A Europa estamos nadando em felicidade? Não, não estamos. O desemprego e a miséria martirizam massas humanas consideráveis. Por todos os lados a extrema direita está em ascensão. E a Alemanha acumula os excedentes comerciais. E o que faz com eles? Ela põe os excedentes nos mercados financeiros, porque a Alemanha sufocou, em toda a Europa, a atividade econômica. Ao fazê-lo, a Alemanha alimenta ela mesma a bolha financeira que logo, logo, explodirá. Aí está: bom-dia, modelão.

Le Point: Passa pela sua cabeça realmente que François Hollande possa vender aos alemães o modelo francês?

Jean-Luc Mélenchon: Não. François Hollande mudou de lado. Ele governa para o ordoliberalismo. Os franceses não sabiam que, votando em Hollande estavam elegendo Merkel. Ele até já confessou: “A França quer ser o melhor aluno na sala de aula europeia”. Para mim, a França não é aluna de ninguém e muito pode ensinar a outros. E, em vários assuntos, melhor que seja a mestra.

Le Point: Quem lê o que o senhor escreveu, deduz que os alemães reivindicam uma reputação de seriedade a que não fazem jus.

Jean-Luc Mélenchon: Os franceses adoram modas, ondas sucessivas de “modelos”. Já tivemos a moda dos “dragões asiáticos”, depois dos “tigres europeus”, como Irlanda ou Espanha. Todos tigres de papel, isso sim, que naufragaram na explosão da bolha financeira em 2008. E agora aí está o “modelo alemão”, eficaz, disciplinado. Que ilusão!

A economia alemã está dilapidada. Infraestrutura e equipamentos públicos em ruínas, 12 milhões de pobres, cada vez menos crianças, jovens que se mudam do país, velhos que ficam para trás e expectativa de vida cada dia menor, quem quer ser alemão? Meu livro retoma o debate europeu.

O que se anunciava é que faríamos a Europa, sem desfazer a França. O que se vê hoje é que se desfaz a França, sem fazer a Europa dos seres humanos. A Alemanha nos domina, nos corrige, nos separa de nossas bases mediterrâneas. O que resta? Só um grande mercado que nega nosso modelo colbertista, que é nosso patrimônio. Na França, o empresário vive à frente do pelotão posto ali pelo Estado. Quando se tentam as fusões, é o estado que toma as rédeas do processo. E hoje temos 50% do mercado mundial. Não há uma única medida europeia bem sucedida que, na origem, não seja francesa. Nenhuma. A Alemanha nos faz afundar.

Le Point: O senhor dá a impressão que a França nada mais tem a fazer com a Alemanha...

Jean-Luc Mélenchon: Não, não digo isso, nem nesses termos. Seja como for, a Alemanha está aí. Mas não podemos aceitar que nos domine. Meu livro mostra os abusos de poder. E a mania de impor aos demais o que a Alemanha ache bom para ela. A saída razoável não é entrar em luta, mas pôr a Alemanha no lugar dela. E fazer ouvir, sem complexos, nossa mensagem francesa universalista.

O aposentado alemão não é o único do mundo; e é preciso levar em conta a sorte dos jovens franceses, dos jovens de todo o planeta. A Europa é a primeira potência econômica do mundo. Isso nos impõe responsabilidades. O ordoliberalismo alemão não permite que assumamos as nossas responsabilidades. Nenhuma delas.
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Nota dos tradutores

[1] Dia 7 de maio de 1945 o exército alemão assinou a rendição militar. Dia seguinte, na noite de 8 para 9 de maio de 1945, à 0h16 na Rússia (23h16 no ocidente), na vila de Karlshorst, quartel-general do marechal Georgi Joukov, nos arredores de Berlim, onde é hoje o museu germano-russo Berlin-Karlshorst, foi assinada a rendição incondicional do 3º Reich às forças aliadas). O ato de capitulação entrou em vigor às 23h1, hora local (na Europa Central), dia 9 de maio, 1h1, hora de Moscou. Por essa razão, toda a Europa Oriental comemora o fim da guerra no dia 9/5